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ARTIGOS DE OPINIÃO

Uma vida jogada no lixo

O dia nasceu com o céu limpo e uma temperatura amena na capital do país. Alzira despertou com o cantar dos galos lá fora, anunciando o amanhecer do dia. Levantou-se da cama e esticou-se para ganhar uma boa disposição. Caminhou lentamente até à janela do seu quarto, abriu a cortina e apreciou o ambiente de fora, como era de costume sempre que acordasse. Estava tudo normal como nos outros dias.

Alzira tinha 30 anos de idade e ainda não tinha filhos. Era uma mulher bonita, elegante e solteira, mas que arrasava os corações de toda a rapaziada da sua região e não só. Muitos desconheciam os motivos de ela estar solteira, mesmo tendo três décadas de vida. O relógio marcava pontualmente 5 horas, e, antes mesmo que o sol despontasse e a perturbasse nos seus afazeres domésticos, Alzira mergulhou-se na sua rotina de limpeza da casa. Pegou na sua vassoura, varreu o quintal em poucos minutos, tirou o lixo e colocou-o nos sacos. Carregou os seus sacos, feita uma louca, e dirigiu-se até ao único contentor de lixo existente no bairro, para depositar o lixo.

Passado alguns minutos, Alzira estava a escassos metros do contentor de lixo. Ela foi recebida por uns choros de um bebé vindos do interior do contentor. Aquilo chamou-lhe atenção. Parou por uns segundos e depois uma chuva de reflexões invadiu-lhe a mente. O que está a acontecer? Será mesmo um bebé ou estou a delirar? Não será uma brincadeira de mau gosto desses meninos malcriados da zona? Tudo aquilo estava totalmente estranho e confuso para a Alzira.

Imbuída pelo espírito de curiosidade, Alzira aproximou-se do contentor para desvendar tudo aquilo que aparentava ser apenas um mistério. Era um bebé recém-nascido que, pela sua aparência, devia ter entre uma ou duas semanas de vida. O bebé foi jogado naquele lugar, sem roupa e muito menos um cobertor, como se de uma galinha morta se tratasse. Todo o frio matinal brincou com corpo do menino recém-nascido. A criança inalou todo o cheiro nauseabundo libertado pelo contentor de lixo que estava numa imundice total.

Alzira entrou em choque e a preocupação tomou conta de si. Um conjunto de reflexões invadiu-lhe, novamente, a mente. Como é que uma mulher carrega um filho durante nove meses no seu ventre para depois de dar parto jogar fora? Será que essa mulher sabe que existem mulheres que choram dia e noite querendo ter um filho, mas não conseguem? Aliás, eu sou uma dessas pessoas infelizes da vida. Há anos tento engravidar, mas não consigo. Já dormi com vários homens na tentativa de engravidar, porém, todas as minhas tentativas redundaram em fracasso. Não me restam mais dúvidas, é o que o maldito destino me reservou. Desabafa Alzira, com a sua cara inundada de lágrimas.

Mergulhou nas suas memórias do passado e recordou-se de vários episódios tristonhos que vivera. Um rio de lágrimas assaltou-lhe as vistas. Movida pelo desejo e vontade de ter um filho e uma família saudável, Alzira já procurou a solução para seu problema em diversos lugares. Tentou pela medicina convencional, tendo gasto avultadas somas de dinheiro em tratamentos que não resultaram. Tentou pela medicina tradicional que também não sortiu nenhum efeito. Ela tomou raízes e raízes, mas não conseguiu conceber. Alzira via o seu sonho de ser mãe, frustrado. A mulher não via mais motivos para continuar viva nesta terra, sabendo que não era capaz de dar um filho a um homem.

Lembrou-se dos muitos lares que passara durante anos e não deram certo por não conseguir engravidar. Quase em todos os lares que passou, apenas viveu momentos de terrores conjugados com a violência. Recebeu nomes pejorativos por parte dos seus sogros porque não gerava filhos. A pressão por parte dos sogros chegou a atingir níveis insuportáveis. Alzira foi rejeitada, em muitos lares, pelos seus sogros alegando estar a acabar o arroz da família, não conseguindo lhes dar o tão esperado neto. O mundo de solidão tomou conta de si. A depressão passou a ser a sua melhor amiga.

Alzira regressou do passado triste que visitou através das suas memórias. Fixou o seu olhar nos olhos lindo do bebé que não parava de chorar. A mulher decidiu não tocar no bebé antes da intervenção da polícia, temendo que as suas impressões digitais pudessem prejudicar as investigações. Alzira regressou à casa com passos apressados e descoordenados, sustentados pelos choros de tristeza.

Quando a Alzira chegou no seu bairro, espalhou a notícia para toda vizinhança. A informação sobrevoou pelo bairro de boca em boca. O bairro todo acordou com a triste notícia do bebé jogado no lixo. Não tardaram as especulações da possível mão que o jogara no contentor de lixo. Todas mulheres que andavam grávidas nos últimos dias foram apontadas como vítimas, mas eram apenas especulações. Ninguém conhecia a mãe do bebé.

De seguida, Alzira dirigiu-se à esquadra que estava a escassos metros da sua casa para informar a polícia acerca do que vira no contentor de lixo. A polícia de protecção analisou o caso e achou melhor contactar a polícia de investigação criminal para que fizesse a devida remoção bebé que tremia devido ao frio que apanhou na madrugada daquele dia. Enquanto isso, muitas pessoas dirigiam-se àquele local, logo que recebiam a notícia, para averiguar a veracidade da informação que estava a ser propalada pelo bairro.

Minutos depois, Alzira retornou ao local onde o bebé foi jogado no lixo, mas desta vez com os polícias de investigação criminal. Quando lá chegaram, deram-se de cara com a multidão que repudiava aquele acto desumano. A polícia removeu o bebé daquele lugar imundo e, de seguida delegou-se uma parte da polícia para que levasse a criança ao hospital para recebesse cuidados médicos. A outra parte ficou e continuou com a investigação do caso. Afinal de contas, a responsável pelo acto merecia cadeia. Pelo caminho, a criança não resistiu ao frio que apanhara na madrugada do dia e perdeu a vida ainda a caminho do hospital.

Um grupo de cinco mulheres, que repudiavam aquele acto desumano, acompanhadas de uns dois polícias de investigação criminal, circulou pelo bairro, invadindo todas residências onde habitavam mulheres que estavam grávidas nos últimos dias, com vista a neutralizar a mãe do bebé que esteve jogado naquele contentor de lixo imundo.

Rosalina, uma jovem de apenas 18 anos, ouviu a notícia que circulava pelo bairro e ficou preocupada. Teve medo de ser presa, pois o filho de que tanto se falava em todo bairro era dela. Saiu do seu ventre. O medo de ser descoberta tomou conta de si. Veio-lhe o arrependimento pelo acto que cometera, porém, não havia como regressar ao passado para consertar tudo. Rosalina arrumou todas as suas malas para sumir daquele local antes que caísse nas malhas da polícia.

Minutos depois, a Rosalina já estava pronta para deixar tudo para trás e recomeçar uma nova vida num outro lugar que ainda não conhecia. Olhou para a vizinhança, mas ninguém a via. A mulher deu os primeiros passos, para um novo começo da vida, num lugar bem distante daquele bairro. De repente, com pouca nitidez, Rosalina vê umas pessoas caminhando em sua direcção. Continuo a sua caminhada a vontade, pois desconhecia aquelas pessoas. Quanto mais caminhava, mais nítidas ficavam aquelas pessoas. Apercebeu-se de que era a polícia acompanhada por algumas mulheres do seu bairro.

Rosalina ensaiou uma forma de esquivar os homens que vinham em sua direcção. Quando ainda tentava colocar em prática o seu plano, os homens já estavam a sua frente. Passou-lhe pela cabeça que aqueles homens estavam a sua procura por causa do bebé encontrado no lixo. Alzira viu-a e, de facto era a Rosalina. Olhou atentamente para ela e descobriu que já não ostentava mais a gravidez. Não restara-lhe mais dúvidas de que o bebé encontrado é da Rosalina. Alzira não se conteve e lançou uns gritos “É verdade! Ela é a mãe do bebé. Ela estava grávida até semana passada e nós ainda não a vimos com alguma criança até agora aqui no bairro. Para onde ela poderá estar a ir? Talvez esteja a fugir pelo crime que cometeu (…)”.

Rosalina entrou em pânico e viu todos os seus planos frustrados. Tentou empreender uma fuga sem sucesso. Ela não estava em condições de pular as espinhosas que serviam de muro. Os polícias aperceberam-se das manobras que a Rosalina tentava criar para escapar deles. Um dos agentes da polícia disparou para cima. O outro apontou para a Rosalina com a arma que trazia na mão. “Parada ai”, dizia o polícia com a sua arma na mão. A Rosalina viu-se num beco sem saída. Transpirou até ao ponto de molhar a roupa que vestira.

Rosalina perdeu todas as forças. A mulher caiu e ficou estatelada no chão. O local foi assaltado pelos gritos da Rosalina “Saiam da minha casa. O que vocês querem na minha casa? Não sou nenhum ladrão e muito menos cometi nenhum crime. Por favor, saiam da minha casa.”. A Rosalina estava totalmente descontrolada. Estava fora de si. Um rio de lágrimas inundou a sua cara.

Os polícias a colocaram as algemas nas mãos e depois seguiu-se um pequeno interrogatório improvisado. Naquele pequeno interrogatório, ficaram a saber que a Rosalina é, de facto, a mãe do bebé jogado no lixo. A polícia procurou saber dos reais motivos que a levaram a jogar o seu bebé, recém-nascido, num contentor de lixo imundo. Rosalina confessou ter perpetrado aquele acto desumano porque o seu namorado não assumiu a gravidez e ela não estava em condições de criar o bebé. Indignados com a atitude daquela mãe, a polícia levou-a para a esquadra. A jovem não parava de chorar pelo caminho.

O caso chegou na barra do tribunal. A Rosalina foi julgada e condenada a 6 anos de prisão pelo crime que cometera. Os dias seguintes, após a sua condenação, foram tenebrosos. A jovem tornou-se numa reclusa solitária. Não recebia nenhuma visita na cadeia. Ela apenas via as outras reclusas no memento das refeições.

Rosalina passou a ver o sol aos quadradinhos. Os dias pareciam caminhar feitos camaleões. Estava a pagar o preço do crime cometido. A consciência pesou-lhe a cabeça, mas ela estava num beco sem saída, a não ser cumprir a pena por detrás das grades.

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Arca de não é, de Bento Baloi

Por: Martins JC-Mapera

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O simbolismo da arca, e o da navegação em geral, comporta vários aspectos que estão, no seu conjunto, interligados. O mais conhecido é o da Arca de Noé a navegar sobre as águas do dilúvio e transportando todos os elementos necessários à restauração cíclica (Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, 2010).

A última vez que vi o Bento Baloi, presencialmente, foi na casa do artista, na cidade da Beira, quando apresentou o livro Recados da alma, no dia 2 de Agosto de 2017. A sua escrita e o seu estilo; as imagens dos seus recados parecem sinais de um tempo discernível na hermenêutica vétero-testamentária dos contos diluvianos de Genesis (6 a 9).

Este livro surge com características místicas inescrutavelmente lírico-escatológicas. É à luz da liricização dos acontecimentos que o narrador declara o seu afecto para com as vítimas do ciclone e das enxurradas: “homenagem às centenas de homens, mulheres e crianças que sucumbiram” (P. 11), em reivindicação da esperança e de um futuro colorido por sorrisos e abraços: “enquanto o sol raiar, o sorriso ainda é possível” (P. 11). Ainda que esse futuro seja platónico, parece evidente a força e a coragem das personagens perante essa luta contra as forças da natureza.

A crónica que abre o livro (“Jail house”) é antecedida por uma ilustração terrivelmente interessante do ponto de vista do significado efabulatório. Enquanto, por um lado, avulta a ruína inundada pela enxurrada, representando claramente a imagem de desolação, por outro, aparece a imagem do cão com “sinais de cinza” líquida, claramente discernível ao contemplar o espelho que a água faz com as sobras das árvores e dos edifícios submersos, parece estar a dialogar com o reflexo da ruína do seu próprio habitat. Esta leitura faz-nos concordar com Krir, citado por Jean Chevalier & Alain Greebrant, quando procura construir a imagem do cachorro. O simbolismo do cão reside na sua vocação de emitir mensagens que “[levam] para o céu as preces dos homens” (Krir apud Chevalier & Greerbrant, 2010, p. 153).

Parece haver um certo saudosismo materialista que nos lembra os tempos da civilização colonial, principalmente, ao descrever-se a força do vento e das águas, que entraram e saíram pelas várias fissuras do edifício: as grades rangeram, o tecto abanou, mas a estrutura permaneceu firme. Na óptica do narrador, esse facto aconteceu, porque “o colono fez (…) um bom trabalho” (cf. p. 19). Embora pareça anedótica, esta visão chama à atenção para a necessidade de erguer edifícios arquitectonicamente invulneráveis, num tempo ciclicamente marcado pelas hecatombes naturais.

A efabulação episódica do drama levou as personagens a recorrerem a alternativas mágico-tradicionais, sobretudo quando se narra a história do ladrão pilha-galinhas e mulherengo, que somente a polícia o salvou da morte. Há, neste croni-conto, uma contradição pragmática. Mas o paradoxo representa uma consciência no contexto de uma realidade em que as personagens sobrevivem à base de solidariedade recíproca.

A crónica intitulada “Nuvem de espuma” anuncia a aproximação do dilúvio: “A água chega com os mochos. Os pássaros da morte movem-se pelos ares sussurrando segredinhos apocalípticos aos ventos frios da madrugada” (P. 27). Este cenário foi visível, quando as águas se espraiaram pelo Rio Búzi, transbordando as suas argilosas margens, invadindo as povoações, pondo em risco vidas e engolindo casas, campos agrícolas, empreendimentos sociais, económicos e culturais: “O Búzi nega deixar-se comprimir por um par de margens já flácidas. Borbulha por aqui e por ali, galgando o interior de impotentes paredes da argila” (P. 27). Na verdade, a manifestação escatológica do ciclone e das enxurradas teve a sua incidência na povoação de Búzi, avaliando pelo número de mortes humanas. Mais de seiscentas pessoas perecidas.

Em 2001, foi publicada, em São Paulo, História do medo no Ocidente (1300-1800), em livro historiográfico, de todo o nível, magnífico. O autor do livro chama-se Jean Delumeau. Ao narrar a história do caos da civilização ocidental do século XIV ao século XVIII, o autor mostra que “nada é mais difícil de analisar do que o medo” (Delumeau, 2001, p. 22). Ao ler a obra de Bento Baloi, ficamos todos impotentes e a dificuldade aumenta mais ainda quando se trata de passar do indivíduo ao colectivo. Uma leitura colectiva da história do IDAI lembra-nos, de facto, o drama que horrorizou o mundo, mobilizando solidariedade das nações políticas, das nações religiosas e também das nações sócio-culturais de todo o planeta, por causa do caos meteorítico jamais antes conhecido.

Na Antiguidade greco-latina, o caos era a personificação do vazio primordial, anterior à criação, no tempo em que a ordem ainda não tinha sido imposta ao mundo (Grid apud Chevalier & Gheerbrant, 2010, p. 156). Convoco este conhecimento para relacionar Arca de não é com deambulismo grotesco das personagens da obra de Baloi, que, no geral, metaforizam o vazio desolador que as pessoas viveram duranta a ocorrência das cheias de 2019. Veja-se a passagem seguinte da crónica “Nuvem de espuma”: “O meio de subsistência é aqui que não se obtém. Em baixo é o caos. É o mar” (P. 29). Tanto há um vazio simbólico de esperança, como dos meios de sobrevivência, até do chão onde as pessoas possam pisar, andar, trabalhar e conviver. Há, cada vez mais, fome de coisas aparentemente simples. O prefaciador da obra, José dos Remédios, lembrou-se da música dos Queen para caracterizar o vazio greco-platónico causado pela falta de alguém para amar. A água separou famílias e sociedades; separou etnias e povos.

O estrago provocado pela chuva e pelo ciclone é, na minha opinião, sintetizado na terceira crónica do livro: “Zé das abelhas”. Vejamos o extracto seguinte que mostra o recurso de sobrevivência e as circunstâncias da morte das pessoas:

Ao quarto dia, o estado do tempo não dá sinais de tréguas. A chuva continua a cair e o homem continua sitiado no murmuché. São dias passados a baloiçar de um lado para o outro, em busca de equilíbrio e lutando pela vida. A fome fá-lo fraquejar. O risco de tombar e seguir o destino da água é uma realidade. O murmuché é a fortaleza das formigas. É aqui que elas buscam segurança, calor, conforto e espaço para procriar. A muralha está a ser corroída por baixo. A segurança e o conforto destes insectos são substituídos pela água que invade, paulatinamente, os espaços do seu mundo.

As formigas fazem o óbvio. Fogem do submundo do murmuché e sobem à superfície. Encontram um outro corpo estranho no topo do seu castelo: Zé das Abelhas. Frágil, cansado e esfomeado.

As formigas não são suas amigas. Zé é amigo de abelhas. As formigas não cantam, não dançam e nem voam. Também querem sobreviver e disputam o diminuto espaço com Zé das Abelhas. Elas partem para o ataque. Invadem o seu corpo. Quer repeli-las, mas falta-lhe força e energia. Os seus gestos são tão inofensivos que não impedem que os insectos percorram, em várias filas indianas, todas as avenidas do seu corpo. Primeiro são as pernas, depois a barriga, as costas, os braços e o pescoço. A primeira formiga ia atingir a cabeça, quando o castelo de areia, que é o murmuché, se desmoronou e, paulatinamente, se dissolveu na água.

Há quem diga que o corpo de Zé das Abelhas foi visto a navegar de bruços, totalmente coberto de enormes formigas negras, em direcção à foz do Púnguè (pp. 35-36).

É curioso que, em situações calamitosas, ocorram sempre episódios de nascimento de crianças em circunstâncias incomuns. Em 2000, nasceu a Rosita, em Gaza, concebida como mito de renascimento biológico e a continuidade da vida na terra. O livro de Baloi lembra-nos esse episódio, de uma criança nascida encima de uma árvore. A personagem Hanidjo é transportada por uma carroça de tração animal para ir ao hospital para o serviço do parto. É uma realidade que denuncia a precaridade da vida, a pobreza generalizada. Agravada por falta de “apoio médico” (p. 47), essa realidade chama à atenção a todos.

Apesar de tudo, no sofrimento há também espaço para alimentar sonhos e devaneios psicológicos. O texto “A menina que queria ser psicóloga” (pp. 101-105) tem uma intenção semântico-pragmática que contempla vários domínios de educação, como, por exemplo, a relação problemática entre a vida e as condições subjectivas da realidade, a necessidade de formação/educação científica, e, de forma lateral, os contornos sócio-económicos e ético-culturais a que as personagens cronistas se encontram envolvidas. Nisso tudo, o papel da família e da escola torna-se importante para a construção de uma geração que ajude a compreender os contornos do futuro. Vejamos o pensamento futurista de uma menina de 9 anos, ao tentar responder a uma pergunta que é comummente feita a crianças é desenvolvimento intelectual: “Eu, quando crescer, quero ser psicóloga […] Quero ajudar as pessoas a não se suicidarem”. Em poucas palavras, temos a referência à educação moral e, em defluência directa desse facto, a inscrição textual de conteúdos temáticos importantes: a importância ética e moralística que permite as pessoas compreenderem o valor da vida e dos fenómenos que a caracterizam; a educação formal e a necessidade de formação em áreas de natureza social.

É inteiramente pertinente o facto de o terceiro parágrafo da crónica referir os nomes originais e socialmente diminuidores, como “Urombo”, “Tsanguirai”, “Bininho”. Entre escritores moçambicanos que têm trabalhado temas desoladores como este, salienta-se o romancista Mia Couto que, no romance Terra sonâmbula, valoriza, com despreocupada lucidez, o estatuto social da personagem Kindzu que desencadeia uma série de episódios oníricos, ainda em terra idade, como, por exemplo, os conselhos que, em circunstâncias difíceis, foi dando ao velho Tuahir, face ao recrudescimento da guerra dos 16 anos em Moçambique.

As imagens que introduzem o texto que dá título ao livro ilustram com rara petulância a intencionalidade da escrita, assim como a sua eleição para o espaço que ocupa na colectânea.

O simbolismo da arca, e o da navegação em geral, comporta vários aspectos que estão, no seu conjunto, interligados. O mais conhecido é o da Arca de Noé a navegar sobre as águas do dilúvio e transportando todos os elementos necessários à restauração cíclica (Chevalier & Gheebrant, 2010, p. 80).

O simbolismo da Arca da Aliança dos Hebreus está mais próximo do que parece do anterior. Os Hebreus colocavam-na na parte mais retirada do tabernáculo; ela continha as duas tábuas da lei, a vara de Arão e um vaso cheio de iguaria que alimentara o povo no deserto. A arca era a garantia da protecção divina, e os Hebraus levavam-na nas suas expedições militares, Quando foi transferida, com grande pompa, para o palácio de David, os bois que puxavam o carro fizeram inclinar a arca; o homem que tocou nela para assegurar caiu logo morto no chão. Não se toca impunemente no sagrado, no divino, da tradição (Segundo livro de Samuel, 6).

Como vimos, Arca de não é configura uma falsa metáfora da Arca de Noé. Mas a criatividade linguístico-pragmática e a imaginação crítica, com que se intitulou a obra, têm uma relação artística muito forte no plano da literatura com as narrativas bíblicas. Em Arca de não é, temos referência ao dilúvio e, por consequência, à intertextualidade noética da filosofia bíblica, porque o recurso a uma expressão cuja deriva prosódica se assemelha à Arca de Noé, remete-nos directamente para a inscrição vétero-testamentária. Essa ideia torna-se mais forte, quando, no meio de tanto sofrimento, as personagens reconhecem a existência de Deus, como acontece na passagem seguinte: “Não é a minha perícia de navegador de ocasião que evita que a canoa se vire. É, sim, a força de Deus” (p. 111).

Importa, finalmente, referir que este livro é constituído por pequenos fragmentos contísticos, produzindo, no geral, as crónicas do quotidiano que vão hoje a público pela mão da Editora Índico.

Beira, 8 de Abril de 2021

7 pétalas de Abril

Por: Celso Muianga

 

Em memória do jornalista Albino Moisés que me falou pela 1.ª vez da maior capulana de Moz!

 

Virou-se para mim com um olhar fulminante, até parecia perdidamente apaixonada. Pensei que ela me fosse dar mais uma daquelas suas lições, demoradas e chatas, apesar de apreciar-lhe o discurso. Falava como se estivesse a cantar. Mas quando ajeitou os óculos pela segunda vez, a minha avó, não sei como soltou um palavreado breve, incoerrente e vigoroso:
– Isto é absurdante.
– Vovó??? – atirei atónito!
– Não é possível que eu não esteja a sonhar, com esta minha idade, já a viver a prestações, meu neto!
– Mas vovó não está fora do prazo…
– Liga agora o rádio do teu chará, meu netinho.
Tratei de evacuar o ruído que vinha da televisão. Mas antes fui vi-me obrigado a correr e atravessar o quintal. E instantes depois regressei ao lugar de partida, para de novo juntar-me à minha querida avó. Ali, debaixo da mafurreira, a minha avozinha desfrutava da sombra do ar condicionado natural como ela apelidava aquele lugar. Um copo estava deitado sobre um pedaço de esteira. Ela nem se deu conta das gotas de aguardente que o meu avô deitara naquele chão, ao longos destes anos.

A emissão da Rádio Nacional de Moçambique estava em cadeia nacional com todos emissores provinciais, com a maioria das rádios comunitárias que aderiram massivamente às celebrações. Esta emissão espacial juntava a Televisão Nacional, o canal da TV Surdo e os canais de Professores e Médicos.
-A mulher moçambicana está em festa e, antes de mais, vamos brindar e reiterar o desejo de um feliz 7 para todas mulheres de Moçambique. Tenho sinal para entrar em linha com a nossa colega na cidade da Beira. Diga-nos, Anabela, como é o pulsar das cerimónias centrais que vão ter lugar aí nesse ponto do país?

*
-Alô, alô Anabela. Como vão as modas aí no Chiveve?
Olá, bom dia Glória. Falo-vos a partir do bairro da Munhava, onde daqui a pouco vai decorrer a cerimónia central deste Dia Nacional da Mulher. Tenho indicação de que a delegação oficial teve um embaraço no trânsito, à saída do aeroporto. Devolvo a palavra aos estúdios centrais, hoje em Quelimane, Glória
– Obrigada, Anabela. Tenho indicação de que a Rosa está em linha a partir do Songo. Venha daí, Rosa. O perfume é teu nesta nossa emissão. Estamos em festa hoje!
Viva, Glória. Respondo de Songo. Tenho comigo uma senhora que está a reagir pode aproximar-se do microfone, dona!
-Cuidado. Muito cuidado com o frio daqui do Songo. Tem mania de ficar muito frio. Muito muito de noite. Isso de dizer que ela não sente frio porque corre muito não vai prestar. Melhor vestirem a Menina de Ouro para não ficar entussiada….
Obrigada pelos conselhos, mamã!. Glória são estes os primeiros sinais assim que foi descerrada a capulana que cobria a nova estátua de 2.5 metros de altura da nossa campeã Maria de Lurdes Mutola
Obrigada, Rosa. Voltamos à cidade da Beira, creio que estão criadas todas as condições, Anabela.
Sim, Glória. Já estou junto da Doutora Joaquina. Doutora Joaquina, em directo para a nossa emissão de rádio e televisão que nos pode dizer neste 7 de Abril muito especial?
Aprecio e gosto que a senhora locutora Anabela me trate pelo nome completo. Afinal é preciso estimar as mulheres moçambicanas, não é verdade…»
« Não seja por isso, senhora Secretária Nacional da Mulher de Moçambique, Dra. Maria Joaquina Desdentada Moçambique tem a palavra neste dia muito especial para todas nós»
«Primeiro agradecer muito ao meu padrinho particular e a Deus. De facto, hoje vamos inaugurar os resultados do nosso xitique nacional, com a inauguração de 11 estátuas da nossa única campeã olímpica e mundial, Maria de Lurdes Mutola. As mulheres deste país merecem um reconhecimento bem maior, mas como diz o nosso hino nacional «pedra a pedra construimos novo dia. Milhões de braços, uma só força!» E também neste primeiro acto vamos, neste 7 de Abril, inaugurar três estátuas da heroína Josina Machel, em Nacala, na Matola e na Ponta Gêa. Para fechar este ciclo de homenangens a três das maiores figuras, bem as mais representativas, vamos inaugurar três estátuas da maior figura literária de Moçambique no feminino, que é a Mãe dos Poetas moçambicanos, a nossa querida Noémia de Sousa, por sinal a mais velha. Noémia de Sousa, há mais de 75 anos, junto com José Craveirinha, João Mendes e outros redigiram a primeira carta para a Independência de Moçambique onde hoje é chamado Jardim dos Namorados. São estes os nossos planos como Secretariado, a Mulher de Moçambique, mas devo referir que acabamos de aprovar quinhentas bolsas para raparigas por cada província. Para este primeiro lote, escolhemos como patronas desta 1.ª edição Janet Mondlane, Graça Machel e Marcelina Chissano. Nos próximos anos vamos escolher outras patronas para mais quinhentas raparigas por província. Como podem ver na nossa página do Facebook e do Instagram já divulgamos a lista das outras mulheres que correm o risco de ter estátuas neste país. Para terminar, desejo a todas mulheres de Moçambique, dentro e fora do país, que continuem a acreditar e a valorizar o seus sonhos. Muito obrigada!
-Muito obrigada, senhora Secretária-Geral. Devolvo a emissão aos estúdios. Não posso esconder a tamanha emoção…»
-Obrigado, Anabela. Responde a Hermínia dos estúdios da televisão nacional. Ficamos a saber, há pouco, que o nome da nossa colega Glória Muianga faz parte da lista referida pela Secretária Nacional.
De Maputo temos uma intervenção da Farida, já com o edil da capital:
– Sim, senhora. A decisão foi da Assembleia Municipal. A antiga avenida Marien Ngouabi passa a partir de hoje a chamar-se Noémia de Sousa. E por coincidência, a antiga rua Noémia de Sousa chama-se Marien Ngouabi. Estamos aqui a inaugurar a estátua de uma heroina de reconhecido mérito, junto ao entrocamento entre a Acordos de Lusala e a nova Noémia de Sousa. Uma alegria para todos nós do século XX e XXI que aprendemos a conhecer Moçabique na palavra desta grande senhora.
– Obrigadinha, Farida! Continuação de um dia muito feliz. Passo desde já a ler a lista das mulheres mais representativas, de acordo com a M.M:
Sabina Santos
Reinata Sadimba
Júlia Malizane
Rosária Tembe
Glória Muianga
Zena Bacar
Domingas Jamisse
Esperança Sambo
Ana Magaia
Afra Ndeve
Laura Nhavene
Josefa Macadona
Lucrécia Paco
Marta Bocoda Guebuza
Mariana Muianga Chissano
Paulina Chiziane
Lina Magaia
Angelina Daima
Clarisse Machanguana
Zaida Lhongo
Paulina Mateus
Deolinda Guezimane
Manuela Soeiro
Marina Pachinuapa

*
Quando repararei para a minha avó, apercebi-me que ela dormia, há mais de duas horas. Fiquei o resto da tarde a compor a minha lista para enviar por e-mail à MM!

Celso Muianga
(Editor e activista cultural)

Era uma cidade de gente triste

Era uma cidade de gente triste, tristes até quando celebravam seja lá o que for, e esforçavam tanto a ser tristes, apesar da tristeza aguda que todos sentiam ninguém sabia ao certo do que tanto os entristecia, aliás, aquela tristeza era inconsciente, todos lamentavam-se e lamentação passou a ser uma forma de saudação, uns aos outros lamentavelmente se cumprimentavam.

Todos falavam de uma forma que a vida passou a ser sem conteúdo, ninguém sabia como e nem porquê vencer a tristeza. Os felizes foram declarados inimigos do povo, assim que alguém fosse identificado como um homem feliz era imediatamente aniquilado, mas antes era humilhado em hasta pública e só depois abatido, para servir de exemplo aos resistentes, havia um esquadrão da morte, uma força tarefa para tal, de tal forma que não haviam pessoas felizes na cidade, havia um decreto presidencial contra tudo e todos que se mostrassem felizes.

Era uma cidade de gente triste, os resistentes fingiam-se tristes para sobreviver. Era preciso ser infeliz para se integrar socialmente, ter acesso aos serviços, aos lugares, às pessoas, quanto mais infeliz mais popular era a pessoa, para isso, inventaram uma plataforma onde as pessoas exibiam a sua infelicidade, uma espécie de vitrine onde se expunha os estados de espírito das pessoas, aquilo era um festival de ostentação de tristeza.

Para se garantir a infelicidade colectiva, todos as livrarias foram fechadas e os livros destruídos, os cinemas transformados em lugares de culto à infelicidade, os espectáculos proibidos, havia um tipo ideal de música que se podia ouvir, uma música que exaltasse a tristeza, era uma cidade de homens tristes. Os mais tristes faziam cocktail de tristeza com álcool e alcoolizados seguiam o curso triste dos dias.

Para garantir um ambiente hostil e triste, todas as árvores da cidade foram cortadas e no lugar destas foram colocadas árvores plásticas, postiças, que nem se mexiam com o vento, o que fez com que os pássaros fossem extintos. As praias foram transformadas em lugares para jogar dejetos e outros resíduos sólidos, soldados haviam para garantir essa falta de limpeza à orla.

Era uma cidade de gente triste, uma felicidade, por mais curta que fosse, era considerado heresia, todos vestiam-se da mesma forma, aliás, ninguém deveria ser diferente do outro, aquela tristeza era perentoriamente oficial e oficializada até a falta de carácter das pessoas, quanto mais indisciplinados fossem melhor à práxis do dia, quanto mais maldade fizesse, mais promoção e distinções tinha o ilustre cidadão, não era por acaso que os dirigentes eram todos excelentes ladrões e corruptos incorrigíveis, uma prática necessária e digna de honra.

O sexo, a bruxaria, a roubalheira, malandragem, a morte, encontrava-se em qualquer esquina e a luz do dia, vendia-se de tudo e a todos, paradoxalmente todos sorriem, risos largos e rasgados, dignos da infelicidade que sentiam, as notícias eram todas sobre a tristeza, se houvesse uma notícia feliz era falsa, fake news era a moda e moldava a mente dos tristemente desinformados, as escolas e as universidade nada se ensinavam senão a prática da corrupção, não era por acaso que todos exibiam-se doutores sem nunca ter algo para mostrar.

Era uma cidade de gente triste, até que um dia, nasceu uma criança que, além do habitual choro, sorriu, sorriu escancaradamente que ao sorrir fez sorrir todos os que assistiam o parto, e partir daquele dia toda a cidade sorriu, e a sorrir viu-se o quão sujos e tristes estavam todos, o sorriso daquela criança despiu a nu toda incoerência que se vivia, aquele sorriso era do bem e da sabedoria, que expôs a nudez de todos e todos envergonhavam-se deles mesmos, então decretou-se um limpar obrigatório, era preciso limpar a vergonha, limpar das ruas à promiscuidade e a partir daquele dia todas as crianças sorriam ao nascer. ­­­­­­­

 

 

 

Direitos e obrigações de profissionais que ocupam cargos de responsabilidade: A questão da liberdade de expressão!

