O País – A verdade como notícia

De repente apareceu uma criança no palco. Chamam macacão aquela peça de roupa que havia vestido. E o que levava à cabeça, peruca. Só podia ser uma menina, e a ideia quase vincou quando os passos de dança, mesmo ao estilo feminino, começaram a fazer algum sentido rítmico. O público, como que apanhado de surpresa, meio a despertar de uma distração, apercebeu-se que não estava nenhuma menina coisa nenhuma naquele instante, no palco do Cine Scala, quando Kayane Machavane alegrou o semblante. Então, reconheceram-lhe o sorriso e, de seguida, os aplausos começaram de forma coordenada.

À sétima gala do concurso infantil, Kayane Machavane dançou ao som de Melancia de Moz. Na verdade, o pequeno dançarino inspirou-se naquela cantora, daí ter-se vestido de menina, mas com uma peruca de mulher. O sucesso também nisso teve razão de ser. No entanto, o essencial foram realmente os passos. Tendo concorrido na edição inaugural do Mozkids Talents, a certa altura desta segunda, chegou a parecer que o menino estava esgotado em termos criativos. O júri criticou-lhe muito pela repetição do estilo de dança que levava às galas. Então, a partir da quinta gala começou a ver-se um outro dançarino, que inclusive soube dançar marrabenta e variar o ritmo. Nada que se compara ao que o menino fez na sétima gala. Sem exagero, nunca se tinha visto nada parecido nesta segunda edição. Enquanto Kayane esteve no palco, o auditório aplaudiu do princípio até ao fim da actuação. E o júri não ficou indiferente. Primeiro levantou-se Dudas Aled, entre sorrisos. Depois, Maria Helena Pinto e Dadivo José fizeram o mesmo. Até aí, as palmas ensurdecedoras acompanhavam os passos do miúdo. E quando pareceu que tudo estava feito, Kayane foi buscar ao xigubo um fecho de alto nível. Pulou um metro e de lá deixou-se cair sentado. Quase todo o Scala levantou-se num ímpeto. Palmas. Gritos. E mais palmas para Kayane Machavane. Actuação incrível. 30 pontos do júri e uma senhora orgulhosa: Janina Machavane, a mãe do dançarino. Durante o espectáculo, a apoiante lá de casa disse que se sentiu como se fosse ela a actuar no palco.

Outra grande performance da sétima gala foi a de Carla Timbane. A menina declamou textos acutilantes e relevantes enquanto esteve no concurso. Há uma semana, a menina que recita seus próprios textos, os quais compõe com o irmão mais velho, levou ao palco do Mozkids Talents o drama das viúvas em verso. Nesta sábado, continuou no mesmo rigor temático, catártico, como nenhuma outra criança consegue nesta edição do concurso. Carla declamou um poema sobre as mães que depois de tanto sofrerem pela educação dos filhos, mais tarde, são acusados por estes de feitiçaria. Performance exemplar de Carla Timbane, menina que dá à poesia o seu melhor: o peso da palavra dita, a imagem e a emoção, desconstruído a ideia gasta de que declamar é gritar.

Ainda na poesia, mereceu destaque Elisa Senguele. A menina que leva muito jeito para cantar declamou “Súplica”, de Noémia de Sousa, intercalando com o canto de “Os meninos de Huambo”. Dos 30 possíveis, Elisa obteve 28 pontos do júri e garantiu a passagem para final.

No teatro, a dupla Riaz e Wanda voltaram a convencer, depois de estarem mal há uma semana. Os actores levaram ao Scala um tema sobre a pirataria à volta dos discos de música na cidade de Maputo. Inclusive não faltou a personificação de um polícia municipal incorruptível.

Quanto ao canto, Bruna Morais continua a realçar o seu talento. Sempre em inglês, a menina interpretou Tina Turner, e arrepiou. Por isso, conseguiu obter a pontuação máxima do júri.

Por fim, o grande destaque dos instrumentos musicais foi a violinista Kiyone Sigaúque, muito empolgada na recriação do cancioneiro musical moçambicano.
 
