O País – A verdade como notícia

A Plataforma Internacional de Dança Contemporânea realiza-se na Cidade de Maputo entre 23 e 28 deste mês. Ao todo, serão 20 espectáculos no palco, com grupos provenientes de Benin, Indonésia, Portugal, Alemanha e Estados Unidos.

 

A edição 2021 do KINANI – Plataforma Internacional de Dança Contemporânea vai realizar-se durante uma semana, entre 23 e 28 deste mês. O objectivo da organização, este ano, é responder à necessidade dos artistas saírem de casa para apresentar o seu trabalho ao público e em público. Assim, os bailarinos ou coreógrafos deverão mostrar ao espectadores da Cidade de Maputo o que vinham trabalhado durante o “confinamento”.

Conforme explicou Quito Tembe, Director do KINANI, “ao nível nacional e internacional focalizamo-nos num programa mais versado para este sentido de sair de casa e trazer mais propostas diferentes do que estamos habituados a ver”. Por exemplo, propostas que são consequências do que foi para os artistas o “confinamento” imposto pela COVID-19. Tembe acrescentou: “Para nós, juntar companhias nacionais e estrangeiras é um regresso das artes cénicas”. Tal regresso, garantiu o promotor artístico, irá acontecer com um programa leve, que vai permitir que as pessoas vejam os espectáculos de forma segura.

Todos os 20 espectáculos agendados para esta edição do KINANI irão ser apresentados em palco com presença do público, isto é, nada de versões online. Caso contrário, se por um motivo qualquer os centros culturais voltarem a encerarem para artes cénias ou performativas, o festival será cancelado. Quito Tembe, mesmo prevendo que isso não irá acontecer, adianta: “Quando se fala de arte performativa, não faz sentido que não seja presencial”.

O programa do KINANI estará direccionado a praças públicas, mas sem aglomerar pessoas de forma insensata. O objectivo da organização também é proporcionar um evento ao ar livre, sem excluir os espaços e as salas tradicionais: Centro Cultural Franco-Moçambicano, Teatro Avenida, Cine Scala e Quarto Andar, com performances e instalações.

Entre os países que irão participar nesta edição, destaca-se a Indonésia. “Teremos uma presença de peso de Jacarta ao nível de instalação performativa. Criamos esta ponte Maputo-Jacarta, em que vamos fazer vários encontros virados para esta nova parceria, com um movimento de artistas de Moçambique para Indonésia e de Indonésia para Moçambique. Teremos um projecto dos EUA virado para jardins e espaços abertos, um projecto de Alemanha para o Quarto Andar e outro do Benin, com um coreógrafo que já esteve cá”.

Portanto, os artistas estrangeiros, inclusive de Portugal, irão juntar-se a nacionais, como Yuck Miranda, Edna Jaime e Rosa Mário. “Contamos receber muitos profissionais que virão para ver o que estamos a produzir. Será uma semana com programação extensa”.

 

Sobre o risco de fechar…

Há um risco de a edição 2021 do KINANI ser cancelada, caso as medidas preventivas contra a COVID-19 endureçam? Quito Tembe não quer pensar em gerir riscos, mas oportunidades. “Esta ansiedade de termos o festival não é só nossa, como organizadores. Maputo ressente-se da falta de encontros artísticos e precisa de arte para que não tenhamos filas enormes de doentes mentais. A arte é importante e não a devemos travar”.

Ano passado, ao contrário do previsto, os artistas não kinaram (do rhonga, não dançaram em português). Para a organização, “foi um ano em que não oferecemos o que temos à Cidade de Maputo. Um encerramento e uma reabertura sem medidas de suporte aos artistas significa uma cadeia de valores parada”. Esta afirmação não é nova, evidentemente, já foi dita de várias formas nos últimos dois anos. Entretanto, Quito Tembe recorreu à mesma afirmação para sustentar que os artistas encontram no KINANI, kinando, uma plataforma para se exporem ao mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O emblemático Museu Mafalala, na Cidade de Maputo, acolhe de 18 a 21 de Novembro em curso, a terceira edição do Festival de Poesia e Artes Performativas – Poetas D’Alma. O evento que arrasta artistas dos quatro cantos do mundo mantém o formato híbrido – presencial e virtual – com manifestações artísticas predominantemente performativas.

Num comunicado de imprensa, a organização do evento diz que a escolha do Museu Mafalala como palco do Poetas D’Alma prende-se pelo facto deste se tratar do “maior espaço onde a oralidade tem deveras importância e, ao mesmo tempo, é aproximar-se do “berço” da poesia moçambicana, onde se destacam os irmãos Albazine, José Craveirinha e Noémia de Sousa”.

O movimento de poesia e artes performativas define ainda o Museu Mafalala com sendo um local que “simboliza toda a Cidade de Maputo, e não poderia existir melhor homenagem à “cidade das acácias”, tendo em conta que o festival se realiza no mês em que a capital é tomada por vários eventos para celebrar o seu aniversário, concretamente a 10 de Novembro”.

Para além do Museu da Mafalala, as actividades dos Poetas D’Alma vão decorrer no Centro Cultural Brasil-Moçambique, no recém-inaugurado parque infantil comunitário, Ka Samorane, no espaço do futuro edifício do Centro Cultural uMunthu que serão marcadas por espectáculos, exibição de filmes, conversas, oficinas de escrita, exposição de pintura, entre outras.

A gala da poesia e artes performativas tem como lema para a terceira edição “O Poder da Oralidade”, cujo objectivo é, segundo o filósofo e crítico literário Dionísio Bahule, celebrar a capacidade móvel e flexível de que a oralidade se alimenta, pois, como justifica, a oralidade “configura o edifício da riqueza acústica do homem por ter no ouvido e na voz seus lugares de recepção”.

Por: Francisco Raposo

 

Mandiega estava sentado em sua residência, quando o secretário passou por todas artérias do bairro da Malata a convocar de forma ligeiramente obrigatória a presença de todos para a cerimónia de inauguração do primeiro e novo banco de dinheiro do distrito.

O senhor camarada, representante governamental do senhor camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador, está a convocar a todos deste bairro e de outros também para, amanhã, testemunhar a inauguração do primeiro banco de dinheiro aqui na vila, pelas sete horas e seu ponto. Na praça dos heróis, para marchar até ao banco.

O homem que convocava, gostava de ver o povo a testemunhar os seus bem-feitos, numa altura em que a luta pela riqueza absoluta crescia.

A informação sobre o banco de dinheiro não chegou bem aos ouvidos das pessoas, principalmente aos do senhor Mandiega. Ele não conseguia imaginar um banco de dinheiro como seria. Seria de madeira? Teria as quatro patas? Será que se a esposa levasse para o rio lavar, o dinheiro-banco não ia se dissolver? Então sugou um pouco mais do seu cérebro invocando imaginação. Chegou à conclusão de que o banco seria sim de dinheiro. Metálico para acrescentar. Seria brilhante na cara e na coroa. Que podia molhar e sustentar o peso de pessoas sentadas. Sentiu-se feliz por dentro, só de imaginar que o banco seria uma estrutura muito pesada, então os gatunos não lhe surripiariam de qualquer maneira. Foi transmitindo a sua ideia de banco aos vizinhos, fazendo-lhe sentir inteligente. Pessoa importante. O que sabe das coisas. Actualizado.

Muito cedo, antes das sete horas, já estava bem vestido de balalaica castanha monocromática. Banhou-se novamente de uma espessa camada de ácidos gordos e se tornou brilhante como metais quando repelem a luz do sol. Já não se conseguia olhar de perto, mas via-se melhor de longe afinando a visão para acudir a intensidade luminosa.

Se sentia em muitos quilômetros o cheiro de gordura. Penteou somente as partes laterais da cabeça, porque no centro já não tinha cabelo nenhum. Saiu sem sequer despedir-se de ninguém de casa. E foi com o intuito de ser o primeiro a chegar a praça. Ficou de conversa afiada com os outros recém chegados em volta do assunto. E ele arrogante, foi disseminando a sua ideia sobre o banco, sua estrutura, até sua forma possivelmente retangular. Próximo do início da marcha já havia se levantado uma grande discussão. Alguém dizia-se saber melhor sobre a bancarisação, desafiando os conhecimentos imaginários do senhor Mandiega.

Em plena marcha, as canções de combate da luta de libertação nacional abriam as almas, descarregando os fardos para as memórias refrescarem de todas lutas. Pela vida, pela riqueza, contra a fome, contra doenças e o contra feitiço. As memórias acrescentam um pouco mais de vitória à história, um pouco mais de tempero para embriagar a vida. Chegado ao banco, os discursos tiveram que demorar. Tudo por conta da poeira das danças tradicionais e outras expressões culturais de festas. Perpetradas por pessoas que nem sequer sabiam de banco. O discurso do camarada senhor representante governamental do camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador, foi lindo, triunfalista e progressor.

