O País – A verdade como notícia

Textos de 27 autores de cinco países africanos foram seleccionados para integrarem o livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa. Para esta primeira edição, entre os escritores convidados encontram-se Mia Couto, Marcelo Panguana, Suleiman Cassamo, Bento Baloi, Jorge Ferrão, Álvaro Taruma, Daniel da Costa (Moçambique), José Luís Mendonça (Angola), Oghenechovwe Donald Ekpeki (Nigéria), Vera Duarte (Cabo Verde) e Zukiswa Wanner (África do Sul).

Aos escritores convidados para a iniciativa literária do blog O Diário de uma Qawwi, juntam-se mais 15 autores, cujos textos submetidos ao concurso, de acordo com a organização, destacaram-se num conjunto de 26 candidaturas. “Durante o período de submissões, foram recebidos e analisados 26 textos. Após uma cuidadosa e aturada leitura, a equipa do Diário de uma Qawwi determinou que 15 dos textos submetidos reúnem os requisitos solicitados no edital publicado em Julho do corrente ano”.

Assim, Adelino Albano Luís, Lex Mucache, Félix Casimiro Benhane, Jeconias Mocumbe, Andreia Edna da Silva, João Baptista Caetano Gomes, Marvin Muhoro, Sónia Chagas, Agnaldo Bata e Teresa Taimo são alguns autores que também integram a colectânea.

Com a obra Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa, o blog O Diário de uma Qawwi pretende apoiar o desenvolvimento de novos tipos de produção literária africana, com particular ênfase à ficção especulativa. O lançamento da antologia está previsto para o primeiro semestre do próximo ano.

O rosto e o tempo reúne textos de livros que Armando Artur lançou ao longo dos anos. Com organização do escritor Lucílio Manjate, a obra literária é editada pela Alcance Editores e será apresentada publicamente esta quarta-feira, pelas 17h, no Boske, Cidade de Maputo.

A sessão de apresentação do livro O rosto e o tempo será restrita, devido aos cuidados sanitários impostos pela COVID-19. Por isso, o evento também será transmitido em directo através das plataformas sociais Facebook e Instagram da Alcance Editores.

Segundo avança a nota do evento, o livro O rosto e o tempo sugere uma corajosa viagem pelo universo poético. Segundo o ensaísta Francisco Noa, mencionado na mesma nota, a poesia surpreende pela sua simplicidade, por um notável poder de síntese, pela frugalidade da palavra que tem a virtualidade de muito dizer com tão pouco.

No mesmo livro, Ungulani ba ka Khosa, recentemente homenageado pelo Conselho Municipal de Maputo, durante a sétima edição da Feira do Livro de Maputo, refere que Armando Artur é um poeta maiúsculo, “bebedor de quintessências que nos brinda com esta marcante antologia com as falas do poeta nos dias em riste, espelhando os tristes e felizes dias dos nossos trópicos”.

Já o organizador da obra, Lucílio Manjate, afirma que esta antologia baseou-se, por um lado, nas leituras analíticas de dois estudiosos da literatura moçambicana, que têm acompanhado o poeta das essências: Ana Mafalda Leite e Francisco Noa.

Paulina Chiziane e Dionísio Bahule, autores do livro A voz do cárcere, debateram, esta segunda-feira, na Cidade de Maputo, sobre a condição dos antigos prisioneiros em Moçambique.

O Nedbank convidou a primeira escritora africana a vencer o Prémio Camões para um debate sobre a sua nova obra literária. Na Cidade de Maputo, esta segunda-feira, Paulina Chiziane participou na sessão com o co-autor de A voz do cárcere, o filósofo Dionísio Bahule.

Numa sessão restrita, Paulina Chiziane afirmou que é preciso que o Estado moçambicano conceda uma nova oportunidade para recuperação da vida aos prisioneiros. E justificou porquê: “Estamos a falar de um drama humanitário. Estamos aqui para promover um debate, uma espécie de uma nova consciência da nossa sociedade, partindo do princípio de que cada um de nós pode entrar na prisão. Há caso de bons malandros que entraram na prisão, aprenderam e mudaram. É preciso dar uma oportunidade para a recuperação da vida às pessoas que se encontram nas penitenciárias”.

Ao longo da sessão, a escritora revelou que A voz do cárcere foi um livro difícil de escrever, devido à oficina deprimente. Também por isso, precisou de escrever o livro com Dionísio Bahule: “Confesso que choravam todos os dias. Perguntava-me como foi possível viver até aqui sem nunca perceber o real drama humano destas pessoas que são parte muito importante da sociedade moçambicana”.

