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O grupo teatral Mahamba vai estrear, ainda este semestre, um novo espectáculo, intitulado Negócios da guerra. Ainda sem data e local de apresentação ao público, a peça teatral é uma espécie de continuação de uma outra do mesmo grupo: Culpado? combati um bom combate, pois os actores sentiram a necessidade de tecer um certo complemento da história contada naquela obra.

 

Assim, o novo espectáculo de Mahamba vai mergulhar os espectadores em contextos movidos pela guerra, vai questionar ou problematizar a origem da riqueza de um certo personagem, tocando em negócios de diamantes, desvendando interesses ocultos que mexem com o controlo de minas e subornos.

 

O espectáculo está a ser preparado para ter cerca de 50 minutos, segundo o texto de Dadivo José, mas ainda é prematuro saber-se quanto tempo terá exactamente, afinal os ensaios vão começar dentro de poucos dias, pois, um dos actores, Horácio Guiamba, está ainda numa temporada com Gungu.  Além de Horácio Guiamba, integram no espectáculo mais dois actores: Dadivo José e Milsa Hussene.

 

Inicialmente, a encenação do espectáculo Negócios da guerra foi confiada a Maria Atália, mas, por se encontrar a fazer uns trabalhos na China, a artista não vai poder participar na produção da peça nessa condição. Assim, abre-se a possibilidade de o encenador ser Elliot Alex e/ou Venâncio Calisto.

 

 

 

TEATRO TRIUNFA EM 2018

Para Mahamba, e Dadivo José em particular: “2018 foi positivo, marcado por uma estreia em jeito de monólogo ‘microfone quebrado’, peça escrita e encenada por mim, interpretada por Fernando Macamo, estudante finalista de curso de teatro na ECA. Ainda em 2018, Mahamba esteve envolvido numa digressão pela Europa e África do Sul, cimentando as parcerias e perspectivas teatrais de outras paragens. Em finais de Setembro, mais uma actuação no festival internacional Botho, em Durban, com a velha conhecida peça teatral Culpado? Combati um bom combate”.

 

Diante dos feitos apontados, Dadivo José ficou com boa impressão do ano passado, no qual o seu grupo conseguiu envolver-se com as comunidades, actuando nas escolas, aonde levou educação rodoviária, ferroviária (em parceria com a Metrobus). De igual maneira, Mahamba levou mensagens relacionadas com a prevenção da malária, na Zambézia, cidade e província de Maputo. E para o país em geral, houve produtividade teatral? “Sinto que apesar das ‘mesmices’, assistimos um movimento jovem muito forte. Há ‘crianças’ fazendo um bom teatro. Exemplo de Venâncio Calisto, um jovem recém-graduado da ECA que vai trilhando já o seu caminho. O Festival de Inverno continua sendo o espaço privilegiado para os grupos amadores. Espaços como Fundação Fernando Leite Couto e Centro Cultural Brasil-Moçambique vão disfarçando a falta de espaços, ou ausência de uma programação séria e alguns teatros renomados”.

Referindo-se ao envolvimento do Ministério da Cultura e Turismo na causa dos actores, Dadivo José entende que aquela instituição já faz bem em criar condições para que o actor seja reconhecido como entidade artística local. “Entretanto vejo com alguma tristeza, alguns espaços comunitários nos bairros que dariam bons centros culturais e dinamizadores de teatro. Se o ministério quiser, estaremos muito interessados em contribuir com um movimento de revitalização de espaços comunitários locais para que o teatro seja uma festa popular, a imagem do que faz o grupo Makweru com o Festival Kupanda”, garantiu o artista, defendendo que a criação da AMOTE, a primeira associação teatral no país, constitui um dos maiores marcos do ano passado. Paralelamente a esse feito, “contribuiu para que o ano teatral fosse bom a grande produção da ECA, Mwango e Mwanga. Também gostei do espetáculo À espera de Godot, protagonizado por dois finalistas da ECA, Castigo e Fernando”.

