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Josefina Massango e Maria Atália entendem que os actores e encenadores precisam do apoio do público nas salas de teatro para que continuem a representar. As duas actrizes participaram, na Cidade de Maputo, num debate inserido na 18ª edição do Festival Internacional Teatro de Inverno.

 

Josefina Massango e Maria Atália estiveram juntos, quarta-feira, para trocar ideias sobre o teatro em Moçambique. Numa sessão realizada no Museu Mafalala, na Cidade de Maputo, as duas actrizes falaram de tudo um pouco numa conversa aberta a artistas, gestores culturais e jornalistas.

À margem da conversa que durou mais ou menos uma hora, Josefina Massango e Maria Atália foram unânimes ao afirmar que os actores, encenadores e todos aqueles que vivem de teatro precisam do apoio do público nos teatros, de modo que a arte da representação torne-se sustentável para os artistas que investem tanto de si para estar no palco. “É importante que as pessoas assistam às nossas peças, que nos dêem apoio, que façam uma análise crítica do nosso trabalho e que escrevam sobre as nossas peças nos jornais. Isso é muito melhor do que nos dar 100 milhões de dólares, se estiverem sentados em casa”, afirmou Maria Atália, reforçando que, quando o público está presente e compromete-se com os espectáculos teatrais, os actores e encenadores têm mais possibilidades de evoluir.

Além da presença do público nas salas de teatro ser importante para os artistas do palco, Josefina Massango lembrou que as pessoas constroem-se através da arte. “Um banho de cultura sempre faz falta e, se for em forma de arte, é ainda melhor”.

Na sessão inserida na 18ª edição do Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI), iniciativa organizada pela Associação Girassol, Josefina Mssango e Maria Atália debateram sobre a condição da mulher no teatro e aproveitaram para tecer alguns esclarecimentos em relação à subalternização forçada da mulher. “Eu acho que nós tentamos desconstruir um pouco a ideia que se vai construindo sobre este tema. Continuo a dizer que a mulher tem o seu espaço, a mulher conquista o seu espaço e ela quer conquistar o seu espaço”, disse Josefina Massango.

Já Maria Atália ainda acrescentou que as sessões de conversa inseridas no FITI são fundamentais porque permitem a desconstrução de armadilhas que se enraízam nas mentes das pessoas sem que se dêem conta disso.

Ainda no FITI, no caso, no Teatro Avenida, esta quinta-feira, sempre na Cidade de Maputo, a jornalista e académica angolana, Agnela Barros, debruçou-se sobre o tema “Diplomacia cultural”. A sessão moderada por Dionísio Bahule serviu para pensar o intercâmbio dos artistas moçambicanos e angolanos. “Nós queremos dialogar porque achamos isso importante. E, dentro do espírito pan-africanista, achamos que não devemos nos fechar ao nosso território. E a minha interrogação é: será que não podemos fazer diplomacia cultural com os artistas moçambicanos?”.

A pergunta retórica colocada por Agnela Barros não foi respondida por nenhum participante, mas, como diz a velha máxima, quem cala consente.

 

No Museu Mafalala, na capital do país, em Maio, decorreu uma residência artística subordinada ao tema “A literatura como exemplo de cidadania na periferia de Maputo”, que reuniu sete jovens entre os 18 e 25 anos de idade, provenientes de Maputo, Cabo Delgado, Inhambane, Niassa, Sofala e Tete, com diferentes ocupações nas artes, entre dança, música, literatura e desenho.

De acordo com uma nota de imprensa, a residência artística foi organizada pelo Museu Mafalala, com o financiamento da União Europeia no âmbito do Programa de Apoio aos Actores Não-Estatais (PAANE), iniciativa que visa reforçar a democracia participativa, representativa e sensível ao género em Moçambique, através do envolvimento das autoridades públicas e da sociedade civil num diálogo democrático sustentável.

No fórum, acrescenta a nota, os jovens tiveram a oportunidade de aprofundar conhecimentos sobre cidadania, sobre o papel da arte na sua construção, e sobre a história do bairro da Mafalala e sua importância na construção do país.

Numa etapa inicial, a residência artística contemplou a realização de oficina de literatura e performance cuja curadoria esteve a cargo da actriz e encenadora Lucrécia Paco e do escritor e jornalista Eduardo Quive, ainda com a participação do jornalista Elton Pila e do designer e escritor Mélio Tinga.

A oficina percorreu o contexto histórico da literatura moçambicana no contexto de periferia, olhando, sobretudo, para um dos maiores poetas da história de Moçambique, José Craveirinha, em celebração do seu centenário.

A partir de José Craveirinha, a capacitação olhou para a poesia como forma de intervenção social, participação e engajamento. Ainda durante a oficina literária, os participantes foram submetidos a exercícios práticos sobre activismo literário, trabalho colaborativo, planificação e orçamentação, bem como a auto-publicação e edição de modo a explorarem melhor as oportunidades a nível local, mesmo confrontados com a falta ou escassez de recursos.

Com Lucrécia Paco, os participantes mergulharam na arte da performance, aprendendo a usar a arte, para expressar não só a sua criatividade, mas também a transmissão assertiva das mensagens através das suas obras de arte.

Na segunda etapa, a residência artística esteve focada no trabalho sobre a vida e obra do fotojornalista Ricardo Rangel, e do artista plástico e poeta Malangatana, dois contemporâneos de José Craveirinha.

Neste capítulo, o historiador e docente universitário, Rui Laranjeira, orientou sessões sobre o contexto histórico, social e político da época em que José Craveirinha, Noémia de Sousa, Malangatana e Ricardo Rangel viveram. Esta acção contou com a colaboração do Centro de Documentação e Formação Fotográfica, que para além de fazer uma resenha da vida e obra de Ricardo Rangel, ofereceu um curso de fotografia aos participantes da residência artística. Ainda nesta jornada de formação, a Casa Museu Malangatana proporcionou aos jovens artistas uma viagem ao íntimo e familiar de Malangatana.

