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A longa-metragem O poeta da ilha, de Júlio Silva, tem 85 minutos de duração e foi rodada em Cabo Verde. O filme retrata uma história sobre a luta que os cabo-verdianos fizeram na clandestinidade durante a época colonial.

 

O novo filme de Júlio Silva foi rodado nas ilhas de São Vicente e Santo Antão, em Cabo Verde. Essencialmente, O poeta da ilha é uma longa-metragem sobre a luta que os cabo-verdianos travaram na clandestinidade durante a luta contra o colonialismo português. No enredo, um poeta é preso por agentes da PIDE três dias antes da almejada liberdade.

A decisão do cineasta realizar o seu mais recente filme em Cabo Verde foi consequência de um convite que feito pela Associação Rotchimar. Assim, Júlio Silva aproveitou a oportunidade para concretizar um projecto de filme que deverá ser continuado em Moçambique e em Portugal, porque, segundo entende, o tema é tão importante quanto actual.

Em 85 minutos, a longa-metragem O poeta da ilha junta à ficção uma história baseada em factos verídicos e, avançou Júlio Silva, contou com a participação dos melhores actores de Cabo Verde. Foi com 40 actores cabo-verdianos que o realizador construiu uma história sobre as prisões arbitrárias e injustiças protagonizadas pelo regime colonial português durante a grande noite opressora. Entre os actores estão Mirita Veríssimo, Rank Gonçalves e João Graça.

“Portanto, neste filme retrato a força de todos aqueles que estiveram a lutar na clandestinidade para que o seu país fosse livre e independente, porque não foram só combatentes que lutaram pela independência. Houve muita gente que lutou nas suas cidades e vilas”, afirmou Júlio Silva a partir de Portugal, onde vive e trabalha.

O filme O poeta da ilha foi rodado em 45 dias consecutivos. A ante-estreia da longa-metragem está marcada para Lisboa, ainda neste mês de Março, e a estreia irá acontecer no dia 7 de Maio, no Festival Internacional da Emigração, em Luxemburgo. Já em Moçambique, a longa-metragem será exibida em Agosto.

 

 

 

“Mulheres daqui e de outros lados” é o título da exposição inaugurada na última quinta-feira, no Centro Cultural Franco Moçambicanos, na Cidade de Maputo. Com autoria do fotógrafo francês Denis Rion, as obras representam o modo de vida de algumas mulheres africanas.

Um itinerário feminino no sector de actividade em torno de água. Imagens registadas durante vários anos pelo fotógrafo francês Dinis Rion.

São mulheres daqui e de outros lados, mas com algo em comum – a luta pela sobrevivência.

“Faço este trabalho há dezenas de anos, em Suriname, no continente sul-americano. Estive lá numa pequena vila perdida, na floresta da amazónia, onde me apercebi da importância dos rios e lagos usados como meio de comunicação”.

A foto reportagem é o aspecto actual das suas obras que, segundo o autor, nasceu da vontade de ilustrar a riqueza de culturas e modos de vida de várias mulheres africanas. “Por este motivo, nasceu a vontade de fazer este trabalho. Já apresentei em Mali e, há dois anos, fi-lo em Madagáscar, e apresentei outro trabalho no Dia Internacional da Mulher”, disse Denis Rion.

O artista passará três semanas em Maputo, para continuar a sua pesquisa sobre as mulheres, e o seu campo será a zona costeira de Marracuene.

A exposição está aberta ao público no Centro Cultural Franco moçambicano e no Centro Cultural Moçambique-Alemão até ao dia 4 de Abril próximo.

Manuela Soeiro e Lucrécia Paco participaram, esta quarta-feira, na Cidade de Maputo, na sessão de debate “Boal e Freire: convergência na construção de um mundo melhor”, promovida pelo Centro de Teatro do Oprimido (CTO), a propósito do Dia de Teatro do Oprimido.

A 16 de Março celebra-se o Dia Mundial do Teatro do Oprimido. Por isso mesmo, o Centro de Teatro do Oprimido, no Bairro Hulene, na Cidade de Maputo, reuniu actores, encenadores, artistas em geral e entusiastas da arte do palco. A grande tarefa de orientar a sessão foi confiada ao docente universitário e ensaísta, Dionísio Bahule, que realçou a importância de um grupo que tem investido em peças com uma componente cívica muito forte, que realça uma ligação umbilical entre quem diz e quem ouve.

