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O País – A verdade como notícia

Obra literária de Ungulani ba ka Khosa vai chegar aos leitores chineses depois de um acordo assinado com o autor.

Em 2015, Ungulani ba ka Khosa lançou o romance Choriro pela Sextante de Portugal (do Grupo Porto Editora). Seis anos depois de ter sido lançado no país (Alcance Editores, 2009), o livro do escritor ultrapassou fronteiras nacionais, exportando, desse modo, todo um imaginário para outras geografias.

Agora, a boa notícia chega do Oriente. A editora chinesa Jiangsu Phoenix Literature and Art Publishing acaba de assinar um acordo de tradução e edição, para o mandarim, com Ungulani ba ka Khosa e com a portuguesa Porto Editora.

Referindo-se à novidade, esta segunda-feira, Ungulani ba ka Khosa admitiu estar satisfeito por saber que as suas personagens do Vale do Zambeze vão falar mandarim. “Mas o que mais me  alegra é o facto de a nossa Cultura maiúscula entrar por esse Oriente que acolhemos neste espaço Índico durante séculos. A nossa vocação para o Oriente é não só geográfica, mas, acima de tudo, cultural. E quando o intercâmbio  se  estabelece, de facto, alegra a qualquer um de nós; e a literatura sai a ganhar com isso”.

Com a tradução para o mandarim, acredita o autor, Luís António Gregódio, também tratado por Nhambezi, personagem central da história, sai das fortificações do seu estado militar e passa a apreciar a grande muralha da China, falando com as populações locais em mandarim. Logo, “com esta tradução, o Vale do Zambeze ganha a merecida internacionalização”.

O romance Choriro é uma história de Gregódio, um português que, devido às suas virtudes, destaca-se no seio das altas sociedades do Vale do Zambeze, no Centro de Moçambique.

A ficção de Ungulani ba ka Khosa mergulha no passado de Moçambique e de lá extrai histórias incríveis, introduzindo sempre o leitor no contexto da civilização do Vale do Zambeze de há alguns séculos. Dessa maneira, captam-se o modus vivendi, entre o místico, o insólito e a tradição. De igual modo, Choriro é um cruzamento entre povos africanos e europeus, demonstrando que as influências culturais não foram unilaterais.

Com o acordo de tradução para uma das línguas com mais falantes em todo o mundo, com efeito, a arte e a cultura moçambicanas poderão ser lidas por milhões de chineses.

Realizou-se, no último sábado, a gala final do Fama Show. Marta Vilanculos é a grande vencedora da sétima edição do concurso. Subiram, também, ao pódio, Zezé Chris e Afonso Júnior que ficaram em segunda e terceira posições, respectivamente. De resto, só se fez espectáculo na 10ª gala do Fama que teve transmissão em directo na STV.

A noite era calma e escura, como uma das suas características, mas, a deste sábado, seria diferente. Teria brilho e isso foi notório logo à entrada da Arena 3D na KaTembe. Eram as luzes e bandeirolas dos parceiros do Fama Show que iluminavam o recinto, dando um indicativo de que a grande final do reality show seria fantástico. Do lado de fora, já se ouviam algumas actuações. O relógio apontava para 20h e alguns minutos e a décima gala já estava no ar!

E de grande, não era só a gala, mas também a organização! Afinal, nada podia falhar num evento que teve uma transmissão em directo.

Cumpriu-se à risca com as medidas de prevenção da COVID-19, o palco estava impecável, luz no ponto, cenário sem igual, o som da banda bem afinado e os concorrentes. Os concorrentes, estes, não defraudaram as expectativas.

Porque foram chamados pela e para a música, ouviram a voz que soou e os 11 finalistas apresentaram-se ao palco do Fama Show.

À pantera negra, foi-lhe dada a oportunidade e a responsabilidade de abrir a gala final, tendo feito valer a confiança.

Conhecido como o big boxer desde o início da sétima edição do Fama Show, Afonso Júnior não fugiu ao estilo próprio na gala final do concurso.

Fez uma introdução de verdadeiro big boxer, encarnou Costa Neto e proporcionou um show. Aquilo era apenas o começo do que estava reservado para a grande final do reality show.

A música moçambicana é que esteve em alta no derradeiro dia da sétima edição do Fama Show. A dupla Matias e Timóteo voltou a homenagear um dos ícones da nossa música, Hortênsio Langa. O júri ficou impressionado.

Da cidade da Beira, província de Sofala, Marta Vilanculos destacou-se na sétima edição do reality show, por interpretar música Gospel e na grande final fez uma actuação de cortar a respiração.

Como se não bastasse, Marta Vilanculos exibiu, na grande gala, a capacidade de poder cantar com cada um dos integrantes da banda.

Pois é! No palco, viu-se um espectáculo sem igual, mas e nos bastidores? O que estava a acontecer?

Numa sala dos bastidores, os concorrentes acompanhavam a actuação dos que estavam em palco com sentimentos de tensão e expectativas em relação ao vencedor à mistura.

Angelina Chicuamba podia até tentar esconder o nervosismo, mas o pé não a deixava fazê-lo e ela sabe que tudo desaparece quando estiver em palco.