O gerente do novo primeiro banco de dinheiro do distrito foi explicando os diversos produtos e serviços do banco. Para surpresa de todos, era tudo diferente do imaginário do senhor Mandiega.

Ele meio envergonhou-se com medo de zombarias, mas não deixou-se levar, queria ainda manter a postura. Começou a fazer questões ligeiras, apalpando as coisas sobre o banco. E enfim, foi esclarecido de forma certa, certeira. E acabou realmente sabendo um pouco mais do tema em detrimento da população presente.

O que mais chamou a atenção do Mandiega durante a palestra sobre o banco foi o crédito. Explicaram-lhe, explicaram de forma convincente que o convenceram da sua importância para o desenvolvimento do distrito. Disseram-lhe, – O crédito somente é concedido a pessoas visionárias e com um plano de progresso. Expressões como essas suscitaram a exaltação da sua postura de importante e foi para casa pensando no que fora dito. Para ter crédito era preciso ter um plano de progresso, um projecto, uma ideia inovadora, nova.

Nos dias subsequentes ele foi criando e recriando as ideias, novas e renovadas, algo grande como seu corpo e que desse jus a carta de pedido. O que lhe deixava tão apreensivo era que, não queria perder de ninguém. Mesmo competindo sozinho, vinha-lhe sempre o medo de perder em segundo lugar. Obrigava-se a ser o primeiro a beneficiar do crédito do banco que não se senta e nem se leva ao rio para lavar. A ideia de ultrapassar os vizinhos que só tinham conhecimento do crédito nos telemóveis lhe deixava fantástico, fantasiador das próprias fantasias.

Mandiega passou dias e noites dando voltas no seu quintal vedado por flores. Esta vedação era-lhe um escudo contra a curiosidade alheia. Contra inimizades. Contra a inveja que surgiria. Contra feitiçarias. Barreira contra um mundo cada dia mais caótico e infeliz. É por isso que sempre que a esposa fritava no óleo vegetal quente era obrigada a fazer dois lumes, um de carvão com o óleo que ficava dentro da palhota e outro de lenha pouco flamejante, com peixe seco que ficava ao relento, no quintal, para enganar as fossas nasais dos vizinhos com a fumaça.

Ele, antigo soldado revolucionário não podia viver assim, envoltado de pessoas que nem sequer conheceram a caneta para poder partir. Nem sequer ficaram perfiladas em fileiras içando a bandeira e entoando o hino nacional. Pessoas que só tinham o conhecimento do ciclo da chuva, tempo de plantar, de colher e de insultar os gafanhotos com a nudez das mulheres em tempos de pragas.

Ao reparar em todos cantos. Pouca coisa vinha da massa cinzenta do senhor Mandiega até que curiosamente, dois pássaros passaram por cima dele, brigando ou brincando, não se sabe direito, ele também não soube dizer ao certo. Os pássaros soltaram os seus dejetos fecais no tecto de palha do vizinho. Isso fez com que ele imaginasse logo um projecto.

Porque no quarteirão ninguém tinha casa de chapas de zinco no tecto, seria uma óptima ideia ser o primeiro a pedir crédito para o seu projecto de melhoramento de infra-estruturas do distrito, que nesse caso era a sua palhota. Eram duas cajadadas com um só tiro, certo. Certeiro.

Não demorou muito, assim que teve a ideia do projecto de pedido de crédito sob o tema “projeto de melhoramento de infra-estruturas do distrito”, correu directamente para ter com o seu amigo dactilógrafo, da geração oito de março de Moçambique. Antes desta coisa de gerações começar a virar. Redigiram com letras uniformes. Visíveis ao olho nu. Meteu o seu expediente ao banco. Em uma semana alguém trouxe a carta assinada pelo próprio gerente. Já estava consumado, já se conhecia a primeira pessoa a se beneficiar de crédito do novo primeiro banco de dinheiro da vila.

Depois de algum tempo as crianças adoptaram uma nova brincadeira, tiravam folha das bananeiras e simulavam dinheiro. Andavam em todo bairro, vestindo a roupa da escola, descalças, gritando – Viva! Viva! Eu tenho credito. Viva! Viva! Ndano maleyapepa. Assim como viram sendo feito pelo primeiro creditado. Enquanto isso a dieta do senhor Mandiega mudou drasticamente. De plantas e peixe sem escamas para carnes, ossos, leite e sangue, gorduras e mais gorduras. Acredita-se que as lombrigas dos intestinos daquela família ficaram muito felizes com esta coisa de crédito.

As águas estavam no mesmo plano, rentes aos bordos da canoa que trazia as chapas de zinco. Antes do início da execução do projecto de melhoria de infra-estruturas do distrito, o secretário passou novamente pelas veias do bairro com um longo megafone. – O senhor camarada, representante governamental do senhor camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador. Informa a todos que virá um ciclone muito grande e vai destruir muitas casas. Guardem comida, velas e água. Amarrem bem as coisas e fiquem em segurança. Informações como essas eram frequentes por conta do caudal do rio em tempos chuvosos, mas não era coisa de tirar o sossego das pessoas. Todos entenderam o mesmo sobre o vento. Seria igual ao que dizem sobre as chuvas, que sempre deviam se tornar cheias. Mas no final de tudo, nada acontece.

Nada podia parar um homem visionário que junto de grandes mestres de obra colocaram a mão no prego e martelo, na chapa e na madeira de tronco forte, de qualidade incomum para uso local. Conseguiu porque o senhor camarada, representante governamental do senhor camarada presidente da república, mas ao nível do distrito, que é o senhor administrador ao receber a carta de pedido de madeira de qualidade para exportação, apenas leu o cabeçalho, projecto de desenvolvimento de infra-estrutura do distrito e assinou sem ler os ombros, as mãos e os pés. Ao pregarem a madeira parte do “matope” seco se desfazia e a infra-estrutura teve de ser maticada novamente e pintada a tinta óleo.

No dia do ciclone todos estavam em casa, conforme as ordens superiores de quem responde pelo presidente da república ao nível do distrito. Perto de meio dia o vento era leve, respirável. Passou para um chuvisco e as crianças banharam nos precipícios das chapas. Na hora vespertina todos estavam dentro, os trovões acendiam todos escombros. Jantaram comida com muito óleo. As árvores estavam a comunicar, cada vez mais rápidas que as coisas mudaram.

O coração começou a bater de medo. As crianças começaram a chorar. A mulher cobriu-as com seu abraço de cuidadora. A coragem elevou-se, o sangue começou a correr muito rápido fugindo do coração. Senhor Mandiega subiu a mesa de madeira e amarrou o barrote que ameaçava voar com as chapas. As paredes recém maticadas se dissolviam a cada gota de chuva. O clima ficou frio de verdade e quente de tensão corporal. Mandiega começou a insultar aos vizinhos acusando de feitiçaria por inveja das suas chapas. Para ele aquilo não era fenómeno natural. Ele viu muita gentes nascer, muita gente crescer e muita gente morrer. Ele viu pessoas deste tempo e do tempo do Caetano. Mas nunca vira nada assim. O feiticeiro devia ter movido muitos “xipokos” para lhe arrancarem as chapas. O vento negava-lhe de abrir a porta, e quando abriu o vento passou a negar-lhe de fechar. Saiu com sal e um terso da Virgem Maria para espantar os maus espíritos, mas nada surtiu efeito. Foi quando decidiu subir ao telhado para amarrar as chapas e associar o seu peso à resiliência do edifício.

Mandiega esquivou tudo em nome da família, em nome do crédito e do projecto de melhoramento de infra-estruturas do distrito. Abraçou muito fortemente as chapas. O vento ia zumbando nos ouvidos em assobios. Fechou os olhos. Sua cara ficou desfigurada pelo atrito. Elevou-se 20 centímetros. Planou junto às chapas para uma breve aterrissagem no cume de uma árvore. Ficou pendurado pela calça até o vento acabar.

Dizem que ele respirou todo vento sozinho. Gritou com todas cordas vocais as canções do desespero até amanhecer. Foi lá, no topo da árvore que viu que todas casas já possuíam as chapas do seu projecto de melhoramento de infra-estrutura. Pensou no crédito e no banco antes de pedir socorro contra a gravidade e a árvore que já não aguentava o seu peso.

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Matope: Lama ou Lodo

Xipokos: almas penadas, fantasmas

Ndano maleyapepa: tenho dinheiro de papel

 

Email: favoritocp@gmail.com

 

Por: Hermínio Alves

 

Em Moçambique não existe uma extensa publicação digital e o termo “livro digital” ou “e-book” é ainda novo entre a comunidade literária no país.

