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A Associação Cultural Muenda está a levar a cabo o projecto denominado “Arte na Alma”, residência artística que decorre entre 15 de Novembro e 11 de Dezembro, juntando artistas e profissionais de artesanato, artes visuais e carpintaria na sede da Muend’Arte, no Museu Mafalala e Toca Criativa, em Maputo.

Num comunicado de imprensa, a associação diz ainda que, em parceria com o Festival de Poesia e Artes Performativas (Poetas D’Alma), a Associação Muend’Arte vai acolher uma oficina de escrita criativa ministrada pelo poeta brasileiro João Innecco, uma conversa sobre “O Poder da oralidade nas artes plásticas” com o artista e comunicólogo moçambicano Circle Langa e uma exposição colectiva subordinada ao tema “O poder da oralidade”.

A residência artística, a decorrer na sede da Mued’Arte e no Museu Mafalala, vai juntar cerca de nove artistas moçambicanos, nomeadamente Muenda, Dji Nafita, Artel, Faira, Biatriz, John Tameka, Dainiki Tazzlon, Daniel e Dom Martinho.

Durante um período de cerca de um mês, cada artista tem a missão de criar uma obra plástica de um metro e meio, sendo que os dias de trabalho serão definidos pelo próprio artista, em função da sua disponibilidade. Já nos dias 26 e 27 de Novembro, as actividades irão decorrer no Museu Mafalala.

Segundo avança a agremiação, o resultado da residência artística será apresentado no dia 14 de Dezembro, através de uma exposição e venda de obras criadas nesse contexto.

No que concerne às oficinas de artes, actividades paralelas à residência artística terão lugar em três locais, a saber Muend’arte, Museu Mafalala e Toca Criativa.
As oficinas realizar-se-ão às segundas, quartas, sextas-feiras e sábados.

O escritor Moçambicano Mia Couto diz que as instituições dedicadas à área financeira têm que ter a componente social e contribuir para o impulsionamento da cultura e artes. O escritor defendeu seu posicionamento, na última sexta-feira, durante uma conversa intimista com o Nedbank Moçambique.

A conversa não serviu apenas para fazer perguntas, mas também colocar pensamentos. O escritor Moçambicano Mia Couto falou sobre a outra forma de ver o dinheiro, um dos temas escolhidos para o debate, onde desafiou as instituições financeiras a contribuírem para a cultura.

“Essas instituições que se dedicam aos negócios, tem que ter esta componente humana e estar disponíveis a abertura para a arte e cultura”, disse.

A conversa teve dois temas, a forma de ver o dinheiro e o seu último livro, lançado recentemente o “Caçador de elefantes invisíveis”.

A Cidade de Maputo vai, uma vez mais, receber uma edição do Festival Poetas d’Alma. Durante o lançamento, nesta quarta-feira, a organização disse que, acima de tudo, o propósito do evento é facilitar o trânsito internacional dos poetas.

“Um grande destaque desta edição é uma amostra do cinema curta-metragem, que acontece pela primeira vez. Entretanto, temos feiras de livros, discos, com vista a facilitar o trânsito internacional dos poetas. Importa ainda frisar que, sendo este um festival internacional de poesia, já foi classificado como o maior que acontece no solo africano”, disse Féling Capela.

Nesta terceira edição, o Museu da Mafalala foi escolhido para ser o palco onde os poetas irão expressar-se. O director do Museu da Mafalala, Ivan Laranjeira, manifestou a sua satisfação por receber mais uma edição do Festival Poetas d’Alma.

“É um momento ímpar voltar a este convívio de maneira tão poética, e nós estamos muito satisfeitos por fazer parte desta festa e poder, também, novamente celebrar este legado literário que a Mafalala tem – Casa dos Poetas de Moçambique”, expressou.

João Innecco, poeta brasileiro e curador do Festival de Poesia de Lisboa, traz consigo dois livros, sendo um da colectânea de actores que participaram na última edição do seu evento em Portugal.

Ao longo da vida, tenho sido galardoada com alguns prémios. Não questiono  as suas dimensões, as organizações que as outorgam, ao mérito e seu alcance geográfico. O mundo sempre encontrou formas de expressar  reconhecimento e apreciação. Porém, sempre assumi, de forma muito consciente, que estas menções honrosas são dedicadas e atribuídas, em primeiro  lugar,  aos moçambicanos e a todos que têm um compromisso para com este povo. A experiência me ensina a discernir o simbolismo e o realismo de qualquer premiação. Não importam as circunstâncias, existe sempre uma mensagem por detrás de qualquer premiação.