Na famosa Feira de Hulene, o Centro do Teatro do Oprimido gerou um debate subordinado ao tema “Boal e Freire: convergência na construção de um mundo melhor”. Apoiando-se ao tema, Lucrécia Paco defendeu que o teatro do oprimido é fundamental porque é aquela arte que coloca o Homem a reflectir sobre si e, em função disso, sobre o seu próprio papel na sociedade moçambicana. “Este movimento é muito bom porque leva o teatro às pessoas, num país em que se regista muitos problemas de salas de teatro e em que o público debate-se com problemas de transporte que não estimulam a visita às salas teatrais tradicionais”.

Segundo Lucrécia Paco, o teatro do oprimido merece investimento por parte da sociedade moçambicana porque, de facto, contribui no combate a qualquer tipo de opressão. Quem concordou com esta abordagem foi Manuela Soeiro. “Graças ao teatro do oprimido, temos a possibilidade de reflectir sobre nós próprios, num país com tantos problemas, como agora. É bom pensar o que o teatro pode proporcionar em termos de forma de estar e de criticar com originalidade”.

Por sua vez, o Coordenador-Geral do Centro de Teatro do Oprimido, Alvim Cossa, acrescentou que o combate à opressão, através do teatro do oprimido, faz-se através de exposição de ideias e de constrangimentos no palco. Este cenário, acrescentou Cossa, permite ao auditório “olhar para uma determinada situação e viajar para dentro de si, buscando respostas para partilhar com os outros as suas sensibilidades”.

O encontro desta quarta-feira, inclusive, serviu para o Centro de Teatro do Oprimido reflectir sobre o trabalho feito nos 21 anos de existência, rumo à liderança da transformação.

A conceituada cantora moçambicana, Mingas, fez, ontem, a entrega de um acervo bibliográfico à Universidade Eduardo Mondlane, composto por livros de engenharia.

São livros diversos, que versam sobre engenharia, que a Universidade Eduardo Mondlane recebeu esta quarta-feira. As obras, segundo a cantora moçambicana, pertenciam ao seu marido, e espera-se que reforcem o material bibliográfico da mais antiga instituição de ensino superior do país.

“Esses livros serão usados por vários alunos que tiverem necessidade ou que não tiverem acesso. Além de que o dono do livro é uma pessoa também formada na área, já profissional, mas que sempre consultava livros, procurava mais livros. Sempre achava que os livros faziam falta para os estudantes moçambicanos. Ele percebeu que havia muita falta do poder de compra”.

São mais de 50 livros com diversas temáticas sobre engenharia, que segundo Mingas, pertenciam ao seu falecido marido, formado nos Estados Unidos da América.

Para Orlando Quilambo, reitor da Universidade Eduardo Mondlane, os livros, por sinal, únicos, serão uma mais-valia na formação de futuros engenheiros. “Esses livros constituirão uma base para que os nossos estudantes possam aprofundar os seus conhecimentos, mas, acima de tudo, é uma oportunidade de partilhar as ideias com os outros estudantes”, disse Orlando Quilambo.

Mingas é compositora, cantora vencedora de vários prémios e também activista na defesa de direitos humanos. A sua integração no Grupo RM e na Orquestra Marrabenta Star de Moçambique ajudou-a a estabelecer o seu nome na arena musical do país.

Com a Orquestra Marrabenta fez as suas primeiras digressões europeias, entre 1987 e 1988. Nesse período, recriou e gravou a solo os clássicos moçambicanos, ‘Ava sati va lomu’ e ‘Elisa gomara saia’.

A sua consagração internacional foi em 1990, ao conquistar, em parceria com Chico António, o ‘Grand Prix Découvertes’, da Radio France Internacional, com a canção “Baila Maria”. Na sequência, grava em Paris o disco “Cineta” com o projecto “Amoya”, um esforço de internacionalização do Grupo RM.

A editora Cavalo do Mar lançou a título póstumo, quinta-feira, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, o livro de poemas Com a saliva muito ao Sul, da autoria de José Pastor.

 

“Quando no chão da nossa/ intimidade sulcamos a terra,/ para nos semearmos,/ é então que ela grita,/ e sangra, e canta com/ voz de barro”. Assim começa o primeiro poema de Com a saliva muito ao Sul, da autoria de José Pastor. O livro foi lançado quinta-feira, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, sob a chancela da Cavalo do Mar.

