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O País – A verdade como notícia

Por Matos Matosse

 

Deve constituir uma enorme satisfação para Sara Jona Laisse ‒ [Doutora em Literatura e Culturas, em Língua Portuguesa, pela Universidade de Lisboa e docente, na Universidade A Politécnica de Maputo] ‒, particularmente, e, para a classe dos escritores moçambicanos, no geral, por ‒ este mais recente livro: ENTRE MARGENS: Diálogo intercultural e outros textos, desta autora, editado pela Gala-Gala edições, Outubro de 2020, “publicado”, no dia 29 de Junho de 2021, na Biblioteca Central da UP-Maputo, e apresentado pelo Prof. Doutor Afonso Vassoa,  ‒ ter sido levado à Academia pela Universidade Pedagógica. Certamente, aqui – na Academia –, merecerá outro tratamento. Para além de poder constituir um objecto de estudo e análise, a nível dos estudantes da Literatura, servirá, igualmente, [creio] de material de apoio aos estudantes de Antropologia, de Sociologia, quiçá, de História e doutras áreas afins. Aqui, não resisto a isto: Parabéns Magnífico Reitor Professor e Doutor Jorge Ferrão por esta belíssima iniciativa!

Sara Jona impele-nos – num bom sentido do termo – para uma análise e debates profundos dos conteúdos constantes deste livro com 136 páginas; prefaciado por Vanessa Riambau Pinheiro e o posfácio de Ana Mafalda Leite.

Eu proponho-me a analisar alguns textos, como pretexto de levar este livro ao conhecimento do público. Aliás, esse é, também, o papel de um ensaísta ou crítico literário: eis os textos: (1) Ku-tsinga: dos hábitos às mudanças tradicionais, págs.: 35 – 37; (2) Injustiça social: “ukati, ovaxi nivanga hona vasati?”, págs.: 61 – 66; (3) “No meio do caminho”: pedras, sombras, maridos e mulheres da noite, págs.: 76 – 79; e, por fim, (4) “Verdades” dos mitos: rituais de donzelar, págs.: 93 – 97.

[A organização deste livro e, sobretudo, a escolha de conteúdos, a sua sequência, permitem a realização de estudos do mesmo em partes, sem pôr em causa o todo.]

Sara Jona Laisse levanta questões antropológicas, culturais das nossas sociedades – [rituais], [menciono, apenas, (3) três perspectivas na minha visão]: (1) a sua importância, na educação da mulher e, nessa linha, a organização das sociedades. [Aqui, a mulher como sujeito central, tendencialmente, de todas as cerimónias – rituais – apresentados. O homem é olvidado, paradoxalmente, é-lhe atribuído o papel de “chefe de casa”. Um papel que tem as suas exigências. Absurdo?!…]; (2) o aspecto psicológico que estes desempenham aos sujeitos, pág.: 35, 2º §. Aliás, em Injustiça social: “ukati, ovaxi nivanga hona vasati?”, págs.: 61 – 66, Sara diz-nos, baseando-se na canção da cantora moçambicana, Marlen: “…Em fórum doméstico, é ela quem dá à luz, que, entretanto, deve adoptar o apelido do marido, após o casamento; as tarefas caseiras são a ela relegadas, cozinha, serve à mesa e comer. No âmbito profissional, (…) é a mulher quem trabalha, e, entretanto, o chefe do negócio é o marido”., pág.: 62.; e (3) aspecto de ética. Estes rituais respeitam a dignidade da pessoa humana ou, apenas, olham para o fim último? O seu propósito? Por aquilo que se depreende, julgo que não.