Autores moçambicanos têm publicado livros seguindo o sistema tradicional, no entanto, com o surgimento da pandemia, há flocos de interesse pela publicação digital.[1]

Com a pandemia do Sars-CoV-2, o mercado digital se tornou em uma área de interesse artístico e económico. As restrições de circulação de pessoas, entre outras pronunciadas pelo Chefe do Estado moçambicano afectaram profundamente o convívio artístico e cultural do país, áreas profundamente afectadas pelas medidas tomadas com vista ao combate do Coronavírus foram as áreas das artes e cultura, com isso, houve uma necessidade de adaptação por parte dos agentes artísticos e culturais.

No entanto, essa adaptação tem constituído um grande desafio pela falta de meios práticos para viabilizar os seus objetivos, e quando falo de meios práticos, me refiro às tecnologias digitais.

O uso de meios digitais para execução de eventos artísticos, exposições de artes, lançamentos literários, entre outros eventos artísticos têm sido uma alternativa económica por simplificar vários aspectos ligados à logística.

Mas, a falta de incentivos no campo digital por parte das instituições governamentais torna essa simplificação um tanto obsoleta.[2]

Esta falta de incentivos estende-se até no próprio acto de consumo de e-books. Com a massificação do ensino digital por todo país e em todos graus de ensino, era suposto que os responsáveis governamentais pela educação dessem passos ambiciosos para a consolidação de um modelo de ensino digital e o início de discussões e implementação, de modelos consistentes, reais de acordo com a realidade económica e social das comunidades nacionais, de um sistema de educação digital. Se essas acções se materializassem, o processo de familiarização, comercialização e autenticidade do livro digital seria mais fluído.

No entanto, uma das principais questões do livro digital gira em volta da sua autenticidade, monetarização e acesso a fontes fiáveis.[3]

Por mais que o livro digital seja a fonte primária informal na busca por conhecimento por parte dos estudantes, constituindo a maior cota de títulos acessados por estudante, o processo de aquisição e uso dessas bibliografias passa despercebida pelas instituições de ensino que não possuem um sistema guia de acesso e uso desses conteúdos com vista a evitar que os seus estudantes caiam na desinformação através de acesso a conteúdos piratas de fonte duvidosas.

Contudo, a resistência literária nacional em relação aos desafios, em primeiro, em termos de publicação e em segundo, de consumo deste produto digital tem sido ambiciosa. A abertura para a digitalização iniciada no ano 2020 deu um novo olhar para o livro por parte das editoras.

No entanto, para que este pequeno ganho não se perca, é preciso que se abram oportunidades financeiras no campo comercial do livro digital. É necessário que as editoras vejam oportunidade de um potencial mercado literário no comércio do livro digital.

Com isso, as necessárias discussões em volta do livro digital devem abordar a necessidade de monetarização neste campo pois, há um vasto público, principalmente estudantil que reconhece as simplicidades e benefícios no uso do livro digital. Entretanto, sem um acompanhamento pedagógico, esse público é obsoleto.

 

[1] No dia 14 de Maio de 2020, lanço pela Amazon “na terra que chove para os céus”. Em Abril de 2020 a Literatas lança antologia de contos “Contos e crónicas para ler em casa”. A 24 de Março de 2021, Nelson Lineu faz o lançamento do livro “O passo certo no caminho errado”.

[2] Um claro exemplo são as acções do INC (Instituto Nacional de Comunicações) em relação aos bónus de recarga praticados pelas operadoras.

[3] O livro digital está suceptível à pirataria e alterações do conteúdo original, a não ser que a publicação seja feita em meios seguros internacionais (exemplo da Amazon Kindle). No entanto, essa via entra em choque com as oportunidades de acesso dos leitores nacionais por desconhecerem as formas de acesso a esses títulos e desproverem ou não dominarem os mecanismos internacionais de compra digital.

Farinha Babita é o título do livro do Vice-Reitor da Universidade Macau, Rui Martins. O português viveu em Moçambique entre 1969 e 1974.

 

Ao longo de alguns meses de 2020, o Vice-Reitor da Universidade Macau publicou, neste jornal, um conjunto de 10 artigos. Em julho deste ano, os mesmos textos foram reunidos e editados em livro pela Alcance Editores.

Intitulado Farinha Babita, o livro de Rui Martins constitui um exercício de memória, através do qual o autor narra histórias invulgares de um período da História de Moçambique, através de episódios ligados àquela farinha.

Ao autor, na verdade, o desafio de contar no jornal a origem do nome Babita foi feito pelo Reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão. A ideia era que fosse apenas um artigo. No entanto, Rui Martins percebeu o nível de interesse dos leitores d’O País e resolveu continuar. Quando deu por si, já eram 10 artigos. “Comecei por escrever primeiro em memória ao meu pai o qual esteve na origem da Farinha Babita e assim continuei no segundo artigo, os quais correspondem a uma fase importante da minha juventude passada em Lourenço Marques, agora Maputo, Moçambique, entre 1969 e 1974, mas continuei com outros artigos que essencialmente apresentam estórias interessantes da minha vida ao longo de cinco décadas e até actualidade, passando primeiro por Portugal e depois por Macau, na China, onde resido há cerca três décadas”, lê-se na introdução do livro.

No primeiro artigo de Farinha Babita, constituído por 70 páginas, Rui Martins lembra onde se produzia a farinha: “A fábrica era na Machava (anteriormente só existia a moagem da Matola) e da Socimol, uma sociedade anónima, de quatro sócios, Benjamim Cacho, Inácio de Sousa, António Ferreira e Cabrita Calafate, no meio do mato, nem estrada alcatroada existia, apenas uma picada e uma linha de caminho-de-ferro para transportar o trigo em vagões e posteriormente escoar a farinha. Pode dizer-se que a Socimol era uma pérola no meio do mato, ou uma verdadeira ‘lança em África’, com tecnologia do mais avançado que havia na altura”.

Mais adiante, no mesmo artigo inaugural do livro, Rui Martins escreve: “Após a nossa chegada a LM [Lourenço Marques], fizemos amizade com a família Cacho, nomeadamente, nós, miúdos, com a sua jovem neta, Bárbara Cacho Tavares, que era conhecida pelo nome de Bábita. Ora aí estava um belo nome para a farinha, pelo que em homenagem ao grande empenho do sócio Benjamin Cacho no projecto, e com o grande apoio do meu Pai (e de toda a família), os restantes accionistas concordaram em dar o nome, pelo qual a sua neta era conhecida, à nova farinha. E, assim surgiu a farinha “Babita” há 50 anos atrás, precisamente em 1970! E, continua a ser uma grande honra para a família Cacho Tavares e para a nossa família que o nome se mantenha até hoje”.

Entre os artigos que constituem o livro podem-se ler “Farinha Babita e perus”, “Farinha e electrónica”, “Eusébio, bigodes e Kasparov”, “Farinha no deserto, Soares, Machel e o técnico”.

 

Sobre o autor

Rui Martins nasceu a 30 de Abril de 1957. Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica e obteve o Mestrado, Doutoramento e Agregação em Engenharia Electrotécnica e de Computadores, no Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores (DEEC), do Instituto Superior Técnico (IST), da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), agora Universidade de Lisboa. É  Docente do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores (DECE), da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), da Universidade de Macau (UM), Macau, China, onde é Professor Catedrático de Mérito (“Chair Professor”) desde Agosto 2013. Na FCT foi Director da Faculdade entre 1994 e 1997 e tem sido Vice-Reitor da UM desde Setembro 1997.

 

Por: Edna Matavel

        

Me pairam as lembranças, dos tempos em que o dia não passava, queríamos que a noite fosse eterna, para diante da figueira ouvir as histórias dos nossos avôs e a sua persistência na luta pela sobrevivência diante da pobreza.

Lembro-me como se fosse ontem, quando eu juntamente com os meus amiguinhos de Olombe, isso na província de Gaza, apressávamos os nossos trabalhos para nos reunirmos na casa do senhor Mbendane, o régulo daquela localidade, para brincar o “mbalele mbalele”. Enquanto isso, o karingana ua karingana fazia as nossas noites, com o balançar das árvores e o cântico dos mochos. Acreditávamos na conexão entre esse cântico, a figueira, as estrelas no céu e o som dos tamboresque se fazia sentir, eram noites eufóricas.

Naquela localidade, a vida estava centralizada no trabalho, e pouco se dava importância à escola, os nossos pais diziam para nós que a escola foi feita para as crianças da cidade, a criança do campo devia focar-se no trabalho em prol da sua sobrevivência, e assim crescíamos nós com este subjacente pensamento.

Na altura, eu era o único filho dos meus pais, morava com eles e a minha avó numa pequena casinha de caniço, passei a minha infância brincando na casa do régulo, pois é lá onde haviam os meus contemporâneos. A história de superação daquela família era comovente para mim, que começava a sentir desejo de ouvir a minha. Movido pelo sentimento da vida alheia, pedi a minha avó que contasse a minha própria história, a única biblioteca da minha vida.

