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O País – A verdade como notícia

A terceira edição do Festival de Teatro Cenas Curtas vai realiza-se nos dias 26, 27 e 28 deste mês de Abril. Logo no dia inaugural, o evento vai decorrer na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, a partir das 18 horas, numa conversa com o gestor de projectos culturais Pablo Ribeiro e com os actores Yuck Miranda, Maria Clotilde e Rita Couto.

Subordinada ao tema “Criação e produção nas artes performativas: desafios das limitações vs. recursos”, a sessão estará aberta aos actores, encenadores e apreciadores das artes em geral, no que se supõe ser uma tentativa de busca de respostas para as questões essenciais que afectam o sector teatral e artístico em Moçambique.

No segundo dia, 27 de Abril, às 18h30, a terceira edição do Festival de Teatro Cenas vai ao Centro Cultural Sabura, igualmente na Cidade de Maputo, apresentar o que a organização designa como uma maratona de performances, com um poema de Fernando Leite Couto, uma caneta e um par de botas como adereços.

A terceira edição do Festival de Teatro Cenas vai terminar no dia 28, com curtas de improviso a realizarem na Fundação Fernando Leite Couto, a partir das 17 horas, e com dinamização da actriz e encenadora Maria Atália.

O autor Amílcar Armando Rajá vai lançar o livro de narrativas “A intimidade das sementes”, que é uma colectânea de prosa que compreende 10 microcontos e sete contos.

Na nota da gala-gala, que edita o livro, trata-se de narrativas em que Rajá aborda diferentes temáticas e passeia por diversos cenários, transportando os leitores para mundos imaginários, mas de personagens comuns. Para Daniel Mabjaia, que prefacia o livro, “as características desta obra são, de per si, multifacetadas”, e completa, “aqui, dramas de vidas e vivências são descritos com o intuito de encantar. São estórias que se confundem com histórias”.

O lançamento oficial está marcado para o dia 26 de Abril, na Mediateca do BCI, na Cidade de Nampula. A apresentação do livro estará a cargo de AC Guimarães.

O livro de 90 páginas inaugura a colecção “Out of the box” da Gala-Gala Edições. O evento é aberto ao público. Haverá ainda uma sessão de venda de livros e autógrafos, proporcionando aos leitores a oportunidade de interagir directamente com o autor.

Armindo Armando Rajá nasceu em 1997, na província de Nampula. O seu primeiro contacto com as letras ocorreu na disciplina de Português, no 12º ano, na Escola Secundária de Nampula. Teve uma menção honrosa no Concurso Literário Um Hino ao Império Brasileiro, com o texto “A poderosa voz do escravo”. A sua inspiração para escrever provém da beleza da natureza e pelo facto de saber que “a existência humana é a essência de toda beleza”.

Pelo terceiro ano consecutivo, o Centro Cultural M-Bassline, na Matola-Rio, acolhe o festival de jazz. Marcado para o dia 30 de Abril, data que se celebra o ritmo jazz em todo o mundo, o evento, junta os moçambicanos Neco Novellas, Deodato Siquir e Mingas, como a “madrinha” do espetáculo.

Trata-se de uma noite singular, com um teor intimista, por isso o evento terá lugar no auditório do M-Bassline, contrariando os outros dois eventos que aconteceram no átrio. Para além deste pormenor, a celebração do jazz em Boane destaca artistas moçambicanos na diáspora: um na Holanda, Neco Novellas e outro na Suécia e Dinamarca, Deodato Siquir, para além da Mingas, como madrinha do evento.

O conceito “padrinho” sempre esteve presente nas edições anteriores. No primeiro ano, 2022, foi a banda Ghorwane e ano passado, 2023, coube a Wazimbo ocupar este papel. Estes artistas, com estatuto de padrinho, são os que encerram a festa, trazendo outras sonoridades e suscitando outras abordagens aos eventos.

Não será apenas uma noite de celebração do jazz moçambicano feito na diáspora, mas, acima de tudo, a celebração de dois projectos ousados, que rompem paradigmas das performances musicais.