Pessoalmente, mesmo sendo avessa a estas premiações, assumo o  princípio de que todos merecem um reconhecimento pelo trabalho que realizam. Reconhecimento e condecoração sempre foram o factor mais importante da condição humana. Eles ocorrem e podem ser entendidos como elogio por tarefas bem-sucedidas ou valores pessoais. Mas, tem de ser, sobretudo, sinónimo de identificação com uma causa e a aceitação de que seguimos causas correctas e justas, que estimulam um engajamento naquele que acreditamos ser o caminho a seguir.

Reconheço, ainda assim, que esta indicação tem um sentido diferente; não apenas por ter sido a primeira nesta categoria, mas, e fundamentalmente,  porque retoma as questões essenciais, nesta fase crítica do planeta e da humanidade. Investir na humanidade não pode significar apenas uma alusão ou apanágio. Tem de ser assumido como um propulsor cujos retornos são, por si só, apropriados, úteis e ajustados aos diferentes desafios contemporâneos. Testemunhamos momentos dramáticos no planeta; a nossa própria existência parece estar em jogo. Da pandemia, que continua ceifando vidas de milhões; das mudanças climáticas, que devastam a esperança de dias mais seguros; dos conflitos sociais e militares; das crises económicas, de governação e de lideranças, parece que cavamos a nossa própria sepultura, a cada dia e ano que passam.

O meu pensamento, neste momento, e ainda com esta condecoração em mente,  continua dedicado às mulheres e crianças do meu país. Para elas, em particular, dedico as minhas energias para que elas possam desfrutar e sonhar com um Moçambique que lhes seja acolhedor, amigo, seguro e de sonhos.

Tenho acompanhado o retorno às aulas presenciais, os esforços sobrenaturais para que se ofereça um ensino que diminua as profundas desigualdades educacionais neste Moçambique em que estamos imersos. Sigo, a rigor, as condições das infra-estruturas educacionais, o reduzido número de horas lectivas, enfim, a sempre debatida atractividade da carreira de professor, com salários insuficientes e jornadas fragmentadas, que tornam o processo de ensino pouco efectivo. Eu não tenho dúvidas que com o advento da Covid-19, as desigualdades educacionais e a insuficiência de aprendizagem se aprofundaram. Muitos dos alunos ficaram isolados, sem acesso às plataformas e outros meios digitais menos afluentes. E reverter estas desigualdades exige um esforço gigantesco de toda a sociedade.

Seria injusto pensar, apesar de tudo, somente nos alunos, excluindo, deliberadamente, os seus principais condutores e mentores: os professores, sobretudo, aqueles que são os mais engajados e comprometidos, mais esforçados e que não se deixam influenciar por práticas corruptas e nepotismos. Existem muitos que são sérios e que merecem um reconhecimento e uma vénia. Professores que, com acções mais proactivas,  formam a linha da frente e asseguram a transmissão mínima de conhecimento e de valores, princípios e regras de sã convivência e disciplina.

Portanto, que este prémio humanidade, do Instituto de Iniciativa de Investimento Futuro para a Humanidade, seja, igualmente, um reconhecimento generalizado para todos os que auxiliam na transformação equitativa e qualitativa da educação, na sua relevância e na abordagem que transforma a aprendizagem na ferramenta que abre os caminhos para uma vida digna, honesta e solidária. Esse tem de ser o caminho da educação. Uma escola onde se aprende e se ensina, um espaço onde se sonha, se pode ser feliz e se caminha de mãos dadas rumo ao humanismo.

Não queria terminar sem deixar uma palavra de apreço à outra premiada, a  cantora americana Gloria Gaynor, uma personalidade comprometida com o humanismo. O galardão reconhece sua distinta e brilhante carreira, o seu  empenho exemplar no bem-estar do seu povo e, naturalmente, no próprio  progresso e impactos positivos na humanidade. Gloria Gaynor, com a sua “I will survive’, uma das minhas canções favoritas, tem sido um exemplo inequívoco para os artistas e o para mundo. Não é por acaso que a sua canção mais famosa tem sido recriada por dezenas de cantores de diferentes gerações.

Recebi, por estes dias, entusiásticas felicitações de amigos, colegas, conhecidos e até pessoas anónimas. Não podendo retribuir para todos, da mesma forma, aproveito para  agradecer humilde e sinceramente à todos que acreditam e que fazem de tudo para ajudar na estabilidade deste país, se empenham para que Moçambique seja desenvolvido, respeitador dos direitos das mulheres, das crianças, dos direitos humanos; aos agentes e instituições que promovem o bem-estar social, as artes e cultura, enfim, à todos cujo esforço e empenho têm impactado esta trilha do progresso e esta jornada mais sustentável e brilhante para a humanidade.