Já me foi perguntado o porquê de os profissionais que ocupam cargos de responsabilidade (c.r)  terem melhores condições de trabalho que os demais. A resposta à questão é relativamente simples: Os profissionais que ocupam cargos de responsabilidade têm melhores condições pois, de outras razões, têm responsabilidades acrescidas e representam a imagem da organização. Por este motivo, são obrigados a deixar de lado certos hábitos e a adquirir outros novos. E esses sacrifícios devem ser compensados.  Infelizmente, poucos profissionais que ocupam cargos de responsabilidade não estão dispostos a fazer esses sacrifícios, ou pior ainda, não sabem que tem de fazer esses sacrifícios em prol da organização.

 O que é necessariamente deixar de lado certos hábitos em prol da organização?

Em marketing diz-se comumente: “people don’t buy your product, people buy you”. Isto quer dizer que  ao vender um produto/serviço, o profissional deve representar o valor (imagem) que tenta transmitir do produto/serviço em causa. Ora vejamos, se eu e o Ziqo formos vender um projeto de criação de um Disco-Bar a um grupo de investidores, os investidores tenderão a optar pelo projeto do Ziqo, claro. A imagem que Ziqo nos transmite, à nós seus fãs, é de um homem das noites, um “beatmaker” e bonvivant . A construção desta imagem integra, desde os seus vídeos em discotecas, as habituais roupas de marca, os charutos, os escândalos, a troca “frequente” de mulheres (sempre lindas e/ou famosas) ou os videoclipes glamourosos. Tudo isto faz parte da marca @ZiqoMaboazuda e é credível para este tipo de negócio. Os investidores, com facilidade, conseguem projectar a imagem de uma discoteca abarrotada de clientes animados, frequentada por mulheres lindas, outros artistas famosos,  bons “beats” e um ambiente de constante e efusiva animação: O retorno ao investimento está garantido. Por outro lado, se Ziqo for vender um projeto de gabinete de recrutamento de talentos, os mesmos investidores provavelmente terão receios da lucidez, ou ausência da mesma, do proponente naquele momento. Assim também procedem as organizações. Elas precisam que os profissionais que ocupam os cargos de responsabilidade representem a imagem dos serviços que elas pretendem vender, caso contrário elas deixam de ser credíveis.

 Os cargos de responsabilidade concedem vários direitos. Cartões de visita com títulos pomposos; carro e combustível; planos de saúde “abrangentes”; horários de trabalho flexível, subsídios de performance, entre outros. Mas estes direitos, via de regra, também trazem acoplados um rol de obrigações. Ao aceitar um c.r, o profissional deve ter consciência, não só das generosas e apetecíveis remunerações oferecidas, como também, das obrigações que ao cargo estão adstritas. Os colaboradores que ocupam c.r são, via de regra, projecções da imagem que a organização tenta transmitir aos seus stakeholders. Assim que ocupa um c.r, o profissional deve cessar de utilizar sua linguagem para utilizar a linguagem (business) da organização; deve adaptar uma postura dentro e fora da organização ligadas a cultura da organização; deve estar disposto a sacrificar férias, aniversários da família em serviço da organização, mudar sua indumentária para se adequar à cultura da organização.

 “A melhor forma de liderar é com exemplo”

É nesta óptica que o profissional que ocupa cargo de responsabilidade deve prestar atenção à sua imagem e linguagem, pois as mesmas serão associadas ao seu comportamento profissional e  pode afetar a atitude dos colaboradores mas também descredibilizar os serviços que a organização oferece ao mercado.  Um dirigente que expõe sua própria vida privada ao mínimo detalhe, por exemplo, cria a percepção de que não terá dificuldades em expor os segredos de um cliente ou da organização. Que organização se relaciona com outra, cujo a direcção é susceptível de faltar com deontologia profissional?

Talvez, a este ponto do texto, alguns leitores já estejam a pensar: “mas então ó, ó, ó Gerson, e a liberdade de expressão aí? Será que ocupar c.r significa perder minha liberdade em favor da organização, ó Gerson?” Não, absolutamente não. Os que ocupam c.r podem livremente continuar gozar da sua liberdade de expressão e de se comportar como bem entenderem, afinal de contas estamos num país livre, não? No entanto, é preciso saber que não existe acção sem reação. Para cada acção existe uma reação, que por vezes pode ser boa e por outras má. Os profissionais devem apenas ter consciência disso e estarem dispostos a assumir as consequências das suas ações.

 Ponto de vista de um especialista em recrutamento

Muitos decisores, talvez por falta de conhecimento, negligenciam certos aspectos essenciais do processo de recrutamento de profissionais para cargos de responsabilidade. A minha experiência me permite dizer que esta é uma fase crucial de uma organização, é neste processo em que “se decidirá” a prosperidade da organização.

Diz Jim Rohn que se alguém lhe der um milhão de dólares, é melhor se precipitar e tornar-se milionário antes mesmo de tocar no dinheiro, caso contrário, pode perder o dinheiro no primeiro segundo que o tocar.  Isto quer dizer que é preciso estar preparado para certos cargos. Sim, todos nós podemos ser líderes, mas nem todos estamos dispostos a fazer os sacrifícios necessários para sermos líderes.

Yassin Amuji, um destacado jovem que trabalha na promoção do turismo em moçambique e que recentemente foi nomeado para o cargo de Vice-presidente para o pelouro de Turismo, Hotelaria e Restauração pela CTA, fez uma analogia nas últimas semanas nas redes sociais, onde a questão focal é onde temos falhado na direção das nossas organizações em Moçambique. Porquê ocorrem tantas falências?

Eu acho que erro de casting é uma das razões pelas quais muitas organizações não prosperam em Moçambique. Este é um processo muito delicado e deve ser confiado aos profissionais da área para o dirigirem.  Alguns decisores continuam a utilizar os mesmos critérios de selecção a cargos de responsabilidade que há muitos anos, tais como: anos de antiguidade na organização; anos de experiência; escolha pelo apelido; escolha baseado no critério partidário; escolha por afinidade.

Num processo de recrutamento ou de escolha para um c.r devemos lembrar que o profissional escolhido vai dirigir a vida de muitas famílias e por vezes de toda uma comunidade onde a organização está implantada e que de perto ou de longe a organização afecta a economia do nosso Moçambique.  Entre vários critérios de escolha de um profissional a c.r, os que presto particular atenção são: Coragem: Coragem permite a um dirigente assumir responsabilidade em todas as circunstâncias, saber enfrentar  o medo e fazer face às dificuldades.  Capacidade de se relacionar com outros:  durante o processo de escolha, gosto de convidar o candidato para um encontro informal, por exemplo, almoçar. Este exercício me permite perceber que tipo de conversa lhe interessa, que linguagem utiliza, como trata os garçons, quantas vezes agradece, analisar sua qualidade de escuta,  analisar qualidade das suas perguntas assim como atenção que presta as respostas,  e saber sobre seu plano de vida (um líder tem de ter lifestyle bem definido).  E por fim a  Cultura da empresa: um cândido até pode ser perfeito mas se a empresa ou sector não lhe convém, seu nível de performance será medíocre. Nós seres humanos somos menos atraídos por dinheiro que pelo prazer de sermos úteis. Quando trabalhamos num sector ou empresa cujos os valores são os mesmo que os nossos, somos fiéis à cultura organizacional e ao trabalho. Portanto, este casamento entre a cultura e os valores do candidato é importante.

 Os empreendedores, os líderes (CEO’s), os decisores políticos devem perceber que recrutamento é um processo de todos os dias. O recrutamento não termina no dia em que o profissional começa a trabalhar. O plano de gestão de carreira dos profissionais é outra parte do recrutamento. Esta fase permite que os profissionais tenham uma direção. Imaginem um navio sem bússola. É exatamente assim como muitos profissionais gerem suas carreiras, portanto, o coaching sobre a gestão de imagem como factor de sucesso na carreira deve ser privilegiado como parte basilar da formação destes profissionais. Este processo permite ainda a melhoria contínua dos profissionais, retenção dos melhores e redirecionar os outros. EU ACREDITO EM NÓS.

Recomendação de livro para o mês de Abril 2021: “Grab your seat: insight into becoming a human capital business leader– “Samuel Ernesto Maputso

Samuel Gerson Andrisse é especialista em recrutamento e autor do livro “Be ready for your next job interview”

Carta a Nelson Lineu

Por: Celso Muianga

 

Meu confrade Nelson Lineu, saúde!

 

Acabei de ler o teu último livro. Fiquei com a sensação imediata que não me devia calar. Sou, mesmo que não demostre a todos, um defensor da nossa geração, talvez o que digo a ti nem merecerá algum interesse de jovens e novos autores. E muito gostaria que fôssemos uma geração competitiva. Temos ferramentas herdadas do passado que nos podem servir para deixarmos marcas sólidas e talento também abunda entre nós, apesar desse mesmo talento, tal como afivela o filósofo barbudo que matou Deus ser «um adorno».

Lineu, escrevo-te com o apelo deste teu «mano crescido», e roubo uma fala de uma das figuras inimitáveis do mercado Madruga, que no auge da sua pujança era capaz de carregar nove caixas de cerveja sobrepostas e caminhar mais 500 metros na cidade da Matola. Boca-Linda era de facto inimitável. Assim também é a tua lavra que está bem cotada, por isso alerto para alguma contenção no galope, que me parece acelerado. Não vamos cair na tentação dos outros, na pressa cega de publicar por publicar como uma forma de cumprirmos para justificar a agenda para comprar terreno e construir a casa, etc. Há muito que sabemos que a literatura não dá para muito. Mas lutar pela honra dos que nos antecederam, dos que ainda cá estão e daqueles que virão, isso não devemos descurar em momento algum. Estimo o teu empenho na poesia e, se quiseres, com dedicação que te reconheço, como já te disse doutra vez, depois daquela homenagem a eterna luz que é Calane da Silva na Feira do Livro de Maputo, ali no Mercado do Povo, com o Pedro, Léo, Lucimara e o Mélio. Todavia as tuas crónicas recentes despertaram em mim os demónios que aqui partilho. E até a voz da nossa mui querida Fernanda Angius, que os Anjos não baixem a guarda, gravitou sobre a minha memória, «há aqui alguém que anda a escrever crónicas, mas afinal é poeta». Sei que sabes que ela estava a referir-se a ti, Nelson Lineu. É mais do que sabido por nós que a Fernanda tinha razão. E agora, o que fazer deste namoro com as crónicas, descortar, pedir distras, com aquele pedido de desculpa e jura de mil facas na barriga? Penso que não. Mas «pouco a pouco», com o sentido crítico, com a vigilância que nos legaram os madalas Craveirinha e Knopfli naquele livro verde de crónicas CONTACTO E OUTRAS CRÓNICAS & A SECA E OUTROS TEXTOS e outras crónicas. Como vês, de mestres não temos falta: Areosa Pena, Albino Magaia, Mia Couto, Fernando Manuel, Luís Patraquim, Marcelo Panguana, Nelson Saúte, Suleiman Cassamo, Daniel da Costa, Hélder Faife, só para citar alguns. Não é preciso correr porque a medalha de campeã olímpica ainda só pertence à menina de Ouro, Maria de Lurdes Mutola.

Voltemos à oficina para lapidar a palavra, cortar o que for preciso. E, se for necessário, como disse Knopfli, «Esperar. Esperar em vão. Esperar. Esperar mais ainda. Esperar sempre». Os outros, até malta Saramago e Lobo Antunes, nem foi deles a iniciativa de publicar as colectâneas de crónicas dispersas em jornais e revistas. Falo destes para não tocar nos latinos, nem tão pouco nos norte-americanos.

Caso tenha acontecido o contrário no bureau do Literatas, estás perdoado. Mas alto aí, o perdão é lá diante do Senhor. Aqui somos nós, a malta das letras que não é dada aos ofícios celestiais de batina e de todos os Santos.

Fiquei com a impressão de que os apresentadores do livro optaram pelo distanciamento social, não foram muito à conversa com O PASSO CERTO NO CAMINHO ERRADO. Meteram-se na mata. Atravessaram-na em passo de corrida, a fugir de algum Nyongo, talvez. Vi-os dobrarem as calças até aos joelhos ao atravessarem o rio. E depois, chegados à outra margem, começaram a acenar-te com Czares, Voltaires, etc, ignorando os nossos trovadores, filósofos, como se não os tivéssemos. Há, por exemplo, o Doutor Mussa Rodrigues, Lázaro Vinho ou até mesmo Xidiminguana. Todos eles grandes cronistas que não saltaram para a publicação em livro. Assim, de seguida falaram-te de nomes de outros grandes cronistas. O recado estava ali. Fizeram aquelas questões sobre as 52 semanas e etc e tal. Não me lembro de os ver tocar na ferida. Fizeram a missa. Isto talvez seja sintomático de que qualquer coisa não andasse bem naquele quintal de crónicas, meu amigo. E eles sabem que és bom entendedor.

Voltemos aos textos e com urgência para reflectirmos: qual é a novidade? Passados 12 anos estes textos sobrevivem à erosão do tempo? E como é que o nosso cronista Nelson Lineu olha para eles? Será que o teu olhar é o mesmo hoje? Como te sentes? Como esperas voltar a ler estas crónicas no futuro? Será que fazem o leitor se sobressaltar como se fossem balas perdidas ou outras munições do paiol de Malhazine? Perdoa-me a referência às balas, mas acho-as inevitáveis. São nossas vizinhas de saia curta e atiradiças.

Vou só recordar um episódio caricato que aconteceu a um amigo jornalista que, na altura, trabalhava no matutino da Joe Slovo que depois de muitos apelos à sensibilidade de um ministro sobre a degradação do estado de saúde do grande músico Carlos Chongo e, quando já nada fazia esperar a ilustre excelência, este mandou anunciar a sua visita. Porque o tempo é mestre, a equipa de assessores teve de enviar SMS às pressas para alguns jornalistas para a cobertura oficial. E o meu amigo, quando recebeu a mensagem que mais-ou-menos dizia isto: «O excelentíssimo ministro vai visitar o músico Carlos Chongo no hospital central», ele não teve meias medidas e respondeu com um vibrante «E daí?».

Palpita-me que confiaste nas pedras e no capim alto à volta, que as chuvas das últimas semanas trataram de pôr entre os trilhos. E se não fosses tu, o Nelson Lineu que conheço, terias tropeçado. Aquele beco não te pertence. Volte, meu amigo à tua oficina. E ali, antes de meteres debaixo do camião, pondere, medite na palavra. Se um dia, assim entenderes, salte o arame com o exame PCR feito no bolso, até porque é de carácter obrigatório nestes tempos pandémicos e incertos. E força, mano! Arrisque um pouco mais e mais. E se for para reformular, não hesite. Se precisares de mim, já sabes disto há 50 anos, podes contar. Mas seja vigilante, camarada! Aí nessa fronteira da crónica há sabotadores, ainda te arrancam o telemóvel e a carteira que imagino-a cheia de anotações, cartões e dinheiro de chapa. Cuidado!

 

Um abraço amigo,

 

 

Reedição d’O Negro 110 anos depois

Reflictamos

A reedição do Jornal O Negro, 110 anos depois da publicação do primeiro número deste que é um dos principais percursores do pensamento pan-africanista, simboliza o ressurgimento da luta do povo africano pela reconquista da sua dignidade e soberania no quadro das nações.

Mais de um século depois, este manifesto pela liberdade da África e dos africanos não poderia ser tão atual e revelador do embuste social e político em que o mundo se encontra. O imperialismo não morreu com as independências das colónias, pelo contrário, refinou os seus métodos e hoje se nos apresenta em forma de progresso, democracia e globalização, só para citar alguns dos seus disfarces.

Nós, os negros, continuamos escravos desta secular subalternização que as instituições imperialistas se esforçam em perpetuar. A celebração dos 110 anos do mais significativo movimento de luta anti-imperialista coincidiu com a polémica do Caso Mamadou Ba, presidente do SOS Racismo em Portugal e representante de uma causa que uma parte da elite política portuguesa (para ser optimista) insiste em varrer para debaixo do tapete.

É de todo irrisório que o discurso de Mamadou em relação a existência de um racismo estrutural em Portugal choque a opinião pública num país, que se orgulha de ser pioneiro da expansão marítima (os ditos Descobrimentos) que levou a colonização e escravização da maior parte dos países do mundo. Como se explica que um país em que os grandes carrascos da história da humanidade ainda são reverenciados como heróis pode se considerar não racista?

Já em 1911 o grupo de estudantes africanos (João de Castro, José de Magalhães, Ayres de Menezes, Artur Monteiro de Castro e tantos outros), que fundou o jornal O Negro debatia-se com essa questão. A resposta só poderá ser obtida por via de uma reflexão profunda e consciente. Reflictamos, recomendavam-nos eles. E este é para mim o principal legado desta geração iluminada pelo Éter da esperança e comprometida com a revolução.

Este movimento, a semelhança da campanha política em curso para a expulsão de Mamadou Ba de Portugal, foi perseguido e silenciado pelo Estado Novo. Urge que continuemos a resistir e a intensificar a luta. O oprimido só se liberta do seu opressor por via da violência, já nos tinha avisado o cineasta brasileiro Glauber Rocha no seu manifesto sobre a Estética da Fome.

Queiram eles ou não, será por via de discursos e posicionamentos violentos que no passado encontramos nos números de O Negro e hoje em activistas sociais como Mamadou Ba que conseguiremos pôr fim a esta opressão secular e finalmente tomar as rédeas do nosso destino.

E concluo esta saudação à reedição do Jornal O Negro levada a cabo pela editora FALAS AFRIKANAS e pelos autores Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela, com revisão e paginação de Carolina Freitas e Inês Ramos, respectivamente, com uma citação (traduzida para o português corrente) retirada do número I, datado de 09 de Março de 1911:

Expressamos com lealdade, mas também com audácia, nas suas linhas gerais as nossas convicções.

Não nos moveram nem ódios, nem ressentimentos, absolutamente incompatíveis com a nossa mocidade e sobretudo com a nossa compreensão da solidariedade.
Embora pertencentes à raça, por excelência escravizada, ao iniciarmos a nossa publicação, sentimo-nos no dever de salutar todas as raças do mundo, porque todas descendem da animalidade e ascendem à vasta fraternidade universal.

Ops: Pode ter acesso a reedição do Jornal O Negro através do download gratuito em https://archive.org/details/jornal-o-negro-110anos.

A versão impressa está a venda em livrarias dentro e fora de Portugal. De Norte a Sul:
Santiago de Compostela/Galiza: Espaço Espadela
Vila Real: Livraria Traga Mundos
Vila Nova de Cerveira: Porta Treze
Porto: Gato Vadio, Utopia, I2ads/Faculdade de Belas Artes
Amadora /Cova da Moura: Bazofu&Dentu Zona
Cascais: Galileu
Lisboa: Letra Livre, Tigre de Papel, Leituria, SNOB, Baobá, Papelaria Fonsecas, Papelaria Cevada
Setúbal: Uni Verso
Sines: A das Artes
Lisboa, 19/03/2021

O Substituto doméstico

Cofiou copiosamente toda a extensão do seu bigode que nas extremidades seguia em forma de espiral enquanto olhava taciturno para o céu luzidio de quinta-feira.
Meditabundo, matava o tempo que lhe parecia inanimado principalmente agora longe da azáfama do quotidiano de outrora, tudo por conta do inimigo invisível.
Sim, tinha saudades do tempo que laborava e no seu emprego dirigia uma turma de colegas que reconheciam a sua competência e autoridade.
Agora vivia a reclusão domiciliária por conta das autoridades governativas e carimbada pelo seu superior hierárquico que decidira que ele deveria ficar remetido no seu recanto para não ser atingido pela COVID-19.

– Januário, Januário! – chamava-o a mulher a partir da sala contígua.
Ele, absorto na sua viagem, não a escutava, procurava se comunicar além galáxia, para não sucumbir ao convívio familiar forçado. Agora estava sob a direcção de sua esposa, que impunha o seu feminismo outorgado pela liga de defesa da mulheres do país.
Leonor, quando percebeu que o marido não a escutava, decidiu incumbir o filho mais novo de o chamar.
– Sim, sim! – atendeu Januário ao insistente chamamento do filho.
Apresentou-se perante a sua esposa que se deleitava confortavelmente na poltrona segurando o remoto controlo de televisão.
– Chamaste? – inquiriu olhando para Leonor que meio distraída trocava de canal optando agora por um de ginástica aeróbica.
– Tens de ir deitar o lixo – conferiu com autoridade passiva.

A empregada doméstica havia sido dispensada unilateralmente pela patroa, pois representava um potencial risco de contrair o vírus por recorrer ao “chapa” nas suas deslocações.
Quando o conteúdo televisivo que assistia perdeu o interesse, ela percebeu que o seu marido ainda não tinha saído para cumprir com a missão.
Voltou a gritar pelo seu nome, mas este continuou silencioso. Depois de uma demora prolongada, Januário reapareceu.
– Já vou! – disse
Ela, ainda com os olhos fitos no televisor, não deu pela presença do marido, mas depois espreitou pelo canto do olho e encontrou-o prestes a partir.
– Chii, vais aonde assim mesmo! – Disse ela, estupefacta com o visual do marido.
– Deitar lixo como mandaste! – Conferiu convicto.
Januário trajava um terno azul, devidamente engomado e uma gravata vermelha, era a indumentária que mais confiava e a usava quando tinha reuniões de alto gabarito. Recuperou o seu traje favorito depois de mais de quarenta e cinco dias “aguardafatado” a propósito da nova ordem social, agora que o usava, sentia-se, outra vez, dono de si.

Quando alcançou a principal rua que dava acesso ao destino, uma brisa fina sacudiu seu rosto e ele despertou para lembranças de outrora, dos bons tempos. Atirou o saco e toda a sua depressão vôou com os resíduos domésticos e aterrou no interior da lixeira.

Alisou as lapelas do seu paletó e reiniciou a marcha para parar logo de seguida, recuperou um charuto inacabado, tesourou a parte superior, acendeu-o, deu uma longa chupada e, quando a outra extremidade atingiu o rubro, largou e expeliu uma pequena fumaça aromática.

Continuou sua caminhada sem muita pressa de voltar para casa, dava um e outro sorvo no seu charuto e a sensação de liberdade trazia-lhe felicidade. Adentrou para uma pastelaria e pediu um café, enquanto aguardava, recuperou a sua liberdade de expressão e decidiu ligar.- Querido como é bom ver-te e ouvir a tua voz depois destes dias todos! – gritou Elisa emocionada. – Estás lindo meu bem.
Evoluíram num paleio erótico protagonizado por Januário e, à medida que a sua eloquência se adensava, ela descobria as suas partes íntimas seduzindo-o.
Quando a vídeo reunião terminou, sentiu-se um homem novo e cogitou:
“ A humanidade, com destaque para os cientistas e curandeiros, devia encontrar uma cura a curto prazo para o desconvidado vindo do ano 2019”

 

A Corrida à Vacina do Povo

Por Graça Machel

PCA da FDC e da Graça Machel Trus

Hoje, Dia de Acção Global da Vacina do Povo, comemoramos um ano desde que nós, como família global, enfrentamos a pandemia da COVID-19.

  • Juntos, a humanidade compartilhou o trauma colectivo de administrar uma magnitude insondável de doença e morte em nosso meio.
  • Juntos, em todos os cantos do globo, corajosos profissionais de saúde da linha da frente doaram sangue, suor e lágrimas para controlar a força maligna deste vírus.
  • Juntos, navegámos nas mudanças para um mundo virtual e na ruptura dos meios de subsistência e modos de vida que isso gerou, bem como as novas demandas da vida doméstica que exigiam que cuidássemos uns dos outros, educássemos nossos filhos e nos conectássemos com os nossos entes queridos de maneiras antes inimagináveis.
  • Juntos, aplicamos o melhor das nossas mentes médicas e científicas, bem como todas as facetas da nossa infraestrutura de saúde pública, para produzir vacinas que salvam vidas, numa velocidade e escala sem precedentes. Especialistas de alto nível e cidadãos comuns corajosos estão lado a lado nessa luta, enquanto os testes clínicos vão atravessando aldeias na África do Sul e comunidades no Brasil para laboratórios na Bélgica e na Índia. Olha, estamos todos juntos no campo de batalha.

Ainda assim!

Começamos a ver rachas perigosas e malignas emergindo no seio da nossa unidade e as divisões de desigualdades socio-económicas se tornando ainda mais nítidas. A ruptura económica e social causada pela pandemia continua a ser devastadora: centenas de milhões de pessoas correm o risco de cair na pobreza extrema, enquanto o número de pessoas subnutridas, atualmente estimado em quase 690 milhões, pode subir mais 132 milhões até ao fim ano. A UNESCO revelou a terrível estatística de que cerca de 1,52 bilião de alunos estão fora da escola em todo o mundo e que quase 10 milhões de crianças podem nunca mais voltar à escola após o bloqueio do COVID-19.

Ninguém ficou ileso. E, portanto, ninguém deve ficar sem imunidade ao vírus e à graça da resiliência que a vacina traz consigo. É por isso mesmo que a vacina é um direito humano de todos. A equidade na vacina não é apenas uma questão de saúde pública, é uma questão de justiça social e de sobrevivência colectiva.

Ninguém estará protegido contra COVID-19 até que todos estejam. Não haverá recuperação económica ou social para ninguém, em nenhum País, a menos que priorizemos uma recuperação global igualitária da saúde.

As vidas humanas são iguais em valor, não importa a lotaria geográfica do local de nascimento. Todos, repito – todos! Cada ser humano, não importa onde viva no mundo – precisa e merece acesso a vacinas que salvam vidas.

O nacionalismo em volta da vacina é uma catástrofe moral. A história nos julgará com severidade se não empregarmos todos os recursos à nossa disposição e alargarmos os limites da nossa imaginação para garantir que as vacinas estejam nos braços de quem precisa, de Maputo à Cidade do México e à Mumbai.

Juntos, precisamos continuar a reimaginar a nossa maneira de ser:

  • Uma renúncia da Organização Mundial do Comércio (OMC) à proteção de propriedade intelectual para produtos médicos relacionados ao COVID é imprescindível.
  • As empresas farmacêuticas devem entender que as vacinas são um bem comum e não uma mercadoria apenas para o seu lucro. Exorto-os a ouvir o clamor mundial por preços sem fins lucrativos das doses de vacina e de outras ferramentas da COVID-19 durante a pandemia.
  • Não podemos operar como habitualmente o fazemos. Temos que normalizar as práticas comerciais incomuns – aumentar a capacidade de fabrico, compartilhar a propriedade intelectual e licenciar vacinas para outras empresas maximizarem o abastecimento.
  • Governos, sector privado, multilaterais e filantropos precisam se unir para aumentar a solidariedade e aumentar o financiamento da COVAX.
  • E a COVAX deve fornecer informações oportunas e transparentes aos Países destinatários sobre os preços, bem como o fornecimento esperado e cronogramas de entrega.

Uma catástrofe moral não deveria acontecer. Devemos actuar com responsabilidade colectiva e solidariedade como uma família humana para garantir que cada um de nós possa receber a vacina contra COVID-19. Não ousemos negar a nós próprios e às gerações vindouras a dignidade de uma vida saudável e de uma vitória sobre a COVID-19.

Pela poesia, com a poesia, através da poesia: o grito de Álvaro Taruma*

Álvaro Taruma inicia a sua escrita em 2014, com a publicação de textos em jornais e em revistas moçambicanas. É autor de duas obras literárias, nomeadamente Para uma Cartografia da Noite (2016), com 91 páginas, divididas nas seguintes partes: Breves “Anoitações” de um Sonâmbulo; Vigílias; Amor: Dia, Depois Noite; Impressões e Assombros. A outra obra literária é Matéria para um Grito (2018), tem 109 páginas e é composta por três partes: Panfletos contra o Silêncio; A cidade de todos os Náufragos e Um Homem despede-se de si. Em ambos trabalhos o autor sugere a indicação das obras e dos autores moçambicanos e da literatura universal que o inspiraram na escrita, através de epígrafes e de dedicatórias.

Nasceu na província de Maputo, Ilha de Inhaca. Formou-se em Sociologia e Antropologia e ainda em Ensino de Português. Em 2016 ganhou uma menção honrosa no Concurso literário “10 de Novembro”, que celebra o aniversário da Cidade de Maputo. Foi vencedor do prémio BCI de literatura em Moçambique, edição de 2018. Muito cedo granjeou a simpatia da crítica no seu país, que o considera um dos melhores poetas da nova geração[1] de escritores, pela qualidade da sua obra.

São sobretudo o sonho, a noite e a vida dos moçambicanos que norteiam a sua primeira obra literária, considerada como autoficção e que é composta por alguns textos que, de algum modo, dialogam com os do escritor moçambicano Eduardo White (1963-2014), um dos mais qualificados da língua portuguesa. Esse diálogo se estabelece não apenas através da eleição da escrita autobiográfica, como também da escrita sobre o sonho e a morte, da crítica a determinados modelos democráticos que têm lugar no seu país, do governo do dia e ainda da escolha da metapoesia e da prosa poética como pano de fundo da sua escrita literária.

As diferentes preocupações com Moçambique podem ser sistematizadas através da representação que o poeta faz, ao colocar um sujeito poético que afirma:

 

Entristeço-me sempre que me revejo neste trapezista solitário no circo cada vez mais vazio e assustador, de onde só se aplaude os astutos malabaristas do jogo da democracia. Assusto-me, e é com esse susto que me fulmino cada vez mais que se avariam os motores da razão dos nossos governantes. E quase me é suicida esta vontade súbita de caminhar sobre a estreita corda que é o chão do meu país, regado pelo sangue que se derrama sempre que se calam frente à ecuménica mesa do diálogo.// Moro de vagar, em cada vez que piso este traço sideral que é o húmus da minha nação […] (TARUMA, 2016, p. 85)

 

Há um exercício de cidadania que faz o poeta, sugerindo a ideia de que, no seu país, há dificuldade em denunciarem-se irregularidades cometidas por governantes. Quanto ao que alude e que pode ser conferido entre as pp. 85 e 87, poucos moçambicanos se abrem a denunciar diferentes atrocidades, tais como a fome, a miséria, por receio de represálias por parte de quem detém o poder.

A poesia de Taruma é de carácter político. O poeta chega a criticar a existência da kalasnikov, símbolo que faz parte da bandeira nacional.

Ao mostrar a sua desilusão pelo país, o sujeito poético, na obra acabada de referir, chega a utilizar expressões fortes como: “cemitério de loucos”, para designar o país; […] “desejo erótico de acrescentar, em frente à primeiríssima lera desta terra (Maputo), o ú para depois apartar a sílaba inicial, e seguidamente repetir-lhe o nome no feminino, a ver se lhe enfio no cu” […]; …“frenético mijo”, etc cf. p.86; linguagem similar a que Eduardo White utilizou nas obras nas quais teceu duras críticas ao seu país, a saber O País de Mim (1999); As Falas do Escorpião (2002) e O Homem, a Sombra & a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004).

Álvaro Taruma ensaia nessa sua primeira obra, de diferentes maneiras, a criação metapoética, da qual destacarei aquela que dialoga com a obra de Eduardo White. Diz o poeta,:  […] “terrorista pode ser quem tem um lápis apontado a uma folha. Bastam três versículos de um qualquer livro para que a morte chegue (ridícula como uma carta de amor) […]// Neste país, onde escrever é crime, eu escondo o meu diário como quem esconde sua munição” (TARUMA, 2016, p. 23).  Este trecho faz lembrar dois outros de Eduardo White, na sua obra A Mecânica Lunar e a Escrita Desassossegada (2011), quando critica os seus colegas escritores e a si próprio, pelo oficio da escrita em Moçambique:

 

Vocês cospem na poesia como vos é costume cuspir num serviçal. Pagam pouco com medo de que vos limpem muito lixo que sois. […] // Vocês fazem livros como fazem calças e vestidos com rigor e o glamour da hâute coture e, muito embora assim, não sabem a merda que os veste. […] (WHITE, 2011, p.47).

 

Não há dia em que a escrita não me venha bater à porta. Não há dia em que não se vire para mim e me diga em tom jocoso: Bom dia, idiota. […] // Vai pentear bonecos, respondo-lhe eu […]. E a desenvergonhada ri-se, enquanto me acobardo […]. (Ibidem, p. 55)

 

A metapoesia é o cerne do livro Matéria para um Grito (2018), obra na qual, em grande parte, o autor reflete sobre o processo da escrita, questões sociais em Moçambique e sobre as mortes sem causas claras. Sobre esse processo de escrita, apresento como exemplo o que afirma o poeta, no poema da p. 22: “Trabalha a palavra/ mesmo que não a digas, flua./ Este é, de todos, o mais árduo/ofício: o lírico gume do silêncio”. Ou ainda: […] “(escrevo, pois, com a pátria de joelhos como quem reza, à cata de moedas imaginárias)”, cf. 27.

Nesse último poema referido, há mais uma marca biográfica. O poema é intitulado “Cemitério dos afogados”, pp. 27-28, e leva a seguinte epígrafe: “Aos meus irmãos náufragos na ilha de Inhaca”. O poeta dedica esse poema aos seus conterrâneos. Recorre ainda a marcas que simbolizam Moçambique, pelo recurso à utilização da expressão “ventos de Setembro”, que lembram os ventos sul típicos dessa altura do ano. São os ventos que têm lugar entre Agosto e Setembro em Moçambique, os referidos nhinguitimo(s), no conto de nome idêntico, da autoria de Luís Bernardo Honwana.

