O País – A verdade como notícia

Esta quarta-feira, a partir das 18h, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo vai inaugurar a exposição “Itinerários”, do ceramista João Donato. A cerimónia será realizada institucionalmente, com transmissão em directo pelas redes sociais e a exposição abrirá as portas ao público quinta-feira, às 11h.

Em “Itinerários”, segundo a nota do Camões, João Donato apresenta cerca de 60 obras de produção recente, que conduzem o visitante para diferentes mundos, entre a mitologia e a natureza, percorrendo também entre a diversidade da fauna, o desembaraço, o alojamento temporário, os percursos urbanos e outros elementos que integram a cultura moçambicana.

O projecto da exposição “Itinerários”, adianta a nota de imprensa, conta com a especial participação do jornalista, ensaísta e escritor António Cabrita, que apresenta de forma inédita no catálogo da mostra uma reflexão poética sobre cada itinerário que compõe um conjunto de obras do ceramista João Donato.

A mostra de Donato é um projeto do Camões – Centro Cultural Português em Maputo e conta com o apoio da Fundação Fernando Leite Couto e a Sociedade de Águas de Moçambique (Água Namaacha). A mostra estará patente em Maputo desde dia 15 de Outubro até dia 16 de novembro, de segunda a sábado, entre as 11h e 17h.

João Donato nasceu em Maputo, em 1953. Iniciou o seu trabalho nas artes cerâmicas em 2002, em Brasília, com a mestre ceramista Cecy Sato. Em 2005, foi para Londres, onde estudou sob a tutela de Daphne Carnegy, no City and Islington College, tendo depois trabalhado nesta cidade como técnico de cerâmica até 2011. No mesmo ano, regressa a Maputo, onde vive e trabalha. Com uma carreira internacional estabelecida, João Donato tem apresentado o seu trabalho em diversas exposições individuais e coletivas em Moçambique, Portugal, Brasil, Reino Unido e Suécia.

 

Às 19h30 do dia 16, arranca a primeira edição de “Poesia em roda viva”, uma sessão de tertúlias que terá lugar no restaurante de gastronomia moçambicana em Alfama, Portugal. De acordo com a nota da organização, este é um pretexto para dar a conhecer ao público lisboeta as mais fascinantes e promissoras vozes da nova geração de poetas moçambicanos, através dos seus textos. Assim, a leitura dos poemas estará ao cargo das actrizes Marisa Bimbo e Rita Amaral Duarte.

Para a edição de estreia, as convidadas são três, nomeadamente: Sónia Sutuane, Mel Matsinhe e Hirondina Joshua, cuja escrita, avança a nota de imprensa: “como diria o poeta Eduardo White, nos convida a entrar ‘dentro do poema’ e ver ‘acender o sol ou espreitar a música’, que é lágrima e canto, pesar e esperança, beleza e protesto”.

O destaque desta edição de estreia vai para Sónia Sultuane, que, a caminho dos 20 anos de estrada literária, diz a organização de “Poesia em roda viva”, em nota de imprensa, “apresenta-se como uma das mais consagradas poetas moçambicanas da actualidade.

A primeira edição “Poesia em roda viva” em Portugal tem curadoria de Venâncio Calisto.

As autoras

Sónia Sultuane nasceu em Maputo, Moçambique, em 4 de março de 1971. É uma artista multifacetada – poeta, artista plástica, escritora, colaboradora da imprensa e curadora. É uma voz afirmada na poesia, desde a estreia com a obra Sonhos, em 2001.

Além de escritora e artista plástica, seu mérito é reconhecido, por seu papel social na valorização das mulheres do mundo, por sua participação em festivais internacionais e moçambicanos. Tem os seguintes livros publicados: Sonhos (2001), Imaginar o poetizado (2006), No colo da lua (2009), A Lua de N´weti (2014), Roda das encarnações (2016) e Celeste, a boneca com olhos cor de esperança (2016). Sultuane é Prémio Femina 2017 – Mérito nas Letras: Literatura – Poesia em Portugal. Foi Escritora do ano 2014, pelo seu papel social na valorização das mulheres, no Festival Internacional de Poesia Mujeres Poetas Internacional, organizado pelo ‘Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

Mel Matsinhe nasceu em Inhambane, Moçambique. Cresceu no mundo da música. A paixão pela poesia desenvolveu-se discreta e imperceptível. Estudou pedagogia musical e performance de piano na Escuela Nacional de Música de Havana. Mestrada em História e Musicologia pela Universidade de Oslo. Pianista e cantora, criou e dirige o Centro de Artes Xiluva, vocacionado para a formação artística de crianças e adolescentes. A artista é também directora do “Njinguirintana”, Festival da Criança, e do Concurso Infantil de Literatura “Flores que Nunca Murcham”. “Ignição dos Sonhos” é sua primeira obra de poesia.

