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O País – A verdade como notícia

Sob o lema “A língua é a minha verdadeira casa”, o Projeto Raízes e Cultura, que congrega escritores cujo o idioma usado para escrever suas obras é o português, vai decorrer de 14 a 16 de Dezembro. O intercâmbio constitui o primeiro encontro literário de língua portuguesa – “ Mapas da Língua.”

A iniciativa da Fundação Fé e Cooperação conta com a participação de autores da CPLP e vai decorrer no formato online, a ser transmitido nas páginas FECONGD e parceiros.

Dentre os autores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa o destaque vai para o moçambicano Armando Artur, Vera Duarte, de Cabo Verde, Joana Bértholo, de Portugal, Luís Cardoso, de Timor-Leste e João Fernando André, de Angola.

O Encontro Literário da Língua Portuguesa terá como mote o papel da literatura na construção de uma comunidade.

Com este intercâmbio, o projecto pretende promover aprendizagem sobre a cultura local, semelhanças e constrangimentos no que concerne a literatura e a promoção e valorização da cultura, de uma forma geral; potenciar novos interesses e despertar novos horizontes e desafios no âmbito cultural em cada um dos países; potenciar novas oportunidades de desenvolvimento de trabalho e criação de sinergias e reforçar a advocacia para a importância da valorização da cultura, sobretudo da literatura e actividades com ela relacionada, na promoção da coesão, memória comum e identidade dos moçambicanos.

O Projecto Raízes e Cultura: “Empreendedorismo Cultural e Reforço da Identidade e Cultura Moçambicana” é implementado pela Fundação Fé e Cooperação em parceria com a Khandlelo – Associação para o Desenvolvimento Juvenil, financiado pela União Europeia e Camões.IP.

Por: Albino Macuácua

No dia 18 de Abril de 1857, é publicado, em Paris, O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, obra fundadora do Espiritismo. Neste livro, encontram-se sistematizados os Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade de acordo os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns.

Um dos aspectos retratados neste livro diz respeito à distinção entre «espírito» e «matéria». Ora, «“a matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua acção”. Deste ponto de vista, pode-se dizer que a matéria é o agente, o intermediário com o auxílio do qual e sobre o qual actua o espírito» (Kardec, 1944, p. 62). Poderíamos afirmar que a matéria é o despojo do espírito que tanto pode impressionar os sentidos assim como não. Em termos ilustrativos, isto explica por que razão o corpo é a matéria a partir da qual o espírito age, é ou mostra ser.

E o que [o] espírito é? A compreensão sobre o espírito é complexa. NO Livro dos Espíritos, o espírito é concebido como «“[o] princípio inteligente do Universo.”» (Kardec, ibidem) e não é fácil analisar a sua natureza íntima, pois, entre os homens, «ele não é nada por não ser palpável […] E ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe» (Kardec, 1944, p. 63). Na linguagem dos homens, o espírito é um ser imaterial, porquanto povoa fora do mundo material, ou como Kardec (1944, p. 87) o diz, os espíritos constituem um mundo à parte, um mundo das inteligências incorpóreas e é este mundo que preexiste e sobrevive a tudo, ou seja, é o mundo espírita (ou incorpóreo) que está na ordem de todas as coisas que existem, sendo por esta razão que os espíritos estão por toda a parte, numa espécie de continuum vital. Portanto, podemos afirmar com Carrara (2007, p. 11) que os espíritos são nada mais do que seres humanos após a morte do corpo, num outro estágio de vida; são criaturas despojadas do «corpo de carne». De resto, embora matéria e espírito sejamcategorias distintas uma da outra, a sua união é necessária para intelectualizar a matéria, ainda que se possa conceber espírito sem matéria.

A principal razão destas considerações sobre matéria e espírito radica na história contada e retratada neste romance, A Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão. É um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico,ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, doverdadeiro amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.

De uma escrita simples, fluida e sem rodeios, com ecos da concisão de Ernest Hemingway, e de um enredo que prende o leitor com uma cuidada dosagem de suspense, A Sina de Aruanda é um romance polifónico, onde povoam e confluem diversas vozes, pondo em paralelo duas histórias somente separadas em termos peridiológicos uma, do século XIX, outra, do século XXI, cujo equilíbrio não está necessariamente na sua distribuição, mas na forma como os micro-mundos ou enredos se constroem e se ligam. No século XIX, temos a história do Prazo de Aruanda, cujos senhores são o capitão-mor Bento Noronha e sua esposa, dona Luísa, e que tinham um filho chamado Pedro Lucas. Sargento Pedro Lucas, Puca para os mais próximos e para os amigos (como, por exemplo D. Fernando, médico da família) tem compromisso com Isabel Sabrina, filha de Lorde Sean, governador da nova Companhia, mas não a ama. Trata-se de um compromisso forjado pela condição e meio aristocráticode que ambos fazem parte. A história da família deste Prazo é marcada, por um lado, pela relação amorosa escondida entre Pedro Lucas e a criada da casa, baptizada como Carina de Sousa – prometida do Foquiço, «um dos mais fiéis soldados do capitão Bento», e, por outro lado, pela morte de Pedro Lucas num dia em que Lorde Sean ia retirar da casa do capitão Noronha a criada e sua mãe, acusadas de feitiçaria e rezas diabólicas que matavam os seus homens. Anos depois, Carina de Sousa, que teve uma filha, Maria Cristina de Sousa, com Puca, é acometida pela morte.