A reforçar as palavras de Paulina Chiziane, Dionísio Bahule explicou que o Estado moçambicano é o primeiro a condenar os antigos prisioneiros, no lugar de garantir a reinserção social. “Se pensarmos na prisão como um lugar da restauração do ser, como é que o próprio Estado, quando lança um concurso público, coloca uma cláusula: ‘nunca deve ter sido preso’. Se a gente diz que a prisão é um lugar de restauração, acha isso um discurso paradoxal. É como se nós condenássemos a pessoa duas vezes, como se quem vai à prisão fosse uma pessoa completamente inútil. Se a gente pede à sociedade que aceite às pessoas que vêm da prisão, como é que o próprio Estado não consegue dar uma possibilidade?”.

O filósofo Dionísio Bahule disse ainda que trabalhar com Paulina Chiziane na escrita de A voz do cárcere foi um privilégio enorme, não só de aprender, mas também de crescimento. E como que deixando um comentário sobre o Prémio Camões, rematou: “Ela já não pertença a ela mesma, mas a todos nós. É para nós um património, que deve ser partilhado”.

Nas 475 páginas deste de A voz do cárcere, Paulina Chiziane e Dionísio Bahule procuram justificar que a prisão deve ser encarada como um espaço de catarse e de reabilitação.

 

 

 

O bailarino e coreógrafo Pak Ndjamena é um dos seis artistas/ produtores ou agentes musicais que participa na maior feira internacional de música, a WOMEX – Worldwide Music Expo. De acordo com uma nota de imprensa, a participação do moçambicano enquadra-se no projecto da União Europeia PROCULTURA PALOP-TL e o evento irá acontecer de 27 a 31 deste mês de Outubro, na Cidade do Porto, em Portugal.

A participação na WOMEX será uma oportunidade única para os participantes dos PALOP-TL conhecerem outros produtores e artistas internacionais, apresentarem os seus trabalhos e portfólios artísticos, assim como promoverem a riqueza musical dos seus países. Afinal, adianta a organização, a WOMEX é o maior encontro musical internacional e culturalmente diverso do mundo e a maior conferência do cenário musical global, com feira de negócios, palestras, filmes e pequenos concertos de showcase.

Com mais de 2.500 profissionais (incluindo 260 artistas) de 90 países envolvidos, a WOMEX, é a plataforma de networking número um para a indústria da música mundial. O seu espetro musical é incomparável no mercado de showcase internacional, variando do mais tradicional ao novo underground local e global, abrangendo música popular, raízes, jazz, culturas locais e da diáspora, bem como sons urbanos e electrónicos de todo o mundo.

A iniciativa é apoiada pelo DIVERSDIDADE – Instrumento de financiamento para a diversidade cultural, cidadania e identidade, gerido em parceria com a EUNIC – Rede de Institutos Culturais e Embaixadas da União Europeia e que se enquadra nas actividades promovidas pelo PROCULTURA – Promoção do Emprego em Actividades Geradoras de Rendimento no Sector Cultural, nos PALOP e em Timor-Leste.

Além de Pak Ndjamene, participam no evento profissional ‘Stive’ (Angola), Paulo Linhares (Cabo Verde), Edizildo Indi (Guiné-Bissau), Enerlid Franca (São Tomé e Príncipe) e Olívio Santos (Timor-Leste).

Por Ungulani ba ka Khosa

 

Ao longo da vida, e em função  das andanças pelas latitudes e longitudes do mundo,  vamos enumerando as cidades de eleição. Mas essas cidades têm o condão de nos inebriar pela beleza, pela culinária, pelo divertimento, pelo sossego, pela invisibilidade que nos dão. São cidades que nos agradam por momentos, por espaços de tempo, mas nunca pela vida porque a cidade da nossa vida, a cidade das nossas memórias, eu diria, para ser mais preciso, o espaço da nossa memória maior, é aquele em que preservamos o essencial da nossa existência: a memória, o espaço de ontem que os mais aconchegados nos fazem lembrar detalhes, pedaços do que fomos, do que somos e do que transportamos. Este espaço de memória, o chão a que queremos voltar sempre, é a nossa aldeia, a nossa vila, a nossa cidade de eleição.

Nas feiras antecedentes, o município teve o digno e acertado acto de homenagear escritores, que muito nobilitam esta cidade, este país e o mundo, como: Aldino Muianga, Calane da Silva, Juvenal Bucuane, Marcelo Panguana e Paulina Chiziane, a nossa Prémio Camões deste ano.

A cidade de ontem e hoje ressuma pelos poemas, contos e romances desses escritores. Sentimos o pulsar desta cidade. As ruas de ontem provocam curiosidade. O nosso subúrbio, o subúrbio que Craveirinha cantou, alargou-se, ganhou outros contornos, entrou pelo Chamanculo adentro, emergiu no bairro Indígena, e ouviu-se o sibilar das águas fervendo nas xicandarinhas da Malanga. A alma de Maputo está lá, nesse perímetro dos desafortunados da vida, dos rejeitados da história que conseguiram quebrar a fronteira entre o asfalto e o macadame.

