O País – A verdade como notícia

Histórias com cores e vício-inverso, arteando Mia Couto é o título da exposição de artes plásticas inaugurada esta quarta-feira, na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. A colectiva é, essencialmente, uma recriação às obras do Prémio Camões 2013.

Ano passado, três artistas plásticos decidiram expor uma colectiva que recriasse a obra literária de Mia Couto. O projecto adiado, Histórias com cores e vício-inverso, arteando Mia Couto, finalmente, foi inaugurado esta quarta-feira, na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Os autores são eles AManhiça, Elias Manjate e Marcos P’fuka, que, através das suas percepções, retiraram na escrita miacotiana o que entendem ter enquadramento nas paredes de qualquer galeria.

Momentos depois do acto simbólico que caracteriza as inaugurações de artes plásticas, Elias Manjate explicou que gostaria que o público encontrasse os vários diálogos possíveis entre as artes plásticas e a literatura. Esta é, igualmente, uma forma de despertar nos visitantes da colectiva o interesse pelas diferentes possibilidades que a ficção de Mia Couto oferece, até porque as telas pintadas, por exemplo, reflectem um pouco do que se passa na sociedade moçambicana. Não foi nada simples, preveniu Elias Manjate: “Foi um trabalho complexo, porque traduzir Mia Couto não é tarefa fácil. Mas foi, de certa forma, gratificante. Principalmente quando, ao chegar ao fim, e sem certeza de termos conseguido alcançar o nosso objectivo, ficamos satisfeitos por termos tentado”.

Para Marcos P’fuka, um dos autores da exposição, criar uma colectiva inspirada na ficção de Mia Couto é uma ideia inédita. “Entregamo-nos a este desafio com muita garra, porque, antes, já tínhamos lido a obra do escritor. Mia Couto, para mim, é um artista plástico que escreve. Então, a nossa adaptação para as telas fluiu facilmente porque ele é criativo e as obras desafiadoras para a inteligência”.

Os artistas plásticos tiveram de ler as obras de Mia Couto várias vezes, até porque a ideia não era fazer ilustração, mas perceber o pensamento do autor e colocá-lo na tela. A exposição apresenta 21 obras, sete de cada artista. As técnicas usadas são óleo sobre tela e escultura sobre ferro.

Não obstante, AManhiça referiu-se ao que despertou neles o interesse pela iniciativa. “Nós temos obras de escritores a serem levadas para o teatro ou para o cinema. Então, colocámo-nos o desafio de recriar a obra de um escritor nacional numa exposição. Escolhemos o Mia porque, para mim, ele é o escritor moçambicano mais versátil e porque escreve obras profundas sobre a nossa moçambicanidade e sobre a nossa cultura”. Para AManhinça, calhou bem porque eles se interessam por temáticas relativas à moçambicanidade.

A longa-metragem de Sol de Carvalho, Mabata Bata, foi laureada Melhor Filme Dramático no International Black & Diversity Film Festival, no Canadá. A realização moçambicana deixou para trás seis filmes.

A notícia do 16º prémio atribuído à longa-metragem Mabata Bata chegou, na verdade, há uma semana. Depois de se ter destacado um pouco por todo mundo, a ficção de Sol de Carvalho, adaptada de uma história de Mia Couto, foi laureada Melhor Filme Dramático no International Black & Diversity Film Festival (IBDFF), realizado na Cidade de Toronto, no Canadá.

A longa-metragem de Sol de Carvalho superou seis nomeações, designadamente, Freed, de Josza Anjembe (França); Nzela Nzela, de Badi Kuba (República Democrática do Congo); The road to truth, de Karen Walter-Martin; The process, de Jake Fay (Estados Unidos de América); Kapana, de Philippe Talaver (Namíbia) e Strain, de Uduak Obong Patrick (Nigéria). Considerando a abrangência do festival, Sol de Carvalho considera que o prémio é bom e que não é apenas seu. Partilha-o com toda a equipa que fez o Mabata Bata.

O International Black & Diversity Film Festival (IBDFF) é um evento cinematográfico independente, segundo a organização, criado para dar uma plataforma aos cineastas negros ou que produzem filmes sobre sociedades ou comunidades negras. O propósito é celebrar a diversidade cultural através da inclusão. Com efeito, a iniciativa esmera-se em incluir cineastas independentes de todo o mundo para mostrar seu trabalho na Cidade de Toronto. “Enquanto o foco principal do IBDFF está em filmes feitos por negros, ou por outras raças com actores negros em papéis-chave, ou filmes que mostram realidades negras de todo o mundo, o IBDFF também está aberto à inclusão de filmes independentes que podem ser vistos e apreciados por aqueles interessados em aprender sobre outras culturas, promovendo assim uma mistura de diversidade cultural através do cinema”.

O International Black & Diversity Film Festival é um festival multimédia. Em cada categoria havia cerca de seis nomeações e um vencedor.

Até aqui, Mabata Bata já esteve em 87 festivais, e Sol de Carvalho tem uma explicação para o sucesso do filme no continente americano: “A partir do momento que Mabata Bata entrou no circuito americano, depois de ter ganho prémios no festival africano, o filme começou a correr no Norte de América”.

Nos Estados Unidos, concretamente, Mabata Bata esteve em Dallas, Nova Iorque e Los Angeles. Agora, chegou a vez do Canadá, mas Sol de Carvalho não está de todo realizado. “Falta o filme chegar a um festival de categoria A em competição – num dos festivais de categoria A, em Roterdão, Países Baixos, esteve em uma mostra. Portanto, ainda não esteve em nenhum festival de categoria A em competição dos 10 que há no mundo”. Além disso, para Sol de Carvalho, falta o filme chegar a uma região: o Oriente. “Tive uma proposta para a Coreia, mas não chegou a passar”. Não passou a da Coreia, mas em Canadá.

Por: Belchior Eduardo

 

Numa terra longínqua, em um tempo em que ninguém sabe ao certo quando foi, ocorreu algo que chocou a todos, história de um certo homem, protagonista desse sucedido.