Esta bonita história de amor que ultrapassou as diferenças de raça e classes sociais e que se escondeu, porém, nas sombras das proibições da época, não foi plenamente vivida, mas, ainda assim, o tempo e a morte e, se quisermos, o fim do Prazo de Aruanda, não foram capazes de apagá-la. Um pouco mais de um século depois, precisamente no ano de 2005, Pedro Lucas e Carina de Sousa reencontram-se, mas como espíritos (re)encarnados, respectivamente em Daniel de Barros e Maria Cristina, ou seja, reencontram-se como almas.Aliás, por um lado, Pedro Lucas, no momento da agonia,recorda-se, por meio de perguntas, do que a sua amada Carina lhe dissera sobre a morte: «Será que tenho o que esperar? Haverá mais, depois da morte, como dizia Carina?» (Ferrão, 2021, p. 222). Por outro lado, ainda no momento da agonia, com a alma como que suspensa num espaço indefinido, entre o corpo e o regresso ao mundo espírita, Pedro Lucas vê-se a si próprio em 2022, numa espécie de memória futura, mas com a alma encarnada em Daniel de Barros:

Observo os meus próprios movimentos: estou a enfiar-me numa camisola de malha e a puxar um cobertor felpudo para cima das minhas pernas. As luzes da cidade irrompem timidamente pelo escritório e tomam lugar entre os retratos espalhados pela escrivaninha ao lado das três estátuas prémios. Compenetro-me a rever a minha tese de doutoramento, entre uma golada e outra de chá. Tento absorver cada pedaço destas novidades, destas informações. A minha tese de doutoramento. O aroma dos biscoitos de chocolate que penetra este lugar tão inesperadamente familiar. A camisola de malha. O cobertor.

Ouço um som agudo. Uma campainha. E agita-se o meu peito. A minha alma sabe! Tenho a instantânea certeza de que outro lado da porta, espera-me a minha amada. Carina (Ferrão, 2021, p. 223).

É curioso que o fim da história é, contra todas as lógicas do tempo natural, anunciado com antecipação no excerto que acabámos de ler, e tal se compreende quando este mesmo excerto resolve o suspense ou as incertezas que se verificam no último capítulo de romance quando Daniel de Barros, no ano de 2022, faz exactamente o que Pedro Lucas vê, em agonia, em particular no momento em que, depois de ouvir a campainha, se levanta para abrir, terminando, deste modo, o romance. O que com isto queremos dizer é que a história acaba no instante em que Pedro Lucas vê, no momento da agonia, a sua vida futura.

No ano de 2005, Daniel de Barros, consultor na área do ambiente, e Maria Cristina, uma estudante de Direito que, como já o dissemos, são, respectivamente, a reencarnação de Pedro Lucas e Carina de Sousa, conhecem-se aquando do pedido de estágio de Maria Cristina, Angelina Manhiça, Frederico e outros colegas, na firma onde Daniel de Barros trabalha e é sócio, a CRW, e vão-se aproximando, vão-se conhecendo até descobrirem, por assim dizer, o mútuo interesse pela história de Aruanda e Missão de Mobora, e a intenção de Daniel de Barros era de transformar o então Prazo num museu. Havia aqui nascido um conflito entre Daniel de Barros e o seu grupo de estudantes e uma empresa, a Zumbire Investimentos, que pretendia deitar abaixo este património histórico e cultural para construir um centro comercial. A grande luta consistia em impedir que tal acontecesse, através de uma ordem de embargo, despachada em tribunal que, embora tivesse chegado tarde às mãos de Daniel, evitou que a demolição, que já havia começado, avançasse. No entanto, é nessa situação que Maria Cristina, depois de declarar o seu amor a Daniel de Barros – que depois se deu conta quetambém a amava – morre devido ao desabamento da Missãode Mobora que resultou do início das demolições.

E a sina de Aruanda repete-se! O impreterível e o inevitável. No domínio espírita e até espiritualista, é transversal, nas diferentes concepções sobre Aruanda, a ideia de ser um lugarde paz, considerado um paraíso, onde se encontra tudo quanto é necessário para evolução do espírito e compreensão das transições de vidas. Deste modo, embora transfigurado em Prazo, compreendemos que Aruanda simboliza, neste romance, um espaço eterno (veja-se: outrora um Prazo, Aruanda, mais de 100 anos depois, é preservado, passando a ser «a maior atracção turística do país»). É neste espaço eterno onde os espíritos, de facto, vão evoluindo, vão-seaperfeiçoando e expiando as suas imperfeições. Pedro Lucas e Carina de Sousa – ou, se quisermos, Daniel de Barros e Maria Cristina – são um exemplo desta evolução contínua, de reencontros e, sobretudo, exemplos de que a morte não é o fim, a morte não existe, e a parte final do romance demonstra-o perfeitamente:

A temperatura voltou a descer. Enfio-me numa camisola de malha, e puxo o cobertor felpudo para cima das pernas. […] Compenetro-me a rever a minha tese de doutoramento, já bem avançada, entreuma golada e outra de chá. Esta cidade europeia enche-me os olhos de maravilhoso, mas nada se compara com estar em casa. Mergulho um biscoito de chocolate no chá e ajeito-me na manta. Ouço então a campainha.

Surpreendo-me, pois não aguardo ninguém. A campainha volta a tocar.

– Um minuto!

[…]

Hoje sei que nunca estarei só. Alcanço a porta e giro a maçaneta (Ferrão, 2021, p. 239).

Assim, tal como Pedro Lucas teria compreendido que a sua morte não era o fim, compreendendo de igual modo a morte da sua amada, Daniel de Barros compreendia que a morte da sua Maria Cristina não era o fim da vida e, principalmente, do amor que tinham um pelo outro. Estas almas ou espíritos encarnados, como Kardec (1944, p. 123) explica, não tendo alcançado a perfeição durante a vida corpórea podem (e podiam) depurar-se, sofrendo prova de uma nova existência.Por isso, esta sina (o impreterível ou o inevitável) a que nos referimos há pouco não nos parece que, neste romance, seja uma condição de fatalidade; aliás, a encarnação

[…] Para uns, é [para a] expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação» (Kardec, 1944, p. 105).

