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Single “Eu Quero Ser” é o primeiro de uma série de lançamentos da artista em 2022

A cantora e compositora moçambicana Lenna Bahule desembarcou em São Paulo no ano de 2013. Junto à natural emoção por começar uma nova fase de vida, havia também uma alegria em encontrar em solo paulistano alguns parceiros musicais com quem ela, de cara, já sentiu uma conexão especial. Não deu outra: Lenna escreveu uma canção sobre este momento, e a guardou. Quase uma década depois, a faixa finalmente vem a público. “Eu Quero Ser” chega às plataformas digitais pelo selo britânico DaLata Music Label com apoio do selo brasileiro Pequeno Imprevisto.

“Eu compus esta música em 2013 quando acabava de me instalar em SP, num momento em que estava vivendo uma explosão de inspiração, criatividade e aprendizado: acabava de entrar no grupo de estudos de percussão corporal com o grupo Fritos (que foi o grupo de estudo que iniciou os Barbatuques há muito tempo) e estava super empolgada com tudo o que estava aprendendo nesses encontros. Eu sentia que tinha encontrado a resposta para todas as dúvidas sobre música que eu tinha desde a minha formação. Eu sentia que com aquele estudo e a chance que estava tendo de criar a vida que eu quisesse, eu poderia realmente ser tudo e qualquer coisa que eu escolhesse. Foi esse sentimento de imensidão que me trouxe a ideia toda da letra, da melodia, da percussão corporal, da voz”, relembra a artista.

Um dos destaques da faixa está na voz de Marcelo Pretto, cantor, pesquisador e integrante do Barbatuques. “Ter a voz do Marcelo Pretto nesta canção é a realização do sonho de ter ele mais perto, fazendo mais música com ele, que tanto admiro. Aliás, foi ouvindo Barbatuques (cuja a voz do Marcelo Pretto se destaca e marca) que ganhei o impulso de atravessar o oceano”.

A estadia por terras brasileiras durou 7 anos, período em que Lenna gravou discos, realizou inúmeros espetáculos pelo país e se tornou uma das artistas mais interessantes e instigantes da cena independente brasileira. Em 2020, Lenna retornou a Moçambique, mas a conexão com o país permanece viva, através de participações em discos de artistas brasileiros e em permanente diálogo com a cena local.

“Eu Quero Ser” é a primeira faixa de uma série de lançamentos que Lenna pretende fazer em 2022. “Decidi lançar um conjunto de músicas minhas que estão aqui paradas e que eu gosto e que acho boas o suficiente para lançar um EP. Essa música faz parte desse conjunto”, explica.

A faixa é genérico da novela Maida, que estreiou em Maputo, no canal Maningue Magic, no último dia 17. “Tenho mesmo expectativa que gere bons frutos. Quero estar mais dentro do mercado Moçambicano. Moçambique ainda não tem indústria fonográfica como tal. Ainda estamos muito atrasados nessa construção. Não espero nada além do que temos: ouvir a música, gostar, procurar, baixar, aprender a cantar e querer saber mais. Que inspire”, finaliza.14/01 nas plataformas digitais.

A maioria dos prémios literários são dirigidos a escritores e poetas, mas, desta vez, a editora Ethale Publishing pretende premiar os leitores pelo reconhecimento à qualidade intelectual de suas interpretações de obras publicadas pela sociedade editorial.

Para esta distinção, são considerados todos os cidadãos nacionais, à excepção de escritores, jornalistas e ensaístas.

De acordo com Jessemusse Cacinda, editor da Ethale Publishing, as interpretações submetidas ao concurso devem ser inéditas e apresentadas em uma cópia digital, em formato word, com o máximo de três páginas, no formato A4, tipo de letra Times New Roman, tamanho 12 e espaçamento 1.5 e margens de 2 cm.

O concurso vai até dia 30 do corrente mês, findo o prazo das inscrições, a Ethale Publishing constituirá um júri formado por cinco elementos, que avaliará as obras e deliberará, de forma totalmente independente, o vencedor.

O vencedor deverá ser anunciado no dia 15 de Abril e os vencedores receberão prémios em valores monetários

A editora espera poder criar uma atmosfera inovadora em que “o leitor é também sujeito, que não só lê os livros, mas também escreve sobre os livros que lê”.

