O País – A verdade como notícia

A banda do baterista moçambicano Frank Paco actuou, esta terça-feira, no Mercado de Música do Oceano Índico, um evento que decorre entre 30 de Maio e 2 de Junho. O trio Kombo existe desde 2019 e mistura o jazz com ritmos tradicionais.

 

A banda que mistura jazz e tantos outros ritmos musicais é recente. Embora se tenha formado há dois anos, a qualidade musical dos Kombo permitiu aos integrantes Frank Paco (bateria), Melanie Bourire (vocalista e instrumentais) e Lise Van Dooren (teclado), esta terça-feira, subir ao palco do Le Kerveguen, no segundo dia do Mercado de Música do Oceano Índico (IOMMa), evento que decorre na Cidade de Saint-Pierre, na Ilha Reunião.

A actuação da banda de Frank Paco, que vive na Ilha Reunião há algum tempo, durou, como tem sido habitual no IOMMa 2022, meia hora. Nesse intervalo temporal, o trio interpretou quatro músicas, que oscilam entre o que se pode considerar um jazz africano e outras sonoridades do continente. Com efeito, no Le Kerveguen ouviu-se uma mistura de músicas, às vezes, tocadas em jeito remixes.

Conforme explicou Frank Paco, momentos depois do espectáculo, sendo aquele evento um mercado de música, “quisemos escolher aquelas músicas que dariam bom impacto, para que as pessoas presentes pudessem escolher o nosso trabalho”. Com isso, adicionou, o propósito do trio composto por um moçambicano e duas francesas, todos residentes na Ilha Reunião, foi o de fazer com que os consumidores da música africana se interessassem em investir na sua música. Por exemplo, contratando-os para outros espectáculos. Considerando o nível de oferta do IOMMa, Kombo investiu numa sonoridade particular. Suave e apresentada numa actuação ascendente em termos de protagonismo e do impacto sonoro no auditório.

Questionado sobre o que os Kombo já conquistaram de 2019 a esta parte, Frank Paco respondeu que as pessoas têm sido acolhedoras. Inclusive, têm conseguido trabalhar com muita gente importante. Além disso, o baterista moçambicano que não passa despercebido de La Réunion, a forma como é chamada a Ilha Reunião pelos franceses, revelou que, neste momento, encontra-se a escrever e a descobrir os ritmos locais. Por isso, assumiu que o próximo disco terá influências daquela região francesa localizada no Oceano Índico, mais ou menos a cinco horas de voo de Maputo.

Em dois anos de existência, Kombo gravou um disco de vinil, intitulado Tizan Amare. A obra discográfica foi produzida pela Run Run Records, sedeada a poucos quilómetros do centro da Cidade de Saint-Pierre, onde o IOMMa decorre até 2 de Junho com forte representação de uma delegação moçambicana constituída por representantes do Conselho Municipal de Maputo, da Khuzula Investimentos e da Associação IVERCA.

 

 

 

A delegação  moçambicana liderada pelo Conselho Municipal de Maputo e pela Khuzula Investimentos é uma das atracções da presente edição do Mercado de Música do Oceano Índico (IOMMa). Esta semana, Maputo irá assinar um memorando de entendimento com a cidade de Sanite-Pierre, na Ilha Reunião.

Quando o Director do Mercado da Música do Oceano Índico (IOMMa) disse hoyo-hoyo, os moçambicanos presentes na sala de espectáculo do Kerveguen sorriram e aplaudiram com emoção. A palavra rhonga, que em português quer dizer bem-vindo, foi a única de origem bantu pronunciada por Blanc Blanc, durante a sessão da abertura de uma iniciativa que coloca os países africanos banhados pelo Oceano Índico no mesmo mapa cultural e turístico. Também por isso, a presença da Vereadora da Cultura do Município de Maputo, Isabel Macie, e de Moçambique foi referenciada várias vezes ao longo das intervenções feitas pela organização do IOMMa e pelas autoridades municipais da região francesa Ilha Reunião.
Fundamentalmente, Moçambique foi várias vezes destacado na abertura do IOMMa, esta segunda-feira, em Sainte-Pierre, porque aquele município da Ilha Reunião tem propósitos definidos com a Cidade das Acácias: intercâmbio cultural. Inclusive, há três anos, uma delegação local visitou Maputo para estudar propostas concretas de cooperação. É na sequência dessa visita, em 2019, que, esta semana, será assinado um memorando de entendimento entre Maputo e Sainte-Pierre.
Segundo Isabel Macie, o memorando em causa irá abranger as seguinte áreas: cultura, desporto e social. “Isto significa a promoção de Maputo na orla do Oceano Índico e a busca de parceria para a presença de artistas moçambicanos em eventos da região africana (Austral e Oriental) no mundo. Isto tem tudo a ver com o memorando que iremos assinar, tendo o foco concreto no sector cultural. O memorando é um desfecho de um processo que iniciou em 2019”, lembrou a Vereadora.
Na cerimónia de abertura também esteve o Director-Geral da Kuzhula Investimentos, Paulo Chibanga, para quem o memorando entre Maputo e Sainte-Pierre é uma oportunidade para desenvolver grandes projectos que irão favorecer os cidadãos das duas cidades do Oceano Índico. “Esta presença significa uma colaboração que irá permitir “exportar”  artistas moçambicanos. Isso irá permitir-nos  aprender e dar visibilidade aos criadores moçambicanos no mundo. E eles poderão apoiar-mos em áreas em que estão melhores do que nós”.
Para o Centro Cultural Franco-Moçambicano, Vincent Frontczy, a expectativa é que o memorando fortaleça a presença de Maputo em Sainte-Pierre, atraindo formação para o sector cultural. E esta é uma forma de dar continuidade à parceria entre o Franco-Moçambicano e o Scenes Australês, instituição que organiza o IOMMa.
No primeiro dia do IOMMa 2022, houve música. A abertura dos concertos foi feita por Gargar Meets Casbah, do Quénia, que, ao longo de mais ou menos meia hora, tocou ritmos que para algumas pessoas presentes no auditório aproximam-se aos sons da África Ocidental. Ao evento também foram convidados a actuar Saodaj, da Ilha Reunião, e Olo Blaky, de Madagáscar.
Além dos países mencionados, na edição 2022 do IOMMa também estão músicos de Seychelles, África do Sul, Maurícias e Tanzania. De Moçambique, actuará Radjha Ali, quarta-feira, num concerto com banda.
A parceria entre a Khuzula Investimentos e a Scenes Australês, com efeito, existe há 10 anos e já permitiu que Roberto Chitsondzo, Gran’Mah, Esaú Meneses e Deltino Guerreiro também lá actuasse