Na cerimónia em que estiveram pessoas próximas ao falecido poeta, dois amigos partilharam memórias e uma certa imagem do que, de certo modo, representa José Pastor. Entre esses amigos destacaram-se Luís Lage e João Carlos Trindade. Não lhes cabendo apresentar a obra literária, ambos investiram num exercício de memória, celebrando Pastor com histórias comoventes e hilariantes.

O livro Com a saliva muito ao Sul é o primeiro de José Pastor. Quer isso dizer que em vida o poeta deixou poemas em algum lugar. Assim, coube a Afonso dos Santos, a quem o poeta confiou a tarefa por escrito, seleccionar os textos que agora compoem o livro. No Camões, durante a sua intervenção, Afonso dos Santos preveniu: “Não pus o José Pastor a escrever o que ele não escreveu. Também aqui se trata de uma questão de respeito. Tudo o que está neste livro, do primeiro ao último verso, é a escrita do José Pastor”.

Segundo acrescentou o coordandor editorial, “o objectivo não era simplesmente publicar um qualquer livro de poesia do José Pastor, era, sim, construir um livro que fosse uma obra coerente e com vida própria”, pois o que o poeta pretendia não era ter o seu nome na capa dum livro.

Afonso do Santos explicou, com efeito, como procedeu na selecção dos poemas e na organização do livro, o que inclui a ordenação dos poemas, de modo que a unidade de sentido não ficasse comprometida. “Quanto à selecção dos poemas, quero salientar que eu não me limitei a incluir no livro apenas os poemas da minha preferência, até porque outros leitores terão preferências diferentes das minhas, e, além disso, eu não estava a preparar um livro meu, estava a preparar o livro do José Pastor. Isto quer dizer que este livro não é aquilo que poderia ser considerado o meu livro de poemas do José Pastor”, acrescentou.

Com a saliva muito ao Sul é constituído por 151 páginas. No Camões, o livro foi apresentado por Nelson Saúte. Durante o discurso, o escritor afirmou: “Num país que pratica o esquecimento como uma das suas artes sublimes; num país que cultiva a amnésia com espantoso método; num país alheado, ancorado na desmemória e no opróbrio do descaso a que vota a muitos dos seus melhores; num país que trata com meticulosa displicência os seus poetas, este acto tem um significado e uma simbologia muito relevantes”.

Ainda durante a apresentação da obra, Saúte referiu que o livro Com a saliva muito ao Sul está dividido em dois momentos. Primeiro, “Respirar o Fogo”, que ocupa quase dois terços da obra, com poemas de amor, de um amor arrebatado, incessantemente carnal. Já na segunda parte, “Com a saliva muito ao Sul”, o escritor encontra um longo e fragmentado poema que não se exonera do seu registo lírico, onde se observa um poeta mais onírico, que muito cultiva a morte. “Este é um livro tremendo de um Poeta espantoso, de uma alma formidável, de um homem surpreendentemente excepcional, de uma ânsia de viver esplêndida, o que poderá parecer paradoxal, de uma vida breve e portentosa”.

Conforme se lê na sua nota biográfica, José António Pastor Duarte Silva nasceu a 29 de Julho de 1954, em Nampula, e faleceu a 26 de Agosto de 1993, na Cidade de Maputo. Passou grande parte da sua infância e uma pequena parte da adolescência em Lisboa. Regressou a Moçambique em 1969, tendo vivido sucessivamente nas cidades de Nampula, Lichinga e Maputo. Em 1977, foi para Cuba, como professor nas escolas moçambicanas na Isla de la Juventud. Regressou a Moçambique em 1985 e continuou a trabalhar como professor, primeiro na Escola Secundária de Nwachicoluane, no Distrito de Chókwè, na Província de Gaza, e, depois, na cidade de Maputo. Posteriormente, saiu da Educação e trabalhou como funcionário administrativo numa empresa.

Vários poemas e contos de Pastor estão publicados na imprensa moçambicana. Por exemplo, na Gazeta de Artes e Letras da célebre revista Tempo. Por vezes, assinou textos com o pseudónimo Broeiro Duarte São Pedro. Está representado nas seguintes antologias: Antologia da nova poesia moçambicana, de Fátima Mendonça e Nelson Saúte; Rostos da língua – breve antologia de autores da língua portuguesa, de Eduardo White; Die liebe aller tage – erzählungen aus Moçambique, de Elisa Fuchs e Elsa Fuchs-De Melo; Colectânea breve de literatura moçambicana, de Rogério Manjate.