*Graça Machel foi laureada com o Prémio Humanidade, pelo Instituto de Iniciativa de Investimento Futuro para a Humanidade.

Por: Jorge Ferrão e Patrício Langa

 

Em 2022, o ensino superior em Moçambique completa 60 anos. Com efeito, foi a através de um decreto-lei 44530 de 21 de Agosto de 1962, que foram criados os Estudos Gerais Universitários em Moçambique e de Angola. Surgiam assim as primeiras instituições do ensino superior (IES) nos países africanos de língua oficial Portuguesa.

Seis décadas podem representar um tempo históricosignificativo para um país fundado em 1975, masincipiente para o ensino superior como instituição milenar competindo apenas com a igreja em termos de antiguidade. O termo ensino superior, aqui, é tomado como se referindo a todas as formas de educação terciária, pós-secundária, incluindo a do tipo universitária, politécnico. De facto, se nos atermos ahistória do ensino superior antigo, a África pode até reclamar-se o berço deste tipo de educação antes de mesmo de Cristo, coma Academia de Alexandria no Egipto fundada em 331 AC.

As famosas Universidades de Timbuktu, actual Mali, fundada em 1100, a Universidade do Cabo, fundada em 1829, mas também as universidades de Cartum, o Sudão(1902), Makerere no Uganda (1921), Ibadan (1948) na Nigéria, e Nairobi (1956) no Quénia são a evidência de que o ensino superior nos países de expressão Portuguesa fora de Portugal (PALOP) ainda esta no seu despontar.

Com a excepção do Brasil, cuja historia indica que a primeira instituição de ensino superior foi a Escola de Cirurgia da Bahia, criada em 1808 e a posterior as faculdades de Direito de São Paulo e de Olinda, em 1827, os PALOP tiveram que esperar até ao inicio da década de 1960 pelo ensino superior.

Nos casos de Moçambique e Angola o percurso inicia com um processo respaldado na mudança da política colonial em relação às colônias, a crescente demanda dos colonos e assimilados, associada a pressão inestimável das Nações Unidas que apelava a criação de mais condições de ensino, nas então colónias portuguesas do ultramar. Ainda assim, o ensino superior nestes países nasce com o pecado original da exclusãodos nativos.

Assim, celebrar seis décadas de ensino superior constitui em si um acto de regozijo, particularmente, quando se faz num contexto de independência do jogo colonial relativamente consolidado. Não obstante, os avanços, os desafios são reflexo de um subsistema da educação ainda emergente, num país que ainda busca seu rumo no concerto das nações. Em 60 anos em média criamos 6 novas universidades a cada década. Os desafios que temos em seis décadas muitas vezes olvidam que se equiparam as mesmas aspirações de sistemas nos quais cada década nossa equivale a um centenário. Alias, no Hemisfério Norte, de onde nos inspiramos e herdamos a ideia moderna do ensino do superior, as IES são ate milenares. Sem ser complacentes, precisamos ser condescendentes em qualquer que seja a avaliação das seis décadas. Até porque mais do que a própria avaliação e dos critérios que mais precisamos nos ocupar nas próximas décadas.

Tais desafios incluem um sistema que procura definir o seu caracter, com IES com maior pendor para a docência em detrimento da investigação, corpo docente em processo formação, necessidade de estudos específicos sobre o desenvolvimento do subsistema, e melhoria dos processos de formulação de políticas mais assertivas, entre outros. Tal como Angola, não admira, pois, que tenhamos percorrido a mesma trajectória, experimentado desafios muito semelhantes e, fundamentalmente, que o processo de consolidação se mostre, ainda, muito distante do seu final.

Sendo que o ensino superior se caracteriza não só pelo ensino, mas também pela pesquisa, extensão e inovação para a produção de conhecimento com impacto na sociedade, a comemoração dos 60 anos deste subsistema em Moçambique é uma oportunidade ímpar para se repensar o subsistema, as instituições e o seu papel na transformação da sociedade. Nesse repensar, cabe um debate profundo sobre as políticas do ensino superior, o lugar da pesquisa e extensão na formação dos estudantes, a formação de docentes, que, conjugados, e num contexto de inovação, concorrem para a qualidade almejada neste subsistema.