Assinala-se, hoje, o centenário de nascimento de José Craveirinha. O poeta dos “vaticínios infalíveis” nasceu a 28 de Maio de 1922 e fez um pouco de tudo: poesia, prosa, desporto e jornalismo, tendo colaborado com órgãos como O brado africano e A tribuna.

 

No dia 19 de Agosto de 1962, Eugénio Lisboa proferiu uma palestra no 2º Sarau de Poesia da Câmara Municipal de Lourenço Marques. Intitulada “Algumas considerações em torno da poesia de José Craveirinha”, a intervenção foi publicada no órgão A voz de Moçambique e, bem mais tarde, em 1973, na Crónica dos anos da peste I. Nesse livro que pensa a literatura moçambicana através de vários ângulos, às vezes, em que os mais conservadores podem ficar chocados sobre algumas posições do ensaísta em relação aos grandes poetas de Moçambique, Lisboa defende, por um lado, que “Craveirinha é uma voz do nosso tempo e da nossa circunstância – não há-de ser-nos, portanto, demasiado difícil circunscrever-lhe as belezas mais evidentes”.

Por outro, Eugénio Lisboa sustenta que “a poesia de Craveirinha é, não fica dúvida, uma poesia de indignação e acusação de uma realidade que se interpela e se rejeita”. Tendo nascido numa época adversa, em que o colonialismo português vigorava em África, José Craveirinha afirmou-se como nacionalista, o eterno poeta dos “vaticínios infalíveis”. O contexto colonial deve ter contribuído imenso para que fosse um “poeta indignado”, pois, enfrentou e conviveu com injustiças sociais típicas dos anos 40, 50 ou 60 do século passado.

De igual modo, depois de ter nascido lá para as bandas do Xipamanine, na então Lourenço Marques, José João Craveirinha foi viver para Mafalala, que por causa do próprio contexto colonial e das migrações internas, conforme observa Francisco Noa em Além do túnel, “institui-se como um notável ensaio laboral de coabitação multiétnica, multicultural e plurirracial”. E diz ensaísta acrescenta: “Mafalala é uma escola para além do tempo e do espaço”. Então, tendo essa base, através da arte literária, Sontinho (nome por que era tratado Craveirinha na família materna, por ter nascido num sonto, do rhonga, domingo em português) soube sonhar um país e foi ousado na configuração de uma Nação que, agora, só os seus leitores saberão dizer se já existe.

Entre esses leitores, encontra-se Tomás Vieira Mário. Segundo disse o jornalista, numa breve entrevista cedida no evento Noites de Poesia, realizado no Museu Mafalala, em Maputo, Craveirinha era uma pessoa muito angustiada, que sonhou com um país desenvolvido e próspero. Mas “terá morrido sem ter visto esse seu sonho”.

Muito antes de morrer, a 6 de Fevereiro de 2003, em Joanesburgo, na África do Sul, Craveirinha foi autodidata, plural e diverso na sua condição de eterno aprendiz. Foi um homem de palavras e de ideias, sem que a sua poesia se tornasse panfletária. Por isso mesmo, o seu legado literário é transversal e o primeiro Prémio Camões africano, 1991, faz-se hoje, igualmente, um poeta deste tempo, comprometido em levar à poesia os eventuais silêncios do seu povo. “Craveirinha é um marco importante na História do nosso país, da nossa cultura e das letras moçambicanas”, disse o Secretário-Geral da AEMO, Carlos Paradona.

Por isso mesmo, no ano que completaria 100 anos de idade, se estivesse vivo, o país celebra-o como nunca o fez: em saraus, conferências, colóquios, palestras, conversas e homenagens de outra natureza. A vida do poeta sempre esteve entre fronteiras: das nacionalidades (Moçambique e Portugal – filho de mãe rhonga e pai português), das cores (brancos e pretos) ou das tradições e identidades. Tudo isso permitiu-lhe ser um poeta irónico, utópico e das liberdades, cuja escrita interessou a muitos ensaístas. Por exemplo, o ensaísta Luís Cezerilo tem duas publicações sobre o poeta, designadamente: Obra poética de José Craveirinha e Eduardo White e O erotismo como linguagem na obra de José Craveirinha. O segundo trabalho “foi uma pesquisa aturada, em que eu fui resgatar poemas escritos pelo poeta Zé, inéditos, manuscritos nunca antes publicados em livro”.