Foi num lindo dia de sábado, quando me levantei as primeiras horas para pastorear o gado e de seguida tirar a lenha, fiz tudo com um sorriso estonteante no meu semblante, seria a primeira vez a sentar debaixo da árvore de mangueira e diante da figueira com minha avó a ouvir o marco da minha família.

Contava a minha avó com tristeza no rosto o sofrimento passado, por algum instante quis chorar, mas segurei firme a ouvir até ao fim.

O meu avô paterno, deixou-a com um filho de 1 ano de idade, viajando a África do Sul em missão de trabalho, onde ficou durante anos, até regressar a Moçambique dentro de uma urna para ser sepultado na sua terra natal. Parou de contar a triste história.

Na altura, o irmão mais velho do meu pai, foi convidado a ocupar o lugar que era do meu avô nas minas, e quando chegou o momento de viver uma nova vida num outro país, deixou a minha avó e o meu pai, levando consigo a sua esposa e filhos.

O meu pai era o mais novo e único que continuava na casa dos meus avós, ele tomou a responsabilidade de cuidar da casa e da sua mãe viúva e com idade avançada. Ele era um simples camponês, que dependia das plantações e do gado, uma vez a cada três meses o seu irmão mandava da África do Sul alguns produtos alimentícios, mas estes, não chegavam a cobrir todas as necessidades.

A vida estava cada vez mais difícil, e o meu tio já não mandava absolutamente nada. Muito jovem, o meu pai saiu de Olombe a Maputo a procura de emprego para sustentar a si e sua mãe, na tentativa de procurar por condições favoráveis, conheceu a minha mãe e se envolveram, tendo ela ficado grávida de mim, era muito difícil naquele tempo ouvir-se falar sobre planeamento familiar, usavam mesmo é a fé.

Sem nenhuma fonte de renda em Maputo, e com mais uma despesa, ou melhor, duas, o meu pai levou a minha mãe a Olombe, ela era órfã e morava com os seus tios, não podia abusar da boa fé e ainda carregar uma gravidez para eles sustentarem. De Maputo a Olombe, as refeições sofisticadas foram trocadas por mandioca, batata doce e mais, mas por amor ela suportou.

Foi neste rio de pobreza e dificuldades que eu nasci. Mesmo pequeno, eu conseguia ver o amor dos meus progenitores, a alegria de me ver crescer, quem diria que fosse uma recordação cheia de lágrimas.

Era triste para mim ser o único filho e não ter com quem brincar e partilhar as histórias, era tão doloroso quando me encontrava com os meus amigos e falavam do que faziam durante a noite enquanto os mais velhos dormiam. Mas, o tempo que levávamos durante a tarde cobria o que não podia sentir na calada da noite.

Ríamos das meninas quando trabalhavam arduamente na machamba, enquanto nós arrancávamos os frutos silvestres, quando levavam horas numa fila a tirar água do poço e nós os meninos nos divertíamos com fisga a caçar os pássaros, era divertido para nós ver que as meninas perdiam uma parte das histórias na casa do régulo, para prepararem o milho na palhota que serviria de refeição para o dia seguinte.

Num desses encontros, despertei um olhar solene por uma das meninas, um daqueles olhares que só via no rosto dos meuspais, não quis aprofundar, era muito novo para aquele tipo de sentimento e acreditava que as meninas só ocupavam o tempo dos rapazes, assim como diziam os mais velhos.

O sentimento de desinteresse pela educação permanecia em quase todas crianças daquela localidade. Num certo dia, recebemos visita em nossa casa, desses familiares de Maputo, era o irmão do meu falecido avô com os seus filhos, vinham fazer uma dessas visitas de interesse, era a época da colheita.

Os filhos tinham a mesma idade comigo, se expressavam diferente, eu ficava admirado em ver como desdenhavam a minha forma de comer e falar, olhavam as minhas vestes como trapos para limpar o chão, pensavam se calhar que sofria de distúrbios mentais, mas era a pobreza que me fazia perder o juízo e parecer demente.

Os filhos de Maputo, como foram apelidados em Olombe. Toda atenção estava voltada a nossa casa, numa localidade como aquela, quase todo mundo se conhecia, e não tardava a notícia de que recebemos visita a se espalhar, é como se tivéssemos recebido um desses artistas de Hollywood.

Depois de eles regressarem ficou a curiosidade, minha mãe cresceu em Maputo, e conseguiu captar algumas expressões e explanou a mim, ela disse que aquele era o comportamento da civilização e a linguagem que eles usavam era dos portugueses, os nossos colonizadores, era preciso acesso ao ensino para aprender a falar em Olombe.

Comecei a ter interesse pela escola, mas o meu pai disse que não era hora de pensar em escola porque eu tinha que cuidar do gado, assim como faziam os outros rapazes, e a escola ficava quilómetros de distância da nossa aldeia. Eu não podia escolher, continuei com minha ignorância.

Anos depois, o meu pai recebeu um convite do seu tio para ir à Maputo, mas a minha mãe estava grávida do segundo filho, foi uma alegria tão grande para mim, e foi mais um motivo para o meu pai enveredar pelo caminho que lhe conduziria a um emprego em Maputo.

Quando fez a viagem e lá chegou, residiu na casa do seu tio e conseguiu um emprego como segurança, trabalhou bastante, e as coisas já iam melhorando, mas depois de algum tempo adoeceu e precisava regressar a Gaza para ser cuidado pela sua mãe e esposa. Naquela toda maratona, a minha irmã nasceu, era uma mistura de sentimentos, onde lutávamos pela vida do meu pai, e mais um membro chegava na família.

Meu pai recebeu tratamento dos médicos tradicionais da localidade, minha casa parecia um desses hospitais, era um entra e sai, tínhamos de dividir a pouca mandioca com os visitantes que ficavam até altas horas, enquanto rezávamos.

Graças aos cuidados e sem esquecer de Deus, ele convalesceu. Não sei o que terá acontecido durante a sua estadia em Maputo ou durante os dias em que esteve doente, mas uma das primeiras coisas que fez depois de retomar a sua vida normal, foi me matricular na Escola Primária de Olombe, já com os meus 11 anos de idade. Para mim, não importava o tempo perdido, na verdade, não tinha noção do que era o tempo. Confesso que nos primeiros dias, era tudo tão incrível e movido pela emoção, gritava em quase toda aldeia “obrigado “, era a única palavra nova que tinha conseguido interiorizar até então.

Eu era apenas um menino cheio de sonhos, que mesmo diante de dificuldades e daquele mato conseguia sonhar, o pouco que aprendia na escola eu partilhava com os meus amiguinhos. Mas, o duro de ser mulher no campo é viver para a enxada e deixar que os homens se interessem pela escola e pelas contas.

Com o nascimento da minha irmã, as despesas aumentaram, os meus pais não conseguiam ter controle de tudo e a minha avó era tão velha que dependia do pouco dinheiro que recebia da pensão por velhice, não cabia nem para comprar um saco de arroz. Por vezes, as nossas refeições não gozavam dos ingredientes propícios, bastava a água e o sal que conseguíamos comer enquanto esperávamos pelo dia do amanhã.

Era mais doloroso para os nossos pais tamanho sofrimento, eu tinha que madrugar para ir à escola sem nenhuma refeição, e ainda ter de voltar e cuidar do gado, a minha avó achou melhor eu interromper os estudos, mas eu não concordei, mesmo sentido que o corpo não aguentava eu queria ser diferente e mostrar o melhor.

Eu costumava ir aos encontros dos donos das terras com o meu pai, e num destes encontros, ele falou com o seu amigo o que estava passando, e ele falou sobre o país vizinho África do Sul, que era a solução para muitos moçambicanos desempregados, mas a história da sua família com este país não era agradável, tanto que disse preferia ficar em Olombe a ir a terra que lhe roubou o amor de pai e irmão.

Depois daquela conversa, o meu pai vivia pensativo, eu nunca pensei que a pobreza perturbasse tanto assim, aprendi com o comportamento do meu pai, que já nem conseguia dar a devida atenção a minha mãe.

Minha alegria em ver a minha Olombe sorrindo para mim, com aquele verde sem fim, o ananás que dava brilho ao nosso quintal e a massala que se duplicava a cada época, faziam-me sentir o menino mais feliz, e com a chegada da minha irmazinha foi uma alegria sem precedentes.

Os dias corriam tanto, e o meu pai precisava criar estratégias para a nossa sobrevivência, e a única solução mesmo era a terra do rand, naquele instante foi bom para nós, acreditávamos que as coisas melhorassem, com refeições atípicas das que costumávamos ter, e seríamos mais prezados na localidade.