 

 

O QUE SE DEVE ESPERAR DO TEATRO NOS PRÓXIMOS MESES

Para que o teatro moçambicano continue trilhando o seu percurso rumo ao sucesso, Dadivo José sugere que, neste 2019, os actores passem a explorar espaços que aparentemente não são propícios para a prática teatral. “No fim do dia vamos descobrir que temos tudo que precisamos: talento e obras”. E o actor acrescenta: “Trabalhar com profissionalismo, dedicação, rigor e fazer a crítica sem medo de ferir suscetibilidades. Abandonar o hábito de não tocar em velhas raposas, para promover um diálogo são entre a velha e nova geração. Aproveitar a associação AMOTE e os poucos festivais que temos para ensaiar a venda do produto. Para isso há que estabelecer uma relação muito forte com as escolas secundárias e quaisquer outros centros de concentração juvenil”.

 

O que não deve acontecer este ano, para o actor do grupo Mahamba e que não se justifica, é a péssima qualidade de alguns renomados. “Não justifica que anos depois continuemos a ver as mesmas tendências e sem crescimento qualitativo. Porque não criarmos bem para depois revindicarmos espaços e financiamentos? Outra questão, quem devia financiar tem a noção do que faz? Significa que alguma coisa está errada nos nossos consumidores. Precisamos de colocar o consumidor em posição privilegiada de escolha. Só assim saberá o que é bom e o que é ruim, que, vezes sem conta, é impingido a gostar sem saber”.

 

À parte o envolvimento governamental, Dadivo considera que o sector privado deve acreditar que o teatro pode ser uma boa propaganda para os seus produtos ou serviços. E porque o teatro moçambicano é muito urbano, em que poucos conseguem sair da sua cidade para outras do país, o artista vê um perigo: juventude contaminada pelo álcool nos subúrbios.

 

 

Já lá vão quatro décadas, desde que P Mourana começou a viagem pelo universo das artes plásticas. Para assinalar a rara efeméride, o pintor da Liberdade, natural da cidade de Maxixe, vai promover as suas obras e o seu imaginário em exposições individuais, em Maputo, nos próximos meses.

As actividades de P Mourana vão iniciar em Março, mas prevê para Junho um momento especial da comemoração dos seus 40 anos de carreira artística. A essa altura, portanto, daqui a seis meses, Mourana vai apresentar ao público a exposição Retrospectiva, na qual, depois de seleccionar as obras produzidas ao longo dos anos, irá reconfigurar o trajecto criativo por si percorrido. A ideia é que os apreciadores das artes em geral e da sua em particular possam compreender por que metamorfoses passou o autor que continua a amar a magia das cores com o mesmo fervor.

A primeira exposição de P Mourana realizou-se em 1979, com Vítor Malate, na altura em que tirava o curso de professor. Entre fantasias e determinação, as imagens da criatividade não foram sempre feitas de cor-de-rosa. Longe disso. Como em tudo, o artista enfrentou momentos menos conseguidos. Dos mais complicados, destaca os anos da década de 80, em que teve falta de material e de oportunidades para se apresentar em exposição. “Veja que, depois da minha primeira exposição, em 1979, só reapareço numa individual em 1993. Aqueles foram anos mais complicados e mais difíceis porque no país também existia uma forma de exclusão dos artistas mais novos, que apareciam com novas temáticas. Agora é diferente. Jovens aparecem espontaneamente e logo recebem apoio, desenvolvem-se e vão crescendo. Antes não era assim”

De acordo com P Mourana, as artes plásticas no país estão com boa qualidade, pois os artistas têm conseguido aprofundar mais conhecimento. Nisso, “penso que a Escola Nacional de Artes Visuais tem ajudado muito na prospeção de jovens artistas. Agora ficou mais fácil organizarmos uma exposição colectiva sem recorrermos sempre às mesmas pessoas. Temos novos valores”. O que não deve faltar, diante da qualidade aparente, é trabalho e organização, mesmo porque o público moçambicano tem ficado mais exigente. Assim sendo, Mourana avança com uma recomendação: “o artista não faz aquilo que é comum, faz algo especial em relação à maioria. Não basta só pegar o pincel e pintar. Uma obra de arte deve ter alma, mexendo com as pessoas”. 

Uma das coisas que mais marcou a carreira artística de P Mourana foi a colaboração com a BDQ Concertos, que lhe permitiu expor suas obras durante a realização de espetáculos musicais de dimensão internacional. “Sempre tive esse projecto de fazer uma exposição de um dia, num espectáculo, unindo a música às artes plásticas. Foi um grande desafios este de colocarmos espectadores a contemplarem telas num evento em que no palco estavam nomes como George Benson ou Richard Bona. Mas nós conseguimos fazer isso com êxito. Isso marcou-me muito nesses quarenta anos que pretendo celebrar durante todo 2019”.