Com a saliva muito ao Sul, com efeito, assim termina: “Quero atravessar o deserto,/ o desastre// Negrejo, e esta é a remendagem da alma./ Vejo-me espelhado num múrmuro/ abismo ignorado.”

 

Chica Sales inaugurou, quarta-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo, a sua mais recente exposição de pintura.

Viagem no plural é o título da nova exposição de Chica Sales. Patente na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, a individual de pintura é uma aventura pelo universo feminino e pelos lugares que a mulher ocupa em vários contextos da sociedade moçambicana, sobretudo no campo.

Na mostra aberta quarta-feira, igualmente, Chica Sales explora os dramas do ser mulher, em ambientes onde sobreviver é quase um milagre: longe da água potável e perto da seca. Esse é um cenário que reflecte a situação da rapariga e da mulher, a quem cabe, geralmente, a tarefa de suprir todas e quaisquer dificuldades relacionadas com a água e tantas outras coisas.

A mulher, na verdade, é o tema de eleição de Chica Sales. E onde há mulher, igualmente, há crianças. Essa é a sua maneira de exprimir o que vê, ouve e sente na ligação com a terra e com as velhas histórias contadas pela sua mãe, que teimam em emitir um eco aos seus ouvidos. “O que pretendo mostrar nesta exposição é a vida ou o quotidiano das populações nas áreas rurais, mostrar a mulher no seu dia-a-dia e os desafios enfrentados diariamente para chegar onde chega”, afirmou, Chica Sales, momentos depois da abertura da sua individual na Fundação Fernando Leite Couto.

O que anima Chica Sales é, nas obras pintadas com recurso a óleo sobre tela ou aguarela sobre papel, é a possibilidade de as pessoas encontrarem nas telas questões que as identificam.

Durante a abertura de Viagem no plural, a exposição foi apresentada por António Barros Júnior, para quem Chica Sales está a transportar o seu traço sensual para transmitir a vida da mulher moçambicana. Aliás, a mostra é uma forma de celebrar o universo feminino, no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.

Com curadoria de Yolanda Couto, Viagem no plural pode ser visitada na Fundação Fernando Leite Couto até 2 de Abril.