O estudo de Cezerilo contém, inclusive, imagens desses poemas, ora rasurados pelo poeta, ora corrigidos. A pesquisa permitiu ao ensaísta concluir que em Craveirinha quase tudo é combate e intervenção. Até o erotismo. “O erotismo, na poética do Zé, não é concebido no sentido etimológico da palavra erotismo. Ele traz-nos o erotismo como combate, como intervenção. E é este jogo bonito que ele faz entre as metáforas do corpo para representar uma situação da Nação”.

Mesmo a propósito dessa Nação tão particular ao poeta, quem também pensa Craveirinha nessa dimensão é Gilberto Matusse. Num artigo publicado no livro Nação e narrativa pós-colonial I: Angola e Moçambique, o professor universitário considera que “A poesia de José Craveirinha apresenta fortes marcas narrativas. A partir dessas marcas, observa-se que o autor procurou reflectir os aspectos mais marcantes da sociedade do seu tempo, particularmente a problemática da Nação”.

Estudos literários sobre Craveirinha, em Moçambique e no estrangeiro, não faltam. No entanto, segundo afirmou o escritor Nelson Saúte, numa conversa com estudantes de literatura realizada na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo, a escrita de J. C., J. Cravo ou Abílio Cossa (pseudónimos) ainda é pouco conhecida. “O melhor Craveirinha é o Craveirinha desconhecido. O mais conhecido é aquele que seria a voz dos povos oprimidos”. No entanto, além do poeta das liberdades, que não desvaneceu mesmo quando foi preso pela PIDE, para Saúte, é urgente conhecer no poeta a dimensão mais lírica e intimista.

Como se tivesse ouvido Nelson Saúte, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, na cerimónia do anúncio do vencedor do Prémio de Literatura José Craveirinha, considerou: “Discutindo o desconhecido em José Craveirinha, estaremos a contribuir para uma sociedade melhor”.

Na mesma cerimónia, o escritor laureado, Mia Couto, disse que Craveirinha inaugura um momento novo em Moçambique, “não só porque ele anuncia na sua própria voz uma Nação nova, mas porque ele é o primeiro dos não veteranos de guerra que toma lugar na cripta dos heróis nacionais”.

José Craveirinha marcou e ainda marca gerações de artistas moçambicanos. O álbum de estreia do rapper Azagaia, Babalaze, tem no poeta uma inspiração. A obra literária O escutador de silêncios, de Ricardo Santos, é uma homenagem ao poeta. Em saraus, artistas como Helena Rosa, Tânia Tomé, Cândita Mata ou Lucrécia Paco continuam a declamar o poeta com muita vivacidade.

Fora das artes e letras, o autor de Xigubo, Karingana ua karingana, Babalaze das hienas ou Maria praticou e foi um grande entusiasta de desporto. Foi nessa condição que contribuiu imenso para estimular Lurdes Mutola a seguir o atletismo. O jornalista Renato Caldeira, que bem acompanhou a história da “Menina de ouro”, não se farta de repetir esse acontecimento épico: “A Lurdes foi incentivada pelo poeta Craveirinha a deixar o futebol e a seguir o atletismo”. Nessa altura, Mutola competia com homens, o que é contra as regras da FIFA. “A Lurdes Mutola confidenciou uma vez que foi fazer um treino ao Parque dos Continuadores, com Stélio Craveirinha [o falecido filho do poeta, que treinou Mutola], e voltou a casa com dores nos músculos. Ela desistiu, mas o poeta Craveirinha teve mérito extraordinário no surgimento da Mutola e insistiu para que ela não desistisse”.

Em rhonga, há uma expressão popular: mawaku, que significa “que sorte é a tua!”. Será o caso para dizer mawaku, Moçambique, por ser o berço desse herói nacional? Ao invés de  qualquer resposta ou vaticínio infalível, esta tentativa falhada de reportagem, que tão-somente ignorou a narração cronológica da biografia do poeta-mor, aqui ficam alguns excertos do poema “Cantiga em três tempos”, extraído do livro Cela 1: “O poeta enclausurado/ ou mesmo incomunicável seis meses/ circula/ e funciona/ como um irrevogável/ perfeito golpe de estado.// Até Platão/ esperto já sabia disso!”.

O músico angolano vai actuar num concerto a realizar-se este sábado, às 18 horas, no Centro de Conferências Joaquim Chissano, na Cidade de Maputo.

O músico angolano Paulo Flores encontra-se no país para realizar um concerto. Em Maputo, Paulo Flores vai partilhar o palco com Stewart Sukuma, Yuri da Cunha e Manecas Costa. “É um prazer muito grande estar aqui” – disse Paulo Flores, na conferência de imprensa realizada em Maputo, para depois acrescentar: “Nós, de facto, sentimo-nos como em nossa segunda casa, não apenas por sermos dos PALOP, mas pela forma como somos recebidos – no meu caso, em particular, pela forma como me sinto parte integrante das vossas vidas e pela maneira como recebem as minhas músicas e as minhas letras”.

Segundo a nota de imprensa do BCI, para Paulo Flores, Moçambique e Angola partilham fortes laços históricos: “Todos sofremos da mesma carência. Como digo, na minha música Independência […], as vossas independências e as nossas liberdades são feitas também dessas afinidades” – disse o artista angolano, lembrando que a primeira vez que veio a Maputo foi há 30 anos (1992) e tinha, na altura, 20 anos.