Hirondina Joshua nasceu a 31 de Maio de 1987. É uma poeta moçambicana, membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). É autora do livro Os ângulos da casa e Menção extraordinária no Premio Mondiale di Poesia Nósside, 2014.

 

Foto: Camões CCP, referente à última edição Prémio Eloquência.

 

O Camões – Centro Cultural Português em Maputo, em cooperação com o Centro de Língua Portuguesa e a Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da UP-Maputo, promove, desde ontem a 6 de Novembro, a 17ª edição do Prémio Eloquência Camões.

O Prémio Eloquência Camões 2020 desenvolver-se-á em três etapas. A primeira decorre até 25 de deste mês. Nesta fase, adianta a nota do Camões CCP, serão aceites e seleccionados os melhores textos argumentativos/discursos produzidos por estudantes universitários do nível de Licenciatura. Na segunda fase, acrescenta a nota, decorrerá entre os dias 2 e 5 de Novembro, e os autores dos 12 melhores discursos participarão numa Oficina de Oralidade dinamizada pela actriz Ana Magaia. No dia 6 de Novembro, realizar-se-á, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo, a Grande Final do Prémio Eloquência Camões, onde serão apurados os discursos vencedores.

Na nota do Camões, Jaime Bonga, vencedor da ultima edição do Prémio Eloquência, refere: “foi uma experiência muito marcante que me ajudou a entender melhor a força da palavra como instrumento de pensamento e intervenção social. Senti-me muito privilegiado por ter participado nesta formação que me tem ajudado no meu dia a dia e no desempenho das minhas actuais funções profissionais”.

Os estudantes universitários que não tenham participado nas edições anteriores poderão concorrer através da apresentação de discursos que não ultrapassem duas páginas A4 e subordinados a temas como (i) a igualdade de géneros, (ii) o saneamento do meio e a preservação do ambiente, (iii) as redes sociais, as tecnologias e o seu papel na educação dos jovens e (iv) o contributo dos jovens para o desenvolvimento de Moçambique e para o bem-estar social.

Os vencedores do Prémio Eloquência Camões 2020 receberão, para além de uma  formação especializada em técnica oratória ministrada pela actriz Ana Magaia, prémios monetários e de material didáctico.

Esta quarta-feira, inaugura, na Fundação Fernando Leite Couto, cidade de Maputo, a exposição colectiva de pintura intitulada Aproximações incompletas, que junta Quehá e Vovo´s.

As obras dos dois autores marcam o culminar de uma relação de mais de 20 anos, período no qual ambos trocaram impressões, tintas, telas e perspectivas em relação ao labor artístico e o sentido das artes plásticas.

O título da exposição, de acordo com a Fundação Fernando Leite Couto (FFLC), foi concebido em função das similaridades nos traços e nas formas do mestre e do discípulo, mas a respeitar os elementos pictóricos e os motivos que os distinguem.

As obras que compõem Aproximações incompletas, avança a nota de imprensa da FFLC, “são deste ano e ‘choram’ com cores e tons fortes, a frustração que marca este ano que muito prometia, entretanto, ao cruzar a porta revelou-se coberto de incertezas e de receios costurados pela pandemia que assola ao mundo”.

Na mostra colectiva, Quehá e Vovo’s insistem em trazer luz através das suas pinturas.

Da primeira exposição “Descoberta”, em 1991, a esta parte, lembra a FFLC, Quehá já expôs telas feitas com a técnica de acrílico e a mista mostrou-se mais regular. Mas é com óleo – que não é inédito – que se apresenta nesta exposição.

“O mestre Quehá, através de composições povoadas por semblantes combalidos, empresta cores vivas e fortes como que a tentar agarrar a luz e mantê-la acesa para não perdermos os traços do rosto da esperança. Vovo’s, por sua vez, desafiado (e a desafiar) pelo mestre, propõe conversas que não se esgotam como a paz, simbolizada em algumas formas que lembram pássaros, que também podem estar a simbolizar liberdade ou simplesmente a lembrar-nos que no ideal do paraíso as paisagens são belas e compostas por aves”.