Entre avanços e retrocessos, desafios e oportunidades o ensino superior passou por diferentes processos de continuidade e rupturas. O esforço e empenho de jovens académicos, com todas as limitações, esteve sempre presente e tem sido o garante das mudanças, aprimoramentos e paradoxalmente dos problemas correntes. Não existem dúvidas e nem reservas que as IES nacionais foram as grandes responsáveis pela formação da maior parte do capital humano em Moçambique, que providencia e garante serviços essenciais ao Estado, sector privado, familiar e noutras esferas económicas, culturais e até na manutenção dos serviços dos ecossistemas.

Todavia, prevalecem questões estruturais, de governaçãoe coordenação do sistema, atitudes autocráticas e de poder discricionário dos gestores, tanto nas IES públicas como nas privadas. Os investimentos em infraestrutura, planos temáticos e curriculares são fundamentalmente desenquadrados, o tempo de formação questionável, esquemas de corrupção, e, coincidentemente, aascendência e precedência da política sobre a academiaou, por outras, a politização da academia que desvirtua o sentido da autónima “real” (e não apenas no papel) das IES que, noutros contextos, paradoxalmente tende a ser protegida pelo Estado.

Apesar dos avanços em termos de acesso ao ensino superior, com a expansão geográfica de IES um pouco por todo país, fruto da visão de política pública dos diferentes Governos, a base de conhecimento que sustenta os processos decisórios sobre o ensino superiorassenta em convicções fortes, com princípios normativos– do dever ser – em contraste com fraca evidência produzida através de estudos de base. Os quadros normativos e reguladores do sistema revelam um problema fundamental dum sistema político descentralizador na retórica, mas com tendênciascentralizadoras e autocráticas na prática. Com efeito, trata-se de um sistema que emula a sua insciência na medida em que se envolve num ciclo vicioso de relatórios técnicos comissionados e produzidos por agências de consultoria generalistas e profissionalizadas, que subcontratam, a preço rendeiro, académicos cuja autoridade e legitimidade radica do simples facto de advirem das IES.

Vivemos uma encruzilhada. Por um lado, a pressão das demandas duma sociedade cada vez mais ciente e crente dos benefícios do retorno do investimento no ensino superior, apesar duma apreciação e avaliação baseada no bom senso, informada por uma visão redutora e instrumentalista do ensino superior como o trampolim da mobilidade social através do emprego formal, no Estado, e nas Organizações não Governamentais (ONGs), mercado preferencial para a transação da reputação dos títulos e credenciais académicas.

Por outro lado, a saturação prematura dos lugares de emprego, particularmente, no aparelho do Estado, mas também nas ONG com maior proeminência, que prematuramente desfazem a ilusão da empregabilidade, dos graduados, num sistema cuja taxa de participação entre Jovens dos 18 aos 24 anos não atingiu sequer 10% em sem mil habitantes, reforça o estado de crise do sistema. Este paradoxo gera a ilusão da escassez, mobiliza empreendedores educacionais a criarem novas IES, por razões adversas a educação como bem-público, mas funcionam na propalada lógica neoliberal da mercantilização e co-modificação da educação, abordada por um de nos (PL), noutros escritos.

As IES, e, em particular a universidade, no conceito mais genérico, sempre teve um sentido de utopia e de um espaço de encontro de tradições e quebra de horizontes do conhecimento humano. A universidade é, igualmente, um espaço onde se cultivam a sociabilidade com a diferença de pensamento, com o pluralismo democrático, e igualmente, a esperança da humanidade. Esperança porque a sociedade deposita confiança nos processos deliberativos associados ao pensamento crítico, em principio, que radica da formação superior.

Assim, a universidades seriam, também, ao longo destes 60 anos, parte do projecto de consolidação da unidade nacional e representatividade dos diferentes grupos sociolinguísticos, suas tradições e utopias. As IES constituem espaços convencionais onde a expectativa seria a criação do designado ‘bildung’, quer dizer, à preparação da pessoa humana visando produzir cidadãos responsáveis, maduros, autônomos e capazes de refletirem sobre os seus próprios problemas, e da suasociedade e Estado.

Este exercício constitui o lançamento de um repto. O repto da oportunidade que ocasião que se aproxima com a efeméride do sexagenário nos oferece para repensar o ensino superior no país.

Lançamos o repto neste mês de Novembro,  demasiado simbólico e representativo para o ensino superior, quando celebramos o dia mundial da ciência e o dia dos estudantes, que enfrentam as vicissitudes de um sistema de ensino superior emergente. Os impactos da pandemia que escancarou em  2020,  as fissuras e fragilidades diante das restrições, incapacidade e outras aporias que provaram  o quão longo será o caminho a percorrer na edificação de um ensino superior robusto.