Disse sempre, quando a cidade ainda não se entranhara em mim, aos que se aventuravam em escrever uma história, tendo como pano de fundo a nossa cidade das acácias, para não se aventurarem a tanto, quando o espaço não está na vossa alma porque o que sai é um logro, é uma burla, não é o texto sincero e limpo, como dizia um poeta. “o /&%$#$#”estrada e sem buracos”o /&%$#$#”estrada e sem buracos”o /&%$#$#”estrada e sem buracos”o /&%$#$#”estrada e sem buracos

Tive, em tempos da outra senhora, uma passagem de certo modo memorável  por esta cidade. Foram quatro anos da minha vida. Fiz parte da minha quarta classe na escola João de Deus, lá para as bandas da loumar, no Alto-Maé;  o primeiro ciclo na famosa escola secundária Joaquim de Araújo, hoje Estrela Vermelha. Vivi na zona do fajardo, na igreja anglicana e, depois, na cidade da Matola. A minha cidade, a cidade das luzes resumia-se ao troço da Av. Pinheiro Chagas, hoje Eduardo Mondlane, até ao ponto final. Recordo-me, nessa pré-adolescência, de ter almoçado no melhor restaurante do mundo: o ”solar familiar”, a uns escassos metros da avenida irmãos Rubi. E era com alegria que me embrenhava pelo Chamanculo adentro, em direcção à casa do meu encarregado de educação, o avó Mambule, para assinar os meus testes. Gostava de percorrer as estreitas ruelas e sentir os cheiros que evolavam das cozinhas ao ar livre para lá das cercas de caniço. Não tinha a noção que aquele mundo era o mundo dos explorados, dos excluídos, porque as vozes e os cânticos que ouvia, nesse meu primeiro aprendizado do Changana/ronga, sabiam-me a alegria e não a tristeza. O primeiro elevador que frequentei, ludibriando o guarda, foi no prédio próximo ao  actual restaurante Xima. E nessa cidade aprendi a gostar dos livros, lendo a banda desenhada e os livros de seis balas que trocávamos ao preço de um escudo na livraria defronte ao actual Banco de Moçambique do Alto Maé. Recordo-me que me apaixonei de forma desalmada com a série Mandrake, por aparecer um personagem preto bem parecido, apesar das vestes que o diferenciava dos brancos. Essa é a memória que guardo da cidade desses tempos da minha pré-adolescência. E depois parti. Fui conhecer o Moçambique mais profundo, o Moçambique com outros horizontes culturais. E só regressei após a independência, para ser alistado no primeiro grupo do centro 8 de Março. Maputo era outra cidade. Fiquei um ano e voltei a partir, desta feita  para o Niassa desconhecido.

Assentei arraiais nesta cidade, Maputo, em 1981. A cidade passou a ser  minha. A minha vida literária começou aqui, com os meus primeiros contos, alguns lidos no coreto do jardim “Tunduro”, nos tempos do “Msaho”. Atrevo-me a dizer que de princípio eu tinha algum receio em colocar a cidade como pano de fundo nas minhas histórias porque sentia que a cidade ainda não se entranhara  em mim. E foram precisos anos e anos de vivência, de conhecimento da cidade do cimento e da madeira e zinco, para que assumisse esta cidade como minha de pleno direito.

Há um texto que escrevi sobre a cidade e que fiz questão de o inserir no meu livro Cartas de Inhaminga que ilustra o amor por esta cidade. O texto resulta de uma viagem que fiz a Cabo Verde, por sinal país homenageado nesta feira. Cito partes do texto:

Nunca, em todo o meu mapa geográfico, fui percorrido por um sentimento identitário tão profundo como o que vivenciei em Cabo Verde. Confesso que ao tempo da visita senti uma pequena nesga de inveja, um sentimento de incapacidade, um assumir quase envergonhado de pertencer a um país de outra  era geológica. Nesses momentos fica-se meio grogue. E o pior que me aconteceu nesse estado de embriaguez envergonhada, foi sentir-me perseguido por um dos cantos da Cabeça calva de Deus, desse poeta maior que é o Corsino Fortes: Oh oceanos! Que ladram à boca das tabernas/ Se o sangue deste homem/é tambor no coração da ilha/ o coração deste homem/ é corda no violão do mundo/ E os joelhos/ rodas que vão! Hélices que sobem/ com ilhas no interior…

Nem o distante clangor do Craveirinha, apelando-me ao meu orgulho Índico para que puxasse logo pelo oppercut do nosso amigo Joe Louis (poema do José Craveirinha – Joe Louis, nosso Campeão) me  salvou. Apanhei um nocaute(KO).