A mostra estará em exibição até 31 de Outubro e tem curadoria de Yolanda Couto.

A partir das 16 horas de quinta-feira, a Alcance Editores irá apresentar (num evento live) os livros O bicho verde e outras histórias de espantar, de Calane da Silva, e A macaquinha de dois pés esquerdos, de Flávia Changule, através das plataformas sociais Facebook e Instagram da própria editora.

O livro O bicho verde e outras histórias de espantar é uma obra composta por três contos, entre os quais “Bicho verde”. De acordo com o comunicado da Alcance Editores, o livro foi produzido de forma a demonstrar como as histórias contadas para crianças se tornam interessantes e imaginadas.

O livro A macaquinha de dois pés esquerdos, da autora Flávia Changule, é um conto infanto-juvenil bilingue (português e changana) que retrata a história da personagem Zaida Mamba, uma macaquina que sofre bullying e discriminação por ter nascido diferente. Numa tentativa de se igualar aos outros animais da savana, Zaida encontra formas de se afirmar e com ajuda de todos aprende o valor e o significado da aceitação das diferenças.

 

No dia 17 deste mês, a Ethale Publishing vai exibir uma sessão de debate na Feira do Livro de Frankfurt. De igual modo, a editora moçambicana vai poder colocar os seus livros em exposição digital permanente nesta edição da feira. Começando por se referir à importância de participar no mais prestigiado encontro editorial do mundo inteiro, nesta entrevista, o editor da Ethale Publishing, Jessemusse Cacinda, também defende que o país tem uma geração de autores com qualidade, mas que corre risco de se desmoralizar. Cacinda enumera as conquistas da sua editora, o que vai bem na arte literária, mas também destaca que as livrarias têm feito um péssimo trabalho na promoção da literatura moçambicana.

 

A Ethale Publishing participa, este mês, na Feira do Livro de Frankfurt. Por que investir neste evento?

Nós temos estado a participar em vários eventos literários. Cada oportunidade que temos de participar numa iniciativa literária, achamos que é mais um passo para a construção da nossa história como editora, assim como para projectar as actividades que temos estado a desenvolver. Por isso, nunca negamos de participar em eventos culturais de toda índole. Começando por Moçambique, este ano somos parceiros da Feira do Livro de Maputo; participamos no Festival Resiliência, promovido pela Cavalo do Mar; no Quénia, participamos no Macondo Litary Festival, em Nairobi; e agora estamos a ter a oportunidade de participar na Feira do Livro de Frankfurt. Estar nestes eventos permite que as nossas actividades, os nossos livros e os nossos autores sejam conhecidos e cheguem a mais público. A Feira do Livro de Frankfurt é a nossa primeira oportunidade fora do continente africano. É bom porque nesse evento estarão autores de vários cantos do mundo, com muita experiência e profissionais da indústria literária e cultural. Nunca tivemos oportunidade de chegar a Portugal ou a Brasil. Quem sabe, conseguimos chegar a esses países a partir de Frankfurt. É uma janela que se abre para nós.

Quer explicar porquê optaram pela exposição de livros e pelos Ethale Talks?

Estas são as grandes actividades que realizamos. Uma editora, essencialmente, edita livros. Se temos uma oportunidade de participar nesta feira, então vamos expor os nossos títulos e falar da situação em que se encontram os direitos autorais. Por exemplo, nós temos direitos autorais de clássicos africanos para alguns mercados e direitos autorais a traduzir para a língua portuguesa. Então, a Feira do Livro de Frankfurt será uma oportunidade para expormos esses nossos direitos. Temos notado que instituições brasileiras têm muito interesse na literatura e no pensamento africano. Achamos que esta é uma boa oportunidade para lhes mostrar os livros no nosso catálogo, de clássicos africanos que não existem no Brasil e em Portugal, por sermos os primeiros a traduzir para a língua portuguesa. Portanto, levamos os Ethale Talks porque se transformaram numa marca nossa este ano. Quisemos continuar a produzir os debates noutros tipos de espaços. Vamos aproveitar a tela da Feira do Livro de Frankfurt para, durante 20 minutos, fazermos uma edição especial do Ethale Talks, que vai debater o papel de instituições europeias na promoção das literaturas africanas ou o que se pode fazer para que as literaturas africanas sejam mais pujantes e sobre que oportunidades de negócio as editoras europeias podem ter em África. Vamos discutir essas temáticas que são do interesse da audiência da Feira do Livro de Frankfurt e do nosso próprio interesse. Criar mercado é uma coisa que nos dá credibilidade e pujança. Se queremos nos afirmar na indústria do livro, temos de partir de dentro. Uma iniciativa como Ethale Talks ajuda porque muita gente acaba tendo interesse pela literatura e pelo pensamento africano quando acompanha os debates. Ou seja, as pessoas que acompanham os Ethale Talks depois são conduzidas aos livros.