Por Afonso dos Santos
A selecção dos poemas e a organização deste livro foram feitas por mim. E por que razão fui eu? Porque essa foi a vontade que o José Pastor deixou expressa por escrito.
Quando o José Pastor morreu, eu não tomei qualquer iniciativa para ter acesso aos textos de poesia e de prosa da sua autoria, que ele pudesse ter deixado. Mas vieram dizer-me que havia uma carta da qual eu era um dos destinatários. Então fui à procura dessa carta, para tomar conhecimento do seu conteúdo.
Na carta, ele encarregava-me de fazer uma selecção dos seus poemas, para publicar um livro de poesia. Ele dizia o seguinte: que me deixava dezenas de poemas e que a maior parte deles – segundo a sua opinião – não tinha qualidade; que rasgou uma grande quantidade de poemas que considerava serem coisas de adolescente; que esteve para escolher apenas vinte poemas e destruir o resto, mas que optou por deixar para mim essa tarefa.
Sobre o poema intitulado “Com a Saliva Muito ao Sul”, dizia que tinha decidido deixar tudo como estava, mas achava que havia estrofes inteiras que deviam ser excluídas e aceitava também que se alterasse a ordem das estrofes e que se eliminasse versos inteiros.
E dizia, na sua carta: “Manos, acredito que vocês garantirão a publicação de qualidade, nem que me saia um só livro”.
Se divulgo agora publicamente estas partes da sua carta – as quais não contêm informação sobre a sua vida privada – é porque isto revela o que é o labor literário sério e mostra o elevado nível de exigência que o José Pastor aplicava ao seu trabalho poético e também o respeito que ele tinha pela poesia em si própria.
Em última análise, tudo se resume sempre numa questão de respeito e, neste caso, de respeito pela arte.
Eu não fiz aquele tipo de alterações. Não pus o José Pastor a escrever o que ele não escreveu. Também aqui se trata de uma questão de respeito. Tudo o que está neste livro, do primeiro ao último verso, é a escrita do José Pastor.
Mas para se perceber por que motivo ele me concedeu esta possibilidade de de acção tão ampla, posso esclarecer que ele, por vezes, dava-me a ler o que escrevia, e pedia a minha opinião, por isso conhecia bem o modo como eu lia e sentia os seus poemas e ele podia verificar que havia entre nós uma sintonia de gosto no que diz respeito à poesia.
Para nós, a poesia é uma forma de criação literária que faz incidir sobre o insondável sentido da vida uma luminosidade insólita, que é simultaneamente encantatória e inquietante.
E a poesia é, além disso, uma busca de musicalidade das palavras, através da combinação melodiosa das sílabas, como se estas fossem notas de música.
Quando eu fui recolher os textos de poesia e de prosa do José Pastor, a minha preocupação imediata foi evitar que começassem a dispersar-se e acabassem por desaparecer. Recolhi, guardei e deixei ficar guardado. O principal, naquele momento, estava garantido: a preservação.
E não tive nenhuma pressa em preparar e publicar um livro dele. É preciso notar que o José Pastor tinha em sua posse todos os seus poemas e, apesar disso, não procurou ele próprio publicar o seu livro de poesia. Porquê? Talvez porque considerasse que, segundo a sua aspiração pessoal, não tinha ainda alcançado o zénite da sua obra. E continuava a criá-la.
Também não me apressei porque não se corre para se publicar um livro só porque o autor morreu. O facto de que o autor tenha morrido não constitui nenhum indicador de que o que ele deixou escrito, tendo em conta a qualidade ou a quantidade, justifique a publicação de um livro.
Quando a motivação dominante para se publicar pela primeira vez um livro dum autor é por causa de ele já não estar vivo, e existe o desejo de que possam ser lidos alguns dos seus textos literários, corre-se o risco de se cair num dos seguintes equívocos: ou se arrebanha o que aparece à mão, e publica-se pouco mais do que um folheto, com alguns textos a granel, e isso não reflecte a dimensão da obra do autor e, portanto, desvaloriza-a; ou abarrota-se o livro com todos os textos que o autor deixou, e publica-se uma espécie de livro sepulcral, em que ressoa um epitáfio: “Aqui jaz tudo o que o morto escreveu”.
Mas posso garantir-vos que este livro está nos antípodas de qualquer epitáfio.
Na minha perspectiva sobre o que me competia fazer, o objectivo não era simplesmente publicar um qualquer livro de poesia do José Pastor, era, sim, construir um livro que fosse uma obra coerente e com vida própria.
O desejo do José Pastor não consistia em ter o seu nome na capa dum livro. A missão estava definida com toda a clareza: “Manos, acredito que vocês garantirão a publicação de qualidade”.
Por outro lado, havia uma dificuldade de ordem prática. Como o José Pastor ainda continuava a aperfeiçoar a sua escrita, havia palavras que estavam riscadas e que tinham, ao lado, um rabisco que era completamente indecifrável. E isto acontecia também com alguns versos. E um poema que devesse entrar no livro não poderia ficar excluído só por causa de algum caso destes. Foi necessário tomar decisões sobre estes casos. Esta situação deixou-me paralisado durante muito tempo, até que cheguei à conclusão de que, em certas circunstâncias, é melhor tomar uma má decisão do que não tomar decisão nenhuma.
Eu comecei por falar em selecção dos poemas e organização do livro. Estas são duas etapas distintas. Quando os poemas já estão escolhidos, há ainda um caminho a percorrer. É preciso definir qual vai ser a ordenação dos poemas no livro, para que este tenha uma unidade de sentido e não seja apenas um receptáculo de poemas enfileirados à toa.
Quanto à selecção dos poemas, quero salientar que eu não me limitei a incluir no livro apenas os poemas da minha preferência, até porque outros leitores terão preferências diferentes das minhas, e, além disso, eu não estava a preparar um livro meu, estava a preparar o livro do José Pastor. Isto quer dizer que este livro não é aquilo que poderia ser considerado o meu livro de poemas do José Pastor.
Acima de tudo, procurei construir um livro que, tanto quanto eu consiga imaginar, seria o livro que o José Pastor me daria a ler, pedindo a minha opinião sobre o mesmo. E posso dizer, em tom de humor, que se o José Pastor tivesse decidido ter em conta as minhas opiniões, então o livro seria exactamente este.
Quando eu estava a organizar o livro, depois de os poemas já estarem escolhidos, ao fazer a sua ordenação eu não comecei por definir qual seria o primeiro poema, depois o segundo, depois o terceiro. Eu estava a trabalhar com todos os poemas em simultâneo. Comecei por formar grupos: os poemas que ficariam no princípio, os que ficariam no fim, os que ficariam no meio. E eram mais grupos do que apenas estes três. Depois, ia fazendo mudanças. Houve poemas que mudaram de um grupo para outro e poemas que mudaram de lugar dentro do seu grupo. Estas mudanças eram determinadas naturalmente pelos conteúdos dos próprios poemas.
E, então, num certo momento, surpreendentemente para mim, apercebi-me de que o livro estava pronto. E pensei: “Afinal, é este o livro”.
Se fiz aqui a descrição do método de trabalho que utilizei, foi apenas para assinalar que, de certo modo, o livro surgiu por si mesmo, como se estivesse lá à espera de ser descoberto.
A forma como este livro surgiu faz lembrar uma ideia que está associada ao escultor Miguel Ângelo. Segundo essa ideia, em cada bloco de pedra existe uma estátua, e a tarefa do escultor consiste em escavar, retirando gradualmente a matéria que envolve a forma que se pretende trazer à luz do dia.
Há diferentes citações das palavras de Miguel Ângelo sobre este assunto. Uma das mais inspiradoras é esta: “Eu vi o anjo no interior do mármore e cinzelei até que o libertei”.
Nesta perspectiva, podemos considerar que este livro de poesia do José Pastor já existia, e que, para encontrá-lo, só era preciso arredar os poemas que, por uma ou por outra razão, estavam a mais. É como se o José Pastor me tivesse dito: “Encontra o livro que existe no âmago deste labirinto de poemas”.
Mas, diferentemente do escultor, que já tem a visão antecipada da estátua que existe no interior do bloco de pedra, eu não tinha qualquer noção sobre o livro que iria encontrar. E o livro que encontrei é este.
A selecção dos poemas e a organização do livro eram minha responsabilidade pessoal. E termina aí o meu papel individual no que diz respeito à edição deste livro. Há amigos do José Pastor que estiveram sempre empenhados em que este objectivo fosse alcançado, e alguns deles envolveram-se directamente nas acções que nos trouxeram até aqui.
Mas não há livro se não houver editora que se interesse por ele e o publique. Por isso, agradecemos profundamente ao Mbate Pedro e à sua Editora, a Cavalo do Mar, o facto de que este livro possa estar agora nas vossas mãos. Foi o Mbate Pedro que tornou possível que a poesia do José Pastor chegue a todos aqueles que desejem lê-la.
Antes de terminar, quero fazer notar que tudo isto que eu disse não é uma apresentação do livro, pois não fiz qualquer referência ao seu conteúdo. Este é apenas o relato sobre a descoberta deste livro.
Por fim, permitam-me que vos dê uma sugestão. Quando forem assistir a uma peça de teatro, não se distraiam a olhar para os técnicos de iluminação que trabalham lá atrás na penumbra, porque, se fizerem isso, perderão a oportunidade de se encantarem com o brilho da actividade criadora dos actores em palco.
No palco que é este livro, os actores são os poemas, e estes poemas têm um autor: José Pastor.
* Intervenção no acto de lançamento do livro “Com a Saliva Muito ao Sul”, de José Pastor, publicado pela Editora Cavalo do Mar, em 10 de Março de 2022