Ora, Neco Novellas, que não actua em Moçambique há cerca de 10 anos e a sua passagem por sua terra-natal coincide com a comemoração dos seus 50 anos, traz um conceito fora do comum, com uma actuação a solo, um exercício do seu último álbum – ‘Chasing traces’ – que viaja às suas origens moçambicanas, combinando o afro-jazz e a marrabenta.

Deodato Siquir, por sua vez, propõe uma actuação que cruza os seus três álbuns, embora com principal incidência para o ‘Together’, sua última proposta discográfica, com sonoridades acústicas, mas arrojada, que leva ao palco um quarteto e três vozes.

Mingas deverá encerrar a noite com uma homenagem ao falecido músico Chico António, sua dupla de vários anos com ‘Baila Maria’, música vencedora do prémio Rádio France Internacional (RFI) em 1990, para além de estar a homenagear a mulher moçambicana no encerramento do seu mês.

Para acompanhar o festival de Jazz, uma feira do livro e do disco e artigos de artesanato.

O M-Bassline é a única instituição com cariz de centro cultural na província de Maputo, localizado na rua da Escola Primária de Djuba, na Matola-Rio. Inaugurado em 2022, o espaço fragmenta-se em quatro – um “jazz club”, um auditório, um lounge (ainda em projecção) e um átrio que acolheu as duas edições anteriores do Festival do Jazz M-Bassline.

 

NECO NOVELLAS, DEODATO SIQUIR E MINGAS: TRÊS VOZES QUE VÃO (EN)CANTAR NO DIA INTERNACIONAL DO JAZZ

Neco Novellas nasceu e cresceu em Moçambique, na tribo Chopi, famosa pela sua música timbila. Desde muito jovem esteve imerso na música, descobrir sons diferentes fez parte do seu crescimento: em casa, na escola, na igreja e na natureza. 

A sua fama e reconhecimento em Moçambique levou-o a Portugal para estudar guitarra clássica e canto e, para Holanda, onde estudou música clássica ópera no Conservatório de Música Codarts Rotterdam.

Seu estilo musical desenvolveu-se pela curiosidade pelos sons. Ele foi influenciado pela música tradicional africana local, música clássica, folk e jazz, criando, assim, o seu próprio som universal único, expressando-se através das suas línguas tribais.

Novellas produziu sete CD’s, deu concertos por toda a Europa, África e América Latina e, como se não bastasse, coopera constantemente com numerosos artistas nacionais e internacionais.

Deodato Siquir, por sua vez, nasceu em 1975, em Maputo, no seio de uma família musical. Crescendo em Maputo, aprendeu a tocar numa bateria por si construída, composta por latas, arames e plásticos, juntando-se à primeira banda Escolinha Vamos Brincar, em 1988, na Organização Continuadores da Revolução Moçambicana.

Aos 15 anos já se apresentava com orquestras profissionais e músicos internacionais visitando Moçambique.

De 1990 a 2000, em Moçambique, Siquir trabalhou como acompanhante de vários artistas, como Eloy Vasco, Stewart Sukuma, Leman Pinto e Dua Maciel. Em 1997 forma a sua primeira banda, Mozafro. Em 2001 emigrou para a Escandinávia (Suécia e Dinamarca), estabelecendo uma grande rede de colaboradores ao longo dos anos e, rapidamente, tornou-se num dos acompanhantes mais solicitados no cenário do jazz e worldmusic.

A sua carreira foi marcada pelo seu álbum de estreia, ‘Balanço’. Em 2007. Em 2011 lança o seu segundo álbum, “Mutema”. Actualmente com um novo álbum, ‘Together’, o terceiro de originais, concorrendo já para o World Music Charts Europe.

Siquir foi vencedor do Prémio Descoberta Ngoma Moçambique, em 2008, e, ao longo dos anos, na Escandinávia, colaborou com muitos artistas nacionais e internacionais e orquestras.

Elisa Domingas Salatiel Jamisse ou simplesmente Mingas teve uma educação religiosa, daí que a sua iniciação musical tenha decorrido na Igreja Metodista Unida, onde integrou os corais infantil e juvenil. Um dos exemplos disso é a criação de um trio com Safrão Navesse e Silva Zunguze, também da Igreja Metodista Unida, que interpretava canções religiosas. 