 

A SÍNTESE DE UM TRAJECTO

P Mourana é nome artístico de Pedro Mourana. Nasceu a 14 de Setembro de 1961, na cidade de Maxixe, Inhambane. Desde tenra idade interessou-se pelo desenho. A sua obra exalta o amor, a música e temas ligadas ao meio ambiente. Interessa-se muito no diálogo entre artes plásticas e música. Ilustrou livros de banda desenhada, no Instituto Nacional do Livro e do Disco; ganhou concurso para elaboração do logotipo da CNE. Já expões em seis individuais e em mais de 20 colectivas. Além da BDQ Concertos, conta com apoio da Fundação Sérgio Gago.

À imagem do que afirmou há dias Venâncio Calisto, encenador laureado figura do ano do Prémio Artes e Cultura para categoria de teatro pela Associação Kulungwana, Gilberto Mendes também entende que 2018 foi um ano muito produtivo para arte dramática. Concorreu, nesse sentido, a execução de espectáculos interessantes, como “Mwango e Mwanga a partir de Bastien und Bastienne, de W. A. Mozart”, exibida no fecho do ano da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM.

De acordo com Gilberto Mendes, houve, ano passado, um incremento de produção audiovisual. “Nós, os actores, normalmente usamos o teatro como campo de treino para fazermos cinema e televisão. E, a este nível, houve também um incremento de seriados e telenovelas que vão sair nos próximos meses. 2018 foi sem dúvida um ano muito produtivo”.

E, de tanto produtivo que foi, segundo o actor, 2019 promete porque muito do trabalho que começou ou foi produzido ano passado vai sair neste: “além de telenovelas e filmes, vão sair seriados também, feitos por actores de teatro. Digo de teatro porque existe um cinema que é feito por actores esporádicos no país”.

Mendes encara 2019 como o ano da conquista audiovisual, em que os actores vão procurar fazer com que a arte dramática passe para o pequeno ecrã e tenha a capacidade de impulsionar a adesão às salas, de modo que surjam mais grupos constantes a fazer teatro, afinal “não tem existido nenhum outro grupo, com a excepção de Gungu, que tem conseguido estar em cena todo o ano. Não tenho memória de uma outra instituição cultural que fica em cena durante todo o ano, com os seus próprios espectáculos. Portanto, o desafio é que os grupos teatrais moçambicanos consigam fazer o mesmo que a Companhia de Teatro Gungu ou que pelo menos aproximam-se dela, com muito público”.

Como forma de os grupos alcançarem a proeza da Campanhia Gungu, Gilberto Mendes propõe que os artistas do drama tenham muito foco, porque não é fácil estar tanto tempo em palco. “Nós somos capazes de ir para o Guinness, porque mesmo a nível internacional, não tenho memória de um grupo que tenha ficado 26 anos de forma interrupta nos palcos. E a arte dramática não é aquela arte popular como a música, como a dança. Por isso nos sentimos com uma sensação de dever cumprido. Sabemos que é complexo montar um espectáculo, manter a coesão, a coerência de textos e a linha de trabalho do grupo, fazendo com que o público se mantenha fiel durante 26 anos, de sexta-feira a domingo, todos os fins-de-semana.

De tanta adesão que Gungu registou, teve de criar muitos grupos dentro da companhia, que vai alternando as peças. Se de 2017 para 2018 transitou com a peça Jogo de intrigas, tendo exibido posteriormente Amor, aguenta e My Love, de 2018 para este ano a companhia atravessou com o espectáculo Mãe coragem. No último ano todos os grupos da companhia entraram em cena. O grupo principal ficou em palco um mês, em Maputo, mas teve a oportunidade de exibir espectáculos teatrais noutras províncias do país, designadamente Nampula, Sofala, Tete e Gaza. O espectáculo escolhido para o périplo foi Jogo de Intrigas e Sexo fraco. “A ideia foi levar os espectáculos aos espectadores. As pessoas que não têm como vir a Maputo devem ter possibilidades de ver nossas peças teatrais”.