O portal de literatura moçambicana, Catalogus, iniciativa dos escritores Eduardo Quive e Mélio Tinga, foi criado há seis meses e já conta com conteúdos relacionados a 24 autores.

O portal Catalogus foi criado em Julho de 2021, com a pretensão de mapear, registar e promover autores moçambicanos e as suas obras, dentro e fora do país. Seis meses depois, 24 autores nacionais integram a plataforma que está a contribuir para reduzir a limitação no acesso à informação textual e visual sobre literatura moçambicana nas plataformas online. Deste modo, a iniciativa dos escritores Eduardo Quive e Mélio Tinga encontra-se a ampliar um espaço de memória, capaz de favorecer poetas, ensaístas, pesquisadores, académicos, jornalistas ou leitores que se interessam pelas letras nacionais.

Segundo lembrou Eduardo Quive, na manhã deste sábado, na Cidade de Maputo, a ideia do portal é que seja um lugar onde se concentram as mais relevantes informações sobre autores moçambicanos de todos os géneros. Também por isso, está a ser, para o poeta e jornalista, um projecto ambicioso por estar a aglutinar todos aqueles que escrevem. “É uma coisa que nós não tínhamos aqui e a ideia surge da constatação da falta de informação actualizada e sistematizada, onde o cidadão pode aceder para encontrar não só nomes, mas biografias, resumos de obras e informação sobre aquilo que é a actividade actual desse autor”.

Nesse meio ano de existência, a Catalogus tem garantindo resultados que Quive considera interessantes, pois a ideia está lançada e consolidada. Agora, acrescentou, um dos desafios é aprofundar a qualidade e quantidade de informação que se possui. Quanto à recepção? “Tem sido híbrida, no sentido de que a iniciativa é elogiada por todos, mas as pessoas ainda precisam de perceber de que se trata realmente. Nós não temos cultura de organização de informação. Isso não é com os autores, de forma individual só, mas com as editoras também, que, muitas, não têm informação sobre os autores e resenhas feitas aos livros que editam. Não que não tenham, mas essa informação não está sistematizada. Portanto, este também é um trabalho de arquivo histórico”.

Resumindo, segundo Eduardo Quive, os autores estão a receber muito bem a Catalogus. Agora, o desafio é fazer compreender às pessoas que o portal precisa de trabalhar com todos na reunião de informação necessária para que enriqueça.

Até aqui, a Catalogus disponibiliza informação relativa a 24 autores, entre eles Ungulani ba ka Khosa, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane, Mia Couto, João Paulo Borges Coelho, Armando Artur, Bento Baloi, Albino Magaia, Sónia Sultuane e Mbate Pedro. Destes autores, destacam-se Ungulani e Suleiman. “Estes são os autores com os quais estamos a trabalhar na criação de outros produtos que permitem levar a literatura além dos livros, através de frases e pensamentos desses mesmos autores”. O que o escritor Mélio Tinga refere é a produção de camisetas, sacolas e chávenas com excertos dos textos dos escritores. O objectivo é claro: “influenciar no estilo de vida e fazer com a literatura possa caminhar com as pessoas e que esteja onde nos encontramos”.

Conforme a constatação de Mélio Tinga, há uma ideia antiga de que a literatura é um espaço sagrado, que se promove por si. Mas isso “não é verdade. O facto é que em outros espaços já existe esta percepção de que é preciso promover a literatura, de modo que as pessoas que não conhecem um determinado autor ou que nunca leram um determinado livro possam ter acesso à possibilidade de o ler. As frases que nós levamos a esses produtos é nesse sentido: gerar curiosidade. A partir daí, há um longo caminho que pode ser feito”.

Outro desafio identificado pela Catalogus, finalmente, tem a ver com abrangência, o que significa incluir o maior número de autores possíveis e tornar a plataforma mais flexível, amigável ao consumidor e com actualizações mais regulares. Esse trabalho está a ser realizado.