“Estou nervosa, sim! Mas sempre foi assim nas outras galas, mas assim que subir ao palco, isso tudo passa”, disse Angelina Chicuamba, num tom descontraído.

Já Dário Marrime prefere descontrair-se no celular enquanto aguarda pela sua vez para subir ao palco e com uma missão clara. “Subirei ao palco para agradecer a todos os que me apoiaram durante o concurso”, apontou Dário Marrime, um dos concorrentes finalistas.

E os que já estiveram no palco, voltam aos bastidores com o sentimento de missão cumprida e só resta aguardar pelo anúncio do grande vencedor!

Desde a fase de casting, os correntes tiveram de companhia de alguém que sempre os entretinha e com eles conversava. “Foi muito bom e um privilégio fazer parte desta família. Está de parabéns a Stv por esse concurso de qualidade que o país todo saiu a ganhar”, afirmou Yumaina Mussane, repórter do Fama Show.

Voltemos então ao palco para ver e viver a qualidade do Fama Show. Viajou-se um pouco por todos os estilos musicais e diversas línguas, mas a qualidade em todas as vozes era o denominador comum.

E claro, não faltou dança no palco do reality show.

Porque reza o ditado que “o bom filho sempre volta à casa”, Nelson Nhachungue regressou ao palco que o viu nascer como artista no Fama Show de 2005. Ace Nells era o principal convidado.

Além de Nhachungue, houve actuação de uma das melhores vozes da música jovem moçambicana, Raimundo Sive.

Gilson Marqueza e Helsias Mwiya, eliminados na semi-final, foram também convidados a juntar-se à grande festa da final do Fama Show.

Depois de excelentes actuações, a música, mais uma vez, voltou juntar as futuras estrelas no palco para o anúncio do grande vencedor.

E foi Nelson Nhachungue quem anunciou os vencedores da sétima edição do Fama Show!

Marta Vilanculos, a menina do gospel, foi a grande vencedora, tendo ocupado o primeiro lugar, seguido de Zezé Chris e Afonso Júnior que ficaram na segunda e terceira posições, respectivamente.

Assim, foi a sétima edição do Fama Show e a grande novidade é que já estão abertas as inscrições para a próxima edição.

Foto: Fernando Hua

 

O novo livro de Teresa Noronha foi apresentada ao público esta sexta-feira, no Camões – Centro Cultural Português, na Cidade de Maputo.

O Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, abriu as portas a um Tornado feito de letras. O livro de Teresa Noronha, editado pela portuguesa Exclamação, em Março deste ano, depois de alguns adimentos, foi finalmente lançado numa cerimónia bem concorrida.

A função de apresentar a obra laureada na primeira edição do Prémio Literário Maria Velho da Costa, criado pela Sociedade Portuguesa de Autores, foi confiada a Álvaro Carmo Vaz. De acordo com o professor catedrático, Tornado retrata o que raramente é falado, não de quem morre mas de quem fica, o vazio que permanece após o acontecimento, o desaparecimento do ponto de apoio e o desequilíbrio do mundo. Para Carmo Vaz, igualmente, “Tornado é um livro duro, não nos poupa. E exige investimento por parte do leitor, a narrativa não segue uma cronologia linear, do mesmo modo que as nossas recordações, as memórias que lembramos ou imaginamos, também não o são”.

Ainda na apresentação do livro, esta sexta-feira, Álvaro Carmo Vaz referiu-se ao que é um exemplo para a literatura moçambicana. “Há um último aspecto que gostaria de referir neste belo livro de Teresa Noronha – o da escrita. Li e reli o livro e a escrita é perfeita”. Dito isto, o apresentador da obra acrescentou: “Não encontrei uma palavra que devesse ser outra, uma frase que ficaria melhor num outro sítio. Este livro, parece-me, não é fruto de um rasgo de inspiração, de uma escrita a jacto. Para se chegar a este apuro da escrita, imagino que frases, parágrafos, páginas inteiras, foram reescritas duas, três, dez vezes, com a autora a agonizar sobre a justeza de cada linha, sobre o encadeamento das frases, sobre a arrumação dos episódios”. E Carmo Vaz sentenciou: “É um grande exemplo para nós, em Moçambique, onde se publicam inúmeros livros, muitos deles com excelentes ideias, sem que se lhes seja dado o necessário tempo de maturação, do repensar, do reescrever, que uma obra séria exige.

Ao longo da sessão de apresentação do seu livro, Teresa Noronha contou que Tornado faz parte da sua história, que, obviamente, começa no país onde nasceu, muito antes de se mudar para Europa. Em condições normais, o livro devia ter sido lançado em Portugal, no entanto, questões de ordem logística impediram que o evento acontecesse. Ao invés de ficar triste, com efeito, a escritora que tem editado vários livros infanto-juvenis pela Escola Portuguesa de Moçambique, ficou satisfeita. “Este livro tinha de ser lançado, primeiro, em Moçambique. Este é um livro que faz parte da minha história em Moçambique, sobretudo. Portanto, estou muito contente de estar a ser lançado em casa, antes de ter sido lançado em outro lugar qualquer”.

Tornado é um livro constituído por 155 páginas, cuja história retrata temas como a infância, a nostalgia e o drama da morte. Ao longo do discurso, a narradora retrata certas ocorrências que caracterizaram o tempo colonial, o ano da transição para independência nacional ou relacionadas com os primeiros anos da independência de Moçambique.