Mas o sentimento de invalidez foi-se esboroando quando o avião  das linhas aéreas de Moçambique foi descrevendo o derradeiro círculo de descida para o aeroporto de Mavalane. Aí vi a minha cidade com o pulmão verde que a identifica, as acácias que a singularizam, o traçado à régua e esquadro das ruas e avenidas que a disciplinam, a tomar forma à beira do Índico. E quando o avião se fez ao solo, senti de novo aquele ar de pertencer a uma latitude diferente e com outros sabores. O sol já se perdia pelo complexo montanhoso dos Libombos, quando saí do majestoso aeroporto. A noite entrara a pique, abruptamente. A avenida Acordos de Lusaka levou-me à zona central da cidade, mostrando a diluída fronteira entre o mundo suburbano e urbano a esbater-se a cada dia que passa. Estes mundos cozinham-se por todos os espaços da cidade. Não há como dizer que aqui acaba o asfalto e aqui começa o macadame.

Como espelho do país, Maputo revela, a meu ver, toda a sua ingenuidade à noite. A beleza da cidade assenta precisamente nessa inocência de si mesma. Maputo é uma cidade permanentemente distraída em relação aos seus costumes, aos seus valores, aos seus ritmos, à sua culinária. É apanhada distraída quando o Centro Cultural franco-moçambicano traz inesperadas enchentes no sempre apetecível Festival de Marrabenta.

Mas ali, mesmo à beira da estátua do prócere da unidade, no populoso Alto-Maé, os músicos dão sempre o ar da sua graça, fazendo vibrar ritmos moçambicanos. As mesmas vozes fazem-se ouvir no bairro da Liberdade, no Xiquelene, no T3. E há jazz nos caminhos de ferro, no Matola jazz bar; há poesia e música no café Gil Vicente e no Goethe Zentrum/ICMA.

Mas, característica nossa, continuamos distraídos. Não assumimos as nossas noites. Os ritmos não estão entranhados no nosso organismo. Enfastiamo-nos depressa. Perdemos o sentido de alegria, de tertúlia. Não conseguimos ser alegres. Temos o sorriso, mas perdemos a alegria, a vivacidade, o desregramento. A cidade não se reflecte em nós, parece-se com a porta da vizinha.

Continuo a adorar  a cidade, a minha cidade, o meu Maputo. Por isso,  alegra-me imenso este gesto da minha cidade em dizer tu és nosso. É uma alegria profunda. Há quem diga honra, mas honra por vezes é imerecida, mas a alegria nunca. Obrigado Município, obrigado presidente Comiche. O meu obrigado estende-se particularmente à grande equipa, capitaneada pela dra Cristina Manguele, que tem a responsabilidade de fazer acontecer a Feira. Sei do vosso trabalho porque estive convosco nos primeiros momentos. Agora não estão nos atalhos. Vocês caminham pela auto estrada.

Obrigado Maputo, obrigado a todos.

 

Ungulani

 

Outubro de 2021

 

*Texto lido pelo escritor na cerimónia de homenagem organizada pelo Conselho Municipal de Maputo, na sétima edição da Feira do Livro de Maputo, no dia 22 de Outubro de 2021.

 

O escritor moçambicano Pedro Baltazar lança sua mais recente obra intitulada “O Parto dos Rios”. O lançamento do livro está previsto para esta terça-feira, pelas 17:30h, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, Cidade de Maputo.

É uma obra que muito promete, pois há, nela, muito que se pode depreender, livro das suas cicatrizes. “O Parto dos Rios”, obra poética de 76 páginas, é uma declaração nua de intenções: o amor e a crítica social.

Dividido em três cadernos, “Madrugada no Lúrio”, “Pôr-do-sol no Save” e “Amanhecer no Zambeze”, o livro lembra uma viagem pelo país (do norte ao sul), às vezes pelos olhos de Rui de Noronha, às vezes pelos olhos de José Craveirinha

Para o autor, a obra literária é “fruto do que vi e busquei compreender na vida, […] ciente de todas essas formas, das cambalhotas, dos solavancos e dos cheiros da lama e do bagre”.

“O Parto dos Rios”, que sai pela chancela da Gala-Gala Edições, será apresentado pela Profa. Dra. Irene Mendes, em sessão presencial e transmitida em directo através das redes sociais.

Os filmes de Ídio Chichava (bailarino e coreógrafo) e de Ivan Barros (realizador) foram distinguidos na Cidade de AlbertVille, em Franca, este domingo.

 

Quando Ídio Chichava recebeu a notícia de que os filmes Último berro e Começa a ficar tarde tinham sido distinguidos com Menção Honrosa, no Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros, encontrava-se num comboio, a caminho de Toulon, onde vai começar a trabalhar para LA MANUFACTURE, um Centro de Desenvolvimento Coreográfico. A novidade encontrou-lhe de surpresa, e o coreográfico não esconde: “Foi com alegria e espanto, pois os filmes de dança já eram um risco enorme num evento dedicado a documentários. Isso emocionou-me, pois a luta de levar a dança a espaços alternativos teve o seu efeito com esta distinção”.