Neste texto, há um aspecto a ter em atenção [ver o parágrafo anterior, sobre o âmago da canção da Marlen]: “…deve adoptar o apelido do marido…”; e, limpidamente, vermos a forma verbal “deve”. Aqui nasce a questão de Ética da pessoa. Ou Ética no geral, como queira designar. A imperatividade. A obrigação. O desrespeito pelos direitos do outro [da mulher]. Por que lhe roubar o apelido? Olha, o nosso apelido está, intrinsecamente, ligado a nós. Temo-lo, não desassociado dos nossos ancestrais. Dos nossos espíritos. Por outro, o nosso apelido é a nossa identidade. A nossa dignidade como pessoa.  Urge uma reflexão e – tomada de medidas –, o libertar-se da mulher [já temos este livro a nos dar impulso, a nos remover o véu, a venda que nos cegam.] As mulheres não encontram espaços para negar, devido ao tipo de educação que lhes são injectadas: “Nem que o marido bata em ti, minha filha, deves aguentar o lar”., pág.: 63, 4º §. Ela é chamada a ter paciência. Mais uma injustiça que Sara Jona levanta. A mulher é tida como um indivíduo sem valor. É istificada. É coisificada.

Em Ku-txinga, dos hábitos às mudanças tradicionais, – [Ku-txinga é a purificação de uma viúva pelo seu cunhado; quando uma mulher morre, em substituição, uma irmã ou prima – da falecida – fica com o seu marido.] – nota-se a falta de observância de cuidados de saúde, da contaminação pelo HIV-SIDA. Para este fenómeno, desde 2008, diz Sara Jona Laisse, “o MISAU, dado o elevado índice de cerimónia, em consenso com a AMETRAMO” (…) passou a recorrer-se a ervas para realizar o banho de purificação da(o) viúva(o)”., pág.: 37. Se as sociedades seguissem a ‘purificação pelas ervas’, deixando para trás, definitivamente, a ‘purificação através de relações sexuais’, evitar-se-ia muitas doenças de transição sexual. Mortes. Crianças órfãos.

Algumas questões que Sara Jona no-las traz, como é o caso de maridos e mulheres da noite, continuam a se verificar pela recusa à abordagem, abertamente, dos mesmos, por vergonha, medo, “pelo facto de não se verem em condições de informar que entregaram aquela pessoa a determinados espíritos”., pág.: 78, 1º §. Voltamos à mesma questão de desvalorização da pessoa humana. Essa entrega é para o pagamento de uma dívida que uma pessoa X de uma família Y tenha contraído, às vezes, em bebedeira, ou em curandeirismos, aonde vão para “adquirir a sorte; a riqueza”, etc.

Parece-me, esta certeza tem-na, igualmente, a autora do livro, estes rituais de preparação de uma mulher para o casamento e para a procriação, concorrem para os casamentos prematuros. A mulher é preparada para cuidar bem do marido. Tudo é em volta disto. E as nossas sociedades, maioritariamente, pobres, não encontram mais nada que entregar, precocemente sua filha para os cuidados do homem, obrigando-lhe a abandonar a escola. Há uma coisa que vivi, no meu bairro, década 80, uma moça que já lhe despontavam as mamas, foi submetida pelos seus pais, usando-se uma vassoura de palha ou cesto de palha [não me lembro muito bem do utensílio utilizado] como forma de espantar as mamas; de facto, estas encolheram, timidamente, e, quando estas renasciam, apenas, despontou uma. A outra nunca mais repontou. Isto significa que, às vezes, há deformações físicas que advêm destas práticas. Há problemas de autoestima.

A abordagem destes assuntos não pode caber neste espaço. Como pode ver, caríssimo leitor, fui colocando-os em réstias, que, para a sua compressão profunda, seria necessário que o leitor lesse todo o livro, já, à venda.

 

chonape.matosse@gmail.com

 

 

 

Quando forem 14h30 da próxima quinta-feira, a Galeria Kulungwana irá inaugurar a exposição individual de artes plásticas Phandar, da autoria de Maluzhane Bila. Esta exposição estará aberta ao público de 16 de Julho até ao dia 6 de Agosto.

 

A primeira individual do artista, realizada em Maputo, com o título de Phandar [Desenrascar a Vida] remete, de acordo com a nota de imprensa da Associação Kulungwana, ao conceito que preside à mesma exposição, reflectindo sobre o modo de vida de uma determinada classe social.

O curador da mostra é Pompílio Gemuce, que, segundo avança a nota de imprensa da Kulungwana, destaca que a alma estética de Maluzhane Bila dita regras e posturas de toda a acção onde se assiste à mistura de habilidades técnicas, paisagens políticas, antropológicas, sociológicas, económicas, mas acima de tudo, revelações intelectuais. E Gemuce acrescenta: “Desenrascar é um modo de encarar o trabalho artístico,  […] sendo um mote ou o conceito, onde a arte de sobrevivência, vira uma ciência de produção artística que se desenrola em negociar, reutilizar, trocar, analisar, assumir, integrar, existir e resistir”.