Pensei que pudesse aproveitar mais o amor e carinho do meu pai, a maior tristeza ou alegria naquele momento era a terceiragravidez da minha mãe, motivo para o meu pai procurar emprego o mais rápido possível. Ele disse para mim e minha irmã que voltaria, só ia trabalhar para garantir a nossa estabilidade financeira e termos também a civilização das crianças de Maputo.

Chegou então o dia esperado, depois de meses sem cair chuva, naquele mesmo dia o céu ficou nublado que até os mochos não se faziam sentir, não sei se direi que era um sinal de despedida, que sentiria a dita saudade proferida pelas pessoas de Maputo. Era a vez do meu pai seguir viagem rumo a África do Sul, vulgo terra da sobrevivência em Olombe.

Como se de ontem se tratasse, era um domingo pouco comum, nas primeiras horas, em que quase todas famílias estavam descansando em suas casas, havia grande chuva e relâmpagos, todos nós acreditávamos que era o melhor tempo para se ter os sonhos mais profundos, o barulho da água de chuva e trovoada davam mais gosto as histórias de família e reunia-as.

Outras famílias sentiam esse momento bom, eu e a minha família ajudávamos o meu pai com as malas para a viagem. Imediatamente, a minha avó saiu da nossa casinha a palhota que ficava do lado de trás da casa juntamente com o meu pai para fazer algumas orações a pedir proteção dos espíritos da família e de seguida deu-lhe um frasco que continha o tal remédio da sorte, agradeceu profundamente com os olhos avermelhados a sua mãe.

Saindo eles da palhota, encheram-se de abraços, coisas raras para os machanganas de Olombe. Fiquei comovido com aqueles abraços calorosos que os meus pais trocavam, e os beijos acompanhados de lágrimas que escorriam até aos seus lábios, senti o amor deles de perto, que acabei pegando na mão da minha irmã para nos juntarmos num só abraço de despedida de família. Como se de uma coisa tivéssemos certeza, seria uma eterna nostalgia.

Prometeu a minha mãe que voltaria em breve, para que o bebé que ela carregava no ventre nascesse num ambiente diferente.

Por conta do mau tempo que se fazia sentir, somente eu pude acompanhar o pai até a estação, já que era o único homem. Durante a caminhada rumo ao destino, os conselhos de um pai que deixava a sua família em busca de trabalho, fizeram-se a mim. Estava claro naquele momento que eu passaria a ser o homem da casa, responsável pela segurança da família, eu tinha que ir à escola e cuidar do gado, sem esquecer das outras actividades que eram geridas pelo meu pai. Esperei até que o comboio partisse para de longe levantar os braços e dizer, até breve, pai.

Naqueles primeiros dias, a emoção de ter que fazer o melhor na qualidade de bom filho era grande, queria dar orgulho e receber o devido mérito quando o meu pai regressasse à Moçambique.

Os meses iam se passando e as ligações constantes de preocupação e saudade eram demasiadas, mas ainda não tínhamos alcançado o objetivo final.

Com a viagem do meu pai a África do Sul, o paladar conheceu novos sabores alimentícios, já não comíamos de forma repetitiva os produtos produzidos na nossa machamba, vezes enquanto tínhamos refeições que nos faziam esquecer a pobreza, minha mãe teve força de vontade para carregar a gravidez. Até o meu irmão mais novo completar 1 ano de idade, recebíamos mantimentos do país vizinho, mas a saudade já era maior.

Eu tive de interromper os estudos sem nem ter feito uma classe significativa, precisava me dedicar ao trabalho, em Olombe não se tinha uma idade definida para poder tomar certas responsabilidades, o facto de ser homem bastava.

Quando o meu irmão nasceu, fiquei muito feliz, não via a hora dele crescer para me ajudar no pasto, sem inferiorizar o trabalho da minha irmã, não podíamos ignorar as plantações movidos pelos encantos dos alimentos vindos da África do Sul.

Passaram-se três anos e o contacto com o meu pai regredia, é como se de certa forma estivesse nos esquecendo, continuávamos a acreditar que o trabalho o ocupava muito. Para ele, os alimentos que mandava cobriam a saudade que sentíamos, sempre que ligávamos dizia estar ocupado e que ligava de volta, e terminava sem ligar, era triste para mim e meus irmãos.

Na medida em que o tempo ia passando, o contacto desmoronava, e os mantimentos já não chegavam com frequência, voltamos ao nosso humilde mata-bicho com a mandioca, batata doce acompanhados de um chá simples de sabor da água do poço, e ao jantar, com a nossa cacana, feijão-nhemba, o arroz constituía uma novidade para nós, sem contar os dias em que dormíamos apenas com uma única refeição.

No coração da minha mãe existia uma esperança de rever o seu marido em breve, mas enquanto ela enchia o seu coração, o meu pai deixava de entrar em contacto. É como se o vento lhe tivesse soprado, ficávamos ao telefone para ver se ele ligava às horas habituais, e nada dele, foram os dias mais tristes dos que estavam por vir.

Os anos passavam como vento, e o meu irmão crescia sem amor de pai, questionava o seu paradeiro e a única coisa que minha mãe conseguia dizer era que voltaria, estava atrabalhar. Em toda época de quadra festiva nós aguardávamos por ele para a transição do ano, mas nem um sinal dele, tornou-se incógnita.

Lembro-me de um ano, nessa mesma época festiva, em que por intermédio de um vizinho que também trabalhava na África do Sul mandou uma encomenda, e quando perguntámos se ele não voltava, a justificativa era a mesma de que aquela era a melhor época para trabalhar, não podia vir. O mais incrível foi que aquela era a última encomenda que recebíamos dele.

A tristeza da minha mãe em ter que cuidar dos filhos sem ajuda do seu marido, e ainda a sobrecarga de cuidar da sogra,a única coisa que lhe mantinha naquele lar, eram os filhos, pois aos poucos ia se conformando de que havia perdido o seu marido. A sua irmã mais velha chegou a entrar em contacto como forma de persuadi-la a regressar a Maputo, para ter um rumo a sua vida e ela recusou-se por amor aos filhos que já eram desprovidos de amor do pai.

Continuamos nós com a nossa humilde vida, eu contava para os meus irmãos como era a vida antes do nosso pai viajar, e o meu irmão mais novo se recusava a ouvir tais recordações, ele dizia não ter pai.

Geralmente, assistimos na época de quadra festiva o regresso de muitas famílias refugiadas naquele país e era extremamente comum na nossa localidade. Foi num dia 24 de dezembro, quando uma voz profunda gritava hoyo hoyo (bem-vindo), era uma localidade calma difícil de manter o sigilo, saí a correrpara a estação, pensei que seria desta vez, mas não, voltei a casa todo cabisbaixo, e a minha avó pediu-me para ser forte pela minha mãe e meus irmãos. A minha mãe estava do outro lado da casa derramando lágrimas de saudades, é como se o amor lhe estivesse matando lentamente. A minha avó olhava para nós com tristeza, mas amava tanto a nossa mãe que lhe dava esperança e segurança.

A partir daí comecei a odiar este país, acreditava que roubasse o amor das pessoas. Decidi ir à casa do régulo no mesmo dia, para falar com o amigo do meu pai que também trabalhava lá, ouvi ele a falar da tal Tembisa, famosa casa dos machanganas na África do Sul, fixei esse nome e um dia cheguei ao ponto de pensar em fugir de casa para saber o motivo que fez ele nos abandonar. Mas eu não podia deixar a minha mãe, os meus irmãos e a minha avó.

Passaram 9 anos, e consequentemente o meu irmão mais novo também completava a mesma idade, e nunca conheceu o nosso pai. As senhoras de algumas aldeias costumavam ir para sondar se o meu pai já tinha regressado, outras com olhar de pena e outras de zombaria confortavam a senhora minha mãe, já éramos filhos abandonados.

Algumas pessoas já sabiam o que estava acontecendo com omeu pai, e numa dessas conversas no campo, ouvi que ele tinha uma outra esposa e filhos, acreditei que no fundo a minha avó já imaginasse. Foi uma consternação para mim, mas decidi não comentar nada em casa. Depressão é a palavra correcta para designar o que minha mãe estava a passar, como se o centro da sua vida fosse o marido, era difícil se conformar que ele não queria voltar, e trocou a sua família em Olombe pela família sul africana.

A minha avó, tão velhinha sua única satisfação era ver os netos crescerem, e mesmo com a idade avançada não deixava de nos ajudar na machamba. Por algum momento, culpei a elapelo abandono do nosso pai, mas eu percebi que ele prosseguiu como melhor entendeu.

Em cada ano, a seca, a fome fazia-se sentir e eu tinha de tomar providência, o gado já não estava sendo rentável, sobrevivemos graças à uma força suprema. Eu costumava ficar altas horas no mato, a sobreviver com os frutos silvestres, enquanto pastoreava o gado, sem saber o que poderia acontecer no meio daquele nada.

