O País – A verdade como notícia

Os Poetas d’Alma irão participar, em Setembro, no Festival de Poesia de Lisboa, em Portugal. A apresentação do colectivo contará com performances de Alena Bravo (Cuba), Féling Capela (Moçambique) e Yurungai (Brasil).

 

No dia 12 de Setembro, o colectivo Poetas D’Alma irá apresentar o seu espectáculo no Festival de Poesia de Lisboa.  Segundo avança a nota de imprensa sobre o evento, trata-se de um concerto intimista e frontal, que vai explorar temas autorais acompanhados de piano e mbira.

A performance poética de Poetas d’Alma na capital portuguesa irá envolver os artistas Alena Bravo (Cuba), Féling Capela (Moçambique) e Yurungai (Brasil), que juntos estarão num conceito que bem se assenta aos desideratos do colectivo de poetas sem fronteiras, que se reúne por acreditar na poesia como expressão dos sentimentos da alma.

Os Poetas d’Alma acreditam que a oportunidade de participar no Festival de Lisboa lhes permite sair do seu casulo e voar para a cidade global. “Estamos bastante felizes por este reconhecimento que começa a provar-se mundialmente, pois tínhamos até então o selo do maior Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas no solo africano. Apesar da situação pandémica que todos vivemos, este convite sabe à glória divinal, pois teremos a oportunidade de espalhar o nosso perfume oral e visual para o mundo através das plataformas do Festival de Poesia de Lisboa”, acrecentou Féling Capela, líder do colectivo com 17 anos de existência: “Sentimo-nos valorizados e muito bem referenciados… o ‘sul’ tem agora lugar de privilégio no norte…”.

A participação do colectivo deve-se ao facto do Festival de Poesia de Lisboa ter acompanhado a curadoria e realização da 2ª edição do Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas – Poetas D’alma, criado num período do auge e também de medo, trauma e desconhecimento da pandemia. “Mesmo assim, em 2020 fomos praticamente das poucas organizações africanas e até mundial que conseguiu realizar um festival híbrido com mais de 16 países. Sentimos que muitos viram e aproveitaram aprender connosco, com a nossa curadoria e conceito de festival que promove, para além de simples intercâmbio, irmandade real que faz brotar redes de novos movimentos e interacção artística sem fronteiras”.

Na viagem virtual pelo mundo, partindo de Portugal, Poetas d’Alma pretende ser cada vez mais forte, aproveitando outros palcos para espalhar a sua luta poética: direitos humanos, paz e amor, bem como criar redes e outros públicos além-fronteiras.

O evento não deixa de ser uma ponte para a realização da 3ª edição do Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas – Poetas d’Alma a acontecer em Moçambique entre os dias 18 e 21 de Novembro.

O espectáculo de Poeta d’Alma terá duração de 30 minutos, nas redes sociais do Festival de Poesia de Lisboa.

 

Sobre os Poetas d’Alma

Alena Bravo é pianista e compositora. Nasceu em Cuba. Desde muito cedo, interessou-se pela música e a sua capacidade de tocar e partilhar culturas. É vocalista e pianista, com sonoridades singulares, despertando a leveza e a naturalidade através de melodias surreais.

Féling Capela é poeta, fotojornalista, activista social e produtor cultural. Nasceu em Moçambique. Capela explora todas as ferramentas a seu dispor para expor a sua arte de forma apaixonante e frontal. As suas lentes e a sua voz com uma capacidade única para contar histórias que fazem ponte entre várias culturas elevando o valor das artes africanas em particular.

Yurungai é cantora, compositora e poeta. Nasceu no Brasil. As suas composições falam retratam a experiência de se reconhecer no mundo, sente-se com um espírito atemporal: os temas das composições sempre flertando com passado, presente e futuro; brincando com o que está dentro e fora do tempo.

 

Por: Nito Ivo

 

Próximo ao período da troca de turnos, aí pelas seis horas e meia da manhã de um verão severo, cuja noite havia sido abominavelmente escaldante, entediante e encharcada de mosquitos assaz nervosos e insaciáveis de sangue, todos os compartimentos da esquadra policial do bairro foram gradualmente sendo inundados por uma onda de algazarra que se tornou tremendamente assustadora, na qual eram conjurados os mais infames anátemas ao senhor comandante Bujão, entretanto naquele momento ausente. Com pouca margem para dúvida, pela tremenda indisposição e agastamento colado no cenho dos agentes que haviam trabalhado nas derradeiras vinte e quatro horas, certamente que entregar-se-iam resignados às mais duras punições, se aquela opção lhes fosse possível escolher, a despeito de continuar naquela esquadra além dos respectivos horários de trabalho, obedecendo a uma inesperada e excruciante ordem acabada de chegar. Os agentes visados eram até mesmo capazes de pagar os seus salários inteiros para naquele instante se porem a milhas daquela esquadra mesmo estando certos de que nas suas próprias casas também não haveria ensejo para o descanso pois os aguardava um abrasador calor, que de resto já se fazia sentir e que, segundo a previsão meteorológica, o mercúrio galgaria tranquilamente a escala dos termómetros ao pico dos trinta e sete graus centigrados e por aquelas alturas solares se conservaria por longo período do dia.

A tão lancinante ordem que obrigava ao prolongamento de turno arrebatou toda a paciência, que já era residual, dos agentes que haviam passado a noite numa indesejável prontidão operativa e rezando para que a noite fosse calma em ocorrências e rápida a alvorecer, mas efectivou-se tão-somente o primeiro desiderato, pois, com o dia raiado chegou pelo chefe das operações a infeliz informação de que ninguém deveria abandonar a esquadra antes da chegada do senhor comandante Bujão, que normalmente chegava por volta das nove horas, depois da sua participação na formatura do comando.

— Ninguém pode sair! É uma ordem directa do senhor comandante acabada de chegar pelo telemóvel. O petulante que se atrever a desobedecer arcará com terríveis consequências. — Ameaçava o chefe das operações em berros guturais, passando por cada cómodo da esquadra.

Em murmúrios não tão baixos, os agentes cujo turno findava às sete horas, manifestavam o seu total descontentamento diante do suposto abuso de cargo do senhor comandante Bujão do qual se julgavam vítimas. Alguns já haviam mesmo despido os uniformes por volta das cinco horas e aguardavam com certa impaciência a hora de saída, mas tiveram de reaprumar-se, pelo que é, de resto, bem mais fácil imaginar a sua cólera do que descrevê-la.

Diante do generalizado incito à balbúrdia, o chefe das operações, portador da fatídica ordem, revestido de um sorriso manhoso, enunciou um ditado que no seu tempo de tropa, como orgulhosamente fazia questão de vangloriar-se, muito se usava. — Podem murmurar, basta cumprir!

Com efeito, um quarto para às sete, ao volante da sua viatura, despontou o senhor comandante Bujão pela solavancada rua de terra que dava acesso à esquadra a uma velocidade de camaleão, cinco quilómetros por hora, como lhe era característico da condução em estradas tortuosas. Não obstante o seu aspecto quase sucatado, pelo facto de passar mais tempo em mecânicos do que nas suas mãos, a viatura era tão estimada pelo senhor comandante Bujão que se confundia com um amado membro da sua família, tinha até um nome que o havia escrito em letras garrafais no pára-brisa — Lucrécia II — e falava do carro com grande orgulho, que o motor estava em óptimo estado, que faltava apenas encontrar um excelente bate-chapa e um óptimo pintor para dá-lo um banho completo, pôr novos pneus, substituir alguns casquilhos aqui e acolá, também algumas peças secundárias, e então já poderia percorrer do Maputo ao Rovuma, aumentando apenas o combustível. Em resumo: havia uma forte ligação, quase espiritual, entre o senhor comandante Bujão e a Lucrécia II, que juntos tinham inclusivamente uma história de vida assaz peculiar iniciada quando em finais da sua adolescência Bujão alimentara uma colossal paixão platónica pela talentosa actriz Lucrécia Paco, mas composta de todas as sensações reais de uma paixão real que o arrebatou não só o coração por inteiro, mas todo o seu destino. Entretanto, mesmo nunca havendo estado na presença dela, conhecia-lhe a biografia, coleccionava fotos recortadas das revistas e jornais, e sempre que houvesse participação da actriz em peças teatrais desenrascava dinheiro para adquirir bilhete e assim senti-la próxima de si. Admirava tudo nela, a negritude tropical da sua pele lisa, a doçura da voz, a subtiliza dos gestos, o sorriso de suspense, a alma de deusa, e via-a realmente além do imaginário, e quem lhe dera lograr derramar algumas gotas dos seus afectos no coração da actriz através de um canal capaz de converter o platónico em realmente real. Naquela turbulência dos seus sentimentos, o jovem Bujão deu substancial azo a um repentino sonho de tornar-se actor de teatro mas na sua casa a ideia fora considerada deveras insana, e advertiram-no da inverosimilhança de um futuro digno fazendo teatro, mas sabia ele que ninguém entre os seus entes possuía um futuro mais digno do que a Lucrécia Paco, e era ela uma actriz, mas os seus argumentos foram insuficientes para demover o arbítrio dos pais, e logo entrou em cena um tio, daqueles severos que são habitualmente convocados para resolver supostos problemas dos sobrinhos, e o inscreveu numa academia de polícia. Ainda assim o jovem Bujão, possuído por uma rebeldia doentia e esgueirado dos pais, participou nalguns castings para actor de teatro cujos resultados foram concomitantes na reprovação, e o efémero sonho recebeu a derradeira machadada quando um dos membros do júri que depois de ter recebido uma longa resposta de sílabas silenciosas ao questionamento porquê pretendia ele ser actor, disse-o “Bujão! Esta não é a sua praia amigo. Arranje outra coisa para fazer!”. Bujão não levou pelo lado mau tal crítica, entendeu mesmo que se fez justiça não só ao teatro como a ele próprio, e de resto a sua paixão secreta não era pelo teatro mas pela Lucrécia Paco. Em breve teve o jovem Bujão de anuir o destino imposto pelo tio e subscrito pelos pais, foi então à academia de polícia mas o seu coração jamais haveria de desvencilhar-se dos grilhões daquela paixão platónica, embora quase nunca se referisse a ela.