Em termos de produtividade, assume o actor, Gungu manteve o ritmo. “O nosso foco é sempre ter espectaculos em todos os fins-de-semana, e isso aconteceu ao longo de todo o ano passado. Em termo de público houve muita oscilação, muito por conta da crise. Tivemos momentos de pico e alguns momentos mais embaixo. Mas, regularmente, a sala estava sempre preenchida”. A diferença é que antes a companhia esgotava mais a sala e as peças levavam mais tempo. Com uma peça esgotada, antes, uma temporada levava seis meses. Agora, o prazo diminuiu para quatro meses. Por um lado, para dar oportunidade aos grupos de rodarem, de modo que todos os grupos possam fazer representação, e, por outro lado, porque o público já não repete tanto as peças como repetia antigamente, diminuiu o fluxo de repetições.

A peça mais concorrida do Gungu, ano passado, foi My Love, mas a que mais marcou Gilberto Mendes foi Mãe coragem, segundo o artista, das mais bem conseguidas do grupo. “A peça está com uma história muito bem alcançada. A Juju, que fez a encenação desta peça, está de parabéns, fez um belíssimo trabalho, tal como os actores, que fizeram uma excelente interpretação. É das melhores peças que Gungu fez ao longo dos 26 anos”.

A peça Mãe coragem ainda está em exibição.

 

Referindo-se ao que caracteriza a situação do cinema no país, Licínio Azevedo lembrou que o grupo de cineastas em Moçambique é muito pequeno. “A maior parte de nós foi formada, já naqueles anos, no Instituto Nacional do Cinema, como Sol de Carvalho, João Ribeiro e eu próprio, que aprendi fazendo trabalhos práticos. Agora, o que precisamos fazer é apostar na nova geração. Há muitos jovens – e eu tenho visto, alguns formados no IsArc, outros na Universidade Eduardo Mondlane, penso que também tem um curso de cinema –, mesmo sem formação nenhuma na área do cinema, se calhar motivados pelos nossos trabalhos, que têm uma paixão enorme e que têm dado muito de si com pequenas produções interessantes. Esses jovens têm que ter apoio para poderem desenvolver o seu trabalho. Quem sabe no meio desses 20 ou 30 jovens possamos ter no futuro uma meia dúzia de excelentes cineastas fazendo grandes obras no futuro”, sugeriu o autor do premiado Comboio de sal e açúcar.

À imagem de Sol de Carvalho, que não compreende o tão tardio incentivo ao cinema, Licínio Azevedo também lembra que Moçambique tem uma Lei do Cinema, que foi aprovada há dois anos, a qual prevê um fundo, que, agora, com a desvalorização do metical já não deve ser grande coisa. Para o realizador é fundamental que exista um fundo nacional para o cinema e que uma grande parte desse fundo seja dirigida, primeiro, às obras, e, segundo, aos jovens talentosos que estão a sair da escola, os quais, naturalmente, não têm condições para concorrer ao fundo com cineastas que já possuem três ou quatro filmes. E Azevedo adianta: “se esse fundo existir e estiver disponível, um jovem recém-formado pode concorrer para que tenha as suas primeiras três obras financiadas, filmes pequenos, curtos, sejam de ficção ou documentário. Financiado, se ele demonstrar talento, pode participar em festivais no estrangeiro e concorrer a fundos internacionais para obras mais ambiciosas”.

De acordo com o autor de Comboio de sal e açúcar, filme adaptado do seu livro com mesmo título, essa aposta nos jovens tem que acontecer em Moçambique, de modo que daqui a cinco ou seis anos tenha-se mais cineastas dentro do universo que considera muito fechado, bastante difícil e bastante cruel.

Licínio Azevedo entende que o país tem muitos actores, mas, infelizmente, que não são actores de cinema porque os intervalos entre um filme e outro no país é prolongado. Ainda assim, “temos actores de teatro que facilmente adaptam-se no cinema. Portanto, temos material e actores suficientes, o que não temos são produções para que os nossos actores possam viver do cinema. Por isso é importante que os nossos actores possam ampliar o seu mercado, internacionalizando-se, pois assim poderão trabalhar com cineastas de outros países africanos. Depois de Comboio de sal e açúcar, Melannie de Vale conseguiu despertar em outros cineastas africanos o interesse de se trabalhar com ela”.