A Kulungwna avança que a mostra é resultado duma intensa actividade de pesquisa, que se desdobrou por várias conversas informais, entrevistas individuais e recolha de histórias de vida nos bairros periféricos da Cidade de Maputo.

 

O autor de Phandar

Maluzhane Bila nasceu em Maputo, em Dezembro de 1988, tendo, desde bastante cedo, usado  “desperdícios”  dos trabalhos de carpintaria e serralharia para produzir os seus objectos. Frequentou a Escola Nacional de Artes Visuais e, posteriormente, o curso superior de Gestão e Estudos Culturais pelo Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC).

Actualmente, reside e trabalha na Cidade de Madrid, Espanha, onde a busca por diálogos interculturais é parte do seu processo de trabalho fora de África.

Maluzhane Bila esteve presente em alguns importantes eventos artísticos no país, como a Bienal TDM e o concurso “Descobertas”. Mais recentemente, participou na exposição virtual Latitudes Art Fair, através da Galeria Arte d’Gema na África do Sul, bem como na exposição Viagem sem Fronteiras, patente no expaço Go, go, go Maputo – Art Fair, na Cidade de Maputo.

No âmbito da exposição, será realizada uma aula aberta – Resistir para continuar a existir: a escultura e seus agenciamentos a partir da exposição Phandar, a realizar-se no ISArC, a 16 de Julho, pelas 10 horas, sendo transmitida em directo nas redes sociais da Kulungwana.

 

Histórias com cores e vício-inverso, arteando Mia Couto é o título da exposição de artes plásticas inaugurada esta quarta-feira, na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. A colectiva é, essencialmente, uma recriação às obras do Prémio Camões 2013.

Ano passado, três artistas plásticos decidiram expor uma colectiva que recriasse a obra literária de Mia Couto. O projecto adiado, Histórias com cores e vício-inverso, arteando Mia Couto, finalmente, foi inaugurado esta quarta-feira, na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Os autores são eles AManhiça, Elias Manjate e Marcos P’fuka, que, através das suas percepções, retiraram na escrita miacotiana o que entendem ter enquadramento nas paredes de qualquer galeria.

Momentos depois do acto simbólico que caracteriza as inaugurações de artes plásticas, Elias Manjate explicou que gostaria que o público encontrasse os vários diálogos possíveis entre as artes plásticas e a literatura. Esta é, igualmente, uma forma de despertar nos visitantes da colectiva o interesse pelas diferentes possibilidades que a ficção de Mia Couto oferece, até porque as telas pintadas, por exemplo, reflectem um pouco do que se passa na sociedade moçambicana. Não foi nada simples, preveniu Elias Manjate: “Foi um trabalho complexo, porque traduzir Mia Couto não é tarefa fácil. Mas foi, de certa forma, gratificante. Principalmente quando, ao chegar ao fim, e sem certeza de termos conseguido alcançar o nosso objectivo, ficamos satisfeitos por termos tentado”.

Para Marcos P’fuka, um dos autores da exposição, criar uma colectiva inspirada na ficção de Mia Couto é uma ideia inédita. “Entregamo-nos a este desafio com muita garra, porque, antes, já tínhamos lido a obra do escritor. Mia Couto, para mim, é um artista plástico que escreve. Então, a nossa adaptação para as telas fluiu facilmente porque ele é criativo e as obras desafiadoras para a inteligência”.

Os artistas plásticos tiveram de ler as obras de Mia Couto várias vezes, até porque a ideia não era fazer ilustração, mas perceber o pensamento do autor e colocá-lo na tela. A exposição apresenta 21 obras, sete de cada artista. As técnicas usadas são óleo sobre tela e escultura sobre ferro.