Teve uma carreira promissora na corporação policial. Já comandante de esquadra juntara dinheiro para que pudesse adquirir a sua primeira viatura entre os meses de Dezembro e Janeiro, altura em que cardumes de viaturas vindas da África do Sul enchiam o sul de Moçambique, e cujos proprietários por imprudência na gestão dos Rands que traziam acabavam quase sempre por vendê-las a baixo preço com a finalidade de amealhar o necessário que os permitisse custear a viagem de regresso. E de facto logrou sucesso do seu desiderato. O senhor comandante Bujão chamou de Lucrécia o seu Toyota Conquest, com caixa de velocidade manual, nome devidamente escrito em letras garrafais no topo do pára-brisa. Houve sérios problemas com a esposa, com ameaças de divórcio e tudo, porque dizia ela “as pessoas pensarão que tens outra mulher”, e a ira impingiu-a a levar o seu protesto aos limites do imaginável, havendo por dois meses coarctado os apetitosos direitos de marido ao seu próprio esposo. Não obstante tal violento castigo o senhor comandante Bujão não se demoveu daquele arbítrio, o carro chamou-se mesmo Lucrécia, e o amou como uma pessoa querida.

Dali a quatro anos, depois de profundas e minuciosas reflexões, o senhor comandante Bujão decidiu que havia pertinência de vender a Lucrécia, do dinheiro obtido aumentaria algum economizado, e por fim compraria um novo carro. Doeu-lhe tanto tomar tal decisão que o seu estado espiritual constrangeu-se significativamente a olhos vistos, e dissimulando uma visita particular a um amigo psicólogo descreveu-lhe o fogo que o queimava por dentro por pensar em vender a Lucrécia. O experiente psicólogo, que bem conhecia o seu amigo, percebendo exactamente do que se tratava, faz o jogo do senhor comandante Bujão, e convenceu-lho nas entrelinhas de que embora muito estimado tratava-se de um meio de transporte, que poderia amar o próximo como o primeiro, e que o próximo proprietário seria capaz de o tratar tão bem quando o senhor comandante Bujão o fazia. Tinha quatro propostas, umas melhores do que outras, mas o principal requisito era o de entregar a Lucrécia a quem melhor a poderia conservar. Efectivou-se então a venda e logo a compra de um Toyota Tazz, igualmente com caixa de velocidade manual, que fora baptizado com o nome de Lucrécia II, tinha jantes especiais e tudo, e cuja beleza fazia justiça ao nome. Entretanto, a vida não corria tão bem quanto com a Lucrécia. O lado bantu do senhor comandante Bujão acreditava mesmo que havia na viatura horríveis anátemas deixados pelo anterior proprietário. Com um ano em posse da Lucrécia II, emprestou-a ao irmão para uma inadiável viagem a Xai-Xai na qual infelizmente veio a capotar. Apesar do irmão ter saído quase ileso, e não parecia mesmo ter saído da Lucrécia II toda espatifada, e de haver-se responsabilizado pela reparação dos danos, foi dos momentos mais terríveis da vida do senhor comandante Bujão. Vivia enfiado na casa do seu amigo psicólogo a comiserar-se sem intervalos.

O irmão, astucioso e forreta que era, logo levou a Lucrécia II aos mais charlatões bate-chapas e pintores de cujos medíocres trabalhos deixaram-na com várias cicatrizes, apagando-lhe o esplendor de tempos áureos. Não obstante tal atrocidade, a estima do senhor comandante Bujão pela Lucrécia II não desfaleceu, talvez até houvesse mesmo aumentado, pois tinha planos para ela, mas contra o irmão instalou-se um forte desapresso.

Entretanto, naquela indesejada manhã, em que houve a ordem que obrigava ao prolongamento de turno, no lugar dos faróis da Lucrécia II havia assustadores buracos negros através dos quais era visível cabos eléctricos cortados, e naquela imagem horripilante houve, por parte dos agentes, a revelação da justa motivação que norteara a ordem do senhor comandante Bujão de mantê-los na esquadra. Mais do que isso, julgaram os agentes cujos olhos assustados relancearam a Lucrécia II a descer pela rua da esquadra, de que aqueles buracos negros instalados no lugar dos faróis haviam certamente sugado todo o pavio da disposição e da paciência do senhor comandante Bujão, porque na Lucrécia II os faróis eram o destaque, a mais estimada e a mais reluzente parte, porque os comprara novinhos em folha havia dois meses e meio, mas a boca pequena cheia de gozo diziam os agentes que aqueles lindos faróis mereciam um carro novo, não aquela sucata do senhor comandante Bujão. Sempre que a Lucrécia II fosse à lavagem ia junto uma pertinente recomendação de que os faróis deveriam merecer atenção especial:

Nada de riscá-los por imprudência pérfidas! — Advertia o senhor comandante Bujão. — E veja-la eih, eu sou polícia.

 

*Continua…

 

Cerca de dez escultores em Quelimane clamam por intervenção das autoridades para resolver o problema da “água cinza”, no prédio Joaquim Pires, localizado no centro da cidade.

Sucede que a água de lavagem de roupa e da cozinha, despejada por inquilinos, está a invadir o único espaço de exposição das artes disponível na cidade. Objectos diversos, estão a ser expostos em espaço húmido e com cheiro nauseabundo.

A canalização para escoar a água, numa parte do prédio, está obsoleta, o que contribui para estagnação da água. Tendo em conta que se trata de um espaço residencial, pode propiciar a eclosão de doenças.

“Estamos a passar mal como vocês podem ver. Todos os dias saímos das nossas casas para fazer nosso ganha-pão aqui, mas o cenário é esse. Tem água por todos os cantos onde trabalhamos. Não se justifica que neste prédio os inquilinos não façam a devida canalização para escoamento desta água. Como é que os turistas podem vir cá para apreciar e comprar os nossos trabalhos?”, questionou Renato Mussaz, um dos escultores.

Sobre o assunto, ouvimos o Vereador para área de Saneamento no Conselho Municipal de Quelimane, Edson Bomês, que referiu já se ter reunido com a comissão dos moradores do prédio para resolver aquela situação.

Bomês garante que, em breve, a situação irá passar para a história. Enquanto o assunto não for resolvido, obras de arte estarão expostas nessas condições.

Por: Afonso Vaz Vassoa

  1. Introdução

Ao longo da navegação que realizámos sobre as ondas da obra literária intitulada Entre Margens: diálogo intercultural e outros textos, da escritora, pesquisadora e docente universitária Sara Jona Laisse, sentimos, de forma esplêndida, uma harmonia não monótona e muito menos tempestuosa entre a gramática e a pragmática.

A dimensão multifacetada de abordagem da autora contribuíram para que tivéssemos  motivação e concentração necessárias e descidíssimos analisar o livro aqui referido, em três vertentes de abordagem, a saber: uso dos sistemas formal e funcional da linguagem no livro; dimensões da interculturalidade expressas na obra; e leitura das entrelinhas em busca de intenções subjacentes às ostensões da autora. Esta nossa delimitação analítica é puramente metodológica e/ou didática.