 

Apreciando o que foi 2018 em termos cinematográficos, Ana Magaia não tem dúvidas de que ao nível da sétima as coisas estão a acontecer, mas não como se pretende. Ainda assim, num contexto em que se registam várias vicissitudes no país, para a actriz, os artistas continuam a fazer a sua parte de maneira que a sétima arte continue bem hirta. E, neste contexto, ao contrário do que se diz mal da juventude, “os jovens vão criando, vão esculpindo, vão pintando e vão dançando bem. A cultura está viva e, para que continue, devemos apostar cada vez mais no capital humano, sobretudo na juventude, com quem devemos partilhar conhecimento porque nós da geração pós-independência não somos eternos”

Com efeito, neste ano que acaba de iniciar, Ana Magaia espera que o cinema tenha mais investimento porque é uma arte que abrange todas outras e a vida de uma sociedade. “Quando os filmes estão na tela, conseguimos retratar a nossa vida, não só de moçambicanos, mas de todo o mundo em geral”.

Em 2018, Ana Magaia representou avó Catarina no filme Avó Dezanove e o segredo do soviético, de João Ribeiro. A artista considera que o filme foi cientificamente bem conseguido “e foi bom voltar a participar como actriz, o que não fazia há muito tempo. Foi bom contracenar com um dos melhores actores que conheci na minha vida, o menino Keanu”.  

Com a aprovação da Lei do Cinema, abriu-se uma janela de esperanças para os cineastas moçambicanos. No entanto, não se passou disso. De esperança em esperança, chegou-se à decepção, pois, segundo Sol de Carvalho, o que era para ser um ano de mudanças positivas acabou sendo mais um longo período em que os cineastas caminham sozinhos, sem apoio interno.

“Tenho pena de dizer que não posso estar muito satisfeito com o que 2018 foi em termos de cinema”. Assim começou o discurso de Sol de Carvalho ao referir-se aos feitos alcançados pelo país nos últimos meses, pois olhando para trás, o realizador vê expectativas frustradas em relação às medidas que já deviam ter entrado em vigor para impulsionar o fomento à sétima arte.

Sol de Carvalho acredita que a esta altura o cinema moçambicano pudesse estar a gozar de um bom momento, fruto de mudanças fortes porque em Janeiro de 2017 foi aprovada a Lei do Cinema e logo a seguir o regulamento, o qual dizia que no dia 31 de Outubro a instituição encarregue pelo cinema no país iria publicar no seu site ou nos órgãos de comunicação social os regulamentos dos concursos que seriam lançados no ano seguinte. A verdade é que em 2017 e em 2018 não houve mais informação a respeito. Aquilo que seria a grande mudança que os cineastas aguardavam, que era o Estado dar finalmente um apoio, não existiu, mesmo na sequência de uma Lei que tinha sido aprovada por unanimidade no Parlamento, onde nem houve conflitos de interesses dos partidos. “Sabemos, porque, enfim, a cidade é pequena e falamos uns com os outros, que alguns passos foram dados no sentido de as televisões privadas e operadores de televisão passarem a dar uma percentagem para o apoio ao cinema, mas não aconteceu nada específico até agora, pelo menos ao nível público não.

Esta situação de abandono é infeliz, segundo Sol de Carvalho, pois, explica: “nós, os cineastas, não podemos produzir filmes sem ter o mínimo de recursos financeiros. O cinema e o teatro são manifestações em que, logo à partida, temos que investir dinheiro em equipamento e tantas outras coisas.

Considerando a história do cinema moçambicano, esperávamos que esse apoio aos cineastas tivesse acontecido este ano”.

Se, por um lado, tarda a materialização de uma lei aprovada por unanimidade, por outro, o país peca por não conseguir garantir quadros qualificados para a produção da sétima arte.

“A formação que está sendo feita em Moçambique, ao nível do cinema, no meu entender, não é satisfatória, ou seja, não permite que pessoas que estão a sair da universidade com uma toga ou um chapéu possam ser lançados ao mercado e fazer cinema de Moçambique. Eles vão fazer cinema da mesma maneira que eu posso jogar futebol, sem ser um jogador profissional. Talento existe e é muito, nunca deixamos de ter ao longo desses ano que se seguiram a independência nacinal, mas a formação é fraca”. E Sol de Carvalho acrescenta, adiantando uma sugestão: “É preciso que as instituições responsáveis por esta área tomem em atenção que não basta estar a dar um curso de formação e dar um doutorado para depois dizer-se que essa pessoa pode fazer cinema. Não pode. Nada vale ter um doutorado se não se consegue correr. Temos que preparar de forma devida os nossos formandos. É uma questão de apoio e suporte. Eu trabalhei com alguns alunos para o meu último filme e fiquei espantado com a falta de conhecimento que eles tinham. Fiquei satisfeito pela disponibilidade e interesse”.