Um certo homem, de vinte tal anos, altura média, cabelo despenteado, sapatilhas pretas, barbas no rosto, uma calça que arrastava o chão, camisa preta e chapéu vermelho, era muito informado e culto em relação aos outros da sua região e época.

Certo dia, cansado da situação que ele passava diariamente, decidiu fazer uma viagem a procura de oportunidades e abraçar desafios que o faziam orgulhoso da sua própria jornada. Pegou na sua mochila logo de madrugada e colocou-se na estrada em busca de seus sonhos.

Dezasseis horas de caminhada, sentiu a necessidade de parar e descansar o seu corpo para continuar a jornada. Eis que aparece uma criança com apenas um olho na cabeça e uma camisa esfarrapa que o perguntou:

­ Tio, para onde vais?

Na maior, o homem virou calmo e respondeu:

­ Não tenho um destino certo, ando a procura de desafios que possam fazer com que me orgulho de mim mesmo.

A criança exclamou e disse:

­ Sabe, tio, sempre que tento me aproximar de alguém para conversar, a pessoa se assusta e corre com medo devido a minha aparência. Por isso dar-te-ei a oportunidade de fazer um pedido e eu realizarei de imediato.

O homem ficou contente com a oportunidade e, sem demora, disse:

­ Como ando há amais de 20 horas sem me alimentar devidamente, quero comida e água para que tenha força de continuar a viagem.

­ Assim será. Além da comida e água, também lhe darei um descanso condigno para uma boa digestão.

O menino cumpriu a promessa e foi-se embora. O homem ficou se alimentando e comendo de tudo, teve um sono profundo de mais de cinco horas. Quando despertou, já era noite e pernoitou no local. Logo cedo, continuou a viagem.

Andou durante horas e, pelo caminho, bem de longe, viu algo brilhante. Aproximou-se e viu uma velhinha deitada no chão, sem forças de continuar a caminhar. Aproximou-se com medo e perguntou o que se passava com a velha, e ela respondeu:

­ Fui expulsa de casa pelos meus filhos e suas esposas, acusam-me de feitiçaria, dizem que sou a culpada por eles não triunfarem na vida e pela infertilidade das suas esposas. Não tenho nem sequer o que comer nem beber.

O homem sensibilizou-se com a situação e alimentou a velha com o pouco alimento que tinha. A velha, aos poucos, ganhou força para se levantar e andar. Depois, disse:

– Por teres me dado o que comer e beber, te concederei um desejo, para que continues de boa forma a viagem.

O homem, mais uma vez, ficou admirado pela oportunidade e rogou:

– Estou há mais de sete dias caminhando, fiquei sem forças. Recuperei devido a alimentação, água e sono, porém, as pernas pesam-me e desejo que tenha um meio de transporte para minha locomoção.

Naquele mesmo momento, a velha deu-o um carro e o homem colocou-se no mesmo. Ele agradeceu imensamente e continuou a viagem.

Dois dias de viagem… o homem a creditou que chegaria em breve ao seu destino. Pelo caminho viu um senhor com duas crianças e uma senhora com trouxas à cabeça, todos cansados. Sem conseguir ignorar, voltou o carro. Parou e chamou o senhor. Perguntou:

– Para onde vão? Estão todos cansados, o que se passou?

O senhor tomou a palavra e disse:

– A nossa terra foi usurpada de nós, veio a guerra, devido a recursos naturais que nela surgiram, vieram povos sei lá de donde, e decapitam e matam quem estiver à sua frente.

O homem, com lágrimas nos olhos, respondeu:

– Vinde a mim, subam e deixar-vos-ei onde desejarem.

O senhor, a sua esposa e filhos subiram no carro e partiram. Chegando onde desejavam parar, desceram e agradeceram imensamente:

– Muito obrigado, Homem, por teres nos ajudado na nossa caminha. Aceita que te possamos conceder a realização de um desejo.

O homem, admirado, pediu ao senhor e à sua família:

– Saí de casa à procura de desafios maiores e que possam-me colocar orgulhoso de mim mesmo. Tenho forças, carro para chegar onde quer que seja o lugar. Desejo que tenha dinheiro para dar e vender.

O senhor, admirado pela determinação do homem, perguntou:

– Tens a certeza do que desejas?

O homem pensou uns segundos e disse:

– Sim, tenho.

O senhor, de seguida, realizou o desejo do homem. Este ficou muito satisfeitos e continuou a viagem. Pelo caminho, sentiu que chegou ao local onde teria desafios maiores e parou a viatura ali. Adormeceu por horas e, para o seu espanto, acordou em sua casa, sem a comida e água, sem o carro e o dinheiro, apenas com o seu senso de sabedoria das coisas ao seu redor e realidade científica.

 

 

 

 

A família Dos Santos e amigos juntaram-se, esta sexta-feira, na Cidade em Maputo, para celebrar a vida e a obra de Kalungano. A iniciativa ontem lançada poderá ser anual.

As artes foram convocadas à celebração do poeta e libertador nacional: Marcelino dos Santos. No Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, a sessão de exaltação da vida, das lutas, dos ideais e da obra de Kalungano começou com um momento de música clássica, protagonizado pelo Projecto Xiquitsi, da Associaçao Kulungwana. Com recurso a violinos e violoncelos, o grupo musical adicionou ao evento, que durou cerca de 60 minutos, emoções em jeito acordes. Foi a maneira que a família Dos Santos e amigos encontraram para fazer ecoar à memória dos participantes as lutas e o compromisso de um poeta e libertador nacional.

Depois da música clássica, e porque Marcelino dos Santos viveu a poesia intensamente, três adolescentes, alunas das escolas dos distritos de Boane e Namaacha, Província de Maputo, recitaram versos e emoções. As pequenas declamaram textos originais sobre Kalungano e sobre o que o poeta e herói nacional representa para Moçambique.

Na cerimónia, Marcelino dos Santos foi cantado, declamado e, igualmente, retratado através das artes plásticas. As várias telas que reflectem os rostos e o percurso de vida do autor de Canto do amor natural podem ser visitadas no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel nos próximos dias.