A notícia de que o meu pai tinha outra esposa e filhos não tardou a chegar aos ouvidos da minha mãe e mesmo assim, ela decidiu esperar e cuidar de nós os filhos, o amor estava segando a sua visão.

Tudo a nossa volta lhe remetia ao passado vivido com o meu pai, o que so trazia mais desgraça, ela entrou outra vez em depressão, a sua irmã já tinha aconselhado a voltar para Maputo, mas a esperança lhe mantinha sempre lá.

Passaram dias e noites e nada do meu pai, num certo dia, enquanto eu estava cuidando do gado na mata e a minha irmã na machamba, ouvi gritos do meu irmão mais novo, que me encheram de medo, era ainda muito cedo, ele corria todo preocupado e com lágrimas no rosto, aproximei para saber o que estava a acontecer e ele disse que a nossa mãe tinha ido embora, não aguentava mais levar a vida em Gaza. Deixei o gado e sai a correr, a minha irmã já estava lá molhada de lágrimas, nossa casa ficou triste, era tão pequena que se conseguia notar a ausência de qualquer coisa, fui ao quarto para me certificar, e realmente ela tinha ido embora. Olhei para os meus irmãos, eu não podia chorar, tinha que lhes transmitir segurança, pesou-me a consciência saber que perdemos o amor do nosso pai e de seguida a nossa mãe nos abandonou, como se de nós estivesse a fugir, tentei entender o lado dela, mas nenhuma mãe tem o direito de abandonar os filhos por mais duras que sejam as dificuldades enfrentadas.

Foi um dia muito doloroso, não tínhamos o nosso pai por perto, mas tínhamos o carinho da nossa mãe que conseguia cobrir este vazio, ali só estávamos com a nossa avó. Foi a única que mesmo doente cuidou de nós, educou-nos a seguir o caminho da luz. Seguimos a vida, e nos conformamos com a realidade.

Eu precisava procurar emprego para sustentar a minha família, decidi viajar a Maputo, eu me tornei pai dos meus irmãos.

Tive a benção e apoio da minha avó, ela tinha um dinheiro guardado e deu-me para poder me virar assim que chegasse a cidade. Viajei numa terça-feira, sem nem saber por onde começar, onde ir, e com quem ter, era somente eu, mas as dificuldades da vida me fizeram enveredar por um caminho livre de temor.

Quando cheguei pela primeira vez a capital, olhei para tudo estranhamente, às luzes e os carros que circulavam de um lado para o outro, era tudo uma novidade para mim.

Cheguei então a terminal dos transportes rodoviários na junta, e a única coisa que eu disse naquele momento foi, Deus me ajude. No mesmo dia, passei a noite ali mesmo no parque deitado num dos bancos e acabei conhecendo um jovem de Inhambane, vendedor ambulante, foi quem me instruiu, passei a vender pipocas, correndo de um lado para o outro, de carro em carro para ver se conseguia vender alguma coisa, e continuava a passar a noite nos bancos da junta.

Lembro-me de um dia em que fui assaltado, mas sobrevivi, perdi praticamente tudo o que tinha conseguido, tive que passar a lavar carros e por vezes não conseguia ganhar nem 50mts. O jovem que conheci, foi quem me levou para a casa onde estava a arrendar, enquanto me recuperava. Levantava muito cedo para me fazer a rua, consegui ganhar alguma coisa para mandar a Olombe, comprei açúcar e outras coisas de extrema importância, entreguei a um motorista que fazia a rota Olombe-Chissano.

Fiquei três meses sem ir a Olombe ver minha família, recebi notícia de que a minha avó estava muito mal, e o meu irmão tinha se tornado num menino rebelde e arrogante, vivia caluniando a minha avó, culpando-a pelo sofrimento e peloabandono do nosso pai, chamava-a de feiticeira, foi uma tristeza enorme para mim saber que o meu irmão faltava com o respeito a única pessoa que esteve sempre por perto.

Precisava tomar uma providência e voltar a Olombe, e assim o fiz. Viajei uma semana depois, e quando lá cheguei, a situação estava crítica, minha avó estava lutando pela vida, e a minha irmã mesmo nova tinha que cuidar dela e por vezes dar-lhe banho, e com o meu irmão insolente, só piorava a situação, minha irmã envelhecia com pouca idade por conta do trabalho duro no campo.

Acompanhei de perto o comportamento possessivo do meu irmão, era desgastante, eu me perguntava se o facto de não ter crescido num ambiente de amor e educação paterna teria influenciado. Antes de voltar a Maputo, pedi que tratasse com reverência a nossa avó, e ele disse que não podia respeitar uma velha feiticeira que gerou um filho que abandonou os seus filhos.

Durante a noite, decidi ir ficar do lado de fora a ponderar, fiquei deitado olhando as árvores para ouvir o cântico dos mochos que outrora não ouvia em Maputo, enquanto eles dormiam, eu continuava a ouvir o cântico das aves escondidas nas folhas verdes daquele mato, aquilo me remetia a saudade dos tempos que os meus pais estavam juntos eu ainda miúdo, e gostava de transmitir aos meus irmãos antes de voltar a cidade para que vivessem em harmonia.

Aquele som parecia estar em comunicação com a clarividência das estrelas no céu, decidi entrar para me recolher, tinha que seguir viagem.

Acordamos no dia seguinte, despedi-me por volta das três horas com promessa de voltar em breve, mas a minha avó estava padecendo, olhou-me estranho, como quem nunca mais pudesse me ver.

Cheguei a Maputo estava tudo bem, trabalhei como vendedor ambulante, por vezes chegava a baixa da cidade caminhando enquanto vendia, tive um pouco de esperança de reencontrar a minha mãe, mas na grandeza daquela cidade, não sabia nem por onde olhar e começar a procurar.

Não se passaram dois meses, ligaram-me de Gaza a informar que a minha avó tinha perdido a vida, chorei tanto, senti-me sozinho e a maior tristeza era como estavam os meus irmãos.

Viajei imediatamente a Gaza com os poucos recursos que tinha, quando a irmã da minha mãe soube, também seguiu viagem. Cheguei e encontrei os meus meninos desamparados, no dia seguinte sepultamos a nossa avó, a realidade da solidão veio à tona, não podia deixá-los sozinhos, até o mais novo percebeu a importância que a nossa avó tinha nas nossas vidas, ela lutou por nós até aos confins da velhice.

Não nos restava nenhuma alternativa a não ser esperar que alguém decidisse cuidar de nós, a minha tia foi quem levou a minha irmã e o meu irmão para viverem com ela em Maputo.

Abandonamos a nossa casinha de caniço, com aquele quintal enorme difícil de encontrar nos subúrbios da cidade de Maputo, é como se a nossa história em Olombe estivesse a morrer, a nossa casa ficou de luto e vazia, nos sentimentos órfãos mesmo conscientes da existência dos nossos pais.

Não foi fácil para eles se adaptarem a vida na cidade, a minha tia matriculou-os numa escola primária, isso no bairro do aeroporto, enquanto eu lutava com a renda na casa onde vivia.

Eu sempre ia fazer uma visita aos fins de semana, e o meu irmão chorou para mim dizendo que não queria mais voltar a escola porque zombavam dele, e não tinha domínio da língua portuguesa.

Num desses dias enquanto perambulava, encontrei jovens a debruçarem sobre um assunto que me encheu os ouvidos, aproximei e falavam de um senhor que abandonou a família para começar a vida no estrangeiro, fiquei surpreso, descobri que mesmo as pessoas da cidade e bem-sucedidas eram abandonadas.

Depois de anos, a minha mãe decidiu aparecer, e para a nossa surpresa tinha conhecido um outro homem com o qual tiveram filhos, mas não podia nos levar juntamente com ela porque não éramos filhos do seu actual marido.

Mesmo sabendo que estávamos por perto e precisando do seu apoio, preferiu deixar-nos nas mãos de sua irmã para não perder o seu lar.

Minha tia, sem filhos, cuidou dos meus irmãos com amor e deu educação como se fossem dela, mesmo quando a minha irmã ficou doente foi ela quem cuidou dela e a minha mãe ficou indiferente.

A minha tia convidou-me para passar a viver com ela, e eu aceitei, e com o pouco que ganhava consegui ajudar nas despesas da casa.

Confesso que vivemos dias alegres, como se de certa forma nunca tivéssemos nos sentido desamparados, a nossa tia era a melhor para nós, nunca se deu ao luxo de ligar para a nossa mãe e reclamar, por vezes esquecíamos que ela existia, a nossa tia ensinou-nos como devíamos nos portar e tinha orgulho de nos apresentar aos seus amigos como filhos, meu irmão conseguiu se adaptar na escola e fez algumas amizades, a cada dia melhorava o seu comportamento, e as notas na escola eram boas. A minha irmã, tão humilde, nunca foi de fazer amizades, sempre fechada no seu canto, pediu a nossa tia que lhe mostrasse a porta do altar de graças e começou a congregar numa igreja perto de casa, enquanto eu seguia bem com o meu negócio.

