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O País – A verdade como notícia

A obra de Paulina Chiziane, Niketche, integra uma lista de 10 livros, identificados como de leitura obrigatória, para admissão à Universidade de Campinas (Unicamp), no Brasil.

A Comissão Permanente para os Vestibulares da Universidade de Campinas (Comvest), no Brasil, escolheu Niketche, de Paulina Chiziane, como livro de leitura obrigatória (2022 e 2023) para o ingresso àquela instituição de ensino.

Na lista de leituras obrigatórias anunciadas pela Unicamp, Niketche aparece com mais nove livros, entre os quais Tarde, de Olavo Bilac; O marinheiro, de Fernando Pessoa; Bons dias, de Machado de Assis; Carta de Achamento a el-rei D. Manuel, de Pedro Vaz de Caminha; ou A falência, de Júlia Lopes de Almeida.

De acordo com a Unicamp, “as 10 obras da lista foram escolhidas a partir de critérios como a representatividade dessas manifestações literárias nas tradições culturais de língua portuguesa, o padrão de elaboração estética e a presença de núcleos temáticos adequados à formação pedagógica do aluno no ensino médio”.

Reagindo à notícia, Cremildo Bahule, autor do livro Literatura feminina, literatura de purificação:o processo de ascese da mulher na trilogia de Paulina Chiziane, afirmou, este sábado, que o reconhecimento à obra da escritora tem a vantagem de pôr a sua escrita no circuito académico brasileiro.

Já a pesquisadora brasileira Rita Chaves, que se especializou em literatura moçambicana, lembra: “Paulina Chiziane vai muito ao Brasil e tem um conjunto de leitores sólido. Paulina e Mia Couto, juntamente com Pepetela, são os escritores que mais motivam dissertações de mestrado e teses de doutorado no Brasil, nos últimos anos. Isso não é pouca coisa. O Brasil é um país enorme e com muitos cursos de letras e áreas afins”.

Vanessa Riambau Pinheiro, igualmente, pesquisadora brasileira que se dedica à literatura moçambicana, convidada a falar sobre a primeira escritora africana laureada com o Prémio Camões, afirmou: “No Brasil, o nome de Paulina Chiziane é incontornável, quando se fala em autoria feminina em África”. E, como que a reforçar a constatação de Rita Chaves, Vanessa Riambau Pinheiro sublinhou: “Existem centenas de pesquisas realizadas, feitas por estudantes de universidades brasileiras sobre a obra de Paulina. Existem pelo menos três editoras brasileiras que já publicaram as obras de Paulina Chiziane”.

Para Vanessa Riambau Pinheiro, Paulina Chiziane consegue, nas suas obras, convidar a uma reflexão sobre condições sociais, opressões, colonialismos, sem deslegitimar as práticas culturais moçambicanas. “Pelo contrário, a sua obra configura-se como uma grande declaração de amor ao país e aos moçambicanos”. Por isso mesmo, Vanessa Riambau Pinheiro questiona: “Será que Moçambique já consegue mensurar a importância de Paulina Chiziane?”.

O Conselho Municipal de Maputo homenageou, a título póstumo, esta quarta-feira, Dia da Cidade de Maputo, o músico Hortêncio Langa. Na cerimónia realizada no Átrio do Passos do Município estiveram a família e eternos amigos do artista versátil.

 

Em 1977, Stewart Sukuma chegou a Maputo. Nessa altura, tinha 14 anos de idade e, como se fosse ontem, o artista lembra que a primeira música que ouviu na rádio, “Teresa”, de Hortêncio Langa, era um hit nacional. Daí em diante, o tema ficou no seu coração.