Com o financiamento da União Europeia, a Associação IVERCA poderá locar recursos a vários actores sociais, entre colectivos e singulares, para a realização de um conjunto de actividades culturais, entre festivais de arte, concertos, formações, debates e seminários, exposições, oficinas, concursos, entre outras actividades.

 

Por Conceição Siopa

 

A obra Literatura Moçambicana: Trajectórias de Leitura, lançada na passada quinta feira (2 de Junho) no Camões, Centro Cultural Português e editada pela Alcance editores, reúne um conjunto de textos, organizados em livro por Almiro Lobo e Teresa Manjate. A obra é uma colectânea de cerca de vinte e dois textos de crítica literária, de natureza diversa, produzidos por Gilberto Matusse, Lucílio Manjate, Aurélio Cuna, Osvaldo das Neves, Albino Macuácua, José Camilo Manusse, Elídio Nhamona, Lurdes Rodrigues da Silva, para além dos organizadores Almiro Lobo e Teresa Manjate, que também são autores. Os organizadores desta colectânea são conhecidos académicos e professores de literatura da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, mas também críticos literários, autores de diversos textos publicados e membros de diversos júris de prémios literários.

A partir do título desta obra percebe-se que os seus organizadores, certamente por modéstia, assumem que o produto das leituras desenvolvidas, expressas em textos escritos, são encarados como trajectórias, deixando implícita a ideia de que poderá haver outras trajectórias. Ou seja, assume-se que aquelas leituras são umas entre outras possíveis que, nas palavras dos organizadores, são “percursos que a agenda do leitor engendrou em cada momento” (Lobo & Manjate, p.7). Ora, nós leitores comuns, não nos deixamos enganar. Estes leitores, e autores dos textos reunidos nesta colectânea, não são leitores, nem autores comuns. São leitores especializados, treinados na leitura crítica da qual fazem o seu ofício, pois todos os autores são docentes do Departamento de Linguística e Literatura da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM e, na sua maioria, docentes de Literatura. Não sendo leituras “doutrinárias, nem paradigmáticas” (Lobo & Manjate, p.7), estes leitores trazem para o acto de ler todo o seu repertório (a sua biblioteca, segundo Humberto Eco), toda a sua memória de leitores, de outras leituras, todo o seu saber, toda a sua experiência de pensadores sobre a literatura em geral, e sobre a literatura moçambicana em particular, conferindo aos textos desta colectânea o estatuto de um manifesto de crítica literária.

Das leituras realizadas por estes autores resultaram um conjunto de vinte e dois textos de natureza diversa, sobre literatura moçambicana: ensaios, comunicações, trabalhos académicos, reflexões, prefácios e recensões críticas, estas últimas sob a forma de textos de apresentação de obras. Esta proliferação de textos em género e número atesta o envolvimento dos autores destes estudos em projectos de leitura crítica dos textos dos escritores moçambicanos, estudando as suas obras, desenvolvendo estudos comparados, inventariando temas abordados e caracterizando estilos de escrita. Dos textos aqui reunidos emergem escritores e temas importantes para a história e caracterização da literatura moçambicana. São muitos os escritores sobre os quais se escreve nesta colectânea: Orlando Mendes, José Craveirinha, Lília Momplé, Lindo Lhongo, Aldino Muianga, António Pinto de Abreu, Mia Couto, Luís Carlos Patraquim, Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho, Paulina Chiziane, Sangare Okapi, Lucílio Manjate, Nelson Lineu, Lica Sebastião e Virgilia Ferrão. E outros tantos temas presentes nas obras destes autores são cartografados  ou sobre os quais reflectem, como o cânone literário moçambicano, a história, a memória, o quotidiano, a mulher, a cidadania, o abstracto, as vozes, as visões do mundo, entre outros.

O lançamento desta colectânea, pela sua natureza, impõe uma reflexão sobre a importância desta obra e da crítica literária que esta encerra. Para tal, convoca-se para esta reflexão três autores de nacionalidades distintas. O primeiro, o sociólogo polaco Zygmunt Bauman (1925-2017), caracteriza, nos seus estudos, a nossa época como uma época em que se confirma a passagem de uma sociedade sólida, repleta de certezas, de convicções e de relações solidificadas, para uma sociedade líquida instável, fragmentada e incoerente, em que proliferam múltiplos conceitos, diversos, alguns até contraditórios, e cuja compreensão se escapa, muitas vezes, por entre os dedos como a água. No entanto, para o bem e para o mal, esta época é também mais dinâmica que a anterior e a literatura, como a arte em geral, é talvez a manifestação humana que melhor fixa e veicula esta fragilidade, esta fluidez e este dinamismo da nossa sociedade e das relações humanas que a caracterizam. No entanto, e apesar desta caracterização recente de Bauman, já o texto literário, há largas centenas de anos, na sua arte de registar o que nos vai na alma, vem captando a fluidez, a incerteza e o efémero que caracterizam o ser humano.

Recorro agora ao segundo autor, Camões (1524/1580), que já no século XVI se referia à mudança no seu célebre soneto: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Entre as várias mudanças que o poeta enumera há uma que poderá espantar os leitores do século XXI e com a qual o poeta termina o poema: “E, afora este mudar-se cada dia/ Outra mudança faz de mor espanto/ que não se muda já como soía”. Ou seja, cristalizam-se neste poema sensações, pensamentos de um poeta sobre a sua época, o seu tempo, em que este se apercebia não só da mudança em si, mas também da forma e ritmo com que a própria mudança ocorria. Para além desta reflexão sobre a mudança, também a memória e o seu papel fundamental na vida de todos nós, é abordado neste soneto de Camões. Escreve o poeta: “Continuamente vemos novidades,/ Diferentes em tudo da esperança;/ Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem, se algum houve, as saudades. Ora, se pensarmos bem, quer as mágoas, quer as saudades alojam-se não só na memória individual, mas também na memória colectiva de cada povo. E a propósito da memória das mágoas e da sua importância na memória colectiva, Craveirinha (1922-2003), o terceiro autor que se convoca nesta reflexão, refere num dos seus poemas: “ […] Eu vivo e revivo no chão raso deste simples poema as belas-artes tropicais da formiga formigueira/ eu provisoriamente camuflando os revólveres/ na gramática dos seus próprios donos/ porque os poetas aqui não podem/ ser da raça dos homens mas sim/ inofensivos invertebrados/ oriundos de Moçambique. […]”[1]