OS FINALISTAS
No próximo dia 7 de Setembro, a partir das 12 horas, na Arena 3D, na Katembe, realizar-se-á a final da segunda edição do Mozkids Talents. Na derradeira gala desta iniciativa da Stv, em parceria com a Dstv, Gotv e com apoio da Movitel, apresentar-se-ão 23 concorrentes. Eis a lista das crianças apuradas. Dança: Kayla Muianga e Kyara Manjate, Naima e Nazira Tuahir, Ezaly Assura, Alisha Francisco e Kayane Machavane; Poesia: Elisa Senguele, Flórida Guambe, Romena Zunguza, Shantel Maculuve e Luísa Sambo; Teatro: Charlise Khan e Yunat Dengo, Nicole Thayla e Gina Michavão, Riaz Trindade e Wanda Zango, e Tamirys e Toivo Chiluvane;  Canto: Rindzela Novela, Bruna Morais, Mayda Horácio, Maria Teresa e Stefanny Mulumba; Instrumentos musicais: Shanikwa Boene, Stefanny António, Kiyone Sigaúque e Jorge Mbie.

Para os parceiros, disse Juvenal Armazia, representante da Dstv e Gotv, a segunda edição do Mozkids Talents é uma aposta acerta porque, conforme se pretende, tem contribuído para a descoberta de talentos.

A Biblioteca do Camões – Centro Cultural Português em Maputo acolhe, no dia 28, às 18h00, uma sessão integrada nas conferências Tertúlias Itinerantes – “IV ciclo fluxos de comunicação intercultural no espaço de língua portuguesa: debater o desconhecimento mútuo no contexto da era global”.

Subordinada ao tema “Relações interculturais e direitos diplomáticos”, a tertúlia será dinamizada pelo académico moçambicano Geraldo Saranga, que se propõe apresentar o contributo da diplomacia na promoção das relações culturais entre os Estados. O docente pretende sugerir uma abordagem bivalente ao tema proposto considerando, por um lado, as relações interculturais e, por outro, os direitos diplomáticos.

De acordo com a nota do Camões, na intervenção, Geraldo Saranga irá procurar responder às questões de saber sobre qual o papel do diplomata na promoção da cultura do seu Estado, no território do Estado acreditador, que meios o Estado acreditado deve possuir para o alcance desse objectivo e, em última analise, em que medida o seu papel pode contribuir para a promoção e desenvolvimento das relações bilaterais, muitas vezes formais, entre os Estados, em detrimento das relações entre os povos desses mesmos Estados, que são os fazedores da cultura, nos respectivos Estados e comunidades.

Geraldo Saranga é Licenciado em Direito pela Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, em 1996, e Mestrado em Estudos Diplomáticos pela Universidade de Westminster, Londres, em 2002. É funcionário do Estado desde Março de 1986, afecto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação (MINEC). Na carreira diplomática ocupou os cargos de Ministro-Conselheiro, Cônsul-Geral de Moçambique em Lisboa, entre 2015 e 2018, Secretário-Geral do Conselho Constitucional de Moçambique, em comissão de serviço, entre 2005 e 2011, Chefe do Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, em 2005. Desde Março de 2019, é Director da Direcção dos Assuntos Jurídicos e Consulares no MINEC.

Geraldo Saranga é, ainda, docente universitário das cadeiras de Direito Internacional Público e Ciência Política e Direito Constitucional nos cursos de Licenciatura em Direito, Administração Pública e Relações Internacionais, no Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM), Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e Universidade São Tomás de Moçambique (USTM), respectivamente, e no curso de Mestrado no Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI).

 

 

Na versão do grupo teatral Girassol, Mar me quer foi estreado a nível nacional ano passado, no Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI). Encenada e adaptada do texto original de Mia Couto, por Joaquim Matavel, o espectáculo também foi apresentado em Angola em dois eventos: no Circuito Internacional de Teatro de Luanda (CIT) e no Festival Internacional de Cazenga (Festeca), nos dois casos, em 2018. Agora, chegou a vez de os brasileiros poderem viajar pela misteriosa história de amor que envolve Luarmina (Albertina Guilaze), Zeca Perpétuo (Horácio Mazuze) e Celestiano (Rafael Vilanculos).