Com efeito, além da família Dos Santos e amigos que organizaram o evento, na sessão de celebração de Kalungano esteve, a representar o Governo, a Ministra da Cultura e Turismo. Durante a sua intervenção, Eldevina Materula reforçou a necessidade de se celebrar a obra de Kalungano todos os dias. “As comunidades devem se apropriar e celebrar os seus heróis. E uma das formas de transmitir aos mais novos o conhecimento histórico do país, da comunidade, contribuindo assim para a auto-estima e identidade, é realizar este tipo de eventos e envolver os mais jovens”.

Em representação da organização da celebração, no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel discursou Célio Saveca, para quem Marcelino dos Santos legou ao país a lição de se ser grande homem, pela sua amizade, simplicidade, grande alegria e pela entrega ao serviço ao próximo.

A celebração da vida e obra de Kalungano, de acordo com a família Dos Santos e amigos, é uma iniciativa que poderá ser anual.

A música sul-africana perdeu uma das suas lendas. Steve Kekana morreu ontem aos 62 anos, vítima de doença.

Ainda são escassas as informações sobre o desaparecimento físico de Steve Kekana. Esta quinta-feira, o irmão do malogrado informou que Kekana sofria de uma doença prolongada.

Segundo o The Citizen, Kekana nasceu a 4 de Agosto de 1958 na antiga província do Limpopo.

Steve Kekana gravou mais de 40 discos de estilo de jazz, gospel e outros géneros, cantando em Sotho, Zulu e Inglês.

O falecido músico atingiu o estrelato em finais da década de 1970 com temas como Take Your Love, que foi um sucesso comercial e ganhou prémios.

Popular em muitas partes da África Austral, Kekana era, desde os cinco anos de idade, cego.

Os sul-africanos olhavam para o músico como um exemplo de superação, tendo ele rompido com as barreiras impostas pela sua deficiência visual, que a adquiriu aos cincos anos de idade.

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

(dedicado à Fernanda co-protagonista desta história, pelo seu amor às crianças e à Educação)

 

No tempo e nas margens do colonial Chiveve, numa escola com nome de metropolitano governador, um aluno vacila no exame oral do 2º ano liceal.

Na resposta correcta a uma pergunta final jogava-se o futuro de Cadeado na tentativa de obter a tão desejada graduação.

– Professora, um gajo pode pegar céu?

Cadeado tenta, angustiadamente, identificar gramaticalmente o termo, apelando à sua professora nesse dia no papel de examinadora, no idioma importado e complexo do qual ainda não tomou posse plena.

Membros do júri, qual donos e patrões da língua, soltam gargalhadas trocistas.

Os ignaros escarnecedores nas suas mesquinhas mentes não atentaram na grandeza e profundidade da questão, iludidos pelo nome do examinando.

Um gajo pode pegar céu?

Não é a pergunta fundamental que se coloca à Humanidade?

Comum, própria, simples, composta, concreta, abstracta, primitiva, derivada e colectiva?

Desde que a Lucy, ainda sem diamantes, perscrutou o céu.

Depois o Homem foi à Lua, a Marte e ambiciona as estrelas.

Enquanto milhões vivem o inferno e o desespero das guerras, da fome e da doença.

Pergunta ingénua mas prenhe de futuros.

– Pensa comigo – diz carinhosamente a professora. Onde está o céu?

– Ah! Substantivo abstracto.

Um gajo pode pegar céu?

Pode? Substantivamente?

Terá Cadeado conseguido agarrar o seu?

 

Cascais, 1 de Junho 2021

Fotos: Bruno Castro

 

A encenação de Victor de Oliveira, Incêndios, encontra-se em digressão em França. Naquele país europeu, o espectáculo estreou em Nantes e ainda será apresentado na capital Paris.

 

Há mais ou menos dois anos, a peça Incêndios, encenada por Victor de Oliveira, estreou no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. Agora, depois de dois adiamentos, Incêndios está em digressão em França. Na verdade, a primeira das duas apresentações dos moçambicanos em Nantes foi feita esta terça-feira à noite, no Grand Théâtre. A seguir, o elenco de actores constituído por Josefina Massango, Alberto Magassela, Ana Magaia, Rita Couto, Sufaida Moyane, Eunice Mandlate, Klemente Tsamba, Bruno Huca, Elliot Alex e Horácio Guiamba parte a Paris, onde fará três apresentações do mesmo espectáculo.

Para o encenador Victor de Oliveira, é uma lufada de ar fresco poder voltar aos palcos depois de um momento de tanta incerteza. “Estamos todos muito felizes por poder estar aqui depois de muito tempo sem espectáculos. Estamos cá, moçambicanos rodeados de jovens técnicos moçambicanos que estão aqui a fazer formação. Essa toda energia em torno da cultura moçambicana que está a haver fora é muito importante e temos consciência disso”.

A condizer com as palavras de Victor de Oliveira, Josefina Massango referiu, esta quarta-feira, que os actores estão a viver um momento especial, ironicamente, num contexto em que os teatros estão encerrados em Moçambique. “É sem dúvidas um momento único, depois de longo tempo na expectativa, de preparação e ansiedade. Finalmente, aqui estamos com muita força para pisar os palcos e transmitir o calor trazido de África aqui aos franceses. Acredito que será uma belíssima digressão e oxalá que daqui para frente isto não volte a parar. Agradeço ao Victor por este esforço todo”.

Esta não é a primeira vez que a encenação Incêndios, de Victor de Oliveira, é a presentada na Europa. Há dois anos, a peça também foi levada a Portugal, onde foi considerada um dos melhores espectáculos apresentados naquele país.  

 

Sinopse

À leitura do testamento de Nawal Marwan, os gémeos Joana (Rita Couto) e Simão (Bruno Huca), seus filhos, devem fazer face a revelações estranhas: o pai deles não está morto e têm um irmão. Que fazer? Deixar tudo, atravessar o mar e um continente para ir ao encontro de um país longínquo e desconhecido, à busca da história da sua mãe e do mistério do seu nascimento? Essa busca da verdade não os fará correr o risco de poder levá-los ao impensável?