A música a que Stewart se referiu no Átrio do Passos do Município, esta quarta-feira, momentos antes de a interpretar na cerimónia de homenagem póstuma a Hortêncio Langa tem como protagonista uma mulher. Teresa é nome da personagem que, certo dia, se vai embora, deixando para trás, entende-se, o marido e os filhos menores que clamam pela presença da mãe. Por isso mesmo, o sujeito afectado pela ausência da mulher, faz uma ode a pedir o regresso da amada, ora reforçando o seu amor, retratando a dor das crianças, ora pedindo que Teresa volte para casa.

De facto, 44 anos depois de Stewart Sukuma ter-se deixado encantar por “Teresa”, a interpretou na homenagem àquele que considera um dos seus compositores favoritos. “Tive o privilégio de privar com ele, de cantar com ele e tenho influência dele na minha música. Hoje, Hortêncio Langa continua a ser uma referência do que eu componho”.

Além de “Teresa”, Stewart Sukuma interpretou “Lirandzu”, outra música que significa muito para si, sempre acompanhado por Walter Mabas na guitarra.

A música de Hortêncio Langa foi cantada por várias vozes que o admiram. Num dos momentos mais simbólicos da cerimónia, Xixel Langa cantou três músicas em memória do pai. No palco, a cantora não esteve sozinha, fez-se acompanhar pelos seus manos: Dário Langa (na guitarra) e Texito Langa (bateria). Antes de cantar, com efeito, a autora do álbum Inside me confessou: “Esta é a primeira vez que vou cantar sem o dono das músicas. Já estava habituada a ser corrigida depois de as interpretar, mas me preparei bem e espero que gostem”.

Xixel cantou como sabe e os dois irmãos tocaram de forma particular os temas daquele que continua a ser inspiração para a família Langa. Os munícipes de Maputo e o seu presidente ouviram o trio. Mais tarde, quando se dirigiu ao pódio, Eneas Comiche afirmou: “Para que fique registado na História, decidimos honrar a memória de Hortêncio Langa, homenageando publicamente na data em que Maputo celebra 134 anos da sua elevação à categoria de cidade”. Continuou Comiche: “Hoje, os munícipes e o Conselho Municipal de Maputo curvam-se a este homem que cantou a realidade de Maputo, de forma exímia. Celebrando a sua obra, recordamos a carreira de um homem que se tornou referência graças aos seus temas e aos seus ritmos musicais”.

Segundo Eneas Comiche, Hortêncio Langa é digno de admiração e respeito por ter internacionalizado a música e a cultura moçambicanas, por exemplo, através da sua participação em festivais musicais e eventos artísticos no estrangeiro.

Reconhecendo o gesto do Conselho Municipal, em nome da família, Dário Langa, primeiro, lembrou o pai como um educador por excelência e artista versátil. Segundo, afirmou que as obras deixadas pelo pai vão influenciar novas gerações. “Homenagear Hortêncio Langa”, disse Dário Langa, “é prestar homenagem à cultura moçambicana por ele ter procurado soluções e reconhecimento para os artistas”.

Para os filhos, Hortêncioo Langa foi um homem com um carácter sem igual, firme, mas carinhoso. Sempre bem-disposto. Disse Dário Langa: “A família recebe esta homenagem com imensa gratidão. Homens com ele [Hortêncio Langa] não morrem jamais, apenas dormem”.

O último conjunto a interpretar composições de Hortêncio Langa, na cerimónia de homenagem, foi a banda Alambique, de que o músico fez parte até à morte. Antes de cantar, Arão Litsure revelou: “Levantamo-nos dos escombros musicais para homenagear Hortêncio Langa.

Na sessão que contou com a presença da viúva de Hortêncio Langa, o Conselho Municipal de Maputo ofereceu um diploma de honra e 100 mil meticais à família do músico que cantou “Maputo, u xonguile demais”.

 

 

 

Por: Nelson Saúte

 

Não sei o que acontece a alguns espíritos, sobretudo aqueles dotados de cultura e inteligência, sensibilidade e mundo, quando fazem proclamações exacerbadas e despudoradas sobre a vetusta Lourenço Marques. Quando se arrogam a esse desplante.