Esta não será a primeira participação do Girassol naquele evento internacional, que, igualmente, junta grupos teatrais de Angola, Cabo Verde, Portugal e Brasil. Ano passado, os actores moçambicanos levaram aos palcos brasileiros o espectáculo teatral Nkatikuloni, escrita e encenada por Joaquim Matavel. Segundo o Director do Girassol, o convite para o grupo voltar ao FestLuso, na verdade, surge do facto de os organizadores e o público brasileiros em geral terem gostado da proposta apresentada.

Além do espectáculo Mar me quer, representado pelo seu director e encenador, Joaquim Matavel, o grupo Girassol fará parte da primeira edição da "Roda de negócios – cena Piauí" para artes. Na roda em causa, juntam-se artistas, programadores, curadores, gestores e produtores de relevantes iniciativas cénicas no universo de língua portuguesa. Além do encenador moçambicano, estarão na "Roda de negócios – cena Piauí" o angolano José Mena Abrantes (Director do Festival Internacional de Teatro e Artes de Luanda, pai da artista plástica moçambicana Ulica), Pedro Santos (coordenador e curador do Festival Yesu Luso, Brasil), João Mello Alvim (Director-Geral do Tanto Mar, Portugal).  

No FestLuso, evento a realizar-se entre 25 e 31 deste mês, o espectáculo Mar me quer será apresentado na cidade Teresina, no estado de Piauí.

 

 

A MultiChoice está na vanguarda do desenvolvimento de conteúdo local e ao mesmo tempo, no desenvolvimento de talentos locais em Moçambique. Um dos exemplos vem do lançamento e patrocínio do programa de Televisão Mozkids Talents, uma iniciativa de produção e transmissão da Soico Televisão, onde através das suas marcas, DStv e GOtv vem enriquecendo de forma inovadora a vida de crianças, famílias e clientes e contribuindo para o crescimento de talentos locais.

Presente em Moçambique a mais de  20 anos, a empresa é pioneira na promoção e disseminação de conteúdos de entretenimento em Moçambique onde vem honrando o compromisso de desenvolvimento tecnológico, privilegiando a proximidade com o cliente e trabalhando de forma contínua para satisfazer as necessidades dos actuais e potenciais consumidores.

A iniciativa que visa criar um concurso anual de talentos para o desenvolvimento de habilidades artísticas infantis no canto, dança, teatro, poesia e performance de instrumentos, impulsiona a descoberta e crescimento de novos talentos locais reunindo as famílias em torno de um espectáculo musical, cultural, de animação e pedagógico para o público infantil.

O programa que vem sendo implementado desde 13 de Julho em Maputo tem proporcionado momentos brilhantes impulsionados pelo espírito competitivo entre os concorrentes. Mais de 76 participantes provenientes de diferentes escolas na cidade e província de Maputo foram seleccionados entre 564 inscritos.

Um dos objectivos estratégicos da MultiChoice é levar a melhor experiência de visualização aos seus clientes, valorizando sempre os programas reconhecidos que incentivam a aprendizagem e reforçam os bons valores e fortalecem a educação. Apostar no conteúdo local é também um impulso no crescimento das indústrias criativas locais.

Como líder em entretenimento em Moçambique, o diferencial da Multichoice está no seu variado leque de conteúdos, entre várias categorias de entretenimento.

Através dos seus canais de desporto, oferece uma variado leque de conteúdos desportivos com destaque para algumas das melhores ligas do mundo tais como como a Espanhola, a Italiana e a Inglesa, entre outros desportos. Por outro lado, leva até aos seus clientes as mais recentes novelas, os últimos filmes e séries que fazem sucesso a nível mundial, e uma enorme cobertura jornalística através dos principais canais de notícias do mundo.

 

Os músicos moçambicanos Chico António e Mingas vão dividir o palco esta sexta-feira (23), no Hotel Terminus, para, entre outros êxitos, cantar “Baila Maria”.

É mais um dos concertos da plataforma “Only Jazz Without Stress” que já levou mais de 100 artistas ao longo dos dois anos em que o Jazz vive naquele espaço

Mingas e Chico António, rostos e vozes sobejamente conhecidos no país e na diáspora, vão levar o melhor do seu acervo para duas horas de emoções.