A encenação de Victor de Oliveira é feita ao texto original de Wajdi Mouawad, que explora o cruzamento entre o que poderia e é uma história de amor e a tragédia causada pelas escolhas horríveis dos homens. Portanto, Incêndios é a história da Nawal Marwan (Sufaida Moyane, Josefina Massango e Ana Magaia), dos lugares e dos filhos daquela personagem gerados sob fogo e à procura da verdade dessa mãe que lhes escondeu as suas origens.

 

Agenda

– 29 e 30 Junho, Grand Théâtre de Nantes

– 3,4 e 6 Julho, MC93 em Paris

– 8 de Julho, Scène National de Châtenay-Malabry

– 12 e 13 de Julho, Teatro Navional da Bretanha, Rennes

 

 

 

 

 

 

Uniões prematuras, violência sexual e apoio em iniciativas de geração de renda foram as principais linhas de actuação da iniciativa governamental contra a violência sexual, que decorreu durante dois anos.

Denominada SPOTLIGHT, a iniciativa visava promover acções de combate à violência sexual e às normas tradicionais que discriminam as mulheres, nos distritos das províncias de Gaza, Manica e Nampula.

A representante do Ministério do Género, Criança e Acção Social, Elisa Motisse, apesar de não ter avançado os resultados concretos sobre a primeira fase de implementação do projecto, disse que esta iniciativa já ajudou várias mulheres em situação de vulnerabilidade.

“A iniciativa está na fase terminal e pensamos que teve resultados positivos, várias lições foram aprendidas, que podemos transportar para a segunda fase do projecto”, avançou Elisa Motisse.

Um dos principais desafios avançados pela governante é o reforço da coordenação, como forma de garantir que haja harmonia nas acções levadas a cabo pelas várias organizações, em todo o país.

“A iniciativa é bastante alargada e apresenta vários pilares. Durante este período, as organizações avançaram na resposta aos casos de violência baseada no género e no apoio ao movimento de mulheres a nível do Governo e da sociedade civil”, concluiu.

Motisse disse, ainda, que “as organizações estiveram a apoiar as comunidades na área de sensibilização contra as uniões prematuras, violência doméstica e apoio a mulheres na reintegração na comunidade, através de iniciativas de geração de renda”.

Por sua vez, a financiadora da iniciativa, a União Europeia, acredita estarem criadas as condições para que se avance para a próxima fase da iniciativa.

“O financiamento está garantido para o início da segunda fase, a decorrer de 1 de Julho de 2021 até Dezembro de 2022. Contudo, a ONU Mulheres está, ainda, no processo de avaliação e fecho de todas as parcerias, pois este não é o único parceiro desta iniciativa”.

Fernanda Bernardo disse que, apesar de a iniciativa não abranger todo o país, “as acções das organizações da sociedade civil são extensivas e os resultados tendem a multiplicar-se em várias outras localidades nas quais não actuamos directamente”.

Vítima de união prematura, Edna Munguambe contou que se casou quando tinha 16 anos com um homem de 44 anos, por influência das amigas.

“As minhas amigas tinham uma vida que eu invejava. Era ingénua. Acabei por me deixar levar. Mas, quando me foi convidada para esta iniciativa, tive a coragem de me redimir com os meus pais e com a sociedade e, hoje, sou activista, na luta contra as uniões prematuras”.

A iniciativa SPOTLIGHT é desenvolvida pelo Governo de Moçambique, coordenada pelo Ministério do Género, Criança e Acção Social, em parceria com as Nações Unidas e é financiada pela União Europeia.

Por: Nito Ivo

 

Desde o primeiro alvorecer gravado pela minha memória os registos lá mantidos são de um Carlitos a viver inúmeras vidas, cada uma recheada de atribulações e peculiaridades próprias, de tal sorte, ou infortúnio, que as minhas primeiras vidas indeferiram-me o privilégio de frequentar a escola. Comecei a estudar aos doze anos de idade. Dali a quatro anos, numa severa manhã encharcada por uma cacimba horrível, ao sair de casa para a escola a minha mãe disse-me toda alegre que naquele dia passavam dezasseis anos desde que eu havia iniciado a minha segunda vida, depois de ter vivido a primeira no ventre dela. Foi também a derradeira ocasião em que a minha mãe me viu. Ao regresso da escola, onde frequentava a quarta classe, os homens do Centro de Recrutamento atribuíram-me dezoito anos de idade. Para eles as pessoas da minha terra ocultavam a idade avançada por detrás da baixa estatura física. Diziam que éramos baixinhos de propósito. Que éramos baixinhos por livre e espontânea vontade. O chamamento veio-me com o auge da guerra, aquela que uns a catalogam de guerra de desestabilização e outros a chamam de guerra pela democracia. Para mim era apenas guerra, composta de missões, emboscadas, batalhas e sangue. Ao serviço da nação desempenhei a tarefa com entrega e abnegação na infantaria. Participei em inúmeros combates sangrentos, sacrifício premiado com a patente de capitão quando eu tinha apenas dezanove anos de idade. Vivia eu a vida de capitão. Eu era o capitão Carlitos, reverenciado pelos meus homens, elogiado pelos meus superiores e temido pelo adversário. Nas frentes de combate da Província da Zambézia, escrevi histórias de guerra com a tinta de ferro e fogo que saía da ponta da minha arma, episódios que o Estado-maior General julgou dignos de serem recontados na primeira pessoa no Distrito da Moamba.

Eu, capitão Carlitos nascido no Alto Molócuè, desembarquei com honra na capital da República Popular de Moçambique de um Antonov da Força Aérea que me levou da Cidade de Quelimane directamente para Maputo. No mesmo dia parti de comboio para Moamba. Ainda no Antonov, narrava eu sobre uma das minhas vidas a um cubano que viajava comigo. Ele apenas disse: — “O homem que desconhece ao menos um motivo pelo qual morreria, não está preparado para viver.” — O cubano disse-me que tal frase havia sido proferida por um norte-americano chamado Martin Luther King. Abstive-me de diligenciar detalhes adicionais sobre o tal sujeito. Para mim era óbvio que o senhor King era um homem de dignidade, um guerreiro de alguma causa, um homem na frente de algum tipo de combate. Estava claro também que Martin Luther King não era menos do que um capitão na luta que ele travava, seja ela qual for. De resto, mais tarde haveria de aperceber-me de que as minhas vidas de militar aprumavam-se de dignidade justamente porque havia uma causa pela qual morrer. Foram vidas que deixei para trás junto às respectivas dignidade que carregavam quando os ventos da paz soprados pelos Acordos de Roma trouxeram-me o zéfiro da desmobilização e uma nova vida. Os mesmos ventos levaram para sempre a minha patente de capitão.

