O País – A verdade como notícia

O compositor e intérprete moçambicano D’Manyissa, nome artístico de Demócrito Manyissa, foi um dos finalistas na edição 2017 do concurso de composições musicais da Inglaterra denominado Uk Songwriting Contest. D’Manyissa é único africano a chegar na fase final deste certame de âmbito internacional, onde participam compositores de vários quadrantes do mundo, independentemente do seu estilo musical.

A lista dos finalistas foi divulgada no dia 25 de Dezembro, no website do UK Songwriting Contest. Na página do concurso está patente o nome de cada finalista por categoria, Pop, R&B, Rock, Instrumental, Jazz, entre outros estilos. Os certificados de participação, por sua vez, são disponibilizados no respectivo website, disponíveis para download pelo próprio finalista.

D’Manyissa concorreu com a música “Timbila – Património Mundial”, na categoria World Music, com a participação de Celso Paco, seu convidado especial, músico moçambicano radicado na Suécia, país em que será produzido em breve o vídeo-clip da respectiva música. Paco eternizou na música os seus dotes de multi-instrumentista ao executar a bateria, percussão, udo e timbila. A música é mesmo uma homenagem a este instrumento que foi proclamado património oral e imaterial da humanidade pela UNESCO.

Além da prestação de Celso Paco, participam da música outros instrumentistas de luxo: António “Dodó” Milisse, na guitarra, Orlando Venhereque, no saxofone, e o recém-falecido Filipinho, no baixo. Ao D’Manyissa, mentor da obra, coube os arranjos (juntamente com Celso Paco, Dodó, Filipinho e Orlando Venhereque) e comandou a produção. A música foi gravada em Moçambique, na Zep Estúdios, por isso a satisfação do artista que se vê projectado pelo mundo, pois só chega à final 1% do vasto universo de participantes. Para o artista, neste momento, resta-lhe um sentimento de gratidão ao Celso Paco, que aceitou ser o seu convidado especial e a todos os outros músicos envolvidos.

Trata-se de uma música que se vai juntar a outras 14 e compor o seu primeiro projecto discográfico “D’Manyissa Instrumental – Volume 1”. E porque são mesmo instrumentais, descontando três faixas em que o autor aventura-se pelas performances vocais, conta com executores de vários instrumentos: Orlando Venhereque (Flauta), Júlio Sigaúque e Allou April (guitarra), Ivan Mazuze (Saxofone alto e soprano), Banda Macozomi e Hélder Gonzaga (Baixo), Lwanda Gogwana (Trompete), Seredeal “Shaggy” Scheepers (Teclados), Galina Juritz (Violino) e Kika Materula (Oboé). Neste álbum, Celso Paco, como se pagasse pelo seu dom, não podia ficar de fora. O artista que respira ares europeus foi convidado a fazer a performance de vários instrumentos do seu domínio. O álbum está totalmente gravado, faltando apenas apoio para a fase da mistura, masterização e a sua replicação. Até ao momento contou com apoio da EDM, CFM e South African Airways (SAA), para a sua gravação.

Não é a primeira vez que D’Manyissa participa deste concurso. Esta foi a sua terceira viagem. Tudo começa em 2015 com a música “Conta comigo”, uma composição interpretada pela cantora brasileira, Bárbara Silva, formada em música pelo Berklee College of Music nos Estados Unidos de América. Esta música, para a dupla satisfação do artista, foi finalista em duas categorias: Jazz/Blues e naquilo que o certamente considera Open Category (categoria aberta). No ano seguinte, em 2016, D’Manyissa regressa ao concurso já com “Força Interior”, música que conta com os sopros de flauta de Orlando Venhereque, para ser finalista na categoria Jazz/Blues.

O júri do concurso é constituído por profissionais renomados da indústria da música, entre eles compositores, arranjistas e produtores. Eles têm na bagagem trabalhos com artistas de renome mundial como Mary J. Blige, Tina Turner, Diana Ross, Chaka Khan, Robyn Williams, Cher, entre outros. Alguns inclusive já compuseram músicas para trilhas sonoras e outros projectos distantes da música.

 

 

A fadista portuguesa, Mariza, poderá cooperar com as escolas moçambicanas de música no ensino da arte de cantar, a convite da vice-ministra da Cultura e Turismo, Ana Comoana.