Para o representante do BCI, Heisler Castelo David, “é uma grande responsabilidade, para o BCI, ser parceiro e anfitrião desta iniciativa, que gera muita expectativa, sobretudo pelo facto de envolver, mais do que artistas, fazedores de opinião, ícones da sua geração, activistas de grandes causas sociais, como Paulo Flores, Yuri da Cunha, Stewart Sukuma, entre outros”.

As duas participantes angolanas, na primeira Conferência Internacional sobre José Craveirinha, a decorrer de 24 a 26 de Maio, em Maputo, testemunharam uma oferta especial do mestre moçambicano de artes plásticas, Noel Langa, destinada à União dos Escritores Angolanos (UEA).

De acordo com a nota de imprensa da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), trata-se de uma pintura a óleo, que retrata o quotidiano da mulher moçambicana e é considerada uma das melhores obras de Noel Langa, um artista natural de Gaza e célebre pela brilhante carreira artística.

Na ocasião, lê-se na nota imprensa da AEMO, o mestre Noel Langa conversou com a delegação angolana composta por Luisíndia Caetano e Anete Caetano, que estão em Maputo para tomar parte da primeira Conferência Internacional sobre o Centenário do poeta José Craveirinha e apresentar o livro Os bantu na visão de Mafrano, de Maurício Francisco Caetano, seu avô.

A oferta das obras plásticas ocorreu durante a reedição da obra Bairro Indígena, do escritor e poeta Juvenal Bucuane, e ocorreu no atelier do conhecido mestre de artes plásticas da Munhuana.
Natural da Província de Gaza, Noel Langa nasceu em 1938 e iniciou a sua carreira artística em 1960.

Por Luís Nhachote *

 

Ficou para os manuais da história, o facto de José Craveirinha, o poeta-mor moçambicano, ter sido a primeira figura não ligada ao poder a repousar na Praça dos Heróis, tido como o panteão da nata da Frelimo.

O ano de 2002, em que ele completou 80 anos de idade, foi decretado pelo Conselho de Ministros como o ano de José Craveirinha.

Foi uma justa homenagem, considerando o percurso deste nacionalista, que é também considerado o maior e o mais conhecido poeta moçambicano de todos os tempos. Poeta de dimensão universal e intelectual de grande porte, que contribuiu na formação e construção da moçambicanidade, Craveirinha usou a sua escrita para denunciar e combater a incoerência as injustiças coloniais.

Mesmo depois da morte física do poeta dos vaticínios infalíveis, a sua vasta e importantíssima obra literária fica imortalizada.

 De referir que  a sua obra maior, “Karingana wa karingana”, foi classificada como um dos cem maiores livros de África do último século.

 

O percuso

 

De nome completo José João Craveirinha, nasceu numa casa de madeira e zinco, aos 28 de Maio de 1922, na então cidade de Lourenço Marques.

Filho de pai algarvio e mãe maronga, iniciou a sua actividade jornalística no “O Brado Africano”, um jornal de profunda militância nacionalista desde o início do século passado.

Colaboraram para o Brado Africano grandes nomes como os irmãos Albasini, Estácio Dias, Karel Pott (primeiro advogado moçambicano no tempo colonial), a falecida poetisa Noémia de Sousa e outros intelectuais sonantes da época.

Passou depois para o Notícias (onde, durante muitos anos, manteve uma coluna semanal, Conctato). Escreveu também para o Notícias da Tarde; Voz de Moçambique; Notícias da Beira (onde volta a assinar uma nova coluna semanal, Recontacto); Tribuna, Cooperador de Moçambique e Tempo.

Mas foi como poeta que Craveirinha se tornou figura emblemática.

A sua obra poética é reconhecida unanimemente como uma das mais originais do espaço lusófono e não só, tendo, por isso, recebido várias distinções e menções honrosas. Em 1991, em Lisboa, Portugal, como colorário da grandeza da sua obra, recebeu o mais almejado prémio literário da língua portuguesa: o prémio Camões.

Era o coroar de um mestre da profissão mais solitária do mundo: a escrita.

A sua obra em prosa, compreendendo a crónica, o conto e o ensaio, permanece ainda desconhecida do grande público.

Para além da sua actividade como jornalista e poeta, Craveirinha desempenhou um papel de relevo na vida da Associação Africana a partir dos anos cinquenta, onde era presidente da mesa da assembleia geral até ao seu encerramento.

O poeta também foi desportista, tendo praticado futebol no Clube Desportivo João Albasini e no Clube Desportivo de Lourenço Marques e treinador de atletismo.

 

O poeta

 

Não se afigura fácil dissertar sobre a poesia de Craveirinha sem compreender o contexto em que ele escreveu: as suas inquietações, ansiedades, dúvidas, sonhos, aspirações. “Falar sobre a poesia de um verdadeiro poeta é sempre um acto de indiscrição em que se comete a intrusão e desrespeito pelo autor também, mesmo quando se diz bem”…(1) As palavras são da autoria do próprio punho de Craveirinha, numa crónica publicada a 21 de Dezembro de 1969, acerca do livro do seu contemporâneo e amigo Rui Knopfli, inserida no “A voz de Moçambique”.