Em relação à primeira vertente, nos propomos a explorar o livro do ponto de vista do uso dos sistemas formal e funcional da linguagem porque, conforme defende LEECH (1983), tanto a gramática como a pragmática são domínios complementares na linguística, e ambas têm um papel fundamental na construção e aplicação de estratégias e técnicas da escrita literária. Esta posição é também defendida por LOPES (2004: 174), que refere que o aperfeiçoamento no domínio de uma língua resulta sempre de uma aprendizagem de regras gramaticais que contribuem para a adequação formal e coesão textual, assim como de uma aprendizagem de regras de uso linguístico que contribuem para a adequação funcional e coerência discursiva do que enunciamos.

A segunda vertente, que tem a ver com a identificação das dimensões da interculturalidade expressas no livro, justifica-se pelo facto de a proposta de Sara Laisse ser, no geral, sobre esta matéria. Para podermos trabalhar no assunto, extraímos as categorias de análise nos pressupostos sugeridos por WALSH (2009:2-5), que defende que a interculturalidade pode ser entendida a partir de três dimensões teórico-práticas, nomeadamente: a dimensão relacional, a dimensão funcional e a dimensão crítica. Aqui, o nosso objectivo de análise consiste em verificar como e até que estas três dimensões da interculturalidade estão expressas nos textos escritos por Sara Laisse.

A terceira vertente de análise, tem a ver com o postulado de Marshall McLuhan (1961), uma vez que a preocupação da escritora, revelada na “Nota da Autora” (pág. 8), onde menciona a raridade de discussão de assuntos relacionados à cultura. Isto entra em consonância com, que já dizia, em 1961, o autor acabado de referir, que “na Era da Ecologia, a Era em que reconhecemos que tudo afecta tudo, já não é possível permanecer alheio aos efeitos das coisas que fazemos sobre a nossa vida psíquica e social. Estamos vivendo numa situação que foi chamada de ‘choque de futuro’. Choque de futuro, de facto, é atraso cultural, ou seja, não perceber o que está acontecendo no presente”. Por isso, vale perguntar o que se poderá vislumbrar, hipoteticamente, no plano de fundo e nas entrelinhas da obra em alusão, ou seja, “o não-dito”, que possa afectar o nosso futuro comum, sobretudo na área da cultura.

Chegados até aqui, achamos que já temos uma bússola para tentarmos navegar de forma mais ou menos focada no livro intitulado Entre Margens: diálogo intercultural e outros textos, obra com 138 páginas, composta por crónicas/ensaios publicados entre os anos de 2019 e 2020 – que resultam da preocupação da autora em relação às culturas moçambicanas e à raridade de discussão sobre elas (LAISSE, 2020: 8).

 

  1. Análise do uso dos sistemas formal e funcional da linguagem no livro

Tivémos a ousadia de apreciar os aspectos formais da presente obra, onde constatámos, com agrado, que a autora apresenta, no seu livro, uma técnica e uma estrutura simples, porém coerentes, não apenas dentro dos textos, isoladamente, mas também entre os mesmos, de forma consistente e eficaz.

Depois de escrutinarmos o livro em alusão e a biografia completa de Sara Jona Laisse, ficou evidente que a competência da autora no processo de construção textual, do ponto de vista de análise do sistema da língua, denota a existência de uma mestria incontestável no campo formal de organização do texto – como resultado não apenas da sua formação académica, mas também da sua vasta experiência em actividades de investigação, docência e extensão, nestas e matérias.

Igualmente, no livro, a autora revela conhecimentos sociais e culturais sólidos e próprios de  uma escritora experiente, o que lhe confere a competência no uso e interpretação de formas linguísticas e discursivas,  em que os contextos sócio-culturais e outros elementos extra-linguísticos entram na dinâmica comunicativa. Esta pré-conclusão analítica não é apenas nossa; é, também, de Ana Mafalda Leite, que enaltece, no posfácio, na página 134, o potencial da escritora.

Neste contexto, pelas razões acima referidas, nos isentamos de debater, de forma pormenorizada, a competência comunicativa desta autora, porque a sua obra literária é, em si mesma, do princípio ao fim, não apenas um autêntico diálogo intercultural, mas também um exemplo de domínio de articulação criteriosa e criativa dos sistemas formal e funcional da linguagem.

 

  1. Análise das dimensões da interculturalidade expressas no livro

Nesta fase de análise, o que sugerimos como foco de debate habita no campo pragmático, ligado especificamente às questões da interculturalidade expostas na obra, à luz dos pressupostos apresentados por WALSH (2009:3-5), que defende que, reiteramos, a interculturalidade pode ser entendida a partir de três dimensões teórico-práticas, a saber: a dimensão relacional, a dimensão funcional e a dimensão crítica.

Na base destes axiomas, como já nos referímos na introdução, o nosso objectivo é verificarmos como e até que ponto estas três dimensões da interculturalidade, sugeridas por Catherine Walsh, estão expressas nos textos escritos por Sara Laisse.

Antes de passarmos aos pormenores, importa realçar que, em termos gerais, podemos encontrar dois níveis de análise de manifestação das dimensões da interculturalidade: o nível de manifestação do discurso da autora, por um lado, e, por outro, o nível de manifestação do contexto em que a estória contada ocorre.

Em relação ao primeiro nível, o da autora, está claro, de forma explícita e vincada, que o seu discurso em relação ao assunto situa-se na dimensão crítica da interculturalidade, uma vez que o livro, na maioria das vezes,  contesta, explícita e implicitamente, a ordem social vigente, compreendendo a interculturalidade como um processo e um projecto, com o fim  de encontrar estruturas sociais, institucionais e epistêmicas que resultem não apenas em mero reconhecimento e condescendência de outras culturas, mas também na sua valorização, em constante diálogo e interação mútuos (WALSH, 2009:4-5).

Esta posição crítica da interculturalidade verifica-se em vários momentos do discurso de Sara Laisse, no seu livro; por exemplo, na crónica intitulada “Os rituais de nascimento rongas e portugueses”. Depois de fazer uma comparação entre os dois tipos de tradições, a autora escreve o seguinte: “A questão central nestas abordagens é a de que com os grandes avanços tecnológicos e científicos, aparentemente a humanidade cresceu, mas os Homens ainda não são civilizados. Daí a importância do diálogo para se fomentar o conhecimento mútuo, porque, afinal, eles têm a mesma natureza” (LAISSE, 2020:18). A referida dimensão crítica da autora em relação à interculturalidade foi também notada pela Prof. Doutora Vanessa Pinheiro, no prefácio do livro (cf. pp 11-14).

Feita esta breve análise de manifestação da dimensão da interculturalidade ao nível do discurso da  autora, importa, em seguida, apresentarmos alguns exemplos e argumentos sobre a manifestação das dimensões da interculturalidade ao nível dos contextos em que as estórias contadas ocorrem.

 

  • A dimensão relacional da interculturalidade no contexto em que o discurso ocorre

De acordo com WALSH (2009:2-3), a dimensão relacional delimita o ideia da interculturalidade aos contactos, às relações interpessoais, menorizando as tensões existentes nessas relações, isto é, as relações de poder,  dominação e colonialidade.

Conforme defende BALLESTRIN (2013: 89-90), a colonialidade é a continuidade da disseminação e actuação do pensamento colonial, sendo uma matriz que se expressa sobretudo nas relações dominantes de poder, saber e ser, “nos diferentes níveis da vida pessoal e colectiva”. 

No nível dos contextos em que as estórias contadas ocorrem, no livro aqui em análise, a dimensão relacional manifesta-se principalmente nas relações interpessoais na família, em geral, e no casamento, em particular.

Até hoje, em pleno século XXI, a ideia de igualdade em direitos, deveres e oportunidade entre mulheres e homens, em Moçambique, tanto no campo profissional como, principalmente, no campo social, especificamente nas relações interpessoais entre cônjuges, ainda está longe de ser efectiva.

Esta realidade sócio-cultural está representada em vários textos de Sara Laisse, no livro aqui em análise; por exemplo, na crónica intitulada “Injustiça social: ‘ukati, avaxini vanga hona wasati’?”, a autora refere-se a um tema que lhe “é difícil de abordar, por criar cisões entre diferentes estratos sociais em Moçambique” (LAISSE, 2020:61). Como um evento ilustrativo, a escritora usa uma música da moçambicana Marlen, cantada em Tsonga, onde esta faz referência a uma injustiça social “normal”, ao “se colocar ‘por cima dos ombros da mulher’ a responsabilidade pelo casamento e pela família”.