A cantora portuguesa está em Moçambique de férias e, esta quarta-feira, foi recebida pela vice-ministra da Cultura e Turismo. A fadista ofereceu discos das suas músicas à governante moçambicana e contemplou, na oferta, o Presidente da República, Filipe Nyusi, e o Ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro.

No momento da oferta, o astro da música portuguesa fez a questão de dizer que em todos os países por onde passa reitera que é moçambicana, por isso está orugulhosa em pisar a terra que a viu nascer.

A visita serviu igualmente de reencontro com a cantora moçambicana Mingas e o músico Moreira Chonguiça, presentes no evento e que viram uma oportunidade de combinar os ritmos moçambicanos com o fado. Aliás, todos são unânimes em dizer que não existe barreira nenhuma capaz de parar a música, mesmo porque, apesar de Portugal e Moçambique estarem separados por vastos quilómetros, existem vários aspectos culturais que unem as duas nações, sendo uma delas a língua portuguesa.

Experiência de Mariza associada ao conhecimento para as escolas

Ainda no encontro desta quarta-feira, a vice-ministra da Cultura e Turismo propôs colaboração da cantora portuguesa nas escolas moçambicanas de música.

“Tendo em conta a sua esperiência, acreditamos que de alguma maneira está associada a um conjunto de conhecimentos, quer de instiuições, que estejam ligadas à área de formação como as nossas. Não queremos exactamente que a Mariza diga neste encontro que tipo de apoio pode encontrar, mas queremos que leve na sua bagagem à nossa preocupação”, rematou Coana.

O convite da vice-ministra foi aceite, mesmo porque Mariza acredita ser possível juntar o fado aos ritmos nacionais.

“Gostei muito de voltar a ver a Mingas, infelizmente não estive com ela a cantar, porque seria ainda muito mais interessante. Mas, é sempre bom estar com músicos moçambicanos. Gostava muito de voltarmos a encontrarmo-nos no palco”, disse a fadista, prosseguindo: “Existe público para todos estilos de música. Há uma frase muito interessante que diz: só existem dois tipos de música, a boa e a má. Não interessa se é fado ou marrabenta, o que interessa é que seja bem feita”, esclareceu.

Em relação à proposta feita pela vice-ministra, Mariza considera ser interessante, o que se deve fazer é descubrir quais são as necessidades do dia-adia nas escolas, para, a partir daí, se chegar “a bom porto”.

Músicos dispostos a misturar fado com ritmos moçambicanos

A cantora moçambicana Mingas e o saxofonista Morreira Chonguissa consideram bom o posicionamento da Mariza, mas reconhecem que é necessário fazer muitas pesquisas na área.

Mingas falou do reencontro que para ela significa “bom início de ano” e, comentado sobre a possibilidade de a cantora Mariza colaborar na arte de cantar com os moçambicanos, disse: “todas as colaborações normalmente são interessantes e boas. Mas, na verdade, é preciso que a gente trabalhe muito, para que o casamento saia perfeito. Juntar dois estilos totalmente diferentes não é fácil, é preciso que dediquemos muito tempo para isso. É o que vamos começar a fazer para ver se esse casamento pode sair bem”.

Por seu turno, Morreira Chonguissa reagiu afirmando que na música não existem fronteiras, mas sim espaços para que ela nasça. Por exemplo, o saxofonista recorreu à ópera de Luciano Pavarotti, que fez uma fusão com Bryan Adams e Sting, para mostrar que tudo é possível”.

“Não seria algo de novo, mas sim inovador. É só querer e fazer. Se calhar o que vai acontecer é termos um novo paradigma na música moçambicana”, mostrou-se confiante Chonguiça.

Refira-se que Mariza nasceu em Maputo e é filha de pai portugês e mãe moçambicana. E como quem sabe não teme, no encontro deu um “cheirinho” da sua voz aos presentes, que aplaudiram efusivamente, como quem diz queremos mais.

 

Os artistas Mr Bow, Liloca, Julia Duarte e o angolano Yuri da Cunha, que se encontram na cidade da Beira, a fim de participar numa mega festa alusiva a transição do ano, apelaram, num contacto com a imprensa, aos moçambicanos e de forma particular aos beirenses para na transição de 2017 para 2018, a esquecerem as mágoas do passado e levarem para o novo ano muito amor e carinho, facto que para eles poderá contribuir para consolidar a união.

Quanto a festa de transição do ano, onde todos os detalhes estão a ser preparados cuidadosamente para animar os beirenses, Mr Bow acredita que vai ser uma noite de muito amor.