Foto: JR

 

O Vale do Infulene é uma região importante para a Cidade e Província de Maputo. Daquele solo fértil germinam hortícolas que alimentam várias famílias. Por lá nasceu Ídasse, um dos mais consagrados artistas plásticos moçambicanos. Talvez, numa relação de afecto ou por questões criativas, o artista resolveu assentar arraiais no Bairro Jardim, a uns passos do Vale do Infulene. É no seu atelier, como uma horta, espaço fértil para produção, que nos recebe. O dia é quente, mas a oficina do artista revela-se suficientemente confortável para uma conversa que, afinal, vai durar uma hora. Por todo o lado há obras que exibem a versatilidade do artista: desenho, cerâmica, escultura e muitos projectos. O encontro, na verdade, é um pretexto para reconhecer a longevidade do percurso artístico de Ídasse, para muitos, Ídasse Tembe, e, para alguns, Ídasse Malendza. Os nomes pouco importam. O tempo, sim. Por isso, partindo dos anos 70, quando se inicia nas artes, aquele homem alto, razoavelmente forte, fala do que pensa e do que o incomoda no que às artes plásticas diz respeito. Durante a conversa, como se verá, vai dizer que Moçambique é um país abençoado em termos artísticos. No entanto, o grande problema são os governantes, que não têm sensibilidade de acarinhar o que o povo dá: a arte. “Há uma necessidade urgente de redefinição da política cultural do país. Nós estamos a olhar para a cultura como se fosse um trapo”. Segundo Ídasse, o Governo devia definir um budget para aquisição periódica de obras de artistas e proteger o património que tem sido levado continuamente para o estrangeiro.

 

Pergunta prévia. O Ídasse encontra-se no mundo das artes há quase 50 anos. Como é que se consegue tanta longevidade?

Para mim, a grande peneira é o trabalho, a entrega à vontade daquilo que se pretende. Quer dizer, a pessoa define o que quer fazer. Ao mesmo tempo, vai-se descobrindo, porque nós temos um artista dentro de nós, que temos de dar a possibilidade de se expandir e de partilhar as mensagens. O artista deve ter essa capacidade de sintetizar, de fixar aquilo que está a ver e repassar para um espaço onde possa registar, lembrar e fazer com que as pessoas possam perceber as mensagens que traz.

 

O que se lembra das artes plásticas moçambicanas dos anos 70, quando começa a sua carreira?

Eu não tenho palavras capazes de decifrar aquele momento. A verdade é que eu apareço numa altura em que havia uma geração… Nós tínhamos aqui Jacob Macambaco, Malangatana, Samate, Mankeu, Agostinho Muthemba, João Aires, João Paulo ou Fernando Lobo. Era uma geração que toda a gente sabia que era de bons artistas. Depois, apareceram os curiosos, não diria imitadores, que começaram a pintar. Tínhamos artistas com vocação natural, que foram fazendo coisas que os permitiu serem reconhecidos. No meu caso concreto, eu tive muitos alicerces: ballet, música, teatro e tantas outras coisas. Nunca consegui ficar quieto. Portanto, apareci sem me aperceber que estava a aparecer. Eu apenas estava a fazer coisas, o que era mais importante. Fui fazendo e, depois, descobri que estava num trilho traçado, tinha de continuar a trabalhar e é o que estou a fazer até agora, tentando-me descobrir. Espero que um dia chegue a perceber o que tenho tentado fazer.

 

Mas como se constrói um percurso artístico sólido?

O artista tem de assumir a responsabilidade de tudo o que faz inerente às artes. Primeiro, a responsabilidade. Depois, a humildade é muito importante no trabalho. Além disso, a pesquisa: é preciso ir atrás das coisas, não basta só pegar no pincel e pintar. Tem de haver o mínimo de consciência de que, afinal de contas, o que se faz é importante porque o artista funciona como um vector da sua sociedade. Quer dizer, traz mensagens com preocupações do seu povo tem. Funciona como um filtro para passar as preocupações que o seu mundo lhe traz. O artista pode funcionar como um farol, um vidente.

 

Os conceitos propostos por artistas da sua e de uma geração mais velha torna-vos “fácil” de consagrar. Como se faz para continuarmos a ter gerações categóricas nas artes plásticas?