Mas do que se queixar da ausência do obvio, que a pandemia, apenas veio desnudar, estes tempos oferece-me como aqueles que podem ser da reinvenção. Sim  falta tudo para muitos, e há tudo para poucos, mas há também a oportunidade da ausência do padrão, da tradição, pois tudo e experimental. Portanto, se a inclusão digital parece ser um problema de fundo, não poderemos negligenciar o potencial da inclusão social.

Ao celebrar os 60 anos do ensino superior teremos de entre outras que tipo de ensino superior para que tipo de sociedade queremos.

Celebrar estes 60 anos tem de assumir um papel bem mais profundo e contundente. Redefinir o papel e a função do ensino superior num contexto de múltiplas necessidades sociais e humanas, para que as IES continuem impondo-se e respondendo aos desafios da sociedade com recurso ao pensamento crítico a esta tão caro. Não poderemos continuar dissociados da quarta Revolução Industrial, do advento da ciência artificial, da robótica e nem a redefinição da grelha de cursos que mais condicentes com as novas profissões. Estes tempos apontam para cenáriosverdadeiramente desafiadores, e que obrigarão Moçambique a repensar na direcção do seu ensino superior de forma geoestratégica e mais estruturada.

Nos próximos anos, os desafios serão acrescidos. Os impactos das sociedades de conhecimento colocam competências tecnológicas e digitais como activos ultra importantes. Seguir as novas tecnologias e os efeitos da revolução cientifica e tecnológica, evitará que sejamos marginalizados e esquecidos pelo tempo. 

 

“É na interação entre os pensamentos de uma pessoa e de um contexto sociocultural que nos construímos e criamos novas formas de entendimento, tornando ‘coisas simples’ ou momentos em fenómenos sistêmicos e não individuais”. É com este pensamento que Suzy Bila vai pintar uma tela inspirada em Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane. A pintura será exposta e leiloada em Itália, no dia 27 deste mês.

A 8 de Março de 2011, a investigadora Italiana Cristina Gemmino esteve em Moçambique a entrevistar Paulina Chiziane e Mia Couto, no contexto do seu Doutoramento. Nessa altura indicada por Matteo Ângius, a seguir, procurou entrevistar Suzy Bila em Lisboa e conhecer a sua oficina.

Oito anos mais tarde, a pesquisadora Cristina Gemmino manifestou o interesse de convidar a artista plástica moçambicana para o lançamento de um projecto virado à difusão das culturas dos países que têm português como língua oficial, em Itália.

A escolha de Suzy Bila para o projecto da Associação Cafuné não foi fortuita. Pelo contrário, a organização do evento italiano interessou-se por Suzy Bila ao perceber que a artista tinha apresentado uma individual de pintura sobre a problemática da mulher, nua e crua. Assim, surgiu a ideia de a convidar a integrar um projecto de pintura desenvolvido a partir da leitura da obra de Paulina Chiziane. “Como conheço a realidade da mulher moçambicana e a obra da Paulina Chiziane, faz-me dialogar com o passado que me assiste, aceitei o desafio”, afirmou, esta terça-feira, Suzy Bila.

 

Imagem: O caminho é longo. 2013 obra de Suzy bila. “Exposição nua e crua”

No Sul de Itália, num lugar ainda secreto (será revelado na véspera da sessão), conforme o convite da Associação Cafuné e da responsável artística, Cristina Gemmino, Suzy Bila vai pintar o feminino na companhia da actriz Delia de Marco e da saxofonista Laura Donatone, ambas italianas.

De acordo com a Cafuné, “A tela da Suzy e a interpretação de alguns trechos da obra da escritora Paulina Chiziane, Balada de amor ao vento, vão ser acompanhados pelos toques do sax com o declarado objectivo de convidar as participantes a uma viagem para além do próprio corpo, sugerindo pinceladas de maravilha e estupor e reflectindo sobre o papel da mulher ontem, hoje e amanhã”.

Imagem: O homem que queria ser rico 2013, obra de suzy bila. Exposição “Nua e crua”

 

Suzy refere: “À medida que me encontro como ser reflexivo, vou abrindo portas para entender o que me move. Isto leva-me a uma visão de uma condição do “eu” e a minha subjectividade de mulher artista educadora nascida num país em construção da sua identidade e a arte permite-me encontrar o espaço de desobediência, rebeldia e novas formas de pensar e agir numa procura de significados”.

A sessão que vai celebrar a obra de Paulina Chiziane foi agendada há um ano. Já nessa altura, Suzy Bila ficou fascinada por poder participar. “Senti que a abertura desta nova janela será um começo de algo no qual outras mulheres artistas poderão usufruir no futuro. É um desbravar do caminho. Espero que o entrosamento de literatura e pintura, através do meu olhar pictórico perante a obra da Paulina, Balada de amor ao vento, faça eco noutros espaços, gerando desdobramentos, novas formas de ver os problemas da mulher moçambicana, novos lugares de encontros e de reflexão, partindo de Itália para o mundo”.