No entanto, como todos sabemos, nem sempre a escrita literária é compreendida no seu papel de fixador e na sua fundamental importância de nos fazer reflectir. Por isso, não terá sido por acaso que surge, nos anos 60 (1967) do século passado, o movimento da estética da recepção, responsável por reconhecer o papel determinante do leitor, não só como um elemento fundamental do acto de comunicação que é a obra literária, mas também como um instrumento para a actualização permanente do seu sentido. Sabe-se hoje, e em grande medida o devemos a esse movimento, que o leitor não lê de qualquer maneira, lê de acordo com os elementos presentes no texto, articulando-os com conhecimentos anteriores e com a sua experiência de leitura, fazendo inferências com a realidade que conhece. Ou seja, o acto de ler é na verdade um acto de reconstrução do sentido do texto, transformando o que é efémero (nas palavras de Bauman) em perdurável através dos tempos, como vimos em Camões, e novamente sentido, como se demonstra pelo exemplo dos versos de Craveirinha. Ou seja, não fosse a escrita literária e o olhar especializado da crítica literária, “que impulsiona a competência dos leitores” (Lobo & Manjate, p.7) possivelmente não teríamos acesso aos pensamentos, sensações e sentimentos expressos por Camões e Craveirinha sobre si próprios e sobre as suas épocas.

Neste momento, poderá o leitor destas linhas perguntar o que tem, todo este arrazoado, a ver com o lançamento de um livro sobre a literatura moçambicana? Pelo que se disse anteriormente, parece haver uma relação digna de referência. Ou seja, como puderam perceber, foi da leitura dos textos que compõem esta colectânea que surgiu, quer o pensamento de Bauman, quer o poema de Camões e de Craveirinha porque, de uma forma geral, todos os autores destes textos fazem, de forma implícita ou explícita, referência à literatura como forma de arte que testemunha o tempo, a história, a mudança e é repositório da memória individual e colectiva moçambicana. Neste sentido, a crítica literária como leitura sistemática e especializada, tem um valor fundamental para a literatura moçambicana e para a memória individual e colectiva dos moçambicanos. E esta coletânea que encerra textos diversos sobre obras literárias moçambicanas tem, por tudo o que foi dito, um valor incalculável e o seu único defeito é a sua publicação ser já tardia.

A terminar, partilham-se algumas palavras dos organizadores destas Trajectórias, aqui citados como autores. São palavras retiradas do seu contexto, que ganham vida própria ao concretizarem, em si, as linhas de apreciação adoptadas nesta apresentação:

 

É por isso também que leio com prazer renovado […] Porque me devolve, por instantes, a confortante sensação de que, através da literatura e com a literatura, posso usufruir dos prazeres restantes da vida e retornar à condição de cidadão com esperança na restauração dos valores positivos com que se sustenta uma sociedade.” (Almiro Lobo, p.27)

 

Um problema ressalta deste breve olhar, a necessidade de restaurar o papel da crítica literária que se pretende mais robustecida, com espaços igualmente fortes que possam enobrecer o trabalho de muitos actores que podem, em virtude deste marasmo, cair no esquecimento…” (Teresa Manjate, p.91)

 

 

[1] Craveirinha, José (1980), “Olho por olho dente por dente”, Revista Tempo, 505 (junho): 56-57.

O Sakifo Musik Festival decorreu entre sexta-feira e domingo, na Cidade de Saint-Pierre, na Ilha Reunião. Pelos cinco palcos do evento passaram vários músicos africanos, incluindo os moçambicanos Tiago Correia-Paulo e Frank Paco.

 

Procurando no mapa, a Île de La Réunion parece um lugar perdido no oceano. Muitas vezes, aquele território francês é abafado pela gigante Madagáscar, quase ali ao lado. Há aqui, na verdade, um caso para dizer que as máximas conseguem resumir em palavras o que de outro modo geraria equívocos, ou seja, “parecer não é ser”. Então, ali no Índico, entre Moçambique e Maurícias, existe um território que parece pequeno, mas, culturalmente, é um lugar diverso, plural, onde se promovem encontros e intercâmbios artísticos. Não fugindo a essa premissa, a Cidade de Saint-Pierre abriu-se ao mundo, nos dias 3, 4 e 5 deste mês para receber artistas, produtores, programadores, directores, agentes das indústrias culturais e criativas e amantes da música em geral no Sakifo Musik Festival.

Ao longo de três noites, apresentaram-se em palco músicos de diferentes ritmos e provenientes de vários cantos de África. Por exemplo, Stogie T. O premiado autor sul-africano levou ao Sakifo 2022 sonoridades do hip-hop numa actuação exemplar com banda. Ao longo do espectáculo, o rapper partilhou a sua experiência e prendeu o público à sua actuação em mais ou menos 60 minutos.

No Sakifo existem cinco palcos musicais montados, nos quais os artistas actuam simultaneamente. Em outras palavras, o público do festival nunca está condicionado a ver o que não quer, pois possui imensas ofertas. Quando a performance não é exactamente o que espera, as pessoas lá mudam de palco, procurando aproveitar ao máximo a noite fresca à beira-mar. Portanto, quando um artista tem a maior parte do seu público do princípio ao fim do espectáculo, há muito que se lhe diga e Stogie T distinguiu-se naturalmente numa actuação equilibrada também graças à sua corista.

Além de Stogie T, actuaram outros sul-africanos na edição 2022 do Sakifo. Casos de BLK JKS e Bongesiwe Mabandla, que, inclusive, cantou no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, há dois anos. Muito focado no álbum Iimini (2020), o sul-africano tocou com alma e amor, procurando levar à sua audiência sonoridades de algum modo taciturnas, embora muito consistentes. Entre as músicas bem recebidas do cantor não faltou “Ndokulandela” e, claro, “Jikeleza”, que trata do sofrimento, da fé e de amor.