Portanto, em A Sina de Aruanda, todas as personagens relevantes da história são encarnações: Daniel de Barros, Maria Cristina e Angelina Manhiça (esta foi D. Fernando, médico e melhor amigo de Pedro Lucas no Prazo de Aruanda). É Angelina o meio através do qual se revelam a Daniel de Barros e Maria Cristina as suas vidas passadas, por meio de regressões orientadas pela mãe desta, Irina.

Num romance multifacetado que, como foi possível perceber, para além desta memória à história de Moçambique, através do Prazos do Vale do Zambeze, Virgília Ferrão descortina os mistérios da vida, fazendo-nos viajar pela dimensão imaterial do mundo, pela imortalidade da alma, pelos liames do corpo edo espírito, revelando a misticismo e os mistérios da vida, ao mesmo tempo que os firma e reforça, fazendo-nos reflectir sobre o que somos, sobre as nossas escolhas, sobre a essência humana e nossa existência.

Devo afirmar que, quando comecei a ler este romance, havia recebido um trabalho de fim de curso de uma estudante que decidira estudar as fronteiras entre o real – entendido como empírico – e o ficcional em Ualalapi, de Ungulani ba kaKhosa e Mbelele e Outros Contos, de Aníbal Aleluia. A realidade empírica e a realidade ficcional umas vezes se demarcam, outras vezes se diluem, ocultando as suas fronteiras dentro de toda a ambivalência que o termo «fronteira» encerra. Ora, aproveitando-me deste trabalho de fim de curso, vi, à primeira, em A Sina de Aruanda, uma ficção cujo diálogo com a realidade é distante do mundo material, mas, se cada um de nós olhar para dentro de si e à sua volta, talvez compreenda que todos somos mais do que seres corpóreos; somos, por conseguinte, almas, e a ficção é um modo de nos compreendermos cada vez mais como seres humanos.

Termino este texto com uma frase de Ernest Hemingway, precisamente para me referir a este livro que hoje é publicado: «Todos os bons livros se parecem: são mais reais do que se tivessem acontecido de verdade.»

Obrigado pela atenção e parabéns à escritora!

 

Autores citados

Carrara, Orson Peter. (2007). Espíritos. São Paulo: MythosBooks.

Ferrão, Virgília (2021). A Sina de Aruanda. Maputo: Fundação Fernando Leite Couto.

HUSSERL, Edmund. (2000). A Ideia da Fenomenologia. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70.

Kardec, Allan (1944). O Livro dos Espíritos. Princípios da Doutrina Espírita. 93.ª ed. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

Foi lançado em Maputo o livro “Do Quarto ao Quinto Homem”. Trata-se de uma obra interdisciplinar que fala sobre teologia e ciências da religião. A obra foi coordenada por Severino Ngoenha e contou com a participação de vários autores.

Segundo Severino Ngoenha, a obra traz visão dos capítulos que, na história da Filosofia, faltavam em Moçambique. Com ideias partilhadas por diferentes autores, “Do Quarto ao Quinto Homem” destaca aspectos da filosofia antropológica.

“Antropologia filosófica é um dos capítulos que, na história dos nossos pensamentos, nunca foi tratado por moçambicanos. E nós tentamos tratar este assunto de maneira cronológica. Falamos do primeiro momento em que chamamos de pré-colonial, chamamos o homem estético, quer dizer o homem partilhado, falamos do homem socialista”.

A obra, segundo os autores, interroga também as diferentes correntes da filosofia africana existentes neste momento.

O escritor moçambicano, Armando Artur, lançou, na Cidade de Maputo, duas obras literárias intituladas “Outras Noites, Outras Madrugadas” e “Minhas Leituras e Outros Olhares”.

Em “Minhas Leituras e Outros Olhares”, livro apresentado pelo jornalista José dos Remédios, Armando Artur compartilha a sua experiência desde a sua infância. Os textos já tinham sido publicados no jornal “O País”, mas, devido à sua relevância e ao pedido dos leitores, juntou em um livro.

“Alguns dos autores e quase todos eles, contidos nestes livros foram responsáveis pelo leitor, escritor e pelo homem que sou hoje”, disse Armando Artur.

Para o autor, os textos são importantes para aqueles que estão a entrar neste mundo de leitura e no mundo da escrita.

“Outras Noites, Outras Madrugadas”, obra sem prefácio, apresentada por Elton Pila foi publicada em Portugal, na qual o autor diz ter dito muito. “Sem nenhum prefácio, a editora desse livro perguntou-me se porventura eu não queria um prefácio, ela queria fazer o prefácio para este livro, ao que eu recusei”.

Armando Artur é natural da Zambézia e é considerado uma referência da literatura africana de expressão portuguesa.

A Associação Kulungwana realiza amanhã, através do Projecto Xiquitsi, o concerto de encerramento do ano 2021, referente à nona Temporada de Música Clássica, na Cidade de Maputo. O conceito deste concerto, segundo a associação, é essencialmente de exaltação da moçambicanidade.

Lenna Bahule, Dilon Djindji, Stewart Sukuma e Deltino Guerreiro são os músicos convidados para acompanhar a Orquestra e Coro Xiquitsi sob direcção musical de Kika Materula.

Num comunicado de imprensa, a Associação Kulungwana refere que o concerto representa um marco para o projecto Xiquitsi, pelo facto de juntar várias gerações que executam diferentes géneros musicais, permitindo, assim, mostrar a transversalidade deste projecto de inserção social.

