Esteve na cidade de Maputo e participou na terceira edição do Festival de Literatura Resiliência. Na capital do país, Carlos Reis encontrou-se com escritores, estudantes universitários e editores numa semana que coincidiu com as celebrações do Dia da Língua Portuguesa. Por isso, nesta entrevista, o professor, teórico e crítico literário fala de como a literatura e a língua portuguesa são elementos importantes na projecção da CPLP no mundo. De igual modo, o estudioso português explica o que os países membros daquela comunidade precisam fazer para caminharem em conjunto e aí beneficiarem os autores e leitores em geral. Nisso, Carlos Reis não deixa de se referir ao que considera um problema fundamental da CPLP.
Comecemos com o Resiliência. O que lhe levou a fazer parte da 3ª edição do Festival de Literatura?
Já tinha estado em Maputo e na Ilha de Moçambique. Gostei de Moçambique e as pessoas que me convidaram para o Resiliência, do lado da embaixada portuguesa, são pessoas que estimo. Certamente, iam-me convidar para uma coisa boa e bonita. Portanto, já por aí, foi uma boa razão para aceitar o convite. Depois, há uma outra razão, que tem a ver com o conteúdo em discussão. É um desafio participar nas celebrações da língua portuguesa num país que não seja Portugal. E ainda em Moçambique, onde a cena linguística é variada, diversa e até complexa. Portanto, esta foi uma boa razão para se pensar como o português convive em relação de alguma harmonia nesse cenário linguístico. Deste ponto de vista, a minha experiência foi muito interessante até mesmo no debate que tive com estudantes da Universidade Pedagógica e da Universidade Eduardo Mondlane.
Durante o festival, dirigiu uma conferência com o título “Malhas que o cânone tece: a língua portuguesa em contexto de diversidade”. Qual é a sua mensagem?
A primeira parte do título é uma paráfrase de um verso de Fernando Pessoa: “Malhas que o império tece”. Isto é, aquilo que era até algumas décadas um cânone literário único, do português de Portugal, hoje não pode ser encarado assim. Nós herdamos alguma coisa dessa ideia do cânone como algo único que hoje contrariamos. A minha mensagem é que temos de encarar com naturalidade o facto de os países que falam português, embora não só português, poderem ter cânones literários próprios. Devemos encarar sem nenhum receio, sem nenhum trauma por usarmos a palavra cânone, que não é propriamente uma imposição. Quanto à segunda parte do tema, que é aquela sobre a qual julgo ser importante mandar mensagens claras, tem a ver com o conhecimento da diversidade, ou seja, em Portugal e no Brasil entendemo-nos todos falando português, apesar de algumas variantes. Nos outros países, que são ainda recentes, a situação já não é a mesma devido à convivência do português com outros idiomas, o que deve ser encarado como uma vantagem, como mais-valia e não como um conflito entre línguas. Uma importa uma coisa da outra e a outra retribui. Só pode ser mais vantajoso para as pessoas falarem mais de uma língua. A convivência do português com outras línguas contribui para o seu enriquecimento. Evidentemente, essa convivência tem de ter em conta a autonomia de cada língua. Isto significa que a vigência de idiomas que convivem não pode dispensar instrumentos de regulação (gramáticas, dicionário, prontuários e etc.) para que nós nos entendamos.
Nesse sentido, aceita que é cada vez necessário que os portugueses conheçam melhor a cultura moçambicana e os moçambicanos a brasileira e por aí em diante?
Absolutamente. E essa é uma coisa que tenho dito e escrito. Não por estar aqui. Os portugueses devem deixar de se julgar os donos da língua. Isso atrapalha muito. É preciso que os portuguese entendam que a língua portuguesa, hoje, é um vasto condomínio com condóminos. Então as pessoas têm que se entender porque são donas da mesma coisa. Condóminos significa isso: senhores com os outros.
Que futuro antevê para língua portuguesa?
Essa é uma questão mais complexa, que a divido em dois domínios. Uma coisa é o futuro da língua dentro do universo de língua portuguesa, pluricontinental e plurilinguístico. Outra coisa, que não está separada desta, é sabermos o destino do português como língua internacional que deve ser. A primeira parte da questão pode ter resposta através do conceito cooperação. Trabalhar em conjunto tendo a ideia de que a diversidade é um valor, que as identidades são diferentes e que não se hostilizam, e que as línguas, a expressão é de Mia Couto, fecundam-se mutuamente. Agora, fora do universo de língua portuguesa, aí o português só tem vantagem em afirmar-se como idioma internacional. Isso significa ser língua de trabalho em instituições internacionais, ser língua de ensino regular em grandes países como Estados Unidos ou França, ser uma língua por onde passam várias literaturas importantes. Essa internacionalização da língua não é só uma questão de brio, é uma questão política e de poder, até económico. Isto não tem nada de opressivo com o outro. Tem que o poder da língua vai acompanhado com o poder económico, cultural, social, político e etc. Nesses tabuleiros decide-se muita coisa.
As várias literaturas escritas em português estão a conseguir exprimir a diversidade cultural dos membros da CPLP?