Os artistas, numa primeira apresentação, irão fazer números separados. Os sucessos “Antlissa Maria”, “Mercandonga”, Mamati” e “Tetego”, para Chico António, são propostas obrigatórias na noite. Já da Mingas seria desapontador se não partilhasse “Mamana”, “A nkama wa ki siya”, “Nweti”, “Ndzumba”, entre outras. Faz também parte deste banquete a música “Baila Maria”, em que as duas vozes irão se cruzar, como sempre foi no Grupo RM e reeditado num concerto da passagem dos 25 anos da música, no Centro Cultural Franco-Moçambicano.

Os artistas que se dizem ainda em forma, prometem partilhar quer músicas antigas quer novas que não são do domínio popular. “Nunca parei na onda, por isso convido a todos a testemunhar um grande espectáculo”, prometeu Chico António.

Para Ginho Sibia, o promotor dos concertos no Terminus, este convite aos dois embondeiros da música moçambicana é uma forma de homenageá-los pelo seu trabalho incansável para o desenvolvimento da música local.

Sibia, ainda que apele para cada vez mais público nos concertos de música ao vivo, faz uma avaliação positiva do programa e garante melhor organização e hospitalidade.
 

Albino Mbie está convencido disso. Quanto melhor for como pessoa, melhor será a sua música, pois, para o autor, a sua criatividade está relacionada com a necessidade de se tornar uma espécie de farol para quem o ouve. Nesta entrevista, o músico que vive nos EUA fala do que move a sua obra, referindo-se a avó como um guia espiritual ao mesmo tempo que se verga ao talento do filho, concorrente do Mozkids Talents com que actuou sexta-feira passada no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM).  

Sexta-feira, apresentou o segundo CD, no CCFM. O quão especial foi esse concerto?

Para mim, o concerto no Franco significou nascimento, a oportunidade de o álbum ganhar as próprias asas e a primeira respiração. Foi uma oportunidade de poder tocar a maior parte das músicas do Mafu, ao contrário do concerto realizado no Campus da UEM, há um ano. O concerto no Franco deu para preparar com mais tempo e foi realmente especial ter todos os elementos moçambicanos na banda.

Surpreendeu-se ao ouvir o público cantar suas músicas. Não estava à espera daquilo?

A surpresa foi maior. De facto, não sabia que os meus compatriotas conheciam as músicas do Mafu, um álbum bem recente. O público foi muito carinhoso comigo no concerto. Foi encorajador e aquilo fez com que me sentisse em casa e com obrigação de querer trazer melhores trabalhos no próximo álbum que deverá sair em 2020.

Neste Mafu, à imagem de Mozambican dance, apresenta-se como um autor apegado à sua terra e às suas gentes. Como é esse processo de manter a questão identitária preservada e o carácter universal da música intocável do ponto de vista qualitativo?

Quando estou a compor, não olho para Moçambique como um país, mas como parte do universo. Por isso, procuro compor temas que façam sentido para qualquer povo, pois julgo-me um cidadão do mundo. Temas do Mafu como “Where you come from” insere-se nessa tentativa de lançar uma luz que contribua para as pessoas pensarem sobre o seu lugar no mundo sem nunca se desinteressarem das suas origens.

Sente-se pressionado a cantar Moçambique ao mesmo tempo que se afirma um cidadão do mundo a partir do lugar onde se encontra?

Existem questões que garantem a paz interior. Por exemplo, tenho-me perguntado até onde eu sou moçambicano e até onde a cultura americana faz parte de mim. Poderia haver um conflito nisso, porque, de certa forma, contribuo para a cultura dos EUA. Estou lá há 11 anos, estudei lá e agora faço tanta coisa. Existe uma forma de garantir um equilíbrio entre isso, afinal agora temos a globalização e a adopção. Isto é, eu posso adoptar elementos da outra cultura e procurar combinar com os da minha. Isso é o que eu faço nas minhas músicas.

Os seus álbuns preservam muito a imagem de casa. O que a casa representa para si?

Primeiro, a casa para mim representa o amor. Por isso, a levarei para onde eu for. Com a casa, seguem os ritmos, as danças, a gastronomia, a língua e todo o ar moçambicano.
 