Metade do crédito da performance do sul-africano pertenceu a um artista moçambicano, Tiago Correia-Paulo, que tocou um pouco de tudo: bateria, guitarra, controlou os pedais sonoros e fez misturas ao vivo pelo computador. A actuação, com efeito, foi comovente, de tal maneira que nem o factor língua bantu foi problema para os franceses e para as pessoas de outras nacionalidades que não entendiam o que Mabandla dizia. Venceu a linguagem musical universal. Talvez, por isso, ao cantor apeteceu ir partilhar a boa recepção que recebeu com o próprio público, de forma mais intimista. Lembrando-se que se encontrava na praia de Saint-Pierre, Bongesiwe Mabandla, a certa altura, ficou de tronco nu, saltou as barreiras que isolam o palco e lá foi cantar no meio das pessoas como quem pretendesse sussurrar ao ouvido das francesas que logo se precipitaram a captar o momento com recurso aos telemóveis. No palco, o beat continuou com o mesmo rigor e sintonizado ao cantor. À medida da sua altura, eventualmente um metro e noventa centímetros, Tiago Correia-Paulo foi gigante ao tocar as notas do Iimini, esse álbum tão inspirado no contexto sociocultural moçambicano.

Ora, embora Bongesiwe e Tiago Correia-Paulo tenham garantido elevados instantes de música feita com paixão e serenidade, a grande “revelação” da noite de abertura e, quiçá, da edição 2022 do Sakifo foi a banda sul-africana BCUC (Bantu Continua Uhuru Consciousness). Antes de subirem ao palco, o dossier de imprensa da organização do festival prevenira: “Tremores telúricos esperados, com um grupo que desconstrói todos os formatos musicais para reunir, na mesma energia, o antigo e o moderno”. Neste caso, a palavra foi incapaz de descrever a imagem. A apresentação de BCUC foi mais do desconstruir, foi, sim, muito além de “uma experiência sonora e visual singular”.

Com um vigor de dar inveja ao mais viril entre os homens, os sete BCUC redefiniram o que se pode considerar conceitos de espectáculo. Explodiram com as notas altas sem que isso fugisse do seu controlo vocal e/ou sonoro. Em jeito de prece, como que a exorcizarem qualquer coisa para, depois, a lançarem ao mar, a poucos metros de palco, BCUC apresentou em Saint-Pierre o que poucas pessoas tinham visto antes. Toda gente ficou de boca aberta: artistas, jornalistas (mesmo sul-africanos), produtores e, inclusive, o director de um dos mais prestigiados festivais do continente, Sauti za Busara, de Zanzibar (Tanzania), Mahmoud Yusuf.

Enquanto BCUC actuou e mesmo depois, uma expressão repetiu-se: Amazing (incrível)! Os rapazes (e uma rapariga corista) sul-africanos não ouviram a palavra a repetir-se, mas perceberam que cantar e tocar em Saint-Pierre era o mesmo que o fazer em alguma rua do SOWETO, de onde são provenientes. Por isso, esqueceram-se que na cidade há muita gente que não fala inglês, pois o francês lhes resolve todos os problemas. Então, quando tinha de ser, punham-se a falar em inglês e, mesmo quem não percebia a língua de Shakespeare, predispôs-se a inventar significados. As pessoas cantaram o refrão que podiam, dançaram desordenadamente, assobiaram, “enlouqueceram” e “viciaram-se”. Logo, quando o vocalista da banda disse “Go down”, imediatamente, quase toda a gente ficou de cócoras. Depois vieram os saltos e a noite que parecia fresca, a rondar os 19ºC, de repetente, ficou quente “tipo” 39ºC.

A actuação dos sul-africanos foi uma mistura de música e educação física. Alguém da produção do Sakifo Musik Festival deveria ter prevenido o público a vestir-se de forma mais apropriada, pois até o vocalista da banda estava de umas calças de treino e uma camiseta. Portanto, à vontade para exercer qualquer tipo de movimento, inclusive, improvisando passos de xigubo sem desafinação.

Não há muita gente no mundo que tenha visto uma actuação electrizante como a de BCUC em Saint-Pierre. Aquilo foi intensidade do princípio ao fim, ora com apitos, ora com gritos aparentemente de quem entra em transe. Anway. A lógica da música dos BCUC é outra e quando a certa altura o vocalista disse Agora restam-vos oito minutos. Aproveitem como se fossem os últimos minutos das vossas vidas, ninguém quis acreditar que o espectáculo estava a chegar ao fim. As pessoas já estavam todas viciadas que se esqueceram que haviam outros quatro palcos naquele recinto. Entre os temas do BCUC que mais “furor” fez no Sakifo destaca-se “Moya”, um hino aos deuses da música tradicional bantu, se é que existem.

Não obstante, na edição 2022 do Sakifo Musik Festival também actuou Tiken Jah Fakoly, um cantor de reggae costa-marfinense que presa e canta a liberdade. Mais ou menos ao estilo Azagaia, o cantor usa a música como arma de combate, ora contra a política do seu país, do seu continente e do mundo a que pertence, ora envolvendo-se em temas de esperança, cantando por um futuro melhor. No palco principal do Sakifo Musik Festival, talvez pela sua energia performativa ou pelo conteúdo interventivo das suas músicas, houve uma das maiores audiências desta edição do evento.  Na mesma noite e no mesmo palco onde actuaram Tiken Jah Fakoly e BCUC, quem também captou atenção de muita audiência foi Texas. A banda escocesa investiu em músicas famosas do seu repertório pop-rock, em determinadas circunstâncias, com ovacionadas interacções com o público.  A festa da música, no último fim-de-semana, também foi “pintada” com a sonoridade pop de Clara, um cantora francesa que nasceu na Île de La Réunion/ Ilha Reunião e que procura ser uma voz robusta para as mulheres que sonham em atingir a plenitude dos seus sonhos e dos seus desejos.  Pelos cinco intensos palcos do Sakifo Musik Festival, ao longo de três noites, também promoveram sonoridades ecléticas Destyn Maloya, Joy D, Loryzine Maloya, Msaki e Kombo. Este trio composto por duas francesas, Melannie Bourire (vocalista e instrumentais) e Lise Van Dooren (teclado) e um baterista moçambicano, Frank Paco, tocou temas do álbum Tizane amaré, muito voltado às variadas possibilidades do jazz. Em termos rítmicos, portanto, ouviu-se um pouco de tudo na edição 2022 do Sakifo Musik Festival: soul, hip-hop, rock, world music e, claro, maloya, estilo musical da Île de La Réunion, onde o Oceano Índico tem sido uma porta aberta para as sonoridades ecléticas africanas e de outras partes do mundo.