Com os Ethale Talks pretendem nos dizer que as editoras, como instituições que apenas publicam livros, são coisas do passado?

Sim, posso afirmar que sim. Se nos focarmos em apenas editar livros, não temos capacidade de sobreviver. Para dar uma ideia. Uma iniciativa como Ethale Talks tem mais capacidade de se financiar em relação a uma edição de livro. É mais fácil financiar debate público, debate de ideias, de rádio, do que livros. O pessoal que trabalha na indústria da publicidade quer ter certeza de alcance em termos de público. Uma publicidade num programa televisivo, por exemplo, chega a mais pessoas do que a uma publicidade numa contracapa de livro. Por isso, nós podemos desenvolver actividades como Ethale Talks e pegar no financiamento que encaixam para usar na produção de livros, como forma de assegurar que a edição continue. Agora, há uma vantagem em publicitar no livro, que geralmente é lido por pessoas com poder de compra. Se uma marca está na contracapa de um livro, a mesma marca vai alcançar pessoas com poder de compra, o que não se pode falar dos Ethale Talks, disponível através da Internet e que, num contexto em que temos praças digitais, muitos jovens podem aceder. Ou seja, as 16 mil pessoas alcançadas pelos Ethale Talks não significa que todas têm poder de compra. Agora, as quinhentas pessoas que vão comprar o livro têm uma conta bancária. Se as marcas olharem para esse tipo de publicidade, notarão que é seguro, porque vai a pessoas que podem aderir a um tipo de serviço. O importante, para nós, é diversificar as estratégias. Por exemplo, se a entidade que apoia ou financia os Ethale Talks quiser alcançar a juventude, sai a ganhar. Se a entidade pretende alcançar um público que paga seguros e tem conta bancária, o livro é uma estratégia.

O que esperam receber na Feira do Livro de Frankfurt?

Esperamos encontrar instituições que detém direito de livros que estamos à procura. Há grandes autores africanos que ainda não existem em língua portuguesa, que ainda não temos direitos para traduzir. A nossa participação vai ajudar-nos a encontrar novos livros, novos autores e novas colaborações. Segundo, esperamos aprender um pouco mais como se explora novos mercados, literários no sentido de podermos estendermos o nosso trabalho. Neste momento, podemos dizer que conseguimos estabelecer um sistema de distribuição em Moçambique, que nos satisfaz. Em quatro anos de existência conseguimos colocar livros em todas as capitais provinciais e em alguns distritos, como Nacala, Palma e Songo. Temos uma experiência de construção de mercado. Agora avançamos para Angola, em parceria com uma editora e distribuidora angolana. O nosso acordo prevê que possamos enviar livros editados por nós, para serem distribuídos lá. Por sua vez, os livros editados em Angola podem ser enviados a Moçambique e serem distribuídos aqui. É esse tipo de colaboração que em África falta muito. Por exemplo, é mais fácil que escritores africanos saiam do continente do que trabalharem no continente. A nossa filosofia é tentar quebrar essas barreiras. Nós vamos à Feira do Livro de Frankfurt para negociar com instituições portuguesas e brasileiras, com bom histórico em termos de colaborações em África.

A Ethale Publishing tem Wole Soyinka no catálogo, Nobel da Literatura 1986. Há uma estratégia definida para fazer disso um factor de negociação equilibrado nessas futuras parcerias?