Aos 17 anos, Mingas acompanha uma amiga aos escritórios dos produtores do espectáculo “Foguetão”, dirigido por Alex Barbosa, e fica a saber que estavam à procura de uma voz. Na audição interpreta a canção “I dont know how to love him”, da trilha sonora do filme “Jesus Christ Superstar”. Tendo sido aceite, os produtores propuseram que cantasse “I Need You”, dos O’jays, no Cine Estúdio 222.

Mingas é compositora, cantora, vencedora de vários prémios e também activista na defesa dos direitos humanos. A sua integração no Grupo RM e na Orquestra Marrabenta Star de Moçambique ajudou-a a estabelecer o seu nome na arena musical do país.

Mingas realiza digressões nacionais com o grupo Hokolokwé, entre 1982 e 1983, e em 1987 faz as primeiras digressões internacionais Orquestra Marrabenta Star. No Zimbabwe, Mingas, que além de cantar era dançarina da Orquestra Marrabenta, teve a oportunidade de partilhar o palco com Miriam Makeba, Paul Simon, Harry Belafonte, Manu Dibango, Hugh Masekela, entre outros. Em 1988, no Concerto Child Survival and Development Symposium, organizado pela organização internacional Save the Children. Foi também neste país que o grupo gravou os discos ‘Independance’ e ‘Piquenique’, ambos publicados pela editora alemã Piranha, em 1989 e 1996, respectivamente.

Em 1989, Mingas passa a integrar o Grupo RM, do qual mais tarde se tornou líder. O passo foi um marco indelével na sua vida musical, passando a ganhar mais notoriedade e espaço. Com garantido sucesso no mercado interno, Mingas procurava nesta fase conquistar outras praças. O ponto de entrada foi dado pelo registo da canção “Baila Maria”, um dueto com Chico António, que, em 1990, conquistou o ‘Grand Prix Decouvertes 90’ (Grande Prémio do Concurso Descobertas), organizado pela Rádio France Internationale (RFI). O prémio foi entregue, no mesmo ano, na Guiné Conakry.

O Dia Internacional do Jazz celebra-se, este ano, com o lema “Jazz como instrumento educativo e uma força de paz, unidade, diálogo e cooperação reforçada entre as pessoas”.

Com os meus 21 anos, trabalhando como rececionista numa empresa e recebendo um salário mensal de 2.500,00 meticais entre os anos de 2000 e 2010, o Presidente do Conselho de Administração (PCA) da empresa, com 55 anos de idade, teve acesso às minhas informações bancárias e começou a enviar-me, no final de cada mês, um valor extra de 21.000,00 meticais. Quando me apercebi desta situação, procurei o PCA para questionar a razão por detrás do recebimento deste montante tão elevado, tendo em consideração o valor do metical naquela altura. Ele afirmou tratar-se de um incentivo, pois via-me como uma das suas filhas. Agradeci sinceramente, uma vez que a minha família necessitava de dinheiro e aquela ajuda não era ilegal. Esta situação repetiu-se durante mais 8 meses, e a cada final de mês ia ao gabinete dele agradecer. Contudo, numa dessas visitas ao seu gabinete, ao tentar expressar gratidão pelo cuidado do “meu pai” para comigo, ao dar-lhe dois beijinhos na bochecha, ele beijou-me nos lábios. Senti-me tão constrangida que saí do trabalho em lágrimas, incapaz de compreender como é que aquele que me via como uma filha agora me via como mulher.