Ao escrever o livro, Teresa Noronha investiu num relato intimista e intenso, tendo uma narradora a contar eventos como quem se lembra do que aconteceu e nunca devia ter acontecido: um suicídio.

 

O secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos sugere a valorização do legado deixado por Sérgio Vieira no mundo literário. O escritor Juvenal Bucuane descreve Sérgio Vieira como um impulsionador da literatura moçambicana.

A morte de Sérgio Vieira está a merecer reacções da classe dos escritores pelo seu papel como entusiasta da poesia, com um dos livros emblemáticos publicado “Também Memórias do Povo”.

Segundo Carlos Roque, Secretario Geral da AEMO, o livro prova o quanto era apurada a veia literária do Sérgio Vieira, e afirma categoricamente que é expoente da literatura moçambicana. “Perde a cultura moçambicana mas o papel próximo é valorizar a sua obra porque este é uma grande fonte de expiração da nova geração de poetas Moçambicanos”. Disse.

O escritor Juvenal Bucuane diz que suas obras marcaram a história do país no combate ao colonialismo, recorda ainda sobre a sua entrada na agremiação em 1983. “Eu e outros jovens, estou a falar dos escritores actuais, aproximamos na associação e Sérgio Vieira já estava la. Tinha a tradição de todas as sexta-feira fazer leituras literárias, em que se declamava poesia, discutia-se muito sobre a literatura”.

Como membro da Associação dos Escritores Moçambicanos, Sérgio Vieira exerceu várias funções, entre elas, de Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

O romance Os sobreviventes da noite, da autoria de Ungulani ba ka Khosa, foi reeditado pela Cavalo do Mar. A apresentação aos leitores aconteceu esta quinta-feira, na Cidade de Maputo.

12 anos depois do livro ter esgotado, Os sobreviventes da noite volta a merecer destaque nas livrarias nacionais. A obra literária de Ungulani ba ka Khosa foi reeditada pela Cavalo do Mar e a apresentação pública da nova edição aconteceu no Auditório do Moza Banco, na baixa da Cidade de Maputo.

Na cerimónia restrita, Ungulani ba ka Khosa agradeceu à Cavalo do Mar, pela qualidade de edição, e sublinhou que nenhum país se firma no quadro das nações se não estiver alicerçado à sua cultura através das várias disciplinas que a compõem. A agradecer o gesto do patrocinador da obra, Moza Banco, o autor disse que o apoio à cultura é fundamental e que um livro só existe quando está disponível ao leitor. “Vi na editora do Mbate [Pedro] a qualidade que ele imprime nos livros. Nós passamos a amar os livros antes de os ler, e isso é maravilhoso porque tocamos nos livros e sentimos vivacidade”.

Depois de lançar uma obra literária, Ungulani ba ka Khosa não tem o hábito de voltar a lê-la. No entanto, fascinado pela qualidade da edição da Cavalo do Mar, o autor confessou que voltou a ler Os sobreviventes da noite para saborear, igualmente, o projecto gráfico.

Na cerimónia, Ungulani contou ao público que o livro foi escrito numa espécie de bolsa literária no Distrito de Moamba, Província de Maputo, graças a um cunhado que o emprestou um lap top, numa altura em que esse tipo de aparelho quase que só era usado por funcionários dos bancos. Armando Artur, amigo do autor e apresentador do livro, lembrou-se desse episódio, pois, quando Ungulani ainda escrevia o livro, foi lá visita-lo. “Lembro-me que, quando fui ter com ele a Moamba, um dia desses, de muito calor, encontrei-o de tronco nu. Na verdade, ele próprio parecia um sobrevivente da noite”, brincou o poeta.

Para Armando Artur, todos os livros de Ungulani ba ka Khosa merecem ser editados, pela sua qualidade literária e porque são livros que marcam a literatura moçambicana.

O anfitrião da cerimónia de apresentação da nova edição de Os sobreviventes da noite foi João Figueiredo, em nome do Moza Banco, para quem “Ungulani nos deixa todos orgulhosos pelas suas obras. O Moza Banco quis dizer que sim, que o nosso apanágio é viver a cultura de uma forma muito presente e muito constante”.

No Auditório do Moza Banco, esta quinta-feira, a actriz Ana Magaia, que, segundo Ungulani, “tem a particularidade de pegar num texto e pôr as palavras a vibrarem”, leu algum excerto do livro que, assim, excitou alguns leitores.

Os sobreviventes da noite é um livro intenso, que ficciona a memória da guerra, retratando momentos dramáticos e trágicos, tendo as crianças no centro da narrativa.

A iniciativa da Bawito Music, Festa das estrelas, foi lançada esta quinta-feira, na Cidade de Maputo, e conta com apoio do Governo.

Esta quinta-feira, no Hotel Glória, na Cidade de Maputo, a Bawito Music apresentou, oficialmente, o projecto Festa das estrelas. Essencialmente, trata-se de um movimento que pretende ser anual, durante o mês de Dezembro, com o propósito de unir cantores, músicos, produtores, DJ, apresentadores de TV, locutores, modelos, estilistas e todos aqueles que contribuem para a promoção do entretenimento e das artes em geral no país e no estrangeiro.