Não diria que é uma estratégia. Vamos levar uma parte de nós. Os nomes que temos no nosso catálogo, Wole Soyinka, Ng?g? wa Thiong’o, fazem parte da nossa própria história como editora. O nosso sonho sempre foi negociar em pé de igualdade. Não gostaríamos de ser editora africana que leva os seus trabalhos para fora numa condição de passivo, não. Queremos ir numa condição de activo. Enquanto colocamos esses nomes no catálogo, vamos incluindo nomes de autores moçambicanos. Por exemplo, temos estado a fazer um trabalho com Mélio Tinga como nosso autor. Trabalhamos nesse sentido e todos sentimo-nos comprometidos em trabalhar em volta deste autor. Tudo isso faz parte da nossa própria história. Estamos a trabalhar com dois novos autores moçambicanos, que ainda não se estrearam em livro, de modo que os possamos lançar próximo ano.

Já percebi que a Ethale está a traduzir clássicos africanos para a língua portuguesa. Têm o interesse de traduzir autores moçambicanos para outras línguas?

Nós somos essencialmente uma editora que edita livros em português. Por isso, o nosso foco tem sido traduzir de outras línguas para o português e conquistar mercados em língua portuguesa.

O inverso não vos interessa?

No inverso temos uma componente nossa, de tentar projectar os nossos autores internacionalmente, no sentido de se sentirem confortáveis. O que estamos a fazer é tentar promover… por exemplo, a antologia O hambúrguer que matou o Jorge ficou disponível em inglês. Nós contactamos editoras e Alex Macbeth, meu sócio e coordenador editorial comigo, fez a tradução. O livro foi editado na Nigéria. Nós vamos pegar nesse livro, porque mesmo na versão inglesa os direitos são nossos, para Feira do Livro de Frankfurt. E vamos fazer mais contactos de modo que livros de outros autores, como Mélio Tinga, possam ser traduzidos para outras línguas. O nosso compromisso com autores moçambicanos que publicam pela primeira é fazer com que eles sintam que editar connosco não significa necessariamente ser periféricos.

Porquê investir em autores consagrados africanos e, no caso particular de Moçambique, optar por autores em ascensão?

Isso, sim, tem a ver com estratégia de negócio. Nós entramos para um sector que já tinha outros intervenientes. Dentro deste sector achamos oportuno trabalhar em componentes que pudessem nos distinguir no mercado. Não estamos a dizer que não editamos outros livros, não. Até editamos não-ficção – como sabe, que geralmente sustentam uma editora –, e desenvolvemos vários projectos no sentido de ganhar sustentabilidade. Editamos novos autores moçambicanos porque estão sempre à procura de nova editora. Não somos os únicos que editamos novas vozes, mas não somos suficientes para cobrir a quantidade de jovens que querem lançar livros. Segundo, notamos que no nosso mercado não existem clássicos africanos. Mesmo no nosso sistema de educação, quando estudamos literaturas africanas, é em língua portuguesa. Por exemplo, eu fiz Filosofia Africana na faculdade, e reparei que os livros africanos recomendados eram poucos. Então achamos que é uma forma de contribuir para cobrir um défice que há no nosso espaço cultural, intelectual e trazer mais conteúdo africano para os próprios africanos.

Como a vossa participação na Feira do Livro de Frankfurt pode contribuir para o turismo moçambicano, como defende?

Participar numa Feira de Livro de Frankfurt e mostrar o que se produz em Moçambique, do ponto de vista de literatura, faz com que as pessoas oiçam falar do nosso país, tenha curiosidade e apetência de visitar Moçambique. Portanto, é o turismo e é a economia que ganham. É assim que a cultura contribui para a economia de um país, por isso falei de narrativas africanas, porque, quando nós contamos histórias sobre os nossos espaços, os nossos espaços tornam-se míticos e as pessoas ficam com vontade de os visitar. Visitando os nossos espaços, compram os nossos produtos, comem a nossa comida e dormem nos nossos estabelecimentos. Com isso a economia desenvolve. Da mesma maneira que fizemos com a Ilha de Moçambique, através da cultura, podemos fazer outros lugares do nosso país através das histórias.

Ampliando a conversa, actualmente, temos (novos) autores em quantidade e com qualidade suficiente para alimentar o vasto público que as editoras almejam alcançar?