Portanto para se falar de Craveirinha é preciso recuar no tempo e no espaço em que os próprios versos carregados de uma força prodigiosa e protestatária que nos permitem ver as realidades, as atrocidades daquela época no período antes e pós-independência, como teremos oportunidade de ver quando nos referimos ao livro “Babalaze das Hienas”. Em José Craveirinha encontramos três poetas: o crítico, o eligíaco e o militante que se dissociam de um todo através de vários períodos históricos.

Eduardo Mondlane, “fundador” da Frelimo, no seu “Lutar por Moçambique” no capítulo 5, intitulado “Resistência – À procura dum movimento nacional” faz referência ao papel dos intelectuais durante o regime colonial.

Diz Mondlane: “Na poesia política dos anos quarenta e cinquenta predominavam três temas: reafirmação da África como mãe-pátria, lar espiritual e contexto de futura nação; levantamento do homem negro noutras partes do mundo, chamada geral à revolta(…) No grito negro, Craveirinha conseguiu dar um dos mais vividos testemunhos de alienação e revolta que jamais foram escritos: ver livro “Xigubo” página 9 (nove)”.

Poucos do grupo de Craveirinha conseguiram escapar ao seu isolamento e fazer ligação entre a teoria e a prática(2)

Em paralelo, Craveirinha desenvolve activdade política, um pouco na clandestinidade.

No final dos anos quarenta, juntamente com o seu amigo e decano do fotojornalismo, Ricardo Rangel, Noémia de Sousa e Dolores Lopes, redige uma carta exigindo a independência de Moçambique.

Em 1963, um pouco antes do início da luta armada, o poeta, no auge do protesto escreve um poema frontal ao governador colonial. Para alguma compreensão vale apena citar alguns extractos. Leia:

 

Excelentíssimo Sr. governador

 

Excelentíssimo senhor governador.

Excelência,

Eu abaixo assinado mui respeitosamente venho

dizer que o poeta de coração na sua terra

do alto da sua protética insignificância

não passa de um simples fabricante

de problemas e vaticínios

mais tarde ou mais cedo

sempre certos

(…..)

Agora

Excelentíssimo senhor governador.

Quer prender? …prenda!

quer matar? …mate!

Mas só mais isto: Muito cuidadinho.

Muito cuidado com a alergia dos poetas

Muito cuidadinho senhor governador! (3)

 

O poema acima explica as razões por que a PIDE/DGS esteve sempre no seu encalço. O poeta no auge do protesto, e, em plena praça pública reclama o bem mais precioso de todos os homens: a liberdade e a vida. Estas e outras atitudes custaram-lhe a prisão entre 1965 e 1969, na companhia de Malangantanak e Rui Nogar. É na cadeia que nasceram os versos de um dos seus mais conhecidos livros: Cela 1.

Craveirinha é também reconhecido pela crítica especializada como o pai da metáfora irónica, provocatória e por que não profética.

O seu livro de estreia “Xigubo” rico de versos que carregados de visões Messiánicas, é o depositário sincero de um crente: Um Moçambique para moçambicanos.

No “poema do futuro cidadão”, em que se assume como cidadão de uma nação que ainda não existe, de uma forma metafórica de que se especializou, o poeta deixa a ideia de que só existiria se o País fosse livre do julgo colonial.

E, como seus vaticínios são sempre certos, onze anos depois, cumpria-se a sua primeira grande profecia: Moçambique ficava independente e Craveirinha como todos nós tornou-se cidadão deste País, pelo qual sonhou, lutou e escreveu.

Nos seus escritos também pontificava a negritude, na senda de poetas como Leopold Sedar Senghor, Aime Cesaire e Leon Damas,

Assume-se como grande clamador da unidade nacional, como podemos ver no brilhante ensaio de Rui Baltazar (…) mas antes de querer ser Universal, Craveirinha quer-se moçambicano.

Esta é a característica que devemos assinalar.

O poeta vence uma das mais graves limitações que atormentam e flagelam os homens em África: os seus versos contêm uma mensagem que transforma todo Moçambique num todo matizado, é certo, mas sempre um todo coeso e global. Homens do Norte a Sul, do Rovuma ao Maputo, cruzam até formar uma identidade, tal como os grãos de areia que se compactam.

Na “epístola Maconde” os macondes ganham alma de sena, os senas sangue de ronga, os rongas olhos de macua, os macuas gritos de chope, os chopes iras de zulu, vencendo as diferenças tribais, linguísticas, religiosas e étnicas (…)

E é esse mesmo abraço fraternal que Craveirinha envolverá não só os negros mas todos os homens, seja qual for a cor da sua pele…(4)

Com a proclamação da independência e a carnificina entre os irmãos que se seguiu, o sentimento de revolta haveria de se instalar no coração do poeta e entregou-nos o livro. “Babalaze das Hienas”.

Neste trabalho, o poeta aponta-nos, sem equívocos, a falta de consciência, de respeito pela vida humana e a autêntica loucura de guerra que olha pelo negativismo. Da falta de ética das leis da civilização, por todos aqueles que se consideravam democratas e criadores da morte. Veja o poema “eles foram lá” da pág. 19. Vejamos alguns extractos:

 

Vovô

 Amanhã não precisa

 Ir ao hospital

 Ontem eles foram lá

 deram maningue tiros

 partiram tudo, tudo

 (…) e violaram a senhora parteira(5)

 

Mas antes, em 1974 entregou-nos “Karingana wa karingana”,a sua mais festejada obra e celebramos e fizemos dezanove vezes o refrão:

“Sia-Vuma”. Neste mesmo ano, integrando um grupo de ex-presos políticos esteve em Dar-Es-Salaam, para o estabelecimento das conversações entre a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e Portugal.