É como tudo: temos de saber respeitar o palco que pisamos, em parceria com o tempo. Acima de tudo, um dos grandes segredos é o trabalho afincadamente. Trabalhando, vamos descobrindo. Por exemplo, a criança que vai à escola pela primeira vez, primeiro, aprende o abecedário e, depois, a juntar as letras até a altura de conseguir escrever uma carta de amor. Temos de ter a ferramenta e a ferramenta é o conhecimento, o trabalho, o que conjuga para podermos trazer uma obra “perfeita”. É por isso que as minhas exposições individuais são muito pausadas. Tenho de trabalhar até ter a certeza de que é isto que eu quero mostrar ao público. Eu podia pegar as obras e expor quando quisesse porque tenho nome, quer dizer, vou fazendo o meu nome, mas eu tenho de respeitar e educar o público através das minhas obras. Não é por acaso que na década de 90 integrei uma lista dos 10 melhores criadores da África subsaariana. Não pedi, foi por mérito do meu trabalho. Hoje há pessoas que olham para a minha obra e logo dizem que esta é uma obra do Ídasse. Eu não sei quais são os condimentos, mas eles conseguem ver o meu cunho. Eu só peço a Deus para poder ter saúde, de modo a poder trazer coisas ainda mais criativas.

 

O que representou para estar na lista dos 10 melhores criadores da África Subsaariana?

Naquele altura, eu estava a fazer as coisas isoladamente no meu atelier. Depois, percebi que o meu trabalho tinha transcendido fronteiras, com pessoas que estavam em cima do meu trabalho. Achei normal e uma responsabilidade muito grande.

 

Política cultural no país

Uma das perguntas que já foi feita de mil e uma maneiras tem a ver com a sustentabilidade financeira das artes. É correcto o artista, no início de carreira, pensar nisso?

Cada coisa acontece ao seu tempo, mas eu lembro que, na década de 80, Moçambique conheceu um boom em termos de variedades de intenções. Há uma necessidade urgente de redefinição da política cultural do país. Nós estamos a olhar para a cultura como se fosse um trapo. Mas o que é a cultura? Temos de saber o que é isso. Parece que há um esforço desfasado em termos de política ao nível governamental. Não estão a prestar muita atenção. Eu fico muito preocupado porque há obras que estão a sair do país e estão a desaparecer em termos de referência. Há muitos estrangeiros que compram as obras e as levam consigo para fora. Isso é muito bom! É preciso que haja alguém que compre as obras, que é para o artista sobreviver. Mas eu penso que nós devíamos ter um orçamento capaz de cativar algumas obras, de modo que não saiam daqui. Tarde ou cedo vamos precisar das obras para o nosso património, que é muito importante. Acho que se devia definir algum budget, quer dizer, o Ministério da Cultura e Turismo devia definir um budget para aquisição periódica de obras de artistas, com identificação de olheiros que possam acompanhar os passos dos artistas. Este povo precisa de respirar, e é através das artes que se pode respirar.

 

Os maiores compradores das artes plásticas moçambicanas são estrangeiros. Como se educa para, internamente, possamos comprar mais obras?

Isso é uma questão de informação e cultural. A verdade é que uma obra de arte também é um investimento. Acho que a melhor forma de guardar dinheiro é através da arte. Anualmente, essa obra valoriza. É preciso ter olho e capacidade, até porque se pode negociar a forma faseada de pagamento com o artista.

 

Referiu-se há pouco ao boom dos anos 80. Nessa década surgiu a AEMO, Charrua, Gazeta de Artes e Letras e dois escritores que hoje são Prémio Camões começaram a afirmar-se a essa altura…

Considero-me felizardo, pertenço a uma geração que assistiu ao parto de uma nação. Pertenço a uma geração que sonhou fazer de Moçambique um exemplo da humanidade. Eu digo, com muito orgulho, que das muitas associações culturais que nasceram neste país, com sorte, participei nos momentos de decisão e da criação. Sinto-me orgulhoso por ter dado o meu contributo, mas, diria, Moçambique precisa de melhor sorte. Nós temos toda matéria-prima, temos tudo para dar certo, como se costuma dizer. Tenho ouvido amigos estrangeiros que, quando vêm cá, dizem que “em Moçambique tu chutas uma pedra e sai um artista”. Este povo é outra coisa. O nosso maior problema são os governantes, que não têm a sensibilidade de acarinhar o que este povo dá. Este povo é especial! Não se encontra em nenhum canto do mundo um povo que anda sempre com o leque na mão para peneirar o ar que passa, porque é muita chatice que este povo está a viver.