No evento, o responsável da Bawito Music, Mr. Bow, reforçou que é fundamental enaltecer aqueles que ajudam a divulgar as artes e a cultura moçambicanas. “Estamos aqui com pessoas muito especiais, que representam a nossa cultura e que são muito amadas, no país e pelo mundo fora. Infelizmente, não foi possível estar com todos os artistas, mas temos aqui pessoas que representam os artistas que não puderam cá estar. Esta iniciativa veio para ficar”, garantiu Mr. Bow.

Segundo acredita Mr. Bow, o intercâmbio proporcionado pela Festa das estrelas vai trazer benefícios visíveis porque havia artistas que nunca tinham tido uma oportunidade de conversar. “Os artistas vão conhecer-se ainda melhor, trocar ideias e fazer colaborações. Muitos sucessos vão aparecer por causa desta iniciativa”, vaticinou o fundador da Bawito Music.

A Festa das estrelas, nesta primeira edição, conta com apoio do Governo, que, no Glória Hotel, fez-se representar pela Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula. A este respeito, Bow afirmou: “a presença da Ministra significa que não estamos sozinhos. Recebemos, através dela, a mensagem do Presidente da República, Filipe Nyusi, que nos felicita e faz votos de que esta postura continue entre nós”.

Na primeira pessoa, Eldevina Materula explicou que o Governo esteve representado no evento porque está e deve estar com os artistas. “Estas estrelas, que estão aqui representadas por este pequeno número de artistas, mostra que foram resilientes, reinventaram-se a meio da pandemia para poder ter o seu pão à mesa. Estas estrelas não estão aqui para reclamar, mas para celebrar a vida, a moçambicanidade, reconhecendo que há muitos desafios e muito por fazer, conscientes da importância da sua arte, da sua cultura e do seu trabalho para o nosso país. Por isso, temos de estar com a Bawito Music, com o Mr. Bow e com todos os que têm levado a bandeira de Moçambique além-fronteiras”.

Para os artistas convidados, Festa das estrelas é um evento necessário, e justificaram: “Festa das estrelas é evento muito positivo e bonito. É importante que os artistas se reúnam. A música e as artes são fontes que aliviam as pessoas. Nós, como músicos, já nos encontramos algumas vezes, mas, desta forma… isto vai valer muito para o público moçambicano”, afirmou Ziqo.

A reforçar, Nelson Nhachungue acrescentou que a união entre os artistas e promotores do entretenimento é essencial porque assim o nome de Moçambique pode ser bem projectado para o estrangeiro. “É salutar, num evento deste, conviver e trocar ideias com os colegas. Talvez, neste evento, possam surgir algumas parcerias entre os artistas, o que é necessário, principalmente para esta fase em que vivemos”.

A finalizar, Júlia Duarte disse que é importante o intercâmbio promovido pela Bawito Music “porque há muito tempo que não nos víamos e não nos reuníamos. De uma forma ou de outra, este evento vai reanimar alguns artistas que estavam desanimados porque já não trabalham como deve ser. Penso que para o ano faremos um balanço positivo do resultado das parcerias que surgiram neste evento”.

Próximo domingo, o bailarino Ídio Chichava vai apresentar-se no Espaço Recreativo Makhall’s Arte, no Bairro Polana Caniço, na Cidade de Maputo. A partir das 17 horas, 30 pessoas (no máximo) vão poder ver uma performance preparada para um espaço alternativo, tornando-se, assim, a dança acessível a novos públicos.

A performance de Ídio Chichava, que já foi apresentada em digressão em espaços alternativos da França, onde o bailarino vive e trabalha, vai durar 20 minutos. SmogForever é o título do espectáculo de Chichava e aborda a temática do aquecimento global e a responsabilidade colectiva e individual na tomada de consciência para acções mais saudáveis ao meio ambiente. “Nesta performance, normalmente, faço-me acompanhar com Frank Micheletti, que é um criador sonoro e director artístico da companhia francesa Kubilai Khan, com a qual trabalho há 16 anos. Infelizmente, ele não estará presente, mas os seus sons estarão presentes na performance”.

Com apresentação SmogForever no Espaço Recreativo Makhall’s Arte, portanto, a pretensão de Ídio Chichava é entregar a arte à apreciação de todo tipo de pessoas e levar o público habituado a salas convencionais a espaços da periferia. “Isto justifica, também para mim, uma formação prática de novos públicos para dança e teatro”. Além disso, o artista acrescenta que a sua performance acontece, simplesmente, com o objectivo de dizer que a arte contemporânea pode ser apreciada e apresentada nos bairros populares. “A arte não é só feita para a burguesia. Deste modo, criamos variedade de lugares para apresentação performativa”.

SmogForever será a primeira performance apresentada em Moçambique depois de dois filmes de Ídio Chichava e Ívan Barros, Último berro e Começa a ficar tarde, terem sido distinguidos com duas menções honrosas no Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros, em França, em Outubro deste ano.