 

 

O compositor e multi-instrumentista moçambicano encontra-se na Cidade de Saint-Pierre, na Ilha Reunião, para um espectáculo com o sul-africano Bongeziwe Mabandla, que irá durar uma hora, no Sakifo Musik Festival.

 

Quem já ouviu projectos como 340ml, Tumi & The Volume e Continuadores sabe quem é Tiago Correia-Paulo, um músico moçambicano que não se farta de aperfeiçoar a técnica de tocar vários instrumentos e de compor para tantos autores. Neste momento, entre vários artistas, encontra-se a trabalhar com o sul-africano Bongeziwe Mabandla, com quem se encontra na Cidade de Saint-Pierre para uma actuação no Sakifo Musik Festival, evento que arranca esta sexta-feira e que se irá prolongar até domingo.

Num dos hotéis de uma das cidades mais musicais da Ilha Reunião, o multi-instrumentista moçambicano que tem circulado muito pelo mundo referiu-se ao que prepararam para o espectáculo de logo à noite: uma mistura de músicas de diferentes álbuns, com destaque para Iimini (2020). Mas não se ficarão por aí, até porque a ele e a Bongeziwe Mabandla sempre interessa introduzir ao público os temas do novo álbum numa espécie de performance.

O álbum em causa e para o qual colaborou ainda não foi lançado e Tiago Correia-Paulo evitou dizer qual é o título. Ainda assim, a ideia é que se tirem ilações da reacção do público em relação às novidades sonoras. O álbum foi escrito durante dois anos e, agora, estão a pensar se lançam-no por inteiro ou em single, com vídeos-clipes. Mas essa não é uma decisão apenas dos músicos, depende das gravadoras e dos managers.

Para Tiago Correia-Paulo, actuar no Sakifo Musik Festival, neste contexto, é uma forma de quebrar fronteiras que, recentemente, foram impostas pela COVID-19. “Nós, durante os últimos anos, praticamente não nos vimos. Tivemos que reimaginar como é que iríamos fazer música assim. Tivemos de arranjar um formato, via intenet. Ele [Bongeziwe Mabandla] enviava-me um pequeno tema e eu estendia para um demo um pouco maior e devolvia-lhe. Parecia que estávamos a jogar ping-pong”. Ao fim de um ciclo do que se pode chamar ping-pong musical, os dois artistas chegavam a um consenso e fechavam a música.

Durante a conferência de imprensa de lançamento do espectáculo, no Sakifo Musik Festival, Tiago confessou que se sente a representar Moçambique quando faz música e colabora com autores de outras nacionalidades. Segundo disse, o álbum Iimini, de Bongeziwe Mabandla, é a prova do seu interesse pelo seu país, pois grande parte foi gravado em Moçambique e ele fez parte da criação das músicas. “Se não fosse a COVID-19, quando terminamos o Iimini, falamos com a Record Label e com o manager. Dissemos que iríamos lançar o álbum em Moçambique, no Franco-Moçambicano”.

Na percepção de Tiago Correia-Paulo, o Iimini teve uma boa recepção, com boas digressões na Europa. Com o álbum, realizou o sonho de tocar no Paradiso, nos Países Baixos. “Agora, quando aconteceu a COVID, sentimo-nos mais frágil”.

Uma das cosias que Tiago Correia-Paulo e Bongeziwe Mabandla fizeram para o álbum por lançar foi procurar ser interessante e abstractos, sem grandes ambições. “Tenho um pouco de receio em relação ao que as pessoas vão achar, porque agora estamos de volta aos palcos, aos egos e à ideia de querer fazer grandes músicas. O álbum tem momentos estranhos e espero que as pessoas compreendam que Bongeziwe está a tentar fazer coisas experimentais e mais artísticas”.

 

Um olhar ao passado dos 340ml

Momentos depois do lançamento do espectáculo com Bongeziwe Mabandla, Tiago Correia-Paulo referiu-se à importância da música enquanto construção ou objecto artístico. Do mesmo modo, o baterista, guitarrista, compositor e tantas outras coisas, disse que na arte o ego e a fama são grandes problemas para maioria dos criadores. “Eu nunca criei essas coisas da fama e até acho que os 340ml sofreram um pouco disso. Nós trabalhamos muito, mas as pessoas não viram o trabalho entre 2001 e 2006. Cinco anos de trabalho, dentro de um carro e a ir tocar ora para 10 pessoas, ora para 30. Depois, as pessoas encontram-nos já no topo e dizem que somos grandes. Isso trabalha muito o ego e começamos a pensar como é que ficamos no topo. Às vezes, esquecemo-nos da viagem toda. Esquecemo-nos que só chegamos até ao topo porque fizemos as coisas certas. Não estou a ser crítico, mas acho que os 340ml sofreram dessa coisa de estar no topo e não conseguir conectar com a razão de porquê se está a fazer música”.

Segundo disse o multi-instrumentista, a preocupação da banda passou por pretender continuar a ser cabeça de cartaz e a estar em festivais e com músicas na rádio. “Eu, pessoalmente, acho isso perigoso”.