 

A grande consequência da Charrua

É um artista plástico muito presente na literatura moçambicana. Por exemplo, ao meu lado vejo uma obra que serviu de capa do livro Animais do ocaso, de Álvaro Taruma. E há tantas outras capas de livro com suas obras…

Foi uma oportunidade que tive de ajudar a completar o puzzle, trazendo alguma coisa diferente. Os meus colegas, amigos e confrades acharam que eu era a peça certa. Eu dei o meu contributo, tanto que a Charrua custou-me o meu primeiro casamento. Porque eu estava ali, sempre de olho naquele grande projecto, porque a Charrua foi um grande projecto.

 

Valeu a pena?

Valeu a pena. A Charrua desbravou várias mentes. Não foi sacrifício nenhum, foi fazer as coisas conforme o momento exigia. Para mim, foi uma satisfação muito grande. Conheci gente bonita que até hoje partilho uma amizade também bonita.

 

Moçambique tem instituições dedicadas à formação de artistas. Estou a pensar na Escola de Artes Visuais, ISARC e etc. Estão a cumprir o seu papel?

Eu penso que a Escola de Artes Visuais trouxe uma outra maneira de abordar as coisas. Trouxe outra grelha. E existe agora o ISARC. O conhecimento e a escola são como um cinto que põe as calças no lugar certo. Agora, os artistas aparecem de um modo completamente diferente, com outra visão. Já não são aqueles que estão a imitar. Os artistas mais novos estão a ter novas correntes, novas abordagens e nova forma de dizer as coisas com base no conhecimento. A Escola Nacional de Artes Visuais deu um grande contributo em termos de gráfica, cerâmica e designer. Contudo, temos de saber distribuir essas oportunidades pelo país todo. O que acontece, muitas vezes, temos muitas diferenças de oportunidade entre Sul, Centro e Norte. Temos de pensar seriamente nisso.

 

Projectos para o futuro? Sei que há aí uma Janela

É um projecto muito louco, chama-se Janela do futuro, núcleos de iniciação artística. Já tenho mais ou menos três núcleos montados. Eu quero trazer o conhecimento adquirido ao longo da minha carreira a uma gamela e convidar as crianças a trocarem conhecimento. Já fiz isso em alguns atelieres ao ar livre e tenho descoberto coisas e eu também aprendo. Acredito que, se tivermos uma criança a participar na Janela do futuro, em cinco anos não será a mesma pessoa. E terá por onde começar.

 

O que as artes plásticas lhe deram de precioso?

Deram-me o mundo, e estou a viver esse mundo diferente de uma pessoa que não está nas artes. Tenho uma sensibilidade a altura de poder decifrar aquilo que eu vejo. Tenho uma outra maneira de poder interpretar a vida e isso apraz-me, dá-me uma felicidade enorme.

 

Perfil

Ídasse nasceu a 1 de Julho de 1955, no Infulene, hoje Província de Maputo. Faz um pouco de tudo: desenho, pintura, cerâmica e escultura. Em 1979 fez o curso de Animador Cultural no Centro dos Estudos Culturais, onde adquiriu conhecimentos de Antropologia, História da Arte Moderna e Arte Africana, Música, Fotografia, Teatro, Pintura, Cerâmica, Desenho e Xilogragura. Criou o departamento de arte no Instituto Nacional de Cinema. Trabalhando na sétima arte, tornou-se o primeiro moçambicano a fazer desenhos animados em Moçambique. É membro do Núcleo de Arte, da Associação Moçambicana de Fotografia, da Associação de Escritores Moçambicanos. Em 1984, ajudou a fundar a revista Charrua. Praticou ballet durante cinco anos, entre 1973 e 1978, e jogou futebol no Desportivo de Maputo. Entre os nomes das artes que julga importante destacar, constam Malangatana, Makamo, Naguib, Vítor Sousa, Valingue, Paulo Come, Mundlozi, Francisco Mandlate, Neto, Fernando Rosa, Miguel César, Sitoi. Quando olha para trás, lembra com alguma saudade do Horizonte Arte e Difusão, dos grandes projectos que Moçambique teve depois da independência. Nos anos 90, integrou a lista dos 10 melhores criadores da África subsaariana.