Dias depois, ele procurou-me e confessou seus sentimentos, expressando a intenção de se casar comigo. Receosa de perder o emprego, pedi conselho à minha avó. Ao saber que ele era muito rico, ela aconselhou-me a casar com ele, justificando que a esposa se habitua ao marido, não necessitando de gostar, apenas habituar-se, e garantindo que eu me acostumaria a ele. Enganada, acabei por aceitar e casar com ele. Durante 10 anos, vivi um verdadeiro inferno, não por falta de amor ou cuidado da parte dele, pois tinha tudo o que alguém poderia desejar naquela época, incluindo viagens, carros de luxo e muito mais. Contudo, o facto de ele me tratar como pai durante o dia, protegendo-me e cuidando de mim, e à noite me querer como mulher, causava-me uma enorme confusão. Até certo ponto, devido ao carinho que tinha por mim, aprendi a vê-lo como pai. Quando ele me procurava como mulher, sentia-me violada pelo meu pai. Apesar da vida luxuosa, repleta de carros, viagens e tudo o que uma pessoa comum poderia desejar, a felicidade estava ausente. Entrei em depressão e busquei ajuda médica. Ao informar a minha mãe sobre a minha intenção de me separar, não obteve apoio; pelo contrário, chamou-me ingrata. Ao conversar com o meu marido, ele acolheu e compreendeu a minha decisão. Propôs comprar-me uma casa e sustentar-me, permitindo que me relacionasse com pessoas da minha idade, desde que estivesse sempre disponível quando ele precisasse. Recusei e separei-me.

Ouvir esta história despertou em mim uma revolta interna, pensando em quantas jovens têm a sua inocência roubada por homens com o dobro ou triplo da sua idade na nossa sociedade moçambicana. O caso que descrevi é menos grave pelo facto da jovem já ter atingido a maioridade. Contudo, há outras que são sujeitas a estas vidas antes mesmo dos 15 anos. Privadas da sua infância, são forçadas a casar e cuidar de um lar, mesmo necessitando de cuidados e proteção que deveriam ser providenciados pelos pais, mas são estes mesmos pais que as vendem e destroem o seu futuro em troca de bens e dinheiro. Moçambique, até quando continuarás a condenar as crianças e adolescentes a realidades como estas?

Recentemente ouvi o relato de uma adolescente de 15 anos que foi violada repetidamente por um homem de 47 anos. Apesar da denúncia, o agressor foi libertado, o que levou ao desespero da mãe da vítima. Não consigo ficar indiferente perante os gritos de socorro da mãe ao ver o agressor ser solto. Não pretendo abordar as questões legais deste caso, mas sim refletir sobre o quão difícil é ser jovem do sexo feminino em Moçambique. Aqui, os homens parecem ter carta branca enquanto as mulheres são relegadas a um pequeno espaço, sem direito a manifestar-se, como se, muitas vezes, a culpa da violação recaísse sobre a vítima aos olhos da sociedade. É frequente culpar as mulheres em casos de violação, insinuando que a adolescente provocou a agressão devido às suas roupas ou ao seu corpo. As mulheres vivem sem paz nesta sociedade.

Relatos como estes revelam as profundas feridas que permeiam nossa sociedade, onde o abuso de poder e a exploração destroem vidas inocentes. É tempo de unir vozes, de erguer-nos em solidariedade pela justiça e pela proteção dos vulneráveis. Devemos romper com o silêncio que aprisiona a coragem e silencia os gritos de socorro. Moçambique, o desafio é nosso, de cada um de nós. Que estejamos dispostos a agir, a nos educar e a proteger uns aos outros. Que a luz da verdade dissipe as sombras do medo e da injustiça. Que cada passo em direção à igualdade e ao respeito seja um farol de esperança para as futuras gerações. O tempo de transformação é agora. Façamos juntos história, erguendo-nos como agentes de amor, justiça e mudança.

Para repudiar este comportamento e trabalhar em direção à mudança, é vital promover programas educacionais e de consciencialização e defender a implementação e aplicação de leis mais rigorosas para proteger as vítimas de abuso e punir os agressores. Oferecer suporte psicológico e social às vítimas é crucial, assim como promover a capacitação económica e a autonomia das mulheres. Através destas mudanças e ações, podemos criar um ambiente mais seguro e protetor para aqueles que sofrem de abuso e violência. 

A Ministra da Cultura e Turismo foi a última a intervir no velório realizado no Paços do Município de Maputo, na manhã desta sexta-feira. Na cerimónia, Eldevina Materula exortou a todos os moçambicanos a unirem esforços na valorização do precioso legado deixado pelo músico e reverendo Arão Litsure.