 

Projectos

Tiago Correia-Paulo quer continuar a fazer performances e ainda revelou que o seu grande projecto, actualmente, é Continuadores, altamente moçambicano. “Tem muito a ver com Maputo, mas esse projecto sofreu com a COVID-19. Nós temos um EP gravado desde Fevereiro de 2020, pronto para ser lançado. Agora, não sabemos o que fazer com o projecto porque a indústria mudou”. Além disso, TRKZ foi viver para França. “Mas estamos a fazer um outro projecto, que, para mim, é ainda mais interessante porque envolve um ecossistema de músicos. Esse projecto é para dar oportunidades a músicos moçambicanos e eu vou agir como curador”.

Ao fim de dois anos a trabalharem em prol de objectivos comuns, o Município de Maputo e de Saint-Pierre oficializaram, esta quinta-feira, uma cooperação nas áreas cultural, desportiva e social. Para o efeito, uma delegação liderada pela Vereadora da Cultura e Turismo de Maputo, Isabel Macie, deslocou-se ao edifício do Município de Saint-Pierre para entregar um memorando de entendimento já assinado pelo Presidente Eneas Comiche.

 

Esta quinta-feira, com efeito, foi a vez de o documento levado de Maputo ser assinado pelo Edil de Saint-Pierre. Durante a sessão formal que envolveu a assinatura do memorando de entendimento, Michel Fontain disse que estava feliz porque a aproximação entre as duas cidades banhadas pelo Índico iria permitir maior relacionamento entre os cidadãos. E observou: “Já existe alguma coisa que está sendo feita ao nível dos artistas”. A prova disso, é a recorrente presente dos artistas moçambicanos nos dois eventos musicais realizados em Saint-Pierre: Mercado de Música do Oceano Índico (IOMMa) e Sakifo Festival.

Como Eneas Comiche não esteve presente por questões de agenda, ao longo da sessão foi lida uma carta que o Presidente do Município de Maputo enviou ao seu homólogo. Na missiva, Comiche destacou as relações de amizade entre e República de Moçambique e a República Francesa, o que será reforçado com a implementação do memorando de entendimento assinado em Saint-Pierre.

Doravante, o Município de Maputo e o Município de Saint-Pierre, nos domínios da cultura, do turismo, do desporto, da juventude e na área social irão colaborar ao longo dos próximos três anos. Afinal, as partes acordaram em promover a cooperação directa na partilha de informação e calendário de eventos culturais, troca de experiências sobre a organização de eventos culturais e gestão de centros culturais, salas de espectáculos e museus, nas duas cidades, através da troca de delegações técnicas e especialistas.

De igual modo, Maputo e Saint-Pierre acordaram em cooperar no domínio da educação artística e valorização do património cultural material e imaterial, cooperação no domínio da pesquisa e documentação sobre a história que liga os dois povos. Na área social, a cooperação será feita através da troca de delegações técnicas e especialistas no que concerne à promoção da inclusão social e redução de desigualdades sociais urbanas e periurbanas.

O memorando de entendimento prevê, igualmente, a organização de, pelo menos uma vez por ano, um encontro dos responsáveis das políticas culturais, do turismo, do desporto, da juventude e da área social da Embaixada da França em Maputo e do Município de Maputo, visando a harmonização dos projectos conjuntos.

O Director do Festival AZGO reflectiu, esta quinta-feira, sobre Perspectivas pós-COVID no sector musical. A iniciativa do Mercado da Música do Oceano Índico (IOMMa) aconteceu na Cidade de Saint-Pierre, na Ilha Reunião, e também contou com a participação de directores de festivais da África do Sul, Seychelles, Tanzania e Índia.

 

Além dos concertos realizados à noite, durante o dia, o Mercado de Música do Oceano Índico (IOMMa) promove conferências, intercâmbios, perpesctivas de parcerias e debates sobre desafios inerentes à promoção musical nos países banhados pelo Índico. Por isso, o Director do Festival AZGO, Paulo Chibanga, reuniu-se com tantos outros seus homólogos.

O encontro em que Chibanga participou realizou-se no Club Nautique, na Cidade de Saint-Pierre, e esteve subordinado ao tema Perspectiva pós-COVID no sector musical. Durante a sessão, Paulo Chipanga referiu-se às experiências consequentes das imposições de uma pandemia que afectou o sector das indústrias culturais e criativas, entre horizontes e desafios. “Acima de tudo, quisemos debater sobre qual é a nova perspectiva, pensando no que nós temos como missão, a partir deste momento. Também reflectimos sobre o que cada um de nós fez durante a pandemia. Tivemos aqui momentos importantes de partilha, para perceber como juntos podemos avançar neste ‘novo normal’”.

No encontro desta quinta-feira, na Cidade de Saint-Pierre, Paulo Chibanga defendeu a tese de que os humanos são cidadãos de uma vila global. Por isso mesmo, argumentou que reflectir dobre o drama imposto pela COVID-19 no sector musical, considerando que a música é um factor de coesão social, permite unir sinergias em prol de um desenvolvimento cultural e social coordenado.

Embora o debate tenha partindo do que aconteceu há dois anos no sector dos festivais musicais, não foi nada lamuriante. Pelo contrário, os intervenientes procuraram demonstrar que houve coisas boas durante o confinamento, que, agora, devem ser apresentadas ao público africano. “Apesar das dificuldades, a COVID-19 foi um bom momento para os artistas criarem. Por isso, chegou o momento deles apresentarem o resultado da sua reinvenção artística. Tal como fez Radjha Ali numa soberba actuação no IOMMa, esta quarta-feira”.

Estando num mercado de música, em que a grande preocupação passa sempre por identificar melhores bandas para eventos musicais, Paulo Chibanga tratou de parcerias com imensos directores de festivais. Entre eles, os que, igualmente, debateram o tema Perspectiva pós-COVID no sector musical. Casos de Hommes Brad, do Bassline Festival da África do Sul; Mahmoud Yusuf, Director do Sauti za Busara da Tanzania; Bhatia Diya, do Jodhpur Riff da Índia; Andre David, do Instituto Nacional de Seychelles; e Eric Blanc-Blanc, Director do IOMMa da Ilha Reunião.