Ao fazer referência a esses ventos, o poeta reclama a pouca atenção social na gestão da província de Maputo. O sujeito poético criado fala a partir da ilha, para alguém que está no continente, lugar com mais vantagens, embora seja um espaço com muitos problemas como a morte sem causa, enquanto que a ilha depende, no seu todo, de mantimentos vindos da parte continental: “fala-me desses ventos de que não sei senão breves rumores, dessa cidade onde a morte é um espelho, um espetáculo que cruza a remos e tu voando como uma bala, uma vela rasgada, um dissenso naufrágio”[…] TARUMA, 2018, pp. 27-28). Com o poema também presta homenagem a alguns naufragados na ilha. Na sua obra é recorrente o ceticismo do poeta quanto aos destinos do país, tal como se pode ver nas palavras do sujeito poético: […] “conta-me daí uma pequena mentira porque cá a verdade é de aquietados motins: um fardo de medo sobre as costas do mundo, sobre os livros, sobre as mesas gastas à fome, sobre a vida que escolheste nessa margem submersa da nuvem: o reduto das coisas líquidas” (TARUMA, 2018, p. 28).

Esse trecho remete-nos à ideia de precariedade da vida em Moçambique, algo que é recorrente em quase toda a obra Matéria para um Grito. Aliás, o poeta utiliza a poesia para denunciar a perda de valores morais e as matanças no país. Há muitos crimes não explicados. O poema intitulado “Vento imóvel (a um país)” é disso exemplo. Nele, o poeta faz referência a comentadores políticos que levaram tiros em Maputo, por defenderem a democracia e por apontarem os males na política do governo-dia. Além desses, o poeta faz menção a pessoas que foram mortas pela mesma causa.  O poema, epigrafado por uma frase de Leonard Cohen, remete à espera da chegada de um milagre:

 

[…] Eu quero que as pessoas se fodam! Ou melhor, eu quero que as pessoas se expludam. […] O que ouves nas canções de Leonard Cohen (waiting for the miracle to come)? Não ouves nada: zarolho de ouvidos e outras coisas! Não ouves a trombeta soar sob o signo da morte? Não ouves o grito dos prisioneiros sobre a muralha sitiada? Cardoso, Macuácua, Mcuane, Sistac, Salema…são apenas um nome sob a trágica emboscada do silêncio […]. (TARUMA, 2018, pp. 54-55)

 

O poeta denuncia ainda, nesta sua segunda obra, os males e desigualdades sociais, com recurso a um sujeito poético que se coloca em diferentes transportes públicos, anda pela cidade e diz o que vê. Os títulos dos poemas descrevem a marca e o tipo de transporte pelo qual o sujeito se desloca, bem como a rota que faz pela cidade de Maputo e arredores: “ADB-100 MP[faixa azul]/Rota: Anjo-Voador –Xipamanine (vamos ganhar tempo passageiros), p. 91; “APP-500 MC [Faixa Amarela]/ Rota: Praça dos Combatentes – Baixa ( Via  Compone)”, pp.93-94; “AEK-627 [Faixa Verde]/Rota: Zimpeto-Museu (se recalmar desce)”, pp.95-96; “O DITO DO COBRADOR DESDENTADO [Chapa desconhecido]/(Voz em off: amuyiveee, amuyivee, khomani amuyiveee!)”, p. 97, entre outros.

No primeiro poema são descritas as diferenças sociais e comparadas as vivências entre as senhoras com elevado estatuto social, as que usam vestidos de seda, afirma o poeta, versus as que vendem roupas no mercado informal. No segundo, é descrita a insensibilidade das pessoas abastadas, perante a pobreza urbana. O poeta chega a dizer que o seu modo de vida explica o amor que tem por estátuas. No terceiro, há uma crítica a valores morais. E no quarto há uma crítica à governação do país e à bajulação dos que nele acreditam.

São duas obras bem conseguidas as do autor apresentado e que mereceram uma boa classificação da crítica.

 

REFERÊNCIAS

TARUMA, Álvaro. Para uma cartografia da noite. Maputo: Literatas, 2016.

________________ . Matéria para um grito. Maputo: Cavalo do Mar, 2018.

WHITE, Eduardo (2011). A mecânica lunar e A escrita desassossegada. Maputo: Texto Editores, 2011.

 

 

* Sara A. Jona Laisse. Docente na Universidade Politécnica. Contacto [email protected]

[1] Há marcos socio-históricos na História da Literatura Moçambicana, que dão como adquirida a ideia da existência das seguintes gerações de escritores moçambicanos: a primeira, a dos combatentes da Luta de Libertação Nacional, os cultores da Poesia de Combate; a segunda, a dos “jovens da Charrua”, que começaram com as suas publicações nos anos 80, rompendo com a estética literária anterior, a da poesia panfletária; e uma nova vaga de escritores, a maioria dos quais começa a publicar nos anos 90, a chamada nova geração de escritores.

Do paraíso encantado da Eva ao passeio nocturno de Valgi pelos caminhos do Chamanculo…

O Valgi andava esquecido dos compromissos que deixara em Porto Amélia.  Pudera! O emprego temporário na loja do Bhai dava-lhe algum entretenimento e um salário que lhe permitia sobreviver nesta cidade selvagem. Claro que, uma vez e outra, recordava-se da esposa Mariana e dos filhos, com aquela saudade que o remetia a silêncios de meditação e de tristeza. Esses eram momentos raros e fugazes, porque aqui, como diria o Poeta “outros valores mais altos se alevantam”. E alguns destes centravam-se na pessoa da Eva, de quem cobrava benefícios, físicos e emocionais, mais daqueles do que destes. Ela era a companheira com quem partilhava dos tempos livres, mormente os fins-de-semana, ora em passeios pelos bairros do Alto-Maé, da Malhangalene e da Polana, ora a assistir a filmes de amor no cinema Tivoli.

A Eva vivia numa cabana de quarto e sala, parte dum vasto componde, situado a alguma distância da cantina do Guro. Ela gozava duma privacidade para a qual lutara com algum afinco. Umas amigas preguiçosas e oportunistas haviam tentado juntar-se a ela, para se evadirem dos pagamentos de rendas e da compra de rancho. Ela foi sempre firme nisso: “prefiro viver sozinha do que ter problemas com amigas”. Chegara a Lourenço Marques fazia três anos, vinda da Maxixe. Tal como outras emigrantes aventurara-se para a cidade para procurar um emprego que a lançasse para um outro futuro. Os dias passavam e nenhum dos sonhos mostrava sinais de poder materializar-se em tempos mais próximos. Conseguira uma colocação na Fábrica de Confecções Sabrina, na Avenida do Trabalho, a curta distância do terminal das carreiras dos Transportes do Sul do Save. Nesse recanto fazia primazia da sua liberdade, aí construía e descontruía projectos. Até aquele dia em que viu o Hussene Valgi. Durante aquela conversa bem animada sobre capulanas na loja do Bhai achara-o um rapaz bem humorado e respeitoso; enfim, o tipo de amigo que gostaria de ter tido desde que chegou à cidade. Daí que não conteve o convite instintivo para aquela cerimónia de pedido em casamento da prima Rossana. Hoje são mais do que amigos. São, isso são, unha-com-carne, o que a chaleira está para a sua tampa. Seria, talvez, alguma paixão exacerbada pela necessidade duma companhia? Ou esta que, por ser premente, os colocara lado a lado como cúmplices na trincheira dos que lutam por um sucesso em terra desconhecida e hostil? Fosse qual fosse o motivo, disfrutavam do prazer duma companhia mútua, tranquilamente partilhada.

Com o advento da Páscoa as multidões aprestavam-se para as festividades do Carnaval. Este era dos eventos cíclicos que marcavam a vida dos habitantes dos subúrbios, os quais traziam outro alento espiritual, renovavam as ilusões por uma vida cheia doutras grandezas.

Era Domingo e a noite fora duma frescura invulgar para aquele mês de Fevereiro. Valgi demorou-se a descolar do corpo da Eva. Adormeceram no embalo do relaxamento, num sono sem pesadelos, depois de festivos empolgamentos e efusões na cama.

Ia a caminho das vinte e duas horas quando o Valgi despertou. O “Heróis do Mar” fora emitido pela Hora Nativa, para assinalar o fim da transmissão, fazia algum tempo e nenhum deles o escutou.

“ Que horas são?”, perguntou, perturbado pela vertigem do despertar.

“ Vai para as dez horas”, disse a Eva, a consultar o despertador. “É melhor dormires aqui, porque já se fez tarde e é perigoso andares por estes caminhos que estão cheios de bandidos”.

“ Não posso, tenho que ir. Tenho muita coisa ainda para preparar para amanhã”, disse o Valgi já em pé, a vestir-se.

E meteu-se na penumbra dos becos do Guro. Internou-se pelas traseiras deste estabelecimento. A sua intenção era a de alcançar o largo caminho que liga o Vulcano ao bazar do Xipamanine. Mas eis senão quando, da dobra da esquina duma residência escutou uma voz autoritária.

“Pára onde estás senão disparamos”. Ergueu os olhos e viu, com assombro, muito acima dos seus olhos, as figuras de dois cavaleiros uniformizados de agentes da Polícia Montada. E não se moveu. O coração, tum-tum!…tum-tum!…, parecia que lhe saltava da boca.

O que se seguiu foi uma revista às roupas e um esmiuçado interrogatório sobre: ”…a tua identificação…donde vens a estas horas da noite?…para onde vais?…”; enfim, uma investigação que era o preâmbulo duma sessão de tortura, a mesma a que se submetem os prisioneiros. Porque de prisioneiro ele já se tratava. E assim foi tratado. Ataram-lhe as mãos com uma corda, com nós firmes e apertados. A outra ponta foi ajustada à sela de um dos cavalos. Puseram-no entre os dois animais, deram às esporas e reiniciaram aquela marcha de patrulhamento pelos bairros do Chamanculo, com passo vagaroso, interrompido aqui e acolá por uma breve paragem de auscultação de movimentos e ruídos estranhos que se escutassem na atmosfera da noite.

Assim, o Valgi foi companheiro dos agentes da Polícia Montada naquela longa expedição que cobriu toda a zona do Guro, do Mateus Serra ao Muvumbi, da cantina do Mário ao Zundap, do Grémio até à Maria Caldeira, do Mbongolwene ao Fajardo. Cruzaram-se com outras brigadas que patrulhavam o Tlhavane, o bairro Indígena, o Mendes; enfim, todo o Xitala Mati.

 

Dos festejos folclóricos em Matutuíne à fatalidade na baía do Espírito Santo…

“ O que Deus faz, o homem desfaz”, disse a Mariazinha numa tentativa de esfriar a hilariedade que provocara o esquecimento da “história da moça” a que se propusera a narrar.

“ Lembram-se do Xigubo xa Filipe? Dessa vez também trabalhámos aqui que nem umas escravas a bainhar capulanas, como foi da vez da história da santa Aurora”, recordou-se a mãe Dorothy. Viera-lhe à memória um outro evento, sucedido muitos meses antes do assassinato da Munhuana, que é como ficou conhecido o caso da irmã Aurora.

“ Quem pode esquecer aquilo? Aqui nesta terra acontece cada uma!…”, disse a Mariazinha entre dois suspiros.

Do auditório o Valgi era o único que desconhecia o episódio que, do mesmo modo que o da Munhuana, abalara as consciências e a tranquilidade dos habitantes dos subúrbios.

E eis aqui, pela boca da Mariazinha, para redimir-se da amnésia temporária, a narração das razões para a atribuição do nome Xigubo xa Filipe àquela capulana.

“ Como é uso e costume aqui nesta terra, o começo da época de canhu é marcado por festividades. O lugar central para essas celebrações é em marakwe , em Gwazamutine. Um dia vou contar a história de Gwazamutine. Só que nem toda a gente pode deslocar-se a Marracuene. Muitos preferem  cumprir os rituais em locais não muito distantes das suas comunidades. É o caso de Ka-Massaca, na Moamba; de Gwaxine, na Katembe, de Nkalanga, Salamanca e Porto Henrique. E muitos outros povoados espalhados por aí .

As celebrações de Gwaxine eram já tradicionais. Todos os anos tinham aí lugar rituais em que se prestavam homenagnes e tributos aos antepassados e se agradeciam as dádivas com eles agraciaram os vivos. Compareciam altas individualiades provenientes de regiões vizinhas, e até de alguns subúrbios de Lourenço Marques. Dentre os convidados destacava-se o grupo de xigubo de Filipe, assim chamado porque o seu capitão era um cidadão de nome Filipe que vivia no bairro Indígena. Ele era um ás naquela dança. Não havia ninguém que a executasse como o faziam os elementos daquele grupo. Era até convidado pelos chefes brancos da Administração do Concelho para se exibirem nas grandes festas da cidade ou quando chegasse à cidade algum membro importante do governo da Metrópole.

Depois das homenagens, encabeçadas pelo famoso curandeiro “Nengue Wa-Nsuna”, todos os agrupamentos exibiram as suas habilidades. Nem de longe, nem de perto aqueles poderiam chegar aos calcanhares do grupo do Filipe. Desta vez ele trouxera  na comitiva uma meia dúzia de crianças que dançaram que foi um regalo. Nesta modalidade ele era um campeão indiscutível. Uma vez mais, ganhou aquela competição de danças tradicionais com todo o merecimento e justiça.

Mas, há sempre um mas, alguém não digeriu bem a vitória do Filipe. Havia uns surdos murmúrios do caudilho do grupo de Gwaxene que, embora se excedesse em novos números, estava muito aquém dos níveis dos dançarinos do Filipe. Porque nestas coisas é como em tudo: quanto mais te destacares, mais convites vais receber das autoridades. E isso equivale a viagens e a dinheiro. O sucesso duns é dor dos outros. Sempre assim foi, e assim sempre será.

No fim daquela tarde as multidões começaram a dispersar. Só os que tinham bebido demasiado permaneceram espalhados no chão a dormir. Outros desapareceram nas matas à volta para, sabe Deus para quê!… Aqui, só para fazer uma pausa: vocês sabem a quantidade de escândalos que acontecem durante estes encontros para consumo de canhu? Pois fiquem a saber para terem mais cuidado. O canhu, está provado, estimula o corpo para o sexo. Dizem os assimilados que conhecem bem a Língua Portuguesa que é afro…afro… afro quê mesmo? Afridisíaco! Ah, é isso mesmo.

“ Hê-hê, tia Mariazinha! É bom saber isso e é pena que se produza canhu só uma vez por ano…e por pouco tempo!”, galhofou o Valgi. “Dessa eu não sabia”.

“Pois então ficas a saber. Nessas sessões escândalos nunca faltam. Conforme se diz e já se provou, o sumo de canhu tem o efeito de estimular a vontade para ter sexo. Alguns homens e mulheres quando já estão embriagados não querem outra coisa; metem-se aí pelos matos para continuar “a festa”. Diz-se até que estes actos são já parte das celebrações, são tolerados e esquecidos por todos.”

“Eu não vou nessa tradição, não posso aceitar isso da minha mulher, ela a deitar-se com outros homens e depois dizer: desculpa-me lá Hussene, foi por causa do canhu. Isso esquece, tia Mariazinha!”, o Valgi agita-se desconfortado, a pensar no que andará a esposa a fazer em Kariacó na sua ausência já prolongada.

“ Olha lá Mariazinha, contas a história do Filipe ou não?”, a mãe Dorothy a avivar a memória da colega, muito conhecida pela frequência nos lapsos da mesma.

“ Ah, sim. Então depois das celebrações os participantes começaram a dispersar. Cada família tomou o seu caminho. Os que viviam longe embarcaram nas camionetas e seguiram para os seus destinos. Todos iam a cantar, a comentar  sobre o sucesso do evento. O Filipe e a sua comitiva foram levados ao ancoradouro que era o terminal dos barcos que fazem as viagens Lourenço Marques-Katembe e vice-versa. Mas eis que, às tantas, o céu começa encher-se de nuvens. Nada fazia prever que fosse chover. O dia fora tão claro e quente que ninguém poderia imaginar que fosse terminar daquela maneira. Já se ouvia o som de trovoada que vinha lá dos lados de Changalane e aproximava-se da baía, talvez a caminho da cidade. E começou a chover a sério. Os céus encheram-se de relâmpagos, o mar embraveceu. A comitiva do Filipe embarcou nos catembeiros, ansiosa por chegar  à cidade o mais rápidamente possível. As ondas do mar cresceram de altura e chocavam com muito ruído umas contra as outras. Parecia que no fundo tinha xitukulu-mukumba. Os barquinhos em que aqueles viajavam pareciam de papel. Eram jogados para esquerda e para a direita, sem tomar direcção certa. As pessoas que estavam em terra no ancoradouro nada podiam fazer; limitavam-se a erguer as mãos sobre as cabeças, para manifestar receio por aquilo que poderia acontecer. E aconteceu o imprevisto daquela catástrofe. Uma onda gigante caiu sobre o barco que transportava o Filipe, a esposa e os seis acompanhantes, e submergiu-os nas águas da baía sem nenhuma possibilidade de salvação”.

“ E os outros barcos?”, perguntou o Valgi.

“ Embora com muita dificuldade os outros barquinhos chegaram a salvo à outra margem . Os que neles viajavam salvaram-se todos”.

“ Isso cheira-me a feitiço! Como é que o mau tempo foi logo escolher o Filipe e os principais dançarinos? Ná, alguma coisa houve!”, céptico, o Valgi via doutro ângulo a causa ou as causas da tragédia.

“ Claro, especulações sobres os motivos do acidente, ou quem o causou, correram em todo o subúrbio e mesmo aí fora nas localidades. Apontava-se o dedo ao chefe do grupo do Gwaxene, que rivalizava com o do Filipe.

“A inveja faz destas”, pronunciou-se uma jovem cliente que se juntara aos costureiros, a aguardar pela conclusão do embainhamento dumas capulanas de farda para o pedido de casamento duma prima chamada Rossana, a ter lugar no sábado  seguinte. E falava com conhecimento de causa. Durante os preparativos para aquela cerimónia tivera sérias confrontações com uma amiga, ou dita amiga, uma presunçosa, mentirosa e traiçoeira que, abespinhada por não ter sido escolhida para capitanear as cerimónias, andava a beliscar-lhe a reputação. Problemas de rivalidades que envolviam pretendentes e namorados. Viu naquela uma excelente oportunidade para demonstrar à rival que também tinha os seus recursos, e rapazes era o que menos lhe faltava, ora que essa!. Foi quase que por instinto que disse:

“ Senhor Valgi, se quiser participar no pedido da minha prima pode sentir-se convidado. É da maneira que fica a saber como se fazem as cerimónias de pedido de casamento cá entre nós”.

Valgi ergueu os olhos de surpresa e relanceou-os pelos das colegas. A Mariazinha encorajou  com um assentimento de cabeça. É como se dissesse: “aceita”.

Valgi suspirou. Deitou a vista à Mariazinha, de quem julgara adivinhar um aparente interesse em criar e aprofundar alguma amizade. Na sua apreciação masculina, ela era detentora duma figura que no geral poder-se-ia considerar atractiva, provida de sólidos “argumentos” físicos; “…embora muito distraída e já quarentona, não é pêra para se deitar fora!”, segredara aos seus botões naquela primeira avaliação, feita durante os primeiros contactos ali na loja.

“ Podes contar comigo. Estou cheio de curiosidade em saber como essas coisas se passam por cá”, deste modo Valgi anuiu ao convite da cliente.

O nome dela era Eva, ninfa de poisos inseguros, porém cheia de encantos e seduções.

 

Da beatificação da menina Aurora e dos eventos precedentes…

O filho do falecido vovô Madala chamava-se Hussene Valgi. Andava desesperado porque estava num beco sem saída com a quantidade e a gravidade dos problemas que viera encontrar em Lourenço Marques, e dos que deixara atrás. Primeiro foi a grande surpresa pelas circunstâncias da morte do pai. Este acabara como um animal de rua, enterrado numa cova, misturado o seu cadáver com o duma rapariga que, estava visto, o seduzira e levara-o a praticar aquela imoralidade. E como poderia dar-lhe um enterro decente, conforme recomendavam as normas da religião muçulmana que era a dele, se as ossadas de ambos estavam misturadas naquele caixão? Se regressasse a Porto Amélia quem iria cuidar da campa no Cemitério de Lhanguene? Seria uma cruelidade deixá-lo ao abandono, a apodrecer esquecido e desprezado por todos nesta terra estranha. Contudo, se se deixa estar por aqui como iria resolver as pendências que deixara lá na terra, onde os tios estavam prontos a abocanhar as propriedades cheias coqueiros e os barcos que a família possuía?  Tinha, e este era de todos o problema mais grave, o seu lar no bairro de Paquitequete onde a esposa, a dona Mariana, e os dois filhos menores viviam. Abandoná-los era a última coisa que iria fazer.

Consultou o senhor Bhai e deste recolheu conselhos dum homem adulto, ponderado e que também vivera os seus dramas.

“ Olha, Hussene, aguenta aqui por algum tempo para a tua cabeça refrescar. Depois vais tomar a decisão que achares acertada. Correr não é chegar. Se quiseres podes ficar lá atrás na despensa da loja e ajudar as costureiras ali na varanda a bainhar roupas. Assim vais aprender a fazer alguma coisa até arranjares um melhor emprego”, disse o Bhai ao jovem Valgi. Aquela era uma oferta a que não poderia voltar as costas. O espírito do pai estava a protegê-lo. Para quê recusar esta prenda generosa, feita com tanta espontaneidade?

Assim, sentou-se ao lado das modistas a embainhar saias, a colocar “estampas” nas calças rotas de operários, a coser rendas nas capulanas mukume ni vemba. Com elas tagarelava e contava coisas lá do norte distante. Delas aprendeu as primeiras palavras do dialecto ronga. Claro que primeiro ensinaram-lhe obscenidades e pediam para ele as repetir em voz alta. E riam-se a bandeiras despregadas, todas contorcidas de gargalhadas com a inocência dele. Em cortesia e alto sentido de humor saíra ao pai; tal e qual!

Ao fim de três meses depois da sua chegada achou que poderia assentar na cidade, alugar uma casa e mandar vir a família para se lhe juntar. Seria o começo duma nova vida. Aceitou o desafio e deitou as mãos à obra.

A aproximação da quadra festiva trouxera outra animação em todos os bairros da cidade. Nos terminais, desde os “Transportes Oliveira” aos “Transportes do Sul do Save do Sá, do “Teresa Lino & Filhos” ao “Manuel Antunes”, passageiros era o que menos faltava. Os autocarros circulavam para os seus destinos com as lotações esgotadas. Era gente que se dirigia ao campo, aos seus  lugares de origem, ou eram os que daí provinham para visitar os parentes residentes na cidade.

Multidões acotovelavam-se nos formigueiros das lojas do Xipamanine. Fregueses entravam e saíam das mesmas desde o amanhecer ao anoitecer. Regressavam às ruas ajoujados de sacos e cestos de compras.  Era necessáro levar alguma recordação para os que não puderam deslocar-se à cidade, para exibir prendas e roupas domingueiras  para os dias das festas. Sem falar nas extravagâncias consentidas pelo décimo-terceiro vencimento.

Foi desta época em que nas lojas do Bhai e da Dona Cacilda, baluartes de vendas de capulanas na Rua do Zixaxa, as mulheres se empurravam para adquirir os últimos lançamentos no mercado daquela especialidade. E uma daquelas era uma denominada Aurora.

“ Estou aqui convosco já faz um tempo, mas nunca vi uma capulana a ser procurada desta maneira”, disse o Valgi às colegas, que mal conseguiam um minuto de folga no embainhamento de roupas.

“ O quê?, Nem parece que vives nesta terra!”, disse a mãe Dorothy, uma das mais antigas costureiras da loja. “Então não sabes da história da irmã Aurora?”.

Valgi confessou a sua ignorância sobre a tal história que culminava com o aumento do negócio de capulanas ali na zona, ou qual seria a relação entre os dois eventos.

“ Então escuta, porque só assim é que ficas a saber”, disse a Dorothy.

“ Conheces o posto de Saúde da Munhuana? Fica ali na avenida Caldas Xavier, perto da Igreja com o mesmo nome. A Aurora era uma moça que veio não se sabe donde e foi internada no Convento da Missão da Santa Ana da Munhuana para fazer o curso de freira. Como se faz com todas as reparigas que ali ingressam, ensinam-lhes profissões comoa a da enfermagem ou do magistério. A Aaurora foi destacada para trabalhar no posto de saúde, ao lado doutras enfermeiras já formadas e experientes.

Era ela que dava vacinas aos bebés, purgantes às crianças mais velhas e tratava as nossas feridas. Era admirável ver a atenção e o carinho com que essa rapariga lidava  cos pacientes. Tinha sempre na boca uma palavra de encorajamento, um sorriso que nos aliviava dos nossos sofrimentos: uma santa! Havia até quem dizia que ela era uma  enviada de Deus  para nos mostrar o caminho da humildade, paciência e de generosidade para com os nossos semelhantes. Posso dizer que não há em nenhum bairro aqui da cidade que não conheça ou tenha sido paciente da irmã Aurora.

“ Hoje em dia há pouca gente assim. Só malandragem! Pergunta a mim que te vou contar muitas histórias dos meus tios lá em Porto Amélia”, interrompeu o Valgi, a recordar-se  das atribulações causas pelos parentes lá na terra natal.

“Pois então, e como todas as pessoas cheias de bondade não duram muito tempo, aconteceu o que foi aquele escândalo que foi a morte dela”.

“Alguma doença ou quê?”

“ Se fosse doença era ainda o menos. Ela foi assassinada”.

“ Como e porquê?”, admirou-se o Valgi, com a testa enrugada. Como podia isso suceder a alguém que dedicara a sua juventude a cuidar do próximo, e merecer o fim que a colega referia?

“ Numa noite dessas, a irmã Aurora vinha do Instituto Víctor Ribeiro onde frequentava um curso de dactilografia. Até nem era muito longe do Lar onde vivia com outras noviças. Nessa noite resolveu fazer um corta-mato pela “Padaria Saipal”, ao lado do cemitério de São Francisco Xavier. Nem se sabe a que horas aquilo aconteceu, mas o que se diz é que foi surpreendida por um grupo de malaítha  que a carregou e puxou para aquelas matas que se encontram atrás do cemitério. Aí os bandidos fizeram e desfizeram dela. Violaram e mataram-na, coitada!”

“ Por Allah, que brutalidade!”, Valgi não se conteve  de exclamar.

“ Isso não foi nada. A irmã Aurora andou desaparecida durante três dias. No convento não tinham a mínima ideia donde ela teria ido depois das aulas. Algumas pessoas afirmaram tê-la visto nas proximidades da Saipal, mas depois disso perderam-lhe o rasto. Outros juravam categoricamente que “ah!, essas raparigas são sempre  assim: com o sofrimento lá no Lar resolveu fugir e neste momento já anda muito longe daqui. E dá para jurar que fugiu com um homem…”, enfim, maledicências  de gente má porque a Aurora era incapaz disso. Via-se e toda a gente sabia que a moça era bem comportada, senão não teria ficado tanto tempo com as irmãzinhas”.

“ Aí já estás meter água, ó Dorothy”, cortou a tia Mariazinha, outra das costureiras, uma linguaruda que só Deus é que sabe onde é que maledicência dela irá chegar. “Repara que a Aurora era uma rapariga como as outras. Já foste menina e sabes o que passámos quando tínhamos a idade dela. Dezanove anos de idade não é brincadeira nenhuma para uma moça. Também tens filhas, tens que compreeder isso. Acho que às tantas ela sentiu as mesmas necessidades que qualquer uma de nós aqui. Isso dos sacrifícios de que falam os padres e as freiras é masé papaia podre. Quando o corpo pede a mente cede e, vai daí, é só veres as miúdas grávidas. Não é qualquer mulher que aguenta aquilo”.

“ Não questiono isso, estou a falar duma pessoa que todas conhecemos e respeitamos pelo exemplo que sempre deu, a nós e às nossas filhas”, redarguiu a Dorothy.

“ Vou-vos contar o caso duma moça que…”, ia contrapor a Mariazinha para dar mais ênfase ao seu argumento. Assim, à margem, devo declarar que as costureiras do Bhai costumavam, como é uso e costume nas conversas entre senhoras, falar ao mesmo tempo e entenderem-se; ao contrário dos homens em que numa conversa cada um fala por sua vez mas não se entendem.

Hei, espera aí comadre, deixa lá aqui a mãe Dorothy acabar a história da Aurora”, cortou  o Valgi, a tentar arbitrar a discussão, por desconhecimento daquela regra.

“ Como vinha dizendo, o desaparecimento da Aurora pôs metade da cidade em alvoroço. Já ninguém sabia o que fazer ou onde procurar. A notícia foi anunciada na Hora Nativa, até veio no jornal e pedia-se a quem soubesse do paradeiro dela para informar a Polícia ou lá na Missão. Tudo em vão!”.

“ Se calhar mataram e enterraram”, aventou o Valgi.

“ Isso seria o menos. Aqueles bandidos, não satisfeitos com o que fizeram, rasgaram-lhe a barriga e o peito e tiraram de lá o fígado e o coração. Dá para imaginar?”.

“ Ná, não dá, nem para imaginar, nem para acreditar!”.

“ Pois acredita porque é verdade. Foi assim mesmo. Extrairam-lhe esses órgãos como usualmente fazem esses malaithas, esses magaizas vindos da África do Sul. Levaram essas partes com eles a fim de fazerem remédios. Mas uma morte não se esconde. Às tantas começou-se a sentir um cheiro esquisito e nauseabundo  vindo dali das moitas, das traseiras do cemitério de São Francico Xavier, que era onde a tinham violado e assassinado. Também havia um grande movimento de cães que iam lá devorar os restos do cadáver dela”.

“ Morrer e acabar comida por cães, é mesmo demais! Ela não merecia isso, depois do tanto que fez pelas comunidades. Não há direito!”, Valgi de novo, a condenar e a lamentar um fim tão trágico quanto injusto. “É o que eu sempre disse: os bons morrem cedo, os maus duram quase uma eternidade, Deus me perdoe!”.

“Quando os padres e as populações souberam do escândalo o choro foi geral, todo o subúrbio ficou de luto. Ninguém falava doutra coisa, nem ninguém acreditava quanta malvadez poderia haver no espírito dalgumas pessoas. A Aurora tivera a bênção de Deus, fora escolhida para vir viver no nosso meio e dar-nos as lições que o Evangelho ensina. E morreu cricuficada por praticar o Bem. Ela é a única santa que aqui existiu e viverá para sempre nos nossos corações”, disse a mãe Dorothy. ”Se os padres a propuseram para ser santificada, para nós os pobres ela é já uma santa. Demos o nome de Aurora a esta capulana bonita que estamos aqui a bainhar. É a nossa homenagem àquela que acima de todos se manifestou como profeta que veio para nos iluminar com exemplos de simplicidade, de generosidade e de amor ao próximo.

“ Que história!”, exclamou Valgi com um suspiro. “Mãe Mariazinha, conta lá então a estória da tal moça”.

“ Qual moça?”, admirou-se a Mariazinha a erguer a cabeça.

A resposta foi um coro de gargalhadas.

“ Só a Mariazinha!…”, disse o Valgi a menear a cabeça, divertido com a falta de memória da colega.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

Audiência com o Rei

Quando os tamancos se comunicaram com o chão da terminal rodoviária da “junta” na periferia da cidade de Maputo, produziram um estrépito chamativo. O jovem que os calçava não se importou com os olhares folgazes de que era alvo.

Foi um dos últimos a desembarcar do autocarro interprovincial proveniente de Chókwè na província de Gaza.

Os seus admiradores miravam-no curiosos e deixavam escapar uma risada, o recém-chegado percebeu que criava impacto no seio das pessoas próximas.

– Onde apanho um chapa para a baixa? – questionou para um dos utentes da terminal rodoviária

Caminhou sereno segurando uma mala velha e pesada, usava um chapéu de palha com abas pequenas, a jaqueta de couro castanho desgastada e ligeiramente pesada descaía no ombro direito, exactamente do lado da mão que segurava a mala. A camisa de capulana com as cores amarelo e vermelho era suplantado pelo casaco, as calças eram de caqui verde-escuro.

Não demorou para embarcar no chapa, os passageiros abriram alas para deixa-lo passar admirando suas vestes, uma moça vagou o lugar e o ofereceu.

– Obrigado! – proferiu com um sorriso alegre no rosto.

O chapa marchava velozmente ultrapassando os outros carros, este malabarismo perigoso agradava a Carlos Wena que vinha pela primeira vez a cidade de Maputo com a mente repleta de sonhos que pretendia realizar. Vinha animado depois de receber o convite do seu primo que triunfara na grande metrópole.

O desembarque na baixa da cidade deixou-o atónito, olhava para cada canto da cidade intimidado pelos monstros de cimento que se erguiam por todo lado, os carros que circulavam velozmente dum lado para outro deixavam-no desorientado. Ficou parado por um tempo, estudando o ambiente que morava ao seu redor, temia dar um passo em falso que podia comprometer a sua chegada a grande cidade.

Posicionou a sua mala no chão, sentou sobre ela e procurou organizar as ideias, já passavam das 15h00.

Uma turba de petizes em gozo de férias escolares deu com o alegórico personagem de Carlos, pararam e olharam-no maravilhados, riam e trocavam conversa.

Já descansado pegou na sua maleta e iniciou a caminhada seguida de perto pelos meninos que multiplicaram as suas risadas agora que o viam em movimento.

A sua derradeira jornada seria até a casa do primo no bairro suburbano da polana caniço nos arredores da cidade.

Os meninos depois de consumirem momentos de alegria gratuita partiram para outras brincadeiras.

A vitrina com letras garrafais do nome do estabelecimento avivaram sua mente e recuperou uma imagem que guardava num canto especial da sua mente.

O jovem forasteiro entrou para o estabelecimento comercial, abeirou-se do balcão, descansou a sua mala no chão.

– Sim, se faz favor? Investiu o balconista.

Ainda distraído, o recém-chegado apreciou o ambiente que por ali morava durante um tempo e cabisbaixo falou para o balconista.