Por: Andes Chivangue[1]

 

O que significa ser escritor em ambiente de pobreza, fome e doença endémicas? Qual é a função da literatura quando o sonho teima em morrer com o por do sol? Para quem escrevemos e com que finalidade? Escritores e críticos de literatura têm explorado com alguma profundidade questões desta natureza e muita da reflexão disponível reflecte uma perspectiva eurocentrada sobre a matéria. Com efeito, uma coisa é escrever no espaço schengen e outra, completamente diferente, é fazê-lo nos intervalos de múltiplos empregos de baixos salários, nas noites em que nos cabe a vez de guardar a casa contra os tantos males que permeiam a noite, corrupção de níveis paroxísmicos e o desespero por não sabermos que futuro espera os nossos descendentes. Nestas circunstâncias dificilmente teremos uma escrita cujo papel primário seja o de entreter, apenas a função lúdica. O contexto impelirá sempre o escritor a engajar o desconforto que vê ou experiencia.

A leitura do livro “Vestidos de Terra”, de Rogério Manjate, não só nos permite desfrutar de estórias narradas com mestria, mas também fazer uma incursão sobre as questões levantadas mais acima. Portanto, sob o ponto de vista de ferramenta de trabalho abordo este livro recorrendo a dois tipos de leitura: uma interna e outra externa. A primeira foca-se na arquitectura das estórias e a segunda assenta na interpelação política que a maioria dos textos sugere. Esta forma de análise é proposta por J.M. Coetzee, em Stranger Shores (2001), um livro de ensaios elaborados entre 1986 e 1999. Iniciemos, então, com análise interna que, de forma breve, procura, abordar a estrutura dos contos e seu conteúdo.

Em “Vestidos de Terra” as estórias traçam uma trajectória histórica desde o período do final da colonização (em “Imagem e Semelhança”), passando pela modernização coerciva (em “Magoda e Jubeta” e em “E Tudo a Chuva Molhou”), as promessas da revolução (em “Emproibido Machico”) e as representações e simbologias dos papéis sociais no seio familiar (“Feitiço?” e “Malaque”). Este alinhamento, intencional ou não, demonstra que a tradição constitui uma ordem transpessoal da qual não podemos escapar, na qual nos procuramos situar, sendo nela onde a nossa vida é definida e continuamente redefinida através de sucessivas gerações. Deste modo, “Vestidos de Terra”, embora divido em dois, “Imagem e Semelhança” e os contos reeditados de “Amor Silvestre”, ambos representam uma unidade que procura retratar a manutenção de sistemas institucionais extractivistas e opressores que perduram no tempo. Portanto, uma característica distintiva do texto Vestidos de Terra é o facto de apresentar contos com múltiplas histórias que ecoam das estórias nucleares.

E é precisamente a habilidade de tecer enredos com diversas camadas que torna o autor deste livro um dos melhores, senão o maior contista da minha geração. E posso garantir-vos que esta afirmação está longe de ser um lugar comum com o intuito de massajar egos ou entreter plateias. Trata-se de uma constatação que procurarei demonstrar ao longo desta comunicação.

Todo o artista que se preze procura esquivar-se ao “beijo da morte”, o que só parece ser possível quando – e aqui aludo ao raciocínio de Margaret Atwood, no livro Negotiating with the Deads – conseguimos negociar com os mortos, no sentido em que contar estórias consiste em estabelecer uma relação entre eventos que se desencadeiam ao longo do tempo, daí a diegese estar profundamente imbricada no tempo. Numa situação em que tenhamos um relógio temos, igualmente, a morte e pessoas mortas, sendo que estas são separadas dos vivos justamente pelo tempo. E os mortos persistem na mente dos vivos”. E a que mortos interessa fazer alusão aqui? Os parentes e amigos, mas, sobretudo os escritores. Dito de forma simples, é a negociação bem-sucedida entre os autores vivos e os clássicos que eternizam a obra. No caso de “Vestidos de Terra”, tudo indica que o principal defunto com o qual Rogério Manjate negociou foi João Guimarães Rosa. As marcas desse diálogo são pronunciadas nos textos “Amor Silvestre” e “Magoda e Jubeta”. Com efeito, neste último conto encontramos a densidade imagética, de acção e inflexões vocabulares, muito comuns nos livros de Guimarães Rosa, com o poder de imprimir maior verosimilhança na narrativa, tal como podemos observar no seguinte excerto:

Suores para todos; o calor de dezembro afoga-se na xilalasana fresca e discute-se gargantas. Magoda é homem de bebida mais futebol desde a reforma, e dono da jovem esposa Jubeta. E Jubeta? – só panela e fogão. Com o caminhar dos anos ela também aprendeu o serviço da bola e kanika quando ia todas as noites ao quintal da Zafita carregar o marido bêbado. Oh wê! e o quando o Maxaquene perde? (pag. 145).

 Só este parágrafo já é em si um micro-conto ao estilo de Ana Maria Shua, apresenta todos os elementos importantes do conto e o enredo fica para o leitor, nas entrelinhas do que não é dito. Imaginemos, então, uma estória contada com esta densidade! É, decerto, um tipo de texto para ir digerindo sem pressa e saborear cada palavra que o compõe. No entanto, Manjate não negoceia apenas com os mortos, mas também com os vivos, podendo destacar-se, dentre vários, dois autores expressivos: António Lobo Antunes e Mia Couto. As marcas do primeiro autor podem ser encontradas nas primeiras linhas do texto “Malaque”:

 

– Já passeaste a Julie?