Por: Arsénia Ressique Amade

 

Arrumar o quarto para organizar a vida é o nome de uma das minhas playlist`s, título bem descritivo este, a razão pela qual essa minha lista de músicas composta pelas músicas mais tristes e deprimentes do mundo, como “need some sleep”, chamar-se assim é bem simples. Sinto que a minha vida está uma merda e o meu quarto com o cesto de roupa suja ao lado do cesto da roupa limpa cheio de roupa por cima que não sei dizer qual delas é limpa ou suja demostra isso.

Quando sinto que a minha vida é uma merda, acredito que escutar Sam Smith me ajuda a ver as coisas mais claras, pois escutar música, independentemente do estado da vida ou do quarto faz bem.

Quando o meu quarto está desarrumado, é porque não lhe dou a atenção devida, não cuido dele, como não presto atenção devida a mim mesma, autossabotando-me, alimentando paranoias, pensamentos negativos e obsessivos sobre situações da minha vida, que consomem a minha energia de tal forma que me esqueço que o sol nasce todos os dias. Mesmo com o sol nublado, escuto uma música.

Não que não tenha razões para me alegrar ou agradecer, mas que me sentir uma merda, às vezes, faz parte, como as estrelas, a lua e todos os planetas existentes fazem parte da grandiosa galáxia.