 

O avião monomotor que caiu na terça-feira, no Bairro do Aeroporto, perdeu potência enquanto levantava voo, disse ao jornal “O País” o Comandante da Força Aérea. Há também garantias de que a Força Aérea vai reconstruir a casa da família afectada.

Um dia depois da queda da aeronave de instrução da força aérea do exército moçambicano, no bairro do Aeroporto B, na Cidade de Maputo, decorriam, na manhã desta quarta-feira, trabalhos de limpeza por parte dos proprietários da casa destruída, que descrevem momentos difíceis, por conta da perda do imóvel e pertences.

Isaura Cumbe, uma das proprietárias da casa ora destruída, adianta que a Força aérea já estabeleceu contactos só que não tem certeza da promessa. “Conversámos e chegamos a um consenso, mas não sei se vai acontecer ou não. Assim, estamos à espera que eles nos deem resposta se vão fazer a casa ou não e vão nos dar comida por enquanto, porque há pessoas que vivem aqui”.

Por outro lado, Luís Alexandre, um dos proprietários da casa, que no momento da queda da aeronave, tinha saído para comprar cigarros, exige que as autoridades reponham a propriedade.

As famílias das vítimas mortais, que eram oficiais do exército moçambicano, estão a receber assistência, segundo avançou o Comandante da Força Aérea de Moçambique, Cândido Tirano.

Quanto à casa destruída pela aeronave, Tirano garantiu que “ o apoio consiste em restaurar a sua habitação, construir ou reconstruir, erguer as paredes e fazer a cobertura e, ao mesmo tempo, custear as despesas de alimentação, pois eles ficaram sem nada”.

Alguns militares da força aérea fizeram-se ao local da queda para limpar e procurar destroços do monomotor de marca Festival, fabrico romeno, adquirido pelo Estado entre 2013 e 2014.

O voo, que culminou em tragédia, era de reciclagem de um dos pilotos, segundo explicou o Major General Cândido Tirano, tendo apontado para erros técnicos como causa do acidente: “A perda de potência origina a perda de velocidade e consequentemente a queda da aeronave. Tecnicamente já foi nomeada uma comissão de inquérito que se vai encarregar de juntar os elementos que existem que nos conduzam às prováveis causas da perda desta potência”.

A aeronave que caiu ontem é da mesma marca, origem e ano de fabrico que a também caiu ano passado, no bairro de Hulene “A”. O comandante da força aérea moçambicana diz que há detalhes que devem ser esclarecidos sobre as duas aeronaves.

“Infelizmente, tivemos estes dois acidentes, por sinal do mesmo tipo de aeronaves, o que nos leva a prestar mais atenção a alguns detalhes. Portanto, no combustível que usa e, provavelmente, no processo de escape dos gases porque notamos que têm rompido com alguma particularidade o colector de escape, talvez seja aqui onde temos que prestar maior atenção”.

As duas aeronaves que caíram nas proximidades da Base Aérea foram adquiridas novas no mesmo período.

A exposição de artes plásticas, Do outro lado, da autoria de Mudungaze, está aberta ao público, na galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, Cidade de Maputo, até 20 de Janeiro.

O artista plástico Mudungaze tem uma nova individual exposta na galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, na Cidade de Maputo. Intitulada Do outro lado, a primeira exposição de artes plásticas deste 2022 é inspirada na situação imposta pela COVID-19. Assim, para concretizar uma ideia feita de cor, o artista plástico recorreu a diversos artefactos que, igualmente, ‘reafirmam’ o seu interesse pelo reaproveitamento de materiais.

Com a sua nova individual, Mudungaze propôs-se a pensar o tempo e o espaço geográfico que lhe alimenta a imaginação. “Do outro lado é muito sobre COVID-19, sobre o espaço por onde temos passado e pelo tempo que temos vivido”, disse Mudungaze, acrescentando: “Eu penso na COVID-19 como uma época de superação, de amizade e de família, que nos permite prestar atenção às coisas que antes não dávamos valor”.