O reconhecimento dos dois filmes de dança aconteceu na cidade francesa de AlbertVille. E, desde logo, Chichava percebeu a relevância do reconhecimento anunciado numa cerimónia pública. “Para mim, é importante ter ganho este prémio, no sentido em que o nosso objectivo é mostrar ao mundo o olhar do corpo no espaço público, e, através dele, poder-se visitar Maputo e seus espaços atípicos, sua multicultura, sua mistura, criando um cartão-de-visita artístico e coreográfico. É também importante, entanto que moçambicanos, mostrar que, através da arte, podemos emancipar Moçambique”, reagiu Ídio Chichava, momentos depois da distinção, domingo à tarde, a partir de França.

No festival de documentário e do livro, Le Grand Bivouac, concorreram 47 filmes. Por isso, o reconhecimento, para Ivan Barros, traduz que a perseverança e o trabalho árduo dão frutos. “Significa também que quando fazes bem aquilo que pretendes fazer, independentemente do orçamento do projecto, a consequência pode ser o sucesso”.

Quando Ídio Chichava e Ivan Barros fizeram os dois filmes, não estavam à espera de muita coisa. “Somos dois contadores de histórias com muita vontade de partilhar as coisas do quotidiano do nosso Moçambique. O que esperávamos mesmo é que as pessoas acedessem ao YouTube e assistissem aos filmes. Mas com o sucesso além-fronteiras e a positiva aceitação pelo público dos festivais, sentimos o peso da responsabilidade. Temos que continuar a produzir mais e melhor e penso que estão criadas as condições para conseguirmos apoio em termos de orçamento para produzir filmes mais ambiciosos. Já provamos que temos talento, disciplina e cometimento para fazer chegar a bom porto as nossas produções audiovisuais”, afirmou Ivan Barros.

Para o realizador, os dois filmes que produziu com o Ídio Chichava não se concentraram no orçamento, mas na visão. Começa a ficar tarde foi produzido sem apoio de ninguém, em termos orçamentais. Último berro teve apoio do Centro Cultural Franco-Moçambicano, cerca de 50% do que os artistas precisavam. “O restante saiu do nosso bolso e a equipa trabalhou a custo zero, porque acreditou no coreógrafo e no realizador”. Também por isso, acrescentou Ivan Barros, “a distinção enche-me o coração de orgulho, mas nem de perto compensa as horas e o dinheiro que gastamos”.

Último Berro é um filme que retrata os desafios que um corpo vive numa época de COVID-19 e a incapacidade de acção ao ver o que acontece com a população que sofre com o terrorismo.

Começa a ficar tarde quer alertar para o facto do consumismo, destacando o erro de se levar ao lixo bens e alimentos que para outras pessoas ainda podem ter utilidade, ou seja, “começa a ficar tarde para mudarmos os hábitos e evitar que o planeta sofra as consequências”.

Sobre Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros

O Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros foi criado em 2002. O evento está desenvolvendo uma abordagem original para o seu público no mundo dos festivais, combinando estreitamente uma compreensão das questões contemporâneas de natureza ambiental, cultural, social e o incentivo à viagem. Ao tomar o mundo como testemunha, o evento deseja, assim, favorecer para o seu público a abordagem mais imediata e concreta possível dos acontecimentos actuais.

O Parque Nacional da Gorongosa foi o palco de lançamento do livro o romper da aurora e do disco de declamação de poesia. Estes produtos resultam de dois concursos organizados pelo Festival do Livro Infantil da Kulemba (FLIK 2021).

Entre os convidados da cerimónia de lançamento estiveram as vencedoras dos dois concursos, nomeadamente, Funasse Zuca, Cynthia Garcia e Micaela Sandoca, na modalidade de contos, e Edna Alberto, Graça Sequeteiro e Aissa Ossumane, na modalidade de declamação de poesia.

Segundo avança a Kulemba, o livro o romper da aurora é constituído por 15 contos ficcionados por igual número de alunos do ensino secundário do país. Já o disco é constituído por 10 declamações de poemas da CPLP, sobretudo de Noémia de Sousa e Fernando Pessoa. Os poemas são também recitados por alunos do ensino secundário.

A quarta edição do FLIK 2021, que tem como patrono Mia Couto, realizou-se este ano, na Cidade da Beira, num formato presencial e online. A feira reuniu num mesmo espaço autores da CPLP, com destaque para Dama do Bling (Moçambique), Lurdes Breda (Portugal), Ninfa Parreiras (Brasil), António Cabrita (Portugal) e Celso Celestino Cossa (Moçambique). A realização do evento teve apoio do Camões – Centro Cultural Português na Beira, da Fundação Fernando Leite Couto, Cornelder de Moçambique, Parque Nacional da Gorongosa, Universidade Zambeze e Editora Fundza.