– Quero falar com o rei – disse convicto.

O balconista vigiou demoradamente o estranho cliente, e ainda perplexo perguntou:

– Como disse?

– Quero falar com o rei – repetiu o forasteiro seguro do que buscava.

Pela indumentária e o gesto meio aparvalhado, o atendedor ajuizou que o homenzinho devia estar desprovido de sanidade mental. Então decidiu embarcar na brincadeira.

– Meu senhor, somos um estado semipresidencialista, isto para dizer que temos um presidente que por coincidência foi reeleito a bem pouco tempo. – gabou-se o balconista dos seus dotes políticos.

– Mas eu quero falar com o rei! – insistiu sereno, o estranho cliente.

– Meu jovem, nós, a República de Moçambique não é uma monarquia. – frisou o balconista cada vez mais convicto dos seus saberes.

– Meu senhor, saiu na televisão a dizer que o rei chegou, até falam em inglês “the king is here” – assegurou Carlos sereno de que a sua explicação poderia elucidar o balconista.

Já meio irritado com a insistência parva do cliente, o atendedor procurou ignorar a investida do recém-chegado e deu atenção a um outro cliente.

Um curioso que destrinçava o diálogo entre o balconista e o pomposo cliente, processou a pretensão de Carlos, levantou-se e o abordou.

Depois de uma breve intersecção verbal, o curioso pousou teatralmente uma garrafa no balcão, Carlos abriu os olhos e largou um sorriso rasgado, segurou a garrafa que o ofereciam e agradeceu imensamente aquele anjo que soubera interpretar as suas aspirações.

– Eu sabia que o rei estava aqui! Afirmou felicíssimo – Muito obrigado mano.

E então bebeu, bebeu prazerosamente a cerveja.

 

A propósito das cores da literatura: se temos armas, travemos batalhas que sejam nossas!

Basta olhar para o nosso passado literário (escrito) para perceber que a literatura moçambicana teve sempre uma participação nos problemas do seu tempo e meio. Com esse mesmo gesto, é possível denotar que as influências de outros povos, com os quais o português transmite uma ideia (bem ou mal concebida) de irmandade, esteve sempre assente no nosso panorama literário. Sobre isso vários escritores já se expressaram e se houvesse tribunal para esses casos, alguns, pela humildade e sinceridade, admitiriam ter sido “copistas” da caligrafia de escritores brasileiros, por exemplo, na redação dos seus textos. Aliás, há até espaço para suspeitar que muitos deles, sobretudo os da geração Charrua, importaram um batalha que já havia sido iniciada e bem travada no panorama literário brasileiro através da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Por estarmos numa altura em que se lê a parte e se subentende o conteúdo do todo a partir dessa parte, permitam-me destacar: vejo esse fenômeno histórico da nossa literatura com bons olhos. Melhor, foi “maningue nice” que assim tenha ocorrido. O que na verdade ocorreu foi inspirarmo-nos na forma como uma batalha que era também nossa foi conduzida. E o fizemos com mestria.

Esta introdução algo interpeladora de um momento específico da literatura moçambicana vem-me a mente por estar a denotar que há uma tendência, ainda em miniatura, de importar uma batalha bastante ferrenha no contexto literário brasileiro (pelo menos ao que me parece) que é atinente a perscrutação dos níveis de melanina de quem escreve para depois partir-se para a adjectivação: poeta/escritor negro ou branco.

Naquele contexto e pelo que me parece, essa batalha de (re)afirmação negritudinista faz todo sentido sobretudo pela antítese que se está a criar. Ora, ainda que os níveis de empatia para com a causa defendida por um bom número de escritores daquelas latitudes estejam altos, creio que nos seja inapropriado, neste tempo e meio, aglutinarmos aquela causa às nossas, se é que existem, ou mais, se delas (as causas) __ enquanto escritores __ precisamos. Mas essa é outra conversa.

Ainda que se diga que ao autor cabe a expressão e que depois do ponto as lides são da estética da recepção, valerá recordar que o autor é também leitor dos mundos e mundividências do seu tempo e meio. Ao que, uma veleidade quase ferrenha de perscrutar ou aguçar os níveis de melanina na escrita soará a qualquer coisa extemporânea sobretudo aos olhos de quem não fizer este paralelismo com outras realidades, considerando apenas o facto de já termos vivido um momento em que tal se mostrou necessário, actual e actuante. Portanto, se temos armas, travemos batalhas que sejam do nosso tempo e meio.

Cultura Moçambicana: Relação entre cultura e desenvolvimento económico

A palavra cultura têm origem do termo em latim colere, que significa cuidar, cultivar e crescer. Cultura é também compreendida como englobando e aludindo aos comportamentos, tradições e conhecimentos de um determinado grupo social, incluindo a língua, as comidas típicas, as religiões, música local e/ou artes.

Enquanto escrevia este artigo, por coincidência um amigo postou no FaceBook a imagem da nossa primeira bandeira nacional, da então República Popular de Moçambique. Enquanto comentavamos o facto dos jovens não (re)conhecerem a bandeira, um jovem  de nome Deoclécio Ricardo David fez um comentário interessantíssimo, que passo a citar na integra:

“Ilustre Leonardo, apesar de não ser determinante para percebermos o fundo da questão, gostava de dizer que muito pouco se faz para a transmissão da nossa história aos mais jovens. Decerto, você e o Samuel são de uma geração anterior a minha, mas é inegável que há um enorme problema de auto-estima pela nossa história. E isso é criado por se passar a ideia de que a história apenas foi feita por alguns e só é lembrada para homenagear a alguns. É preciso que um jovem da minha geração tenha uma consciência elevadíssima para ter sentido de pertença, pois ninguém se preocupa em espevitar tal auto-estima. Eu sempre me perguntei: a comemoração das nossas efemérides não é inclusiva. Exemplificando, é um luxo entrar numa praça de heróis. É luxo ter determinados livros relativos à nossa história. Muitos deles relatam o que aconteceu, mas não os fundamentos por trás do que aconteceu. E aí por diante. Isto tudo para dizer que não me surpreende o desconhecimento.”

 

Wow     !!!!!

A bandeira é um dos elementos representativos da soberania e da independência de uma nação.  Embora seja uma bandeira antiga (em bom rigor, nem chega a ser tão antiga assim, pois a nossa própria nação é relativamente jovem). Como explicar que os jovens não a (re) conheçam?  

Quando fiz a minha primeira visita à  Bélgica, fiz uma visita ao palco da Batalha de Waterloo. Claro, estava bastante entusiasmado por poder visitar o local que teria acolhido tal batalha, que por sinal não me diz respeito, mas que no entanto estudei no meu próprio país, sendo de realçar que, para tal visita turística tive que pagar pelo bilhete de acesso. E sabem uma boa? Nunca visitei nenhum local no qual tenha decorrido algum momento histórico e/ou marcante de batalha no meu próprio país. Vergonhoso, não?

 

                   Consequências da cultura estrangeira na nossa economia

Um grande número de países estrangeiros (principalmente as grandes nações ocidentais) têm a tendência a promover ou mesmo impor sua cultura aos outros países (principalmente os ainda em vias de desenvolvimento), penso eu que uma parte do interesse seja essencialmente econômico. Ora vejamos, o desenvolvimento de um país depende dos bens e serviços que produz e vende, no entanto esses bens e serviços só podem ser produzidos e vendidos se houver consumidores. Para vender um produto precisamos promover, claro. As empresas brasileiras, por exemplo, produzem e vendem novelas que consumimos de maneira exagerada (deveras exagerada, penso eu). Mas o que não nos apercebemos é que nas novelas os brasileiros fazem promoção de suas praias, produtos de beleza, música, gastronomia e outros. Assim também fazem os ocidentais  quando promovem seus vinhos, cidades, futebol, culinária. Consequência disso é que quando pensamos numa praia para visitar, tem de ser Copacabana e não Murrebwe, quando pensamos em uma cidade de sonhos, a nossa imaginação viaja a Paris e não a Matola ou Chimoio, um produto para pele, claro, aquele que vimos na novela e não o nosso Mussiro*, roupa tem de ser aquela marca que o artista estrangeiro usa e não a da Tereza Chiziane, mentor tem de ser Bill Gates ou Jack Ma e não o Dr. Lourenço de Rosário ou Daniel David.

É  daí que poucas empresas que promovam marcas locais notórias são criadas em Moçambique e por moçambicanos, pois, se o que nos agrada ou o que estamos habituados é produzido no estrangeiro, porque então pensar em produzir localmente? Porque “perder tempo e energia” a criar empresas e marcas em Moçambique?

Evidentemente que não precisamos, vamos apenas esperar que eles produzam e nos tragam.

É preciso perceber que como seres humanos que somos, tudo que fazemos em repetição torna-se hábito e todo hábito tarde ou cedo torna-se cultura.  Sim, estamos aos poucos a perder nossa identidade cultural e a adoptar outras influências exógenas à nossa realidade.

Como fazer com que Moçambique use sua cultura para o seu desenvolvimento econômico

A Cultura nos ensina a perceber e valorizar as diversas formas de ser, estar, de fazer, pensar, expressar, comer, beber, diria mesmo de andar e sorrir e viver de uma forma que nos é particular. O desenvolvimento é um projeto de transformação que visa evoluir. Daí que cada sociedade deve desenhar seu próprio projecto de desenvolvimento a partir de seus sonhos, necessidades, meios e respeitando a sua própria identidade.

 Tudo passa por um processo de (re)educação que deve almejar  cultivar nos moçambicanos a ideia de que o “made in mozambique é o melhor. Durante muitos anos, e penso que tenha começado no período colonial, nos foi ensinado que tudo que vem de fora é de melhor qualidade. Acredito que chegamos em um  momento da nossa história em que devemos promover a formação intelectual dos moçambicanos desde os primeiros anos de vida. Esta formação identitária deve incidir sobre a nossa cultura, pois creio ser fundamental para o desenvolvimento das nossas capacidades cognitivas.

Se quisermos que os nossos filhos digam o“made in mozambique” é o melhor, então eles têm de ter orgulho de serem moçambicanos. Ter orgulho é algo que aprende-se, não ocorre por mero acaso. Aprende-se quando estudamos sobre os nossos heróis; sobre como e quem desenhou a nossa bandeira; quando no programa escolar estão incluídas visitas aos museus de história nacional; quando passeamos nas nossas cidades e vemos prédios desenhados por           arquitectos moçambicanos;      quando aprendemos sobre a origem e os fundadores do pandza*; quando aprendemos quem foi Fanny Mpfumo; quando crianças aprendemos o que é munhance*.

A título de exemplo: se quando crianças ensinarmos aos nossos filhos o que é munhance*, ao chegarem a fase adulta      não só vão ganhar interesse em consumir mas também em produzir este produto. Imaginem quantos empregos e milhões de dólares fariam os produtores de munhance apenas em Moçambique? E quanto poupariamos em milhões de dólares na importação de azeite de oliva português?

Para criarmos precisamos de ter uma visão global de quem somos, e o nosso passado é o nosso melhor espelho. É com conhecimento do nosso passado que nossa racionalidade é realmente vivida e percebida. Eis a razão e a urgência de divulgarmos a nossa cultura como oportunidade para a criação de emprego e para que um dia os nossos filhos possam dizer  de boca cheia: “temos orgulho de sermos moçambicanos”;“somos desenvolvidos” ou “made in mozambique     é o melhor. EU ACREDITO.

 

*Munhance – óleo feito na base de mafura (origem shope – sul de moçambique).

*Mussiro – planta medicinal (moçambicana) usada para combater as manchas da pele.

*Pandza – estilo musical moçambicano resultante da fusão de ritmos tradicionais do sul do país      e de ritmos de música moderna urbana.

 

Recomendação de livro para o mês de Março 2021: Construí o meu futuro – Bruno Pinto

Samuel Gerson Andrisse é especialista em recrutamento e autor do livro “Be ready for your next job interview”

 

NKOBEMANÍACOS

Não se sabe ao certo de que avaria humana foi-se desenterrar a desmedida tolice, a coragem para a tão ridícula ridicularização de um bairro tão normal como qualquer outro. Com tanto com que o povo tem para se ocupar, perde-se tempo cavando diferenças que, ao fim do dia, são feridas do mesmo corpo. Nkobe não fica nesse lugar distante que, aparentemente, não cabe no mapa de Moçambique. Nkobe roça o nariz de todos, o coração de todos. Navega no sangue do drama diário de qualquer moçambicano de gema.

Não é preciso tirar os sapatos, dobrar as calças e sair de qualquer que seja a cidade para contemplar o caos. Dêem a volta aos prédios dos centros urbanos e, antes que lhes pareça tudo lindo, por conta das bacias parabólicas penduradas aqui e ali, por causa da pintura e das grades envernizadas de uma ou de outra flat, por força de aparelhos de ar condicionado montados numa ou noutra parede, mergulhem de cabeça erguida pela escuridão das escadas, pela obsolência dos elevadores e pela barracalização dos terraços. Isso é apenas prelúdio.

Vamos, agora, para a área de serviços, aquele submundo em que se lava a roupa e para onde se despejam vertiginosamente as águas de qualquer andar. E porque em alguns prédios inoperante está o sistema de canalização, os moleques descem com bidões cá para baixo, onde se luta pelo precioso líquido. Quando empregados não houver, descem as filhas e os filhos da senhora, resmungando de orelha a orelha, com medo de entortar a coluna ou de partir as unhas. Nesse espaço comum, já há muito que rebentou o sistema de esgotos que o colono deixou: o lixo faz a festa aos olhos do luxo. Arregaço as mangas do coração e despejo com a bacia do teclado esta outra realidade: aqui não pára o bate-boca. Ora porque uns pilam matapa no quinto andar, ora porque outros tocam música alta no sétimo… Ora porque uns fazem fumaça no terceiro andar, ora porque um maluco, como se acusam, mal estacionou a viatura no rés-do-chão. Que confusão!

O mais palhaço desse circo todo é o nkobemaníaco que sequer tecto próprio tem para morar. E fica a rir-se de quem ousou adquirir um espaço, longe da saia da mãe, e construiu o seu sonho, não importam os detalhes da obra nem da comunidade. Antes vale mergulhar nas águas indo para a casa própria a continuar um eterno bebé de mãe, com mulher ou filhos na casa alheia. É mais honrosa a pobreza material própria que um emprestado luxo em nome da civilização. Ou, por acaso, tem a cidade metros quadrados parar albergar a todos?

No país real, o drama social é o refrão que ecoa de lés a lés e faz a gente perder as cordas vocais. Nossa voz muda esbarra nas paredes do extremo vermelho e da magna escolinha da 24 de Julho, sem direito de, sequer, tocar na sombra dos móveis. Inútil é tentar estereotipar os lugares e as pessoas, que nada mais são do que vítimas das políticas do Estado, ou da ausência destas, que dizem respeito aos serviços básicos. Somos, no fundo, pontas da mesma cobra, sem veneno; asas da mesma águia, sem bico; barbatanas da mesma sardinha, caçadas por impiedosos tubarões do mar da vida.

Em suma, não há zona de marandzas, bairro de molwenes, área de bandidos, reduto de feiticeiros, banda dos atrasados. Há um Moçambique real que clama por melhores condições: de saneamento do meio, de vias de acesso, de transporte, de abastecimento de água, luz eléctrica, etc. Ao apontarmos o dedo para Nkobe, há quatro dedos que se viram contra nós, fazendo-nos lembrar que nenhum sujo se pode rir do mal lavado.

 

Joaquim Oliveira

Carta aos meus irmãos ancorados na afro-escrita

I

Não sei se vós quereis ouvir agora, esta voz

que à vós a mão estende, em busca da arte

de escrita real mas bela e pura. Sem mancha

da mimese que na dos outros se prende.

Busco a fúria na arte criada outrora, por Noronhas,

Noémias, Knopflis, Whites. Ó meu verso por

aqui ande! Em rectas letras andaram Craveirinhas

e Kalunganos no Combate. Despidos de tal ornamento

mas com heroísmo. Ó noite oiça-me e dê-me fúria

de dizer em ornamentada arte para que não transborde

a tinta em prol desse heroísmo ou africanismo caviar.

 

II

Amo indiscretamente as já vigentes decoradas formas

de fazer e sentir a arte. No mapa-múndi. Estaria

despreparada para o belo, a razão que visse

alienação no seio destas sérias coisas.

Sedeadas no saber ser e estar de qualquer alma

que se preze! Ah! Que brotem as forças em nós.

Do intersecionismo. E que do nativismo

se desprendam! O livre e não fantasioso pensar

que me faz ser. Sugere que fique esta mensagem

em todos os que ainda na escuridão andam.

Com humildade sem sombra arrogante sugiro-vos:

falemos de nós pensando no mundo, e dele em nós.

 

III

Predisponho-me ao heroísmo pela beleza no escrever,

que as palavras facilmente constroem, quando desenhadas,

revelando-se ditadoras na grafia […] mas em arte […]

democratas semanticamente! Se as falas tornam-se

em poesia quando se harmonizam com o belo e

cinicamente exigem a descoberta do que dizem, quero

que transportem a mente humana a um obscuro labirinto.

Cujas paredes, para uma saída a conduzem. Entre minhas

palavras, quero que caminhem paralelamente: o concreto

e o abstracto. O sonho e a realidade. O afro, o ocidental

e o oriental. Falando o mesmo dizer. Através do qual

se possa reciclar uma escurecida mente. E, por deferência,

se possa dar algo além do prazer às massas que da escuridão

estão libertas. E que vão ganguissando as atmosferas mais iluminadas.

 

As metamorfoses de Thandi, de Mauro Brito e da existência

A beleza não faz o amor, é o amor que faz a beleza.

Tolstoi

 

Até 2019, Mauro Brito publicou dois livros de poesia: Passos de magia ao sol, pela Escola Portuguesa de Moçambique, e O luminoso vôo das palavras, pela Kuvaninga Cartão d’Arte. Desta vez, o escritor aparece em livro com um conto que coloca a rapariga e a mulher como protagonistas da vida e do que isso pode sugerir.

O título do mais recente livro de Mauro Brito é A estranha metamorfose de Thandi, ilustrado pelo artista plástico Samuel Djive. Esta é uma história de amor entre mãe e filha, Mbali e Thandi, personagens agrestes que constantemente enunciam lições universais, atinentes às circunstâncias domésticas e até mesmo comunitárias.

Thandi é um menina cujo corpo é preenchido de porções consideráveis de barro, consequência de certas acções da mãe quando esta estava grávida. Por isso, a menina não deve deixar-se molhar pela chuva tão relevante para a sementeira. Todavia, sem querer, na tentativa de salvar um celeiro com produtos, Thandi molha e começa a passar mal. Numa sequência de eventos bem encadeados, aí institui-se, na verdade, uma narrativa instigante, a qual, tendo a criança na mira de uma eventual intenção textual, deve envolver qualquer adulto em imprescindíveis metamorfoses.

Com doses anacrónicas assinaláveis, ora antecipando o futuro da narrativa (prolepse), ora recuando ao passado importantíssimo para o presente das personagens (analepse), A estranha metamorfose de Thandi exibe um narrador cuja vocação não se limita a contar uma história formidável. O narrador de Mauro Brito tem um discurso esclarecido, essa perspicácia omnisciente na manipulação psicológica do leitor, com recurso ao que as personagens sentem, anseiam, perspectivam ou temem. Há aí um enunciador do discurso muito atraído por conduzir viagens pelo tempo, pelos arquétipos culturais de uma comunidade possível e, claro, pelos espaços às vezes feitos de esperança intermitente.

A escrita deste conto destaca um autor atento ao pormenor do que serve no enchimento do universo diegético, sempre carente de cor e sensibilidade: “A brisa carregava o pólen das flores. O orvalho ainda cintilava por cima das folhas das árvores. O conselheiro já se tinha acomodado num tronco de árvore e tentava ressuscitar uma fogueira já vencida pela madrugada, enquanto observava a natureza a espreguiçar-se” (p. 13). Numa passagem posterior: “No novo dia, a Lua ainda emprestava o seu encanto ao céu azul-cinza quando o Sol, como uma flor amarela, sobrevoou lentamente os campos, até galgar o horizonte, mais tarde que o habitual. Talvez por isso, o orvalho ainda se estendia sobre as folhas como uma película fina” (p. 18).

É assim em A estranha metamorfose de Thandi. Além de uma história repleta de imaginação, subtil, o conto de Mauro Brito estimula uma aventura pela obediência e pelos efeitos perniciosos causados pelo inverso disso. Aí há, seguramente, uma tentativa consciente (ou não) de o autor fortalecer a autoridade dos pais e/ou encarregados de educação em relação aos filhos. No entanto, sem aquele desfecho já gasto sobre a moral nas histórias infanto-juvenis. Brito foge a isso ao mesmo tempo que constrói a beleza dos cenários, dos impasses narrativos e dos suspenses fundamentados no amor recíproco entre Thandi e Mbali.

Este conto é sobre as metamorfoses de Thandi, é certo, e também sobre tantas outras metamorfoses da existência decorrentes das escolhas ou das decisões que se tomam. Em 31 páginas Mauro Brito lembra que para cada acção há uma consequência. Ainda assim, sugere o conto, o que eventualmente é um fim, pode apresentar-se como oportunidade. As personagens desta história são determinadas: vencem a dor, o medo, a angústia e o ressentimento. Tudo em prol de uma voz que, se for ouvida, ensinará o leitor a amar nesta época estranha.

 

Título: A estranha metamorfose de Thandi

Autor: Mauro Brito

Editora: Escola Portuguesa de Moçambique

Classificação: 16

O Horizonte e a escrita de José dos Remédios

“O romancista não é nem um historiador, nem um profeta: é um explorador da existência”. Milan Kundera

Adelino Timóteo Zuca, o cronista da vida

Tomei conhecimento que José dos Remédios lançaria a obra O Horizonte e a escrita, abordando oito (8) livros publicados por Adelino Timóteo. Este último já palmilhou a picada dos imortais. Convenhamos, ambos, desfrutam dessa nobreza que consiste em sermos felizes e superiores ao que éramos antes.

Adelino Timóteo Zuca. Longe de mim qualquer pretensão de atrapalhar o leitor. Zuca é nome de família. Timóteo também é de família, porém, coreograficamente, artístico, imutável e de fácil memorização. Tive a oportunidade de ler e reler algumas das suas obras, ele que é irmão gémeo, de uma família de quatro irmãos e engravidado de prémios nacionais e internacionais, pela sua criatividade. Nós, os de Macurungu, Mulungu, Nação Pária, Apocalipse dos predadores, Os oito maridos de dona Luiza Michaela da Cruz e Cemitério dos pássaros. Desconsegui, por alguma razão, os restantes. Dificilmente os encontros à venda.

Adelino Timóteo. Falo desse irreverente, audacioso, ousado jovem escritor que tanto orgulha a nova fornalha de escritores do pós-independência. Ele nos recorda que vivemos todos sob o mesmo céu, porém, nem todos com o mesmo horizonte. Apesar de não o conhecer fisicamente – nem importa, pois, as oportunidades ainda não proporcionaram – imagino alguém que tenha mais de dois metros de altura, peso de fazer inveja, cabeça fresca e atenta. Daqueles jovens do Macurungo que merecem respeito, pela veia contestatária. Sempre o achei um cidadão comprometido, que não sabe fingir, nem se esgota em temáticas da actualidade e desse passado sempre presente. Conheço a sua obra. Aliás, prosélita e vertical. Assumo que ele se dedica de corpo e alma naquilo que faz. Deve ser obcecado naquilo que melhor sabe fazer. Vou lendo e adivinhando seu carácter, por vezes, revelando alguma fúria, outras, profunda infelicidade, desamparo, perdição, mas, acima de tudo, total dificuldade em se resignar às omissões, displicência e ao próprio destino.

Os alicerces da narrativa em Adelino Timóteo se confundem com esse espólio que teima não desvalorizar o passado recente. Adelino se confunde entre o pintor de quadros e o de palavras. Alguém que bebeu talentos, virtudes, manias, mas que não se liberta de vaidades positivas. Como diz Marcelo Panguana, em Conversas do fim do mundo, “se quisermos aflorar um pouco a biografia do Adelino, facilmente, poderemos constatar que é uma espécie de motorista de longo curso, plural na forma como se identifica com a literatura, a pintura, o jornalismo e a arte de saber viver, isto é, de saber ser e estar”.

Concordo, até que este jovem e interventivo escritor tem essa enorme coragem e capacidade que o tornam peculiar, embrenhando-se, de forma extraordinária e criativa na radiografia do seu país, detectando os seus males, o que nos apoquenta, mas principalmente, sugerindo as terapias, no exorcizar de fantasmas, no expurgar de preconceitos e verdades atiradas para baixo do tapete. Ele procura o melhor em cada uma, e em todas às pátrias.

Adelino Timóteo revela uma paixão irreparável e indiscutível sobre a religião. Essa relação entre a fé em Deus e os espíritos dos antepassados. Revendo a crónica dedicada à sua Mãe, Maria Elisa Timóteo Zuca, redescobri essa ligação intrínseca sobre à reivindicação dos valores africanos assentes na tradição africana. Ele faz alusão, intermitente, entre o cristianismo e o património cultural, imaterial africano, que nós adoramos designar como superstição. Os seus romances desaguam, deliberada ou sem intenção, nesses curandeiros que lidam com obuses e estabelecem contactos entre vivos e antepassados. Estes personagens que acrescentam valor ao imaginário associado às crenças tradicionais.

A escrita de Adelino Timóteo torna evidente essa preocupação pelo ser feminino, colocando as personagens femininas no centro da narrativa, nessa tentativa de veicular cenários catárticos, como refere José dos Remédios, que elevem a imagem da mulher. Assim, não admira essa importância que dá a virgindade, como esse símbolo de pureza, maculando-a, ao mesmo tempo que tem a traição como algo muito comum. A violência doméstica está presente em Adelino Timóteo.

Este autor ou o senhor das “narrativas timoteanas” fez uma revelação fascinante. Escreve, compulsivamente, escreve oito horas por dia, como se o mundo precisasse de suas palavras para carburar e oxigenar às almas. A sua narrativa tem um percursor, Heliodoro Baptista. Adelino se transfigurou como fiel discípulo. Heliodoro Baptista, saudoso e incontornável poeta, quebrou silêncios, fez greves de fome e atrapalhou o poder instituído, com o livro Nós joelhos do silêncio. Quanta falta deve fazer a nova geração de escribas.

Quem sai aos seus não degenera, assim dizia um velho provérbio. Adelino Timóteo, então, tem esse espelho como referência. Ficou bem mais fácil revê-lo e entender sua trajectória. Qualquer um deles tem o mérito de tentar, sempre, corrigir a vida ou o destino. Assim são os ousados escribas que repudiam a ementa, não vivem de clichés e detestam o que lhes é colocado como verdade absoluta. Libertaram-se das amarras maquiavélicas usadas pelos fascínios do populismo barato.

Os horizontes de José dos Remédios

Com agradável surpresa, recebi das mãos de José dos Remédios um exemplar do livro O horizonte e a escrita ainda com cheiro de pão quente, à semelhança do pão que motivou e inspirou escritores e poetas, como Suleiman Cassamo, no seu livro O regresso do morto. Esse pão que alimentou “Laurinda, tu vai mbunhar”. O pão e a escrita caminham lado a lado. Alimentando os mendigos das leituras, os espíritos dos sedentos. Tamanha generosidade teria um preço. Conversamos sobre o lançamento e a possibilidade de dizer duas palavras. Essas tarefas dos iluminados Gilberto Matusse, Teresa Manjate, Almiro Lobo e outros.

Em meio da pandemia, dos desafectos, deste mundo que se cansou de todos nós, logo pensei nessa imagem discursiva intervencionista e inconformada que acima referi, nesse intrincado universo das nossas debilidades, no revisitar desta cultura e seus devaneios. Pensei nos horizontes dos nossos horizontes sombrios, desgarrados e já sem brilho.
O horizonte e a escrita pareceu-me, logo no começo, esplêndido e, esteticamente, fascinante. Fez-me recordar aquele provérbio que dizia, os homens são como os livros, devemos tomá-los pelo seu valor e não pelo aspecto. Eu tomei este livro, nessa dupla dimensão. Uma reflexão e crítica amadurecida, descomprometida, e isenta de alienações. Uma edição criativa e pouco convencional.

Concordamos todos que, na narrativa, predominam duas dimensões essenciais. A primeira, atinente a cronologia dos eventos, e a segunda, cristalizada no tempo do discurso. Assim, tem sido a literatura moçambicana. Abundante, fugaz, soberba, em alguns momentos, escassa, melindrosa, menos conseguida, em outros, porém, dinâmica e versátil. Repleta, agora, de novos autores criativos e interventivas editoras, mais reconhecidas internacionalmente, espaços de língua portuguesa, o que confere e traduz outra qualidade, postura e um nicho de mercado mais apetecido e desdobrável. Porém, esta literatura carece de análise crítica.

Carecemos de críticos apaixonados, incisivos e descomprometidos. Fazem falta esses advogados literários. Aqueles cuja missão confere uma outra dimensão e pujança a escrita. Os ditos que, no universo da literatura produzida, revelam as debilidades, os exageros, os contornos de obras mais elaboradas e estruturadas. A crítica literária, não importam as épocas e os períodos históricos, transportam consigo essa missão transformativa, destapam méritos duvidosos, recolocam as verdades na meritocracia e a relevância do rigor. Por carecer destes atributos, igualmente, me distancio dessa função e missão. Evito que esses laços afectivos e a proximidade atrapalhem leituras correctas, me afastem de juízos de valor, olhares precipitados, enfim, conclusões menos justas e conseguidas.

Em José dos Remédios vejo uma promessa para Moçambique, que merece encorajamento e espaço. Nessa pesquisa e no esgravatar de argumentos literários. Este autor que agora devo assumir como promessa confirmada para a literatura e jornalismo deste país, evidencia o que já sabemos faz tempo. Aliás, ele se socorre e recorre a Yves Reuter (1996) quando argumenta que toda a história é história das personagens, ainda que a manipulação dos eventos caiba ao narrador. Enredo e personagens exprimem, ligados, os intuitos do romance, os significados e valores que o animam. Complementa António Cândido et al. (1995).

José dos Remédios, abastecido e munido de algum traquejo e tarimba na arte, literatura e dramaturgia, nasceu presenteado de múltiplos talentos. Faz de tudo um pouco. Desse pouco, quase tudo. Possui inúmeros ensaios publicados na imprensa. Neste livro, O horizonte e a escrita, se aventurou na espinhosa missão de rever criticamente Adelino Timóteo. Antes, fez o mesmo, com um ensaio sobre a poesia, complexa poesia, de Noémia de Sousa.

Mergulhou, livre de qualquer enfermidade, na análise narrativa de Timóteo. Teve essa equilibrada missão de rever este “cronista da vida” com uma paciência de ouvires, fazendo uma leitura fielmente retractada, resignificando as metáforas, acantonando as sombras desse passado que jamais pode ser presente, rebuscando esses alicerces de um olhar apaixonado pelo país e pelo seu povo, muito para além das nuvens negras que, misteriosamente, habitam em suas entranhas.

Relendo a crítica do José dos Remédios, recordei-me da passagem que descrevia a travessia ao Mediterrâneo, do romance A virgem da Babilónia. Impressiona essa articulação. Impressiona essa travessia do Egipto até a cidade da Beira, passando pelo deserto, pela Somália, Sudão, Tanzânia e etc. A travessia que faz o país desaparecer. A Nação serve-se de amuleto que lhe permite caminhar mais de 10 km em meia hora. Aqui as analogias aos nossos emigrantes que caminham mais de mil quilómetros no percurso Moçambique e a África do Sul. Quais serão os novos amuletos?

Adelino Timóteo e José dos Remédios se vestem de preocupações literárias que mexem com o tecido social moçambicano. Usam recursos alegóricos, umas vezes irónicos e outros sarcásticos, para rever essa realidade contaminada. No final, eles, nem por isso, são autores de histórias com desfechos emocionantes e fascinantes, nem com final feliz de encher a alma e conto de fadas. Por sinal, até são melancólicos, porém, preparados para um novo recomeço. Assim, são as pessoas que acreditam e nós acreditamos nesta nova geração. (X)

Balázios na Munhava

Um projétil voava a uma velocidade de 715 m/s fuzilando o ar no percurso que efectuava em direcção ao alvo que devia estar a trinta metros de distância.

Os populares das redondezas alarmados com o som do fuzil procuravam averiguar o que estava a acontecer.

Um agente da lei devidamente uniformizado e empunhando uma AK 47 seguia no encalço um civil que já se distanciava notavelmente, o policial quando viu que não alcançaria o exímio corredor decidiu disparar o segundo tiro.

A competição disputada numa pista de pavê teve início no mercado da Munhava e era executada por dois indivíduos o que seguia na dianteira e o que vinha no seu encalço.

O som do balázio serviu de estímulo para o corredor de vanguarda acelerar seu passo e alcançar a escola primária completa Amílcar Cabral e ai perdeu-se na multidão.

A bala ricocheteou na plataforma de um camião e perdeu a sua direcção inicial continuando o seu percurso incerto.

Estafado o corredor perdedor desistiu e ofegante buscou descanso no chão de argamassa de uma loja de um comerciante indiano.

O tiro depois de suas peripécias acrobáticas. Parou, parou maldosamente no corpo de um menino que voltava da escola e antes de soltar o segundo gemido seu corpo caiu no chão de pavê, o sangue que jorrava do seu peito avermelhou o livro de português da 5ºclasse.

O primeiro popular chegou e testemunhou a partida do menino, outros se juntaram e lamuriaram o fatídico incidente.