Queria poder descrever o quão bela é a vida quando estou deprimida ou conseguir explicar para mim mesma que tudo passa, até mesmo a falta de vontade de fazer as coisas, os pensamentos e sentimentos obsessivos e negativos, pois também já estive super feliz e empolgada com a coisas. Já quis gritar para todo mundo como a vida é incrível e é tão bom viver. Engraçado, já escutei Jay Arg no meio da madrugada porque acordei e espelhei-me, cheia de vontade de aproveitar o dia ao lado das pessoas que eu amo. Enfim, momentos como arrumar o quarto a chorar, ouvindo Khalid fazem parte de um processo, o qual cada uma das pessoas vive e sente a sua maneira.

Sei que, quaNdo estou muito triste, concentrada em coisas que só contribuem para o aumento da minha insegurança, enquanto ser humana, o que faz com que a cada minuto me torne uma pessoa egocêntrica, egoísta e muito mais tóxica, é muito bom escutar uma música que me vai fazer libertar toda a tensão e sentimentos negativos que advêm destas paranoias. Vou olhar o meu reflexo no espelho, fingir que estou no vídeo-clipe.

“Someone like you” faz secar a minha cara molhada por causa das lágrimas e baba, pois quando chego nessa música já não tenho razões para chorar. Nesse momento, decido fazer um plano de acção, com os meus objectivos de vida, com um cronograma organizado e seguir só. Aí vêm músicas motivacionais que deixam o meu astral melhor.

Carrego comigo medos e inseguranças que deixam a minha alma muito pesada. Então uma hora de Poesia Acústica, mais duas horas de Hernani da Silva, Jhane Aiko, conduzem-me a um estado inicial de coragem. E quando dou por mim, estou a fazer coisas, as quais receava.

A música tem um poder tremendo. Por isso que tenho uma playlist para cada actividade que faço e estado de espírito. Então, escutem músicas. Se não te fazem dançar, faz-te sorrir, chorar, pensar e muito mais, pois a música, como qualquer outra arte, dá mais sabor à vida.

 

 

Por: Huwana Rubi

 

Pedro Mourana é um nome que dispensa apresentações, um decano por excelência das artes plásticas nacionais e não só, pois, a sua pintura é transcendental em termos de técnica, movimento e temáticas. E não é por mero acaso que influência um leque de artistas nacionais. A sua pintura busca sempre compreender recortes reais, imaginários, dentro dos contextos da sua exímia dialética e das várias mitologias que com o traço muito firme, compreende a harmonia das cores, transformações e deformações muito bem concedidas para que a leitura seja uma sensação própria de quem lê e vê. Estes elementos, técnicos e pictóricos, podem notar-se na sua obra “Quelimane”, patente na presente exposição O murmúrio dos búzios e as miudezas da alma, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, cujo o curador é professor Jorge Dias, actual Director da instituição.

Outrossim, trata-se de uma exposição completa, onde duas individualidades das artes plásticas se reencontram neste murmúrio dos búzios.

A presente exposição é composta por uma entrega e busca de pensamentos e sempre no movimento triangular do lógico, fictício e do eu enquanto a figura principal.

Os “movimentos ” do realismo e do surrealismo confundem-se na beleza e profundidade das palavras do autor do livro com a mesma temática, o Falso Poeta.

Nada é falso.

A pintura “o pecado do Adão” é exactamente um “mirror” dos significados e ressignificados das realidades actuais e mitológicas, um veludo das paixões “não ortodoxas”, mas que buscam uma permanente beleza, encantos e laços, tais como os contrastes que se fundem nestes vários triângulos.
As obras, o labor e a vaidade, sereno silêncio sonoro e a longa espera, esta última condiz com as palavras do artista, “tem uma história para contar”.

A obra “meu canto…” é a essência do perfume das tintas, do caos e de um lugar solitário e rico, onde o artista vive mesmo que fora da tela, memórias do passado, o espanto da personagem e do cotidiano de um espaço sagrado que é o seu atelier em perspectiva, dimensões e focos de fuga.

De forma lacónica, urge que os artistas plásticos sejam mais entendidos, não como em 1993, mas como uma actualidade de dialética e com mestria.

É uma honra e é um momento prazeroso poder compartilhar este momento, O murmúrio dos búzios e as miudezas da alma, que ecoam no mar dos pensamentos que o mestre Pedro Mourana emana.

 

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