E é em Sia-Vuma, em versos de esperança antevia um País de campeões olímpicos e como as suas profecias sempre certas, 26 anos depois cumpriu-se a maior de todas: Maria de Lurdes Mutola, que ele mesmo levou e incentivou-a a praticar atletismo, “lavrada” pelas mãos do seu filho mais velho, Stélio Craveirinha, em Setembro de 2000 em Sidney, Austrália, cortava a meta em primeiro lugar, para gáudio de todos os moçambicanos e da África na primeira medalha de ouro olímpica ganha por Moçambique.

A bandeira moçambicana foi içada para o alto do mastro ao som do hino nacional. Observemos o extracto desta grande profecia:

 (…) E seremos viajantes por conta própria

 jornalistas, operários com filhas também dançarinas de ballet

arquitectos, poetas com poemas publicados

compositores e campeões olímpicos

‘‘Sia-Vuma’’(6)

 

 

Os prémios

1959- Prémio da cidade de Lourenço Marques

1961- Prémio Reinaldo Ferreira (Beira)

1961- Prémio ensaio

1962- Prémio Alexandre Dáskalos (casa dos estudantes do império, Lisboa)

1975- Prémio Nacional da poesia da Itália

1975- Medalha de ouro da comuna de Concesio (Bréscia-Itália)

1983- Prémio Lotus (associação dos escritores afro-asiáticos)

1985- Medalha Nachigwea, atribuída pelo governo moçambicano

1987- Medalha de mérito da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo

1991- Prémio Camões

1997- Prémio vida literária, AEMO

1998- Prémio Rui de Noronha

2002- A Universidade Eduardo Mondlane atribuiu-lhe o grau de Doutor Honoris Causa.

 

A obra

– Chigubo, Lisboa, Casa dos estudantes do império, 1964

– Xigubo, Maputo, Instituto Nacional do Livro e Disco (INLD) 1980, AEMO-1992.

– Cântico a Um Dio de Catrame, Milano Lerice, ED, Bilingue, 1966.

– Karingana wa karingana, Lourenço Marques, 1974, Maputo, INLD, 2ª Ed. 1982; Maputo, AEMO-1995

– Cela 1, Maputo (INLD) 1980

– Maria, Lisboa, ALAC-África Literatura, Arte, Cultura, 1998

– Voglio essere tamburo, Venezia, Centro Internacional delle Gráfica, Coop, 1991

– Babalaze das Hienas, Maputo, AEMO-1997

– Hamina e Outros, Maputo, Ndjira, 1997

– Maria, Maputo, Ndjira, 1998, Lisboa, Caminho, 1998

– Contacto, (crónicas), Maputo, 1998, Centro Cultural Português, 1999.

 

 

Bibliografia consultada:

 

(1) Craveirinha, José, “Contacto e outras crónicas” páginas 55 a 60, Instituto Camões 1999

(2) Mondlane, Eduardo, “Lutar por Moçambique” páginas 115 a 119, Penguim books, 1969

(3) Diálogo, Cadernos, “As palavras amadurecem 1” páginas 84 a 86

(4) Baltazar, Rui, “Sobre a poesia de José Craveirinha”, páginas 39 e 40, “Cadernos de consulta” (AEMO, nº7)

(5) Craveirinha, José, “Babalaze das Hienas”, página 19, AEMO, 1995

(6) Craveirinha, José, “Karingana wa karingana”, páginas 139 a 142, AEMO, 1995.

 

*Jornalista e aspirante a escritor.

 

 

 

 

O novo livro de Jorge de Oliveira, Quando os dias correm mal aos astros, será apresentado ao público esta quinta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

Há dias que correm mal aos astros. Sabendo disso, Jorge de Oliveira reuniu um conjunto de 14 textos neste seu regresso às publicações. Intitulado Quando os dias correm mal aos astros, “os contos narram a vida de um povo em constante sofrimento, incapaz de ultrapassar as vicissitudes e coagido por um poder que de uma ou de outra forma impõe a sua ordem, impedindo o progresso e o bem-estar”, segundo lê-se na contracapa do livro.

Entre a tristeza, a crueldade da vida e a necessidade de denunciar o que vai mal numa sociedade tensa e complexa, com várias mazelas, na obra literária paira uma espécie de tentativa de catarse reconstrutiva. “Sinto que devo ajudar na construção de um pensamento moçambicano, na evolução intelectual e no progresso das nossas artes e letras.
Por isso, escrevo estas linhas, esperando que possamos discutir, em qualquer local, a qualquer hora, sobre o que nos faz ser homens e como podemos ser melhores”, acrescentou Jorge de Oliveira: “Devia haver, sempre, dias melhores para o mundo que nos é mais próximo, que nos rodeia e que está aqui mais perto. Daí o grito, é para isso que a escrita serve”.

Editada pela Alcance Editores, a mais recente obra literária de Jorge de Oliveira é constituída por 144 páginas. Entre os textos de Quando os dias correm mal aos astros encontram-se os seguintes títulos: “Quando o comboio apitou e a vida matou”, “O segredo da fome”, “Pai, o festival já começou”, “Um comandante inesperado”, “O guarda do pecado”, “Era uma vez uma estranha autoridade” e “O mistério da carta órfã”.