Inquiridores descontentes desencadearam uma pequena sublevação iniciando as buscas para apurar a causa da morte do menino aluno da Escola Primária completa Amílcar Cabral.

Encontraram o polícia homicida involuntário e iniciaram as averiguações.

“Foi um acidente” – protestou o agente da lei

“ Assidentii, estamos fartos de vocês” – imperou a voz de uma senhora.

O segundo pretexto furado emanado pelo polícia para justificar o balázio mortal foi rematado com as costas das mãos de uma senhora, a cara do homem movimentou-se da esquerda para direita.

“Agredir um agente da autoridade é punível por lei” – determinou o homem de uniforme.

Outra bofetada voou e a cara do polícia Constantino balançou outra vez. Quando sentiu o caso mal parado empunhou a sua arma despoletando ainda mais a fúria dos munhaveiros que espancavam-no por todo lado. Um ex-guerrilheiro desmontou prontamente a AK 47 e as peças do artefacto mortal ficaram expostas no chão.

“Esse uniforme não serve para nos humilhar, torturar e matar” – discursou um munhaveiro.

Uma mão forte arranco-lhe a camisa deixando mais a merce da justiça popular.

Dois pilotos que voltavam da “bacia” depois brincadeiras acrobáticas junto à margem do sistema de drenagem das águas pluviais montadas pelo município regressavam empurrando os seus pneus com ajuda de dois paus.

Em nome da nova justiça social um dos pneus foi confiscado e colocado no pescoço do polícia que tinha sido amarrado junto a um poste, procuravam incendiar o pneu mas não conseguiram atear o fogo. O petróleo doado por um comerciante anónimo não serviu para iniciar a fogueira.

Um txopelista que conduzia animado o seu veículo transportando um passageiro parou e decidiu prontamente ceder um mililitros de gasolina que tinha como reserva.

Longas labaredas envolveram o corpo do homicida, populares ululavam ante o espectáculo macabro.

Marejado de lágrimas o larápio testemunhava o aniquilamento do agente da lei, jurou que jamais voltaria a surripiar.

A imprensa popular documentava o facto fotografando e escrevendo sobre o que sucedia, difundindo nas redes sociais.

O corpo do menino continuava no chão coberto por uma capulana, as páginas do livro de português ensanguentado esvoaçavam ante o vento leve que soprava nessa tarde de quinta-feira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O camaleão de Samsanga

…vi Salatiel Matchazi cantando e dançando “vadhla voxe” de Jeremias Ngoenha e engoli pela goela adentro todo encantamento do mundo que ainda degustava na boca. Aquele saltitar e vigor para marchar pela “causa comum era duma incredulidade espantosa não pela vontade com que o fazia porque a hipocrisia caia-lhe tão bem quanto a túnica que trazia para cobrir o rechonchudo abdômen. Nunca a frase “um homem sem barriga é um homem sem história” fizera tanto sentido. De facto, Salatiel Matchazi era um homem de histórias com panos para manga.

Oito horas e quarenta e três minutos marcava o relógio fixado na parede da sua sala bem ao lado do quadro “Tatuagens D’Alma” de Naguib, quando a secretária, de entre outros expedientes, fez-lhe chegar um pedido de autorização para a realização de uma marcha em manifestação contra o alto custo de vida e a ineficaz distribuição de renda na vila municipal de Samsanga. «Belíssima iniciativa!» anuiu…para o espanto da secretária que só deu entrada a tal pedido por mera cortesia profissional porque para ela «não autorizo» era o único deferimento possível de ter do mais respeitado e competente edil jamais visto naquelas latitudes, que Salatiel Matchazi dizia ser.

Eu que não sou de marchas, gravito na minha própria bolha e não ligo a mínima para lamúrias, fitei-me no soslaio de uma rua para vender água aos manifestantes como quem vende lenços no velório ou armas na guerra. Pelas palavras possíveis de ler nos banners dos manifestantes evidenciava-se «pão para toda gente»; «vocês são porque nós somos por isso dêem-nos pão»; «corrupção zero ou corruptos fora»; «chega! Assim não dá mais». Ler estas palavras ao som de «vadlha voxe» e «lafamba bicha», de Jeremias Ngoenha, que se fazia ecoar em corro, avivava uma réstia de esperança para repor a transparência e justiça governativas que Salatiel Matchazi e sua conclave haviam mandado às favas em prol dos seus apetites e credos.

Nos semblantes dos integrantes da manifestação rodopiava o suor com que regavam a sua penúria no dia-a-dia laboral e se promiscuia com as lágrimas drenadas por um coração já em quebranto porque a vida em Samsanga sabia mesmo a fel. Cá entre os meus botões ressignifiquei as palavras dos manifestantes e senti a legitimidade da dor e justeza daquela busca por um interlocutor no edifício do conselho autárquico de Samsanga. Eis, então, que a incredulidade ganha forma na figura de Salatiel Matchazi marchando com os populares e, pelo punho direito, segurando a extremidade de um banner em que era possível ler «cumpram as vossas promessas».

Fogo-fátuo

Em Janeiro, e na ressaca das festanças não autorizadas pelas autoridades e do pandemónio na fronteira de Lebombo, arrancou o campeonato nacional de futebol, Moçambola-2021, num contexto atípico da COVID-19.

Em teoria, era tudo lógico. Na prática, havia, e à semelhança do que acontece em todo o planeta, que se criar todas as condições sanitárias para que o futebol não se transforme num campo de propagação do novo coronavírus.

Esfregou-se as mãos. Jubilou-se com o pontapé de saída da prova mor do futebol indígena. Cerrou-se o punho. Afinal, o futebol é o ópio do povo.

Foram três jornadas disputadas sem que os intervenientes do Moçambola, incluindo o autor destas linhas, fossem submetidos a testes, tal como preconiza o protocolo sanitário definido pelas autoridades de saúde. Assobiou-se para cima.

Pontapearam-se as recomendações da Organização Mundial de Saúde e da FIFA para a retoma segura do futebol.

Colocou-se em risco à saúde das pessoas, mesmo num cenário em que os casos da COVID-19 dispararam no país e há registo de vários óbitos.

Nas vésperas da 4.ª jornada, e num cenário em que já se falava, nos bastidores, da suspensão do Moçambola, devido ao não cumprimento do protocolo sanitário, a Federação Moçambicana de Futebol anunciou um valor monetário de 100 mil dólares para testagem de todos os elementos envolvidos na prova.

O plano era tão simples para os dirigentes: testar, na 4.ª e 5.ª jornadas, os jogadores, as equipas técnicas, os árbitros, os apanha-bolas, entre outros elementos ligados ao futebol, 72 a 48 horas antes da realização dos jogos.

Depois, os testes seriam feitos de forma aleatória. Tudo o que podia correr mal aos que decidiram avançar para o Moçambola sem testes correu ainda pior. Na última comunicação à Nação, o Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou a suspensão do campeonato nacional de futebol e dos treinos das equipas por 30 dias.

Nyusi justificou esta medida pelo facto de não se estar a testar os intervenientes do campeonato, alertando ainda que não se pode fingir que a COVID-19 não existe.

“Queremos cortar a transferência do vírus de uma província para a outra. Por outro lado, nem sequer são realizados testes no Moçambola. Vimos, depois dos testes realizados pelo Ferroviário de Lichinga, que quase metade da equipa não viajou. Isto significa que este problema existe e nós estamos a fingir que ele não existe. Vamos cortar um pouco e voltaremos a jogar. Estamos interessados que se jogue e já estava a animar o campeonato”, argumentou Filipe Nyusi.

Há, para todos os efeitos, uma percepção generalizada de falsa promessa de realização de testes às autoridades de saúde e ao Chefe de Estado.

Mais do que isso, provamos que não estamos, nem tão pouco, organizados para dar passos gigantescos para o profissionalismo.

Ora, como foi possível a Liga Moçambicana de Futebol, a Secretaria de Estado de Desporto e a Federação Moçambicana de Futebol – instituições que desde o início acompanharam todo este processo – permitirem o arranque do Moçambola sem a criação de condições básicas para o efeito?

Que responsabilidades carregam todos aqueles que deixaram de lado a componente saúde pública para se jogar à bola?

E não nos venham com a retórica de que, inicialmente, os testes de despite da COVID-19 seriam a custo zero face às dificuldades financeiras apresentadas pelos clubes.

Nem tão pouco.  Falhada, claramente, a perspectiva do Ministério da Saúde em assumir os custos dos testes, devia-se, e muito bem, encontrar soluções para viabilizar os mesmos.

E, uma das soluções passava, na minha óptica, por a Federação Moçambicana de Futebol, fazendo uso do Fundo Solidário da FIFA para mitigar os efeitos da COVID-19, canalizar a “mola” aos clubes ou até mesmo à Liga Moçambicana de Futebol para testar os jogadores, treinadores, árbitros, enfim, todos os intervenientes.

Não era, no meu entender, preciso esperar que a corda rebentasse para se fazer mais um arranjo, dos vários a que estamos habituados nesta esfera desportiva.

Por que motivo, quando se apercebeu que seria oneroso para o MISAU assumir os testes, sobretudo, com a subida de casos, a FMF não disponibilizou logo dinheiro para se evitar a exposição da desorganização que reina no futebol moçambicano?

A Federação Moçambicana de Futebol está interessada em se jogar, cremos, até para que os potenciais jogadores chamados à selecção tenham ritmo competitivo.  Temos, em Março, dois jogos importantíssimos diante do Ruanda e Cabo Verde que podem ditar a qualificação para o CAN. Precisamos, por isso, de jogadores com aceitável ritmo competitivo para alcançarmos resultados satisfatórios.

Mas voltamos ao início. Discutiu-se, antes, e com tons de irritação, o valor a ser atribuído aos clubes pela Federação Moçambicana de Futebol, no âmbito do Fundo de Apoio Solidário da FIFA alocado aos seus associados para mitigar o impacto da Covid-19, neste caso USD 1 milhão da discórdia.

A FMF disse que apenas ia dar dinheiro aos clubes que cumpriram com os requisitos de licenciamento. Com razão, quanto a nós, até porque os clubes têm que ser mais sérios, organizados e com olhos postos no profissionalismo. Depois de um processo nebuloso, com mais contras do que prós, os 14 clubes que disputam o Moçambola reclamaram ter concluído o mesmo tendo direito a 1.2 milhão de meticais cada.

Não queríamos discutir o valor, em si, alocado aos clubes. Queremos, isso sim, abordar o processo de licenciamento que foi de difícil parto e aceitação com muitos clubes a torcerem o nariz para a sua implementação.  É preciso perceber que, se quisermos sair deste mar de improvisos e estender de mãos ao Governo para viabilizar o Moçambola, tal como aconteceu há anos, precisamos ser proactivos. Pensar grande, dimensionar os clubes para uma perspectiva empresarial.

Não podemos ter casos de clubes que se dizem terem cumprido os requisitos de licenciamento, mas não conseguem pagar salários aos jogadores e muito menos descontam para o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). É patético que jogadores reclamem de falta de alimentação antes de disputarem uma partida, tal como aconteceu no Textáfrica de Chimoio.

O Poeta Não Morre – Amanhã Será Um Novo Dia

Redigi um texto emotivo e demasiado espontâneo quando Calane da Silva, nosso professor, aniversariou os três quartos de séculos, dessa generosa longevidade, marcantes passagens e vivências culturais. Têm sido anos intensos e profícuos de inevitáveis intervenções em prol do fascinante mundo das artes e letras e do jornalismo. Calane aniversaria, no mesmo dia que o artista plástico Naguib. A vida fez deles irmãos consanguíneos de sonhos, imaginação e fantasia. A complementaridade do signo libra que confere impulso emocional e tatua as identidades através das distintas épocas históricas.

Com ambos desenvolvi e privei, nos últimos anos, uma relação que perpassa a amizade ou convívio fraternal. Tornou-se viral e se situava nesse plano de múltiplas excentricidades e cumplicidades. Calane acreditava que ainda poderíamos agregar valores às crianças e jovens. Sentia que o capitalismo selvagem, dos novos tempos, os excluirá, sem apelo e nem agravo. Essas gerações bebiam o pecado do descaso e omissão. Educação poderia ajudar, defendia Calane. Educar gerações não significava, tão somente, ingresso. Teria de ser acesso. Crianças e jovens são minha matéria-prima e, confesso, continuo céptico sobre o futuro de muitos, até sobre o presente de poucos.

Retomar as cumplicidades, neste pequeno texto, não pode e nem deve, em nenhuma situação, ser entendido como uma homenagem ou louvor à sua obra e memória. Antes, tem de ser interpretado como uma forma de desmascarar a omissão e a displicência que acompanham os criadores artísticos e os talentos que criam e recriam este mosaico étnico, racial, social, cultural e, estranhamente, literário do país.

Calane era um samoriano convicto, porém de coração dilacerado pelos sucessivos falhanços de fazer uma nação reconciliada e com valores. Também Samora, deixou um país à beira do caos e do opróbrio. Mas, Calane era também um monoteísta. Com sangue miscigenado hindu e português, ADN africano, ele nasceu católico e professou a religião de forma convicta e leal. Lealdade que tipificou sua vida e amizades. As relações e matrizes cruzadas que fizeram dele um muçulmano reconvertido. Mas, a sua espiritualidade o transformou em espírita. Procurava a pureza do altruísmo e a força e poder da luz e do sol. Parte como líder espírita de um grupo que criou e, quem sabe, experimentará outras esferas espirituais, nos próximos anos, sentado à direita do Pai.

Quis fazer um texto sem recorrer, forçosamente, às suas características, gostos e vontades. Um texto de reencontro com Craveirinha e Gulamo Khan, Ricardo Rangel e Fanny Pfumo, com Malangatana e tantos outros, com quem ele conviveu e foi feliz. Este texto, então, seria uma espécie de penhorado agradecimento por tantos caminhos e obras que ficarão como legado.

Decidi rever um texto que ele compartilhou, o qual eu deveria ler, obstinadamente e sem tréguas. Marcelo Rubens Paiva, brasileiro, que Calane não conheceu, mas que respeitou, como respeitou a todos com a mesma simplicidade e cordialidade. Numa das passagens, o texto recordava “Apesar de você, as cores do arco-íris continuarão as mesmas, estarão sempre entre o céu e a terra e continuarão emocionantes e lindas”.

Temo que, com a sua ausência, esse amor com as cores de arco-íris, continuará tão infinito e contagiante. Sem limites. Imaginativo e apaixonado pela fantasia, pedia, sempre, que observássemos tudo com olhares apaixonados, como se tudo fosse tão lindo e fascinantemente rejuvenescido.

Calane era, pois, essa espécie de Júlio Verne. Esse novelista e poeta francês, cujo nome original foi adulterado, Jules Gabriel Verne 1828-1905. Júlio Verne foi dramaturgo, poeta e ensaísta, cuja obra se configurou como a mais traduzida em toda a história. Fazia predições, em seus livros, sobre o aparecimento dos novos avanços científicos. Sonhou em passar 40 dias no fundo do mar e a ciência criou os submarinos. Invejou a liberdade dos pássaros e imaginou que o ser humano voaria e, até, transportaria carga, algo que os pássaros não conseguem fazer. A aviação deu azo a estas predições. Calane era um pouco este arquitecto das palavras que não deveriam ser esquecidas nos gabinetes e nem nos cacifos ou estantes.

Em tudo que já foi dito e, eventualmente, será escrito, retomo suas duas últimas aparições públicas na Universidade Pedagógica do Maputo. Aqui estudou e se converteu em professor, mentor e guia de centenas de estudantes pelo país afora. A UP-Maputo era o seu predilecto projecto de unidade nacional que a independência trouxera e o cativará infinitamente.

A UP-Maputo decidiu homenagear o Professor e médico Fernando Vaz. Completava só noventas Primaveras, exuberantemente, dedicadas à sua medicina, cirurgia médica e compaixão para com seus pacientes. 90 Anos de formação e educação de profissionais de saúde. Calane da Silva usou e abusou da graciosidade de sua voz e fez as honras da casa. Deixou que as palavras se transformassem em armas que libertam as ideias progressistas. Pelas suas palavras e abraços, agora tão raros, foram revistos os momentos azuis de uma revolução que agora virou vermelha. Ali estavam a sua Xicandarinha e Malanga, fervilhando as memórias da Lenha do Mundo, de Fernando Vaz e de todos nós.

Meses mais tarde, replicou a dose durante as celebrações dos 150 anos de Mahatma Gandhi. Cerimónia inusitada e de rara beleza espiritual e intelectual. Um momento indescritível e de contagiante emoção. Calane vestiu-se de branco, encarnou Gandhi, gesticulou a pureza da paz, liberdade da palavra e reconciliação. Exercitou Yoga e fez meditação transcendental. Espalhou seu perfume poético e fez acreditar num amanhecer sem ódios, sem tiros, na mão plena de bondade e no coração altruísta.

Por instantes, sentimos que Gandhi estava ali, visitando Moçambique, falando da sua luta pacífica, no dom da bondade. Ghandi visitará Moçambique e os privilegiados desfrutarão dessa bênção. Nunca mais voltamos a fazer yoga e nem meditamos. Alguns, quem sabe, ainda devem fazer. Inesquecível Calane. Todos nós, com uma peça de roupa branca, sem muita certeza das cores do nosso sangue e vontades.

Ao Calane, ficou essa enorme dívida educacional, literária e jornalística. Um penhor que só o tempo saberá pagar e retribuir. Aqui fica, então, esse pedido de desculpas pelas nossas incapacidades, fraquezas e omissões, por não sabermos reconciliar o país, não sabermos transformar os sonhos das crianças e jovens, pela incapacidade de proporcionar um novo amanhecer para todos, ávidos de oportunidades e respeito pela diversidade. Uma pátria de valores e liberdades respeitadas. Também, devemos por não termos sido céleres e mais assertivos para lidar com esta traiçoeira pandemia, covarde e assassina, Covid-19, que rouba de nós, o melhor de nós mesmos. Perdoe-nos por ter-te desacompanhado e te deixado no meio do povo para o qual você sempre viveu.

Neste momento da Páscoa, fica, apenas, essa vontade de reler no poema dos olhos das crianças, o amor e a reconciliação, acreditar que essa maldade vai desaparecer. Queremos essa luz esplêndida em nossos corações, para que amanhã seja um outro e novo dia.

Racismo: descriminação racial no sistema laboral

Segundo o dicionário brasileiro www.dicio.com.br, Racismo seria um conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias.
Na altura eu era assistente em recrutamento e fui convidado para apoiar a Gestora de Comunicação no processo de recrutamento de um (a) assistente de comunicação para o seu departamento. Uma negra (preta se preferir) e outra mulata (café com leite ou mestiça), foram as últimas escolhidas do shortlist. A negra veio ter comigo e disse “eu sei que vocês vão escolher a outra porque é mulata”. Por outro lado a dita mulata (que não estou muito certo que seja, pois parece de origem indiana, enfim…), sorriu e foi sentar-se à espera que fosse chamada para a entrevista. No final adivinhem quem escolhemos, pois claro, a mulata. Foi para a entrevista confiante, sorriu, mostrou gestão de suas emoções, não foi racista e ainda por cima mostrou que tinha competência para o cargo. Nada melhor do que ter este tipo de candidato como colega, pois não?

Se eu tivesse a inteligência que tenho hoje, nem teria perdido meu tempo entrevistando a moça negra que por sinal não era nada má. Moral da história: eu e a minha colega, que conduzimos o processo de recrutamento e contratamos a mulata acabamos deixando a empresa e sei que a mulata é hoje a Communication & Image Manager na mesma empresa, sinal de que fizemos good job.

Será raça um critério de discriminação ao mercado de emprego em Moçambique?
Com expecção da Bélgica onde meu trabalho é efectivamente recrutar Africanos (na sua maioria negros) para África, em Moçambique nunca me foi recomendado escolher pessoas pela cor de pele, sexo ou etnia e também nunca pude presenciar escolhas de candidatos baseado nesses critérios. No entanto já ouvi, notadamente numa passagem da música do músico Azagaia onde diz “vais para empresas tipo bancos e não encontras nem um negro”.

Não estou em posição para afirmar que o racismo no sistema laboral é inexistente pois não estou na cabeça dos outros profissionais para saber que critérios usam efectivamente, no entanto, sei que como seres humanos que somos, fomos programados para pensarmos geralmente negativo. Encontrar justificações e culpados para a situação em que nos encontramos, principalmente quando esta é má, é evidentemente melhor do que procurar soluções favoráveis para sairmos dessa situação. Aceitar que não temos competências técnicas e/ou os soft skills necessários para o posto é impensável para muitos de nós, pois aceitar implica voltar para casa e pôr-se ao trabalho (ler, investigar, procurar uma formação que possa colmatar a lacuna). Neste caso é melhor culpar a raça, apelido, idade, sexo, etnia e isso por apenas alguns minutos pois o resto do tempo deve ser consagrado a beber txilar e reclamar que o estado não ajuda e que nos outros países é melhor (como se tivéssemos conhecimento desses tais países).

Como fazer face a questão do racismo

Nós como humanos transmitimos às outras pessoas, uma imagem de nós, projetada a partir do que nós mesmos achamos de nós mesmos. E é a partir dessa imagem que nós somos tratados e julgados. A boa nova é que podemos mudar a forma que nós nos vemos.

A procura de emprego é um dos maiores desafios que enfrentamos na vida. Saber que vamos conseguir o trabalho significa, potencialmente, que as nossas preocupações financeiras serão eliminadas, poderemos fazer planos de vida e ganhar uma certa dignidade. Saber que a entrevista pode correr mal, cria pânico, e a confirmação deste prenúncio faz com que nos sintamos estagnados, fracassados, temos vontade de desistir de tudo e ir para lugar incerto. Quem nunca esteve nesta situação?
É certamente por este sentimento que mesmo antes da entrevista começamos a procurar justificações caso não consigamos o trabalho, pois ouvir “NÃO” é realmente doído, principalmente quando nos falta comida na mesa. Como é o caso de muitos de nós, infelizmente.

A solução passa por uma boa preparação. Como para todos os encontros que sejam desportivos, amorosos ou viagens, a preparação é primordial. Quando nos preparamos para uma entrevista de trabalho ou mesmo para uma reunião de negócios, o nosso estado de espírito é o mais importante, saber que somos capazes e que vamos sair do encontro vitoriosos é a chave do sucesso nestes meetings.

No processo de preparação para além das suas competências técnicas, Informe-se sobre a cultura da empresa, pois nas suas respostas poderá dar inconscientemente, informações suplementares ao entrevistador; veja o endereço da empresa com antecedência de maneira que chegue a horas e sem estresses; prepare antecipadamente a sua indumentária de acordo com a cultura da empresa; leve consigo alguns CV’s caso sejam necessários; prepare seus argumentos em adequação à cultura da empresa ou ao entrevistador; sorria e elimine todas as ideias pré-definidas sobre raça, etnia, idade, apelido, sexo; seja autêntico e original; responda as questões com entusiasmo como se já tivesse sido contratado.

As empresas estão para fazer lucros. Este é o objectivo central de todas as empresas e contrariamente ao que muitos pensam, as empresas precisam mais “dos bons candidatos” do que o contrário. Daí que elas não vão recrutar pessoas incompetentes que tenham cor clara ou mais escura. A cor não vai ajudar as empresas a atingirem os seus objectivos financeiros. Então, quando for a entrevista, mostre que é bom no que faz e esqueça todas as ideias pré-definidas. Se não conseguir passar na 1ra, 2nda ou mesmo 3ra entrevista, tente novamente sem desistir, melhore suas competências todos os dias e sem perder entusiasmo espere pela sua vez.

Recomendação de livro para o mês de Fevereiro: ” Empreendedorismo e Desenvolvimento de Negócios” – António Sendi

Samuel Gerson Andrisse, é especialista de recrutamento e autor do livro “Be ready for your next job interview”

A arte de matar nas redes sociais

Está a tornar-se viral no país alguém anunciar, em grupos de WhatsApp ou noutras redes sociais, a morte de uma figura pública ou de anónimos, evocando o Coronavírus, quando, na verdade, essas pessoas estão vivas e nem sequer se encontram infectadas.

Este tipo de notícias cai com muita naturalidade no seio da sociedade, pois, numa altura destas, pode esperar-se tudo. Lamenta-se pelo sucedido. Gera-se um ambiente de medo, pânico e de incerteza sobre quem será a próxima vítima.

A dor e a consternação tomam conta, imediatamente, dos amigos, familiares, vizinhos, colegas de serviço, admiradores, enfim, de pessoas muito próximas ou que conviveram com o fulano.

A mentira só é descoberta quando no meio de muita tristeza, há quem, com alguma frieza, resolve procurar a confirmação do caso.

No último fim-de-semana, aconteceram dois ou três episódios que me deixaram sem chão e completamente gelado. É que deparei-me, num dos grupos de Whatsapp, com a informação que dava conta de que Dom Dinis Sengulane nos tinha deixado vítima da covid-19.

Tal aconteceu quando acabava de ver imagens televisivas relacionadas com o seu programa denominado “Vida Plena” que passa aos domingos num dos canais privados da TV em que ele aparecia.

Confesso que fiquei bastante chocado e tentava digerir a notícia quando soube de outros membros do grupo que afinal ele está bem vivo e que quem morreu foi o seu irmão Moisés Sengulane. Triste.

Ao tentar refazer-me do susto, eis que num outro grupo de Whatsapp, um sujeito que se identificou como sendo jogador do Clube de Chibuto, apareceu como que a confirmar a morte do presidente do clube, Yunusso Valente Albino, igualmente vítima da covid-19.

Deixei-me cair na ratoeira porque era alguém muito próximo do dirigente do clube em causa. Infelizmente, mais uma vez estava em presença de uma brincadeira de mau gosto praticada por indivíduos IRRESPONSÁVEIS e sem escrúpulos. Pessoas que nada têm a fazer na vida que não seja inventar mortes.

Para fazerem acretidar-nos nas suas invenções, evocam sempre, como motivo de falecimento, o coronavírus. Antes destes dois casos, circulou, em quase todos os grupos de que sou membro, e não são poucos, a informação da morte do sociólogo Gulamo Taju. Teve que ser ele próprio a entrar em alguns dos grupos e desmentir a notícia. Vejam só até onde as coisas chegaram.

Outros casos semelhantes acompanhei, com tristeza, durante a semana passada, envolvendo alguns anónimos que, entretanto, não morreram coisíssima nenhuma, o que é, no mínimo, desagradável.

Os mentores destas falsas notícias brincam com os sentimentos das pessoas. Mexem com os corações de todos nós já cheios de preocupações e com a nossa sensibilidade. Desestabilizam todo o mundo.

Antes de postarem este tipo de coisas, deviam pensar um pouco sobre o impacto negativo que isso representa no seio da família do visado. Da sua comunidade. Do seu bairro. Dos seus amigos, vizinhos e colegas de serviço. Coloquem-se no lugar de todas estas pessoas.

É preciso ter muita coragem para anunciar a morte de alguém que nem sequer está doente. Criar pânico e agitação nas pessoas e divertir-se com isso.

Os responsáveis por estes anúncios de mortes falsas, quando localizados, devem ser denunciados às autoridades para que sejam punidos exemplarmente e através deles, desencorajar futuros casos.

Aliás estou espantado que até hoje a Polícia não tenha iniciado uma aturada investigação para prender estes malandros. Afinal porque é que nos obrigaram a registar os nossos números nas operadoras de telefonia móvel? Não era para, em caso de necessidade, rastrear um e outro número e chegar aos criminosos, burladores e outros? Se é isso, de que é que estão à espera?

Pulula, nas redes sociais, todo o tipo de criminosos, em particular burladores, que tentam, a todo o custo, enrolar pessoas honestas e tirar-lhes dinheiro, usando muitos esquemas. Desde fulanos que enviam mensagens aleatoriamente, dizendo: “envia aquele dinheiro para este número de Mpesa”. Alguns com transferência pendente, caem nessa ratoeira e enviam o dinheiro para uma pessoa errada. Às vezes são valores altos.

Outros pedem que lhes enviem alguns valores em nome de pessoas amigas ou chefes hierárquicos para resolver certas preocupações urgentes. Que os beneficiários do apoio não podem pedir pessoalmente porque estão reunidos, etc. etc.

Conheço pessoas que também caíram nessa armadilha. Houve um caso que envolveu o nome de um ministro que, consultado depois da burla consumar-se, disse que não tinha sido ele a solicitar a ajuda. Quinze mil meticais foram-se num lapso.

Como estes, há muitos casos criminais que rolam, de diversas formas, nas redes sociais e que alguém tem que se encarregar de parar com estas brincadeiras. Crimes que têm estado a lesar muita gente. É tempo de a polícia levar a sério esta situação. Já temos uma lei que aborda os crimes cibernéticos, uma boa base para actuar.

Quem fala de burla, pode falar de indivíduos que brincam com a imagem do Presidente da República. Usam algumas plataformas para denegrir a imagem de algumas pessoas. Gente que coloca em circulação documentos oficiais, a exemplo de decretos e outros, antes de serem divulgados por vias normais.

Algumas dessas coisas ultrapassam a fronteira da brincadeira e são autênticos actos criminais puníveis por lei. Tudo ocorre à luz do dia, dai que a polícia não nos venha dizer que està à espera que alguém submeta uma queixa para poder actuar.

Os factos são tão evidentes que chegam a dispensar qualquer tipo de denúncia. O que falta mesmo é a acção policial. Mãos a obra rapazes! Mostrem-nos serviço. Protejam-nos contra os crimes cibernéticos, pois é para isso que pagamos impostos. Façam a vossa parte com zelo e profissionalismo e nós, contribuintes, faremos a nossa para que não vos falte o salário.

Mensagem de apoio às vítimas do ciclone Eloise

Mais um ciclone atravessa o nosso país, afectando, directamente, as províncias do centro, em particular, Sofala, Manica e Zambézia. Ainda nem sequer nos refizemos das anteriores tempestades de 2019, como foram os casos do Idai e Kenneth e, mais recentemente, do ciclone Chalane, e teremos de lidar com os efeitos nefastos do Eloise. Estes são momentos perturbadores, preocupantes, duros e, até, demasiado violentos. Precisamos de força, coragem e muita fé para enfrentar estas crises e manter acesa a chama da esperança. Temos de continuar fortes e resilientes, e saber erguer a cabeça, em todos os momentos.

A natureza, principalmente na época mais quente do ano, no Verão, gera ciclones que afectam Moçambique, países vizinhos e, sobretudo, as ilhas que se encontram no Oceano Índico. Um fenómeno natural, e que está dependente das condições climatéricas para evoluir e se tornar mais ou menos agressivo.

Hoje, em particular, me recordei daquela mãe e concidadã, da província de Sofala, que perguntava num vídeo, muito divulgado pelas redes sociais, “afinal por onde andou o vento ao longo de todos estes anos”? Indagava ainda se o vento não tinha outro caminho por onde passar que não fosse a Beira: “- Beira é o caminho do vento?”

Estas são questões legítimas, justas e apropriadas. Cada um de nós deve parar para questionar e entender que mudanças foram operadas no clima nos últimos anos. Uma reflexão que nos induz a aceitar que o planeta terra e, particularmente Moçambique, já não são os mesmos. Estão muito diferentes. Os padrões climáticos apresentam alterações radicais a cada dia que passa. Umas vezes demasiado quentes e outras, muito mais frias que o normal. Temos agora chuvas mais intensas ou, muitas vezes, nem sequer temos chuva. A estiagem se tornou mais prolongada e mortífera. Tudo como parte dos fenómenos El Niño e La Niña. Também temos as tempestades que aumentaram, quer na regularidade, como na intensidade. São as mudanças climáticas que o próprio ser humano tem ajudado e influenciado.

No grupo de países mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas, que incluem as ilhas do Índico e outros países litorâneos, Moçambique faz parte e, infelizmente, tem sofrido bastante. As nossas províncias costeiras, em particular, são afectadas, tornando a vida das populações ainda mais complicada, difícil e desesperante. Este é o preço da nossa localização geográfica. Sempre nos beneficiamos, ao longo da história, desta localização. Ter o mar próximo foi sempre um grande privilégio. Todavia, em alguns momentos, sofremos com os ciclones e com a subida das águas do mar, nas cidades costeiras e situadas abaixo do nível das águas do mar. Esta localização transformou-nos no “caminho do vento” e em vítimas do seu poder de destruição.

As mudanças climáticas significam e representam o pouco cuidado que temos com a natureza. Ao longo dos anos, o processo de industrialização consumiu recursos naturais, de forma indiscriminada. Foram destruídos ecossistemas inteiros, florestas e diferentes espécies de árvores. Foram poluídos os rios e os oceanos. Quando o ser humano tomou consciência, começou a limitar o uso dos recursos do planeta. Assim, foram criados os diferentes acordos, sendo o acordo do clima o mais importante. Também nós, como país, temos, por vezes, algumas obrigações e, nem sempre as respeitamos. Continuamos a destruir e a cortar a nossa floresta, fazemos queimadas descontroladas, destruímos os habitats e os ecossistemas. Não respeitamos, nunca, a voz da natureza. Esquecemos que a natureza tem o seu tempo próprio e aprendermos, ao longo de várias gerações, a valorizar esse tempo.

Quando os seres humanos deixam de respeitar a natureza e seus ecossistemas, quando a poluição ocorre em grande escala, quando emitimos dióxido de carbono (CO2) em quantidades insustentáveis, quando o uso de combustíveis fósseis ultrapassa os níveis do aceitável e quando aumentamos a geração de resíduos domésticos e hospitalares, a terra, também, encontra as suas formas para responder e dizer que ultrapassamos os limites e ela não se consegue reciclar. Assim, ela se manifesta de forma destruidora. Este desrespeito tem acontecido com as actividades económicas e industriais, realizadas em muitos países, sobretudo, nos mais desenvolvidos. Temos culpa, todos nós, como humanidade.