A desenfreada apologia de Lourenço Marques é uma afronta que deve merecer a mais vigorosa censura. Há um dever de memória que é preciso exercer quando se fala do passado que foi, para a maioria dos moçambicanos, negros ou não brancos, demasiado penoso, na antiga cidade de Lourenço Marques, mas não só.

Esta impetuosa mania de celebrar Lourenço Marques não decorre de uma amnésia. É acintosa, é ostensiva, é provocatória. Este triunfal vitupério do nosso passado é inadmissível. Principalmente quando exercido por aqueles que se querem igualmente moçambicanos.

Ouvir dos que foram coagidos, pelos ventos da História, a abandonar Moçambique, o seu desprimor por Maputo, a sua mofina, não me parece extraordinário e é até expectável. Conheço muitos que se recusam a chamar de Maputo a capital moçambicana e insistem em designá-la de Lourenço Marques. Mas aqueles que insistem, entre nós, com seus panegíricos à Lourenço Marques, aí, simplesmente, acho abominável. E não me coíbo de o dizer.

Não me recuso a aceitar a realidade, nem a ouvir as críticas. Eu também as faço. Mas há uma diferença entre Lourenço Marques, cidade colonial, e Maputo, capital de um país independente. Divergem em tudo: na economia, na política, na sociedade ou na cultura. Não são a mesma coisa, nem representam uma continuidade. Há uma importante disrupção com o 25 de Junho de 1975. Esses bons espíritos laurentinos que por aqui lavram não o entendem?

Eu posso até subscrever o retrato de uma dura realidade da cidade, que é a nossa, hoje, da nossa incapacidade, do nosso desgoverno, da nossa incompetência, da nossa displicência, do nosso descaso. Percorro todos os dias a cidade e sofro com isso.

Igualmente não me chocam os retratos que os forasteiros fazem de Maputo, com o olhar que é deles, que difere necessariamente do meu, mas embirro quando certos portugueses, ao assomarem a Maputo, venham logo proclamar estar em Lourenço Marques. Implico ainda mais com aqueles moçambicanos que continuam a proclamar que o melhor que Maputo tem é Lourenço Marques. Fazem-no disfarçadamente alguns. Outros tantos de forma desbragada.

Então alteiam loas à sua vida, mansa e tranquila, na velha Lourenço Marques, omitindo algo decisivamente importante: que era Lourenço Marques a não ser uma cidade colonial e discriminatória? Lourenço Marques era politicamente excludente. Quem nela vivia? Como era a sua paisagem humana? Nós todos cabíamos lá? Perguntem-me onde nós vivíamos. Como vivíamos. Quem éramos. Como éramos. Onde estamos nesses encômios?

Esta é a Cidade de Maputo. Não é mais Lourenço Marques. Alguns destes nostálgicos de Lourenço Marques são próximos de mim. Mas tenho que ser severo, ríspido e enérgico com eles. Essencialmente com eles.

Maputo, 10 de Novembro de 2021

 

A pesquisadora brasileira, Rita Chaves, afirmou, esta terça-feira, que a selecção de Nós matamos o cão-tinhoso para as listas de livros de leitura obrigatória, divulgadas pela Fundação Universitária para o Vestibular da Universidade de São Paulo, vai concorrer para que a obra de Luís Bernardo Honwana ganhe dezenas de milhares de leitores no Brasil.

 

Uma das estudiosas brasileiras que se dedica à literatura moçambicana é Rita Chaves. Para a professora da Universidade de São Paulo, Nós matamos o cão-tinhoso é, sem dúvida, um livro decisivo na história da literatura moçambicana. Com a inclusão nas listas de leitura obrigatória da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) da Universidade de São Paulo, o livro de contos de Luís Bernardo Honwana pode, agora, ganhar dezenas de milhares de leitores que vão entrar em contacto com um texto produzido ainda antes da independência nacional. Tal ocorrência, acrescentou a pesquisadora, esta terça-feira, vai alargar o horizonte de conhecimento da tradição literária moçambicana no Brasil.