Se não estivesse a viver no estrangeiro, julga que a temática dos seus discos, muito apegada à sua terra, às vezes com o efeito da saudade, seria a mesma?

Acho que sim, de certa forma, porque eu inspiro-me numa imagem de Moçambique estagnada na minha mente. Por exemplo, o título da música “Mafu”, que intitula o disco, eu compôs quando ainda vivia cá em Moçambique, na altura para participar no concurso francófono no Centro Cultural Franco-Moçambicano, com a primeira banda que eu tive: Manganês. Isso há uns 16 anos. “Mafu” vem daí e tem uma relação com quase todas as músicas que eu escrevi. Portanto, acho que o que eu sou hoje está definido antes de deixar Moçambique.

Por que “Mafu” não teve espaço no Mozambican dance?

Não tive como enquadrar “Mafu” no primeiro CD porque a música é muito forte, como o tema “Awusiwana”, inspirado no que as cheias de 2000 causaram. Eu era bem pequeno, mas aquelas imagens nunca saíram da minha cabeça. Portanto, senti que deveria dar uma nova vida à “Mafu”.

Como é cantar serenamente, de uma forma tão pausada, num mundo à velocidade supersónica?

Para mim, ser músico rima com ser boa gente. Quanto melhor formos como pessoa, melhor será a nossa música. Então, não estou em guerra com a correria diária. Penso que nós devemos fazer o contrário da pressão que temos dia-a-dia. Temos de apaziguar as almas e dar-lhes uma luz.

É um sentido de missão…

Sinto que é, porque a paz de espírito contagia e é capaz de acalmar uma turbulência.

Portanto, a sua música representa o que Albino Mbie é interiormente e integralmente?

100%. Honestamente.

Como é que se processa em si esta ligação temática com os autores clássicos da música moçambicana sem que as mesmas percam o carácter actual?

Seja em que arte for, temos sempre de estudar os clássicos, e isso não significa copiar. Por exemplo, “Ahirimeni” é uma música feita com a pretensão de encorajar as pessoas, lembrando-as que somos todos soldados da mesma nação.

Alguma música neste Mafu que lhe tenha marcado mais?

Foi difícil trabalhar na música “Golden smile”. Precisei de muita atenção para essa música.

Como é que a sua avó aparece como um guia espiritual na música?

Eu comecei o percurso não como cantor. O canto veio com Mozambican dance, porque eu perguntava-me como a minha avó iria ouvir as minhas músicas. Muitas vezes ela pedia-me para cantar para ela, o que implicava a mensagem da palavra. Por isso, não há nada que me contenta agora do que poder cantar para ela e ver o sorriso dela quando isso acontece. Não consegui levá-la ao Franco, por isso fico a dever um concerto dedicado exclusivamente à minha avó.

 

O PRESENTE E O FUTURO NUM PALCO

Na apresentação de Mafu, no CCFM, teve um convidado especial: Jorge Mbie. Como foi actuar pela primeira com o seu filho?

Inicialmente, a ideia de o ter como convidado não me ocorreu. Depois de o ouvir a tocar, percebi que o miúdo encontrava-se num nível alto de qualidade. Além disso, convenci-me da sua paixão pela música. Então achei que não seria justo manter o talento do meu filho em segredo. Tinha de lhe apresentar ao público e foi incrível partilhar o palco com ele.

Embora o violino seja o instrumento preferido do Jorge, ele também toca saxofone e piano. Há alguma influência sua nessa paixão pela música que o menino está a cultivar?

Ainda não lhe fiz essa pergunta. Por enquanto, a minha maior preocupação é saber como é que ele está e como é que vai a escola dele. Sinceramente, não falamos tanto de música. Claro que às vezes conversamos sobre as suas preferências musicais, e até fico surpreendido com o que ele gosta. Enfim, penso que ele percebe que eu, como pai, tenho um papel para com ele. Agora, em relação à música, ele deverá seguir os seus passos e abrir as suas próprias portas.

O que sentiu quando, depois de tocar, o seu filho foi bem aplaudido na sexta gala do Mozkids Talents?

Senti-me abençoado. O talento, a simplicidade sonora e a afinação do meu filho é algo incrível. Por um segundo, senti que ele estava apenas a tocar para mim. Foi muito emocionante e saíram-me lágrimas.