A cantora Júlia Duarte, um dos produtos dos programas de entretenimento e descoberta de talentos da STV, promete uma festa de arromba. 

A série televisiva “A Game of Thrones” ou "A Guerra dos Tronos", em português, voltou a ser o programa televisivo mais pirateado a nível mundial, pelo sexto ano consecutivo, segundo uma compilação feita pela página especializada Torrentfreak, indicada pelo Notícias ao Minuto.

De acordo com uma publicação do Torrentfreak, "apesar de não ter havido um novo recorde de descargas, a nível de tráfego o interesse foi muito", tendo alcançado um pico de 400 mil partilhas em simultâneo depois de o final da sétima temporada ter sido colocado na Internet.

Os autores da análise alertam contra leituras sobre um crescimento ou diminuição da pirataria digital a partir destes números, uma vez que os 'torrents' (que permitem a descarga de algo através da ligação partilhada por vários utilizadores) são apenas uma parte dessa realidade, salientando a propagação de páginas que permitem o 'streaming' (visionamento de um determinado programa sem necessidade de o descarregar) de forma ilegal.

A sétima temporada de "A Guerra dos Tronos", transmitida este ano, foi atingida por vários problemas, entre os quais um ataque informático à HBO, que levou a que argumentos da saga fossem colocados online antes da exibição dos episódios.

A oitava e última temporada da série, que tem por base os livros de George R. R. Martin, vai estar em filmagens até ao próximo verão, tendo 2019 como provável data de exibição dos seis episódios já anunciados, de acordo com entrevistas de vários actores do elenco publicadas nos últimos meses.

O pintor moçambicano, Sebastião Matsinhe, foi recebido pelo governador de Inhambane, Daniel Chapo, para um encontro em que o pintor pretendia apresentar projectos que visam incrementar a cultura e o turismo na cidade de Inhambane.

Embora considere a cidade turística, Matsinhe acredita que esta precisa de mais atractivos.

Acompanhado pelo vereador da Cultura no Conselho Municipal da Cidade de Inhambane, Dias Letela, o governador acolheu a iniciativa e prometeu tudo fazer para que as ideias trazidas pelo artista sejam implementadas.

"A cidade de Inhambane tem vários locais bonitos e atraentes, que com a veia artística do Mestre Sebastião Matsinhe  vão dar mais visibilidade e que serão um ponto de referência, nacional e internacional", disse.

Para além de ser um dos melhores destinos turísticos do país, Inhambane é também uma província que viu nascer muitos artistas, dentre eles, Sebastião Matsinhe, Otis, Chico António, Jimmy Dludlu, Magid Mussá, Roberto Isaias entre outros.

Não é de hoje que as artes moçambicanas servem objectos de estudo no estrangeiro. Desta vez, uma defesa de dissertação intitulada “Intersecções dialógicas entre A confissão da leoa, de Mia Couto, e a série fotográfica “Muthianas e capulanas de Moçambique”, de Albino Moisés: Focalização e Enquadramento do Feminino”, da autoria de Joseana Stringini da Rosa, jornalista e professora de fotografia brasileira foi apresentada há dias, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) do estado de Rio Grande do Sul no Brasil.  

A série de fotografias foi exposta por Albino Moisés em 2015, na cidade de Belo Horizonte, no Brasil. A mesma faz um interface com a narrativa do romance “A confissão da leoa”, de Mia Couto, tendo dado lugar à tese de mestrado em Letras, enquadrado no Programa de Pós-Graduação em Letras naquela universidade brasileira.

Joseana Stringini da Rosa autora da tese, desenvolveu um trabalho de pesquisa que envolve a representação da mulher retratada na literatura e na fotografia moçambicana. Ou seja, Mia Couto e Albino Moisés convergem num tema comum: a mulher. Ambos apresentam como pano de fundo o universo feminino. Por exemplo, “A confissão da leoa” é inspirada numa experiência real do autor, que teve lugar numa pequena comunidade da província de Cabo Delgado. O escritor explica, nas primeiras notas, que o romance surge de sua experiência como biólogo.