O ii ponto do sexto capítulo do Protocolo IV do AGP preconiza a reintegração económica e social dos militares desmobilizados. Ainda no pacote de benefícios aos ex-militares oferecia-se a possibilidade de regressar à proveniência mas naquele momento os projectos desenhados na minha cabeça pretendiam usar o dinheiro da reintegração económica e social para adquirir vários produtos em Maputo que me serviriam de catapulta num negócio próprio na minha terra. Contra as minhas espectativas, entretanto, a vida civil acolheu-me com um combate bem mais severo e desgastante do que aqueles que travei nas matas da Alta Zambézia e posteriormente no distrito da Moamba. Era o medonho combate burocrático de cujo objectivo era o de provar que eu havia lutado durante oito anos nas fileiras das forças governamentais, isso porque o estado assegurava que não recrutava jovens de idade inferior a dezoito anos de idade. O intempestivo empecilho privou-me do acesso ao merecido benefício. O processo das minhas nobres vidas militares entalava-se entre o calhamaço dos prováveis falsificados. Entre aqueles civis que reivindicavam benefícios iguais aos dos militares sem que tivessem pegado em armas. Aquelas pessoas sem dignidade que não morreriam por ninguém. Eu, capitão Carlitos, recebia a mesma desconsideração que esses miseráveis recebiam. Foi um tanto frustrante ouvir o mesmo estado que me recrutou aos dezasseis anos de idade a negar de pés juntos que o tinha feito. E não era a única batalha desafiadora que a burocracia me propunha. Para o estado era inconcebível que eu tenha sido elevado à patente de capitão com apenas dezanove anos de idade. Aquele mesmo estado que me atribuiu a patente de capitão negava tê-lo feito. Entretanto o calendário impaciente fazia os dias correrem uns atrás dos outros sem parar. Naquele momento senti imensas saudades das minhas vidas militares onde durante as minhas incursões eu desbravava destemido as matas como um tubarão vara as correntes dos oceanos. E tal como um tubarão, eu tinha o respeito de todos por onde passasse, das populações sob a minha protecção e dos meus bravos soldados. No teatro de operações, jamais vi-me na contingência de ter de apresentar provas que eu era um capitão. As tropas do outro lado estavam cientes que eu existia. Sabiam que havia um miúdo Lomwé, baixinho e escuro que era muito perigoso. O adversário aterrorizava-se com a eventualidade de um encontro comigo. De resto, foi pelo reconhecimento das minhas habilidades de capitão que se fez o estado mandar um Antonov para transportar-me de urgência da Zambézia para Maputo. O mesmo estado que continuava a recusar-me tal patente.

Para enfrentar tão estafante missão de combate contra o exército muito bem armado e equipado de canetas, papéis, e aquartelados em gabinetes climatizados, entrincheirei-me na periferia de Maputo onde o meu salário de guarda de segurança privada pudesse sustentar as rendas. Iniciava-se assim a minha missão de vida mais longa e desgastante, e com efeito, vinte anos depois da desmobilização nenhum benefício tinha-me chegado aos bolsos. O estado continuava a insistir que eu era um civil embusteiro apesar das declarações de várias testemunhas que tinham estado comigo nas matas da Moamba. Havia, entretanto, alguns indivíduos cujos testemunhos eram sempre válidos para quem quer que fosse. Ainda que não me tivessem conhecido no teatro de operações poderiam testemunhar a meu favor desde que os enviasse um envelope de gratidão. “Eu fui patenteado capitão por merecer! — Vociferei-lhes desgostoso com o indicador direito em riste, como se fosse o cano de uma pistola mirando-lhes as malditas cabeças. — Não pactuo com essas brincadeiras! Na minha vida de capitão o inimigo enviou emissários com a promessa de sacos de dinheiro para mim acaso os fizesse as vontades, mas amarrei pessoalmente os quatro mensageiros de seguida encaminhei-os ao interrogatório da inteligência militar. Vocês merecem punição, mandar-vos estender os braços, ficarem tipo cruz, desde manhã até anoitecer.” Assim indeferi aquela vergonhosa proposta.

E foi no embalo da esperança de que o imbróglio processual pudesse ser rapidamente esclarecido que as minhas raízes foram-se enterrando numa dependência de único cómodo, ao fundo de um pequeno quintal que acolhia três outros compartimentos habitados por igual número de famílias. Nos bairros suburbanos de Maputo chamávamos os quintais partilhados por várias famílias de condomínio. Alegrava-me a ironia do nome que também é usado pelos ricos para descrever a localização das suas casas.

No condomínio em circunstância havia ainda uma mafureira mesmo na entrada cuja sombra cobria um balcão feito de restos de madeira no qual lavava-se os alimentos e a louça servindo-se de bacia porque a única torneira localizava-se num canto distante de onde era realmente necessária e servia unicamente para que cada família enchesse os seus recipientes. A casa de banho estava ao fundo direito do quintal, era comum, a céu aberto, cujas paredes de cimento rebocado por dentro e por fora sem pintura era de tal altura que permitia o banhista ver e ser visto do quintal. Não havia cozinha no condomínio.

Os meus vizinhos do condomínio moravam entre as suas próprias famílias. Eu, por obstinada necessidade morava sozinho no quartinho número quatro, de único cómodo. Era também uma estratégia daquele combate de vida civil que obrigava a aparta-me de envolvimento afectivo duradouro, porquanto as minhas malas aguardavam prontas para partir de regresso ao Alto Molócuè logo que o dinheiro da reintegração económica e social chegasse-me aos bolsos.