O lugar secreto onde a pintura da obra irá iniciar é uma fazenda italiana. Depois, a pintura será terminada na presença do público e leiloada para apoiar a iniciativa cultural da Cafuné.

Suzy Bila termina referenciando que falar da arte é quebrar fronteiras e tirar sentido ao mundo onde tudo tem um nome. “É começar continuamente, é algo que se liga à vida que nos confronta com as nossas peculiaridades, atravessando todas as barreiras e vivendo mais longe dentro de ti e tão perto de si”.

Associação Cafuné

A Associação Cafuné é uma entidade que propõe uma série de eventos que desempenham um papel dinâmico e criativo, tanto para a preservação de contextos históricos já presentes no cenário cultural da Puglia (região do Sul de Itália) quanto para a promoção da cultura dos países de língua portuguesa.

A Cafuné tem como objectivos atrair o participante nativo e acompanhá-lo na descoberta dos universos de língua portuguesa, promover a literatura de língua portuguesa, promover e patrocinar acções de debate sobre literatura, artes e cultura e estimular iniciativas em defesa da difusão das culturas de língua portuguesa.

José Luís Cabaço entende que os arquivos da História de Moçambique devem ser abertos para que as novas gerações saibam exactamente de onde vêm. Falando do seu mais recente livro, À sombra da utopia, o autor explicou, em Maputo, por que a utopia é importante para as gerações.

 

À sombra da utopia: quando eu era nós é o mais recente título de José Luís Cabaço. A ideia do livro surgiu de algumas conversas que o autor teve com amigos, que, depois de lerem os textos que Cabaço publicou quando se encontrava na política, fizeram-lhe compreender que mereciam ser conhecidos. Assim, o autor seleccionou, do período em que estava na vida política activa, 10 textos de diversas épocas e matérias. Depois, fez um enquadramento de cinco, seis ou sete páginas, onde deu a história do texto e do contexto em que foi escrito.

Prefaciado por Lourenço do Rosário, À sombra da utopia é dedicado à mulher do autor e aos jovens moçambicanos, numa revisitação à História, não a grande narrativa, mas aos pequenos incidentes. “Foi isso o que procurei dar, explorando como é que se foi construindo o nosso pensamento colectivo, porque nos primeiros 10 anos da independência nacional discutíamos muito em conjunto. Daí a ideia de quando eu era nós. Naquela altura, o que eu dizia não representava o que eu pensava, mas o que nós pensávamos. A gente tinha pensamento comum. Trabalhávamos juntos e tínhamos uma linguagem empolgante. Pode-se deduzir que o que nós dizíamos reflectia o debate que tínhamos”.

De igual modo, José Luís Cabaço decidiu editar os textos em livro porque as novas gerações têm direito de ter acesso às fontes históricas do país, aos testemunhos e aos documentos. “No meu livro faço referência a isso: os donos da história não são os partidos nem os governos, mas o povo”. Foi mais ou menos a essa altura que José Luís Cabaço defendeu que os arquivos devem ser abertos aos historiadores, aos estudantes, aos investigadores ou aos jornalistas, “para que a nossa história, com tudo o que tem de grandioso e de menor, seja conhecida. A nova geração precisa de pegar na história real e fazer o próprio juízo de valor. Não julgar em função de clubes. Este país precisa muito dessa abertura das fontes, dessa disponibilização. Não estou a falar apenas da Frelimo. A Renamo tem documentação, MDM tem documentação, quer dizer, o exército tem documentação. Todos os actores envolvidos na História de Moçambique têm documentação que precisa ser disponibilizada para que as novas gerações possam saber exactamente de onde vêm e ter seu próprio juízo crítico sobre esse passado”.

Questionado se o país ainda está a produzir utopias, tal como no passado, José Luís Cabaço respondeu: “O grande sucesso da minha geração foi ter libertado o nosso país. A utopia da independência realizou-se. A justiça social, digo no meu livro, é uma bandeira que não conseguimos levar adiante. Deixamos por terra, e as novas gerações vão pegar naquela bandeira. A utopia não deve desaparecer. Alguém sempre vai pegar nela, pois a utopia não é a coisa do impossível, mas aquilo que nos faz andar para frente”.