Em paralelo ao que a Marlen canta, prossegue Sara Laisse, existe um vídeo que tem sido passado nas redes sociais.

Nele, está um conjunto de senhoras que desabafa sobre a realidade da mulher na sociedade (moçambicana), o facto de a ela ser imputada tudo o que é difícil na vida. Elas cantam e perguntam em que é que foi que a mulher errou. Dizem ainda que, em fórum doméstico, é ela que dá à luz, que, entretanto, deve adoptar o apelido do marido após o casamento; as tarefas caseiras são a elas relegadas, cozinham, servem à mesa, cuidam da casa; no entanto ao marido cabe sentar-se à mesa e comer. No âmbito profissional, elas fazem compras a grosso para revender em mercados e, no entanto, o chefe do negócio é o marido (LAISSE, 2020:62).

Num outro trecho, mais adiante, a escritora remata, afirmando que “embora com esse aparato de consternação, certamente será encarada apenas como música para animar as mulheres e não haverá reflexão sobre ela, porque a sociedade já muito falou sobre isso, mas nada muda” (LAISSE, 2020; 63).E aqui, nós perguntamos: por que é que nada muda?

Uma presumível resposta à questão pode estar no artigo de Isabel Casimiro, que faz referência ao pesquisador  AMADIUME, nos seguintes termos:

Faltou a análise das identidades femininas e masculinas, em transformação; a conceptualização dos diferentes grupos de mulheres e, em especial, da mulher camponesa; bem como das questões relacionadas com o impacto do colonialismo na vida de mulheres e homens; com a economia política das diferentes regiões; as características, a divisão de tarefas e as relações de poder, no seio dos agregados familiares; a ligação com a terra, considerada um bem comum da comunidade (CASIMIRO, 2001:12 apud AMADIUME, 1997: 113).

Ora, em termos práticos, este pensamento de Casimiro e Amadiume sugere que o problema de emancipação da mulher não se resolve apenas com a vontade política ou com movimentos inerentes ao processo. Nesta luta, há questões históricas, antropológicas, sociológicas, psicológicas, religiosas e culturais que devem ser tomadas em consideração, antes, durante e depois de qualquer projecto nacional, para que a questão da igualdade de direitos, deveres e oportunidades entre homens e mulheres em Moçambique seja uma realidade, envolvendo, estrategicamente, os dois géneros, de forma sistemática, no lar, na comunidade, na escola e na sociedade em geral.

 

 

  • A dimensão funcional da interculturalidade no contexto em que o discurso ocorre

A dimensão funcional toma em conta a diversidade e a diferença, mas apenas do  ponto de vista de uma lógica que é funcional ao sistema social capitalista neoliberal vigente, isto é, visa tolerar e/ou integrar o diferente às matrizes sociais já instituídas, sem contestar as razões das assimetrias de poder e das desigualdades sociais (WALSH, 2009:3-4).

No livro de Sara Laisse, esta dimensão funcional da interculturalidade está patente em alguns textos; por exemplo, na crónica intitulada “Mortos a regular a vida dos vivos”, a autora escreve o seguinte:

[…] “em síntese, na tradição católica o acesso a Deus pode ser feito ou por via directa, na qual o crente se dirige a Ele, ou por intermediação de santos canonizados. Enquanto na CBR (Cultura Banto e Religião), o acesso a Deus é realizado, na maioria das vezes, por intermediação dos espíritos dos antepassados, os eleitos, em raras ocasiões por via directa: Homem-Deus” (LAISSE, 2020: 24).

Acontece, porém, que em algumas igrejas cristãs e não-cristãs que actuam em Moçambique, essa forma de ter acesso a Deus por intermediação dos espíritos dos antepassados é considerada diabólica e, por isso mesmo, pecaminosa, não na lógica da CBR, mas na lógica de incorporação do “diferente” às matrizes sociais já secularmente estabelecidas, que é funcional ao sistema religioso vigente.

Sobre esta matéria, importa salientar que, em Moçambique, uma das questões que não é debatida, pelo menos de forma pública,  organizada e regular, são os assuntos religiosos, coisas “sagradas”, talvez por estarmos num Estado Laico. Entretanto, existem, no país, algumas práticas nocivas à sociedade, cometidas, principalmente, por alguns falsos profetas e aqueles que usam o nome de Deus para enriquecerem à custa de pessoas pobres.

A verdade é que, em momentos e lugares adequados, caso não haja espaço para debates públicos, organizados e inclusivos sobre “as práticas religiosas benignas e malignas no contexto moçambicano e os seus impactos na vida do crente, em particular, e da sociedade, em geral”, estas matérias, sobretudo as de carácter nocivo, poderão constituir uma espécie de “barril de pólvora”, pela complexidade e misticidade que estão sendo propositadamente criadas em torno do tema, porque o tempo continuará a soprar cada vez mais o balão e, depois da explosão, será difícil separar o trigo do joio.

 

  • Dimensão crítica da interculturalidade no contexto em que o discurso ocorre

Finalmente, a dimensão crítica contesta a ordem social vigente, compreendendo a interculturalidade como um processo e um projecto, que parte das experiências dos “subjugados”, daqueles que foram vítimas de diversas maneiras do preconceito, com o fim  de procurar a alteração das estruturas sociais, institucionais e epistêmicas, (re)construindo diferentes formas de ser, estar e de se relacionar (WALSH, 2009:4-5), que incluam não apenas o mero reconhecimento e tolerância de outras culturas, mas também a sua valorização, em diálogo e interação recíprocos.

Num processo de diálogo intercultural da dimensão crítica, o tempo, as lógicas da natureza e do ser humano entram em jogo, de forma integrada ou não, e de forma planificada ou não. Por essa razão, podem ocorrem duas situações distintas, a saber:

  1. na primeira situação do diálogo intercultural da dimensão crítica, a relação entre duas ou mais culturas exige esse respeito e reconhecimento, sem, no entanto, o resultado do diálogo afectar ou modificar as diferentes culturas em causa.
  2. a segunda situação, que se enquadra na dimensão crítica da interculturalidade, é aquela em que as culturas, ao entrarem em contacto entre si, exigem o diálogo, o respeito e o reconhecimento das suas particularidades, havendo, no entanto, a possibilidade de haver modificações de alguns signos e manifestações existentes em ambas as culturas, resultantes da interação, objectivando buscar a alteração das estruturas sociais, institucionais e epistêmicas, (re)criando outras formas de ser, estar e de se relacionar, desde que não haja imposição de nenhuma das partes e o processo resulte em paz, justiça, harmonia e bem-estar de todos.

No livro de Sara Laisse, a dimensão crítica da interculturalidade no contexto em que a estória ou o discurso ocorre, aparece de forma exígua, o que, presumivelmente, pode significar que este tipo de diálogo ainda precisa de ser aprendido e desenvolvido nas comunidades ou sociedades retratadas pela autora dos textos.

Em todo o caso, identificámos um exemplo de manifestação da dimensão crítica da interculturalidade, nos moldes acima referidos, no texto intitulado “Moçambiquero-te’: havíamos de ser um país, pois seremos”. Aqui, a autora reconhece o seguinte:

Nestes 45 anos, ganhámos a introdução de um diálogo entre a medicina moderna e tradicional que, em 2008, após a aceitação da AMETRAMO – Associação dos Médicos Tradicionais Moçambicanos –, trouxe mais um ganho para as filhas de Moçambique, ensinando-as que o ku-txinga pode ser realizado com recurso a outros rituais alternativos e não a uma relação sexual, que poderá resultar em infeções de diversa índole (LAISSE, 2020: 124).

No trecho acima referido, entendemos a expressão “infeções de diversa índole” não apenas do ponto de vista físico, mas também dos pontos de vista psicológico, psíquico, cultural e social. Por isso, se os “modos de fazer colocam em risco a vida das pessoas, estamos aí perante um hábito, uma cultura ou uma tradição que deve ser mudada” (LAISSE, 2020:37).

Conforme defende a mesma autora, as mudanças nos campos social e cultural têm sido difíceis de impulsionar e executar, mas é “importante estar-se ciente do ganho que trazem, para que não se viva à deriva. Há que evoluir e ser prudente, tanto nas escolhas que se fazem, como nas mudanças a fazer”.