O meu posto de trabalho, como guarda de uma empresa de segurança privada, era numa agência de um banco comercial. Quarta classe e experiência com armas de fogo oferecia não mais do que isso. Era o que eles viam em mim, uma pessoa que abandonou a escola na quarta classe para aprender a disparar. A minha experiência de capitão não os dizia nada. Eu estava sujeito ao comando de civis sem conhecimento de estratégia. Alguns estavam investidos de autoridade para vociferar comigo como eu berrava para os meus soldados. Naquele emprego sentia-me prisioneiro num quartel inimigo, apenas com direito aos benefícios do sétimo e do oitavo ponto da Convenção de Genebra de 1949 que proíbe a tortura e determina que todos os prisioneiros devem receber água e comida, que me chegavam em forma de um mísero salário.

Numa quinta-feira em que havia promessa de salário, mas não se cumpriu, ao fim da tarde a fome agitava terrivelmente a minha preocupação porque os meus bolsos acolhiam a minha derradeira riqueza monetária suficiente para única viagem de chapa, a viagem de regresso à casa, e em casa não tinha nada para cozinhar, nada para comer, isso depois de ter passado o dia com praticamente nada no estômago. Depois que desci do chapa, vindo do serviço, pus-me a marchar em direcção ao condomínio. Coluna retesada, passos largos, peito fora e cabeça erguida. De resto, nem os vinte anos fora do exército e nem a excessiva fome daquele dia aniquilaram-me a postura militar. Havia, entretanto, a mercearia da Tia Catarina localizada no caminho pelo qual eu iria passar, pintada toda de amarelo com um letreiro por cima escrito “Mercearia Canarinho” em enaltecimento ao Costa do Sol, clube do coração do esposo da Tia Catarina, o Tio Matavele. Outrora e durante vários anos eu gozei do magnífico privilégio de empenhar os produtos alimentares na Mercearia Canarinho deixando tão-somente garantias verbais de pagamento a posterior. Uma regalia ora interrompida por imperícia da minha parte, mas felizmente aquele aperto de mãos em Roma ensinou-me que as guerras podem encontrar paz quando há boa vontade.

O dilema surgira três meses antes: Em frente à Mercearia Canarinho, da Tia Catarina, abriu ao público uma mercearia toda pintada de verde em cujo topo da fachada estava escrito em letras garrafais “Mercearia Locomotiva”. O proprietário da nova mercearia se quer apreciava desporto, qualquer que fosse a modalidade, mas fizera aquele presunçoso baptismo por evidente despeito ao vizinho de quem sempre velou uma inveja sombria de complexo de inferioridade e na primeira oportunidade com dinheiro em mãos deu azo a sua arrogância, e fazia mesmo toda questão de exaltar aos vizinhos que passou a ser o melhor. Aquela infâmia suscitou degradação da saúde e da harmonia no seio familiar dos proprietários da Mercearia Canarinho, coitados, à Tia Catarina pelos clientes que perdia e ao Tio Matavele porque naquele ano o apito dos Locomotivas da Capital sufocava agressivamente o canto dos Canarinhos na tabela classificativa do campeonato nacional de futebol, pior ainda porque numa manhã de inverno o dia acordou com um desenho grosseiro e horroroso de um canário morto numa linha férrea, feito a tinta de óleo na parede frontal da Mercearia Canarinho, e suspeitou-se logo que o autor moral daquela petulância fosse o proprietário da Mercearia Locomotiva. Reunidos junto ao chefe do quarteirão para dirimir aquele litígio entre vizinhos o proprietário da Mercearia Locomotiva acudiu-se com certo gozo, lançando suspeição ao ar, dizendo que qualquer um poderia tê-lo feito por brincadeira de mau gosto, até mesmo os donos da Mercearia Canarinho poderiam ter sido só para mancha-lo, que ele não precisava disso porque o seu negócio corria a mil maravilhas. De facto a Mercearia Locomotiva era menor mas vendia todos os produtos um pouquinho mais baratos do que os da Mercearia Canarinho. Eu e tantos outros vizinhos, deslembrados do carinho da Tia Catarina, passamos a fazer compras na Mercearia Locomotiva. O principal requisito para que eu entrasse na Mercearia Locomotiva era a coragem de não reparar para a Tia Catarina, fazer de contas que não conhecia a ninguém na Mercearia Canarinho. Naquele momento pareceu-me mais civilizado evitá-la, até porque a Tia Catarina tinha o inabalável preceito de jamais antecipar-se na saudação.

Afinal de contas o proprietário da Mercearia Locomotiva teve os bolsos enchidos por um negócio ilícito, como diziam os vizinhos “acertou uma boa bolada”. A própria esposa, tal como sucedia na Mercearia Canarinho, foi a escolhida para a partir do balção da Mercearia Locomotiva conduzir pelos melhores carris o novo negócio de família. Enquanto o calendário levava os dias, os clientes esvaziavam as prateleiras da Mercearia Locomotiva até que chegou o dia em que jamais havia cogitado que o calendário fosse registar naquele mês: o dia em que a Mercearia Locomotiva fechou definitivamente as portas.

Ao meio do caminho senti que o meu corpo necessitava de facto de reposição de energias. A fome era extrema. Em breve cheguei à Mercearia Canarinho, adentrei ao perímetro gradeado reservado aos clientes com passos e postura humilde, de um civil. Aquele não era o momento de orgulho de capitão.

Passei a língua sobre os beiços ressecados. — Tia Catarina! Tudo bem?

A Tia Catarina segurava uma caneca metálica na mão da qual despejava arroz num saco plástico preto sobre uma balança electrónica. O acto exigia-lhe redobrada concentração. Sem olhar para mim reconheceu-me a voz e o sotaque. Os vinte anos a viver em Maputo não me tiraram a identidade da origem da minha pronúncia.