A luxúria domou o coração do meu pai, enquanto ele levava uma vida digna na África do Sul, nós lutávamos por um pão e passando por necessidades, pouco deu importância, nem o desaparecimento físico da sua mãe foi capaz de lhe trazer de volta a casa.

Minha tia conseguiu um celular para mim, e comecei a usar as redes sociais. Enquanto navegava no facebook, deparei-me com um apelido idêntico ao meu, quando investiguei a fundo, descobri que se tratava da minha irmã sul africana, quando entrei para ver o seu perfil, vi fotografias do meu pai em família, fiquei sem saber como agir, chocado e sem forças.

Nós implorávamos pelo seu amor, e ele distribuía sem cessar aos filhos que considerava. Fui contar a minha tia e ela achou melhor guardar segredo, meus irmãos estavam felizes que não podia lhes estragar o momento. Foram tantos aniversários solitários, que não queríamos muito a não ser ouvir felicitações dos nossos pais. Fomos crianças da prole desprovida de cuidados e amor paterno.

Depois que a minha avó foi sepultada, nunca antes tivéramos visitado a sua campa e a nossa humilde casinha, minha tia decidiu levar-nos para lá, por mais que tivéssemos seguido um caminho diferente e feito nossas próprias escolhas, as nossas tradições nos pertenciam.

Viajamos então a Gaza, quando lá chegámos, a nossa Olombe parecia triste, tudo mudado, o nosso quintal descuidado e com as folhas das árvores que caiam no chão, parecia uma floresta, e a nossa casinha foi demolida pelo vento, tivemos que passar a noite na casa do senhor Mbendane.

No dia seguinte fomos à campa da vovó, chorei muito ao lembrar de tudo que passamos juntos, e desta vez os meus irmãos é que me transmitiram as energias positivas.

Quando regressamos a Maputo, decidi procurar novamente a jovem, mas não foi fácil a comunicação porque ela falava inglês e zulo, tinha de usar o google tradutor, tive mais certeza de que se tratava da minha irmã, mas eu fui ignorado. Fui muito persistente, a última vez que tentei falar com eles, disseram-me para não ocupar o seu tempo porque eu era um desconhecido.

O nosso próprio pai, aquele que nos jurou amor, e pela vida que seguiu a levar na terra do rand, não aceitou a paternidade por sermos pobres. E a nossa mãe escolheu o seu lar a ficar com os filhos, incontáveis vezes ela pediu que não ligássemos para ela porque o marido não gostava, como se estivéssemos vivendo graças ao seu suor. Sempre acreditei que um dos quadros mais importantes e magníficos no mundo, era de ver os pais participarem ativamente em cuidar dos filhos, mas os meus pais fizeram-me ter uma visão diferente.

Por vezes víamos famílias constituídas por filhos e pais na nossa vizinhança, tínhamos motivos para nos tornarmos invejosos, mas, em resultado dos nossos esforços nos tornamos livres para entender as escolhas alheias e nos inspirarmos pelas coisas positivas que enxergamos nos outros.

Lutei para que o meu negócio crescesse, e pela saúde psíquica dos meus irmãos, não podíamos deixar com que o passado roubasse a alegria que podíamos construir com o nosso esforço. Foi difícil esquecer que um dia tivemos alguém para chamar de pai e mãe, mas o verdadeiro amor não traz consigo insistência, recebemos o carinho da nossa tia, o seu amor insubstituível, os seus conselhos sábios nos edificaram para nos tornarmos seres incríveis, ela assumiu o papel que a nossa mãe deveria ter assumido, e quanto a nossa família paterna, não sabemos o que diremos, a nossa avozinha partiu com a nossa identidade, foi a única família que realmente tivemos.

São apenas recordações calorosas da minha terra, do grito dos mochos que se faziam sentir diante daquele mato, a vida nos tirou a nossa alegria naquele mato para nos dar a oportunidade de conhecer a beleza dos subúrbios de Maputo. A minha Olombe foi esquecida, mas no meu coração encontrou uma moradia.

Por: Albino Macuácua

 

A leitura desta antologia que sintetiza o conjunto das obras dos 35 anos de produção literária de Armando Artur devolveu-me, à primeira, às reflexões baumgartenianas. No século XVIII, Baumgarten teria fundado a ciência das sensações, ou seja, a estética, sob uma reflexão filosófica antes inexistente, com o objectivo de estudar o belo, cuja finalidade é a perfeição do conhecimento sensível. A emancipação do belo (ou, se quisermos, do estético) como o ponto mais alto do sensível e, por inerência, dos sentidos e suas sensibilidades acontece com a separação entre o belo, que resultaria da combinação das nossas representações, e obem, que constituiria o utilitário ou, por outras palavras, o ético. Esta cisão, no meu entender, estritamente teórica, é igualmente reforçada pela revolução científica e tecnológica e pelo desenvolvimento da ciência experimental que, até então, se arrastava, o que dá maior autonomia, em termos científicos e até filosóficos, ao campo das artes.

Ora, num primeiro momento, a poesia de Armando Artur parece suspender a realidade objectiva, aliás, para mim esta não é uma poesia de visão plástica como seria, por exemplo, a poesia de Cesário Verde e parte da poesia de José Craveirinha,e isto sustentaria, deste modo, o lirismo e o belo puros, baseados na visão de Baumgarten. Porém, logo a seguir emerge, entre as fissuras que as palavras e expressões contêm,um mundo social diverso que situa os poemas de Armando Artur entre o que se convencionou chamar arte desinteressada (quatro décadas mais tarde defendida por Immanuel Kant no seu livro Crítica da Faculdade de Julgar) e arte militante ou engajada.

Para a minha segurança, ao ler O Rosto e Tempo, pareceu-me mais fácil começar por tentar esclarecer os conceitos inscritos nos termos rosto e tempo. De resto, no poema intitulado “O Rosto”, desta antologia, o poeta refere-se ao rosto e ao tempo e à sua relação quase que denegada, dizendo o seguinte:

“O rosto e o tempo

Cruzam-se num espelho

Rachado. E dialogam.

É uma conversa de surdos.

O rosto e o tempo divergem

Na mesma vertigem do absurdo.

Ambos não se reconhecem.

[…]”

(Artur, 2021, p. 117)

Existe, entre estes, um espelho rachado”, mediando as experiências da vida, metonimicamente representadas pelo rosto e que discorrem pelo inexorável tempo. Este rosto surgecomo a parte visível da acção do tempo que o sujeito poético parece não aceitar ao invocar o espelho rachado. Então, que rosto e tempo são estes?

Na entrevista concedida a Lucílio Manjate, o poeta Armando Artur define [o] tempo como “o lugar, o invólucro, onde o ser se realiza em busca da sua essência” (Artur, 2021, p. 53). O tempo, uma categoria importante na filosofia existencialista, cobre tudo, cobre o ser, transfigurado, no caso desta antologia, em rosto que, em última instância, é o Homem, que se constrói e se busca permanentemente, o Homem que consiste num projecto. É o tempo da correlação passado, presente e futuro, é o tempo em que estamos todossubmersos, é o tempo a que estamos sujeitos, é o tempo comoo eixo estruturador das nossas possibilidades como seres humanos.

E o rosto? Este equivale à facticidade, ou seja, é o que de facto é. Portanto, o rosto, sujeito ao tempo, é aquilo que é, e, como já o dissemos, representa o ser humano nunca acabado eque se foi esculpindo a partir experiências ao longo do tempoou de um tempo.

Esta relação entre o rosto e o tempo explica, por um lado, os 35 anos de actividade poética de Armando Artur. Temos, objectivamente, o rosto que é o poeta e o tempo que é o período que esta antologia procura sintetizar. Por outro lado, esta relação é parte do que fundamenta e caracteriza a poesia de Armado Artur, que procura compreender o homem na sua totalidade, na medida em que o considera um ser de possibilidades, ao demonstrar os diferentes matizes da sua existência num “transbordamento do humano” [expressão emprestada do poeta (numa entrevista conduzida por Jorge de Oliveira e Marcelo Panguana) em afirma que a sua poética procura abarcar a vida em toda a sua extensão e densidade].