Não obstante, AManhiça referiu-se ao que despertou neles o interesse pela iniciativa. “Nós temos obras de escritores a serem levadas para o teatro ou para o cinema. Então, colocámo-nos o desafio de recriar a obra de um escritor nacional numa exposição. Escolhemos o Mia porque, para mim, ele é o escritor moçambicano mais versátil e porque escreve obras profundas sobre a nossa moçambicanidade e sobre a nossa cultura”. Para AManhinça, calhou bem porque eles se interessam por temáticas relativas à moçambicanidade.

A longa-metragem de Sol de Carvalho, Mabata Bata, foi laureada Melhor Filme Dramático no International Black & Diversity Film Festival, no Canadá. A realização moçambicana deixou para trás seis filmes.

A notícia do 16º prémio atribuído à longa-metragem Mabata Bata chegou, na verdade, há uma semana. Depois de se ter destacado um pouco por todo mundo, a ficção de Sol de Carvalho, adaptada de uma história de Mia Couto, foi laureada Melhor Filme Dramático no International Black & Diversity Film Festival (IBDFF), realizado na Cidade de Toronto, no Canadá.

A longa-metragem de Sol de Carvalho superou seis nomeações, designadamente, Freed, de Josza Anjembe (França); Nzela Nzela, de Badi Kuba (República Democrática do Congo); The road to truth, de Karen Walter-Martin; The process, de Jake Fay (Estados Unidos de América); Kapana, de Philippe Talaver (Namíbia) e Strain, de Uduak Obong Patrick (Nigéria). Considerando a abrangência do festival, Sol de Carvalho considera que o prémio é bom e que não é apenas seu. Partilha-o com toda a equipa que fez o Mabata Bata.

O International Black & Diversity Film Festival (IBDFF) é um evento cinematográfico independente, segundo a organização, criado para dar uma plataforma aos cineastas negros ou que produzem filmes sobre sociedades ou comunidades negras. O propósito é celebrar a diversidade cultural através da inclusão. Com efeito, a iniciativa esmera-se em incluir cineastas independentes de todo o mundo para mostrar seu trabalho na Cidade de Toronto. “Enquanto o foco principal do IBDFF está em filmes feitos por negros, ou por outras raças com actores negros em papéis-chave, ou filmes que mostram realidades negras de todo o mundo, o IBDFF também está aberto à inclusão de filmes independentes que podem ser vistos e apreciados por aqueles interessados em aprender sobre outras culturas, promovendo assim uma mistura de diversidade cultural através do cinema”.

O International Black & Diversity Film Festival é um festival multimédia. Em cada categoria havia cerca de seis nomeações e um vencedor.

Até aqui, Mabata Bata já esteve em 87 festivais, e Sol de Carvalho tem uma explicação para o sucesso do filme no continente americano: “A partir do momento que Mabata Bata entrou no circuito americano, depois de ter ganho prémios no festival africano, o filme começou a correr no Norte de América”.

Nos Estados Unidos, concretamente, Mabata Bata esteve em Dallas, Nova Iorque e Los Angeles. Agora, chegou a vez do Canadá, mas Sol de Carvalho não está de todo realizado. “Falta o filme chegar a um festival de categoria A em competição – num dos festivais de categoria A, em Roterdão, Países Baixos, esteve em uma mostra. Portanto, ainda não esteve em nenhum festival de categoria A em competição dos 10 que há no mundo”. Além disso, para Sol de Carvalho, falta o filme chegar a uma região: o Oriente. “Tive uma proposta para a Coreia, mas não chegou a passar”. Não passou a da Coreia, mas em Canadá.

Por: Belchior Eduardo

 

Numa terra longínqua, em um tempo em que ninguém sabe ao certo quando foi, ocorreu algo que chocou a todos, história de um certo homem, protagonista desse sucedido.

Um certo homem, de vinte tal anos, altura média, cabelo despenteado, sapatilhas pretas, barbas no rosto, uma calça que arrastava o chão, camisa preta e chapéu vermelho, era muito informado e culto em relação aos outros da sua região e época.

Certo dia, cansado da situação que ele passava diariamente, decidiu fazer uma viagem a procura de oportunidades e abraçar desafios que o faziam orgulhoso da sua própria jornada. Pegou na sua mochila logo de madrugada e colocou-se na estrada em busca de seus sonhos.