Para além da apresentação dos músicos convidados, será interpretada a peça clássica, “Missa para o meu sol, o Cordeiro”, composta pelo aluno de Xiquitsi Estêvão Chissano.

Por seu turno, a fundadora do Xiquitsi, Kika Materula, que vai dirigir o concerto, diz que um dos grandes marcos do projecto é realizar um concerto voltado para as raízes moçambicanas, o que torna a sessão especial, representando, igualmente, um crescimento para o Xiquitsi.

Materula acrescenta que o concerto é também o reencontro entre os alunos que maioritariamente têm aulas à distância nesta fase.

O país já está a fazer testes da COVID-19 em todos os pontos de entrada para o despiste da variante Ómicron do Coronavírus. Esta medida faz parte dos preparativos para a eventual quarta vaga da pandemia prevista para os meses de Dezembro e Janeiro.

O número de casos da COVID-19 na região austral de África tende a subir, em parte, associado à variante Ómicron, está a preocupar Moçambique e alimenta as certezas de que a quarta vaga é para breve, entre finais de Dezembro e Janeiro do próximo ano.

“Com o evoluir da situação epidemiológica na região, as nossas previsões se tornam mais realísticas em termos de ocorrência desta quarta vaga. Desde modo, antecipadamente, elaboramos o nosso plano de resposta a esta quarta vaga em Moçambique, cujo documento foi partilhado com todos os parceiros, dos quais recebemos valiosas contribuições”, indicou o ministro da Saúde, Armindo Tiago.

E fazem parte do plano de resposta à possível quarta onda, a testagem de todos os cidadãos que pretendam entrar no país a partir de qualquer ponto, um reforço da vigilância sanitária que o titular da pasta alertou que seria introduzido logo depois que soou o alarme na África do Sul. “Este facto vai aumentar as necessidades para a provisão desses serviços que são adicionais ao que estamos a fazer”, chamou à atenção, o ministro da Saúde.

O que o Ministério da Saúde está a fazer, por agora, é apostar mais na vacinação para melhorar os actuais índices de pessoas vacinadas. “Nós já vacinamos com uma dose 6.8 milhões de indivíduos, destes 4 milhões e trezentas mil pessoas estão completamente vacinadas, correspondendo, respectivamente, 40 e 26 por cento daquele grupo alvo”, revelou o governante.

O ministro da Saúde falava numa reunião bienal do sector com os parceiros de cooperação, que mostraram a sua disponibilidade em continuar a ajudar o país.

“Certamente, ainda há muito por fazer. É por isso mantemo-nos disponíveis para continuar apoio técnico e material necessários e de forma harmonizada para o sucesso desse importante programa”, reiterou Emren Ozaltin, em nome dos parceiros do Ministério da Saúde.

Ainda no encontro, Armindo Tiago revelou que foram alocados camiões móveis para a provisões de serviços essenciais às populações deslocadas pelo terrorismo em Cabo Delgado.

Na Livraria Escolar Editora (Cidade de Maputo) havia o habitual movimento. Por um lado, leitores ávidos em comprar livros, e, por outro, livreiros a explicarem onde se podiam encontrar determinados títulos. Enquanto se criavam as condições para entrevista, João Paulo Borges Coelho também apreciava livros como quem tentava adivinhar os que deverá ler antes do ano terminar. Alguns leitores reconheceram o autor de O olho de Hertzog, Água ou Cidade dos espelhos, e lá o observaram de soslaio, como se procurassem alguma confirmação plausível. Outros passaram pelo escritor sem dar por ele. Escusa-se dizer que, cumprindo as normas da livraria, o escritor usava uma máscara. Azul celeste. João Paulo Borges Coelho parecia ter todo o tempo do mundo no instante que apreciava os livros. Entretanto, repentinamente, foi afastado dessa actividade agradável. – Já estamos prontos. Disse o jornalista. O escritor anuiu e deu alguns passos até ao local onde se encontrava um assento confortável reservado para si. Ali falaria das suas motivações ao escrever Museu da revolução (seu novo romance), do que pensa do exercício da ficção, do que significa a literatura, de como pensa o seu país (o espaço urbano e suburbano), da dor que é ver o seu país e o seu continente se transformarem na lixeira do mundo. Afinal, Museu da revolução “pretende denunciar este caso de que o mundo está a limpar-se à custa de África”.

 

Começo esta conversa com um reparo. O seu novo livro, Museu da revolução, é uma história muito focada na “reinvenção” de vários aspectos estético-literários. Uma das personagens que tanto contribui para que o romance vá além do óbvio é Jei-Jei, o centro e a ligação entre o narrador e outras personagens. O que lhe ocorreu ao construir romance a partir dessa personagem?

Há uma ideia de que o romance não é o acto de contar uma história, de escrever uma história, mas é o acto de ir descobrindo como o próprio romance se constrói. Então eu olho para o romance como uma caixa de onde vamos tirando coisas que nos interessam, vendo como essas coisas encaixam umas nas outras. E essas coisas têm a ver com temas que queremos explorar, com aspectos da nossa vida e etc. Nesse sentido, o romance é uma descoberta para o leitor, mas antes foi uma descoberta para o autor, que tem uns dias mais difíceis e outros dias mais fáceis. Por exemplo, este romance, eu não diria que tem um tema, mas vários temas que se cruzam e que se encaixam. E todos os temas têm a ver com a nossa vida recente. Para chegar à sua pergunta, sobre a construção de Jei-Jei, que é, talvez, a personagem central, ele foi sendo construído quase no mesmo instante que eu o vejo pela primeira vez, quer dizer, que o narrador o vê pela primeira vez. O narrador não o conhece, vai o conhecendo. Ele vai-se materializando aos olhos dos leitores tal como vai-se materializando na história com o narrador.