Este ano, Sol de Carvalho estreou Mabata Bata, no Cine Scala, na cidade de Maputo, filme adaptado do texto de Mia Couto, um dos que constitui o livro Vozes anoitecidas, publicado há mais de 30 anos. Neste Janeiro, a exibição terá lugar no Chibuto, província de Gaza, e em Inhambane. De acordo com o cineasta, o filme está a ser muito bem recebido. As pessoas gostam muito da ideia do filme ser falado em changana. É importante tentarmos fixar línguas locais. Internacionalmente, já ganhei dois prémios e espero coloca-lo em cinco festivais”.

BOM ANO EM TERMOS DE PRODUÇÃO
Ainda que tenha faltado apoio interno à realização de filmes, em termos de produção anual, 2018 foi um bom ano, segundo entende Yara Costa Pereira, realizadora que estrou há seis meses Entre eu e Deus, seu primeiro documentário longa-metragem, a qual teve boa repercussão. Para este 2019, à imagem de Sol de Carvalho e tantos outros cineastas nacionais, Yara Costa Pereira espera maior fomento ao cinema, desde apoio para produção das obras até à distribuição. Assim, acredita a artista, será possível contar melhores histórias sobre Moçambique e os moçambicanos.

O investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra António Pinto Ribeiro afirmou, em Paris, que em Portugal há um "problema gravíssimo" de não haver listagens das obras de arte que podem ser reclamadas pelas ex-colónias.

"Em Portugal, temos um problema gravíssimo: não há listagens (de peças de arte vindas das antigas colónias) nem em relação aos museus, nem aos arquivos. Muitos destes objectos estão nas reservas, nem sequer estão expostos. Podem ser 10 mil, 50 mil ou 80 mil. Os próprios directores dos museus não sabem", afirmou o ex-curador da Fundação Gulbenkian, defendendo que esta deverá ser "uma tarefa prioritária" dos próximos governos.

O investigador, ex-curador da Culturgest, esteve na delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, onde falou sobre a problemática da descolonização dos museus, coincidindo com o dia em que foram parcialmente conhecidas as conclusões do relatório, pedido pelo Presidente de França, Emmanuel Macron, sobre a restituição de colecções de arte africana existentes em França.

Por: Maria do Rosário Amaral, Prof., docente na Universidade Pedagógica da Beira

A obra “mundo grave” é uma narrativa policial. Considerado irmão menor das letras, o romance policial não é foco de atenção da crítica, o que leva, por vezes, ao equívoco de supor improcedente a sua análise.

Exposta a observação, foquemo-nos no livro. À semelhança de qualquer outro livro do mesmo género (lembremos Agatha Christie ou Conan Doyle e os seus investigadores Hercule Poirot e Sherlock Holmes), “mundo grave”, ainda que integre aspectos tanto do romance de detective como do de polícia, surge-nos estruturado de forma modelar e com normativos de todos conhecidos: um vilão (‘um vulto invisível’, inicialmente, e mais tarde sob o nome de “Azevedo Marroquim”) altera a ordem socialmente estabelecida, pela prática “do clássico crime perfeito” ou de vários crimes –, sobrepondo-se às leis ou à justiça, num ajuste de contas com o assassino, pela morte de uma prostituta de nome ‘Shonga’, que amara com paixão profunda e desenfreada, gerando o caos; um narrador que complexifica, adensa uma trama (dividida por vários capítulos e distribuída por duas partes), fonte de mistério, e deixa cair a dúvida, a incerteza e a hesitação sobre os ou o potencial infractor.

Um leitor entretém-se, mercê da sua própria lógica, a colocar as peças num puzzle que sabe, à partida, que só um detective ou um policial arguto – “Costley Liyongo” –, de discernimento invulgar, acabará por solucionar. É o narrador que se adianta ao leitor, sem que este dê por ela!

Um complemento à narrativa é-nos apresentado entre os capítulos vinte e oito e quarenta: o desvelamento dos antecedentes que determinam a morte da família do investigador. É a história dentro da história (a chamada “narrativa moldura”), sombras a si coladas, que contraem a obrigação de procurar no irracional a razão do aparente inexplicável e que a primeira parte deixa inconclusiva.