Na percepção de Eldevina Materula, de forma didáctica, o autor de Há negros na Bíblia? soube fundir devoção, ciência e cultura como factores necessários para o desenvolvimento dos moçambicanos com recurso à sua arte. A governante defendeu, inclusivamente, que Arão Litsure foi um exímio compositor, de um nível que o país dificilmente voltará a ter igual.

Também pela sua qualidade de composição, acrescentou a Ministra da Cultura e Turismo, Arão Litsure inspirou gerações de moçambicanos.

O Governo, com efeito, logo apercebeu-se das qualidades do artista multifacetado, tendo o convidado a participar nos processos da democratização do país, quer na Comissão Nacional de Eleições, quer no Ministério da Justiça.

Ainda assim, sublinhou Eldevina Materula, o legado não se resume às missões específicas atribuídas pelo Governo, mas a tudo o que foi a sua obra.

Arão Litsure nasceu a 22 de Outubro de 1955, no Distrito de Panda, Inhambane. Deixa esposa e três filhos.

O filho de Arão Litsure, Edgar, foi quem teve a responsabilidade de ler a mensagem da família no velório realizado esta manhã, no Paços do Município de Maputo. Na sua intervenção, primeiro começou por dizer que o encontro naquele espaço da capital do país servia para celebrar a vida e a obra do pai. De seguida, referiu que o artista e reverendo deixou uma marca inesquecível nos corações dos familiares. “Perdemos um enorme ser humano, que tivemos o privilégio de chamar de pai. Deste-nos muitos ensinamentos, como o amor ao próximo, os valores sobre a perseverança. Foste um exemplo de pai e de homem diligente”.

Visivelmente consternado, Edgar Litsure disse que a sua vida e da sua família, doravante, não mais será a mesma “por não podermos mais contar com a sua presença”. No entanto, garantiu: “Carregamos um pouco de ti em nós. Obrigado por teres sido um ser humano incrível!”

No mesmo tom, intervieram os afilhados. Segundo disseram, em tudo o que Arão Litsure fazia, a palavra de ordem era perfeição. “Lapidou-nos para sermos pessoas melhores. Neste momento, queremos que carregues o sentimento de missão cumprida”.

Depois do velório no Paços do Município de Maputo, as cerimónias prosseguem na Igreja Congragacional Unidade de Moçambique.

O Presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE) foi uma das personalidades que interveio nas cerimónias fúnebres de Arão Litsure, no Paços do Município de Maputo, esta manhã. No seu discurso, Dom Carlos Matsinhe disse que o artista habituou aos moçambicanos a expressar o poder de Deus, com um sorriso particular, não fosse ter nascido e crescido numa família cristã.

De acordo com Dom Carlos Matsinhe, Arão Litsure esteve presente na discussão da construção de um país mais justo através da música. Foi um cidadão exemplar e que por consequência disso presidiu a Comissão Nacional de Eleições entre 2003 – 2007, o que fez com mestria. “Exerceu a cidadania assumindo funções de relevo no país. O legado de justiça será um farol para as nossas acções”, assegurou Dom Carlos Matsinhe, igualmente, em nome de todos os antigos presidentes da CNE.

Sem poder participar presencialmente nas cerimónias fúnebres, Childo Tomás, baixista que integrou a banda Alambique, enviou uma carta do estrangeiro que foi lida por Roberto Chitsondzo. Para Childo Tomás, Alambique ficou órfão e sem os dois pulmões (Arão Litsure e Hortêncio Langa). O baixista escreve que sente pelo desaparecimento, mas agradece pelo facto de o reverendo ter sido figura fundamental no seu trajecto e carreira musical e por ter sido referência para sua geração. Por isso espera que a sua obra continue inspirando a música moçambicana tradicional, moderna e contemporânea.

“Obrigado por me ter deixado crescer nos seus braços, pela sua identidade, forma de compor e construir sempre interessado na fusão da música tradicional e do jazz. Obrigado pelas lições de vida. Partiste e deixaste-me com parte do projecto que juntos sonhamos em homenagem a Hortêncio Langa e Adérito Gomate”, escreveu Childo Tomás, baixista residente em Barcelona, Espanha.