Dezasseis horas de caminhada, sentiu a necessidade de parar e descansar o seu corpo para continuar a jornada. Eis que aparece uma criança com apenas um olho na cabeça e uma camisa esfarrapa que o perguntou:

­ Tio, para onde vais?

Na maior, o homem virou calmo e respondeu:

­ Não tenho um destino certo, ando a procura de desafios que possam fazer com que me orgulho de mim mesmo.

A criança exclamou e disse:

­ Sabe, tio, sempre que tento me aproximar de alguém para conversar, a pessoa se assusta e corre com medo devido a minha aparência. Por isso dar-te-ei a oportunidade de fazer um pedido e eu realizarei de imediato.

O homem ficou contente com a oportunidade e, sem demora, disse:

­ Como ando há amais de 20 horas sem me alimentar devidamente, quero comida e água para que tenha força de continuar a viagem.

­ Assim será. Além da comida e água, também lhe darei um descanso condigno para uma boa digestão.

O menino cumpriu a promessa e foi-se embora. O homem ficou se alimentando e comendo de tudo, teve um sono profundo de mais de cinco horas. Quando despertou, já era noite e pernoitou no local. Logo cedo, continuou a viagem.

Andou durante horas e, pelo caminho, bem de longe, viu algo brilhante. Aproximou-se e viu uma velhinha deitada no chão, sem forças de continuar a caminhar. Aproximou-se com medo e perguntou o que se passava com a velha, e ela respondeu:

­ Fui expulsa de casa pelos meus filhos e suas esposas, acusam-me de feitiçaria, dizem que sou a culpada por eles não triunfarem na vida e pela infertilidade das suas esposas. Não tenho nem sequer o que comer nem beber.

O homem sensibilizou-se com a situação e alimentou a velha com o pouco alimento que tinha. A velha, aos poucos, ganhou força para se levantar e andar. Depois, disse:

– Por teres me dado o que comer e beber, te concederei um desejo, para que continues de boa forma a viagem.

O homem, mais uma vez, ficou admirado pela oportunidade e rogou:

– Estou há mais de sete dias caminhando, fiquei sem forças. Recuperei devido a alimentação, água e sono, porém, as pernas pesam-me e desejo que tenha um meio de transporte para minha locomoção.

Naquele mesmo momento, a velha deu-o um carro e o homem colocou-se no mesmo. Ele agradeceu imensamente e continuou a viagem.

Dois dias de viagem… o homem a creditou que chegaria em breve ao seu destino. Pelo caminho viu um senhor com duas crianças e uma senhora com trouxas à cabeça, todos cansados. Sem conseguir ignorar, voltou o carro. Parou e chamou o senhor. Perguntou:

– Para onde vão? Estão todos cansados, o que se passou?

O senhor tomou a palavra e disse:

– A nossa terra foi usurpada de nós, veio a guerra, devido a recursos naturais que nela surgiram, vieram povos sei lá de donde, e decapitam e matam quem estiver à sua frente.

O homem, com lágrimas nos olhos, respondeu:

– Vinde a mim, subam e deixar-vos-ei onde desejarem.

O senhor, a sua esposa e filhos subiram no carro e partiram. Chegando onde desejavam parar, desceram e agradeceram imensamente:

– Muito obrigado, Homem, por teres nos ajudado na nossa caminha. Aceita que te possamos conceder a realização de um desejo.

O homem, admirado, pediu ao senhor e à sua família:

– Saí de casa à procura de desafios maiores e que possam-me colocar orgulhoso de mim mesmo. Tenho forças, carro para chegar onde quer que seja o lugar. Desejo que tenha dinheiro para dar e vender.

O senhor, admirado pela determinação do homem, perguntou:

– Tens a certeza do que desejas?

O homem pensou uns segundos e disse:

– Sim, tenho.

O senhor, de seguida, realizou o desejo do homem. Este ficou muito satisfeitos e continuou a viagem. Pelo caminho, sentiu que chegou ao local onde teria desafios maiores e parou a viatura ali. Adormeceu por horas e, para o seu espanto, acordou em sua casa, sem a comida e água, sem o carro e o dinheiro, apenas com o seu senso de sabedoria das coisas ao seu redor e realidade científica.