Sim, a literatura moçambicana é muito forte. O nosso espaço literário é muito exigente, ao contrário dos espaços de outros países africanos que temos estado a trabalhar ou a visitar. Conseguiu-se criar uma exigência no mercado moçambicano, em que as pessoas julgam-se a si próprias até que ponto estão preparadas para editar a sua obra. É suspeito dizer isso, porque sou moçambicano, mas em África, a nossa literatura é das melhores. Acho que temos quantidade e qualidade suficiente para alimentar os leitores regularmente. Nós só não publicamos mais por falta de capacidade financeira. Esta juventude tem feito coisas que, quando comparamos com países que possuem indústria cultural mais forte, sentimo-nos orgulhosos.

Convido-lhe a fazer uma comparação interna, agora. Em termos de qualidade (designer, edição, impressão, ficção, poesia, etc.), estamos melhores do que aquela geração que nos anos 80 já publicava livros no país?

Essa é uma pergunta difícil. Quando olho para a literatura moçambicana, ainda não tive um vagar para poder fazer uma comparação interna nos vários momentos. Geralmente concentro-me no que se está a produzir em Moçambique e na África do Sul, no Quénia ou na Nigéria. Aí consigo ter opinião, do que comparar a própria literatura moçambicana. Agora, há aspectos importantes. Nos anos 80, a exigência também era maior. Por via disso, podemos esperar uma qualidade um pouco maior. Hoje o espaço está mais democratizado e, assim, as pessoas publicam à vontade. Então, pode haver uma situação qualitativa reduzida. Mas, quando nos comparamos com os outros, estamos melhor. Agora, a ausência de políticas culturais pode contribuir para esta geração de escritores se desmoralize ao longo do tempo e abrande o seu nível de produção.

Exemplo de políticas culturais em falta?

Falta uma política de leitura, do livro moçambicano e um sistema de educação que valoriza a leitura de livros e não de textos. Há muita gente que fez a licenciatura, está a fazer o mestrado e nunca leu um livro. Enquanto tivermos um sistema a funcionar dessa forma, o livro dificilmente será valorizado. E se o livro não é valorizado, todo este talento que me referi pode desmoralizar-se e não chegar a uma geração de ouro. Por exemplo, na década de 80, com várias carências, editavam-se mil ou três mil livros. Hoje, com mais condições, editamos 500 exemplares vendidos em cinco anos. A total ausência de políticas culturais não motiva.

É ingrato editar livros em Moçambique?

Não, não é porque eu, pessoalmente, entrei para este mercado movido pela vontade individual de poder contribuir para que as histórias africanas sejam conhecidas. Enquanto isso estiver a acontecer, a satisfação é maior, porque é mais uma história africana que está a chegar ao público e que fica disponível. Então, a nossa actividade não tem como ser ingrata. Agora, temos desafios no mercado e o trabalho que estamos a realizar é para os superar. Neste momento nós trabalhamos com fé. Quando colocamos os livros nos distritos as pessoas compram. Este ano estive em Sofala. Fui para Búzi, Nhamatanda e Dondo. Fiquei dois ou três por lá e, em Búzi, vi pessoas a lerem livros e jornais editados na Beira. Aliás, ainda ontem eu comentava com algumas pessoas na AEMO, que em Sofala está-se a criar aquilo que eu acho que deve ser criado em todas as províncias do nosso país, em que se produz livros, distribui-se e esgotam-se todos os exemplares na província. Isso está a acontecer em Sofala. Eu fiquei bastante satisfeito quando vi isso em Búzi e dei os parabéns ao Dany [Wambire], que tem estado a fazer um bom trabalho em Sofala. Isto faz-me perceber que nem tudo está perdido, é só continuarmos a trabalhar e levar mais livros aos distritos.

O problema das livrarias…

A maioria das livrarias, com a excepção da Mabuko, vivem para alimentar a literatura europeia. Ou seja, são uma espécie de revendedores de livros europeus. A forma como tratam os livros moçambicanos não nos dignifica, é como se não estivessem em Moçambique. Se dermos um passeio pelas livrarias, vamos perceber que a maioria dos livros moçambicanos estão lá escondidos, enquanto os europeus estão bem projectados para serem vistos pelo público. Se vamos a Mabuko, os livros moçambicanos estão ali à vista, em destaque, isso, sim, contribui para as pessoas apreciarem a nossa literatura e perceberem que temos qualidade.

Além disso, o que está a acontecer para que mais autores e editores optem por não vender os livros nas livrarias?