— Tio Carlitos! Desaparecido meu amigo. — Respondeu prontamente, em ronga, como se aguardasse ansiosamente por mim. — Eu estou muito bem, graças a Deus. E consigo, Tio Carlitos? — Havia algum sarcasmo velado naqueles pronunciamentos. Ela continuava a despejar arroz, cada vez mais devagar para não passar de um quilo.

— Assim-assim Tia Catarina. A vida as vezes nos leva para caminhos diferentes.

Concluída a pesagem, enfim fulminou-me com um olhar vitorioso do qual fui incapaz de ripostar. Desviei o olhar observando as prateleiras e frigoríficos da mercearia, todos cheios e muito bem arrumados.

— Vamos cantar juntos Tio Carlitos!

— Cantar?!

A Tia Catarina pôs-se a cantar enquanto dançava toda feliz. — “Locomotiva está apitar, Canário já não canta; Locomotiva está apitar, Canário já não canta; Locomotiva está apitar, Canário já não canta…

Aquela canção afiada, tão perfurante como o prego da cruz de Gólgota, não somente avivou-me a memória como também flamejou a excruciante dor que a concorrência havia causado nela. A aceitação do meu pedido condicionava-se à gravidade das sequelas que o infame advento da Mercearia Locomotiva havia causado na Tia Catarina e do grau de responsabilização que ela me atribuía.

Decide interrompê-la. — O Tio Matavele deve estar muito feliz. Eu também estou porque o Costa do Sol venceu ao Ferroviário.

— Ó! Tio Carlitos! Desde sábado até hoje tal alegria deixou de ser importante. A maior alegria actual é receber visitas daqueles que um dia desapareceram sem dizer adeus. E hoje é um grande dia porque vieste visitar-me. Tu sabes que eu gosto de ti. Não sabes Tio Carlitos? — A Tia Catarina falava a misturar ronga e português. Eu gostava de ouvi-la a falar daquele jeito.

— Eu também gosto muito ti, Tia Catarina. — Havia que recordá-la que o meu tempo de fidelidade era muito maior do que aquele que ela tomava como tempo de traição. — Somos amigos desde que abriste esta mercearia há mais de cinco anos.

— As pessoas quando gostam uma da outra visitam-se ou cumprimentam-se quando se cruzam. Não é assim Tio Carlitos?

— Tem toda razão Tia Catarina. — Não havia mais nada de estratégico a declarar, se não dá-la razão e dizer a quê viera. — Tia Catarina! Queria pedir alguns produtos para pagar depois.

— Ó! Tio Carlitos! — Reagiu como se a tivesse pedido um rim a ser extraído naquele momento, com se a minha mão empolgasse um bisturi. Num impulso fez um pulo de fuga para trás, estacou-se no centro da mercearia com as mãos apoiadas nas ancas voluptuosas e disparou-me um olhar de guerra. — Os produtos aqui são muito caros! Perdi muitos clientes por isso.

Mantive-me humildemente quieto, cabeça decaída à esquerda, como fazem os civis. O gesto de rendição parece tê-la comovido. A Tia Catarina continuou a falar, desta feita mais apaziguadora.

— Porque eu gosto de ti, Tio Carlitos, não posso deixar-te sofrer. Queres o quê meu amigo?

— Cinco carapaus 16, um quilo de arroz e meio quilo de tomate.

Ultrapassei aquela rusga com uma valorosa aliada em tempos de paz. Entretanto, um capitão não se deve limitar a festejar as vitórias. Há que reflectir se cada passo dado foi o mais adequado, tirar ilações para que as próximas vitórias surjam com menos combates, ou até mesmo, como diz Sun Tzu, “vencer sem lutar”.

Cheguei ao endereço do condomínio quando escurecia. Entrei ao quintal pelo único portão existente, sobre o balcão debaixo da mafureira depositei o saco plástico contendo os cinco peixes carapau tamanho 16. Na sequência, sempre acompanhado pelo meu cantarolar desinibido, destranquei o cadeado da porta do meu quartinho, entrei, liguei as lâmpadas de dentro e de fora, saí do quartinho de calções azuis até aos joelhos, uma camisola interior estampada de tigre e chinelos verdes, empolgava uma pequena bacia cor-de-rosa e uma faca de cabo de madeira. Escamei os cinco peixes carapau tamanho 16, lavei, deixei-os na bacia, a cantarolar fui mais uma vez ao meu quartinho para buscar o almofariz, o alho e o sal. Menos de trinta segundos retornaram-me ao balção improvisado de madeira sobre o qual achava-se a bacia, ao lado ainda se encontravam as tripas, as guelras e as barbatanas. Inacreditavelmente não havia peixe algum na bacia! Cinco peixes carapau tamanho 16, limpos por mim, desapareceram em menos de trinta segundos sem deixar qualquer rasto! O meu estômago roncou a lembrar-me que continuava sedento de alimento, daquele peixe carapau tamanho 16 em particular.

O meu profundo espanto não se originou somente daquela tão ousada intervenção, mas sobretudo pela prontidão da missão e pelo silêncio camuflado que encobriram a captura dos meus cinco peixes carapau tamanho 16, como se os executores tivessem preparado meticulosamente aquela intervenção, demonstrando alto grau de profissionalismo e experiência em missões semelhantes. Há que reconhecer mérito do inimigo naquela emboscada muito bem-sucedida contra o meu jantar e dar mão à palmatória, reconhecendo que houve de facto imprudência da minha parte. Baixei a guarda. Pensei como os civis, que o tempo mais importante é o futuro. O povo acredita que a comida é sua quando se diz que está no celeiro. O povo acredita num futuro melhor. Sabe gerir o povo quem promete um futuro melhor, mesmo que descumpra. Se tivesse agido como um capitão saberia que o tempo mais importante é o presente, que a comida só é sua quando está na sua barriga, enquanto não estiver há que tomar redobrado cuidado para guarnecê-la. Na tropa as imprudências de um capitão podem custar vidas. Mas, uma vez cometida a negligência havia que correr atrás do prejuízo com a mente de capitão. Supus-me num sensível teatro de operações. A primeira suspeita recaiu imediatamente sobre os vizinhos invejosos do condomínio. Qual dos petulantes teria sido?! Depois de uma diligência profunda e minuciosa, porém infrutífera sobre o quintal, lancei uma observação binocular de alguns minutos sobre a mafureira, desbravando com os olhos ramo a ramo, folha entre folha, mas igualmente sem sucesso. Em breve, encoberto pela escuridão da noite, um vulto sobre as telhas de zinco do meu quartinho magnetizou a minha atenção. Mesmo na borda havia um bichano a cear na maior tranquilidade. Todas as minhas dúvidas sublimaram instantaneamente dando lugar à certeza absoluta. Num impulso o maldito bichano degustava-se suculentamente da minha refeição de dois dias. O bichano era do vizinho, um traidor que outrora degustara o meu frango inteiro porque achava-se conservado no congelador dele, e desta feira era outro membro da casa dele a afrontar-me com a mesma atitude de guerra. O maldito bichano saboreava serenamente os meus cinco peixes carapau tamanho 16 retirados indevidamente da minha bacia. Aquele mesmo bichano que eu tanto o respeitava, que em nome da nossa amizade se aninhava carinhoso aos meus pés, que eu costumava a mimoseá-lo com os restos!