 

  1. Leitura hipotética das entrelinhas do livro em busca das intenções subjacentes às ostensões da autora

Em relação à necessidade de analisarmos o que se poderá vislumbrar, hipoteticamente, nas entrelinhas da obra, importa ressaltar, antes de mais nada, que a menção das razões que fizeram com que a Sara Laisse escrevesse o livro mostra, de forma inequívoca, o reconhecimento, por parte da autora, do carácter estratégico da necessidade de o escritor situar e orientar o potencial leitor, de modo a que este possa identificar e entender o tema e as principais ideias no texto, evitando ambiguidades e proporcionando interesse (SCARCELLA,1984: 671-688) – neste caso, o que está em causa, de acordo com a escritora aqui em alusão, são as culturas moçambicanas, o diálogo entre elas e, por extensão, a raridade da discussão sobre este assunto em Moçambique (LAISSE, 2020:9).

Entretanto, em geral, sabe-se que existe o “não-dito” numa obra, algo que fica nas entrelinhas e no fundo da mensagem. Aqui, fica ao critério do leitor descobrir, hipoteticamente, a intenção subjacente à ostensão da autora. Por isso,  não se aconselha, pelo menos neste livro, tentar descobrir a intenção subjacente à ostensão de Sara Laisse no prefácio e no posfácio, sob o risco de fazermos uma leitura de intenção subjacente à ostensão das autoras dessas partes específicas do livro, porque foram escritas por outras pessoas.

Sobre este assunto, importa também ressaltarmos que não são apenas os conhecimentos, habilidades e atitudes do leitor que o ajudam a encontrar e interpretar “o não-dito” no texto, mas também as marcas linguísticas que ali se encontram. Sendo assim, se a cultura é entendida pelos seus detentores como Visão do Mundo e o modo natural e necessário de serem homens e mulheres diante dos membros dos seus próprios grupos e diante de outros grupos humanos (VASSOA, 2010: 104), então, a preocupação de Sara Laisse faz sentido porque, uma vez que há diversificadas visões do mundo e sobre o mundo, dá para percebermos o quão importante e desafiador é mantermos diálogos interculturais para que passamos conviver e interagir em paz e harmonia social nas nossas comunidades, províncias, países, continentes e no mundo inteiro.

No presente exercício de análise, na base de leitura das entrelinhas dos textos de Sara Laisse e a partir da sua preocupação inicial ao escrever o livro, identificamos algumas manifestações das intenções subjacente às ostensões da escritora e apresentamos, em seguida, as nossas três questões hipotéticas (cf. pp 9; 17 e 20).

Como povo, em geral, e académicos, líderes/gestores e fazedores da cultura, em particular, o que é que estamos a fazer, de forma científica, crítica, integrada, sistemática, ética e coordenada, para o seguinte?: a) em primeiro lugar, aprofundarmos e massificarmos o conhecimento da nossa própria cultura e “estimularmos o conhecimento entre culturas e povos” (LAISSE, 2020:17); b) em segundo lugar, enveredarmos por uma política nacional do diálogo intercultural, (LAISSE, 2020, 20) e  c) em terceiro lugar, enveredarmos por uma política nacional da diplomacia cultural,  uma vez que a autora apresenta a possibilidade de “colocarmos as nossas culturas além-fronteiras” (LAISSE, 2020: 9).

Independentemente das respostas, importa reconhecermos que se os respectivos projectos não forem pesquisados, elaborados, implementados, fiscalizados e avaliados de forma científica, crítica, integrada, sistemática, ética e coordenada entre a academia, os líderes/gestores e os fazedores da cultura (que é a própria sociedade), as preocupações de Sara Laisse vão passar de geração em geração, isto é, passarão a faze parte da nossa própria cultura.

Por fim, em jeito de fecho, com a riqueza literária e cultural que o livro oferece, concordamos com a Prof. Doutora Vanessa Riambau Pinheiro, que enaltece que a obra Entre Margens: Diálogo intercultural e outos textos, mais do que relevante, é um livro necessário não apenas para todas as etnias do povo moçambicano, mas também para os povos de outros cantos do mundo. Afinal, como afirma Sara Jona Laisse em uma das crónicas: “Nós somos, porque acreditamos e respeitamos nossa colectividade. Ubuntu!” (PINHEIRO, 2020:14, in LAISSE, 2020:14).

De facto, trata-se de uma obra que acrescenta valor nas pessoas, não apenas na área da interculturalidade, mas também, pela sua natureza transversal, em diferenciadas vertentes da vida académica, política e social.

 

Referências Bibliográficas

BALLESTRIN, Luciana (2013) América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, v.2, n.11, p.89-117.

CASIMIRO, Isabel Maria (2001) Repensando as Relações entre Mulher e Homem no Tempo de Samora. Universidade Eduardo Mondlane, Centro de Estudos Africanos, Departamento de Estudos da Mulher e Género. Maputo. Disponível em <https://nigs.ufsc.br/files/2017/08/SAMORA-e-o-G%C3%A9nero-II-2001.pdf.> Data de acesso: 20 de Junho de 2021.

LAISSE, Sara (2020) Entre margens: diálogo intercultural e outros textos. Lisboa: Gala-gala.

LEECH, G. N. (1983) Principles of Pragmatics. Harlow: Longman.

LEITE, Ana Mafalda (2020) Posfácio. In: Laisse, Sara. Entre margens: Diálogo intercultural e outros textos. Lisboa: Gala-gala.

LOPES, A. J. (2004) A Batalha das Línguas: Perspectivas sobre Linguística Aplicada em Moçambique/The Battle of the Languages: Perspectives on Applied Linguistics in Mozambique. Maputo: Imprensa Universitária.

PINHEIRO, Vanessa Riambau (2020) Prefácio. In: LAISSE, Sara. Entre margens: diálogo intercultural e outros textos. Lisboa: Gala-gala.

SCARCELLA, R. C. (1984) How writers orient their readers in expository essays: A comparative study of native and non-native English writers. TESOL Quarterly 18:4, 671-688.

VASSOA, Afonso. Vaz (2010) Comunicação Social e Relações Interculturais: Desafios e Oportunidades da África Contemporânea. Maputo: Ndjira.

WALSH, Catherine. (2009) Interculturalidad crítica y educación intercultural. Una ampliación de la ponencia presentada en el Seminario “Interculturalidad y Educación Intercultural”, organizado por el Instituto Internacional de Integración del Convenio Andrés Bello, La Paz, 9-11 de marzo de 2009.

Contacto: afonsovassoa@yahoo.com. Maputo, Julho de 2021.

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) suspendeu, semana passada, Hélder Martins por seis meses da sua condição de membro efectivo da agremiação. Em causa está uma suposta violação do estatuto da AEMO, consumada com a submissão do Projecto de Lei à Assembleia da República, visando a criação da Academia Moçambicana de Artes e Letras (AMOCAL).

Eis os factos. No dia 9 de Setembro de 2020, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) cria uma Comissão Instaladora da Academia Moçambicana de Letras (AML). Assim, identificou-se Hélder Martins para assumir a função de Presidente da Comissão em causa. Meses depois, já este ano, a Comissão Instaladora chefiada por Hélder Martins submeteu à AEMO todos os documentos produzidos. Nessa altura, a AEMO fez uma comunicação interna para dar a conhecer a dissolução da comissão, porque, na percepção da agremiação, tinha cumprido o seu papel.

“Surpreendentemente, a AEMO tomou conhecimento de que a documentação produzida e remetida à AEMO pelo Presidente da Comissão foi levada pelo escritor Hélder Martins para criação de uma outra academia, em que ele aparece uma vez mais como Presidente da Comissão Instaladora. Isto viola os estatutos da AEMO. Estamos a ver uma desonestidade por parte do nosso membro, de tal sorte que o Conselho da AEMO decidiu pela suspensão imediata do direito de membro do escritor”, afirmou, semana passada, o Secretário-Geral da AEMO, Carlos Paradona.

Segundo acrescentou Paradona, durante o funcionamento da Comissão Instaladora, criada pela AEMO, “Hélder Martins se revelou, digamos assim, não completamente claro das atribuições da ordem ou da circular que o nomeou Presidente da Comissão Instaladora da Academia Moçambicana de Letras (AML). De certeza que o escritor Hélder Martins não tinha percebido o conteúdo da sua nomeação. Eu acredito que, pelo desconhecimento, e ele não está claro sobre o que é Academia de Letras e ele decidiu violar o artigo 18º dos estatutos da AEMO. O nosso confrade desconhece os estatutos da AEMO. Era suposto que o escritor tivesse conhecimento sobre estatuto e regulamento da AEMO”.