O que o Mozkids pode permitir às crianças e à música moçambicana em geral?

Esta era mesmo uma necessidade cultural. Tenho mesmo de felicitar a Stv pela iniciativa. O facto de haver esta oportunidade vai dar às crianças a possibilidade delas perceberem de que a vida é feita de sacrifícios. O Mozkids não só vai ajudar as crianças a serem talentosas no que fazem, como as vai dar uma noção de que um castelo leva anos para se construir. As crianças vão aprender sobre a paciência e sobre como devem se relacionar com os outros meninos. Portanto, esta oportunidade que as crianças estão a ter no Mozkids não se limita à música.

 

Daqui a duas semanas, o maior concurso infantil de descoberta de talentos do país termina. Enquanto isso, os concorrentes desta segunda edição do Mozkids Talents vão-se afirmando. Um exemplo disso é dupla Charlize Khan e Yunat Dengo, da categoria de teatro. De há três galas a esta parte, as pequenas actrizes têm provado que estão no programa da Stv para ganhar. Por isso, têm levado propostas dramáticas que deixam o público e o júri surpreendidos, daí terem alcançado a máxima pontuação possível: 30 pontos.

Na gala de sábado, Charlize Khan e Yunat Dengo dramatizaram a crise de resultados da selecção nacional de futebol. Na peça das meninas, mais uma vez com um cenário a condizer com o tema apresentado, Charlize interepretou o papel de uma curandeira, que, a certa altura, recebe na sua palhota um jogador dos Mambas, trajado a rigor e com uma bola consigo. A pretensão do jogador ao visitar a curandeira é clara: conseguir dos ancestrais o dom da vitória.

À partida, a curandeira, mesmo antes de mergulhar no além, logo afirma que se conseguisse resolver o problema já se teria tornado milionária. Contudo, porque não controla o além, lá vai a velhota consultar os antepassados. Do além também não surge grande notícia. Para o caso das derrotas dos Mambas não há mesmo qualquer solução.

É uma peça hilariante aquela apresentada pelas crianças, que, inspiradas num assunto da actualidade moçambicana, questiona a qualidade dos jogadores da selecção ao mesmo tempo que a autenticidade dos curandeiros, verdadeiros alguns e charlatões a maioria.

Ao nível de Charlize Khan e Yunat Dengo estiveram Bruna Morais, do canto, Elisa Senguele, da poesia, e Stefanny António, dos instrumentos musicais. Todos eles tiveram 30 pontos do júri. Se, no primeiro caso, a concorrente viajou pela terra do “tio Sam” para recuperar Whitney Houston, no segundo Stefanny, mais uma vez, mostrou o quão poderoso pode ser um teclado. Dudas Aled, membro do júri e apresentador da Stv, vergou-se ao menino e, inclusive, anunciou que está a preparar um projecto musical com o miúdo.

Quanto a Senguele, Elisa apresentou-se no palco do Mozkids Talents mostrando que poderia ter concorrido para a categoria de canto. Afinada, a menina pôs-se a cantar a ridicularização de que os passageiros dos “chapas” são vítimas. Cantou e ainda ensaiou alguns passitos de dança. Os mais esquecidos devem ter-se esquecido a que categoria pertencia a menina. Ao fim de um minuto, então a poetisa revelou-se. Elisa “we” declamou o “Diário dos chapeiros”, expondo os seus exageros num tom cómico. A boa apresentação valeu muitos elogios e sorrisos e a pequena saiu do palco satisfeita.

Ora, um dos grandes momentos da sexta gala aconteceu logo na abertura. O concorrente de instrumentos musicais, Jorge Mbie, tocou e Maria Helena Pinto dançou. Sem nenhum aviso, luzes desligadas no cine Scala, afinal porque no palco estava um capitão Jack Sparrow a tocar violino ao estilo Piratas das Caraíbas e uma bruxa a dançar. A colaboração de Mbie e Mariana Helena Pinto durou um minuto e meio, tempo suficiente para comover o auditório e partir uma mala emprestada à bailarina, usada para ornamentar o cenário. Mas nem isso preocupou Maria Helena Pinto, que se divertiu como criança, rendida ao talento do concorrente.