 

 

 

 

A família Dos Santos e amigos juntaram-se, esta sexta-feira, na Cidade em Maputo, para celebrar a vida e a obra de Kalungano. A iniciativa ontem lançada poderá ser anual.

As artes foram convocadas à celebração do poeta e libertador nacional: Marcelino dos Santos. No Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, a sessão de exaltação da vida, das lutas, dos ideais e da obra de Kalungano começou com um momento de música clássica, protagonizado pelo Projecto Xiquitsi, da Associaçao Kulungwana. Com recurso a violinos e violoncelos, o grupo musical adicionou ao evento, que durou cerca de 60 minutos, emoções em jeito acordes. Foi a maneira que a família Dos Santos e amigos encontraram para fazer ecoar à memória dos participantes as lutas e o compromisso de um poeta e libertador nacional.

Depois da música clássica, e porque Marcelino dos Santos viveu a poesia intensamente, três adolescentes, alunas das escolas dos distritos de Boane e Namaacha, Província de Maputo, recitaram versos e emoções. As pequenas declamaram textos originais sobre Kalungano e sobre o que o poeta e herói nacional representa para Moçambique.

Na cerimónia, Marcelino dos Santos foi cantado, declamado e, igualmente, retratado através das artes plásticas. As várias telas que reflectem os rostos e o percurso de vida do autor de Canto do amor natural podem ser visitadas no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel nos próximos dias.

Com efeito, além da família Dos Santos e amigos que organizaram o evento, na sessão de celebração de Kalungano esteve, a representar o Governo, a Ministra da Cultura e Turismo. Durante a sua intervenção, Eldevina Materula reforçou a necessidade de se celebrar a obra de Kalungano todos os dias. “As comunidades devem se apropriar e celebrar os seus heróis. E uma das formas de transmitir aos mais novos o conhecimento histórico do país, da comunidade, contribuindo assim para a auto-estima e identidade, é realizar este tipo de eventos e envolver os mais jovens”.

Em representação da organização da celebração, no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel discursou Célio Saveca, para quem Marcelino dos Santos legou ao país a lição de se ser grande homem, pela sua amizade, simplicidade, grande alegria e pela entrega ao serviço ao próximo.

A celebração da vida e obra de Kalungano, de acordo com a família Dos Santos e amigos, é uma iniciativa que poderá ser anual.

A música sul-africana perdeu uma das suas lendas. Steve Kekana morreu ontem aos 62 anos, vítima de doença.

Ainda são escassas as informações sobre o desaparecimento físico de Steve Kekana. Esta quinta-feira, o irmão do malogrado informou que Kekana sofria de uma doença prolongada.

Segundo o The Citizen, Kekana nasceu a 4 de Agosto de 1958 na antiga província do Limpopo.

Steve Kekana gravou mais de 40 discos de estilo de jazz, gospel e outros géneros, cantando em Sotho, Zulu e Inglês.

O falecido músico atingiu o estrelato em finais da década de 1970 com temas como Take Your Love, que foi um sucesso comercial e ganhou prémios.

Popular em muitas partes da África Austral, Kekana era, desde os cinco anos de idade, cego.

Os sul-africanos olhavam para o músico como um exemplo de superação, tendo ele rompido com as barreiras impostas pela sua deficiência visual, que a adquiriu aos cincos anos de idade.

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

(dedicado à Fernanda co-protagonista desta história, pelo seu amor às crianças e à Educação)

 

No tempo e nas margens do colonial Chiveve, numa escola com nome de metropolitano governador, um aluno vacila no exame oral do 2º ano liceal.

Na resposta correcta a uma pergunta final jogava-se o futuro de Cadeado na tentativa de obter a tão desejada graduação.

– Professora, um gajo pode pegar céu?

Cadeado tenta, angustiadamente, identificar gramaticalmente o termo, apelando à sua professora nesse dia no papel de examinadora, no idioma importado e complexo do qual ainda não tomou posse plena.

Membros do júri, qual donos e patrões da língua, soltam gargalhadas trocistas.

Os ignaros escarnecedores nas suas mesquinhas mentes não atentaram na grandeza e profundidade da questão, iludidos pelo nome do examinando.