No relato da sequência de eventos procurou Pedro Pereira Lopes provocar, em quem lê, alguma estranheza. Transgressões às regras de pontuação, a lembrar, de algum modo, entre outros, o galardoado com o prémio Camões em 1995 e Nobel da Literatura em 1998, José Saramago, com o uso de minúsculas após ponto final ou parágrafo, ou após os nomes próprios, apelidos e as siglas das instituições; as vírgulas dobradas/aspas onde classicamente encontramos os dois pontos e o travessão. Podemos, então, falar do estilo do autor. Cada criador procura dar um cunho pessoal à sua obra, digamos, deixar a sua marca.

No “mundo grave”, Pedro Pereira Lopes insere o decorrer da acção num contexto que considera as próprias coisas, emprestando à diegese uma imagem verídica – o bar da casa da cultura no alto-maé, uma suite de hotel que ruía aos bocaditos, a frente do teatro gilberto mendes, a feira popular e a marginal ou a casa do capitão em Inhambane.

A visão da realidade também nos é dada pelo carácter de um autor que se exprime sem rodeios, de maneira crua, às vezes de digestão difícil, em temas que se sobrepõem. Um deles é o da pobreza – material e imaterial – e da sua integração no ambiente familiar. Com a conivência de todos, progenitores e descendentes, “Shonga”, aprende cedo a arte de sedução, do amor comprado e vendido, para ajudar a suprir as faltas na casa.

Formas de lenocínio podem ser encontradas noutras personagens: companheiros e companheiras mais velhas de “Shonga”, mas igualmente nos que supervisionam e coordenam acções de contra aliciamento, acabando por fruir da própria inércia e incapacidade das instituições, ou a de actuar à sua margem, p.65: depois do enterro, azevedo marroquim levou as cinco mulheres às suas casas. algumas moravam em tão remotos e novos subúrbios que o asfalto não existia, em um deles, que crescia sem alguma planificação do espaço, a água canalizada e a corrente eléctrica eram um sonho longínquo. azevedo pareceu condoer-se com o infortúnio daquelas mulheres, a vida era dura para elas do mesmo modo que fora para shonga.

Outra realidade subjacente à diegese é a da liberdade, mas também a do desregramento, da vida libertina, fronteiras ténues quando falamos da dualidade África – Eros. Ligada pelo cordão umbilical à terra fértil, fecunda, a menina africana chega cedo a mulher. E desenvolve-se agindo de acordo com as leis da sua natureza, igualando-se, nas pulsões, ao elemento masculino, a lembrar um tempo anterior aos imperativos de qualquer ordem, seja o da família – mesmo a alargada –, seja o civilizacional.

Uma das personagens do “mundo grave”, situa-a Pedro Pereira Lopes, sob o signo não da procriação, mas no da criação. Livre demonstra ser “Shonga”, quando recusa o papel (profusamente instituído em qualquer sociedade) de mulher e mãe, rejeitando qualquer dominação; ou quando, já não precisando do dinheiro para ajudar a família, mantém, por gosto, a prática da troca de favores. É a vida fascinante, temulenta, que suspende a eficácia das normas, que se acena ao leitor. É o puro prazer dos sentidos, é o dionisíaco e não o apolíneo, componente presente em todas as latitudes e em todas as épocas, aliás, tão velha quanto o tempo.

A vingança, por força do subgénero em que se inclui, é peça primordial de um jogo de que o leitor já participa desde que iniciou a apreensão do sentido do texto. Duas leituras se entrecruzam: uma, a das imagens primordiais, dos resíduos primitivos, da relação contingente entre o masculino e o feminino, que continuam a agir no seio da civilização; outra, paradoxalmente contrária, a do restabelecimento da ordem numa situação de desordem e que carrega consigo um dos elementos simbólicos que constituem o equilíbrio da convivência social, o do sentido de justiça. A inexistência de uma explicação, a ausência do nome de um culpado, mesmo que sem culpa, apenas presumível, é directamente proporcional à ineficácia da aplicação da lei. Um crime não pode ficar sem castigo.Com o objectivo de reduzir a impunidade desacreditando na polícia de investigação criminal, uma outra personagem vai eliminando, um por um, todos os que lhe parecem ser culpados, sem questionar, uma só vez, já não a legalidade, mas a legitimidade da sua actuação.

A par do plausível, crível, surge a temática canónica, do domínio do realismo mágico, que Pedro Pereira Lopes plasma ao longo de toda a intriga – a da crença, a do mundo da magia africana.