Desde que a edição 2022 do Mercado de Música do Oceano Índico (IOMMa) iniciou, segunda-feira, as bandas que encerram os concertos diários têm sido aquelas que, de certa forma, causam mais impacto no público. Seguindo este raciocínio, a grande expectativa do terceiro dia do evento estava virada para a banda sul-africana Morena Leraba, que, na véspera, teve um jantar agradabilíssimo com parte da delegação moçambicana no restaurante La Detente, na Cidade de Saint-Pierre, na Ilha Reunião.

A banda Morena Leraba é constituída por um vocalista do Lesotho e dois instrumentistas da África do Sul. O vocalista conhece boas praias, cidades e vários cantores moçambicanos. Mas não fazia ideia do ilustre desconhecido Radjha Ali.

Na verdade, desde que o IOMMa começou, no Le Kerverguen, um espaço localizado a uns 500 metros do mar, Radjha Ali e a sua banda passavam despercebido dos músicos, produtores e directores de festivais de vários países banhados pelo Oceano Índico – e isso é péssimo porque o IOMMa é um mercado de música, em que lá estão vários intervenientes da indústria musical interessados em contratar bandas para festivais. Por isso o evento é aberto a convidados muito específicos, e não a toda gente.

A indiferença também se verificava no hotel onde os artistas moçambicanos estavam hospedados. Portanto, à partida, Moçambique era um out sider em termos de proposta musical e quase não se ouvia ninguém expectante em ouvir Radjha Ali, com a excepção de alguns amigos de Paulo Chibanga, Paulo Borges e Ivan Laranjeira, que naquele território francês, parecem umas estrelas de cinema. Por onde passam, abraços e networking. Então, Radjha Ali e Amade e Nando Morte (percussionistas), Sílvio (guitarrista) e Sidney (baixo), durante dois dias, não conseguiram atenção de ninguém. As pessoas passavam por eles sem interesse nenhum. Até podiam parecer que estavam ali de favor. No entanto, esta quarta-feira, 1 de Junho de 2022, Dia Internacional da Criança, as coisas mudaram radicalmente e a palavra Mozambique e mozambican tornaram-se uma espécie de ouro, Major! (os mais novos não irão entender esta de ouro, Major! Quem lhes manda nascer na época das galinhas que são frangos ou jovens?). Tudo isso porque um moçambicano de estatura baixa, umas rastas longas, corpo arredondado, que poderia ser feio, se não gostássemos dele, pegou no microfone e zás…. representou com mestria cerca de 30 milhões de moçambicanos em 30 minutos de espectáculo. E, por isso, a noite de alguns moçambicanos presentes no IOMMa, mesmo sem terem pisado o palco, mudaria no Le Keverguen a 360º graus.

Radjha Ali apresentou-se ao Le Keverguen cantando “Malaxi”. Enquanto subia ao palco, a delegação moçambicana recebeu o cantor como uma estrela pop, alternando, aos gritos, o seu nome e do país. Até aqui, no IOMMa ouviu-se o nome Moçambique como nunca aconteceu com nenhum outro país. As pessoas de outras nacionalidades aproximaram-se e encheram a sala. À medida que Radjha e a sua banda faziam as coisas acontecer, em frente ao palco um grupo de moçambicanos apoiava a actuação ao estilo de uma claque de futebol. Os moçambicanos dançaram, fizeram um comboio de dança passando por toda gente, fizeram um círculo improvisando passos e a eles juntou-se, por exemplo, uma brasileira que vive há décadas na Ilha Reunião. Os moçambicanos cantavam Radjha, ora com palmas, ora aos saltos. Os franceses, os malgaxes, os maurícios ou os tanzanianos não compreendiam o que se estava a passar. O Le Kerveguen transformou-se numa cidade moçambicana e o público ficou hipnotizado, prendido à sonoridade de um cantor que reuniu consensos na Ilha Reunião. Vejam só: reunir consensos na Ilha Reunião.

A performance de Radjha Ali e a banda foi brutal. O cantor atirou-se ao chão quando tinha de ser. Encarnou a dor das vítimas de Cabo Delgado e, quando ficou deitado no palco, como se tivesse desmaiado, a sala ficou quieta. De repente fria. Nem um suspiro se ouvia e toda a gente queria compreender o que estava a suceder. O cantor tornou-se uma personagem a representar. Radjha interpretou “Ekoma tsowani”, “Grito de socorro” e “Mwanamwane”. A essa altura, já ninguém consegui respirar porque, nesse movimento em que o ar entra e sai dos pulmões o expectador poderia perder um eterno instante da inesquecível actuação. Radjha prendeu o tempo e fez o que quis com as emoções das pessoas, como se estivesse a tocar no Gil Vicente ou no Franco-Moçambicano, como se estivesse a tocar para a sua gente, enérgico, conciliando a doce voz com ritmos do Norte do país.

Ao fim de quatro músicas, Radjha Ali já não era nenhum ilustre desconhecido. Os seus compatriotas posicionados na primeira fila, mas que às vezes faziam comboios de dança por toda sala, claro, puxando para a fila pessoas de outras nacionalidades, também não. E o mais marcante: o desempenho vocal e rítmico foi sempre ascendente. Então, quando a música “Mamã” ecoou aos ouvidos do público, pareceu que aquele seria o último espectáculo do mundo. Se algum dia Saint-Pierre viu uma actuação de um cantor tão sincronizada ao apoio do público do seu país, que, mesmo estando no estrangeiro parecia estar em casa, só pode ter sido esta quarta-feira à noite, quando Radjha esteve em palco, quando Radjha tocou “Nthupi”, quando Radjha fez as pessoas saírem do chão e flutuar pelo Índico acima. Uma dessas pessoas foi a vereadora da cultura de Saint-Pierre. Encantada, dançou e ficou toda estupefacta com a performance daquele génio que queria alcançar o céu numa única actuacção.