Com a dissolução da Comissão Instaladora, a AEMO adianta que pretendia dar lugar a uma comissão técnica para preparar a documentação do ponto de vista jurídico, de modo que fosse submetida às autoridades competentes para a devida regulação. Por isso, os “confrades” não só estranham a aparição de Hélder Martins como Presidente de uma outra comissão assim como deploram o comportamento do autor.

Contactado à distância, a partir de Portugal, Hélder Martins explicou a sua versão sobre os factos. Primeiro esclareceu que o Projecto de Lei para a criação da Academia Moçambicana de Artes Letras (AMOCAL) foi apresentada à Assembleia da República por três mandatários de 41 associações da sociedade civil, nomeadamente: Patrício Langa, Presidente da Associação de Sociologia de Moçambique; Alvim Cossa, Presidente da Associação Moçambicana de Teatro e do Centro d Teatro do Oprimido; e Victor Miguel, Presidente da Associação Moçambicana de Língua Portuguesa. As 41 associações da Sociedade Civil assinaram memorando de entendimento, segundo disse, com a pretensão de apoiar o Projecto de Lei para criação de academia. São os casos das seguintes entidades: MISA Moçambique, Núcleo de Arte, AMOCINE, Associação de Psicologia de Moçambique, Associação Moçambicana de Teatro, Associação de Fotografia, dos Músicos, o Sindicato Nacional dos Jornalistas, o Fórum de Rádios Comunitárias e a SOMAS.

Quanto ao diferendo, Hélder Martins assume que, originalmente, a ideia da criação da Academia Moçambicana de Letras (AML) é da AEMO. No entanto, segundo contatou, o pensamento dos dirigentes da AEMO era de criar uma academia de escritores e não de letras. “Quando a Comissão Instaladora começou a funcionar, uma das questões colocadas foi: qual seria o âmbito dessa academia. Para isso, foram feitos inquéritos junto das instituições potencialmente interessadas. Esses inquéritos feitos nas universidades mostraram que o consenso era a criação de uma academia mais abrangente, não só de literatura e de linguística, mas também que incluísse as artes plásticas e cénias e as ciências sociais e humanas”.

Quando a comissão chegou a essa conclusão, Hélder Martins pediu à direcção da AEMO um encontro para explicar esse facto. “E concordaram. Foi só muito mais tarde que a AEMO voltou atrás com a sua palavra, porque não têm palavra. Fizeram uma carta com um grande elogio ao trabalho da comissão e, em particular, ao trabalho do seu presidente. Fizeram uma carta completamente paradoxal, que nem no futebol se faz. No futebol diz-se que quando uma equipa é ganhadora, não se muda. Mas dissolveram a Comissão. A partir do momento que dissolveram a Comissão, em Abril, os membros da Comissão não são escravos da AEMO e não há nenhum artigo dos estatutos da AEMO que possa limitar a liberdade dos seus membros, então, alguns de nós continuaram o trabalho. E ampliamos a Comissão para ter competências que faltavam. Não fazia sentido que uma academia com este âmbito estivesse limitada a uma associação. Por isso [numa fase inicial] houve adesão de 52 associações”.

Em relação à violação do artigo 18 dos estatutos, Hélder Martins responde: “Não sei o que o artigo 18 diz, porque eles nem sequer citaram o artigo [no comunicado], mas eu tenho a certeza de que não violei artigo nenhum. Eles é que têm uma atitude autoritária, fascista, pensando que podem limitar a liberdade dos membros da AEMO. Não podem. E no que respeita à acusação de que nós nos apropriamos de uma ideia da AEMO, é uma acusação sem pés e sem cabeça, porque quem fez o trabalho de produzir um projecto de lei foi a comissão, não foi a AEMO”.

Questionado sobre o que diz o artigo 18 dos estatutos da AEMO, Carlos Paradona afirmou: “Diz, concretamente, que os membros da AEMO têm por dever vincular-se ao que está estipulado nos estatutos, isto é, actuar com boa-fé e seguir as directrizes emanadas pelos órgãos de gestão da AEMO, o Secretariado e o Conselho da AEMO. Tendo ele agido de ma-fé, violou grosseiramente o artigo 18º dos estatutos”.

A Associação dos Escritores continua com o projecto da criação da Academia Moçambicana de Letras, que se vai basear nos documentos produzidos pela Comissão Instaladora, que serão trabalhados com profundidade do ponto de vista jurídico.

Hélder Martins foi suspenso da condição de membro efectivo da AEMO por um período de seis meses, mas diz que não foi informado.

A Comissão Instaladora da Academia Moçambicana de Letras (AML) vigorou entre 9 de Setembro de 2020 e 12 de Abril de 2021, tendo os seguintes membros: Hélder Martins (Presidente), Gilberto Matusse, Luís Cezerilo, José Castiano, Teresa Manjate, Sara Jona, Lucílio Manjate e Izaú Cossa.

 

O QUE É A ACADEMIA MOÇAMBICANA DE ARTES E LETRAS (AMOCAL)?

Submetida à Assembleia da República, no passado dia 5, a Academia Moçambicana de Artes e Letras é apoiada por 41 associações, segundo um comunicado, representativas de todo o país e totalmente legalizadas. A instituição pretende aproximar e promover as diferentes áreas que ocupam o espaço das letras, artes e ciências sociais e humanas, congregando personalidades que se destacam e que possam liderar a marcha para o desenvolvimento das áreas em causa.

AMOCAL pretende estimular e enriquecer a actividade criadora de escritores e artistas, promover a sua edição e divulgação, incentivar a reflexão e o debate crítico, facilitar o intercâmbio nacional e internacional dos fazedores das artes. Além disso, ao nível das Ciências Sociais e Humanas, a AMOCAL terá como missão praticar e estimular a investigação científica e a produção de conhecimento e a sua divulgação. A AMOCAL prevê um número limitado de membros, porque pretende se basear no mérito. Na AMOCAL, irão prevalecer os membros cuja obra produzida mais se destaca.

Em breve, o livro Gaveta de cinzas: solilóquios, da autoria de Nick do Rosário, será apresentado publicamente na Cidade de Maputo. Enquanto isso não acontece, até porque os centros culturais estão encerrados no país, o poeta conta como foi compor os versos do seu livro de estreia, refere-se ao poder da literatura e ainda afirma como gostaria que fosse lido: em câmara lenta.

 

Esta Gaveta de cinzas: solilóquios é uma obra feita de amor e homenagens. Uma forma autêntica de começar…

Exacto. Como o meu primeiro livro, quis trazer estas homenagens ao meu pai, à minha mãe, à minha avó, à minha filha e aos meus amigos. É uma boa forma de começar.

 

Interessou-lhe fazer dos seus sujeitos poéticos uma possibilidade de exprimir o amor, às vezes, destinado a um ser ausente. Como idealizou essa entidade que está connosco e, simultaneamente, distante?  

Realmente, os meus textos têm isso que acaba de mencionar. Eu sou uma pessoa apaixonada e que vive o amor todos os dias. Falar de amor e escrever sobre o amor é muito simples, porque eu gosto de amar. Os meus textos têm essa particularidade. Mas, além de amor, este projecto tem muita dor. Comecei a escrever o livro numa fase difícil. Estava com muitas dificuldades. Nessa altura, peguei um livro de José Craveirinha, fui-me identificando com os textos e comecei a escrever. Fui escrevendo sobre mim (também) e, nessa coisa de escrever, não podia faltar o amor.

 

Projecta o amor como uma partilha ou como uma busca?

Partilha e busca. Temos aqui alguns textos que falam de amor que se espera. Há uma desolação e um sentimento de tristeza.

 

Isso tem a ver com o mundo que temos hoje?

De certa forma, sim. Porque o mundo que temos hoje é muito materialista. Eu tento espalhar o amor nos meus textos para que as pessoas se toquem. É necessário falar disso.

 

Tem alguma pretensão ao convocar os leitores a uma certa ideia de razão?

Eu leio os comportamentos das pessoas, faço leituras de mentes e sinto que é preciso mudar de postura. A literatura tem o poder de formar crenças, de firmar padrões e de mudar o comportamento das pessoas de uma sociedade. Precisamos de espalhar livros de modo que as pessoas leiam mais.

 

Neste livro de estreia noto o seu fascínio pela composição haikai. Há uma motivação ao investir a expressão poética em textos curtos?

Talvez, isso tem a ver com os textos que tenho lido. Aparentemente, parece uma coisa fácil de se fazer, mas é um trabalho muito árduo. Se for a ler os meus textos, em duas ou três estrofes percebe do que se trata, a ideia do texto. Leio muito haikai e textos desta estrutura. É uma das minhas fontes de inspiração.