Já passeaste a Julie foi o boa-tarde como estás querido Malaque, que o homem recebeu nessa tarde já torta sobre os telhados alaranjados pelo sol horizontal (pag. 11).

 

E essa marca mantem-se ao longo do texto quando, nas páginas subsequentes, a conversa telefónica entre Malaque e Malinde vai ecoando na sua cabeça:

 

– Já passeaste a Julie?

            – Sim.

            – Quero encontrar-te em casa Malaque.

            […]

            – Vais fazer arroz de tomate (pags. 22 e 13).

 

Por seu turno, os vestígios da estética de Mia Couto são notórios no trabalho subversivo do autor sobre a gramática em palavras como “varanda” que no texto “Emproibido Machico” transformam-se em verbo quando este protagonista “avarandava-se em baixo da mangueira, andando à roda do sol que o fazia mudar de posições” (pag. 59). Contudo, estas marcar, tanto dos escritores vivos quanto dos clássicos, são trucidados por via do que Harold Bloom (2001: 30) chama de “embricamento criativo”, no seu livro “A Angústia da Influência”. Não nos esqueçamos que um bom escritor é sempre um genocida em potência. O que seria então essa “angústia da influência”? Trata-se de um acto complexo de leitura errónea forte, de uma interpretação criativa. Aquilo que os escritores podem sentir como angústia, e que as suas obras podem ser levadas a manifestar, é consequência do embricamento poético, e não a sua causa. A leitura errônea forte acontece primeiro; tem de existir um acto profundo de leitura que é uma espécie de paixão pela obra literária. Todavia, esta referência parece ser aplicável aos escritores mortos, sendo que estes ressuscitam quando o trabalho do escritor vivo é bem-sucedido.

Em termos técnicos, encontramos no livro uma outra importante valência do autor: o poeta. De facto, a poesia no livro “Vestido de Terra” está ao serviço da narrativa, sem, no entanto, distrair o leitor do essencial, a estória. Aliás, é justamente essa valência, resultado do seu trabalho como poeta –nos livros “Casa em Flor” e “Cicatriz Encarnada” – que o permite escolher cuidadosamente cada palavra que compõe o conto. Em outro ensaio tive a oportunidade de mencionar o seu último livro de poesia como uma das mais importantes obras publicadas nos últimos tempos pela qualidade estética e unicidade temática. Tal como em “Cicatriz Encarnada”, em “Vestidos de Terra” o bairro da Malanga continua a ser o espaço e a atmosfera preferencial para as suas estórias. E a Malanga, com os seus baneanes, muchinas, xinguerengueres e os mortos do sujeito poético no seu bolso, não constitui um micro-cosmos exclusivo a essa parte da cintura da cidade de Maputo, mas, sim, a experiência de toda uma nação sujeita ao mesmo paradigma institucional, económico, político e social. Qualquer pessoa que tenha vivido este período, já com consciência política, e que leia estes textos, terá de se confrontar com a sua própria trajectória como cidadão.

Nestes contos, a personificação é o recurso estilístico mais utilizado, sendo comum encontrar frases como “Dos olhos do pai do menino brotavam noites, plantou-os durante três dias no céu sem que a lua aparecesse” (pag. 141); “…[a] vergonha do velho puxa o banquinho…” (pag. 149), “…vidros e pregos que guarneciam o chão…” (pag 152). A escolha da personificação não é aleatória, cumpre uma função específica na relação entre os protagonistas e o meio que os envolve.

Por outro lado, como é recomendado, Manjate não se preocupa em dar-nos o make-up psicológico dos personagens, mas é a sua acção ou inação perante determinado estímulo que nos permite captar o seu perfil. Esta constatação é particularmente aplicável ao texto “Malaque”, no qual um homem  moderno que cuida da casa, do cão, do filho, porém, cleptomaníaco e mitómano, vive a tensão entre o seu papel de dono de casa, a falta de dinheiro e o apelo da cidade que o arrasta a uma solução de desespero, seja porque lhe é vedada a possibilidade de nela perder-se, onde outrora mentia para os transeuntes como estratégia de extorsão, seja pelo amor ao seu filho que fica como penhor junto a uma banca de cigarros e chocolate, ou até pelo que o texto não diz – sobre a provável traição da sua mulher.

Nestes contos, as frases são curtas, vigorosas, energéticas e claras. O diálogo, tal como está magistralmente conseguido em “Amor Silvestre”, constitui a pura expressão dos protagonistas e transcende as especificidades do espaço e do tempo, tornando a conversa no texto – e parafraseando Francine Prose em Reading Like a Writer – fresca e assombrosamente contemporânea. E, de acordo com a mesma autora, “se quisermos escrever ficção alicerçada pelo contexto em que vivemos é útil estudar a obra dos autores dotados de um ouvido para o diálogo, para a locução que as pessoas utilizam, a poesia acidental através da qual os humanos expressam os seus pensamentos e emoções” (2012: 165).