No teatro de operações, as intervenções daquele género eram catalogadas de conspiração, uma palavra que advém de respirar o mesmo ar. Só pode ser orquestrada por elementos do mesmo círculo. Todo o capitão tem ciência do significado de conspiração e teme muito o seu terrível poder. O Bichano conspirou contra mim, convenceu-me de que havia paz entre nós quando na verdade premeditava uma acção mortífera. Eu pensei que a guerra tivesse terminado com o AGP mas o bichano ignorava o facto, tal como Hiroo Onoda em Lubang. Uma situação que forçava a defender-me lutando pela minha vida, e todo o capitão sabe que a melhor defesa é o ataque. Então supus-me no teatro das operações, peguei na guelra, barbatanas e tripas dos cinco peixes carapau tamanho 16, os restos que o bichano preteriu, pus na bacia esvaziada pelo animal, levei comigo ao meu quartinho para que ficasse em segurança, armei-me com a minha baioneta, aquela cujo fio conhecia sangue de pessoa. Retornei ao quintal com a bacia, um saco de arroz vazio e uma corda devidamente preparada para a batalha. Por fado a telenovela continuava a entreter os vizinhos prendendo-os aos seus cubículos e deixando assim o campo de batalha livre para a aplicação das minhas tácticas para um combate sem civis. Entrincheirei-me numa aresta lôbrega, camuflei-me cobrindo o meu corpo com um saco de arroz. Por dez minutos não se registou movimentação hostil no campo de batalha. Eu estava ciente de que o sucesso de uma emboscada alicerçava-se na paciência. Na minha vida de capitão, eu e os meus soldados permanecemos durante três dias dentro de troncos de árvores a espera do inimigo. A nossa vitória reverberou em todas as hostes do Rovuma ao Maputo. Foi esse o episódio insólito que fez o Estado-maior General chamar-me na máxima pressa da Alta Zambézia para Moamba. Estrela de guerra. Era isso que eu era durante guerra. Uma estrela cujo brilho fora apagado pela paz porque estrela de guerra não deve brilhar em tempos de paz.

Avistei a aproximação sorrateira do inimigo na mesma táctica anteriormente empreendida. Surgia às seis horas, do lado oposto ao meu tecto, exactamente de onde eu o esperava. Posicionei-me com a corda na mão. O bichano meteu a cabeça na bacia, pela última vez. Puxei a corda mais com jeito do que com força. Dali a poucos minutos a vida do animal havia escorrido pelo fio da minha baioneta, de seguida esfolado.

Cozinhei o arroz de tomate, conforme programado. Fiz o guisado de gato. O aroma expelia-se tão incrivelmente bom que eu mesmo salivava. Era muito melhor do que qualquer outra carne que eu alguma vez havia cozinhado naquele quartinho. Um dos vizinhos do condomínio não se segurou e veio à minha porta.

— Tio Carlitos!

— Pronto, vizinho! — Respondi, um tanto aflito. Era o dono do gato cuja carne fervia na minha panela, o mesmo infame que certa vez devorara o meu frango inteiro. Embora a guerra tenha sido declarada pelo bichano, o dono jamais aceitaria que pagasse com a própria vida por um crime de furto. Seria esse o nome da agressão contra mim que o dono chamaria. Para mim foi guerra.

Logo que abri a porta constatei que o vizinho vinha numa missão de paz. Empolgava duas garrafas de cerveja. Estendeu a mão para entregar-me uma. Certamente que o salário dele caíra na conta naquele dia, ao contrário do meu.

— Está a cheirar muito bem aqui pah! Sabes que a senhora está a cozinhar frango mas o aroma que invade a minha casa é o seu pah! Qual é o teu jantar Tio Carlitos?

Deu-me vontade de sorrir zombeteiro pelo motivo da visita mas julguei que não devia fazê-lo por respeito ao adversário caído. Na tropa respeitamos a vida, não comemoramos pelos adversários abatidos, festejamos o cumprimento de um objectivo, e se o objectivo for executado sem sangue chamamos de vitória perfeita.

Abri a garrafa de cerveja com os dentes.

— É coelho vizinho.

— Eu nunca comi coelho pah. Dizem que é muito bom pah.

Desliguei o fogão eléctrico sobre blocos de cimento, servi três pedaços num prato de plástico azul para que o vizinho provasse.

— Tio Carlitos! Isto está uma delícia pah! Arranja-la dois destes coelhos para o natal. Eu pago. Gostei muito pah.

— Vai um pouco de piripiri vizinho?

Faxavor pah! — Lá gotejou sobre a carne. — Sim senhora! Isto é uma maravilha. Quisera eu comer disto todos os dias pah.

Não havia extrema exigência de decoro no condomínio mas o vizinho não se preocupou em manter o mínimo que fosse! Limpou o prato com a língua, muito agradeceu e foi-se embora arrastando consigo a pesada vontade de degustar mais. E assim vou levando a vida, um dia de cada vez, alimentado pela esperança de que haverá um futuro melhor.

 

 

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