 

Jei-Jei é um pretexto para levar os leitores a uma viagem pelos espaços e pelo tempo. É essa personagem que contribui para configuração de lugares como Moçambique, África do Sul ou Alemanha, devolvendo aí o passado dos madgermanes.

Tenho duas maneiras de responder a essa questão. A primeira é que há aqui um aspecto ético, que é do narrador não roubar a voz das personagens, mas estabelecer uma ligação. Tudo isto faz parte do jogo da verossimilhança, que é o segredo, no fundo, da literatura. Nós fingimos que estamos a dizer a verdade e, por sua vez, o leitor fiz que está a acreditar. Nesse sentido, há aqui uma exploração das próprias técnicas, se quiser, do sentido da literatura, que é jogar com o personagem como se fosse real ou uma fabricação. Muitas vezes, aquilo que o Jei-Jei e o próprio narrador não conhecem como verdade do livro, eles criam como a sua própria verdade nas suas conversas. No fundo, isto é uma exploração e é um jogar com o próprio jogo da literatura. E há este facto curioso de o Museu da Revolução estar no outro lado da rua do Jardim [dos Madgermanes]. Há aqui até uma correspondência topográfica, se quiser. Mas também havia a preocupação de não transformar o Jei-Jei num arquétipo, pois não há uma figura que representa um moçambicano. O moçambicano é diverso. Esta ideia, que é uma ideia preocupantemente errada do homem novo ou igual em toda parte e em qualquer circunstância, não existe. Existem homens e mulheres diversas. Nesse sentido, eu tinha um pouco a ideia de ir criando Jei-Jei também como um fruto de acasos, de opções e de condições que o destino lhe trouxe. Ele também foi aproveitado, enquanto personagem, para abordar temas que me interessavam abordar no romance, nomeadamente, esse trabalho migratório que tem mais do que uma dimensão. Não é só uma curiosa continuidade cultural em relação ao trabalho migratório na África do Sul, mas é também a vontade de trazer para o romance esta ideia de que o moçambicano é cosmopolita. O moçambicano não é uma vítima que está sentada no seu país à espera que os outros venham. O moçambicano conhece o mundo pelo menos desde os finais do séc. XIX, quando migrava massivamente para os países vizinhos e, depois, para a Europa, como se viu, e para o extremo Oriente. No tempo colonial, haviam contingentes das chamadas Tropas Landins em Macau e em Timor. Portanto, Jei-Jei serve para trazer estas questões mais recentes.

 

Portanto, Museu da revolução também é um pretexto para pensarmos como os moçambicanos se relacionam com o mundo e qual é o seu lugar no mundo?

Sim, e como é que se relacionam com eles próprios e com o seu passado, porque é um pouco bizarro que nós não tenhamos muita discussão sobre o nosso passado. Como se houvesse aqui uma parte que não valesse falar dela, porque é muito confusa. É exactamente por ser muito confusa que nós temos de falar mais dela. E os museus são espaços, digamos, habitados pelos resíduos do passado. Portanto, acho curioso que o Museu [da Revolução] tenha encerrado e tenha sido privatizado, uma vez que a história da libertação pertence a todos os moçambicanos.

 

A ficção “resgatou” a infra-estrutura…

Há uma questão geral e particular nossa. A questão geral é o tempo em que nós vivemos hoje. Na minha perspectiva, um tempo em que o presente se alargou. O presente se alargou e apagou, em grande medida, quer a ideia de futuro, quer a ideia de passado. A ideia de futuro no sentido de que morreram as utopias. Hoje ninguém pensa como comunidade, colectividade, como nação, como humanidade ou no que queremos atingir daqui a muito tempo. Hoje até há esta simbologia do fim do mundo com as alterações climáticas, que, simbolicamente, representa o fim das utopias. Ao mesmo tempo, o passado também desapareceu um pouco. Quer dizer, todos os dias é uma ideia nova. Mesmo para a própria leitura, já não há tempo e paciência para ler mais do que duas páginas. Nós não conseguimos ler mais do que um tweet ou uma imagem que nos chega num smartphone. E amanhã já é uma outra imagem. Portanto, nós vivemos um grande presente ao nível do mundo e isto afecta-nos também. Por outro lado, temos este problema específico de um passado recente que ficou mal resolvido. Não ficou uma ideia clara daquilo que nos aconteceu. Neste sentido, há esta tendência de nos afastarmos, nunca falamos sobre isso… O Museu também representa isso, aquilo que era de todos, que passou a ser de alguns, privado, e que, por outro lado, está fechado, mas não se diz que está fechado.

 

Quando estava a ler Museu da revolução, ainda fui ao Museu da Revolução para ver o Volkswagen que Eduardo Mondlane conduziu em Dar es Salaam. A recepcionista disse-me que o prédio estava em restauração e que ainda não havia previsão de abrir…

A situação é indefinida. É tão indefinida como a nossa incapacidade de olhos nos olhos discutirmos os nossos problemas. Neste sentido, o livro procura ajudar nesse debate.

 

Eu senti, nesta história, que a ficção ajuda a dar mais sentido à realidade e não o contrário.

Pois, isso é importante ser dito. Quer dizer, o livro não é uma interpretação da realidade, é uma elaboração a partir da realidade. A meu ver, é esse o papel da literatura. O livro não substitui estudos e não se limita a passar mensagens que não são confortáveis fazer passar de outra maneira, não é isso. O livro é uma elaboração literária sobre os problemas que nos afectam a todos. Ajuda a pensar, mas não é um pensamento ou uma interpretação.