No entendimento de Rita Chaves, além de a inclusão do livro de Honwana nas listas de leitura obrigatória da Fundação Universitária para o Vestibular ser uma forma de consagração de uma obra excepcional, “que estamos com gosto celebrando, penso que podemos ver essa indicação como uma evidência do lugar que a literatura moçambicana vai conquistando no Brasil”.

Ainda esta terça-feira, Rita Chaves explicou que os exames de admissão para a Universidade de São Paulo costumam ter mais de 100 mil inscritos, o que propicia um movimento de divulgação extraordinário aos livros. “As obras são trabalhadas nas escolas e movimentam um mercado realmente robusto. De uns anos para cá, a lista tem contemplado uma obra de Literaturas Africanas. Tivemos o Mayombe, do Pepetela, o Terra Sonâmbula, de Mia Couto, e a gora para os exames entre 2024 e 2026, teremos o Nós matamos o cão-tinhoso, do Luís Bernardo Honwana”.

Até aqui, revelou Rita Chaves, a selecção da Fuvest privilegiou romances, um género muito prestigiado no Brasil. Por isso mesmo, “a escolha de um livro de contos é um sinal de abertura para uma forma de narrativa que é muito cultivada em Moçambique. Parece-me que a qualidade da obra se sobrepôs a um critério formal, o que é excelente”.

Outro factor que a professora da Universidade de São Paulo considera importante tem a ver com o facto de ter sido escolhido um autor de presença rara na mídia. “O livro [Nós matamos o cão-tinhoso] foi publicado no Brasil no final dos anos de 1970 e só veio a ser reeditado há poucos anos pela Editora Kapulana, que tem feito um óptimo trabalho editorial. Essa escolha rompe de certa forma com a chamada lógica do mercado que ainda é restritiva em relação às literaturas africanas de língua portuguesa”.

A Fuvest, instituição responsável pelo exame para a admissão à Universidade de São Paulo, anualmente, apresenta uma lista de leitura obrigatória. “Na verdade, são obras sobre as quais podem ser elaboradas questões nas provas de Língua Portuguesa e Literaturas”, esclareceu Rita Chaves.

 

Perfil de Rita Chaves

Rita Chaves é professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (Brasil). De igual modo, é pesquisadora do Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa. Possui uma Graduação e Mestrado em Letras, pela Universidade Federal Fluminense e Doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo, com dois estágios de Pós-doutorado na Universidade Eduardo Mondlane.

 

Os livros de Luís Bernardo Honwana, Nós matamos o cão-tinhoso, e de Mia Couto, Terra sonâmbula, constam nas listas da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) na qualidade de leitura obrigatória para os alunos que almejam admitir à Universidade de São Paulo, no Brasil.

 

Os alunos que desejam concorrer ao exame de admissão da Universidade de São Paulo (USP -Brasil), entre 2024 e 2026, terão de ler Nós matamos o cão-tinhoso, de Luís Bernardo Honwana. A decisão é da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) e tem como objectivo dar melhores condições a professores e estudantes na organização do calendário escolar.

Assim, a obra de Luís Bernardo Honwana, publicada em 1964, será um dos objectos de avaliação nos exames de admissão a uma das maiores universidades (USP) da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), durante três anos.

A inclusão de Nós matamos o cão-tinhoso na lista de obras de leitura obrigatória para o ingresso à Universidade de São Paulo acontece quatro anos depois de o livro ter sido lançado no Brasil pela Kapulana. À novidade anunciada pela Fundação Universitária para o Vestibular, a fundadora da editora, Rosana Morais Weg, reagiu nos seguintes termos, esta terça-feira: “A Kapulana se orgulha de editar no Brasil obra tão importante para a formação de nossos estudantes. É uma leitura cada dia mais necessária para que esteja sempre vivo o debate sobre racismo, discriminação, autoritarismo e opressão, práticas a serem permanentemente combatidas”.