Na categoria de dança, a sexta gala foi de Alisha Francisco, uma forte candidata à dançarina de Usher. A menina que já foi Michael Jackson nesta edição dançou ao som da música “Yeah”, do cantor norte-americano, o que a garantiu 30 pontos.
Outro aspecto a salientar da sexta gala é a actuação de Carla Timbane. A menina declamou um poema sobre uma viúva, que, desamparada, tem de aprender a viver sem o seu amor falecido. O auditório ficou em lagrimas. A menina mexeu com muitas emoções. Foi o momento mais emocionante da gala. Carla valorizou-se.

Por fim, nesta gala Inalda Sumburane, a vencedora da categoria de canto da edição inaugural do concurso, estreou uma música da sua autoria, produzida pelo cantor Ubakka, quem convidou às autoridades competentes a abraçarem o projecto e apoiarem as crianças que são realmente talentosas. Sobre o Mozkids, Inalda sublinhou que o concurso a ajudou a descobrir-se e ser ela mesma.

Na gala de sábado subiram ao palco do Cine Scala 30 concorrentes. Destes, garantiram apuramento para a semi-final do concurso 27. Mais uma vez, os concorrentes da categoria instrumentos musicais foram todos apurados.
Os apurados para a semi-final.

Dança: Ezaly Assura, Kayla Cristina e Kyara Manjate, Naima e Nazira Tuahir, Alisha Francisco, Kayane Machavane e Letícia Alzira e Tónia; Canto: Bruna Morais, Stefanny Mulumba, Rindzela Novela, Maida Horácio, Maria Teresa e Cybell Duarte; Poesia: Flórida Guambe, Shantel Macuvele, Luísa Sambo, Romena Zunguza, Carla Timabene e Elisa Senguele; Teatro: Nicole Thayla e Gina Michavão, Charlize Khan e Yunat Dengo, Riaz e Wanda, Tamirys e Toyvo Chiluvane e Jéssica Albino e Joaquina; Instrumentos Musicais: Stefanny ANtonio, Jorge Mbie, Shanikwa Boene e Kiyone Sigaúque.    

 

Albino Mbie apresentou-se no palco do Franco-Moçambicano, sexta-feira à noite, entre aplausos daqueles que lhe seguem, conhecem e passaram a conhecer. Até aí, o músico que vive e trabalha nos Estados Unidos julgou que as palmas significassem aquela simpatia do público que está prestes a conhecer algo ainda misterioso. Rapidamente, Mbie apercebeu-se, surpreendido, que boa parte dos que estavam na Sala Grande do Franco, afinal, conheciam as suas músicas.

Bem dito, a certa altura da actuação, o autor de Mafu disse: “Eu não sabia que vocês conheciam as minhas músicas”. A afirmação teve resposta pronta de um expectador. Em alto e bom-tom: “Estás atrasado. Nós conhecemos as tuas músicas há muito tempo. Já as ouvíamos mesmo antes de gravares lá nos EUA”. Albino Mbie sorriu, desvanecendo a tensão que não conseguiu disfarçar antes do espectáculo. A partir daí, o músico e engenheiro de som percebeu que a apresentação de Mafu, na verdade, seria algo conjunto. Enquanto tocava, os coros afinaram-se do lado do auditório, entre gracejos e um diálogo intermitente.

Ora, naquela sala concorrida, cheia na verdade, Albino Mbie não só tocou e cantou músicas do segundo álbum, constituído por 12 temas, como interpretou as do primeiro, Mozambican dance. Em geral, ouviu-se no Franco-Moçambicano temas como “Lirandzo”, “Xiluva”, “Rosa”, “Zula mbilo”, “Mama África” e “Awusiwana”, das mais pedidas pelos expectadores. No entanto, o melhor da noite, claramente o mais significativo, teve um concorrente da categoria instrumentos musicais do Mozkids Talents no palco. Há poucas horas de se apresentar na sexta gala daquele concurso infantil realizado pela Stv, Jorge Mbie, filho de Albino Mbie, foi ao Franco-Moçambicano tocar a “Ahirimeni” com o pai. O auditório não se conteve. Aplaudiu eufórico, alguns tentando adivinhar o grau de parentesco entre os dois. Não demorou que percebessem as semelhanças visíveis e intuitivas. E a conclusão: “Os Mbie têm dois grandes talentos”.  