As livrarias tratam mal os livros moçambicanos. Quando levamos livros moçambicanos, eles recebem e guardam. Ligamos, enviamos sms, e-mail e não respondem. Um dia apetece-lhes e colocam o livro à venda. Quando o livro está na livraria, autores e editores promovem-no e vende. Esgotado o livro, é mais um contacto difícil para ser remunerado. Assim sendo, criamos os nossos espaços de distribuição que se têm mostrado eficientes em relação aos espaços tradicionais como é a livraria. Claro, há uma e outra livraria que tem bom contacto connosco e que valoriza o livro moçambicano. Mas a maioria não valoriza os nossos livros.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a engenharia da morte, de Mélio Tinga; a música “Samba”, que está no disco Melo tomorrow, de Gimo Mendes; e A greve dos mendigos, de Aminata Sow Fall.

 

Perfil

Jessemusse Cacinda formou-se em Filosofia, tendo um mestrado em Sociologia do Desenvolvimento. É co-fundador da Ethale Publsihing, editora vocacionada na promoção do pensamento africano. No seu catálogo, editou livros de autores como Wole Soyinka (Nobel da Literatura) e Ng?g? wa Thiong’o. Os seus trabalhos literários foram publicado em antologias, jornais e revistas em Moçambique, África do Sul, Namíbia e Quénia. Investiga as temáticas de cidadania e governação, comunicação política, análise do discurso, rádio e culturas urbanas.

 

O produtor de instrumentos tradicionais, Ivan Mucavel, recebeu, ontem, em Marracuene, um kit contendo material que o permite continuar a realizar o seu trabalho. A oferta foi feita pela Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, tempos depois de um incidente eléctrico que forçou Mucavel a interromper as suas actividades.

O músico e produtor de instrumentos recebeu o material numa visita feita ao atelier Mukhambira, um espaço encabeçado por Mucavel e que alberga artistas nacionais que se dedicam ao mesmo trabalho e ao intercâmbio de várias manifestações artísticas.

De acordo com a nota do Ministério da Cultura e Turismo, Eldevina Materula soube das dificuldades de Ivan Mucavel e procurou, junto do Fundo para o Desenvolvimento Artístico – FUNDAC, encontrar uma solução pontual. Após o gesto, Eldevina Materula afirmou que este é um pequeno consolo, para que o movimento artístico não pare.

“Sinto-me honrado. Esta visita é como se fosse a cereja no topo do bolo, porque já venho acompanhando há um tempo as acções da actual Ministra, e o trabalho que tem feito é visível. Mostra um esforço real de unir os artistas. Vamos saber honrar esta oferta porque todos fazemos parte deste colectivo que tem Moçambique no coração e que tem este objectivo genuíno de elevar a pátria moçambicana através da cultura que nos distingue a nível mundial”, disse o artista.

Na nota de imprensa, o Ministério destaca que o projecto Mukhambira foi responsável pela reintrodução da mbira no cenário musical moçambicano, há cerca de duas décadas, iniciado pelo músico tradicional e investigador Luka Mukhavele, radicado na Alemanha.

Os fazedores das artes e cultura dos países falantes de língua portuguesa vão beneficiar de apoio financeiro de até 7,8 milhões de euros para desenvolver as suas actividades, com particular enfoque na garantia de geração de emprego para mulheres e jovens.

A União Europeia disponibilizou perto de oito milhões de euros para financiar projectos de geração de empregos e rendimentos sustentáveis no sector da música, artes cénicas e literatura infanto-juvenil nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e Timor leste. Trata-se do programa de Subvenções PROCULTURA dirigido esta sexta-feira em Maputo pelo Embaixador da União Europeia, Antonio Sánchez-Benedito.

?Nós queremos trabalhar na cultura não de uma maneira tradicional, com as manifestações culturais, mas sobretudo fazer uma ligação muito estreita com uma criação de oportunidades de emprego e rendas, sobretudo para os mais jovens?, explicou António Sánchez-Benedito, Embaixador da União Europeia.

O financiamento ora lançado em Maputo compreende três lotes para a atribuição de subvenções aberto até 9 de Novembro de 2020, a candidaturas de entidades dos sectores público e privado. O primeiro lote de financiamento varia de 20 mil a 35 mil euros, o segundo de 500 mil a 1 milhão de euros e o terceiro de 300 mil a 600 mil euros.