Além de Nós matamos o cão-tinhoso, consta na lista dos livros de leitura obrigatória da Fundação Universitária para o Vestibular (2022 e 2023) o romance Terra sonâmbula, de Mia Couto. Para o professor de literatura e Presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, Nataniel Ngomane, a notícia que chega do Brasil deve, por isso, inspirar Moçambique.

Nataniel Ngomane doutorou-se em Letras – área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela Universidade de São Paulo. Conhece tanto a realidade literária moçambicana bem como a brasileira. Inclusive, é um dos académicos moçambicanos que se especializou na ficção de Mia Couto. Também por isso, sugere: “Temos de olhar para o Brasil como exemplo. Lembro-me que, há alguns anos, tínhamos no ensino secundário moçambicano textos de conhecimento obrigatório. Agora, parece-me que já não existem. Seria interessante que definíssemos livros que os nossos alunos, que querem ir à universidade, devem conhecer. Por exemplo, além de Terra sonâmbula, de Mia Couto, a obra de Craveirinha, Knopfli, Noémia de Sousa, Aníbal Aleluia, Carneiro Gonçalves, Ungulani ba ka Khosa, Armando Artur e João Paulo Borges Coelho. Estes autores dão-nos livros teoricamente bem elaborados”.

Além disso, primeiro, Nataniel Ngomane entende que a partir da leitura dos livros dos autores acima citados, qualquer estudante fica esclarecido sobre o conhecimento da língua portuguesa e da cultura moçambicana. Segundo, porque um ensino eficiente não se deve trancar à sua literatura, Nataniel Ngomane também defendeu a inclusão de autores de língua portuguesa na lista dos livros de leitura obrigatória em Moçambique.

 

Outros livros na lista da Fuvest

Na lista da Fundação Universitária para o Vestibular da Universidade de São Paulo, agora em vigor até 2023, consta Terra sonâmbula ao lado de obras literárias como: Quincas Borba, de Machado de Assis; Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade; Angústia, Graciliano Ramos; Mensagem, de Fernando Pessoa; e Romanceiro da inconfidência, de Cecília Meireles.

Quanto a Nós matamos o cão-tinhoso, aparece na mesma lista que a obra Marília de Dirceu, de Tomás António Gonzaga; Dois irmãos, de Milton Hatoum (2024); A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós; Água funda, de Ruth Guimarães (2025); ou Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade; e Primeiros cantos, de Gonçalves Dias (2026).

A primeira edição da Feira do Livro da Beira (FLIB) começa hoje. O evento realizado pela Associação Kulemba, sedeada na Cidade da Beira, decorre entre 08 e 13 deste mês, subordinando-se ao tema “Literatura e urbanismo: lugares, vivências e memórias”.

De acordo com a organização do evento, a feira vai reunir no mesmo espaço, virtual e presencial, escritores, editores e livreiros para celebrar a literatura.

Assim, a abertura oficial da Feira do Livro da Beira será às 18h00, no Centro Cultural Português-Beira, com uma palestra subordinada ao tema “A economia do livro em Moçambique: será que existe?”, a ser proferida pelo académico Ibraimo Mussagy.

Nesta edição e estreia, a organização prevê expor e vendar mais de 5000 livros diversos. De igual modo, prevê-se lançamentos de livros, conversas e palestras que vão decorrer nos espaços da Livraria Fundza e Camões – Centro Cultural Português.

Na Feira do Livro da Beira, também serão realizados dois concursos, um de fotografia e outro de crónicas. No primeiro, denominado “Eu na livraria”, podem participar todos os cidadãos nacionais e estrangeiros residentes na Cidade da Beira com uma foto criativa tirada dentro da Livraria Fundza. No segundo, podem concorrer todos os estudantes universitários moçambicanos com uma crónica que versa sobre a água, no contexto das mudanças climáticas.

