O economista Thomas Selemane afirmou, ontem, que as Pequenas e Médias Empresas nacionais não dispõem de condições para aproveitar oportunidades nos mega-projectos que surgem no país. Já o presidente da Associação das Pequenas e Médias Empresas, Feito Tudo Mal, discorda da opinião e defende a criação de políticas que envolvam empresariado moçambicano dos projectos visados.
Os dois intervenientes falavam durante o programa da STV, “O País Económico”, no qual debateram a gestão do conteúdo local nos grandes investimentos do sector dos hidrocarbonetos. Um dos problemas de fundo é a ausência das pequenas e médias empresas nacionais nos mega-projectos, com destaque para a exploração de gás natural no norte do país.
Refira-se que a plataforma flutuante para exploração de gás natural liquefeito, fabricada na Coreia do Sul, já está em Cabo Delgado, na costa do norte de Moçambique, onde será colocada no campo Coral, na Bacia do Rovuma. O início das actividades está previsto para Outubro próximo.
Até agora, fala-se de mais oportunidades de emprego para a população, assim como de negócio para as empresas moçambicanas emergentes.
Para o Presidente da Associação das Pequenas e Médias Empresas, Feito Tudo Mal, trata-se de oportunidades indecisas, porque não existem políticas claras que possam defender os interesses das pequenas e médias empresas nos mega-projectos.
“Ainda não existe uma oportunidade concreta que permita que as pequenas e médias empresas consigam garantir contratos directos para prestar serviços à plataforma. Tem de haver uma acção combinada entre as empresas e quem é de direito, não basta só dizer que existem oportunidades”, defendeu Mal.
Na óptica do economista Thomas Selemane, o empresariado moçambicano, sobretudo a Associação das Pequenas e Médias Empresas, não está em condições de tirar proveito das oportunidades de negócio que o projecto coral traz ao país.
O economista defendeu a sua tese afirmando que o empresariado nacional não tem a capacidade para satisfazer a demanda do projecto, no que concerne à qualidade e quantidade na prestação de serviços.
“Já tivemos casos similares. Houve várias discussões sobre oportunidades de negócio na implantação da MOZAL, SASOL e outros investimentos. A assimetria de informação não é o único problema. Isso não dita a capacidade das empresas tirarem proveito das oportunidades de negócio”, advogou Selemane.
Segundo Feito Tudo Mal, as empresas moçambicanos tendem a emergir no mercado nacional e as estruturas governamentais devem criar políticas que garantam oportunidades, por via de formações, para o empresariado moçambicano em ocasião de grandes investimentos no país.
“A espinha dorsal da economia de um país são as pequenas e médias empresas. Quando estiverem a conceber estes projectos, a âncora do Estado tem de ser o envolvimento do empresariado nacional. A prestação de serviços nas multinacionais ainda é um dado novo no país e vai levar tempo para se efectivar”, salientou Mal.
O Presidente da Associação das Pequenas e Médias Empresas acrescentou ainda que o Estado deve colocar as linhas orientadoras e princípios em função dos acordos firmados com as multinacionais.
“Não podemos encontrar as coisas por tabela. Para termos acesso a esta mão-de-obra, que não requer muita ciência, temos de estar envolvidos nos programas de formações para poder responder à demanda”, advertiu Mal.
A legislação moçambicana sobre o conteúdo local estabelece que os projectos devem dar preferência às empresas nacionais e à contratação de mão-de-obra local.
Sobre esta perspectiva, Selemane afirmou que a regularidade condiciona aplicação da lei supracitada, porque os grandes projectos requerem fornecimento de bens e serviços com uma estabilidade acordada e que seja respeitada.
“Esta regularidade só pode ser cumprida por parte dos fornecedores de bens e serviços se existirem as capacidades financeira, humana e tecnológica”, sublinhou o Silemane.
De acordo com o economista, é mais vantajoso trabalhar com a mão-de-obra local, entretanto as multinacionais não o fazem no país devido à sua ineficácia na prestação de serviços.
“Cada vez que vemos uma empresa a preferir comprar noutras partes do mundo, temos de suspeitar de algum problema local”, vincou o economista.
Foram investidos sete biliões de dólares norte-americanos para o mega-projecto de exploração de gás natural na Bacia do Rovuma e o mesmo esquema poderá gerar lucros directos na ordem dos 39.1 biliões, dos quais cerca de 19.3 biliões de dólares para o Estado moçambicano enquanto durar o projecto, num prazo de 25 anos.
O Projecto Coral-Sul foi anunciado a 01 de Junho de 2017 e prevê a concepção de uma unidade flutuante de liquefação de gás natural, a ser instalada no mar, com capacidade para produzir 3.4 milhões de toneladas por ano, usando os recursos provenientes do reservatório isolado com potencial de recurso de cerca de 15.7 TCF.