Para Cabaço, “uma geração sem utopia é uma geração morta. É uma geração que não olha para o futuro, mas apenas para os pés. Todo este período histórico foi à sombra de uma utopia, essa sombra protectora que nos faz pensar no sentido da nossa vida”.

José Luís Cabaço entende igualmente que a leitura de um texto é sempre um diálogo entre aquilo que se é e aquilo que o texto diz. Por isso, “espero que o leitor leia o meu livro com abertura de espírito, com sentido crítico suficiente”.

 

Uma perspectiva com fracturas

Nas 297 páginas que compõem o livro editado pela Fundação Fernando Leite Couto, José Luís Cabaço também apresenta algumas fracturas que se iam desenhando no pensamento colectivo, o que contribui para que hoje tenha deixado de existir pensamento colectivo. Aliado a isso, “Trago também esta visão de fora de Moçambique, com distância física e ambiental que dá outras indicações analíticas. Quando estamos perto, às vezes, ficamos muito envolvidos e entusiasmados e algumas coisas não conseguimos ver”, acrescentou: “Quando a gente revisita o passado, tem duas tendências: ou a gente esquece tudo de mau e fala apenas do bom ou então a gente opta por dizer que tudo era mau e não havia nada de bom. É o que mais ouço”. Então, À sombra da utopia contorna essa tendência.

Segundo o autor, de alguma forma, À sombra da utopia é uma autobiografia intelectual, que reflecte como o seu pensamento se foi exprimindo nas várias circunstâncias. “Algo de mim está lá, mas não a contar a minha história”.

O exercício de memória de José Luís Cabaço foi feito em duas partes. Depois deste primeiro volume, dedicado aos textos escritos quando se encontrava na política activa, virá um segundo, com textos sobre a vida académica, com uma abordagem diferente daquela engajada, menos militante, mais analítica.

 

A obra de Paulina Chiziane, Niketche, integra uma lista de 10 livros, identificados como de leitura obrigatória, para admissão à Universidade de Campinas (Unicamp), no Brasil.

A Comissão Permanente para os Vestibulares da Universidade de Campinas (Comvest), no Brasil, escolheu Niketche, de Paulina Chiziane, como livro de leitura obrigatória (2022 e 2023) para o ingresso àquela instituição de ensino.

Na lista de leituras obrigatórias anunciadas pela Unicamp, Niketche aparece com mais nove livros, entre os quais Tarde, de Olavo Bilac; O marinheiro, de Fernando Pessoa; Bons dias, de Machado de Assis; Carta de Achamento a el-rei D. Manuel, de Pedro Vaz de Caminha; ou A falência, de Júlia Lopes de Almeida.

De acordo com a Unicamp, “as 10 obras da lista foram escolhidas a partir de critérios como a representatividade dessas manifestações literárias nas tradições culturais de língua portuguesa, o padrão de elaboração estética e a presença de núcleos temáticos adequados à formação pedagógica do aluno no ensino médio”.

Reagindo à notícia, Cremildo Bahule, autor do livro Literatura feminina, literatura de purificação:o processo de ascese da mulher na trilogia de Paulina Chiziane, afirmou, este sábado, que o reconhecimento à obra da escritora tem a vantagem de pôr a sua escrita no circuito académico brasileiro.

Já a pesquisadora brasileira Rita Chaves, que se especializou em literatura moçambicana, lembra: “Paulina Chiziane vai muito ao Brasil e tem um conjunto de leitores sólido. Paulina e Mia Couto, juntamente com Pepetela, são os escritores que mais motivam dissertações de mestrado e teses de doutorado no Brasil, nos últimos anos. Isso não é pouca coisa. O Brasil é um país enorme e com muitos cursos de letras e áreas afins”.

Vanessa Riambau Pinheiro, igualmente, pesquisadora brasileira que se dedica à literatura moçambicana, convidada a falar sobre a primeira escritora africana laureada com o Prémio Camões, afirmou: “No Brasil, o nome de Paulina Chiziane é incontornável, quando se fala em autoria feminina em África”. E, como que a reforçar a constatação de Rita Chaves, Vanessa Riambau Pinheiro sublinhou: “Existem centenas de pesquisas realizadas, feitas por estudantes de universidades brasileiras sobre a obra de Paulina. Existem pelo menos três editoras brasileiras que já publicaram as obras de Paulina Chiziane”.

Para Vanessa Riambau Pinheiro, Paulina Chiziane consegue, nas suas obras, convidar a uma reflexão sobre condições sociais, opressões, colonialismos, sem deslegitimar as práticas culturais moçambicanas. “Pelo contrário, a sua obra configura-se como uma grande declaração de amor ao país e aos moçambicanos”. Por isso mesmo, Vanessa Riambau Pinheiro questiona: “Será que Moçambique já consegue mensurar a importância de Paulina Chiziane?”.