Já habituado a lidar com a pressão do público nas manhãs de sábado, no Mozkids Talents, disse Jorge Mbie, menino de 11 anos, que esteve no palco a tocar com o seu herói: “Foi muito bom tocar com o meu pai. A sensação foi maravilhosa. É um prazer tocar com o meu pai porque ele é um grande artista e eu sonho um dia ser como ele.

Para Albino Mbie, esta foi a grande oportunidade de partilhar a sua música, o amor e o prazer da vida com o público moçambicano. E sobre a ideia de ter o filho como único convidado da noite? “Eu não quis puxar a ele só por ser o meu filho. Tenho visto que o talento dele está cada vez mais a salientar-se. Por isso, para mim, partilhar o palco com ele significou muito, não por ser o meu filho, mas por ele ser talentoso”.  

Durante o concerto de apresentação do álbum Mafu, Albino Mbie foi acompanhado por uma banda composta por Hélder Gonzaga (baixo), Tony Paco (percussão), Stélio Zoe (bateria), Lívio Mondlane (teclado), Sheila Jesuíta e Pauleta (coros).

É um regresso à casa, afinal a 21 de Setembro de 1960 Hélder Muteia nasceu em Quelimane. Mesmo mantendo uma ligação forte com a capital da Zambézia e com a província inteira, o poeta e escritor nunca conseguiu lançar ou apresentar livros da sua autoria na terra natal, em 31 anos de percurso literário, a contar a partir do lançamento do seu primeiro livro, Verdades dos mitos (1988). A oportunidade surge agora, assim, na asa da literatura, o autor regressa à cultura que lhe deu de beber um modo de estar na vida.

Com efeito, a cerimónia de apresentação dos livros Nhambaro e O barrigudo e outros contos está marcada para as 15h30 do dia 22 deste mês, no auditório da UniLicungo – Campus Coalane. Por esta ser a primeira vez que vai apresentar os livros na Zambézia, há em Muteia um misto de emoções que se cruzam. “Para mim é muito significativo poder apresentar os meus livros na minha terra natal. A cerimónia do dia 22 será uma oportunidade para me reencontrar, até porque quando nós partimos para a nossa origem refazemos toda uma carga emocional. Vou finalmente pagar uma dívida e creio que agora vou completar um ciclo no meu percurso”.

Muitos aspectos da obra de Hélder Muteia reflectem uma carga emotiva da sua infância, o que o autor viveu e aprendeu na Zambézia. “É verdade que também vivi três anos no Chimoio. Sem dúvidas que a província de Manica também deu-me muito. Maputo também, pois cá passo o resto da minha vida. Mas é na Zambézia onde está a minha base, o ponto de partida, e é para lá que pretendo devolver o essencial da minha obra”.

Mesmo a propósito dessa ligação com a terra natal, o que inclui a conexão com a cultura local, Nhambaro, título lançado em 1996, agora reeditado pela Alcance Editores, é o nome de uma dança muito especial da baixa Zambézia, segundo o escritor, que revela uma maneira de fazer as coisas e de estar na vida.

Hélder Muteia acredita que o acto de apresentar os seus dois livros em Quelimane constitui uma oportunidade para revigorar o espírito literário da Zambézia, província que, garante o escritor, sente a poesia de forma muito especial, por isso haver muitos poetas zambezianos.

Nesta espécie de sonho por realizar, no entanto, nem tudo é motivo para sorrir. Dói ao poeta o facto de muitas livrarias estarem encerradas na maior parte das províncias do país. “É mesmo de lamentar, creio que o Governo tem de fazer alguma coisa para que as livrarias continuem a disponibilizar livros para o público, pois sem leitura as pessoas não se desenvolvem, e sem aproximarem-se à sua cultura através da literatura as pessoas não se afirmam. Então é importante o retorno das livrarias para que no mínimo possam disponibilizar o que é produzido em Moçambique do ponto de vista literário”.

 

 

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