Por: Francisco Noa

 

Começando pelo próprio título, passando pelo viés realista da narração dos acontecimentos, da descrição dos lugares, do tempo e dos objectos, mas sobretudo das personagens, quase todas elas erráticas e com uma aura trágica a envolvê-las, este é um romance que desafia não só as crenças e o horizonte de expectativas do leitor, mas a sua sensibilidade e a sua estabilidade emocional. O efeito catártico do que é aqui narrado se impõe, por isso, de forma inapelável.

E são inevitáveis associações com a perspectiva aristotélica de que o terror e a piedade são suscitados por aquilo que nos é mostrado. Vejamos, No Verso da Cicatriz, alguns exemplos:

Na mesma noite e com os troncos nus, Nelson e o seu grupo [Testemunhas de Jeová] sentem a fúria do chamboco nas costas. Um a um são forçados a flectir os dedos das mãos no sentido contrário ao da palma e amarrados ao antebraço durante largos minutos. Por fim, para massajar o corpo, repetindo as palavras do comandante, os religiosos passam toda a madrugada nus e dentro de tambores de água fria até ao pescoço.”. p. 41

 

Assustamo-nos. Dispersamo-nos e, instintivamente, corremos para o lado malawiano da linha da fronteira. Há um choro melancólico masculino incessante que nos atravessa a audição. Dou pela falta de Nelson. Foi ele que pisou a mina.

Tento aproximar-me do local onde ele geme, mas os outros seguram-me. Pode ser que haja outra por perto.

As suas duas pernas foram decepadas. Em pouco tempo, perde muito sangue ante o nosso olhar impotente. Os seus gritos deixam de ser de pedido de socorro e passam a ser de agonia. Sofia está apavorada. Chora de desespero. Nelson estrebucha não tarda que os gritos cessem e a sua voz progressivamente se dilua nas margens dos ventos. p. 196

 

A pulsação do trágico, que se intersecta profunda e permanentemente com o épico, deveria concorrer, tal como na tragédia antiga, para a purificação do leitor/espectador por efeito das referidas emoções, isto é, o terror e a piedade. Nesta nossa contemporaneidade tão insensível, tão materialista e tão egocêntrica, e sobretudo sofrendo de uma amnésia tão devastadora, como essas emoções, ou outras afins, podem ainda emergir e concorrer para o tal efeito regenerador?

Enquanto temerário e tremendo resgate da memória colectiva, No Verso da Cicatriz é um causticante libelo contra o esquecimento que atinge, muitas vezes, uma dimensão que vai muito além do imoral. Segundo Marc Augé (2001), a memória e o esquecimento mantêm de algum modo a mesma relação que existe entre a vida e a morte, o que significa que não existe uma sem a outra. Cabe, pois, à memória resgatar e iluminar o que o esquecimento, voluntária ou involuntariamente, procura recalcar e manter na obscuridade. A memória é sempre um compromisso com o tempo, seja ele passado, presente, ou mesmo, por antecipação, o que está por vir.

A acelerada sucessão e a violência física, psicológica e moral contidas no que nos vai sendo revelado, mas muito particularmente a crueza da forma como tudo é mostrado –  há uma forte dimensão visual nesta escrita -, torna cada detalhe tão perturbadoramente impactante, dada a virulência e a impiedade das situações vividas num intervalo de dezoito anos, isto é, de 1974 a 1992, espaço temporal que cobre a história aqui narrada.

O peso do realismo trágico que domina praticamente todos os ambientes emanados do romance encontra-se, por um lado, nas estratégias paratextuais: primeiro, os três mapas (de Maguaza, na Moamba, onde tudo começa, “A Ferida”; de Carico, na Zambézia, onde o suplício do exílio forçado ganha corpo, “O Sangue”, e, finalmente, de Chilolo, no Niassa, onde a catástrofe pessoal e colectiva se aprofunda, “A Cicatriz”). A outra estratégia paratextual encontra-se na “Nota Final do Autor”, em que este nos explica as motivações, que não necessariamente as intenções, e que estão por detrás desta obra.

Por outro lado, esse realismo trágico emerge na forma como o mundo que nos é narrado no texto se apresenta, no efeito que nos é criado pela narração, como se esta fosse uma transcrição brutal e imediata do que acontece e, ainda, como se fosse estabelecido um contacto com o mundo tal como é, e não como devia ser imaginado.