 

Quando a história começa, julguei que Toichiro Yamada (japonês que usa uma Toyota Hiace/ mini-bus para transportar peixe) seria o protagonista da história. Depois, percebi que a personagem, na verdade, foi usada para introduzir a viatura que, mais tarde, chega a Maputo via Durban. O que quis transmitir com a importação dessa viatura usada do Japão?

Digamos, quando escrevo, eu sigo um pouco o instinto. Olhando para trás, há, talvez, duas razões. Uma delas, desenvolver o tal cosmopolitismo. Aquelas epígrafes, digamos assim, que abrem os capítulos, tentam mostrar isso. Nós não somos uma ilha. Fazemos parte de um todo mais vasto. Portanto, somos, à nossa maneira, cosmopolitas. Por outro, o romance pretende denunciar este caso de que o mundo está a limpar-se à custa de África. Nós somos a lixeira do mundo. Nós vimos fotos aterradoras sobre a lixeira de computadores na Nigéria, por exemplo, que são produtos altamente tóxicos. Nós somos depósitos de material hospitalar radioactivo da Europa. Ainda há alguns anos houve um escândalo relacionado com a Somália e havia até ramificações com Moçambique. Se não tivesse rebentado esse escândalo, preparava-se, com a conivência de autoridades locais, virem cá ter lixos hospitalares europeus. Neste sentido, nós estamos resolvendo um problema de transporte, transformando-nos num depósito dos carros velhos de todo o mundo. Ou seja, estamos a assistir uma transição tecnológica em todo o mundo, em termos energéticos, e, ao mesmo tempo, temos as cidades africanas, em geral, inundadas dos lixos desses carros. Num certo sentido, há aqui também uma vontade de aprofundar um debate sobre o facto do nosso futuro, em termos económicos, com o gás e com o carvão, ser o passado do mundo. Não advogo que ponhamos de parte isso, porque é demasiado importante para a economia, mas me pergunto se não somos obrigados a ter um pouco mais de imaginação. Nós não trouxemos respostas de qualquer tipo para a agricultura, por exemplo, que é o que preocupa a esmagadura maioria dos moçambicanos. Só temos coleccionado fracassos. Olhamos para o futuro com aquilo que o mundo vai considerando passado. Isso precisa ser discutido na comunidade, e não só entre as autoridades, porque a vida é de nós todos. Há também aqui um terceiro argumento, que é o da importância das histórias. Portanto, aquela [história de Toichiro Yamada] é mais uma história. Como aquela história de Inglaterra, sobre a origem dos CD’s, com raiz verdadeira. De facto, aconteceu, de alguma maneira, e há personagens reais à volta disso. Portanto, é um pouco pensar na importância das histórias para nos fazerem pensar no mundo real.

 

Não sentiu falta desta personagem japonesa, Toichiro Yamada, ao abandona-la no seu país, seguindo a história com a Toyota Hiace em Moçambique? Quer dizer, não sentiu que podia recupera-la em algum momento?

Podia, mas, nesse caso, já não seria a ideia de uma história que é contada, mas a ideia do Yamada, de personagens reais, que eram transportados para aqui. No fundo, existe esta ambiguidade se esta história do Japão é, de facto, a origem do Hiace, do chapa, ou se é fruto criado pelo diálogo entre o narrador e Jei-Jei.

 

Mais uma vez, temos na sua escrita personagens que não se interessam pelo espaço urbano, mas pelo interior de Moçambique. O que lá encontra?

Nós somos um país eminentemente rural, que está a sofrer uma rápida e tumultuosa transição para o mundo urbano. Em finais dos anos 50, 97% da população, salvo o erro por aí, era rural em Moçambique. Num espaço destes menos de 100 anos, metade da nossa população já é urbana. O espaço urbano é um espaço conflituoso, de pobreza, violento e que se vê que não é criado com serenidade. O espaço urbano é um espaço de sobrevivência, enquanto no rural tínhamos a dimensão de que era um espaço em que as comunidades dominavam. Agora não é tanto assim. Eu sou muito crítico em relação ao que se faz no espaço rural, porque se faz sem consultar os donos desses espaços. São tirados de um lado para o outro conforme as conveniências de um Estado central. Por acaso estudei esses processos em Tete e vi que no espaço de uma vida um camponês podia ser tirado da sua terra umas seis vezes, desde o aldeamento colonial, aldeias comunais até ao carvão. Quer dizer, todos os motivos são para tirar as pessoas dos lugares. Então, não pode haver estabilidade, não pode haver crescimento com esta dinâmica. Este regresso ao espaço rural é uma forma de protesto, digamos assim, nós temos de pensar nas soluções para o espaço rural. Essas soluções vão poder ajudar poderosamente, espero, a trazer serenidade ao crescimento urbano, deixando de ser pressionado pelas pessoas que fogem de um espaço inviável, que está a arder.

 

Como é que descreve o encontro com a história que se concretiza a partir da narrativa da portuguesa Leonor Basto ou da sul-africana Elise Fouché, usada para instaurar o drama do Apartheid?