Na cerimónia de lançamento do livro, a apresentação de Quando os dias correm mal aos astros será feita pelo escritor Suleiman Cassamo, a partir das 17 horas desta quinta-feira, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

A peça teatral Chovem amores na rua do matador fará uma digressão em 12 distritos de Portugal. Adaptada da história escrita por Mia Couto e José Eduardo Agualusa, a encenação foi feita por Maria Clotilde e Vítor Gonçalves.

Chovem amores na rua do matador estreou ano passado, na Cidade de Maputo, e mereceu uma temporada. Depois da apresentação ao público moçambicano, agora segue-se um voo rumo a Portugal, onde os actores – Horácio Guiamba, Josefina Massango, Angelina Chavango, Joana Mbalango e Violeta Mbilane –, irão aproveitar os 20 espectáculos programados para promover e divulgar o trabalho que fizeram juntos.

Referindo-se à oportunidade de levar a peça que encenou com Vítor Gonçalves ao público português, Maria Clotilde reconheceu que se trata de um objectivo que está a ser alcançado. “É sempre bom que trabalhos desta natureza saiam e viagem pelo mundo. É um projecto que está a ser carregado de corpo e alma, porque esta é uma forma de expandir o nosso trabalho e a nossa cultura no mundo”.

Segundo acredita a encenadora, com a digressão em 12 distritos portugueses, durante aproximadamente um mês, entre 2 e 30 de Julho, os artistas do palco estarão a colocar o teatro moçambicano no mapa da CPLP. “Esta é uma boa abertura, um intercâmbio, um grito que diz que nós existimos, como actores, encenadores ou fazedores do teatro em geral”.

Nesta digressão inaugural, Chovem amores na rua do matador irá escalar, por exemplo, Almada, Figueira da Foz, Viseu e Algarve. Para Angelina Chavango, “Esta peça será “consumida” porque tem qualidade. O que temos de fazer é aperfeiçoa-la. É um bom produto e os portugueses irão ver que Moçambique é uma fábrica de actores”.

Co-produzido pela Fundação Fernando Leite Couto e pela Universidade Eduardo Mondlane, o espectáculo teatral foi adaptado da história assinada por Mia Couto e José Eduardo Agualusa, e é uma das que compõe o livro O terrorista elegante e outras histórias. No enredo da peça encontra-se Baltazar Fortuna e as suas três mulheres, nomeadamente, Mariana Chubichuba, Judite Malimali e Ermelinda Feitinha. Estas são as personagens responsáveis por tornar o que poderia ser uma bela história de amor algo complexo em termos de definição.

Segundo os encenadores, a digressão em Portugal irá acontecer graças ao apoio de muitas entidades. Designadamente, as companhias teatrais: ACTA – Companhia de Teatro do Algarve, Teatro Baal, Teatro das Beiras, Teatro das Caldas, Cendrev – Centro Dramático de Évora, Escola da Noite; e os municípios: Almada, Figueira da Foz, Loulé, Seixal, Setúbal e Viseu. E os encenadores observam que a digressão por Portugal será a maior entre as que já foram realizadas por actores moçambicanos naquele país.

A digressão irá incluir conversas com Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Em termos logísticos, a VISABEIRA irá suportar os custos das viagens entre Maputo e Lisboa e à Kinto – Mobilidade irá ceder transporte interno em Portugal.

Semana passada, Mia Couto recebeu uma chamada do Secretário-Geral da AEMO. Em geral, Carlos Paradona queria obter a garantia de que o autor de Terra sonâmbula e do mais recente livro O caçador de elefantes invisíveis estaria na cerimónia do anúncio do Prémio de Literatura José Craveirinha, no Átrio do Município de Maputo, esta segunda-feira. No entanto, devido à sua agenda apertada, Mia respondeu que não sabia se estaria presente na cerimónia. Talvez, recorrendo à disciplina militar, o Secretário-Geral da AEMO foi directo ao que interessava, até porque sem diamantes, as chamadas telefónicas são sempre caríssimas: – Tem que estar. Ainda assim, Mia tentou complicar as coisas, dizendo que faria o esforço. E uma vez mais, o Secretário-Geral, que é, de facto, Secretário-Geral da AEMO, cortou-lhe qualquer tentativa de evitar ir ao Átrio do Conselho Municipal de Maputo, um lugar bonito, mas que, ao escritor, também traz lembranças tristes – ali aconteceu o velório do seu amigo Carlos Cardoso, tendo ele lido alguma eterna mensagem. Mas essa é outra história.

Indo ao que realmente interessa, ao ouvir a insistência de Carlos Paradona… – Aí eu comecei a suspeitar que pode ser que aconteça alguma coisa que eu não esteja à espera.

Com ou sem suspeita, Mia obedeceu às ordens do seu Secretário-Geral e, prevendo essa qualquer coisa que não estava à espera, levou o seu irmão mais velho consigo: Fernando Couto. Os dois chegaram a horas, à semelhança de tantos outros convidados ao evento. Como quem não estava à espera de nada, sentaram-se na quinta das seis filas de cadeiras montadas para o público no Átrio do Conselho Municipal de Maputo. Um ao lado do outro, como bons maninhos que são. Ali também estava o laureado do ano passado, Armando Artur, que, ao contrário do que tem sido habitual, não integrou o júri, tal como aconteceu, por exemplo, com Fátima Mendonça e Ungulani ba ka Khosa. Atrás deles, mais ou menos a uns três metros, jornalistas faziam apostas. Expectantes. – Será desta vez? Perguntou o primeiro. – Se o Mia está aqui… Disse o segundo, lembrando de seguida. – Mas o Mia também esteve presente na cerimónia do ano passado… – Há-de ser o Mia. Disse o terceiro jornalista. Sem conclusões.