As cerimónias fúnebres de Arão Litsure decorrem no Paços do Município de Maputo desde às 8 horas desta sexta-feira. Intervindo na cerimónia, o Conselho Cristão de Moçambique lembrou o artista como líder espiritual e presidente dedicado daquela entidade.

Segundo o Conselho Cristão de Moçambique, Arão Litsure soube sempre ser um homem dedicado e que expressou paixão sem limitar a sua missão às reuniões. Trabalhou para as comunidades e para o país inteiro. Por isso, os religiosos acreditam que o artista deixou marcas indeléveis nas pessoas, tendo-se preocupado com as causas humanitárias e de justiça social.

No velório desta manhã, Arão Litsure também foi lembrado como uma voz na luta contra a desigualdade, que sempre se posicionou firmemente ao lado dos desfavorecidos, provando que a fé pode ser poderosa.

Arão Litsure é lembrado como um reverendo que se entregou à música gospel, que considerava expressão da alma. Por isso mesmo, a sua presença como membro júri em concursos de música golpel sempre foi inspiradora para glorificar a Deus. “Unimo-nos em oração com a família, amigos e a todos os que foram tocados pelos seus ministérios… Que a sua alma encontre alegria na celestial harmonia e amor”, disse o representante do Conselho Cristão de Moçambique.

A seguir ao Conselho Cristão de Moçambique, interveio o representante do Grupo Arão Litsure 10 anos depois, que se referiu ao legado do artista que transcende as fronteiras do tempo e do espaço. “Deixou rasto de inspiração, paz e luz”.

Para o Grupo Arão Litsure 10 anos depois, o músico foi um guia cujas palavras marcaram aqueles que buscavam consolo. Era um farol que iluminava aqueles que buscavam a luz da verdade e que elevava a alma das pessoas. Com o artista, a música foi mais do que simples combinação harmónica, foi expressão de fé, amor que toca os seres. Com o artista a música era prece, alegria, gratidão e esperança. “Não cantava apenas com lábios, mas com plenitude do ser. Como compositor, deixa rico legado de cancões que tem muita poesia. Como homem de Deus, partilhou saber com os seus semelhantes. Que a sua música continue a ecoar nos nossos corações. Que a obra seja lembrete da missão que prestou à comunidade e ao país. Devemos continuar a estudar e a preservar os seus feitos”, finalizou o representante Grupo Arão Litsure 10 anos depois.

A União Europeia procede, às 15h30 de hoje, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, ao lançamento do projecto Cultiv’arte – projecto de fortalecimento do sector cultural em Moçambique. O projecto é implementado pela Expertise France em parceria com o Ministério da Cultura e Turismo.

A iniciativa que terá duração de quatro anos conta com o fundo de 5.000.000 euros, e tem como objectivo aumentar a contribuição do sector cultural para o desenvolvimento social e económico, especialmente para os jovens e as mulheres como motores de mudança.

CULTIV’ARTE pretende reforçar a governação e profissionalização do sector, incluindo a utilização de tecnologias digitais, através do reforço das competências dos recursos humanos; apoiar a cooperação e a criação de redes de operadores culturais a nível nacional e internacional (especialmente na região da África Austral e na Europa); e reforçar as capacidades do Ministério da Cultura e do Turismo e de outros organismos públicos descentralizados, a fim de assegurar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do sector cultural.

Os beneficiários directos da acção são intervenientes do sector das indústrias culturais e criativas, incluindo as autoridades públicas, empresários criativos, artistas e profissionais da cultura, bem como organizações da sociedade civil.

O CULTIV’ARTE comporta três pilares, nomeadamente, Programas de Incubação e de Estágios sob medida para jovens, empreendedores e projectos nas ICCs; Programas de Conferências e Fóruns, de Subvenções para projectos de pequeno, médio e grande porte, e de Mobilidade internacional para profissionais da cultura; e Apoio ao funcionamento de Casas da Cultura em quatro capitais de províncias abrangidas pela Acção (disponibilização de equipamentos).

 

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