Isso surge naturalmente. Eu meto a mão dentro da caixa e vou tirando as coisas. Mas, no fundo, talvez houvesse essa ideia de que as guerras que nós sofremos não surgem arrumadas no nosso tempo. Elas têm uma existência real e muito dura dentro da consciência das pessoas. Neste momento, nós podemos ter um traumatizado da guerra colonial. Quer dizer, como é que nós vivemos a guerra colonial e a resolvemos? Depois, como vivemos o conflito civil e o resolvemos? Esses conflitos habitam-nos. Eu quis integrar na história conflitos com raízes diferentes, para que, de alguma forma, ajudassem a fazer o balanço do tempo, sem fazer explicitamente esse balanço. Se é certo que há alguma reflexão sobre a relação com a guerra colonial, estranho o tipo de distanciamento que, por exemplo, temos em relação a África do Sul e vice-versa. É certo que há uma intensa participação de moçambicanos na África do Sul, mas é como se fosse uma relação negativa. Os moçambicanos inscrevem-se na África do Sul de uma forma subalterna e são regularmente expulsos, estes fenómenos de xenofobia. Houve, nos anos 50, 60 do século passado ligações em termos musicais, mas, hoje, eu não vejo ligações em termos culturais. Nem vejo ligações de outro tipo. Vejo-nos como clientes da indústria sul-africana, da cerveja, da Dstv e da comida que comemos no espaço urbano, claro. Esperava-se que, com o fim do Apartheid, houvesse outro tipo de ligação. Falou-se até da abolição das fronteiras, que eu acho que são mais fortes. É também para pensar um pouco nisso. Por que não há intercâmbio? Porquê nós não lemos literatura sul-africana? Porquê a África do Sul não lê a nossa literatura? Quer dizer, há muito a conversar sobre isto. Mesmo entre nós, para chegarmos ao entendimento sobre esses processos. De uma certa maneira, o livro é um balanço dos últimos 50 anos, mas é, sobretudo, um convite para que nós falemos mais como sociedade. Nós falamos pouco e o que falamos está contido nos limites da política imediata, a maior parte das vezes. Nós temos que ter conversas mais amplas, mais profundas, mais existenciais. Eu acho que nós, ultimamente, manifestamos uma preocupante falta de imaginação. Temos que imaginar mais, de nos centrar no mundo, olhar para nós próprios como pátria, sobretudo, em vez de nos prendermos só na vivência do dia-a-dia. Temos de ambicionar mais, acho eu.

 

Encaixa-se na tentativa de balanço do tempo a inserção do Volkswagen de Mondlane?

Há até umas duas fotografias desse carro. Pois, esses objectos ajudam a trazer a dignidade. Eu gostaria de usar a imagem para reforçar um pouco essa ideia.

 

Além de Mondlane, neste romance, temos outras figuras históricas. Por exemplo, Ricardo Rangel. A ideia foi impedir um eventual esquecimento?

Há até umas referências várias de uns músicos moçambicanos desse tempo. Porque no fundo é até uma vênia à rebeldia do jazz nesses tempos em que eu vivi, do pós-independência, que eram tempos fortemente morais, em que o jazz sobrevivia nas cavernas da cidade, o que mostra também uma grande criatividade. E, de facto, o Rangel era o papa do jazz, era o entusiasta.

 

O romance a contribuir para melhor dar a conhecer Rangel?

Ou pelo menos é uma lembrança carinhosa desta figura, do interessante que foi e da importância que teve também na nossa história. Nós temos de cultivar toda a espécie de herói, não apenas uma espécie de herói.

 

Em quanto tempo escreveu Museu da revolução?

É difícil de dizer, mas é um romance do confinamento, digamos. Havia umas ideias, umas notas, mas ganhou ímpeto na segunda metade de 2019 e, depois, em 2020. Talvez um pouco mais de um ano e menos de dois anos.

 

O quão prazeroso foi escrever o livro?

Eu gosto de escrever. Levanto-me de manhã e, com afinco, dedico-me ao trabalho. Há dias que não são produtivos, obviamente, e há outros que são mais. Mas todos os dias há sempre uma ideia do que estou a fazer dentro da cabeça.

 

O escritor moçambicano Armando Artur disponibiliza, amanhã, ao público as suas duas obras literárias intituladas “Outras Noites, Outras Madrugadas” e “Minhas Leituras e Outros Olhares”. O lançamento dos livros terá espaço na Associação dos Escritores Moçambicanos pelas 16h30.

Segundo explica o autor, o “Outras Noites, Outras Madrugadas” foi editado e publicado em Portugal em Junho passado. O livro é uma prosa poética moderna, cujo mote é a história ficcionada de um jovem africano que, face às vicissitudes do quotidiano, e como que em fuga de si próprio, procura fora do espaço africano, não só melhorar as condições da sua vida, como também dar sentido à sua existência.

“Toda a história desenrola-se à volta do amor, da precariedade de África e da problemática existencial. Afiança ainda que é um livro soberbo sob o ponto de vista estético e temático, escrito com recurso a uma abordagem poético-narrativa cativante, que prende o leitor do princípio ao fim”, explica Armando Artur.

Sobre o livro “Minhas Leituras e Outros Olhares”, o escritor diz que o mesmo reúne crónicas ensaísticas escritas e publicadas no jornal “O País” nos últimos dois anos, 2019/2020.

Por seu turno, Ungulani Ba Ka Khosa, prefaciador do livro “refere que uma incursão à memória, aos tempos da descoberta, do prazer, da fruição de encontrar um livro que acrescentou algo no mundo vivido, de cruzar com um autor por cuja vida nos sentimos atraídos, porque se enlaça naquilo que sempre almejamos: a liberdade. A liberdade de viver, de pensar e agir”.

Armando Artur, natural da Zambézia, é uma das referências das literaturas africanas de expressão portuguesa contemporâneas. Publicou mais de 10 livros, além de possuir obra dispersa em revistas literárias, manuais didácticos, antologias e jornais nacionais e internacionais. Foi distinguido com os principais prémios literários do país, entre os quais o Prémio Nacional de Literatura e o Prémio Consagração de Literatura José Craveirinha. Foi igualmente agraciado com o título de doutor honoris causa em filosofia da arte e literatura, pela Cypress International Institute University, do Texas.