Trata-se de uma poesia que explora a relação do Homem com o amor (ao retirar homem da condição de utensilidade), a relação com o outro, num acto de intersubjectivação, a relação com a morte, mas não como o fim absoluto das possibilidades do homem. Estas todas relações, Armando Artur fá-las como que de forma naïf, através de poemas, em geral, breves, mas de grande carga poética, recorrendo a uma linguagem simples, alheada de rodeios e que redimensionam os signos, cujos sentidos estão, por um lado, virados para si, fundamentando o papel primeiro e tradicional da poesia, ao construir realidades tendencialmente mais abstractas e conceptuais.

Por outro lado, Armando Artur explora a palavra que aponta para o que é exterior, para a realidade social ecircundante que o inquieta e que também lhe provocaadmiração através de coisas pequenas e simples na sua essência como as pedras, a areia, as folhas das plantas e das árvores, a infância, a luz, etc., numa busca permanente de simesmo. É o subjectivo que redimensiona e sustenta o objectivo; e os olhares subjectivos presentes nesta antologia são formas de engajamento, pois nunca são isentos, sobretudo quando toda a tentativa de isenção é já um exercício tácito de engajamento. Um exemplo disso é o seguinte poema:

Reabitámo-nos

com desvelo e desencanto

e estrangeiros de nós próprios

imigrámo-nos.

Ser ou não ser

agora pouco nos importa.

O destino que parte

e se reparte

eis o nosso desassossego.

(Artur, 2021, p. 87)

É nisto que Armando Artur, na sua obra, persegue as questões do ser, da sua existência, da sua construção, por entender que tais se referem à compreensão do homem, à compreensão do que somos e à compreensão da nossa essência. Por isso, não é imprudência nenhuma afirmar que a sua obra se caracteriza, em grande medida, por um humanismo que correlaciona a fragilidade e grandeza do homem, tal como atestam os seguintes poemas:

Infância

Sempre o mesmo desejo

de voltar às praias

da infância:

argúcia dos dedos na areia

alegria dos olhos na espuma…

mas como voltar aos trilhos

apagados?

e como voltar às fontes

incendiadas?

(ao invés deste desejo

eis-me espiando o futuro)

que nunca vivo!).

(Artur, 2021, p. 65)

E para que o nosso sonho renasça

com a levitação do vento e do grão

eis-nos aqui de novo,

passivos como os espelhos,

no tear da nossa existência.

(Artur, 2021, p. 95)

(pragmatismo existencial)

«O amanhã! o amanhã!…»

com esta obstinação

aprendi a esmagar o tédio,

o medo e a angústia

e juntei-me à caravana

dos que ateiam archotes

ao meio-dia!

(Artur, 2021, p. 67)

Aliado a esta dimensão existencialista e, por isso, humanista, a poesia de Armando Artur é uma poesia das essências das coisas. Não é uma essência predefinida, mas a que torna o Homem homem, se entendermos que “tornar-se” implica transformações incessantes à busca do que somos.

Esta questão das essências (ou quintas-essências) devolve-nos ao início, ou seja, à questão do rosto e do tempo, na medida em que o diálogo entre estas categorias nos mostra que a essência, além de estar sujeita ao tempo, é por ele estruturada.

Em suma, poesia de Armando Artur é uma morada do ser. Esta asserção é baseada em Martin Heidegger que, no livro A Caminho da Linguagem (2003, p. 121), afirma que a linguagem é a morada do ser e é a essência do homem, e os guardiões desta morada são os pensadores e os poetas. Portanto, estará subentendido, nestas palavras, que a literatura, que é uma forma de linguagem, é igualmente uma morada do ser, e a poesia de Armando Artur é um claro exemplo disso.

Para terminar, leio um poema dedicado aos poetas, um poema sobre o papel dos poetas, sobre a essência dos poetas e, sobretudo, sobre o homem que os poetas devem ser:

Aos poetas

Levamos connosco a memória

colectiva da terra e dos homens.

Somos os que acendem archotes

não para verem a Lua em pleno dia,

mas os contornos do mar e da leveza da espuma.

Sabemos de cor o rumor do sangue

e a chama da sede que queima de longe.

Somos os que conhecem por dentro

o murmúrio das horas e a respiração das pedras

em noites de estio.

(Artur, 2021, p. 109)

Obras/autores citados

ARTUR, Armando. (2021). O Rosto e o Tempo. Maputo: Alcance Editores.

BAUMGARTEN, Alexander, Gottlieb. (1993). Estética: a Lógica da Arte e do Poema. Tradução de Mirian Sutter Medeiros. Petrópolis: Vozes

HEIDEGGER, Martin. (2003). A Caminho da Linguagem. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schubak. Rio do Janeiro: Vozes.

.Texto apresentado na cerimónia de lançamento de O rosto e o tempo, de Armando Artur, dia 27 de Outubro de 2021.

O Centro Cultural Português em Maputo, em cooperação com o Centro de Língua Portuguesa na Universidade Pedagógica de Maputo (UPM) e a Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da UPM, promove, entre os dias 27 de Outubro e 10 de Dezembro de 2021, a 18.ª Edição do Prémio Eloquência Camões.

Dando continuidade ao modelo seguido nas edições anteriores, o Prémio Eloquência Camões 2021 desenvolver-se-á em três momentos.

Numa primeira fase, que decorrerá entre os dias 27 de outubro e 21 de novembro, serão aceites e selecionados os melhores textos argumentativos/discursos produzidos por estudantes universitários inscritos em cursos de licenciatura.

Numa segunda fase, que decorrerá entre os dias 6 e 9 de dezembro, os autores dos dez melhores textos participarão numa Oficina de Oralidade dinamizada pela atriz Ana Magaia. No dia 10 de dezembro, realizar-se-á, no Centro Cultural Português em Maputo, a grande Final do Prémio Eloquência Camões, onde serão apurados os discursos vencedores.

Os estudantes universitários que não tenham participado nas edições anteriores poderão concorrer através da apresentação de discursos que não ultrapassem 400 palavras e subordinados a temas como (i) a igualdade de géneros, (ii) o saneamento do meio e a preservação do ambiente, (iii) as redes sociais, as tecnologias e o seu papel na educação dos jovens e (iv) o contributo dos jovens para o desenvolvimento de Moçambique e para o bem-estar social.

Os vencedores do Prémio Eloquência Camões 2021 receberão, para além da formação em técnica oratória ministrada pela atriz Ana Magaia, prémios monetários e em material didáctico. Este Prémio conta com o apoio da Plural Editores Moçambique.

Cerca de três mil novos agentes da PRM terminaram a instrução básica. Na ocasião, o Presidente da República e Comandante em Chefe das Forças de Defesa e Segurança, Filipe Nyusi, que orientou o 41° curso de Instrução básica, disse que novos agentes devem combater o terrorismo em Cabo Delgado e o crime organizado, com destaque para os raptos.

São homens e mulheres provenientes de todo o país que encerraram, esta quarta-feira, a sua formação básica e entraram para a corporação como guardas estagiários. E abre-se assim um novo e desafiante caminho profissional para aqueles agentes que têm a missão de proteger Moçambique e os moçambicanos, disse o Presidente da República.

Filipe Nyusi, que assistiu na Escola Prática de Matalana, a demonstração de aulas práticas, acompanhou de perto as acrobacias, superação de obstáculos, defesa pessoal, prática do tiro ao alvo e no fim passou em revista a parada.

O terrorismo em Cabo Delgado dominou o discurso de Filipe Nyusi. “Tenham em mente,  que na actualidade, um dos maiores desafios como Estado, Nação e povo é o combate, sem tréguas, ao terrorismo  e as suas variadas formas de actuação”.

Ainda sobre o combate ao terrorismo na província de Cabo Delgado, perante a parada policial Nyusi destacou a necessidade de Moçambique continuar a receber apoios externos e desvaloriza a crítica face a presença de tropas estrageiras no teatro operacional norte.

“Vamos mobilizar apoios internos e externos, vamos aceitar os apoios genuinamente oferecidos aos moçambicanos.  As Forças de Defesa e Segurança vão continuar a lutar com bravura para proteger o seu povo, os seus bens e projectos económicos. Nós não vamos perder o foco”.

Nyusi disse, ainda, que não menos importante é o combate aos raptos. “Os raptos contribuem para um clima de desespero, incerteza e insegurança, afectando negativamente o ambiente de negócios e o investimento privado em Moçambique. Este tipo de crimes culmina, muitas das vezes, com a deslocação de investidores para outros horizontes e a transferência de capitais que podiam estar a circular a bem da economia nacional”.

Em Matalane, foram, também, premiados os três melhores formandos que se destacaram no meio da colectividade.

O mosaico artístico-cultural de Moçambique foi exibido e exaltado no seio dos recém formados agentes da PRM.

Os mais de três mil agentes da PRM vão reforçar o efectivo na Unidade de Protecção de Altas Individualidades, Serviço Nacional de Migração, Serviço Nacional de Salvação Pública, Direcção Nacional de Identificação Civil, entre outros sectores do Ministério do Interior.

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