 

No seu caso, por que a possibilidade de criar musas é inspiradora?

Acho que as musas serão sempre inspiradoras. Sem elas, não existe o poeta. Um texto que fiz para a minha filha, em algum momento, tem a Nicole, embora menina, como minha musa.

 

Em que momento decide usar as setes chaves para abrir esta Gaveta de cinzas?

Acordei louco. Peguei no projecto e entreguei a uma editora para ver a possibilidade de publicar, que é a editora Gala-Gala.

 

Esta não é uma Gaveta qualquer. E sai em solilóquios

Exactamente, porque alguns textos dialogam comigo. Quase todos. Daí Gaveta de cinzas: solilóquios. E esta é uma maneira de dialogar com os outros.

 

Esta forma de amar, o que lhe custa?

Custa-me uma vida. É a minha maneira de ser e de estar. A vida faz mais sentido agora, com este livro publicado. Há dias fiquei a ver o livro na livraria, sem que ninguém me reconhecesse, e foi muito especial.

 

Pensa no que os seus textos podem ter, em termos de impacto, nos leitores que o lêem?

Os meus textos trazem, de alguma forma, temas para reflexão. Acredito que, quem for a ler o projecto, encontrará marcas do que está a acontecer na sociedade. O projecto tem 45 textos. Dos 45 textos, temos muita coisa escrita sobre a nossa sociedade. Então, eu trago também textos que possam ser úteis para a reflexão.

 

Quanto tempo levou a escrever?

Uns dois anos, porque eu não estava satisfeito com os textos. Corrigia-os constantemente. Como primeiro projecto, estava muito inquieto.

 

Este livro tem o prefácio de Demétrio Alves Paz, que a certa altura diz que os seus poemas não têm apenas uma origem, mas também uma continuidade…

Com certeza. Neste projecto eu tive de cortar e arquivar uma parte. Tirei cerca de 25 textos, por entender que a temática não encaixava. Ficou um projecto à parte, que também está concluído. Na verdade, eu tinha um outro projecto pronto a publicar. Preferi este porque, de contrário, o livro ficaria mesmo na gaveta de cinzas. Este tinha de ser o primeiro. Este é um ponto de partida. Queria que estes textos estivesse em uma prateleira.

 

Quando leu o prefácio de Alves Paz, o que lhe ocorreu?

Ele trouxe alguns pontos que não tinha reparado. Por exemplo, a questão da família. Quando li o prefácio, fiquei mais emocionado. Foi espectacular.

 

Dizem que os autores nunca têm um livro preferido. Não é verdade. Parece que este livro continuará a ser o seu eleito?  

Há um projecto que já fechei, que eu acho que é o meu livro, pela maneira como o idealizei e escrevi. Acho que aquele é o meu livro. É completamente diferente deste, tem outras ideias e outras coisas. Mas este tem uma carga emocional. O primeiro é sempre o primeiro, e queria apresentar-me com este projecto.

 

É formado em Literatura Moçambicana pela Universidade Eduardo Mondlane. Valeu-se dos conhecimentos adquiridos no curso ao escrever o livro?

Eu comecei a escrever muito antes de ir à universidade. Claro que aprendi muito. Lá tive bons professores, os que considero os big five: Nataniel Ngomane, Gilberto Matusse, Francisco Noa, Aurélio Cuna e Teresa Manjate. Também tenho de dar os parabéns ao Lucílio Manjate. Na época que eu entrei ele era professor assistente e foi uma das pessoas que me impulsionou muito para este projecto que eu trago aqui hoje. Não directamente, mas me impulsionou.

 

Como gostaria que os leitores lessem esta Gaveta de cinzas: solilóquios?

Em câmara lenta.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro a obra de Gran’Mah; Nudos, de Eduardo White; e Corpo, de Carlos Drummond de Andrade.

 

Perfil

Nick do Rosário nasceu na Cidade de Quelimane. É licenciado em Literatura Moçambicana pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Trabalha na área de viagens e turismo. Escreve poesia desde 2004. Em 2019, participou no 2º Concurso Internacional da Revista Inversos – Doces Poemas (Brasil), tendo o seu texto sido seleccionado para a antologia do prémio.

Por: Belchior Eduardo

 

– De quem é o correio electrónico? Perguntou-se Zezinho.

Zezinho é um jovem de trinta e tal anos de idade, alto e com um esplendor ambicioso elevado em sua mente, escuro, coloca óculos para minimizar o embate dos raios solares na sua vista resultado de um problema que fora causando uma braquimetropia ocular.

– Tafianne? Quem é Tafianne!? Não a conheço de lado algum.

A perplexidade pairou na sua cabeça, criando perguntas nas quais sequer conseguiria ter uma resposta.

– Meu nome é Tafianne Todd, mais sobejamente conhecida por TT. Tenho uma história por contar. Posso confiar em ti?

Zezinho viu as palavras através de um correio electrónico automático, mas não sabia, ao certo, que se de automático se tratava.

As questões acasalavam-se na cabeça de Zezinho, questionando se estava diante de um sonho ou algo do género ou mesmo uma pegadinha na qual todos poderiam rir dele no final.

– É claro que podes. Respondeu, Zezinho, enviando um correio electrónico instantâneo.

No mesmo instante, a carga do seu Laptop “reclamou”. Era um computador adquirido graças a um xitique entre amigos. Foram 12 meses de sacrifício, de quem recebe abaixo de 500 dólares mensais, com esposa e dois filhos, morando numa casa de renda e com o dever de, todos os santos meses, enviar seus míseros centavos aos seus pais.

– Sou americana, trabalhando numa missão conjunta para a paz na Líbia. Num desses dias, há uma semana, fui escalada numa missão bem para o interior de Trípoli, com mais nove colegas. Chegado ao local, bem coberto por escombros, achamos um baú repleto de notas em dinheiro norte-americano.

América é a nação do mundo, com belíssimas cidades e um património histórico-cultural elevado e invejável, um PIB elevado e com óptimas condições de vida para a população.

–  O que queres que eu faça perante o que acabaste de contar? Perguntou Zezinho.

Uma informação numa janela esquerda no ambiente de trabalho do seu computador referia que o sistema estava quase esgotado.

– Não sou contra religião alguma, sou temente a Deus, linda e solteira.

Zezinho ficou desconfiado. Reparou aos lados para se certificar de que, realmente, não se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Pensou que poderia ser  um hacker ou mesmo a sua esposa a testa-lo.

– Que relação existe entre o que disseste antes e o que estás agora a falar? Perguntou Zezinho.

– Gostaria que casasses comigo ou que me ajudasses na transferência deste valor da sua conta. Assim eu voarei até você e faremos a divisão na ordem de 60/40 para que todos saíamos satisfeitos.

A ambição despertou Zezinho. No mesmo instante, respondeu:

– Será uma boa ideia!? Sou casado e não te conheço.

– Está bem, por hora deixe de lado o casamento e focalizemo-nos no negócio.

– Está bem, falemos de negócio.

– Óptimo, não te arrependerás. O que tens a fazer é…

Naquele mesmo instante, o computador do Zezinho desligou-se.

 

 

Por Matos Matosse

 

Deve constituir uma enorme satisfação para Sara Jona Laisse ‒ [Doutora em Literatura e Culturas, em Língua Portuguesa, pela Universidade de Lisboa e docente, na Universidade A Politécnica de Maputo] ‒, particularmente, e, para a classe dos escritores moçambicanos, no geral, por ‒ este mais recente livro: ENTRE MARGENS: Diálogo intercultural e outros textos, desta autora, editado pela Gala-Gala edições, Outubro de 2020, “publicado”, no dia 29 de Junho de 2021, na Biblioteca Central da UP-Maputo, e apresentado pelo Prof. Doutor Afonso Vassoa,  ‒ ter sido levado à Academia pela Universidade Pedagógica. Certamente, aqui – na Academia –, merecerá outro tratamento. Para além de poder constituir um objecto de estudo e análise, a nível dos estudantes da Literatura, servirá, igualmente, [creio] de material de apoio aos estudantes de Antropologia, de Sociologia, quiçá, de História e doutras áreas afins. Aqui, não resisto a isto: Parabéns Magnífico Reitor Professor e Doutor Jorge Ferrão por esta belíssima iniciativa!

Sara Jona impele-nos – num bom sentido do termo – para uma análise e debates profundos dos conteúdos constantes deste livro com 136 páginas; prefaciado por Vanessa Riambau Pinheiro e o posfácio de Ana Mafalda Leite.