Quanto, às fotografias de Albino Moisés, foi apresentada no Festival de Artes Negras na cidade de Belo Horizonte-Minas Gerais, que contou com a curadoria do senegalês Olúségun Akinruli; projecto gráfico de Maria Luiza Viana e Adriana Araújo (produção executiva). É uma série de 22 fotografias a cores, que faz um hino à beleza da mulher moçambicana. É ainda um tributo à capulana, um dos símbolos mais representativos de identidade moçambicana. As imagens resultaram de viagens efectuadas nas regiões Norte, Centro e Sul do país entre 2012-2015. Para além da capulana, a série fotográfica realça ainda algumas marcas e simbolismos tradicionais, como o “Mussiro” da mulher macua, a tatuagem maconde, as cores e diferentes maneiras de amarrar a capulana etc. 

A exposição, de acordo com o autor, teve, durante a apresentação, grande impacto social e cultural junto do público local, tendo proporcionado uma informação necessária sobre questões culturais do nosso país.

A defesa de dissertação da professora de fotografia Joseana Stringini da Rosa enquadra-se no Programa de Pós-Graduação em Letras e o trabalho de pesquisa durou aproximadamente dois anos. 

Albino Moisés fotografa desde 1990. Em 2013, apresentou a sua primeira exposição “Mwana-Mwana: Pérolas do Índico” em Belo Horizonte, Brasil, sob curadoria de Rosália Diogo. Naquela cidade também orientou um workshop sobre iniciação em fotografia para 164 crianças de escolas de ensino Médio e Fundamental. Em 2014, participa na exposição colectiva “Mulheres da Minha terra”, alusiva ao Dia de África, no Município Presidente Prudente, Estado de São Paulo. Ainda no Brasil, participou num festival de curtas-metragens nas cidades de Ouro Preto e Belo Horizonte, o documentário “Shilambo ashi shetu – esta terra é nossa” que realizou em 2010.

 

 

 

 

 

Faltavam apenas algumas horas para o Natal, uma eternidade para quem, durante três meses, esteve internada na Enfermaria de Cirurgia Ortopédica do Hospital Central de Maputo (HCM). Ninguém resiste à morte quando decide visitar o corpo, com mero propósito de ali retirar o que de mais valioso existe: o milagre da vida. Zena, por mais Bacar Ali que fosse, lutadora, corajosa, determinada, senhora da sua voz e com um forte sentido de humor mesmo diante de situações adversas, cedeu de olhos fechados, débil, sem sequer pode voltar a ter um socorro clínico.

Na verdade, depois de ter ficado 91 dias internada no HCM, Zena Bacar até chegou a melhorar. Por isso, os médicos deram-na alta no dia 30 de Novembro, embora a situação fosse ainda frágil. Aparentemente, nessa altura, estava tudo controlado, e a irmã da cantora chegou a acreditar que tudo iria acabar bem. Amina Salimo esteve sempre por perto nos últimos dias de Zena Bacar. Bem dito, foi com ela que a cantora dos Eyuphuro viajou da capital para a terra natal, Nampula, de avião, graças a ajuda do Ministério da Saúde, mesmo porque de carro era quase impossível, não fosse Zena precisar de uma maca ou de carrinha de rodas.

De Maputo para Nampula, de tão fraca que estava, Zena Bacar nem sequer abriu os olhos. Talvez não tivesse forças para o efeito, ao travar, quiçá, a maior luta da sua vida.

Algumas semanas depois de ter deixado a capital para trás, de volta à terra onde aprendeu a cantar aos seis anos de idade, sem que ninguém se apercebesse disso, Zena foi-se despendido de tudo, das vitórias eternas e efémeras, das dores, das falsidades, do cansaço das células e das incompreensões dos que tantas vezes chamaram-na maluca, desacreditando-ma quando mais necessitava de apoio. Nenhuma mãe está preparada para perder um filho, ainda por cima numa altura de tanta felicidade como aquela em que o seu unigénito viajou a Portugal em lua-de-mel. Foi lua-de-fel. De lá, a descendência de Zena Bacar não voltou. Morreu, de acordo com a cantora, numa entrevista ao Xigubo, em Junho do ano passado, envenenado. A partir daquele episódio, o juízo da artista virou ao avesso, causando-ma sérios problemas mentais que aprendeu a controlar e a vencer, buscando na música e na sua fé mil razões para existência. “Nessa altura, nós tentamos reintegrar a Zena no mercado, mas, infelizmente, as pessoas já haviam interiorizado que ela era uma doente. Chegavam a dizer que era maluca. E assim ela ficou sem poder reviver seus momentos de glória”, disse Maria Cossa, amiga de Zena Bacar, da instituição que a agenciava, RAM Multimédia. Maria Cossa cuidou de Zena Bacar nos momentos mais difíceis.