As alterações climáticas serão, por conseguinte, uma realidade incontornável, se o comportamento humano não for alterado. Teremos, como seres humanos, de reaprender a conviver com a natureza. Saber escutar, muito bem, aquilo que ela nos pretende revelar.

As mudanças climáticas têm um impacto, ainda mais trágico, junto das mulheres, que são responsáveis pela gestão das respectivas famílias, da terra arável e dos outros recursos existentes à volta de suas residências. Sempre que ocorrem cheias ou secas, nós testemunhamos imagens das televisões, reportando o drama de centenas e milhares de mulheres, mães, fugindo e procurando abrigos seguros, transportando suas crianças e seus parcos haveres. Estas imagens são dolorosas, desumanas e violentam-nos. Esta instabilidade tem degradado, ainda mais, o já frágil tecido social moçambicano. Testemunhamos esse drama e a consequente desestruturação dos agregados familiares e, igualmente, instabilidade social nessas regiões.

No ano passado, avaliei o impacto das mudanças climáticas na vida das mulheres moçambicanas. Fi-lo de forma consciente, como mulher, mãe, avô, e como cidadã que tem trabalhado e apoiado algumas famílias no campo, nos últimos anos. Quis dar a entender que estas mudanças climáticas têm empobrecido e ampliado o nível de carência, desigualdade social e indigência de muitas famílias. Mais importante ainda, quis ajudar a explicar o fenómeno das mudanças climáticas e instruir essas mulheres e irmãs sobre como se protegerem e assumirem atitudes de menor risco. A intenção era a de auxiliar estas mulheres a terem uma atitude positiva em relação a sua própria vida, aos locais onde residem e onde trabalham a terra para sustentar as suas famílias.

Portanto, temos de aceitar que a questão das mudanças climáticas exigirá novas estratégias e abordagens. Neste momento, temos sido reactivos.  Quer dizer, temos a capacidade de prever e identificar a chegada das tempestades e ciclones. Isso, permite que nos abriguemos, com alguma segurança. Porém, isso não basta. Teremos de ser proactivos. Por outras palavras, encontrar formas correctas de explicar, educar e transmitir conhecimento às crianças, aos jovens, mulheres e à sociedade, sobre o significado destas mudanças climáticas.

Todos os pesquisadores, estudiosos e professores que estudam e investigam estes fenómenos precisam de ajudar a sociedade a adoptar modelos e estilos de vida diferentes e mais resilientes. Sobre este grupo, recai essa responsabilidade de educar, formar e informar. Educar, passando uma informação esmiuçada e fácil de ser entendida e interpretada. Formar, passa por criar grupos pequenos que, de forma permanente, junto das áreas de risco, ajudam as lideranças locais a tomar as decisões mais correctas, junto das suas comunidades. Informar as comunidades sobre novas formas e modelos de convivência, escolha de locais mais seguros, com actividades agrícolas certas, para não perderem todos os haveres a cada ano que passa. Portanto, este é um tempo especial para a nossa comunidade académica, para os membros do governo, que fazem as estratégias e desenham os planos de contingência. Não podendo fugir das mudanças climáticas, teremos, com certa urgência, de evitar que as comunidades percam os seus poucos haveres, o seu gado caprino, bovino e etc., que amealham com esforço, mas que desaparece a cada chuvada e ciclone. Já somos demasiado pobres para não valorizarmos cada um dos nossos sacrifícios consentidos. É tempo de conceber e implementar estratégias de mitigação mais abrangentes e mais vigorosas.

Será importante, também, que continuemos atentos ao novo coronavírus, também conhecido como Covid-19. A Covid-19 é uma doença causada por um vírus muito pequeno e simples, que se reproduz de forma parasitária. Apesar da Covid-19 já ser melhor conhecido, tendo, inclusivamente, uma vacina, o certo é que continua matando e de forma indiscriminada. As infecções do coronavírus causam doenças respiratórias leves ou moderadas, mas, em muitos casos, começam a ser mortais para os pacientes acometidos por outras patologias. Alguns cientistas também acreditam que o novo coronavírus se disseminou pelo mundo em virtude da acção destrutiva e invasora do ser humano contra a natureza.

Os possíveis impactos do coronavírus estão longe de ser determinados e conhecidos. Para além das mortes em massa, em quase todos os países, sabemos que o coronavírus reduziu os impactos ambientais, provocados pelas indústrias, sobretudo, pela redução e restrição das viagens aéreas e marítimas, que resultaram na redução do uso de combustíveis fósseis e, consequentemente, na emissão de dióxido de carbono.

Porém, nesta altura em que olhamos para a natureza e tentamos compreender os efeitos das mudanças climáticas, teremos de continuar firmes, seguindo as orientações das autoridades de saúde para não sermos infectados pelo covid-19.

Estou muito solidária com o sofrimento de todos afectados por este ciclone Eloise e, tal como no passado, a nossa organização, a FDC, continuará dando seu apoio, dentro das nossas capacidades e escassos recursos disponíveis. Às mulheres, em particular, enfrentaremos juntas esta situação e as dificuldades pelas quais vocês têm passado. Muita força para todos!

 

Graça Machel

 Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC)

 

 

Carta aberta ao Presidente da República

Esta é a segunda vez que escrevo uma carta para si e espero que encontre algum tempo para a ler. Sei que o senhor tem muito que fazer e pensar. Muitos problemas por resolver. A guerra no centro e norte, a problemática de coronavírus, só para citar alguns exemplos.

Ainda na semana passada, o senhor decretou novas medidas de prevenção contra o coronavírus. Recuamos para os tempos em que quase tudo estava fechado. Cinemas, salas de teatro, piscinas públicas, ginásios, praias, discotecas, barracas da venda de bebidas alcoólicas e bares. Parte da economia está parada.

É que as pessoas são muito desobedientes, senhor presidente. Gostam de ser policiados. O pior de tudo é que não confiam em nada. Conhecem tão bem as limitações do nosso sistema nacioanl de saúde, quase a atingir o colapso. Camas para doentes com covid-19 quase a esgotar. No sector privado já está.

O senhor é um homem cheio de boas intenções. No final do ano, brindou os moçambicanos com aquela sua decisão de reabrir barracas e bares. Aquela foi a máxima. Foi como que largar um passarinha. Abrir, de repente, os calabouços e dizer aos reclusos para fugirem sem olhar para atrás. É o que vimos. Barracas assaltadas de gente a beber e a expor-se ao risco de contrair o coronavírus.

Não acha que o momento foi impróprio para tamanha decisão? Bom, vamos esquecer. É que coincidiu com o final do ano caracterizado por altas temperaturas, com a euforia à mistura e o regresso em massa dos nossos compatriotas da África do Sul, um dos paises mais afectados pela covid-19 em África. Pessoas que entraram no país sem teste que comprova que estão livres da doença.

Excelência, concorda comigo quando digo que a medida tem a sua cota-parte nesta grande escalada de contaminações no país, em particular na cidade de Maputo? Não estou longe da verdade, não acha?

Senhor presidente, gostei das medidas que anunciou, mas, como sabe, elas em sí não vão resolver nada. O comportamento humano será determinante. Algumas até deviam ficar de vez. Por exemplo, por regra, os bottles stores não estão autorizados a vender bebidas geladas, nem que os seus clientes bebam no local. Mas o que vemos é o transformar destes em autênticos bares, à luz do dia, e a registarem enchentes. Onde andou a inspecção, este tempo todo, para corrigir este atropelo?

Outra coisa, senhor presidente, é que na região Austral de África não se vende bebiba alcoólica aos domingos. Os bottle stores não abrem. Quem quer tomar uma bebida tem que ir a um restaurante ou bar. Nós somos os únicos, senhor presidente, em que tudo fica ao bel-prazer dos donos dos bottle stores. Para começar, abrem todos os dias e fecham a hora que quiserem, num claro vazio do poder.

Acredite, senhor presidente, que somos também os únicos em que se permite beber na via pública. Circular com garrafas de cerveja ou de outro tipo de bebida na mão. Isso é impensável na África do Sul e noutros países da região.

Talvez por isso que os sul-africanos não nos respeitam. Quando chegam aqui, fazem e desfazem a seu bel-prazer e, inclusivamente, lançam o lixo pela janela do seu carro em andamento porque sabem que nada lhes vai acontecer. No seu país não fariam isso nem por bricadeira. Triste não é? Pois é.
Excelência, agora, sim, os polícias acordaram. Andam às dezenas nas ruas da cidade de Maputo, e não só, a fiscalizar o cumprimento das medidas anunciadas. Sabe que eles são chamados de “Mahindras”? Já não são cinzentinhos.

Alguns deles estão a fazer boladas. Pensam mais no seu bolso do que propriamente no que se deve fazer. Admitem o inadmissível. Deixam passar atropelos à lei em troca de dinheiro. Coisas de Moçambique!

Há outra coisa que me preocupa senhor presidente. Ouvi bem o que o senhor disse. Li e reli as 21 medidas que anunciou. Não há nada que diga que os polícias têm que apreender produtos, nomeadamente bebidas alcoólicas de infractores.

Quer me parecer que há algum excesso de zelo. É que os “Mahindras”, desejosos em mostrar serviço aos seus chefes, “prendem” bebidas, no lugar dos prevaricadores. Tudo ao contrário. Ficam, assim, processos-crimes por instruir e enviar ao tribunal para a sua responsabilização. Já agora digam lá para onde é que levam as bebidas “presas”?

Caro presidente, desculpa pelo alongar da carta. Quando me emociono, não paro de escrever. Mas só mais umas coisinhas. O senhor disse que no meio da semana, os restaurantes passavam a fechar as 20:00 horas. Tudo bem.

Mas sabe que na última sexta-feira, dia da entrada em vigor das 21 medidas contra a covid-19, restaurantes da Julius Nyerere continuavam com clientes até às 20:30? Violaram o decreto do Conselho de Ministros logo no início. E ao que parece os “Mahindras” não andam por lá, pois estão ocupados em vasculhar os subúrbios. A história dos filhos e os enteados.

É verdade, o senhor completou, na semana passada, um ano, o primeiro neste seu segundo mandato. Aproveito, desde já, felicitá-lo por isso. Quase todo o mundo está a coleccionar os seus feitos, num ano em que o coronavírus quase paralisou a economia do país, baixando as perspectivas de crescimento para os níveis muito reduzidas.

Uns dizem que o senhor fez chegar água potável à sua aldeia ou comunidade. Para os outros, é a energia. Há os que destacam o seu papel no processo de busca da paz que dominou o seu primeiro mandato. Enfim, há um esforço no sentido de juntar peças para sustentar a tese de que o seu desempenho foi positivo.
Buscam realizações numa situação em que parte significativa das empresas, unidades hoteleiras e outros sectores fecharam as portas, despediram centenas de trabalhadores e algumas delas até hoje não retomaram as suas actividades devido ao coronavírus, cujo número dos infectados está a subir dia-pós-dia e de uma forma assustadora.

É um exercício que decorre ante a guerra em Cabo Delgado que ofusca quase tudo e começa a baralhar as contas e a obrigar às petrolíferas envolvidas nos projectos de exploração de gás natural do Rovuma a mudar de planos.

Uns, adiaram, até agora, o anúncio do investimento definitivo. Outros, como a Total, estão a reduzir os seus efectivos de pessoal no terreno com a ameaça de ataque por parte dos terroristas e os ataques da Junta Militar de Mariano Nhongo que continua a mata cidadãos indefesos, destroi e saqueia bens públicos e privados.
Mesmo para terminar esta minha carta, gostaria de saber se há alguma novidade no diálogo com Mariano Nhongo? Parece-me que o senhor se zangou com ele ao lhe dar um ultimato, sábado passado, para entregar-se às autoridades antes que seja tarde.

Confesso que fiquei surpreendido com o ultimato. É que nas vésperas do final do ano, o homem anunciou uma trégua e disponibilizou-se a iniciar, na segunda-feira da semana seguinte, um ciclo de diálogo com o governo para os mesmos objectivos. De lá a esta parte, não se disse mais nada. Será que chegou a haver contactos com ele? O que terá acontecido ou falhado? Cadê o diálogo?

Bem vistas as coisas até parece que o senhor está a lhe fazer pagar pela mesma moeda já que quando foi a sua vez a decretar a trégua, ele virou-lhe as costas e no dia segunte atacou algumas viaturas.

Mas, senhor Presidente, se me permite gostaria de lhe dizer que mesmo assim devia ter aceite o diálogo com ele. Sabe porque? Muito simples. É que o líder da auto-proclamada Junta Militar não tem nada a perder. Tarde ou cedo será desmobilizado, desarmado e reintegrado na sociedade.
O mesmo já não acontece com o seu governo a quem cabe a responsabilidade de proteger ou garantir a segurança ao cidadão. Sucede quer as pessoas estão a ser sistematicamente mortas e os bens, públicos e privados, saqueados ou destruidos. Ainda não notou que os ataques de Nhongo e companhia estão a afectar a economia. O seu programa de governação. Cria um desgaste da imagem do país.

Bom, termino por aqui desejando-lhe sucessos neste novo ano. Sucessos na governação. Sucessos no meio familiar e na busca de apoios para acabar com o terrorismo em Cabo Delgado. Não é motivo de vergonha que Moçambique seja alvo de terroristas. Não estamos a inventar a roda neste assunto.
Não sei por que razão, mas demoramos muito a reconhecer que são eles, os terroristas, que nos atacam. Agora temos que dizer a todos o que se passa no terreno, incluindo a nós também moçambicanos. Com os parceiros, temos que ser claros sobre o que queremos para que possam pedir autorização aos seus parlamentos para nos ajudar.

Senhor presidente, o senhor foi felicitado, semana passada, quando nomeou e empossou o General Eugénio Mussa para o cargo de Chefe de Estado Maior-General das Forças de Defesa de Moçambique. Dizem que o senhor acertou em cheio, que ele é bom no comando.

Acredito que como ele deve haver mais generais que dirigiram ou participaram nas anteriores guerras e que têm muita experiência ou conhecimento sobre a forma de ser e estar numa guerra, incluindo os que pertenceram à guerrilha da Renamo, hoje membros do exército moçambicano. Eles podem ser úteis na definição de estratégias militares e não só. Não acha senhor presidente? Bom, até mais.

Da pobreza em termos de conteúdo a músicas escandalosas

Registo, com satisfação, o crescimento do sector cultural do país. Há muitos jovens a dedicarem-se à música. Uns, partem do nada e abraçam a carreira. Outros exploram o seu talento na matéria que despertou na sua participação em grupos corais das igrejas. Outros passaram pelas escolas de especialidade para o saber fazer na música.

Por conta disso, há muita diversidade na produção musical. Pessoas que aparecem a canta, tão bem, em programas de televisão dedicados a novos talentos, mas sem apoio para gravar as suas músicas. Outros que já atravessaram essa barreira e, com o seu próprio esforço, conseguiram gravar e hoje contam com alguma fama no mercado. São convidados a actuar em espectáculos musicais, casamentos ou nas casas de pasto.

O que me parece preocupante neste momento é a qualidade das músicas que são produzidas. Somos dados a consumir, no mercado, obras bastante pobres em termos de mensagem. Os seus autores canta e não dizem absolutamente nada de importante.

Por outro lado, há músicas que metem vergonha. Que não dá para escutar em família. Com todo o respeito ao trabalho do artista, não vejo, por exemplo, um chefe de família tocar, em sua casa e na companhia da sua esposa e filhos, a música “yababuluco”. Pode ter até boas batidas e ser popular, mas é, quanto a mim, desastroso.

Tentei apurar o significado de “yababuluco”. Analisei a música em todos os ângulos e cheguei à mesma conclusão que da maioria dos moçambicanos. Que é o pénis que bate nas calças, tanto que alguns, ao dançar, já embriagados, têm a tendência de arrear as calças. Imagens similares têm estado a circular nas redes sociais. Incrível.

Na tentativa de desdramatizar o assunto, há quem diga que se trata de dinheiro que está a bater nas calças, o que, quanto a mim, é menos provável.

Outros, cantando, dizem “Hikombela a ku loywa” ou seja “estamos a pedir que nos enfeiticem”, pedido dirigido aos seus vizinhos. Os autores da música dizem-se cansados de viver bem. Que coisa! Há pessoas que gastam rios de dinheiro nos curandeiros. Investem o seu tempo a frequentar igrejas. Procuram melhores profetas da praça. Tudo isto em busca de salvação porque a sua vida não anda como deve ser. Que estão a ser enfeitiçados. Surpreendentemente há quem se dá ao luxo de pedir publicamente, através da música, para que alguém se encarregue de o fazer música. Que coisas!

Estes são apenas alguns exemplos de um conjunto de músicas bastante pobres em mensagens e despidas de qualidade, em circulação no mercado musical moçambicano. Com este tipo de obra intelectual, os seus autores, entre músicos e produtores, revelam uma autêntica preguiça do ponto de vista de concepção da letra. Dão a ideia de que não sabem qual é o seu papel ou responsabilidade que recai sobre eles na sociedade. É preciso entreter, sim, mas, acima de tudo, educar o público.

A música é um instrumento poderoso através do qual o autor faz passar mensagens, quer sejam críticas ou conselhos sobre como devemo-nos comportar no dia-a-dia. Alguns optam por cantar factos reais sobre, coisas que aconteceram com eles, para que possam servir de exemplo para a maioria. Outros, cantam sobre o amor, como é o caso de Mr Bow, Humberto Luís e Cia. Há músicos que interpretam, nas suas letras, questões sociais a exemplo do falecido músico Fernando Chiure e outros.

O papel de educador estende-se aos outros artistas. Cada um com a sua arte, comunica com o público. Encontramos mensagens interessantes em trabalhos de pintura plástica. Nas obras de escultura, na dança e na poesia.

O artista Malangatana Valente Nguenha, o poeta José Craveirinha e outros participaram na Luta Armada de Libertação Nacional, na clandestinidade, usando a sua arte como instrumento de guerra contra o colonialismo português em Moçambique. Através das suas obras faziam passar mensagens a ilustrar a revolta do povo moçambicano contra o jugo colonial e pagavam caro com isso.

Se querem ser músicos respeitados na sociedade, não produzam só por produzir a música para figurar na pauta musical moçambicana. Antes de tudo, pensem um pouco no que querem transmitir através da vossa música. Façam uma auto-avaliação para verificar até que ponto é que a mesma pode ser um contributo na educação ou moralização da sociedade.

Que sejam vocês próprios a fazer auto-censura do vosso próprio trabalho, expurgando o que não vos valoriza como músicos. Não valoriza a cultura e o país em geral. Não nos obriguem a ter saudades da comissão que analisava as músicas antes de irem ao ar. Ela que foi desmantelada com a entrada em vigor da Constituição da República de 1990 que introduz a liberdade de expressão e de imprensa.

É que nessa altura, algumas músicas eram chumbadas. É verdade que algumas era por razões políticas porque tecnicamente não havia problemas. Não passavam porque a mensagem nelas contida não era politicamente correcta. Mas outras é porque não tinham qualidade.

Que sejam vocês próprios a fazer o papel da referida comissão para que tenhamos música de qualidade em todos os aspectos. O segredo é que olhem para a música não apenas como instrumento de diversão, mas também de educação das massas. Como músicos arrastam consigo centenas de seguidores e estes esperam de vocês algo exemplar e construtivo. Comportem-se!

É momento de pormos “likes” na convenção de Berna (?)

O ano é 2021. Depois das felicitações que auguram um ano próspero, chegam-nos, a partir das duas margens do Atlântico, pombos-correios e a correspondência que nos trazem não nos surpreende mas desola-nos e convida-nos a reavivar Mikhail Backtin, Júlia Kristeva e os tratadistas do famigerado Convênio de Berna para a Proteção das Obras Literárias e Artísticas adoptado em 1886.

Realmente, a surpresa é de longe o que nos acomete nestes dias. Não é para menos: temos também poeira por sacudir e lá pelo piso em que o tapete pousa, vemo-la promiscuindo-se com actas de prêmios, matérias para litígios que resvalaram pelo também salutar acordo entre cavalheiros, enfim, é matéria para outra conversa.

Atemo-nos à desolação a que todos estamos acometidos sempre que desponta uma acusação de plágio mesmo que tal se faça entre a troca de acusações em que o acusado só o é quando no diálogo assume o papel temporário de receptor. A nós outros basta a auscultação do disse que não disse para abandonar a conversa e atentar-nos ao que realmente é material: a ter acontecido, é grave para um sistema literário que se quer sério. Neste caso, não nos referirmos, especificamente, ao da “banda do semba” e sim ao fenômeno em si que é, antes, humano e remonta as primeiras vivências do homem de tal forma que não é ao acaso que Eclesiates 1:9 sentencia: nada há que seja novo debaixo do sol.

Dirão os mais dados a suspeitas que nem Bakhtin nem Kristeva, ao falar de dialogismo e intertextualidade, respectivamente, não criaram apenas tornaram-se copistas daquele livro bíblico. Que se diga, para os radicais não foi algo novo a julgarmos pela intencionalidade. Ora, do ponto de vista de revolução conceptual, é até uma heresia questionar o contributo daqueles conceitos.

Deixem-me abandonar este ecletismo sob o risco de, num ano ainda em embrião, ser-me vestida a beca de advogado do diabo e coloquemos os traços nos ts: a intertextualidade é sublime; o plágio é vil; a disposição de textos sem registo nem possibilidade de arquivo que sirva de evidência é imbecil.

Benditos são estes tempos em que as redes sociais e outras plataformas virtuais permitem que os autores a seu modo e gosto se façam conhecer no mercado literário. Tristemente, nem tudo são rosas. Quantos textos são publicados em plataformas virtuais sem sequer registo? Quantos pseudoautores publicam textos alheios sem assinatura e a cultura do “share” os “canonisa” como sendo legítimos criadores? Quantos plágios ocorrem e minguam no simples facto de não haver evidências sobre a legitimidade das lamúrias do queixoso?

A estas podia, caro leitor, acrescer outras questões se lhe tivesse ocorrido um texto igual ou se pela via do plágio assinasse este mesmo texto mas como de praxe nestas “bandas” resolvíamos isso “cá entre nós”. Novamente, esta conversa não é para hoje.

Estas mesmas questões não só desnudam o nosso desaire pelo “like” sem nos atentar ao perigo da expropriação dos textos por farsantes como também reenvia a nossa conversa ao apelo que se devia fazer norma por parte da Sociedade Moçambicana de Autores no sentido de, primeiro, esclarecer aos incautos sobre as nuances da propriedade intelectual (ou direitos de autor, para ser mais específico) e, segundo, dinamizar o processo de registo dos produtos da criatividade e do engenho humano.

 

Mudança: Como gerir um processo de mudança

Segundo www.infopedia.pt mudança pode ser definida como sendo: “acto ou efeito de mudar; “introdução de novidade no modo habitual de fazer algo”; “processo pelo qual algo ou alguém se torna diferente do que era”; “alteração, modificação, transformação”.

Diante da inovação rápida do mundo tecnológico, as empresas e as pessoas estão em constantes mudanças. Nas empresas podemos definir mudanças como sendo processo que visa atingir novos objetivos. As razões, que motivam a necessidade de uma mudança em ambiente empresarial, podem ser de nível tecnológico, operacional, estrutural, estratégicos, econômicos ou  sociais.

O controle de assiduidade dos colaboradores, usando um sistema de “Finger print”, era o novo projeto da empresa. Gerson, confio-lhe a gestão deste projeto: disse-me o meu manager na altura. Depois de meses a percorrer a empresa para a montagem das máquinas, cuja a instalação havia sido confiada a uma empresa Sul-Africana, chegou o momento de colocar o projecto em prática. O resultado foi quase nulo, mais de 80% dos colaboradores não aderiram à solicitação da direção. Os meus colegas diziam: “Gerson, tuas máquinas” quando se referiam ao sistema

 Hoje, acredito que o  fracasso deste projecto foi resultado da minha  incompetência, na altura, na gestão de projectos, aliada a falta de conhecimento sobre relações humanas. Minha arrogância e vontade de me sentir importante não me permitiram ter lucidez suficiente para compreender que eu representava apenas uma parte mínima do projecto. Recordo-me que por vezes passavam colegas e perguntavam “Gerson, Khasi amulungu ayentxa yini”?* Fazendo referência ao técnico sul-africana que montava as máquinas. E eu não respondia ou respondia torto (“estória” de criar suspense; me dar importância).

 Ao nível do Governo moçambicano também já vimos vários projetos fracassarem, como é o caso do projeto  “jatropha” pensado pelo sua excelência Armando Guebuza. Me lembro de ver na televisão que todas as vezes que o ex-presidente falava do projeto, falava como projeto próprio, no qual nós o povo devíamos apenas seguir. Embora o fracasso do projecto não esteja  apenas ligado à questão de gestão, resta um exemplo de projeto em que os principais actores são incitados apenas a seguir e não a colaborar.

Resistência à mudança

Os seres humanos são os únicos seres vivos com a capacidade de racionalizar uma mudança de vida. Nós temos  capacidade de mudar a nossa maneira de ser, de estar,  de adquirir novos hábitos e costumes, mudar lugar, de parceiros, de alimentação ou mesmo de aprender novas línguas antecipando necessidades. Enquanto que os outros seres vivos, não racionais, mesmo quando mudam, geralmente o fazem em resposta a um estímulo externo (p. ex uma alteração ao seu meio) ou obedecendo a códigos genéticos e instintos. No entanto, nós seres humanos somos muito resistentes quando se trata de fazer mudanças, sejam a nível privado ou profissional. Somos muito apegados aos nossos hábitos, costumes e principalmente cultura (organizacional incluso). Os hábitos são um tipo de memória consolidada nos nossos cérebros e que nos permitem realizar certas atividades de maneira quase inconsciente. Nossa resistência a mudanças vem de um lado das nossas “crenças” mas também do “medo”. As nossas crenças são geralmente criadas e consolidadas durante a infância. O medo de novo nos paralisa, o medo faz com que sejamos apegados às nossas crenças como forma de nos protegermos do sofrimento, esta é uma das características inatas dos seres humanos.

 Como gerir com sucesso um processo de mudança

Para efectuarmos da maneira acertada qualquer tipo de mudança no seio da empresa  a escolha do gestor do projecto é primordial, sem esquecer que as “outras partes envolvidas” devem ser consultadas antes, durante e depois da implementação do projeto.

Um processo de mudança nas empresas deve ser bem analisado. Primeiro saber se a mudança é necessaria:  se os resultados actuais são satisfatórios não existe necessidade de efetuar qualquer tipo de mudança, salvo excepções. No entanto, podemos medir os riscos e ameaças do projecto para saber se realmente vale a pena mudar ou não. Em seguida é preciso passar por um processo de comunicação, que visa sensibilizar as partes envolvidas a se engajarem no projecto, é nesta altura em que o gestor do projecto joga um rol importante. Suas qualidades em gestão de pessoas e sua capacidade de comunicação serão colocados à prova. Assim que as partes envolvidas se sentem confortáveis com a mudança, ou percebem a sua importância para o sucesso da empresa, juntos e em equipe pode se planejar o processo de mudança na empresaCapacitação e treinamento são uma parte importante do processo, pois por mais que o projeto seja bom, se os colaboradores não estiverem preparados para usar a nova tecnologia p.ex, o projecto poderá resultar num fracasso. implementação, monitoria dos resultados e  ajustes vem a seguir e nesta altura também, o trabalho em equipe é necessário para o sucesso do projeto.

Quando um processo de mudança nas empresas segue mais ou menos estas directrizes, as chances de sucesso são consideráveis.

Mudar faz parte da vida. Conforme envelhecemos, adquirimos novas experiências e vivências, nossa mente expande, nossas ambições profissionais, bem como as pessoas, evoluem, a mudança é natural e não deveríamos ter medo. Os passos, acima referidos, para um processo de mudança eficaz no seio das empresas, podem servir para fazer mudanças nas nossas vidas (privadas e profissionais), obviamente com algumas alterações. Não é fácil, mas é possível sair de uma situação profissional e pessoal desastrosa se implementarmos com coragem os métodos que convém à situação, associados de persistência, consistência e sobretudo de muita fé. É sim possível conseguirmos o trabalho dos nossos sonhos ou empreendermos na área que desejamos, assim como ter uma vida privada próspera.

Para terminar gostava de  dizer que mudanças fazem parte de um ciclo de vida. Se nós não mudarmos, as coisas mudam é inevitável. Iniciamos um novo ano que se apresenta próspero, depois de um 2020 inédito. 2020 foi um ano cheio de desafios mas também de muito aprendizado. Já iniciamos e teremos de dar continuidade a um processo de mudanças nas nossas vidas privadas e profissionais, temos de ter coragem para as enfrentar, como diz o nosso prestigiado artista  Stewart Sukuma no seu mais recente single “acreditar que tudo vai ficar bem” e eu acrescento dizendo que: “juntos somos capazes”! É assim que temos de enfrentar os desafios que 2020 deixou ao nosso Moçambique em quase todos os  domínios. Bom ano de 2021 a todos moçambicanos.

 

*Gerson, o que o branco está a fazer afinal? (changana: língua do sul de moçambique)

Recomendação de Música a escutar em Janeiro de 2021: “Acreditar – Stewart Sukuma”

Samuel Gerson Andrisse

Especialista de recrutamento

Autor do livro “Be ready for your next job interview”

 

 

B’ava Quixote da Machava

“Dom Quixote da Mancha”, de Miguel de Cervantes, escrito no século XVII, é tido como o romance fundador da literatura europeia. O livro que o leitor tem em mãos não é fundador da literatura moçambicana, nem mesmo da ciência política moçambicana. É um livro sem esse peso histórico, mas que corre o sério risco de, um dia, ter que assumir peso idêntico. Ele percorre os meandros da ciência política, da ética, da religião, da ciência económica, da teoria de gestão e do realismo mágico do nosso quotidiano para inaugurar um género literário. Trata-se dum género que faz um assalto sistemático e erudito à complacência e desmonta de forma implacável os alicerces duma narrativa que vê Moçambique onde ele não está e, provavelmente, nunca estará, sobretudo se ele não se emancipar desses alicerces que fundamentam essa narrativa e servem como correntes à imaginação e inteligência dos moçambicanos.

É um género desconcertante. A mão que empunha a pena através da qual o livro ganha substância e existência, é a mão duma mente erudita tímida que pela modéstia com que expõe o seu pensamento profundo até parece ter vergonha de ser o veículo de verdades que ninguém quer ver, ouvir ou mesmo contemplar. Os temas são complexos, a sua fundamentação revela um autor lido, mas a mensagem, a sua mensagem central, parece clara como as águas das Cataratas de Namaacha quando ainda não tinham desistido do País como parece ser o caso agora. É a mensagem que nos diz que Moçambique não é o que pensamos ser e, por isso, o seu futuro não vai ser necessariamente a realização do sonho que confundimos com a sua idealização. Moçambique, insiste a mensagem deste livro, é o que está enterrado nos argumentos dos livros que lemos sem entender. É o que se precipitou pelas fendas duma estrutura económica e política mundial que se insinua como a negação de si própria. É, como escreve o autor, a confusão entre legalidade e justiça, estradas e desenvolvimento, que faz do que nos tem sido dito como sendo o caminho para a prosperidade o caminho para a perdição. Para Moçambique ser, os moçambicanos precisariam de desenvolver e cultivar o hábito de ler contra a corrente, justamente o exercício a que se entrega o autor nestas linhas que misturam o sentido do ridículo que dá a verve à escrita de Mia Couto, a redacção obsessiva e sem fôlego de Ungulani ba ka Khosa e o encantamento que faz a escrita de Paulina Chiziane.

“Dom Quixote da Mancha”, o romance, foi festejado na Europa após a famosa Revolução Francesa como a manifestação literária da improvável, mas não impossível situação em que uma pessoa está do lado da razão numa sociedade equivocada. Em cada linha que compõe esta reflexão fascinante sobre vários aspectos da nossa sociedade, o autor deste livro vai tecendo argumentos que tornam essa ideia cada vez mais plausível. O alicerce é a tese central do livro que se insinua como uma sentença: Moçambique não existe. Os recursos intelectuais e políticos de que dispomos para pensar Moçambique constituem-se como uma negação desse exercício e, por isso, o que urge fazer, é repensar os próprios termos que tornariam o pensamento possível. Não é que esse Moçambique realmente não exista. Existe numa versão específica, a versão cantada pelos Ghorwane naquela sua composição que mostra um mundo virado de avesso, o mundo em que ladrão persegue polícia, doente foge do hospital, deficiente físico recusa muletas, etc. Persistir na ideia de desenvolvimento evocada por este Moçambique é cultivar o quixotesco no lugar de despertar do estupor conceitual que nos entorpece.

Os maus hábitos de pensamento que nos devolvem um Moçambique pronto-a-vestir são uma espécie de prisão. Só quem procura refúgio na liberdade do pensamento crítico é que logra a liberdade. É preciso estar confinado para evitar a prisão gigantesca que é o mundo ilusório da verdade simples, o mundo feito dos bons e dos maus cujo reconhecimento se faz facilmente porque a intuição ética não se constitui na nossa vivência, mas sim numa narrativa normativa que nos faz reféns felizes da promessa dum mundo melhor. A crítica a isto faz o conteúdo deste novo género literário. É uma leitura contra a corrente e, por isso, crítica. O género procura recuperar o que nunca existiu, ou se existiu, apenas como fantasma de si próprio assombrando o nosso futuro.