Entre os confirmados desta edição do evento, destacam-se Isaú Meneses (Moçambique), Zeferino Coelho (Portugal), Ondjaki (Angola), Roger Mello (Brasil) e Rui Martins (Macau).

A realização do FLIB 2021 conta com apoio do Camões – Centro Cultural Português na Beira, Fundação Fernando Leite Couto, Cornelder de Moçambique, Parque Nacional da Gorongosa, Universidade Zambeze e Editora Fundza.

Djindjiritana & Quijotes plásticos é o título da individual de pintura da autoria de Nália Agostinho. A mostra pode ser visitada na Galeria Liah Arte, na Cidade de Maputo.

 

A exposição de pintura Djindjiritana & Quijotes plásticos foi preparada em um mês. Em Agosto, Nália Agostinho pintou nove telas enormes – a maior de todas mede 150cm por 180cm. Na verdade, a artista plástica pintou telas maiores, em relação ao habitual, para sair da sua zona de conforto, e, assim, experimentar coisas novas. “Foi um desafio para poder crescer”, disse.

Durante o seu processo criativo, Nália Agostinho recorreu à técnica mista, ora usando acrílico, ora tinta e pastel de óleo. Embora a artista tenha precisado de um mês para concluir a sua obra, o exercício foi longo e intenso, afinal houve muito trabalho e muita pesquisa para criar universos que se conectam. De igual modo, com a individual de pintura, Nália Agostinho gostava de mostrar um cruzamento de possibilidades que envolve a inocência e o sonho das crianças, representadas por Djindjiritane, e a fase das buscas dos adultos, representada com a alusão a Quijotes plásticos, uma ideia inspirada em Dom Quixote, obra da autoria do espanhol Miguel de Cervantes.

Durante a pintura, o que mais encantou à arista plástica foi o cruzamento entre a pintura e a literatura. “Essa foi a fase mais fantástica do processo”, garantiu, acrescentando que “gostava que os visitantes da minha exposição conseguissem, só de entrar na Galeria Lia Arte, encontrar serenidade para alcançar uma espécie de introspecção para captar a mensagem que cada uma das telas está a passar”.

Djindjiritana & Quijotes plásticos pode ser visitada na Galeria Liah Arte até 16 deste mês.

 

A Assembleia da República aprovou, quinta-feira, na generalidade, a proposta de resolução que ratifica o Tratado de Marraquexe, instrumento que vai permitir, por um lado, contribuir para a redução da escassez de obras adaptadas para pessoas com deficiência visual e, por outro, para que estas pessoas tenham acesso à literatura, à educação, ao desenvolvimento pessoal e ao trabalho em igualdade de circunstâncias e oportunidades com as pessoas sem nenhuma deficiência.

De acordo com o Ministério da Cultura e Turismo, o instrumento foi apresentando pela Ministra Eldevina Materula, e discutido em plenária pelas três bancadas parlamentares, tendo sido aprovado por unanimidade.

O Tratado de Marraquexe, avança o Ministério da Cultura e Turismo, autoriza a livre reprodução de obras em formato acessível a esse público específico, desde que não haja finalidade lucrativa e que não se prejudique a exploração normal da obra. O mesmo tratado estabelece ainda uma limitação ou excepção relativa aos direitos de reprodução, de distribuição e de colocação à disposição do público, para facilitar a disponibilidade de obras em formato acessível a favor dos beneficiários. Por outro lado, determina a importação de uma cópia em formato acessível a favor dos beneficiários, sem a autorização do titular de direito.