Zena foi devota. Nasceu muçulmana, mas tornou-se cristã, preservando a indumentária macua e o seu estilo de vida. De tanto ser devota, doou os bens conquistados nos momentos áureos do seu grupo Eyuphuro à sua igreja. Isso aconteceu porque a cantora experimentou uma estabilidade social e financeira por via da música. Sempre a música. “Zena doou os seus bens à Igreja Universal do Reino de Deus. No princípio deste ano, ela pediu que a Igreja lhe devolvesse a casa. Ela não falou pessoalmente com a Igreja. Eu cuidei disso. E, pela boa-fé que a Igreja teve, devolveu a casa semana passada. Mas ela não teve tempo de voltar para a sua própria casa”, explicou Maria Cossa, acrescentando que a cantora esteve, muitas vezes, rodeada de pessoas de má-fé, como empresários que se aproveitaram não apenas dela, mas de toda a banda Eyuphuro. “Por exemplo, há à venda discos da banda Eyuphuro um pouco por todo o mundo, mas não sabemos para onde é canalizado o dinheiro. Nenhum membro da banda tem informação de nada”.

Depois de viajar por África, Europa e América, Zena Bacar passou por muitas dificuldades financeiras. Sobreviveu em condições precárias, em Maputo, mas não perdia o riso e esse sentido de mulher embondeiro, com os pés bem firmes na terra que se prepara para levar o seu corpo ao abismo.

Zena Bacar cedeu à morte, na madrugada de domingo, 24 de Dezembro, depois de ter passado mal por volta das 2h. Quando a irmã com poucas posses apercebeu-se do seu estado crítico, ligou para alguns familiares, que a ajudaram a encontrar um carro que a levou ao Hospital Central de Nampula. Já não dava para mais. Zena morreu pelo caminho.

A trilogia de uma carreira acentuada

Zena Bacar Ali é a figura de vanguarda dos Eyuphuro, uma banda formada em 1981, com vários êxitos que conquistaram os amantes da música nacional. Na verdade, ao lado de Omar Issa, Gimo Remane, a cantora levou a banda, que lançou seu primeiro álbum em 1990, intitulado Mama Mosambiki, aos ouvidos do mundo, com composições que oscilam entre o universo emakuwa e uma visão abrangente sobre a vida.
11 anos depois, em 2001,  Eyuphuro voltou à carga para lançar seu segundo álbum, intitulado Yellela, produzido por Roland Hohberg, nos estúdios da Mozambique Recording. A banda teve ainda o terceiro disco, 25 Anos, incluindo gravações realizadas nos estúdios da BBC.
Zena Bacar Ali nasceu a 25 de Agosto de 1949, em Nampula, local onde a morte a escolheu para se despedir deste mundo que não a soube manter em terra por mais tempo.

 

 

Nos últimos tempos, Zena Bacar esteve internada durante três meses, na enfermaria de cirurgia ortopédica do Hospital Central de Maputo, onde, de acordo com Maria Cossa, uma amiga que a acolheu em momentos difíceis, recebeu apoio da Ministra da Saúde, Nazira Abdula. Bem dito, Maria Cossa conviveu com a vocalista dos Eyuphuro numa altura em que a RAM Multimédia (que a agenciava) pretendeu relançar a carreira da muthiyana. Foi Maria Cossa quem cuidou do internamento da cantora. Ainda assim, o abraço da morte à amiga a acolheu de surpresa, quando foi informada esta manhã.

Conforme lembra Maria Cossa, Zena Bacar percorreu o mundo nos momentos áureos do seu grupo Eyuphuro. Nessa altura, a artista ganhou estabilidade social e financeira, mas, segundo explica, nem sempre Zena Bacar esteve rodeada de boas pessoas. Por perto, de acordo com Maria Cossa, a cantora teve muitos empresários de má-fé, que se aproveitaram não apenas dela, mas de toda a banda Eyuphuro. “Por exemplo, há à venda os discos da banda Eyuphuro um pouco por todo o mundo, mas não sabemos para onde é canalizado o dinheiro. Nenhum membro da banda tem informação sobre nada”, disse a amiga, acrescentando: “Zena doou os seus bens à Igreja Universal. No princípio deste ano, ela pediu que a Igreja lhe devolvesse a casa. Ela não falou pessoalmente com a Igreja. Eu cuidei disso. E, pela boa-fé que a Igreja teve, devolveu a casa semana passada. Ela não teve tempo de voltar para a sua própria casa”.