Uma forma primitiva de pensamento conduz o leitor pelo mundo do fantástico, pelas determinações eleitas por obra de um espírito que superintende, que guia as acções dos seres humanos e que exige obediência:

Pp. 61-62: “esta é a casa dos mortos!” (…) “deves procurar ajuda”, disse o velho.

azevedo marroquim assustou-se, estava sobre uma sepultura, o homem estava do outro lado …. “vai-te daqui enquanto tens tempo”

Pp. 222-223 [costley liyongo] telefonou ao curandeiro […] que perdeu ainda alguns minutos dissertando sobre os mortos [….] temos um problema … o amazimu ainda está entre nós e não vai parar enquanto não se sentir vingado.

P. 224-226: […] o livro de magia …

Totalidade dos capítulos 38 e 39:

P. 247: no mesmo instante, o curandeiro surgiu, […] e começou a dizer umas palavras sem sentido.

Não há pensamento crítico, não há lugar à capacidade reflexiva nem à discussão. Apenas um mediador, que interpreta o agir humano. A redenção, – algo que pertence ao foro do fenomenológico e não ao do ontológico –, a libertação do espírito que ficou cativo entre os vivos por uma morte fora do tempo próprio, é necessária, para a devolução da paz. O mediador, peça importante do xadrez, apenas sabe, intui e aconselha. A ordem tem de substituir o caos e assim se volta ao início da narrativa, devolvendo à terra-mãe, a materialidade, o corpo, e ao mundo dos mortos a imaterialidade.

Toda esta aparente insensatez nos é dada por Pedro Pereira Lopes, de forma criativa e bem-humorada:

Pp.193 e 194: o investigador meditava sobre a fonte daquela informação, afinal, ele mesmo tinha colocado um nome falso nos depoimentos, para fechar o número de clientes que shonga recebera horas antes da sua morte. logo que regressara de inhambane-céu, liyongo buscara pelos serviços de uma prostituta, e lhe calhara, ironia do narrador, a shonga, o resto é parte da história que lhes tenho estado a contar.

P. 203: [O director-geral da pic]: então o meu relatório! estou ansioso! Liyongo passou-lhe o relatório. [O director da pic] com um sorriso de felicidade, pensava que desta vez não lhe escaparia um alto cargo no topo do ministério do interior…era só por isso que pedira ao investigador, na noite anterior, o desfecho do caso na sua mesa.

Esta construção ou organização discursiva gera, em quem lê, uma espécie de serenidade ou aparente distanciamento, que não é, de todo, nem pacificador nem irreflectido. A ambiguidade humorística aqui patente não livra o leitor de um certo sentimento de inquietação, de um desassossego, pois aquém do riso há um incómodo que perturba e subsiste.

Transformar o pensamento em frases é uma arte e esta depende do talento de quem as sabe unir e dar-lhes sentido. Pedro Pereira Lopes está, indubitavelmente, entre os que o sabem fazer.

“Há um policiamento da própria linguagem, daquilo que é uma linguagem metafórica, poética, que parece que é uma coisa tida para os escritores, uma coisa autorizada aos poetas e isso é terrível, porque retira das possibilidades de linguagem a criação de beleza, a beleza não só na própria linguagem, mas a linguagem é uma visão do mundo e, portanto, retira beleza ao mundo e, portanto, há um empobrecimento”, considerou Mia Couto.

O escritor moçambicano foi um dos convidados do Festival Literário Tinto no Branco, em Viseu, e, perante centenas de pessoas falou de si, da sua família e da sua escrita e, num diálogo aberto com Tito Couto, seu primo, acabou por lamentar o “empobrecimento que está a acontecer na língua” a propósito do desejo do PAN de alterar os provérbios que incluam animais numa conotação negativa.

Entre uma ou outra brincadeira com alteração de provérbios, Mia Couto disse que tinha de aproveitar “e matar já todos os coelhos, com uma só cajadada, antes que depois não seja possível” e lamentou que “se empobreça a língua ainda antes de ser dita, com os policiamentos no pensamento”.

“Há uma interdição daquilo que se chama um pensamento socialmente ou politicamente incorrecto e a gente não sabe bem o que é isso e isso é uma enorme limitação, uma espécie de amputação daquilo que seria mesmo um direito de pensar errado, um direito de evitarmos isto que é um lado puritano, uma certa invasão do lado puritano, do lado que tenta purificar o mundo”, disse.

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