A literatura, aí, vai a reboque da internacionalização da língua. Uma coisa sem outra não existe. Por isso também é importante que os nossos países, no capítulo da cooperação, promovam a tradução das obras e a presença em grandes cenários. Em Outubro do ano passado, estive na Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a maior da América Latina – Portugal foi país convidado e levou alguns escritores africanos –, e apercebi-me do quão importante é fazer chegar a literatura portuguesa a um evento frequentado por centenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, pois assim os leitores e escritores ficam clientes da literatura e da língua portuguesa. Acho que os países da CPLP deveriam apostar muito nesse tabuleiro porque daí vêm outras coisas.
Os autores que escrevem em português precisam de ser traduzidos para se tornarem conhecidos internacionalmente?
Precisam ser traduzidos e não precisam. Mas a tradução é o preço que se tem de pagar pelo facto de o português ainda não ter essa projecção internacional que por ventura já deveria ter. Embora não seja falado por toda a gente, o português é uma língua de oito países. Deste ponto de vista, a língua tem de reclamar a sua importância, pois, com todo o respeito, línguas como alemão, italiano, etc., não têm a nossa história.
Como é que a CPLP pode unir-se de modo que a literatura saia a ganhar?
Continuo optimista em relação ao papel que a CPLP desempenha e tem de desempenhar, embora, por vezes, acho que não dá muita atenção ou não consegue resolver um problema (que também é de diplomacia) que é fundamental: a questão das assimetrias. Se olharmos e compararmos o PIB do Brasil com o de Portugal e São Tomé e Príncipe, com todo o respeito por estes três países que um deles é o meu, as diferenças são brutais. Isto significa que, em matérias de cooperação, não podemos todos dar o mesmo na mesma proporção. Até porque estamos em estados diferentes de desenvolvimento histórico. Enquanto não for resolvida sem preconceitos esta questão das diferenças e assimetrias, é muito difícil. E há a questão da descontinuidade. É preciso viajar muito para falarmos português fora dos nossos países. Com o espanhol, por exemplo, já não se passa a mesma coisa. Essas descontinuidades são um desafio, se quisermos, uma contrariedade que é preciso sabermos resolver. Exemplo, com a edição de livros, a circulação de artistas e a cooperação cultural. Tudo isto que fomenta o conhecimento de uns pelos outros e vice-versa.
A mobilidade…
É extremamente importante. Sem isso não é possível nos conhecermos melhor. E a CPLP deve disseminar e desvanecer os preconceitos que ainda existem, não sejamos inocentes quanto a isso, percebendo que podemos ser uma força colectiva, de entre ajudas.
Já agora, acha que o séc. XXI vai produzir escritores, teóricos e gente interessada por literatura de língua portuguesa como o séc. XX produziu?
Vai produzir de forma diferente, com linguagens e suportes diferentes. Por exemplo, se consultarmos jornais portugueses dos meados do séc. XX, vamos encontrar secções com quatro páginas sobre crítica literária. Isso já não se encontra porque hoje a literatura também convive com o cinema e com a televisão, algo que não existia naquela altura. Nada contra isso.
É estudioso muito atento à obra de Eça de Queirós e de José Saramago. Que estes autores têm de especial para si?
O Eça tem a graça, a ironia, o olhar crítico, o humor, que muitas vezes falta em Portugal, e o conhecimento extraordinário de Portugal e dos portugueses. Isto é notável num homem que viveu quase toda a sua vida no estrangeiro, porque era cônsul e diplomata. Eça viu Portugal de fora para dentro, com uma perspicácia e agudeza, às vezes, com sarcasmo que o tornam até hoje um autor agradável de ler. O Saramago é outro assunto, é um escritor que viveu aquilo que no Brasil chamam a virada do século. Repensou a história de outra forma, repensou temas, traumas, vícios e defeitos do modo do ser humano com uma força e uma agudeza extraordinária. Alguns romances do Saramago, como Ensaio sobre a cegueira, são murros no estômago. Nós, às vezes, precisamos disso para vermos como é o mundo em que vivemos: cruel, injusto. O Saramago é um alerta nesse sentido. Não é um autor cómico o fácil de ler, mas é um autor que é necessário ler.
Sobre o que lhe falta escrever?
Vou fazer aqui uma confidência. Acho que nunca disse isto, e, como ninguém nos ouve… Tenho cada vez mais desejo, não concretizarei, de escrever certas experiências da minha vida. Não porque sejam importantes ou porque eu seja importante, mas porque tive a sorte de viver, como as pessoas da minha geração, dois regimes políticos, em dois seculos diferentes, de ter visto muita transformação, espero ver outras ainda, e, portanto, ter constituído um capital de experiência.
Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?
Sugiro a exposição Os Mabundas, dos irmãos Mabundas; A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe; e Os Maias, de Eça de Queirós.
Perfil
Carlos Reis é professor e ensaísta português. Nasceu em 1950 e doutorou-se em 1983. É autor de uma vasta obra e tem sido convidado a dar aulas em diversas universidades. Entre várias distinções, Reis é doutor honoris causa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde lecionou por diversas vezes.