E o apelo do trágico decorre, entre outros factos, de as personagens, especialmente os protagonistas, Bernardo Penicela Muhlanga e Maria Helena, viverem de desencontros constantes, sobretudo em momentos cruciais em que tudo parece compor-se e resolver-se para os reunir e retomarem a vida brutalmente adiada. Acresce que eles nos surgem como vítimas iterativas de vários equívocos e expectativas goradas, como se o destino, ou as poderosas e implacáveis forças que o representam no romance, não só os comandassem, como também se deleitassem com o infortúnio de ambos e de todos os outros que vêem o curso das suas vidas irremediavelmente desfeitas.

Como nos ensina Todorov (1984),  o realismo tem como função dissimular qualquer regra e dar-nos a impressão de que o discurso é em si mesmo perfeitamente transparente (quase seria possível dizer-se inexistente) e de que estamos perante o vivido – um fragmento de vida. Daí a incontornável dimensão dramática desta narrativa, em particular, em que claramente o que ressalta não é a sequência dos factos em si, mas, uma vez mais, a forma como esses mesmos factos nos são veiculados.

Numa espécie de confirmação da tendência quase natural da arte africana, e da literatura, em particular, de manter um vínculo profundo e estruturante com o meio de onde ela emerge, as experiências individuais das personagens surgem-nos, quase sempre, emolduradas por um pano de fundo que se conjuga com um determinado campo referencial (ético, étnico, cultural, social, linguístico e filosófico) do qual elas fazem parte. Isto é, o seu é mais do que um destino individual. Facto que concorre para que a perspectiva realista com que os detalhes nos são apresentados, por mais ínfimos, ganhem uma dimensão amplificada em termos do que significam e do que comunicam.

O amor entre Bernardo e Maria Helena, apesar de terem tido um filho em comum, adquire ao longo do romance uma dimensão transcendente e plena de simbolismo. Primeiro, por terem sido separados ainda ela acabava de engravidar. Irão, portanto, permanecer mais tempo separados do que juntos, o que se agrava com o facto de não mais se voltarem a ver, apesar de terem passado dezoito anos à procura um do outro.

Segundo, o pensamento que os move ao longo da história, e todas as provações pelas quais passam, algumas delas agudas e extremas, é sempre assente no sentimento que os une e que imaginariamente continuam a cultivar.  Terceiro, porque, no essencial, mais do que dois sujeitos que vivem uma história de amor contrariada pelo destino e pela loucura humana, o que eles representam é um inabalável código de valores, em claro contraponto, a todo um contexto dominado pelo medo, pela violência, pela incompreensão, pela intolerância e pela desesperança.

Apesar de, em algum momento, Bernardo ter cometido algumas transgressões, forçado por circunstâncias em que tinha que optar entre a vida e a morte, há uma aura de heroicidade que o envolve, e que o romance no seu todo nos procura transmitir, assente em valores sociais positivos: responsabilidade, integridade, franqueza, coragem, obediência, lealdade, solidariedade.

Nos vários ambientes por onde ele circula, encontra-se claramente enquadrado pelo cabedal de referências, experiências e expectativas de um determinado grupo, caso da comunidade das Testemunhas de Jeová, com os quais vive o infortúnio do desterro, primeiro em Carico, cerca de oito anos, e mais tarde, em Chilolo, Posto Administrativo de M’sawize, em Niassa. Aliás, ele seria desterrado para Niassa por duas vezes. Por outro lado, pelas condições que lhe são impostas, Bernardo encontra-se em estado de dissonância, quando não de ruptura, sobretudo perante uma ordem política ou militar dominante. O que sobressai, enfim, é o desencontro entre o equilíbrio que o herói procura representar ou instituir, baseado em referências estáveis e o desconcerto generalizado (perseguições, guerra, injustiças, detenções aleatórias, atrocidades)  vivido pela sociedade. Ele faz parte do exército dos condenados sem crime que se justificasse nem julgamento.

Condenado pela primeira vez por uma falsa denúncia que o identificava como Testemunha de Jeová, muitos anos mais tarde, depois de cumprir o longo e doloroso cativeiro na Zambézia e em Niassa, já de regresso a Maputo, seria detido, novamente, antes de chegar a Maguaza, Moamba, sua terra natal, onde Maria Helena o esperava com o filho que ele ainda não conhecia:

O camião celular que nos transporta para o aeroporto é escoltado por militares armados até aos dentes. É como se guarnecessem os mais perigosos de todos os cadastrados do mundo. Nosso crime: não ter cartão de trabalho.

A travessia aérea para o outro extremo do país é feita num cargueiro russo Antonov, das Forças Armadas. Não há conforto absolutamente nenhum. Viajamos quase que amontoados em bancos colocados ao longo da fuselagem da aeronave. Não há lindas hospedeiras a bordo servindo café, mas sim um punhado de militares e que, mesmo em pleno voo, nos vigiam. p. 236

 

Um dos grandes sortilégios da escrita romanesca, enquanto poderoso mecanismo para engendrar mundos, é que ele cultiva, levando-o mesmo ao limite, como No Verso da Cicatriz, o pressuposto de que não existe sociedade sem história, nem história sem sociedade. Isto é, o romance é uma celebração exponencial do homem enquanto realidade histórico-social. Portanto, não só os seres humanos aparecem na sua pluralidade e diversidade de conexões que os ligam a outros seres, como também no que os singulariza quer na sua humanidade, quer na falta dela.