De acordo com Maria Cossa, Zena Bacar teve apenas um e único filho, que morreu em Portugal. Zena não chegou a enterrar o filho, e isso trouxe-lhe muitos transtornos e perturbações mentais. “Nessa altura, nós tentamos reintegrar a Zena no mercado, mas, infelizmente, as pessoas já haviam interiorizado que ela era uma doente. Chegavam a dizer que era maluca. E assim ela ficou sem poder reviver seus momentos de glória”.

 

Autores importantes da música moçambicana não se calaram, diante da morte de Zena Bacar. Um dos músicos que interveio a respeito da morte da cantora foi José Mucavel, quem considera que Zena Bacar é uma figura que não foi valorizada em vida, “porque nós somos assim em Moçambique. Ela não era uma mulher qualquer. Por isso, sempre a chamei de primeira-dama. Ela tinha tanto estatuto que merecia este meu tratamento”.
José Mucavel conheceu Zena Bacar em 1978, quando fazia pesquisa para o projecto Compasso I. Foi antes da criação de Eyuphuro. Na altura, o músico até quis fazer parte da banda, quando estava em Nampula, mas teve que voltar para Maputo antes. “No primeiro dia que eu ouvi Zena cantar, eu vinha do grupo RM e já tinha escutado muitas vozes, fiquei bastante impressionado. Ela tinha uma garganta especial e uma voz pura e potente. Até a criação de Eyuphuro eu acompanhei-a muito. O funeral da Zena deveria ser algo nacional. É claro que os políticos não ligam à cultura e às artes como nos outros países. Se eu fosse Ministro da Cultura, eu proponha meu governo para fazer um funeral nacional desta senhora. Uma cidadã com muito valor”, disse Mucavel.
De acordo com Omar Issa, co-fundador dos Eyuphuro, Zena foi uma moça que sempre quis cantar. “Inicialmente, quando a conheci, ela nunca tivera contacto com um conjunto de música ligeira. Ela cantava nos bairros, ela tinha boa voz. Fizemos o grupo, e, a seguir, surgiu a primeira digressão. É uma perda grande para a música moçambicana, porque não vai existir mais uma voz igual a aquela”.
Elvira Viegas também teceu um comentário sobre Zena Bacar, frisando que a cantora tinha um bom senso de humor. “Por detrás daquela mulher alegre, escondia-se uma dor intensa. Mas ela sempre se mostrou forte, mesmo doente”.
Depois de muito tempo internada, foram 91 dias, os médicos do HCM disseram que ela estava 70% recuperada. Então, uma prima a levou para Nampula. Mas lá, de ontem para esta madrugada, adoeceu e perdeu a vida no hospital. “Nós perdemos um grande ícone da música moçambicana. Se o nosso ARPAQ poder preservar todo o seu manancial seria muito bom. Apelo que a UEM recolha algumas obras de Zena Bacar porque podem ser objecto de estudo. As suas músicas tinham um bom conteúdo e uma intervenção social. Ela foi uma mensageira da paz”.
No mesmo tom, Wazimbo disse que a morte de Zena Bacar é uma perda irreparável pelo facto de Nampula ter perdido o símbolo da cultura macua. “Vamos levar muito tempo até que apareça uma voz límpida, uma voz suave como era a da Zena Bacar”.
Com vários anos de diferença, Valdemiro José teve a oportunidade de partilhar o palco com Zena Bacar. Para o artista, foi uma experiência muito boa na qual se surpreendeu a cada momento em que estiveram juntos. “Ela estava sempre animada, sempre a correr de um lado para o outro, muito traquina. Zena Bacar marcou a música moçambicana e a minha também. Agora, temos de fazer de tudo para que a sua vida não morra também. Temos de eternizar o caminho que ela percorreu ao longo da sua vida. Zena Bacar foi exemplo de luta, de humildade, de alguém que veio de baixo e atingiu altos patamares. Temos que nos espelhar nela porque, muitas vezes, há muita gente que se preocupa em fazer música, mas não carreira. Os jovens devem se preocupar com trabalho. Se não, daqui a algum tempo não vai sobrar nada para a geração vindoura”, vaticinou Valdemiro José.

 

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