O lançamento dessas subvenções surge com uma relevância acrescida e uma grande oportunidade no actual contexto?, disse Carolina Cordeiro, encarregada de Negócios de Portugal.

O projecto já está a apresentar resultados promissores, fornecendo bolsas de estudo para licenciatura e mestrado para estudantes moçambicanos. Para além disso, o PROCULTURA fornece apoio técnico e financeiro para reforço de produtos e serviço na área.

?Estas ações estão com certeza contribuindo para alavancar o sector cultural como uma área crucial para o desenvolvimento dos nossos países, tendo como enfoque a juventude, a mulher, incluindo a criança, criando mais postos de trabalho e condições básicas para difusão e comercialização da música e artes cénicas?, avançou o Ministro Conselheiro da União Europeia, Vicente Manuel.

PROCULTURA é um projecto do Programa PALOP-TL-EU financiado pela União Europeia, co-financiado e gerido pelo Instituto Camões e Fundação Calouste Gulbenkian e tem por objectivo de contribuir para o reforço da economia criativa e cultural, incentivar a profissionalização e transformação do sector cultural, promovendo a empregabilidade e inclusão de mulheres e jovens.

O título original do texto traduzido por Egas Canda é My mother’s project, de Lydia Kasese. O tradutor foi distinguido esta quarta-feira, pela organização do Concurso de Tradução Literária

 

Um dia desses, Egas Canda viu uma notícia sobre Concurso de Tradução Literária na televisão. A partir de Inhassoro, onde vive e trabalha, o enfermeiro decidiu contactar a organização do evento pelo Facebook e, de seguida, veio a resposta. Excitado pela possibilidade de traduzir um conto, o senhor doutor seguiu em frente e participou.

Em média, Egas Canda levou 10 dias a traduzir um texto de seis páginas, afinal tem outras ocupações, como essa de cuidar da saúde das pessoas no Centro de Saúde de Inhassoro todos os dias. A verdade é uma, o seu esforço foi reconhecido no Dia Internacional da Tradução Literária, efeméride que se assinala a 30 de Setembro. Num evento realizado no Centro Cultural Franco-Moçambicano, esta quarta-feira à noite, na cidade de Maputo, Egas foi distinguido vencedor do concurso de tradução, numa cerimónia com várias medidas preventivas da COVID-19.

Egas Canda traduziu o conto My mother’s project, da escritora tanzaniana Lydia Kasese, do inglês para a sua língua materna, o guitonga. Assim, o conto ficou com o título Makungo ya Mayi Wangu. A sua preferência? “Traduzi do inglês para o guitonga porque quis buscar um desafio. Sabia que a maioria iria traduzir de uma língua europeia para o português. Mas nós não somos portugueses, temos as nossas raízes, que nos identificam. Posso dizer que quis alavancar a nossa cultura através da minha língua materna”.

Segundo entende o vencedor desta sexta edição do concurso, a tradução literária ajuda a levar uma mensagem de um autor para outras pessoas que, talvez, estão impossibilitadas de a receber na língua de origem. “Com este concurso, aprendi a confiar em mim mesmo. O sucesso do nosso trabalho, seja duro ou não, depende da nossa entrega. Aprendi a ser um bom leitor”. Por isso, Egas Canda promete continuar não só a traduzir, mas também a escrever alguma coisa.

Egas Canda nasceu na cidade de Inhambane, a 12 de Novembro de 1991. Entre 2004 e 2010 fez programas de rádio e, naquela altura, traduziu vários textos para os programas radiofónicos. É licenciado em Medicina Dentária pela UniLúrio. Neste concurso foi premiado com um certificado, alguns livros e um valor simbólico. Para o ano, o texto que traduziu irá integrar a colectânea de contos editada pela Trinta Zero Nove.

 

Uma experiência interessante e O redentor do mundo

Além de Egas Canda, no Concurso de Tradução Literária foram distinguidos mais dois tradutores. O segundo classificado foi Xavier Nhanala, para quem a experiência foi interessante. “Foi um grande desafio, porque, na tradução literária, há aspectos culturais que vão além de uma tradução”.

Os contos traduzidos nesta sexta edição do concurso serão publicados numa colectânea pela Trinta Zero Nove, próximo ano. Entretanto, esta segunda-feira, a editora publicou o livro resultante do concurso de tradução de 2019, intitulado O redentor do mundo, que reúne oito contos traduzidos de autores europeus.

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