Segundo disse Mudungaze, esta segunda-feira, Do outro lado é uma proposta universal, que, por isso, não quer apenas pensar o impacto ou as consequências da COVID-19 em Moçambique. De igual modo, o artista plástico lança a sua mira para além do território nacional, devolvendo, à realidade, sempre, o que encontra em termos criativos.

Questionado sobre o que gostaria que os visitantes encontrassem na galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, neste dias, Mudungaze afirmou: “Espero que as pessoas encontrem aqui uma possibilidade para pensarem”.

Portanto, no meio de várias incertezas atinentes ao presente da humanidade no que à pandemia diz respeito, Mudungaze quis levar aos potenciais apreciadores das suas obras uma lufada de ar fresco que as permita encontrar no que aparentemente é caos, uma razão para sorrir.

A propósito do reaproveitamento de matérias que de outro modo prejudicariam o ambiente, a questão ecológica é uma das especialidades de Mudungaze. A outra é o trabalho com ferro, dando atenção a questões relacionadas à mulher.

Do outro lado, de Mudungaze, um dos artistas convidados a representar Moçambique na Expo Dubai 2020, pelo Ministério da Cultura e Turismo, pode ser visitada na galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, Cidade de Maputo, até 20 deste mês de Janeiro.

O bailarino e coreógrafo Ídio Chichava defendeu, este sábado, na Cidade de Maputo, que a estratégia de promoção e divulgação da dança moçambicana no país e no estrangeiro é frágil. Segundo o artista, é fundamental investir na formação, certificação e no intercâmbio dos bailarinos nacionais.

 

“A nossa formação em dança está mal”. Segundo Ídio Chichava, assim é porque a instituição artístico-cultural moçambicana “não está a funcionar com todos os pistões em dia, no sentido de actualizar o currículo. O que nós, os bailarinos, estamos a tentar fazer é criar comunidades que podem continuar com essa formação e inspirar novas gerações. Penso que há ausência de uma robustez institucional, no que diz respeito ao fomento da dança no país”.

Para Ídio Chichava, é importante que Moçambique pense como é que a partir da formação institucional em dança pode-se certificar pessoas capazes de integrar grandes companhias e grandes escolas internacionais. Na óptica do artista, actualmente, o país não está a contribuir para exportar ou colocar bailarinos nos mais interessantes palcos mundiais. “Acho que esse é um desafio de todos nós, começarmos a reflectir numa forma de reinstitucionalizar a dança para certificar os bailarinos para o mundo profissional ou para serem professores de dança”.

Ídio Chichava vive e trabalha em França há 15 anos. Quando pensa em colaborações com os seus colegas moçambicanos naquele país ou no velho continente, em geral, afirma: “É difícil encontrarmo-nos na Europa para colaborarmos sobre alguma coisa que é de Moçambique. A nossa base, no país, está desequilibrada e, enquanto não formos uma estrutura, ao nível individual e colectivo, será difícil eu colaborar com outros bailarinos e coreógrafos moçambicanos com regularidade. Precisamos de colaborações mais fortes e consolidadas. Isso é totalmente difícil porque a maior parte dos artistas que viaja para a Europa vai como freelancer e sem estrutura. Os artistas precisam de ser instituições consolidadas, de modo a que possam colaborar com instituições estrangeiras e com outros bailarinos moçambicanos”.

Chichava tem a certeza de que os moçambicanos são bailarinos talentosos, no entanto, na sua visão, é preciso que o Governo, através do Ministério da Cultura e Turismo, crie possibilidades e incentivos para que a produção e promoção da arte no país e no estrangeiro aconteça frequentemente.

Ainda de acordo com Ídio Chichava, na Europa, é mais fácil colaborar com bailarinos de outras nacionalidades do que com outros moçambicanos que lá vão trabalhar. Geralmente, “eu tenho de passar por uma outra instituição para poder colaborar com um bailarino ou coreógrafo nacional”, rematou Ídio Chichava, artista que, recentemente, teve duas digressões nos Países Baixos e em França.

 

 

 

Por: Matos Matosse

 

Este lugar era como um lago,

Todo calmo, sem enciclias que o agitassem.

 

Nesta terra, apenas o cantar dos pássaros,

único estrépito doce que nos encantava.

E as folhas das palmeiras, ah!, sua dança suave,

descreviam a beleza artística da paisagem de Muidumbe,

Macomia, Mocímboa da Praia.