Sob o ponto de vista temático, alguns dos símbolos que constituem padrão são nestes contos são a loucura, a pobreza, a morte e, em última instância, a grande traição ideológica à colectividade (sendo que está última só é identificável no subtexto). A narração, feita através de economia e compressão, não estabelece fronteiras entre a primeira e a terceira pessoas. E em alguns textos como “Feitiço”, a omnisciência do narrador não é de todo imparcial, reflectindo a secular tensão na divisão doméstica do trabalho e a mulher como eterno símbolo sexual. Em termos de estilo estamos perante tragédias, consistentes com os sucessivos choques que representam a vida num contexto institucional frágil, como irei demonstrar, a seguir, a partir da leitura externa. Nesta segunda dimensão da análise, o livro “Vestidos de Terra” cumpre uma função activista. Tudo indica que Rogério Manjate tem clareza sobre o público para o qual escreve e sobre a influência do texto para além do efeito lúdico.

 

Neste livro observamos a existência de dois níveis: o primeiro é o da estória e o segundo é uma espécie de narrativa profunda, onde se conta uma outra história, com recurso a um vocabulário e imagética de sentidos ocultos, na qual são expostos problemas de ordem humana intratados, concretamente a miséria infligida à maioria dos cidadãos, sejam eles bichantes para comprar 1 kg de tripas no Xiphamanine, seja o motorista de classe média – medida pelo bife à mesa à hora do almoço – que se suicida traído pelo amor da sua vida. Consistentemente, em “Jorogina e o Mar”, retrata-se a vida de uma prostituta que utiliza água de colónia, simultaneamente como chamariz de clientes e contraceptivo. O infortúnio, a que é forçada pela pobreza, acaba por decidir entre ela e o mulatinho a quem dá à luz, sendo igualmente uma decisão sobre quem merece ser banhado pela luz da lua.

Se prosseguirmos com esta imersão no plano do subtexto, deparamo-nos com “O Menino do Nada na cidade”. Aqui ressurge a pobreza, de forma mais intensa, e nos são insinuadas as causa da sua prevalência: os revolucionários que traíram os dois únicos heróis, até ao momento, merecedores de estátuas no país. “O Menino do Nada” palmilha a cidade à procura de algo para matar a fome. O único alimento que consegue é apenas um bolo de chocolate imaginário que degusta em desespero. Os dois heróis de braços levantados – como que a indicar uma terceira via – são os únicos que o amparam. O sangue desta criança faminta, que molha os sapatos da estátua do livro, parece prenunciar a marcha do campesinato em direcção aos locais onde contas podem ser pedidas, ajustadas e saldadas.

O conto “Emproibido Machico” epitomiza o contexto frágil em que o autor vive. De facto, Machico, trabalhador reformado e inconformado da Frilixo, autodidacta, depois de 32 anos a limpar casas de banho, a servir café e a congeminar uma rebelião, já em casa, fica a saber através do Jornal que os seus chefes, Jonasse Corrupito e Messias Fraude, são sequestrados pelos trabalhadores e obrigados a limpar retretes. Os apelidos destes directores denunciam o seu comportamento corrupto e de fraude. Esta atitude, praticada à escala, transforma o Estado numa espécie de sofá velho com alguns dos seus pés seus substituídos por tijolos, o qual, à primeira, parece seguro, mas que depois nos damos conta de, ainda que irmanados, nele acoitados, estamos “pálidos, calados e doentinhos” (pag 67). E este estado pode ser o resultado de múltiplos factores, estando a qualidade humana de quem deve dar o exemplo no centro de todos. A fome, muito bem ilustrada no conto “O recado do Gumende no Bazuca” mostra a dificuldade em que, por vezes, em tais circunstâncias, a solidariedade demite-se, desencadeando um ciclo vicioso em que todos saem a perder, como nos é elucidado pelo trecho a seguir:

Com os pedidos indeferidos, Gumende se afastou e acendeu um cigarro. Fumava muito nervoso e rápido a acompanhar o ritmo do motorista. Virou-se para o dono do burro que puxava a carroça com tripas que ele queria comprar e disse-lhe:

—Sabe, eu até conheço mãe deste burro.

— Isso não é nada, tem que bichar. Você se chama senhor Cunha?

— Não.

— Então bicha.

— Não, eu já não quero mais as tripas. Eu só quero transmitir recado que mãe deste burro me mandou, caso eu encontrar com ele.

— Isso só? À-vontade, senhor!  (…..)

— Um estrondo paralisou o Bazuca. O burro ao ouvir o inferno de tão perto, pediu socorro a Deus e estrebuchou com toda a força possível. A carroça capotou de lado. O burro também caiu de lado sufocado pela carroça e não podia se mexer. As tripas e o homem despejaram-se espalhados no matope. (…) Os bichantes não tinham cara suficiente para esconder o desespero pelo jantar de tripas adiado.

Vão lhe bater — pensei. Dei um salto e interpus-me entre Gumende e a multidão. Mas, este, impávido e terreno, não tugia nem fugia; me olhou nos olhos, confiante, pedindo que eu me afastasse só com o olhar. O desgraçado homem do burro perguntou-lhe com a voz lacrimosa:

— Afinal é o quê que disseste Vai-Com-Deus?

— Eu só dei a ele recado que mãe de Vai-Com-Deus me deu.