Quando, já no fim da história, Bernardo, que tinha sido raptado e compulsivamente incorporado na guerrilha, descobre que o jovem a quem ajudou a fugir do cativeiro era o seu próprio filho, o momento de reconhecimento em vez de necessariamente conduzir à catástrofe, remete-nos a um desenlace que, mesmo assim, está muito longe de ser um final feliz, para cada um deles e, muito menos, para Maria Helena. No entanto, o vislumbre de esperança reside nos contínuos gritos de um “rapaz que se aproxima, a correr, com um velho rádio Xirico colado ao ouvido” e que grita “continuamente «já assinaram! Já assinaram! Já assinaram!» «Assinaram a paz em Roma! A guerra acabou!» p. 317.

Esta é, porém, muito mais do que uma história de guerra. Se é verdade que são muitas as situações narradas em que, por um lado, nos confrontamos com tenebrosos teatros bélicos, e, por outro, em contraste, com tocantes manifestações de solidariedade, generosidade, amizade, amor e compaixão, trata-se, no essencial, de uma história de usurpação identitária e existencial, e do que há de mais íntimo e precioso na condição humana: a dignidade.  Não admira, pois, que o romance feche com esta confissão desconcertada e desconcertante de Bernardo, diante da incerteza dos tempos que se avizinham: “Boquiaberto, dou um novo abraço ao meu filho. O meu coração desta vez não sabe se continua a chorar ou se sorri”, p. 317. Afinal, no verso da cicatriz há uma ferida que parece não ter sarado.

Uma expressão de maturidade técnica e de modernidade no processo criativo reconhecível neste segundo romance de Bento Baloi tem a ver com a pluralidade e alternância de vozes narrativas, entre principais e secundárias. Em relação às principais, enquanto a primeira e terceira e última parte do romance, respectivamente “A Ferida” e “A Cicatriz”, têm como narrador, Bernardo, a segunda parte, “O Sangue”, a voz narrativa está ao cargo de Maria Helena. E é dentro dessas narrações onde vão emergindo outras vozes secundárias e responsáveis por relatos de episódios determinados. Essas vozes narrativas, aparecendo quase todas na primeira pessoa, desencadeiam, em diferentes momentos, verdadeiras correntes de consciência que expõem muitas das perturbações, inquietações, emoções, temores, incertezas e conflitos interiores das personagens e concorrendo para o carácter intimista da história contada. Este pendor é também reforçado pela troca de correspondência entre Maria Helena e Bernardo e que significa a imersão do género epistolar dentro do próprio romance.

A terminar, não posso deixar de felicitar o autor pela arrojada, desafiadora e criativa revisitação de um momento da nosssa história colectiva que, de tão próximo ou talvez não, se mantém numa penumbra inquietante e dramática, à imagem, afinal, de outros momentos também tão cruciais para o nosso destino colectivo. Reconhece-se, neste romance, um labor investigativo escrupuloso e incansável e que nos permite aceder a diversificados e instigantes campos de saber sejam eles históricos, culturais, metafísicos, geográficos, antropológicos ou linguísticos, numa demonstração instrutiva de que a literatura é, também, uma poderosa plataforma cognitiva.

E, mesmo em jeito de conclusão, nestes casos sempre provisória, recorro, tal como o fiz quando comecei, ao velhinho e incontornável Aristóteles: a literatura é, segundo ele, mais séria e mais filosófica que a história por ocupar-se não do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido, pois ela ilumina e amplia, mesmo que parcialmente, muitas das zonas que teimam em manter-se na penumbra. Enquanto o domínio político, dada a vocação para a sua autopreservação, institui enérgicos mecanismos de interdição, a literatura, que assenta na liberdade interior, no inconformismo e na imaginação, emerge sempre não só como espaço emancipatório, mas sobretudo como ameaça a esses mesmos macanismos, numa gesta de contrapoder. A propósito, no romance Anthills of the Savannah, do nigeriano Chinua Achebe (1987: 153), a personagem Ikem, falando para um grupo de  estudantes, conclui, a dado passo: “Os contadores de histórias são uma ameaça. Eles ameaçam todos os campeões do controlo, eles intimidam os usurpadores do direito à liberdade do espírito humano – no estado, na igreja, nas mesquitas, no partido, na universidade ou onde quer que seja.” Daí que ela, a literatura e toda arte sejam tão urgentes e tão necessários.

 

Maputo, 20 de Outubro de 2021

 

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