O autor diz, de forma mordaz, que vamos precisar de nos sentarmos para aguardarmos serenamente pela chegada desse futuro melhor. Quem tem a perspicácia de dizer isto deve estar sentado num lugar muito privilegiado. Aos seus olhos a sociedade deve ser uma espécie de panóptico, opaca para quem está de fora e totalmente incrustável para quem está lá dentro. Nunca fez tanto sentido sair da sociedade para melhor a ver. Nunca fez tanto sentido prestar atenção ao ridículo para entender o sério. Nunca fez tanto sentido ser quixotesco para aferir a gravidade de viver num País onde o juízo fácil transforma a razão fátua no modelo privilegiado de abordagem do destino de milhões de pessoas.

Este é um livro para os fortes de espírito, para aqueles com o dom da introspecção, para os que protegeram a sua mente dos desvarios da razão indolente. É um livro para aqueles que não querem sucumbir ao canto das musas do discurso de desenvolvimento que se reproduz no sacrifício de indivíduos no altar onde razões estruturais deviam estar a arder. É preciso lembrar, e ter sempre presente, que Miguel de Cervantes escreveu o prólogo do livro que inaugura a literatura europeia numa cela. Se tivesse sido moçambicano, o seu romance teria sido chamado “O Senhor (B’ava) Quixote da Machava” para inaugurar a leitura do grotesco que faz a nossa existência.

Basileia, 4 de Outubro de 2020.

 

*Prefácio do livro Chova xitaduma (crenças, paradigmas e doutrinas mutáveis), de Paulo Zucula. O livro estará nas livrarias na próxima semana.

Os anseios de uma sonhadora militante: Farida Gulamo.

As histórias de superação de vida, em Moçambique e no mundo, se sucedem. Algumas se mediatizaram, porém, a maioria, continua anónima e reservada. Vencer faz parte do ser humano. A maior beleza da superação tem sido o positivismo, as acções de fé, esperança e a auto-estima. Farida Gulamo, a mulher que veste o rosto e espírito do associativismo, em Moçambique, faz parte desse distinto grupo dos que demonstram tenacidade e sagacidade, muito para além do comum. Uma trajectória de dificuldades e privações, contudo, de requintadas e memoráveis vitórias.

A superação pode ser entendida como uma opção. Não importa o estado de saúde ou físico. As pessoas podem escolher entre dar importância as decepções e enfatizar as falhas e deficiências, vivendo com amargura e tristeza ou, pelo contrário, lidar com os problemas e encarar esses momentos como aprendizagem e tempos de responsabilidade para sua própria felicidade. Assim tem sido a Farida Gulamo. Por vezes, incompreendida e desacreditada, ela tem liderado processos e associações que lutam pela equidade, pelos direitos humanos e pelo respeito institucional, de forma incontestável, ao longo de mais de 50 anos.

Com a história do maior génio do século XX, o criador da teoria da relatividade, Albert Einstein, que foi considerado um mau aluno e completamente inútil, pela maioria dos seus professores, se aprende a lição da persistência, do valor da luta pelos sonhos. Farida Gulamo nasceu no Ilhéu, na primeira capital de Moçambique, naquele célebre hospital que, em 1952, foi tido como a maior estrutura hospitalar da África ao sul do Sahara. Depois, a vida lhe ensinou a lutar pelos seus sonhos, nunca virar a cara à luta, nem depender de quem quer que seja.

O associativismo e a luta pela inclusão social dos grupos excluídos, em Moçambique, certamente, possuem várias motivações e rostos. Alguns, mais visíveis e outros menos. Diferente das histórias das epopeias ou das grandes batalhas, das lutas emancipatórias e das vitórias sobre a dominação estrangeira, o associativismo se respalda em cidadãos de boa vontade, com forte capacidade de liderança, com pendor de agregar valor às suas pretensões e, sobretudo, com essa facilidade mobilizadora, modificando as percepções e os preconceitos.

Tal como os escritores, os principais líderes associativistas transportam, no seu DNA, a responsabilidade de transmitir, à sociedade, valores fundamentais de luta e persistência, bem-estar social, convívio salutar, equidade, igualdade de direitos e a melhoria das condições dos grupos excluídos e minorias. Os nomes por detrás destes movimentos são marcantes e fundamentais nas mudanças de políticas públicas, postura governativa e uma resposta às suas demandas.

A génese do associativismo e da luta pelos direitos humanos e pelos direitos das minorias é diversificada, remonta ao período de ocupação estrangeira colonial que, inclusivamente, condicionou o seu surgimento. Eduardo Mondlane foi associativista e, à semelhança de tantos outros, corporizou os movimentos incipientes, no país. Nos últimos anos, o associativismo abarca, grosso modo, redes de indivíduos e pequenos círculos sociais nas igrejas, escolas e bairros, liderados por jovens. Se é verdade que todos pretendem institucionalizar e obter reconhecimento governamental ou das ONGs, elas são, ainda, dependentes de apoios financeiros de organizações internacionais, apesar de suas agendas e dos grupos que representam.

Farida Gulamo que, em 2020, colheu as suas 75 risonhas Primaveras, esteve na base da criação da Associação dos Deficientes de Moçambique (ADEMO). Assumiu o cargo de secretária executiva e, apoiada pelo governo, expandiu a associação para todos os cantos do país. Fê-lo, na época, 1989, com o apoio de um outro cadeirante, o saudoso Jorge Tinga, persistente e multifacetado, que este ano nos deixou e, com muita saudade. Portanto, eles fazem parte dos anais do associativismo moçambicano.

Farida Gulamo, esta persistente e dotada mulher, destemida e de fortes convicções, tem sido um exemplo de uma activista social que virou referência, obrigatória e incontornável e que contribuiu, de forma abnegada e exemplar, na luta dos deficientes por uma integração e reconhecimento. Ela se desdobra entre os activistas da educação, do género e dos deficientes. Nessa condição, participou em diferentes fóruns mundiais, visitou vários países e ergueu bem alto a bandeira de Moçambique, em conferências especializadas.

Este ano, com sua entrega e de todos seus colegas, voltou a realizar a assembleia-geral da ADEMO, depois de mais de 14 anos de inactividade. Fê-lo em momentos de pandemia da COVID-19, quando o mundo parece ter virado as costas à humanidade. Diante do resguardo e ausência de apoios, ela quis provar aos colegas que a vida tem de continuar e, sobretudo, que eles não estavam esquecidos. Farida veio para o mundo numa condição física normal. Por conseguinte, tem um chip que a faz pensar em normalidade, de forma permanente. Assim, decidiu sair à rua, solicitar apoios e reactivar a ADEMO. Remar na contramão da inactividade e ajustar o seu mindset às novas normalidades. ADEMO terá de funcionar descentralizada, com eleições democráticas dos seus gestores, mas, ao mesmo tempo, com maior diversificação de suas fontes de receita e financiamentos.

Recentemente, ela abriu sua alma e falou-nos nessa trajectória de luta e afirmação de identidade, de sofrimento e exclusão. Reviu os difíceis tempos da Namaacha, onde fez uma das dezenas de formações, como monitora. Não se esqueceu da rigorosidade do Inverno que debilitou ainda mais seus músculos locomotores. Recordou-se de memórias salutares, dos tempos de infância nos quais, mesmo com as muletas, jogava à bola e participava de outras brincadeiras com seus amigos de bairro. Sem exclusão e total solidariedade. Aliás, foi assim como cresceu, como frequentou os liceus, o magistério primário, a faculdade de ciências de educação e outras.

O seu sonho foi sempre de seguir medicina. Mas, os condicionalismos forçaram a seguir a carreira de educação. De uma família de enfermeiros, teve dois irmãos e três filhos, um deles já falecido. Trabalhou em diferentes instituições e províncias. Ministério da Educação e no Instituto Nacional de Desenvolvimento de Educação (INDE), em escolas em Quelimane, Inhambane, Chokwé e Maputo. Sua luta tem sido a de não aceitar a discriminação e o preconceito. Este é o sentimento que passa aos seus colegas e amigos, de todo o mundo. Ela levanta, com orgulho, a ADEMO e todas as associações de cegos e amblíopes de Moçambique.

Uma das suas maiores alegrias pode ter sido à de chegar a independência deste país, que ama, já com 30 anos de idade, amadurecida e com sonhos. Sonhava num novo estágio na sua vida. Sonhava com um país sem discriminação e com tolerância.  Um país de oportunidades, de paz e de fraternidade.

Ainda vai viver para ver um novo arco-íris e, sobretudo, um país reconciliado e com uma educação moderna e utilitária, uma juventude responsável e com empregos, casa e com seus direitos respeitados. Um país sem fome e onde todos serão tratados da mesma forma e com o mesmo respeito. Um pais de todas as utopias e reconciliações. Estes são os sonhos de uma sonhadora militante. (X)

 

Da história da Maria Amélia

O filhinho da Alicinha ia completar seis meses de idade. Ela pensou que era já altura de mostrar o bebé aos familiares do falecido marido. Assim, propôs à Julia:

“Se tiveres tempo no Domingo poderias acompanhar-me à casa da minha cunhada Melita, a irmã mais nova do Martinho”.

“Não vejo problema, também preciso dum tempinho para descansar”, respondeu a prima, a descortinar uma oportuniadde para soltar os olhos dos panos e das agulhas da costura.

“Coitada, ela teve um problema tão grande que quase a levava a suicidar-se”, adiantou a Alicinha , a aguçar a curiosidade natural da prima.

“Heish!, nesta família do teu falecido marido só acontecem coisas estranhas. O que foi que aconteceu à tua cunhada?”, perguntou a Julia.

A Alicinha ajeitou o seio à boca do filho para amamentar, aconchegou-o melhor ao peito e desvendou os eventos principais que conduziram à desgraça em que vivia a cunhada Maria Amélia.

“Como disse, a Melita é a irmã mais nova do meu falecido. Uma mulher bonita, desejada por muitos homens, alguns até muito instruídos, de boas famílias. Embora não tenha estudado muito, era muito inteligente e conservada. Ia à missa e ajudava toda a gente. Quando chegou a vez de namorar rejeitou boas propostas de pedido. De tanto escolher foi cair nas mãos de um chingondo chamado Bernabé, vê lá só tu!, um nortenho que acabava de chegar a Lourenço Marques, depois de cumprir com a tropa. Nem sei onde se encontraram, mas a verdade é que nem demorou tanto e já estavam a namorar. Ele conseguiu alugar uma casinha de madeira e zinco ali na zona da Maria Caldeira, perto da cantina do Dias.

  Ela ia lá visitá-lo com muita frequência, sobretudo aos fins-de-semana. Conforme ela nos disse depois, o tal era agente da Pide-DGS e andava a fazer espionagem da população aqui nos bairros. Como sempre sucede com gente boa e honesta, ela foi enganada por ele e ficou de grávida. Toda a gente ficou de boca aberta. Nem dava para acreditar que uma moça tão recatada e ajuizada se deixasse cair nas garras daquele bandido. Ele nem quis responsabilizar-se por ela, nem pelas filhas gémeas que depois nasceram. O meu falecido é que teve que aturar tudo. Até chegou de brigar com o tal e até foi deixá-la lá em casa dele. Mas o tal nortenho mandou-a embora depois. E ela voltou para casa, cheia de arrependimento. Continuou a trabalhar e a sustentar as filhas o melhor que podia.

“ Quando as crianças completaram três anos ela achou por bem meter queixa no tribunal, para o sustento das miúdas. E conseguiu que ele fosse obrigado a pagar uma mensalidade. O homem andava furioso com ela e tudo fazia para fugir às suas obrigações de pai e às ordens do tribunal. Até que chegou aquele dia em que ela foi  exigir uma mensalidade que já andava atrasada. Ele vivia com uma moça chamada Sãozinha, filha de um assimilado do bairro Fajardo, toda vaidosa, alta, muito bonita., mas bem ordinária.

Quando a Melita lá chegou estavam os dois a matabichar. Era num Domingo e ela vinha da missa na Igreja da Missão de S. José. Mal sabia que aquele era o primeiro dia no inferno que passaria a ser a sua vida. Depois de pedir licença, ele mandou entrar. E começou aquela discussão em que ele a empurrou, chamou-lhe nomes feios…sua isto!..sua aquilo…Só visto! Então a nova mulher dele meteu-se no assunto. Brigaram e brigaram bem.

Então o tal Bernabé resolveu separá-las e sentar-se com elas para apaziguar. Aquela mulherzinha parecia afinal compreender a situação porque, conforme as palavras da própria Melita, aquela disse: “ Olha, mulher, nada tenho contra ti, vocês conheceram-se antes de mim, tiveram as tais filhas juntos, mas o que não admito é vires à minha casa num Domingo como este, perturbar o nosso descanso e exigir coisas que não deves. Como posso aceitar viver com essas miúdas se nem sou a mãe delas? Que mãe és tu que queres desambaraçar-te dos teus filhos e vir largá-los aqui diante duma estranha que eu sou? Tem juízo, mulher. Nunca vi uma mãe que quer abandonar os filhos, seja por que motivo for”. O caso é que a Melita não tinha razão. Já namoriscava por aí com um outro rapaz que lhe dizia que só poderia casar com ela se entregasse as filhas ao pai. A questão estava toda aí”.

“ E acho que o moço tinha a sua razão. Ninguém quer, nem gosta de ser obrigado a criar os filhos dos outros”, disse a Julia.

“ Se fosses tu o que farias, Julia? Isso é tudo muito complicado”.

“ Comigo seria assim: ou ficas comigo e com os meus filhos, ou nada! É pegar ou largar. Filhos meus não dou a ninguém”.

“ Isso nunca deu certo. Sempre há problemas entre o casal por causa de filhos doutros casamentos. Ainda vou-te contar muitas histórias acerca disso”, contrapôs a Alicinha.

“As duas mulheres não se entendiam. O Bernabé já nem sabia para que lado virar-se; se ficar a favor da mulher actual e perder as filhas, ou perder a mulher e ficar com as filhas; estava num beco sem saída.Um dilema na mente de um homem que queria assumir-se ao mesmo tempo um pai e esposo responsável. Tentou negociar uma solução: fazer as pazes e depois chegar-se a um acordo. Proposta rejeitada: ”…não entro em acordos com ninguém…se quiseres ficar com ela pois então fica…isso é um pretexto para conseguir uma entrada na nossa vida, porque terá de vir ver as crianças…e tudo vai recomeçar…comigo não vai dar!…”, era o ultimato da dona Sãozinha que assim virava o bico ao prego: “…o culpado maior desta barafunda, desta pouca-vergonha, és tu, sem tirar nem pôr! E para acabar com esta palhaçada quero esta mulher fora do meu quintal. E é já!”, a Sãozinha levantou-se do assento onde o marido a colocara. Agarrou a Melita pelos braços e começou a arrastá-la em direcção ao portão de saída. O marido interveio para tentar separá-las. Em vão, a São parecia ter cola nos braços. Uma barafunda dos diabos: trocaram bofetões e arranhões, e rasgaram-se as roupas. A vizinhança acorreu ao quintal e chegou a tempo de testemunhar aquele golpe fatal quando a Sãozinha enterrou os dentes no rosto da Melita e arrancou-lhe um grande pedaço do lábio superior. Cuspiu-o e esmagou-o com os pés, irremediavelmente conspurcado e contaminado,  triunfante e orgulhosa do seu acto.

De nada valeram as operações e os cuidados dos médicos no Hospital Miguel Bombarda. Fizeram enxertos e outras coisas mais, mas de nada valeram à Melita. Ela hoje anda sempre com um lenço no rosto, para cobrir os dentes que estão à mostra, desprotegidos pela cortina do lábio amputado”.

“ Essa mulher foi muito cruel. Se eu fosse a Melita matava essa dona São”, disse a Julia, enfurecida.

“ Mete muita pena ver assim uma mulher que já foi bonita, cheia de amigas e favorecida pelos homens. Hoje é uma sombra dela própria, a fugir de tudo e de todos, todos a evitarem a sua companhia como se ela fosse uma leprosa. Mete mesmo pena”.

“ O que foi feito das filhas?”, quis elucidar-se a Julia.

“ Sabes duma coisa? Nesta vida há pessoas com muita sorte: a tal São não pode conceber filhos, mas ganhou as gémeas. Agora todos encontram-se a viver no norte, em Vila Cabral, que é a terra-natal do Bernabé. A minha cunhada vive de vender peixe no bazar do Diamantino. Se lá fores e vires uma mulher que usa uma máscara de lenço na cara ficas a saber que é a minha cunhada, a Maria Amélia.

 

 

Apresentação do livro “Além do Túnel: Ensaios e Travessias”

Apresentação do livro “Além do Túnel: Ensaios e Travessias“,

de Francisco Noa.  Kapikua Editora, 2020.

 

Quando lemos livros ensaísticos e literários, não raras vezes atemo-nos à forma, ao estilo, à perícia e deleite com que o autor se faz artífice das letras e palavras. Em seguida, exploramos à fundo a densidade e/ou complexidade dos assuntos e temas arrolados. Em todos estes quesitos, nesta obra, Francisco Noa superou-se.

Ao reunir textos escritos ao longo de sete anos em diversas circunstâncias em que transitou e papéis que vivenciou, nesta obra, com tão sugestivo título, “Além do Túnel: Ensaios e Travessias“, Noa impersona um prelúdio autobiográfico, não necessariamente centrado na caracterização de si, como individuo singular, mas através duma poderosa demostração da vastidão de capital intelectual e cultural que domina, evidenciado pela genica com que:

  1. i) mapea e analisa o campo das literaturas e das artes (em Moçambique, África e mundo afora;
  2. ii) analisa e interpreta temas e problemas que atravessam múltiplos domínios, Literatura, Artes e culturas, Educação, territorialidades, Identidades, ética e justiça, e Cidadania e ainda se banha no Oceano Índico, qual plataforma de líquidos sentidos;

iii) aciona e instrumentaliza referências teóricas e autorais diversas (locais e globais); com admirável rigor, invejável estilo de redação, sagacidade analítica e interpretativa.

O que Noa diz que Samora Machel fazia com a voz (impostação), o corpo (performance) e os gestos (imperativos), particularmente característicos de um exímio e carismático orador que era, ele fá-lo também aqui neste livro, com suas letras e palavras.

Desconfio sempre que dizem que uma determinada obra “é de leitura obrigatória”: Primeiro, porque é despropositado para a função e papel dos livros como ferramentas libertadoras, de suporte pedagógico e plataformas de aso à imaginação; Segundo porque a ideia de obrigatoriedade parece-me relativamente pouco fecunda e inspiradora, contraposta à de liberdade. Talvez por isso, não vá eu dizer que esta é uma obra de leitura obrigatória… mas que é daquelas obras que todos os que se interessam pela literatura, artes, culturas, identidades e educação deviam ter a liberdade e oportunidade de ler.

Pelo introito, já devem ter percebido que este não é um livro de fácil navegação, pela diversidade de textos que congrega, temas abordados, circunstâncias e/ou ocasiões em que foram escritos, excepto pela sistematicidade organizativa e creio editorial dos ensaios através dos quais Noa convida-nos para esta travessia ensaística e olhar “Além do Túnel”.

As três unidades temáticas que perfazem o livro: i) Travessias; ii) Literatura; e, iii) Educação; têm a utilidade heurística de organizar a vida “Além do Túnel”, mas são enganadoras pela inter-permeabilidade dos conteúdos, travessias e recorrências temáticas para além da consistência narrativa e analítica que o autor preserva a cada subtítulo. Um explicito exemplo do que digo, transparece no ensaio “Como implementar uma política do Livro em Moçambique” que integra a Parte I – Travessias, mas que facilmente poderia enquadrar-se sob a égide temática “Educação”, na Parte III, sem prejuízo da fluidez textual e temática. Esta complementaridade e possibilidades de intercambio de tópicos e temas acabam conferindo uma autonomia ao leitor para, querendo, subverter a ordem sequencial e explorar os ensaios ao sabor dos interesses instrumentais de leitura, deleitar-se, a bel prazer, com os mais de trinta ensaios, incluindo uma entrevista, que compõem a obra. Querendo, basta abrir e ler!

À rigor, no Capítulo das Travessias, o autor realça a importância das dimensões de política, indissociáveis de uma cultura de leitura. Mais do que estabelecer políticas de livros em si, enuncia todo um questionamento sobre a base dos défices estruturais de leitura em Moçambique, suas implicações e riscos de sustentabilidade para um país que lê pouco. Neste e em tantos outros ensaios, a maturidade intelectual e sociopolítica do autor possibilitam que enuncie propostas proactivas para dialogar e/ou responder ao que na obra surge como dilemas de desenvolvimento sociocultural e político.

Para Noa, a leitura é sem sombras de dúvidas,

“um dos principais veículos para a obtenção, alargamento e       sistematização do conhecimento em (…) todos os domínios    existentes, concorrendo, decisivamente, para alargar o horizonte das pessoas” (pp:20).

Este exemplo de avançar com interpretações e propostas de respostas interventivas fazem do autor e desta obra, em particular, um espaço de engajamento cívico e de avanço com propostas de governação e gestão, sem sacrificar a obrigatoriedade da compreensão e interpretação equidistante dos factos. Neste aspecto Noa vinca:

“A questão do livro de leitura não responde a imperativos particulares ou de curto prazo, mas sim a imperativos nacionais, aos destinos de um país, que decide comprometer-se verdadeiramente com o futuro, com o progresso e com a humanidade, no seu todo” (pp: 25).

Por esta obra, Noa revela-se um autor desconcertante, pela capacidade de, ele próprio, adoptar e assumir uma postura narrativa, que se distancia dos ensaios analíticos e interpretativos fortemente presentes na obra, para assumir o papel de encantador narrador que abusa de recursos linguísticos e estilísticos  para cronicar peculiares dimensões da vida. Sua paixão pelas viagens, portanto, pelas “travessias” presentes no título, transportam o leitor através, digamos assim… dum túnel do tempo para lugares de exuberantes memórias e registos.

Após visitar Luanda, pela pena do Noa, aquela cidade jamais será a mesma. A minúcia com que descreve Luanda é de deixar qualquer um estarrecido pela densidade das emoções que empresta, ainda que possa, como moçambicanos, deixar-nos enciumados.  Melhor dito, a descrição que faz sobre Lichinga, em Niassa, já de volta ao solo pátrio, assume os sabores dos alimentos, ricamente diferente do que descreve do que viu/viveu em Luanda. Para Noa,

“A vitalidade cultural desta urbe imensa [Luanda] e em franca    expansão, apesar de alguma desordem à mistura, que não deixa,     mesmo assim, de concorrer para um fascínio particular, não deixa     ninguém indiferente” (pp:29).

Os lugares nesta obra  assumem, efectivamente, funções vitais, muito para além de referências espaciais e geográficas, mas a forma de territórios prenhes de simbolismos e significações ou, como Noa bem diz, “paisagens socioculturais”, “etno-paisagens” que demandam uma “competência intercultural” para nelas navegar. A alusão que o autor faz ao bairro da Mafalala não poderia ser mais ilustrativo!

Esta linha narrativa, concorre para a complexificação da obra, potenciando um prazer de leitura quase cronista e poética, com intervalos de análise crítica e interpretativa de vários textos e temas literários, além de intervenções de cariz programático, como recorrentemente o faz quando aborda questões da educação, do ensino superior, destes “tempos líquidos”, dos multilinguismos, das trans-nacionalidades e das interculturalidades que perpassam os três grandes capítulos temáticos que compõem o livro.

As reflexões que o autor faz sobre a “A sociedade do conhecimento” evidenciam a sua preocupação e compromisso com a erosão de valores, com a ética e moralidade, numa conjuntura em que o volume e velocidade da informação difundida pelos diversos dispositivos mediáticos e eletrónicos à disposição subvertem a ordem social e normalizam a agressividade física e psicológica potenciando a conversão do que poderiam ser ferramentas e recursos de e para o conhecimento em algo diferente. Para Noa:

“Os massivos e multifacetados dispositivos tecnológicos à nossa disposição e os infindáveis conteúdos veiculados vão,      irreversivelmente, ocupando o vazio interior que se foi cavando       dentro       de cada um de nós. Enquanto, por um lado, se busca         frenética    e      obsessivamente a coincidência entre o facto e a sua         disseminação,     dominados que estamos pelo síndroma da       simultaneidade, por dentro,         assistimos à rápida desagregação de      referências, mais ou         menos       sólidas, e que têm regido a linha    evolutiva da condição humana” (pp:32).

Neste tom severo, o autor enuncia a importância de sistematização e híbrida apropriação de valores ditos tradicionais, conciliados com os avanços da modernidade simbolizados pelo advento das redes sociais por ele consideradas “um logro de gigantescas proporções” (pp:34).

Dizer isso não faz de Noa um autor pessimista e/ou fatalista, senão um profissional da educação e das letras que não abdica da missão propositiva de alistar e discorrer sobre “Dez Desafios para o Futuro”  realçando, entre outros, a importância da “não normalização do absurdo”, a contínua aposta na educação, cultura de trabalho e produtividade (muito para além do cabide de emprego em que a funcionalismo público, por exemplo se transformou). A questão da responsabilidade e penalização, demasiados caros aos actuais debates na esfera pública moçambicana, é também abordada neste livro, até porque,  na perspectiva de Noa:

“Não se constrói uma sociedade avançada, respeitada e respeitadora se     ela não penalizar, de forma correctora, educativa, sistemática         e exemplar, os transgressores, independentemente da sua origem, posição de classe, fortuna, crença ou ideologia”  (pp: 41).

Esta expressão de compromisso do autor com o país, tomado como estando em permanente (re)construção, atravessa sutilmente quase todos os ensaios, onde mais do que a função analítica e interpretativa o autor não se furta a fazer avanços propositivos para e sobre o devir. Logo após vincar os Dez desafios para o futuro, ao abordar a questão do turismo cultural, uma vez mais, Noa termina o texto legando “Cinco ideias para viabilizar o turismo cultural”, com propostas intemporais e que permanecem mais do que pertinentes  a qualquer tempo.

As viagens que Noa faz “Além do Túnel” acabam por revelar a candura de um autor generoso, pela magnanimidade com que apresenta e descreve “o outro”, seja esse outro seu contemporâneo, de gerações  pretéritas e/ou jovens das novas gerações, o que só é possível pelo profundo conhecimento e interface que estabelece com esse outro, seja através do contacto interpessoal ou através das suas obras. A forma como Noa retrata Ricardo Rangel, João Albasini, José Craveirinha, Aldino Muianga, Michel Laban, Jorge Amado e outros fascinam pela capacidade de celebrar o ícone (em cada um deles) através da interpretação do seu trabalho e feitos, sem desembocar em qualquer esvaziamento de propósito da evocação de tais figuras nos seus ensaios.

Além do Túnel é uma obra estruturada em ascendente espiral, contínuo crescendo, na medida em que a cada página e subtítulo devorado, surge o próximo subtítulo, que permanece, igualmente, engajador e de arrebatador interesse e atractividade.

A meu ler, o capítulo sobre Literatura é uma verdadeira cátedra. Em lugar nenhum jamais encontrei tão denso e profundo retrato sobre a literatura moçambicana, e não só. Neste capítulo, Noa problematiza e analisa as origens e matizes da nossa história e percurso literário, as continuidades e rupturas temáticas, as dimensões estéticas, ficcionais, sociopolíticas e emancipadoras… atravessando décadas, melhor dito, épocas dialogando com quase todos os autores proeminentes e iniciantes sem preconceitos ou juízos de valor.

O capítulo sobre literatura, soa a poiésis, um investimento de construção de uma cosmologia da literatura moçambicana e de outros quadrantes, onde o leitor é exposto e experiencia toda uma arqueologia e etnografia da literatura, embasada num sólido e profundo conhecimento sobre a constelação de autores, temas, escritos emblemáticos e seus significados enquadrados numa magistral análise da historicidade, em perspectiva de longa duração, o que só é possível por estarmos diante de um investigador sério, leitor multifacetado, profundo conhecedor do campo e escritor profícuo que Francisco Noa é!

Permitam-me que termine com a leitura de uma epígrafe, usada pelo autor:

Eu li um livro e a partir daí toda a minha vida mudou desde aí”.

Francisco Noa, citando Orhan Pamuk, escritor turco.

Aqui chegados, resta-me apenas dizer que li, aliás fui, “Além do Túnel” e, por conta destes “ensaios e travessias”, a minha compreensão sobre a literatura moçambicana (e não só) não é mais a mesma. Como eu, asseguro que deste portal que vai “Além do Túnel” que Noa hoje apresenta ninguém sairá incólume.

A advertência que ocorre-me deixar é que quem entrar “Além do Túnel”, corre o risco de tornar-se fanático, no melhor sentido do termo, é claro, assumindo esta obra como imprescindível instrumento de consulta, referência e deleite no campo da literatura, identidades e educação e cultura.

Não digam depois que foi por falta de aviso!

Grato pela atenção e muitos parabéns Francisco Noa.

 

Maputo, aos 15 de Dezembro de 2020

 

 

Mia Couto ganha mais um prémio literário

Mia Couto foi o vencedor do prémio de literatura Jan Michalski, estabelecido pela fundação com esse nome, na Suíça, em 2010. O vencedor deste prémio há dois anos foi Olga Tocarczuk, que viria a ganhar o Nobel de Literatura em 2018. O prémio foi atribuído à trilogia “As areias do Imperador”.

O júri foi eloquente na sua apreciação:

… a qualidade excepcional da escrita de Mia Couto, o modo como subtilmente mistura oralidade, e narrativa, cartas, fábulas, lendas, sonhos e crenças que, no conjunto, nos transportam para a realidade histórica de Moçambique colonial nos finais do século 19. Sem nenhum traço de maniqueísmo, o autor desenha com mestria o retrato de sedutores personagens que enfrentam a desumanidade da Guerra.

… o romance de Mia Couto é, ao mesmo tempo, uma saga histórica e uma narrativa encantadora, um poderoso retrato de uma fascinante mulher, uma história de amor e humanidade. Com um idioma inventivo que é renovado pela terra africana e inspirado na sua singular poesia, o autor moçambicano questiona crenças, cria pontes entre mundos e apaga fronteiras numa meditação universal sobre a alteridade.

É uma bela notícia, não só por mais um reconhecimento internacional do nosso grande escritor mas sobretudo pela consagração de uma obra de excepcional qualidade, a trilogia “As areias do Imperador” que, para mim, ocupa o lugar cimeiro de toda a vasta produção de Mia Couto, particularmente com o segundo e o terceiro volumes. À medida que os livros foram saindo – “Mulheres de cinza”, “A espada e a azagaia”, “O bebedor de horizontes” –, escrevi as minhas notas de leitura. Para os eventuais interessados, trago aqui o que escrevi na altura depois de ler o último volume da trilogia.

O BEBEDOR DE HORIZONTES

Mia Couto terminou a sua trilogia “As areias do imperador” com um belo romance, este “O bebedor de horizontes”, depois de a ter iniciado com “Mulheres de cinza” e continuado com “A espada e a azagaia”. Disse ele que a escrita desta trilogia tinha sido o maior desafio da sua carreira literária; para mim, superou o desafio de modo brilhante.

Os três romances giram à volta de Gungunhana, ele é o imperador, o Leão de Gaza. No primeiro volume, vemos o império no seu ponto mais alto, com a vitória sobre os chopes, aliados dos portugueses. Nesse primeiro romance, surge-nos a outra figura central da trilogia, Imani, mulher de apenas 15 anos, que, por ter aprendido português, vê-se num papel charneira nos acontecimentos que se seguem. Com Imani, conhecemos a sua família – a mãe, que se suicida, o pai, os dois irmãos que combatem em lados opostos numa guerra que, sendo colonial, foi também fratricida. Aparece o sargento Germano de Melo, um republicano integrado no exército da conquista colonial, homem de lealdades divididas e que acaba por superar os seus preconceitos quando se apaixona por Imani. E surgem-nos algumas outras figuras fascinantes, como a italiana Bianca, dona dum bordel em Lourenço Marques e que ama Mouzinho de Albuquerque; ou Bibliana, feiticeira com grandes poderes curativos. Gungunhana está ausente, o seu poder tirânico e cruel é a sua face visível.

Em “A espada e a azagaia” confrontam-se os dois poderes, o do imperador de Gaza e o do distante rei de Portugal, D. Carlos, com os seus representantes políticos e militares, António Enes, Mouzinho, Caldas Xavier, Aires de Ornelas. Neste livro, surgem Gungunhana, o Nkossi, e a sua mãe, a poderosa Impibekezane, que tentam manter o Estado de Gaza através de um possível compromisso com os portugueses, que Mouzinho de Albuquerque impossibilita, decidindo a destruição da capital, Mandlakazi, e a captura de Gungunhana. O centro do livro é o confronto final entre o exército português e o de Gungunhana e seus aliados, e Mia Couto dá-nos de forma intensa o clima de violência das grandes batalhas sem se deixar tentar pelo fascínio mórbido das descrições das carnificinas. As últimas páginas do livro, com Gungunhana prisioneiro e levado com algumas das suas mulheres / rainhas para a lancha de guerra, primeira etapa do exílio, e depois na própria lancha onde um destroçado imperador é confrontado por um Zixaxa altivo, são tão boas e com um final tão perfeito que me perguntei se o terceiro livro era necessário.

Felizmente, temos agora o terceiro volume, a história não ficaria completa sem este “O bebedor de horizontes”. Este terceiro livro é muito, muito bom, não sei se alguma vez a prosa de Mia teve um sabor poético tão marcado. A história, contada em trinta capítulos, é a do exílio, das perdas.

É a última vez que pisamos a nossa terra. É uma pena que caminhes calçada, Imani.