Eldevina Materula refere que “esta é uma vitória e  um ganho para os moçambicanos. É a evidência de que todos os cidadãos devem gozar dos mesmos direitos. É um sinal de que o nosso Governo pauta pela inclusão. Queremos, acima de tudo, garantir e assegurar que a classe de cidadãos com deficiência visual tenha o mesmo nível de instrução e oportunidades que outros cidadãos sem deficiência”.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (2017), citado pelo Ministério da Cultura e Turismo, em Moçambique, 58.021 pessoas são portadores de deficiência visual e 81.072 com dificuldade para ver, mesmo usando óculos, daí ter havido a necessidade da aprovação deste instrumento.

O Tratado de Marraquexe foi adoptado no dia 27 de Junho de 2013, na Conferência Diplomática realizada em Marraquexe. Actualmente, 79 Países ratificaram o Tratado de Marraquexe, sendo 21 africanos, número que será acrescido após esta aprovação de Moçambique.

 

Paulina Chiziane entende que os moçambicanos devem reivindicar o direito de escrever sobre a sua própria terra e cultura. A escritora interveio esta quinta-feira, na Associação dos Escritores Moçambicanos, Cidade Maputo, onde foi felicitada pelos seus confrades por ter sido laureada Prémio Camões 2021.

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em parceria com o Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), organizou uma sessão literária para felicitar Paulina Chiziane pela atribuição do Prémio Camões 2021. Entretanto, na esquina entre as avenidas 24 de Julho e Amílcar Cabral, na Cidade de Maputo, a escritora, quando teve a palavra, foi muito além do que agradecer pelo gesto.

Ao dirigir-se aos escritores e aos leitores, sobretudo os mais jovens, Paulina Chiziane fez um discurso muito voltado para o que entende por africanidade. Nesse capítulo, a autora de Balada de amor ao vento, livro lançado em 1990, na AEMO, disse que as grandes obras que tratam de África, da africanidade e da identidade africana aparecem muito na língua inglesa e na língua francesa. Na língua portuguesa não aparece quase nada. “O que nós produzimos do pensamento africano, da vivência africana, do conhecimento africano? Nada. Sabem porquê? Porque nos negamos. Queremos ser aquilo que jamais seremos”.

As perguntas retóricas colocadas por Paulina Chiziane, na verdade, serviram para a escritora sustentar uma ideia: “Esta terra é tua. Se tu não escreves a verdade sobre a tua terra, quem fará por ti? Vais esperar que venha o missionário, aquele velho colonialista para vir escrever o que quer sobre ti?”.

Segundo a primeira mulher africana a conquistar o Prémio Camões, ao tentar preencher o vazio relativo à falta de informação sobre a africanidade, foi mal compreendida no seu país. No entanto, fora, o cenário foi bem diferente. “Tentei, com Ngoma yethu, começaram a apedrejar-me. Será que o africano, o negro, a cultura bantu não tem capacidade de interpretar a Bíblia Sagrada? Fiz esse desafio, e depois? O livro que era rejeitado em Moçambique, é um livro que hoje está a ser celebrado fora. As pessoas diziam Ai, que horror! Isto é obscurantismo. Vão lá ao Brasil para ver como os brasileiros apreciam e respeitam [Ngoma yethu]. Vão aos países da América Latina e alguns da Europa, incluindo grupos religiosos interessados em conhecer a cultura africana. É um crime fazer isso? Não é para reclamar, é apenas para dizer África, liberta-te!”.

Ainda na AEMO, Paulina Chiziane afirmou que, enquanto escritora, cometeu muitos erros. Algumas vezes, a autora lê os seus textos antigos e não se reconhece. “Há casos que olho para aqueles textos e digo Meu Deus, fui eu que escrevi isto?! Mas eu não podia deixar de trabalhar porque o português não era o melhor… Com aquele meu recurso linguístico fui capaz de ir construindo gradualmente, crescendo”.

Além de ter lançado o seu primeiro livro da AEMO, Paulina Chiziane é membro efectivo daquela agremiação literária, instituída a 31 de Agosto de 1982.

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