 

As crianças brincavam alegres;

os homens no trabalho para desenvolverem a nossa terra,

e as mulheres, num mar verde que nos alimenta

[milho, mapira, mexoeira, ervilha,

 

Vieram, no entanto, esses estranhos que o agitaram,

com tamanha agressão…

[o nosso lago sereno e calmo.

 

O pam… pam… pam… pam…

propeliu-nos dos nossos recursos: petróleo, gás, rubi…

Corpos inertes jazem no chão…cabeças decepadas.

Casas queimadas. Lojas e bancos saqueados.

Escolas vandalizadas. Nossas aldeias, cinzas, apenas!

[Em um deserto infando, nossa terra transformou-se!

 

Mas, amanhã, o rugir terrível de leões, vindo de lá longe,

irá repelir todos estes que agitam o nosso lago

e, novamente, esta terra será nossa,

[com riquezas pilhadas, ou não.

Os pássaros voltarão a cantar e alegrar as crianças.

O mapico, o tufo, o enguiça, nossas danças, nossa cultura

voltarão a ecoar sons ancestrais e melodiosos.

 

E o verde rebrilhará, quando as armas que nos matam

[impiedosamente

Morrerem!… Morrerem!… Morrerem!…

 

 

(Maputo, 03/12/2020)

 

 

 

 

 

 

 

Sebastião Matsinhe, André Macie e Huwana Rubi defendem que a vida e obra de Malangatana deve ser promovida e divulgada. O “mestre de Matalana” morreu há 11 anos, em Portugal.

Malangatana perdeu a vida a 5 de Janeiro de 2011, em Matosinhos, Portugal. Lá vão precisamente 11 anos. Enquanto a saúde lhe permitiu, o “mestre de Matalana” pintou, escreveu, cantou, dançou e representou peças teatrais, o que lhe valeu o título de artista multifacetado.

Malangatana morreu, no entanto, a sua obra perdura. Por isso mesmo, o artista plástico Sebastião Matsinhe considera que é crucial a promoção das obras e do legado que Malangatana deixou para as actuais e próximas gerações. “Temos de preserver o legado dele”. Começou por dizer Matsinhe. Para o efeito, acrescentou o artista, esta quarta-feira, na Cidade de Maputo, “podemos criar festivais em seu nome e incentivos como bibliotecas e galerias onde se pode falar mais dele”.

E porque é de pequeno que se torce o pepino, Sebastião Matsinhe entende ainda ser prioritário a introdução e, consequentemente, divulgação do historial de vida de Malangatana, de modo que os profissionais de amanhã, sejam de que área forem, possam crescer em contacto com os trabalhos do “mestre de Matalana”. Quem também concorda com esta ideia é o Presidente do Núcleo de Arte, instituição que, desde o período colonial, foi importante para a evolução de Malangatana como artista e como homem. “Ele é uma referência para nós. Hoje, muitos de nós, artistas, continuamos a seguir as pegadas de Malangatana. Ele abriu-nos os horizontes para o exterior e mostrou-nos que é possível um artista viver exclusivamente do seu trabalho”, afirmou André Macie, para quem a valorização da obra de Malangatana poderá ser consistente quando o país aprovar o estatuto do artista. Neste momento, o estatuto do artista é uma das grandes apostas do Ministério da Cultura e Turismo.

Ainda esta quarta-feira, a partir de Vilanculos, Província de Inhambane, a artista plástica Huwana Rubi confessou: “Continuamos, nós, artistas de outras gerações, de certa forma, a inspirarmo-nos naquilo que é a linhagem de Malangatana e naquilo que são os seus conceitos e trabalhos pictóricos”.

Entre os artistas moçambicanos, a obra de Malangatana é das mais populares internacionalmente. No entanto, tal popularidade, para Sebastião Matsinhe, André Macie e Huwana Rubi de nada valerá se a vida e obra não for partilhada continuamente com os mais novos e com todos aqueles que são potenciais apreciadores de artes plásticas moçambicanas.

Malangatana Valente Ngoenha nasceu a 6 de Junho de 1936, na Província de Maputo. O artista plástico perdeu a vida há precisamente 11 anos, vítima de doença.

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