— Oh diabo. Mas o quê antão?

— Gumende respondeu todo sentimentiroso:

— Bem, eu só disse que mãe dele morreu.

— O burro zurrou como que a confirmar, “sim”.

A degradação de valores, como consequência da auto desresponsabilização das elites dirigentes, atinge níveis inaceitáveis quando Machico tem de puxar o autoclismo pelos chefes, depois destes defecarem. E esse limiar, que empurra o cidadão à indigência no mais fundo da indignidade, leva os trabalhadores a se rebelarem e, mantendo os chefes Corrupito e Fraude em cativeiro, a defecarem um por um e os obrigarem a ver os dejetos, a puxarem o autoclismo e a lavar a sanita. No fundo, a palavra antropofagia que Machico rumina até à exaustão, mesmo sem conhecer o seu significado, representa esse Leviathan em que o Estado se pode transformar quando as instituições não são inclusivas. O título “Vestidos de Terra” não só constitui uma potente metáfora sobre a vida degradante a que estão sujeitos os protagonistas destes contos, mas também, a porosidade das estruturas políticas e económicas nas quais se movimentam. A esperança, desde os tempos da escravatura, continua a residir nas canções, nas estórias e na poesia. E o poeta de serviço neste livro consegue esse efeito com perfeição no texto “E tudo a chuva molhou”.

E para encerrar retorno à análise interna do livro e brevemente vou abordar dois contos, “Bendita Dhinda” e “A Cama”. “Bendita Dhinda” é estória de uma mulher que caminha nas redondezas do tempo, com ramo de flores silvestres, tronco nu, peito maduro e tentador, porém louca. É um texto curto, de estrutura simples, porém eficaz. Ao abordar o amor e a loucura, o autor explora oposições binárias que mantêm a estabilidade do texto, o que se encaixa nas proposições de Jaques Derrida e o pós- estruturalismo (sem, contudo, haver da minha parte intenção de encaixar este livro nessa ou em quaisquer outras teorias, dada a inutilidade desse tipo de exercício). Com efeito, no limite, o amor constitui o único influxo energético que dá sentido à vida e a sua ausência pode desencadear uma disfunção nos processos químicos e neurológicos do ser humano. E visto sob este ponto de vista, faz sentido que o narrador, sentindo-se pouco preparado para se deixar enfeitiçar pelas canções de Dhinda, adie esse confronto para a velhice, pois está ciente da insignificância da vida sem a experiência do amor, ainda que seja por uma louca.

As oposições binárias a que me referi no parágrafo anterior são mais expressivas no texto A Cama, no qual, num primeiro momento, o narrador nos apresenta uma interacção com a sua namorada e num segundo uma situação de violência doméstica, em que uma mulher agride física e verbalmente o seu esposo. Nos dois casos, o símbolo no centro da interacção é uma cama e, mais uma vez, no centro da cama o amor e a morte.

Rogério Manjate, profissional do teatro e docente na ECA – Universidade Eduardo Mondlane, é um autor com diversos prémios nacionais e internacionais, tendo publicado, para além dos já mencionados, os seguintes livros: O Coelho que Fugiu da Estória (2019) e Wazi (2017).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bloom, Harold. 2007. A Angústia da Influência. 2ª edição em português. Lisboa: Livros Cotovia.

Coetzee, J. M. 2002. Stranger Shores. Essays 1986-1999. London: Vintage Books.

Prose, Francine. 2001. Reading Like a writer: A Guide for People Who Love Books and for Those Who Want to Write Them. London: Auro Press.

Manjate, Rogério. 2021. Vestidos de Terra. Maputo: Cavalo do Mar.

 

[1] Escritor e activista social.

O escritor moçambicano Ayrton Cassamo lança, hoje, a obra intitulada “Uma viagem para vida”. Trata-se de um livro que discorre sobre as riquezas de Moçambique, desde as diferentes culturas e etnias, a gastronomia, as praias paradisíacas e sobre os desafios enfrentados na Província de Cabo Delgado, norte do país.

Segundo descreve o autor, o livro “é um retrato profundo do país, seus cantos e encantos, suas terras e seu povo, representado num manuscrito que promete decalcar uma viagem feita de Maputo até Rovuma”.

A obra literária “Uma viagem para vida” nasce de um périplo feito por Ayrton Cassamo pelo país, onde foi constatando os diversos desafios que o país enfrenta, mas também contemplando a vastidão das riquezas de Moçambique.

No livro cujo prefaciador é Helder Ernesto Injojo “os leitores vão encontrar um mapeamento da realidade de um país que parte dos grandes centros urbanos às pequenas aldeias”, garantiu.

A obra será lançada hoje às 18h, na biblioteca da Universidade Pedagógica (UP), Cidade de Maputo. O evento contará com a presença do Magnífico Reitor da UP Jorge Ferrão e outras individualidades.

Ayrton Cassamo é um jovem de 30 anos de idade, nascido em Quelimane e que, actualmente, vive em Maputo. Formou-se em Engenharia Electrónica pela Universidade Eduardo Mondlane, onde foi igualmente presidente da Associação dos Estudantes Universitários, membro do Conselho Universitário e membro do Conselho Nacional do Ensino Superior de 2011 a 2013.

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