Eu proponho-me a analisar alguns textos, como pretexto de levar este livro ao conhecimento do público. Aliás, esse é, também, o papel de um ensaísta ou crítico literário: eis os textos: (1) Ku-tsinga: dos hábitos às mudanças tradicionais, págs.: 35 – 37; (2) Injustiça social: “ukati, ovaxi nivanga hona vasati?”, págs.: 61 – 66; (3) “No meio do caminho”: pedras, sombras, maridos e mulheres da noite, págs.: 76 – 79; e, por fim, (4) “Verdades” dos mitos: rituais de donzelar, págs.: 93 – 97.

[A organização deste livro e, sobretudo, a escolha de conteúdos, a sua sequência, permitem a realização de estudos do mesmo em partes, sem pôr em causa o todo.]

Sara Jona Laisse levanta questões antropológicas, culturais das nossas sociedades – [rituais], [menciono, apenas, (3) três perspectivas na minha visão]: (1) a sua importância, na educação da mulher e, nessa linha, a organização das sociedades. [Aqui, a mulher como sujeito central, tendencialmente, de todas as cerimónias – rituais – apresentados. O homem é olvidado, paradoxalmente, é-lhe atribuído o papel de “chefe de casa”. Um papel que tem as suas exigências. Absurdo?!…]; (2) o aspecto psicológico que estes desempenham aos sujeitos, pág.: 35, 2º §. Aliás, em Injustiça social: “ukati, ovaxi nivanga hona vasati?”, págs.: 61 – 66, Sara diz-nos, baseando-se na canção da cantora moçambicana, Marlen: “…Em fórum doméstico, é ela quem dá à luz, que, entretanto, deve adoptar o apelido do marido, após o casamento; as tarefas caseiras são a ela relegadas, cozinha, serve à mesa e comer. No âmbito profissional, (…) é a mulher quem trabalha, e, entretanto, o chefe do negócio é o marido”., pág.: 62.; e (3) aspecto de ética. Estes rituais respeitam a dignidade da pessoa humana ou, apenas, olham para o fim último? O seu propósito? Por aquilo que se depreende, julgo que não.

Neste texto, há um aspecto a ter em atenção [ver o parágrafo anterior, sobre o âmago da canção da Marlen]: “…deve adoptar o apelido do marido…”; e, limpidamente, vermos a forma verbal “deve”. Aqui nasce a questão de Ética da pessoa. Ou Ética no geral, como queira designar. A imperatividade. A obrigação. O desrespeito pelos direitos do outro [da mulher]. Por que lhe roubar o apelido? Olha, o nosso apelido está, intrinsecamente, ligado a nós. Temo-lo, não desassociado dos nossos ancestrais. Dos nossos espíritos. Por outro, o nosso apelido é a nossa identidade. A nossa dignidade como pessoa.  Urge uma reflexão e – tomada de medidas –, o libertar-se da mulher [já temos este livro a nos dar impulso, a nos remover o véu, a venda que nos cegam.] As mulheres não encontram espaços para negar, devido ao tipo de educação que lhes são injectadas: “Nem que o marido bata em ti, minha filha, deves aguentar o lar”., pág.: 63, 4º §. Ela é chamada a ter paciência. Mais uma injustiça que Sara Jona levanta. A mulher é tida como um indivíduo sem valor. É istificada. É coisificada.

Em Ku-txinga, dos hábitos às mudanças tradicionais, – [Ku-txinga é a purificação de uma viúva pelo seu cunhado; quando uma mulher morre, em substituição, uma irmã ou prima – da falecida – fica com o seu marido.] – nota-se a falta de observância de cuidados de saúde, da contaminação pelo HIV-SIDA. Para este fenómeno, desde 2008, diz Sara Jona Laisse, “o MISAU, dado o elevado índice de cerimónia, em consenso com a AMETRAMO” (…) passou a recorrer-se a ervas para realizar o banho de purificação da(o) viúva(o)”., pág.: 37. Se as sociedades seguissem a ‘purificação pelas ervas’, deixando para trás, definitivamente, a ‘purificação através de relações sexuais’, evitar-se-ia muitas doenças de transição sexual. Mortes. Crianças órfãos.

Algumas questões que Sara Jona no-las traz, como é o caso de maridos e mulheres da noite, continuam a se verificar pela recusa à abordagem, abertamente, dos mesmos, por vergonha, medo, “pelo facto de não se verem em condições de informar que entregaram aquela pessoa a determinados espíritos”., pág.: 78, 1º §. Voltamos à mesma questão de desvalorização da pessoa humana. Essa entrega é para o pagamento de uma dívida que uma pessoa X de uma família Y tenha contraído, às vezes, em bebedeira, ou em curandeirismos, aonde vão para “adquirir a sorte; a riqueza”, etc.

Parece-me, esta certeza tem-na, igualmente, a autora do livro, estes rituais de preparação de uma mulher para o casamento e para a procriação, concorrem para os casamentos prematuros. A mulher é preparada para cuidar bem do marido. Tudo é em volta disto. E as nossas sociedades, maioritariamente, pobres, não encontram mais nada que entregar, precocemente sua filha para os cuidados do homem, obrigando-lhe a abandonar a escola. Há uma coisa que vivi, no meu bairro, década 80, uma moça que já lhe despontavam as mamas, foi submetida pelos seus pais, usando-se uma vassoura de palha ou cesto de palha [não me lembro muito bem do utensílio utilizado] como forma de espantar as mamas; de facto, estas encolheram, timidamente, e, quando estas renasciam, apenas, despontou uma. A outra nunca mais repontou. Isto significa que, às vezes, há deformações físicas que advêm destas práticas. Há problemas de autoestima.

A abordagem destes assuntos não pode caber neste espaço. Como pode ver, caríssimo leitor, fui colocando-os em réstias, que, para a sua compressão profunda, seria necessário que o leitor lesse todo o livro, já, à venda.

 

chonape.matosse@gmail.com

 

 

 

Quando forem 14h30 da próxima quinta-feira, a Galeria Kulungwana irá inaugurar a exposição individual de artes plásticas Phandar, da autoria de Maluzhane Bila. Esta exposição estará aberta ao público de 16 de Julho até ao dia 6 de Agosto.

 

A primeira individual do artista, realizada em Maputo, com o título de Phandar [Desenrascar a Vida] remete, de acordo com a nota de imprensa da Associação Kulungwana, ao conceito que preside à mesma exposição, reflectindo sobre o modo de vida de uma determinada classe social.

O curador da mostra é Pompílio Gemuce, que, segundo avança a nota de imprensa da Kulungwana, destaca que a alma estética de Maluzhane Bila dita regras e posturas de toda a acção onde se assiste à mistura de habilidades técnicas, paisagens políticas, antropológicas, sociológicas, económicas, mas acima de tudo, revelações intelectuais. E Gemuce acrescenta: “Desenrascar é um modo de encarar o trabalho artístico,  […] sendo um mote ou o conceito, onde a arte de sobrevivência, vira uma ciência de produção artística que se desenrola em negociar, reutilizar, trocar, analisar, assumir, integrar, existir e resistir”.

A Kulungwna avança que a mostra é resultado duma intensa actividade de pesquisa, que se desdobrou por várias conversas informais, entrevistas individuais e recolha de histórias de vida nos bairros periféricos da Cidade de Maputo.

 

O autor de Phandar

Maluzhane Bila nasceu em Maputo, em Dezembro de 1988, tendo, desde bastante cedo, usado  “desperdícios”  dos trabalhos de carpintaria e serralharia para produzir os seus objectos. Frequentou a Escola Nacional de Artes Visuais e, posteriormente, o curso superior de Gestão e Estudos Culturais pelo Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC).

Actualmente, reside e trabalha na Cidade de Madrid, Espanha, onde a busca por diálogos interculturais é parte do seu processo de trabalho fora de África.

Maluzhane Bila esteve presente em alguns importantes eventos artísticos no país, como a Bienal TDM e o concurso “Descobertas”. Mais recentemente, participou na exposição virtual Latitudes Art Fair, através da Galeria Arte d’Gema na África do Sul, bem como na exposição Viagem sem Fronteiras, patente no expaço Go, go, go Maputo – Art Fair, na Cidade de Maputo.

No âmbito da exposição, será realizada uma aula aberta – Resistir para continuar a existir: a escultura e seus agenciamentos a partir da exposição Phandar, a realizar-se no ISArC, a 16 de Julho, pelas 10 horas, sendo transmitida em directo nas redes sociais da Kulungwana.

 

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