O Conselho Municipal de Maputo homenageou, a título póstumo, esta quarta-feira, Dia da Cidade de Maputo, o músico Hortêncio Langa. Na cerimónia realizada no Átrio do Passos do Município estiveram a família e eternos amigos do artista versátil.

 

Em 1977, Stewart Sukuma chegou a Maputo. Nessa altura, tinha 14 anos de idade e, como se fosse ontem, o artista lembra que a primeira música que ouviu na rádio, “Teresa”, de Hortêncio Langa, era um hit nacional. Daí em diante, o tema ficou no seu coração.

A música a que Stewart se referiu no Átrio do Passos do Município, esta quarta-feira, momentos antes de a interpretar na cerimónia de homenagem póstuma a Hortêncio Langa tem como protagonista uma mulher. Teresa é nome da personagem que, certo dia, se vai embora, deixando para trás, entende-se, o marido e os filhos menores que clamam pela presença da mãe. Por isso mesmo, o sujeito afectado pela ausência da mulher, faz uma ode a pedir o regresso da amada, ora reforçando o seu amor, retratando a dor das crianças, ora pedindo que Teresa volte para casa.

De facto, 44 anos depois de Stewart Sukuma ter-se deixado encantar por “Teresa”, a interpretou na homenagem àquele que considera um dos seus compositores favoritos. “Tive o privilégio de privar com ele, de cantar com ele e tenho influência dele na minha música. Hoje, Hortêncio Langa continua a ser uma referência do que eu componho”.

Além de “Teresa”, Stewart Sukuma interpretou “Lirandzu”, outra música que significa muito para si, sempre acompanhado por Walter Mabas na guitarra.

A música de Hortêncio Langa foi cantada por várias vozes que o admiram. Num dos momentos mais simbólicos da cerimónia, Xixel Langa cantou três músicas em memória do pai. No palco, a cantora não esteve sozinha, fez-se acompanhar pelos seus manos: Dário Langa (na guitarra) e Texito Langa (bateria). Antes de cantar, com efeito, a autora do álbum Inside me confessou: “Esta é a primeira vez que vou cantar sem o dono das músicas. Já estava habituada a ser corrigida depois de as interpretar, mas me preparei bem e espero que gostem”.

Xixel cantou como sabe e os dois irmãos tocaram de forma particular os temas daquele que continua a ser inspiração para a família Langa. Os munícipes de Maputo e o seu presidente ouviram o trio. Mais tarde, quando se dirigiu ao pódio, Eneas Comiche afirmou: “Para que fique registado na História, decidimos honrar a memória de Hortêncio Langa, homenageando publicamente na data em que Maputo celebra 134 anos da sua elevação à categoria de cidade”. Continuou Comiche: “Hoje, os munícipes e o Conselho Municipal de Maputo curvam-se a este homem que cantou a realidade de Maputo, de forma exímia. Celebrando a sua obra, recordamos a carreira de um homem que se tornou referência graças aos seus temas e aos seus ritmos musicais”.

Segundo Eneas Comiche, Hortêncio Langa é digno de admiração e respeito por ter internacionalizado a música e a cultura moçambicanas, por exemplo, através da sua participação em festivais musicais e eventos artísticos no estrangeiro.

Reconhecendo o gesto do Conselho Municipal, em nome da família, Dário Langa, primeiro, lembrou o pai como um educador por excelência e artista versátil. Segundo, afirmou que as obras deixadas pelo pai vão influenciar novas gerações. “Homenagear Hortêncio Langa”, disse Dário Langa, “é prestar homenagem à cultura moçambicana por ele ter procurado soluções e reconhecimento para os artistas”.

Para os filhos, Hortêncioo Langa foi um homem com um carácter sem igual, firme, mas carinhoso. Sempre bem-disposto. Disse Dário Langa: “A família recebe esta homenagem com imensa gratidão. Homens com ele [Hortêncio Langa] não morrem jamais, apenas dormem”.

O último conjunto a interpretar composições de Hortêncio Langa, na cerimónia de homenagem, foi a banda Alambique, de que o músico fez parte até à morte. Antes de cantar, Arão Litsure revelou: “Levantamo-nos dos escombros musicais para homenagear Hortêncio Langa.

Na sessão que contou com a presença da viúva de Hortêncio Langa, o Conselho Municipal de Maputo ofereceu um diploma de honra e 100 mil meticais à família do músico que cantou “Maputo, u xonguile demais”.

 

 

 

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