Do lado de Moçambique, a Vereadora da Cultura, Isabel Macie, também esteve presente, acompanhada por outros integrantes da delegação moçambicana na Ilha Reunião. Malta Eduardo Zaqueu, Rodrigo Sala, Paulo Chibanga, Ivan Laranjeira e Leonel Matusse Jr. Impressionada como ficou, a vereadora deve ter pensado em fazer um way para aquele puto não pagar mais impostos, no regresso a Maputo. Mas não pensou, que nem sequer teve tempo para isso. Ela também aproveitou cada momento do espectáculo como se a música ali também estivesse a funcionar como diplomacia para futuros projectos comuns entre Moçambique e Ilha Reunião.

Então, outras pessoas que sabem falar português revelaram-se. Aproximaram-se aos moçambicanos para tentar puxar conversa. Não foi possível durante o show. Mas, logo que terminou o espectaculo, um cidadão da Seychelles, Patrice Victor, mais ou menos 55 anos de idade, disse o seguinte: – Estou orgulhoso, porque os meus antepassados são de Moçambique! Na verdade, isto pode ser repetido mil vezes porque é verdade, nenhum moçambicano foi visto da mesma forma depois da actuação de Radjha Ali.

No bar, quando os moçambicanos pretendiam comprar cerveja, as pessoas ofereciam-se para pagar e pagavam com satisfação. Se à pergunta where’re you come from a resposta fosse Mozambique, então, lá iam umas duas, três e tantas beers mahala. Ou seja, quando Radjha Ali e a banda recolheram aos bastidores, passou a ser estrela todo aquele que fosse moçambicano ou que estivesse a falar português. E o que dizer das pitas, padrão internacional? Ui… Nunca se viu tanta Brigitte Bardot gira de uma só vez. As pretas, mulatas, brancas, canecas, amarelas, vermelhas, verdes e até azuis lá colavam-se aos mozambicans na esperança de serem levadas ao hotel mais próximo. Era nice to meet you para aqui, nice to meet you para acolá. Bastaria uma palavra e cada uma daquelas beldades mudaria de quarto naquela noite. Mas um moçambicano é manigue sério: sabe como se comportar quando tem uma 7 Abril no seu coração.

Numa altura em que os consumidores da música estão a investir em plataformas online, em detrimento de discos compactos, a fábrica/produtora musical Run Run Records, da Ilha Reunião, tem remado contra a maré, apostando na produção de vinis. Entre os 60 títulos produzidos/ editados, destaca-se Tizan Amare, da banda Kombo, do baterista moçambicano Frank Paco.

 

Em 2016, o casal de franceses Florence Poey e Antoine Gradel aterraram algures na Ilha Reunião. Pouco tempo depois, acabariam por vender a própria casa, em Bordéus, com o objectivo claro de abrir uma discográfica de vinil. Assim, investiram 350 mil euros (cerca de 23 milhões de meticais) para fundar a Run Run Records, segundo salientam, a única que aposta na produção e reciclagem de vinis no Oceano Índico.

Ora, a decisão de abrir a fábrica não surgiu ao acaso. Porque gostam de música e têm amigos que tocam e cantam, perceberam que boa parte dos artistas do seu meio imprimiam discos de vinil na Europa. Vendo nisso uma contrariedade e uma oportunidade, Florence Poey e Antoine Gradel decidiram então investir muito de si para contornar a dependência dos artistas residentes nas cidades banhadas pelo Índico em relação a Europa, no que diz respeito à produção de vinis. Entretanto, segundo contou a co-fundadora da Run Run Records, o número de pessoas interessadas em ouvir música através de plataformas onlines só aumenta, o que faz com que os CD’s estejam a ficar descontinuados. No entanto, no que aos vinis diz respeito, observa-se, contrariamente aos CD’s, um aumento de pessoas que os compram pelo simbolismo que possuem.

Cada disco de vinil, na loja, custa em média 25 euros (cerca de 1600 meticais). A fim de tornar a produção sustentável e eficiente, a Run Run Records decidiu produzir vinis em tempo record. Enquanto noutros cantos do mundo ficam prontos em oito meses, em Saint-Pierre esse tempo está reduzido a três meses.

Concretamente, a Run Run Records foi fundada dois anos depois do casal francês fixar-se na Ilha Reunião, logo a seguir à venda da casa em 2018. Um ano depois, a fábrica começou a operar. Mas não por muito tempo, pois, em 2019, explode uma pandemia que condiciona a mobilidade das pessoas e põe a vida humana em xeque. Tiveram de fechar. No entanto, a crise passou e, neste 2022, a fábrica de referência no Oceano Índico reabriu, estando capacitada para produzir 400 discos em oito horas.

A responsabilidade de garantir a eficácia da fabrica é de Florence Poey, mulher com ar simpático, enérgica e com um francês falado de forma muito acelerada. Vive o trabalho com muita intensidade e, esta terça-feira, aparentou ser do tipo que faz várias coisas simultaneamente. Já o marido, na Ilha Reunião, trabalha como médico neurologista num hospital.

Além de gerir a Run Run Records, Florence Poey está a tornar-se uma consultar do negócio dos vinis e revelou estar predisposta a colaborar com possíveis investidores moçambicanos. Enquanto isso não acontece, a visão da fábrica de vinil é produzir discos para toda região do Oceano Índico. Por enquanto, a Run Run Records tem fornecido muitos discos a África do Sul. Nunca vendeu para Moçambique os 60 álbuns traduzidos em 22 mil discos. Contudo, o que Florence Poey não sabe é que um desses álbuns editados é da autoria dos Kombo, banda constituída por duas francesas (Melanie Bourire e Lise Van Dooren) e por um moçambicano (Frank Paco), sedeados na Ilha Reunião. De algum modo, parece que Moçambique já consome o produto dessa fábrica que funciona num espaço equiparado a um garagem, num lugar montanhoso de Saint-Pierre, mas que tem vencido as fronteiras de um pequeno território para se afirmar em África.

 

 

 

 

 

 

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