Por: Nelson Saúte

 

Ontem custou-me este exercício quotidiano e anotei apenas estas seis palavras: “Ano tremendo este. Vivemos tempos aziagos”. Fui deitar-me exausto de tanta morte que nos ronda. A manhã chegou depressa e eu quis fugir da cidade para o lugar onde moram as aves. Fatigado ainda procurei fazer uma sesta em dia de canícula. A notícia do teu passamento chegar-me-ia com os pássaros que debicam os vidros da janela. Incrédulo busquei a fidúcia nos amigos.

Agora, não me posso ater apenas às seis palavras de ontem. Preciso de dizer algo que não seja o lugar comum da notícia. Aqui há uns anos, muitos anos quero eu dizer, divisando flamingos, ao largo da estrada que margina este dolente Índico, enquanto me dirigia para este mesmo refúgio, surgiu-me desse instante, nesse flagrante, uma espécie de epifania: a tua imagem como poeta. Foi ali que realizei que eras poeta, nessa revelação, nessa aparição dos flamingos: “o flamingo adormece em si o horizonte/ como flor espetada no pântano”.

Aplaudi em silêncio a tua erupção poética. Volto agora aos teus versos e leio: “enterro o coração no sussurrar das palmas/ me embrenho…/na vigilância enlutada dos corvos/ outra ilha”. À beira dos 50, “descidos os degraus da fantasia/ de lá dos píncaros de dirigir”, publicavas Dentro de Mim Outra Ilha (1995), um belo livro de estreia. Não há muitos livros assim.

Não sei se alguma vez te disse isto. Provavelmente o pudor impediu-me de to dizer. Mas ali, naquele livro primeiro, a admiração que tinha pela personagem transfigurou-se na admiração pelo poeta. Quis a fortuna que, anos mais tarde, pudéssemos ter um afirmado contacto e essas ocasiões confirmaram a intuição: o homem e o poeta diziam-se com a mesma verdade, com a mesma inteligência e com a mesma elegância.

A candura do poeta estava no homem compassivo. Mesmo quando eras assertivo as tuas palavras eram de um homem cordato. O conflito, a dissensão, a briga, a discórdia ou a divergência marcam com impetuosidade os nossos dias e o devir moçambicano. Gentil, compreensivo e humano era como eu te via naquela década na qual que nos sentámos, frente a frente, a discutir o país e o nosso destino.

Um dia, nesses encontros, fui áspero perante uma apresentação que me parecia medíocre. Com o teu sangue bom impediste que o debate resvalasse para o azedume. Sou impaciente perante a mediania, reajo com acesso, quase sempre impulsivo. Tu, com a fleuma e a tua elegância foste apaziguador. Aprendi com aquele teu gesto indulgente.

A tertúlia literária está na origem da nossa amizade e ao longo destes anos nunca intuí em ti alguma sobranceria pelo facto de teres sido dirigente. Antes pelo contrário. Sempre discreto como naquela lendária fotografia onde estás na última fila. Essa é uma das qualidades mais admiráveis.

Perante o esquife de um funcionário que te recebera como jovem ministro subiste voluntariamente ao púlpito e fizeste a mais bela homenagem que se pode tributar a um igual. Com aquele homem tinhas aprendido e disseste-o ali, naquela igreja repleta, sem rebuços. Sem tergiversação. Comovido ouvi o teu testemunho. Comovido e em silêncio. Outra vez, vi em crescendo a minha admiração por ti. Um antigo ministro sabia ser igual e sobretudo era capaz de reconhecer que aprendera com um subalterno.

Os nossos intendentes, por alguma razão, acreditam no prodígio que faz deles pessoas infalíveis no dia em que são eleitos. Em décadas de convívio contigo, de tertúlia literária, de discussão fraterna, nunca te vi imodesto. Antes pelo contrário. Vi o argumento, o arcaboiço, o conhecimento e a sabedoria. A inteligência fina, as ideias escoradas e a bonomia e o sorriso acolhedor. O aviso. O precato. A humildade.

Os antigos falavam em homens probos. Os antigos falavam em homens bons. Falavam também em pessoas éticas. Falavam em pessoas honestas. Quando te via lembrava-me desses homens com quem aprendi o vocabulário da urbanidade, o léxico dos bons costumes, da civilidade e da amizade. Pertences a esse raríssimo escol. Estás entre os melhores. Os nossos melhores. Dos poucos melhores que nos vão faltando.

Há precisamente 20 anos pediste-me que eu redigisse uma nota para a contra-capa do teu segundo livro: Nónumar (2001). Provavelmente o texto é canhestro, mas quis registar nele o testemunho indisputável da minha amizade e, sobretudo, quis que fosse a expressão inequívoca da minha admiração indefectível.

Não há muitos meses, enviei-te o meu último livro, Planisfério Moçambicano. Estranhei o teu silêncio. Afinal, não estavas bem. Discretamente fui sabendo de ti, mas estava longe de imaginar este duro epílogo. Ninguém poderia ou quereria conjecturá-lo. Agora vais tu para essa noite intérmina e para o destino do silêncio peremptório. Vivemos estes tempos que nos impõem a infelicidade, o desconsolo e a tristeza. Vivemos tempos de mágoa e de sofrimento. Vivemos um tempo de infortúnios.

Quando esta tarde os pássaros que debicam a minha janela impuseram o luto, procurei consolo nos teus versos. Não tenho aqui os teus livros de poesia, residem numa biblioteca estrangeira. A despeito, resgato de uma antologia (Nunca Mais é Sábado) aqueles poemas que designei para te representar e leio estas iridescências: “É este o Sul que eu abro nos meus livros/ nas ilhas ou nas terras adornadas/ que teimam em subir com o mar desperto/ e garrir-se de cor e gargalhadas”.

 

Maputo, 5 de Dezembro de 2021

 

 

 

 

 

 

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