A conversa acontecia em surdina, enquanto no palco passava uma performance teatral que arrepiou a muita gente. Os actores? Malta Eunice Mandlate, Mateus Nhamuche, Angelina Chavango ou Joana Mbalango. Título da peça? Malidza, escrita por Aurélio Furdela (adaptada da obra de José Craveirinha e de outros autores moçambicanos) e com encenação de Lucrécia Paco. A julgar-se pelas palmas dadas ao fim de mais ou menos 25 minutos, que se prolongaram por bons segundos, alta peça!

Quando os actores saíram do palco, lá vieram elas. Quer dizer, ele: o presidente do júri do Prémio de Literatura José Craveirinha, Luís Cezerilo. Antes de dizer o que todos queriam ouvir, gozando do seu estatuto, o presidente, primeiro, pediu que os outros membros do júri se juntasse a ele no pódio. Assim, lá foi ter a ensaísta Sara Jona Laisse, os poetas Ricardo Santos e Bwana Yesu. Parece que o sr. presidente esqueceu-se de Manuel Tomé (representante da HCB, igualmente, membro do júri). Por isso, Ricardo Santos lá foi alerta-lo. A resposta não demorou: – Não o fiz distraidamente. Os mais velhos merecem o respeito e a dignidade de não estarem aqui [à frente de todos, entenda-se]. A improvisação de Luís Cezerilo encaixou como uma luva no discurso e, como os termómetros registavam 18°, por volta das 17 horas, o público aproveitou a ocasião para aquecer as mãos, batendo palmas. Esse público de hoje em dia…

Dito aquilo, Cezerilo prosseguiu, referindo-se ao ano da criação do prémio, aos critérios e aos procedimentos adoptados durante o trabalho. Foi nesse momento que se ficou a saber que a reunião do júri, para deliberação final sobre a atribuição do prémio, aconteceu a 22 de Maio, portanto, este domingo. O júri adoptou uma proposta de regulamento que ficará depositada na AEMO. Os prováveis vencedores do prémio foram escrutinados a partir de uma base de dados que contém escritores, ensaístas e académicos, que deve ser composta e actualizada pela AEMO ao longo do tempo.

Assim, segundo disse o júri, o vencedor deveria reunir pressupostos como publicação de pelo menos duas obras literárias, de poesia ou prosa, ou dois livros de ensaios sobre literatura, por parte do ensaísta/académico, em ambos os casos, ao longo de uma década. Também se previa a participação social com activismo literário, divulgação literária e intervenções públicas, no país e no estrangeiro. Cada membro de júri devia escolher cinco elementos prováveis vencedores. Assim, por consenso e unanimidade, foi escolhido o escritor Mia Couto, o autor do Chiveve, conforme alguém lembrou. O argumento do júri ouviu-se de seguida. – Autores de todos os géneros. Para ele, sempre nascem e desaguam na poesia. O seu olhar poético desconcertante, acasala, numa dança sem fim, com os mais pequenos detalhes da vida e dos sentimentos, com os grandes temas que pensam a humanidade.

Além disso, o júri referiu-se a Mia Couto como um homem plural, humilde e que se interessa em buscar a alma moçambicana através da arte literária. Claro, ao contrário do que se poderia supor, houve também um pedido de desculpas do júri. – Pedimos desculpas a todos os escribas, se algum erro da nossa parte foi cometido. Mas estamos conscientes de que trabalhamos bastante e temos a certeza de que esta escolha é merecida e já deveria ter acontecido há muito tempo.

Terminada a leitura da acta, feita de forma clara e pausada, Luís Cezerilo saiu do pódio entre fortes aplausos. Seguramente, não viu Mia Couto quase embaraçado. Aparentemente, sem saber se levantava ou se continua sentado. O escritor optou em manter-se quieto, mas sorrindo. A máscara azul não conseguiu esconder o sorriso e nem os gestos. Entre Armando Artur e Fernando Couto, levantava a mão para quem estava distante. Como se fosse a primeira vez a ganhar um prémio. Aquela toda representação terminou quando, finalmente, foi ao pódio para dizer algumas palavras. Mia enalteceu Craveirinha: – Ele é o primeiro dos não veteranos de guerra que toma lugar na cripta dos heróis moçambicanos. Eu acho que temos uma grande dívida com Craveirinha. De seguida, pediu à Ministra da Cultura e Turismo para levar a mensagem de que os manuais dos alunos devem conter textos dos jovens escritores moçambicanos, e não apenas dos consagrados. – No nosso país há muitos jovens e bons escritores. O Craveirinha pode ficar sossegado, que ele lançou uma semente que está viva. Mas esses jovens não devem encontrar fora do país o que podem encontrar cá dentro. É preciso que eles sejam divulgados.

Sentada na primeira fila, onde também estavam os reitores da Universidade Eduardo Mondlane, Manuel Guilherme Júnior, e da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão, Eldevina Materula ouviu o pedido do escritor, finalmente, e o júri assumiu esta ideia, Prémio de Literatura José Craveirinha.

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