Um gajo pode pegar céu?

Não é a pergunta fundamental que se coloca à Humanidade?

Comum, própria, simples, composta, concreta, abstracta, primitiva, derivada e colectiva?

Desde que a Lucy, ainda sem diamantes, perscrutou o céu.

Depois o Homem foi à Lua, a Marte e ambiciona as estrelas.

Enquanto milhões vivem o inferno e o desespero das guerras, da fome e da doença.

Pergunta ingénua mas prenhe de futuros.

– Pensa comigo – diz carinhosamente a professora. Onde está o céu?

– Ah! Substantivo abstracto.

Um gajo pode pegar céu?

Pode? Substantivamente?

Terá Cadeado conseguido agarrar o seu?

 

Cascais, 1 de Junho 2021

Fotos: Bruno Castro

 

A encenação de Victor de Oliveira, Incêndios, encontra-se em digressão em França. Naquele país europeu, o espectáculo estreou em Nantes e ainda será apresentado na capital Paris.

 

Há mais ou menos dois anos, a peça Incêndios, encenada por Victor de Oliveira, estreou no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. Agora, depois de dois adiamentos, Incêndios está em digressão em França. Na verdade, a primeira das duas apresentações dos moçambicanos em Nantes foi feita esta terça-feira à noite, no Grand Théâtre. A seguir, o elenco de actores constituído por Josefina Massango, Alberto Magassela, Ana Magaia, Rita Couto, Sufaida Moyane, Eunice Mandlate, Klemente Tsamba, Bruno Huca, Elliot Alex e Horácio Guiamba parte a Paris, onde fará três apresentações do mesmo espectáculo.

Para o encenador Victor de Oliveira, é uma lufada de ar fresco poder voltar aos palcos depois de um momento de tanta incerteza. “Estamos todos muito felizes por poder estar aqui depois de muito tempo sem espectáculos. Estamos cá, moçambicanos rodeados de jovens técnicos moçambicanos que estão aqui a fazer formação. Essa toda energia em torno da cultura moçambicana que está a haver fora é muito importante e temos consciência disso”.

A condizer com as palavras de Victor de Oliveira, Josefina Massango referiu, esta quarta-feira, que os actores estão a viver um momento especial, ironicamente, num contexto em que os teatros estão encerrados em Moçambique. “É sem dúvidas um momento único, depois de longo tempo na expectativa, de preparação e ansiedade. Finalmente, aqui estamos com muita força para pisar os palcos e transmitir o calor trazido de África aqui aos franceses. Acredito que será uma belíssima digressão e oxalá que daqui para frente isto não volte a parar. Agradeço ao Victor por este esforço todo”.

Esta não é a primeira vez que a encenação Incêndios, de Victor de Oliveira, é a presentada na Europa. Há dois anos, a peça também foi levada a Portugal, onde foi considerada um dos melhores espectáculos apresentados naquele país.  

 

Sinopse

À leitura do testamento de Nawal Marwan, os gémeos Joana (Rita Couto) e Simão (Bruno Huca), seus filhos, devem fazer face a revelações estranhas: o pai deles não está morto e têm um irmão. Que fazer? Deixar tudo, atravessar o mar e um continente para ir ao encontro de um país longínquo e desconhecido, à busca da história da sua mãe e do mistério do seu nascimento? Essa busca da verdade não os fará correr o risco de poder levá-los ao impensável?

A encenação de Victor de Oliveira é feita ao texto original de Wajdi Mouawad, que explora o cruzamento entre o que poderia e é uma história de amor e a tragédia causada pelas escolhas horríveis dos homens. Portanto, Incêndios é a história da Nawal Marwan (Sufaida Moyane, Josefina Massango e Ana Magaia), dos lugares e dos filhos daquela personagem gerados sob fogo e à procura da verdade dessa mãe que lhes escondeu as suas origens.

 

Agenda

– 29 e 30 Junho, Grand Théâtre de Nantes

– 3,4 e 6 Julho, MC93 em Paris

– 8 de Julho, Scène National de Châtenay-Malabry

– 12 e 13 de Julho, Teatro Navional da Bretanha, Rennes

 

 

 

 

 

 

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