 Ao imperador, às sete rainhas que o acompanham, ao filho Godido, ao conselheiro Mulungo, a Zixaxa e às suas três mulheres, a Imani também levada, o deixarem a terra é insuportavelmente doloroso, e o livro transmite-nos esse sentir: são dez capítulos para a lancha com os prisioneiros percorrer o Limpopo até Xai-Xai e um navio os levar até Lourenço Marques, outros cinco capítulos em Lourenço Marques. Seguem-se seis capítulos com a viagem para Lisboa, cinco em Lisboa na prisão, três no exílio – Açores para os homens, São Tomé para as mulheres, para finalizar com um brilhante epílogo no último capítulo, já no tempo da nossa independência.

Gungunhana vai perdendo tudo no longo caminho: o império, o medo daqueles a quem subjugou, as ilusões sobre os portugueses, a virilidade, a dignidade, vai-se tornando um farrapo. Faz uma última profecia, uma invocação:

Virão buscar-me, Zixaxa. Os meus netos virão buscar-me.

É um contraste enorme com Zixaxa, o chefe Mpfumo, o homem que mantém a dignidade e que sobrevive.

O Ngungunyane vai tecendo cestos. Eu vou tecendo pequenas alegrias. Ser feliz é o melhor modo de me vingar de Ngungunyane. O rei de Gaza entregou-me aos portugueses? Pois agora é o que eu sou: um português, um português de pele escura. Um português feliz que olha para quem o traíu e o vê infeliz e bêbado.

Nestes três romances, onde a narração está a cargo duma jovem chope, não se podia esperar que o retrato de Gungunhana fosse resplandecente. O império de Gaza foi o que foi, estabeleceu-se com a razão da força. E um imperador em queda e feito prisioneiro não é uma imagem de primeira grandeza. Outro grande escritor moçambicano, Ungulani Ba Ka Khosa, escreveu há cerca de trinta anos um outro livro essencial da nossa literatura, “Ualalapi”, onde Gungunhana também não é tratado com punhos de renda. Uma escritora portuguesa, Ana Cristina Silva, escreveu há uns anos um livro interessante, “O rei do monte Brasil”, narrando o exílio de Gungunhana nos Açores e o regresso de Mouzinho a Portugal até o suicídio deste em Lisboa. As fotos incluídas no Apêndice Final de “O bebedor de horizontes” não são um enfeite, permitem uma melhor leitura (talvez devessem ter sido distribuídas ao longo do livro).

E Imani? Grávida do sargento Germano, o saber português e a sua beleza (“Descrevi-te como a mais bela das mulheres”, escreve-lhe Zixaxa do exílio) funcionam como uma maldição. O imperador e as rainhas desconfiam dela, até por andar calçada, os portugueses querem que ela espie o imperador, um pastor evangelista, que também vai preso no barco para Lisboa com os seus fiéis, quer a sua ajuda para assassinar o imperador. Imani encanta quem a vê com os olhos abertos: o republicano Álvaro Andrea, comandante da lancha “Limpopo”, António Sérgio de Sousa, o comandante do navio que os leva para Lisboa, Bianca, a rainha Dabondi. Em Lisboa, sofre a perda maior, insuperável: o filho recém-nascido é-lhe arrancado para ficar com a avó, a mãe de Germano: A batalha, contudo, estava decidida mesmo antes de começar.

As mulheres são dominadas e a minha criança é-me arrancada dos braços. Dona Laura embrulha-a numa manta e afasta-se a passo acelerado. Desvanece na distância o choro do meu bebé. Até que escuto apenas a água tombando sobre o tanque. Daqui para a frente será sempre assim: um rumor de água será a única voz do meu pequeno filho.

 Imani é uma personagem fascinante, uma extraordinária criação literária, mulher de vários mundos, lealdades, identidades, depósito de poucas alegrias e muitas dores.

O final do livro é um regresso ao princípio da história e uma passagem do testemunho, uma herança entregue aos nossos escritores.

Estão aqui os meus escritos, estão aqui as cartas que guardei, está aqui toda a minha vida. Leva estes cadernos e publica-os se achares que merecem ser conhecidos.

É um pesado encargo este, de escreverem a nossa vida.

 

Álvaro Carmo Vaz

Escritor

Entre âncoras e progressismos dos “novos painelistas” do debate sobre a criação literária

…não há, de um lado, o abstrato e, de outro, o concreto.

Forma e conteúdo são da mesma natureza, sujeitos à mesma análise.[1]

Levi-Strauss

Este pensamento de Levi-Strauss continua sendo actual e atuante nos dias de hoje, pelo menos no cenário literário moçambicano cujas ilações chegam-me por via da mera observação e, haja humildade, pelo bastante incipiente envolvimento.

Na crítica feita por Levi-Strauss ao modelo de análise teorizado por Vladimir Propp no seu Morfologia do conto maravilhoso”, dentre vários aspectos destaca-se o que o primeiro considera “pecado” não só de Propp mas do Formalismo no seu todo ao pregar que a forma e o conteúdo devem ser absolutamente separados, pois somente a forma é inteligível, e o conteúdo não é senão um resíduo desprovido de valor significante. Contudo, para Levi-Strauss (e para o estruturalismo) esta oposição não existe: não há, de um lado, o abstrato e, de outro, o concreto. Forma e conteúdo são de mesma natureza, sujeitos à mesma análise.

Não caberia nesta redação, a busca possível de fazer sobre este aspecto contudo valerá termo-nos harmonizado a respeito do âmbito em que esta epígrafe foi extraída. Vem isto a propósito de um cada vez mais recorrente, e quiçá escaldante, debate que se materializa entre escritores e críticos literários, senão aspirantes a estes exercícios, que mesmo nestes tempos austeros conseguem, através dos meios virtuais, ensejo para trocar impressões em prol da literatura.

Como uma espécie de “servilismo à musa da história” para recordar as constatações de Derek Walkott no seu bastante peremptório e polémico artigo “The Muse of History” as percepções e credos crispam-se entre os binómios “forma e conteúdo” do ponto de vista do lado em que a balança da primazia deve pender. Há, por um lado,

uma postura de recriminação que vê no senso comum do que se apregoa como característica sine qua non da literatura uma forma de opressão. Esta foi uma percepção alimentada, sobretudo, pela vontade dos primeiros fazedores de literatura moçambicana (e não só) em forjar uma postura ética e estética própria e que conferisse uma autenticidade identitária.

Por outro,

revela-se uma visão que se mostra despida das amarras do “servilismo à musa da história” e está em buca de uma universalidade que é natural nos tempos que correm e devido a essa naturalidade, assume-se, também, a universalidade de um esteticismo já vencido, por exemplo, pela afirmação em epígrafe e, ainda mais, pela Desconstrução de Jacques Derrida.

A primeira postura defende a primazia do conteúdo na obra literária e a segunda, contrariamente, assume que a forma é que merece relevo tanto na criação assim como na recepção.

O que ainda está por considerar nesta conversa para podermos eliminar as assimetrias entre as âncoras e progressismos dos painelistas é que se está a abordar um assunto já teorizado, de tal forma que se ainda se mostra recorrente, das duas uma: ou há um desconhecimento desses consensos ou se está, em nosso meio, para engendrar um novo cânone a partir da posição que irá prevalecer.

Quanto aos consensos a que me refiro, diga-se que a primazia da forma em detrimento do conteúdo (na literatura) fora defendida, por exemplo, por Boris Schnaiderman ao afirmar que

ela (a obra literária) poderia conter esta ou aquela filosofia, reflectir esta ou aquela opinião política, mas, do ponto de vista literário, o que importava era o processo, isto é, o princípio da organização da obra como produto estético, jamais um factor externo.”[2]

Esta visão foi sendo contraposta por vários estudiosos dentre os quais destaca-se Teun Van Djik através da sua teoria geral da comunicação literária que compreende, em simultâneo, a teoria dos textos, a do discurso e a dos contextos literários.

Estas teorias surgem de um debate similar ao que ganha matéria nos dias de hoje (não só nosso meio) como forma revitalizar o compromisso com a arte da escrita que foi sempre forjada entre âncoras e progressismos. Sobre a âncora que nos apregoa à primazia da forma, Salvato Trigo no seu “Ensaios de Literatura Comparada Afro-Luso-Brasileira” alerta-nos que “é óbvio que tal posição só pode levar-nos a uma aporia teórica: na verdade, com ela perder-se-ia a dimensão relacional com que o texto se alicerça para se construir como síntese coerente e coesa de representação ou de figuração do mundo.”

No nosso caso, estas crispações tem toda razão de ser e remontam as discussões sobre o ser ou não ser duma escrita “panfletária” que marcou uma certa geração e que, pela antítese ou pelo contexto, talvez tenha sido peremptório que assim fosse.

Hoje, os anseios parecem outros e faz sentido que assim seja, porque há cada vez mais motivos que justificam a aversão pelos rótulos que se fazem a um escritor moçambicano, por exemplo, sobretudo por um olhar outside. Salvo o erro mas parece vincado, entre os “novos escritores”, o anseio de ser lido numa perspectiva universal e não nativista. Contudo, essa peleja parece querer sustentar-se naquele esteticismo já vencido contrariando o que Marc Rombault apud (op. cit.) acredita ser um dos desígnios de toda a grande literatura: ser o “barómetro da consciência moral dum povo”.

[1] Citação extraída da carta de Lévi-Strauss em reacção à “Morfologia do conto maravilhoso” de Vladimir Propp.

[2] TRIGO, Salvato. Ensaios de literatura comparada afro-luso-brasileira. Lisboa: Voga, 1986;

A Pele de Otildo Guido

Se queres um desejo,

insinua-te na minúcia

dos detalhes. Pega na pista

de uma palavra indomável

e segue-a delicadamente.

Heliodoro Baptista

 

“Ka Madaukane: da fome e do silêncio” e “Da pele e da caligrafia” são as partes que perfazem o livro de estreia de Otildo Guido, lançado em Novembro, um ano depois de vencer o Prémio Literário Fernando Leite Couto. Embora com alguns registos assimétricos, essencialmente, as duas secções da obra estão intrinsecamente interligadas, do ponto de vista temático e/ou estrutural.

“Na imensurabilidade da estiagem”, O silêncio da pele é um exercício poético cujo substracto é a conversão em verso o que se aproxima à realidade do poeta. Desde “Garimpeiros” (primeiro poema) a “O voo” (o último), a ciência da palavra de Otildo Guido aplica-se no desenvolvimento emocional, utilizando sotaques taciturnos para recitar a poesia como é: autêntica. Não obstante, o poeta imege no campo da óptica para sedimentar um universo, às vezes, aparentemente neo-realista, a partir do alcance da palavra, quer com a alegoria como recurso estilístico, quer com a sinédoque a imprimir nos versos esse carácter polissémico imprescindível.

Neste jogo, no caso de “Ka Madaukane: da fome e do silêncio”, geralmente, Otildo Guido estabelece sujeitos de enunciação que se abstraem da autoridade do “ego” no acto de tornar a poesia mais envolvente. Ao contrário da segunda secção, ali o entusiamo particular é raro, afinal os condimentos da escrita são mais exógenos do que endógenos. Quiçá, como consequência disso, nota-se algum paralelismo entre o leitmotiv e a necessidade de exprimir.

Os sujeitos de enunciação de Guido têm os pés muito assentes no chão. Eles vêem o que se passa à volta, sentem os cheiros e captam tantas outras sensações que os consente adjectivar os substantivos das coisas, claro, com o cuidado de não tornarem a poesia absolutamente “egocêntrica”.

Em parte, O silêncio da pele é uma escrita para os outros. Por isso, em “Ka Madaukane”, os sujeitos sabem ser ministros da palavra, servindo-a no equilíbrio entre a razão e a fantasia, sem que isso se torne uma espécie de culto à Nova Objectividade. Aqui, a escassez, a fome, a penumbra e as particularidades ingratas da existência importam. É por isso que o sofrimento está representado de diferentes ângulos.

Se, em “Ka Madaukane” interessa destacar a variação da escrita entre o impessoal e a pluralidade – “e tudo em nós, nessa luz,/ nessa água, nessa máscara/ dos dias, das noites/ e das palavras tenebrosas” (p. 35) –, em “Da pele e da caligrafia”, sim, os sujeitos não resistem a voltar a mira dos seus olhos ao próprio íntimo. “Da pele e da caligrafia” é a secção mais líquida, com frequentes referências à água (doce e salgada), aos rios, à chuva, às lágrimas ou aos oceanos. Esse interesse-líquido é muito peculiar: “Envolve-me de memórias,/ de cheitos e de culturas/ até que as minhas mãos de água/ se tornem magestosamente um rio” (p. 53).

Com a expressão da poesia mais singularizada, a enunciação dos sujeitos aparesenta-se realmente possessiva e com recorrentes alusões a um eventual “interlocutor” passivo. Isso torna a poesia mais melosa, urgente e pragmática: “Ama-me agora/ amanhã nao estarei// Beija-me as feridas/ e beba-me/ para que me esconda/ dentro da tua solidão” (p. 61).

É na segunda secção que, como diria Heliodoro Baptista, “os sujeitos insinuam-se na minúcia dos detalhes”, definem o que são, o que almejam, e ainda manifestam encantos e projectam musas, afinal a busca pela complementaridade é crucial. É mais ou menos isto O silêncio, de Otildo Guido, um verdadeiro grito da pela.

 

Título: O silêncio da pele

Autor: Otildo Justino Guido

Editora: Fundação Fernando Leite Couto

Classificação: 13

Macau e a Língua Portuguesa como Pontes para a Colaboração

Hoje gostava de começar por realçar dois pormenores interessantes que recentemente estabeleceram pontes entre a minha juventude em LM (Maputo), por onde comecei esta série de artigos, e o presente aqui na Universidade de Macau (UM). O primeiro, tem a ver com o Michel Vaillant, uma das minhas séries favoritas de banda desenhada, criada precisamente quando nasci (1957) pelo francês Jean Graton (agora com 97 anos), e da qual adquiri vários livros entre os 12 e os 17 anos. Macau é famoso pelo seu Grande Prémio de Fórmula 3, com um traçado semelhante ao do Mónaco e cuja 67a. edição se realizou recentemente. Decorria o ano de 2018 quando o filho Philippe Graton, que edita actualmente o livro, veio até Macau e me falou na ideia de lançar o 77o. livro da série, com uma história sobre o GP local 35 anos depois da primeira, “Michel Vaillant – Encontro em Macau” de 1983. Como tinha ouvido falar do meu laboratório através de um amigo comum (Ricardo Pinto – Director do Jornal Ponto Final) gostava de incluir na aventura umas cenas de uma trama de espionagem electrónica no meu laboratório, e assim ficámos “imortalizados” (!) nuns quadradinhos da história apresentada em Novembro de 2018 e designada por “Michel Vaillant – Macau”, editada em 3 versões, Português, Chinês e Inglês. Foi um momento inesquecível até porque o livro autografado pelo autor foi oferecido (na minha ausência) à minha neta (Gabriela) no dia do lançamento. O segundo, está relacionado com a minha faceta de filatelista iniciada também em Moçambique quando coleccionava os selos das cartas que chegavam de Portugal, colecção que agora se espalha aos milhares por dezenas de álbuns com selos e blocos novos e usados, com carimbos do 1o. dia, etc… aproximando-se o 20o. aniversário da criação da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) a 20 de Dezembro de 2019, e uma vez que a bandeira da Região tem uma flôr-de-lótus, verifiquei no princípio do ano que um dos nossos chips electrónicos, publicado numa revista científica de topo da área, o IEEE Journal of Solid-State Circuits, tinha uma implantação muito semelhante a um corte de uma raíz da flôr-de-lótus. Propus então aos Correios de Macau que o chip aparecesse num selo/bloco comemorativo dos 20 anos, o que foi aceite. Assim a 20 de Dezembro, após a criação artística de um especialista, a colecção do aniversário da RAEM surgiu com o selo do bloco principal contendo o nosso chip e alguns esquemáticos do circuito destinado a aplicações na rede de 5G. Tendo assim a nossa Electrónica ficado perpetuada na “História Filatélica de Macau”!

Macau, é uma Região de 31 km2 com 1 península, 2 ilhas (Taipa e Coloane) e um enclave (1 km2) na ilha da Montanha (Hengqin), na China, com a UM apenas, murada e ligada à Taipa por 1 túnel sub-aquático. Uma característica local são as suas 5 pontes! A mais famosa de 1974, um dos ex-libris locais (aparece no logo da UM), é designada por Ponte Nobre de Carvalho (antigo Governador), projectada pelo Engo. Edgar Cardoso, com o formato de um Dragão, entre Macau e a Taipa. Outras duas em paralelo e uma quarta, designada por Flôr-de-Lótus entre a Taipa e a ilha da Montanha (Hengqin), e por fim a Ponte em Y, Hong Kong-Macau-Zhuhai, que é a mais longa travessia marítima do mundo com 55 km! Para além destas 5 pontes físicas em betão, Macau foi igualmente definido pela China como uma plataforma (ou seja, mais uma ponte, esta intangível) para os países de língua portuguesa. A sua universidade pública principal, a UM, tem cumprido exactamente essa função ao longo dos tempos como irei elaborar de novo com mais alguns episódios que o demonstram.

 

Em 1998, quando do primeiro encontro em Macau da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), presidiu ao mesmo o Primeiro Ministro, Engo. António Guterres (estudámos ambos no mesmo departamento do Técnico), quando o recebi e nos deslocámos do parque de estacionamento até ao auditório principal da universidade passámos por um cordão de alunos dos países africanos de língua portuguesa, que aqui estudavam, ele foi cumprimentado efusivamente por todos, e perguntou-me: “Mas isto não é uma reunião de Reitores?”, eu respondi: “Sim, eles estão lá dentro à sua espera, estes são nossos alunos”, ficou bastante surpreendido por serem tantos alunos de África!

Em 2000, Timor-Leste passava ainda um mau bocado antes da independência, quando um grupo de 10 jovens timorenses, na sua maioria familiares do pároco local também timorense, Francisco Fernandes, mais conhecido por “Padre Xico” (nosso mestre em português), chegou num sábado ao aeroporto de Macau, vindo da Indonésia. Como não tinham documentação não podiam entrar na Região. Recebo então um telefonema dum funcionário do Governo relatando o facto e perguntando-me se eles eram alunos da UM, porque se fossem poderiam entrar, caso contrário seriam deportados… pedi um tempo para verificar, telefonei à nossa Directora do Departamento de Português, Profa. Maria Antónia Espadinha perguntando-lhe se sabia de alguma coisa, ficou de falar com o Padre Xico, o qual lhe disse que sim e que estava à espera que eles chegassem e pudessem estudar na UM… face a esta situação desesperada, assumi a responsabilidade e respondi ao funcionário, que sim que eram nossos alunos, e assim entraram os 10 em Macau. Possuíam apenas documentos da Indonésia, alguns papéis de liceus em indonésio (tinham apenas o equivalente ao 10o. ano…), não sabiam falar Português, e apenas alguns falavam pouco Inglês. Tivémos de criar cursos especiais de 2 anos para aprenderem Português, Inglês e outras matérias ao nível do 12o. ano para os podermos admitir depois na UM. Mas a universidade teve de suportar tudo no início, alimentação, alojamento, propinas, etc… e a situação económica local na altura não era famosa, pelo que corríamos o risco de não os conseguir financiar durante muito tempo. Mas, em 2002, numa tarde, a minha secretária diz-me: “Está ali fora um senhor que diz ser o Cônsul da Finlândia, em HK e Macau, e gostava de falar consigo”. Recebi-o, fiquei espantado pois apesar de estar de fato e gravata trazia uma mochila às costas. Apresentou-se como Pauli Makela, estava baseado em HK mas tinha vindo nesse dia a Macau, e disse que sabia que Timor-Leste ia ser independente em breve, e como eu era o Vice-Reitor português, gostava de ver comigo se tínhamos alunos timorenses e se tinham necessidades financeiras, pois a Finlândia estava interessada em ajudá-los a completar os seus estudos. Pensei para com os meus botões, isto é um milagre, este sujeito só pode ter caído do Céu! Mas, assim foi, a Finlândia pagou tudo aos 10 jovens a partir desse momento, não foi fácil, a progressão foi lenta, alguns foram desistindo, mas o Cônsul dizia-me sempre: “Mesmo que consigamos graduar só 1, já é importante”! E conseguimos, em 2008, 2 licenciaram-se, em Comunicação, o Francisco Gusmão, e em Direito, a Zulmira da Silva. Na altura, já o Cônsul era Embaixador da Finlândia em Roma e, como nós, ficou radiante com o resultado. Dois pormenores interessantes, a Zulmira, é actualmente Juíza em Díli, e visitou-nos recentemente nesse âmbito, por outro lado, o Cônsul finlandês era uma pessoa única, aparecia de vez em quando no meu gabinete, quando vinha a Macau, e lembro-me uma vez de lhe perguntar: “Tem carro? Se precisar o meu motorista leva-o onde fôr preciso.” Foi a única pessoa que sempre recusou tal oferta dizendo: “Não se preocupe, eu apanho um táxi”! Realmente, inacreditável.

Foi, assim, com uma enorme satisfação, que em 2016, como Presidente da AULP, presidi ao primeiro encontro da Associação, em Díli, organizado pela Universidade de Timor-Leste, pelo Reitor, Prof. Francisco Martins, de quem sou amigo. E, num momento especial em que Portugal se qualificou para as meias-finais do Europeu de Futebol, o jogo acabou perto das 5h da manhã e as ruas encheram-se de motorizadas com jovens que gritavam: “Porto”! “Porto”! Impressionante o carinho que o povo timorense demonstrava pela equipa portuguesa. Mas são inúmeras as estórias ao longo de mais de 28 anos como professor, e 23 anos como Vice-Reitor na UM, que envolvem a relação com os alunos e também professores dos países de língua portuguesa, nomeadamente os alunos africanos. Foram por isso dois momentos altos na minha vida, um quando recebi a Presidência da Associação, da Universidade Lúrio, do Reitor Jorge Ferrão, em 2014, e o outro quando em 2017 entreguei a Presidência à Universidade Mandume Ya Ndumefayo do Lubango, em Angola, ao Reitor Orlando Mata, no encontro anual em Campinas, no Brasil, e no qual entregámos os prémios Fernão Mendes Pinto (autor da “Peregrinação” que passou por Macau) às melhores teses de mestrado e doutoramento de 2015, 2016 e 2017, prémios estes que propus e foram financiados pela Fundação Macau.

Para concluir, e num ano atípico com uma pandemia global, não queria deixar de referir, que pensando nas necessidades dos países africanos para fazerem face à mesma, surgiu-me a ideia em meados de Abril, e falei com uns colegas do meu laboratório e um outro colega da UM, que preside ao Instituto do Desenvolvimento e Qualidade – IDQ/Macau, Prof. Tam Lap Mou, e decidimos projectar 2 ventiladores para apoiar doentes com Covid-19, que foram concluídos em Agosto com tecnologia inovadora e completamente local, com custos muito menores que um ventilador normal no mercado. Foram entregues simbolicamente em cerimónia presidida pelo Reitor da UM, Prof. Yonghua Song, em Outubro de 2020, aos Cônsules de Angola e Moçambique em Macau, e estão neste momento a caminho de Maputo, e do Lubango, tendo sido doados à Universidade Pedagógica e à Universidade Mandume. Poderão ser utilizados em doentes reais, mas a ideia é igualmente doar a tecnologia e treinar engenheiros e médicos locais no desenvolvimento de novos ventiladores, o que deverá acontecer na próxima fase do projecto. Em tempo de pandemia e de dificuldades em todo o mundo, Macau e as suas instituições, UM e IDQ-Macau, cumpriram mais uma vez o seu papel de Ponte para a colaboração entre 2 continentes!

 

Rui Martins.

Macau, 1 de Dezembro de 2020.

P.S.- A praça principal de Macau é o Leal Senado, onde no edifício com o mesmo nome, se encontra uma placa com o título “Não Há Outra Mais Leal”, concedido pelo Rei D. João IV à cidade em 1654, pois foi o único local que não se rendeu aos Filipes de Espanha. Lembrei-me disto pela data de hoje, dia da restauração, em Portugal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da intolerância ao tolhimento do debate

A abertura do País para o multipartidarismo propiciou, sem alguma margem para dúvidas, um ambiente favorável à existência humana, nas suas múltiplas dimensões. E, sendo o homem um ser dotado dessa capacidade de pensar e expressar-se, em muito sairíamos a ganhar com as garantias constitucionais de liberdade de expressão e direito à informação. Todavia, o sujeito homem-moçambicano que devia gozar dessa liberdade de expressão e do direito à informação labuta na contramão, no sentido de se aprisionar nas paredes da sua própria cabeça.

Não havendo dúvidas de que, entre muitos dos nossos actores, a existência política derive de aspectos gastronómicos, os circuitos de pensamento nacionais parecem arregimentarem-se, por necessidade que suplanta o acto de pensar, à dois principais pólos de pensamento. Esses núcleos, bastas vezes, trazem a imagem de leões e hienas que se digladiam em torno de uma carcaça de búfalo. Na arrancada de cada pedaço, salivam impropérios do tipo lambe-botas e/ou antipatriotas. Essas qualificações são arremessos mútuos, feitos de olhos vendados pela fúria, sem admitir um meio-termo. Quem fica por cima do muro deve cuidar-se, pois pode ser “abatido em fogo cruzado”.

Ao longo dos tempos, marcados pela marcha democrática, com o ponto de partida o ano de 1994, debatemo-nos em busca de ar para respirar, por baixo da lama, presos a uma rede tecida pelos fios da nossa própria intolerância política e jornalística. Nisso a liberdade de expressão irá sempre pagar a mais alta das facturas. Se de um lado temos os partidos da oposição e o partido no poder, por outro temos os órgãos de comunicação, coadjuvados pelas redes sociais, tolerantes até onde lhes convém. Porque a mídia não deixa de vestir cores partidárias, estudos científicos atestam tal facto, a intolerância ganha contornos de inimizar o pensamento, com cada uma das partes a julgar-se exclusiva como detentora da verdade. Mas, essa verdade é relativa, no que geralmente entendemos significar a não existência de verdades absolutas, nem vindo da imprensa, nem vindo dos partidos políticos.

O império da intolerância que ora grassa pelo País torna-se visível nas páginas dos jornais, nas telas das televisões e nas redes sociais, sob patrocínio ideológico do poder político e das organizações não-governamentais e afins. Ora, quando nos referimos ao poder político entenda-se o partido no poder e os partidos da oposição, pois cada um, na sua esfera de influência exerce um certo tipo de patrocínio à intolerância que amordaça o pensamento e a consequente liberdade de expressão.

Hoje, encaramos a subtileza e sofisticação de métodos de mordaça, através dos quais os políticos ou seus adeptos e a imprensa ou seus públicos ajuízam e votam qualquer indivíduo que exterioriza o seu pensamento ao lugar do vitupério: lambe-botas ou antipatriota.

Como se pode constatar nas suas páginas, apesar de ter lutado desde a sua origem  pela liberdade, a nossa imprensa, face a interesses de múltiplas dimensões, acaba por se comportar como um canal por onde flui a lama da intolerância, o cerceamento de tudo o que indica um pluralismo de ideias e a própria liberdade de expressão,  que paradoxalmente, muitos jornalistas se arrogam defender.  Uma questão ficaria a girar no ar: quem, senão a própria imprensa e as redes sociais, projectou o arremesso de expressões vexatórias do tipo lambe-botas ou antipatriota?

Esses dois termos funcionam agora como autênticas gazuas, que extirpam quaisquer iniciativas de pensar sobre assuntos de interesse público. Com o uso desses termos nem é tolerado o olhar de quem está por cima do muro. Se a sua opinião favorece, de algum modo, um sector da política activa, ou é lambe-botas, ou será antipatriótico. Em Moçambique todos clamamos pela liberdade de expressão, mas condicionando-a a vigorar até onde nos convém.

A ridicularização subjacente em lambe-botas, ou antipatriota revela-se hoje o principal empecilho a liberdade de expressão. Paralelamente ao método de mordaça passado na mídia, a valer-se da adjectivação acima referida, floresce a maledicência do circulo académico. Na academia cultiva-se outro tipo de rotulagem, entre sociólogos, historiadores, juristas e filósofos menos dotados: a maledicência.

Quando presentes nalgum debate, a colmeia de académicos menos dotados, valer-se-á da rotulagem, abandonando o debate de ideias para passar a chamar o outro de drogado, marginal, confuso ou maluco; impera aí a soberba da douta-ignorância e arrogância.

Este estado de delírio social dever-se-á ao despreparo dessa estirpe, ao longo da vida, da cultura de debate, de troca de ideias. Agora não serão simplesmente os títulos académicos que resolverão o défice de fluidez de ideias ou capacidade de retórica, falta essa que os conduz à bazarização do debate. A título de exemplo, não é estranho que um advogado, mesmo ao jeito do mestre Pathelin, a meio de uma discussão de ideias, desate a rotular a contraparte, tolhido por alguma miopia até intelectual, a bufar repetidamente termo drogado, drogado, drogado?

A terminar, e porque a generalização é quase sempre madrasta, ressalvar é de louvar o trabalho dos jornalistas e académicos, e até seguidores políticos, que apesar de tudo, ainda mantêm o distanciamento ético necessário desse extremismo, contrário à própria liberdade e autonomia do pensamento.

 

 

O futuro depende de nós! O impacto da prisão e encarceramento nas crianças

A revisão do Código Penal Moçambicano foi uma boa oportunidade para rever o quadro legal penal que regula a situação das crianças em conflito com a lei, suas condições e tratamento. Entretanto, o Código Penal revisto, que entrará em vigor a partir de Dezembro de 2020, continuará a estabelecer que a responsabilidade criminal em Moçambique comece aos 16 anos de idade e que a pena máxima aplicável a uma criança entre 16 e 18 anos de idade continuará a ser de 8 anos de prisão. Estas eram as mesmas disposições do Estatuto de Assistência Jurisdicional aos Menores do Ultramar (o Decreto n° 417/71 continuou em vigor até à promulgação da Organização Tutelar de Menores, Lei n° 8/2008) e aquelas previstas pelo actual Código Penal de 2015.

As normas respeitam as recomendações do Comentário Geral n. 24 do Comitê dos Direitos das Crianças. O Comentário estabelece que nenhuma criança em conflito com a lei, abaixo de 16 anos de idade, deve ser privada de liberdade. Entretanto, não há normas que especifiquem a duração máxima de prisão de crianças. Mas, os padrões internacionais preveem que a prisão deve ser usada como medida de último recurso e sempre para o tempo mais breve possível. A duração de 8 anos de encarceramento pode ser prejudicial para o desenvolvimento de uma criança, com consequências que podem ser projectadas na idade adulta. As preocupações alarmantes sobre o perfil das crianças encarceradas e suas experiências com o sistema de justiça criminal, mostradas por pesquisas nacionais conduzidas nos últimos cinco anos, deveriam ter sensibilizado o legislador acerca do uso e impacto da prisão, nas crianças.

A prisão e o encarceramento são devastadores na vida das crianças. Os depoimentos de crianças que participaram do Estudo Global das Nações Unidas sobre Crianças privadas da Própria Liberdade publicado em 2019, afirmam:

Eu me senti como se tivesse sido punido além das minhas possibilidades. Eu queria sair de lá. Eu senti que queria morrer. Você está sozinho e não tem nada além dos seus pensamentos, começa a falar consigo mesmo. Isso muda você, dói, deixa você deprimido, dá vontade de agir. Te deixa com raiva. Não há reabilitação na prisão.

Em Moçambique, há cerca de 500 crianças nos estabelecimentos penitenciários (SERNAP 2019). O número de crianças detidas nas esquadras da polícia é desconhecido e, portanto, esse número não é representativo de todas as crianças privadas de liberdade, no país. Entretanto, se o número de crianças continua a diminuir – de 1.035 em 2017 para 644 em 2018 – há ainda muito por fazer sobre a justiça infantil, como mostrado pelas pesquisas dirigidas entre 2014 e 2019, nas cidades de Maputo, Beira e Nampula.

Essas pesquisas, mostraram os perfis socioeconómicos das crianças encarceradas e as suas experiências com o sistema de justiça criminal. As crianças entrevistadas eram, na maior parte dos casos, crianças órfãs, muitas vezes de ambos progenitores. Viviam com avôs ou com tias, nas zonas suburbanas das cidades. Com níveis de escolaridade baixas, nunca acima da 4° ou 5° classe, as crianças, todos meninos, iam à cidade para vender, muitas vezes, amendoim, outras vezes para fazer pequenos biscatos. A falta de uma estrutura familiar e social que possa acompanhar o desenvolvimento físico e psíquico e ajudar a desenvolver a personalidade, os relacionamentos emocionais com outras pessoas, assim como habilidades educacionais e até talentos das crianças, afectam, desproporcionadamente, o futuro delas. Sem este suporte, as probabilidades de encontrar companhias negativas e cometer ofensas criminais são maiores que quando se tem o apoio de pais e familiares, ao redor.

As experiências das crianças entrevistadas trouxeram à luz as fraquezas de um sistema social e de justiça criminal, no país. A falta de protecção social de um grupo já socialmente frágil acelera as probabilidades das crianças de adoptar comportamentos desviantes. Ainda mais, a aplicação do encarceramento por parte de juízes, para punir ofensas cometidas por crianças em conflito com a lei, deixa este grupo ainda mais desprotegido e frágil, não apenas durante o cumprimento da pena de prisão, mas também depois de ser restituído à liberdade.

Como demostrado por pesquisas, as crianças são detidas pela Polícia, na maior parte das vezes por furto, mas também por uso de drogas, actividade sexual entre adolescentes, entre outros. Dados que confirmam as tendências internacionais demostradas pelo Estudo Global, sobre os chamados “crimes de status”.

A maior parte das crianças entrevistadas permanece sob custódia policial ilegalmente, por mais de 48 horas e sem condições condignas de tratamento policial. Depois da legalização da prisão, elas são transferidas para Estabelecimentos Penitenciários de adultos.

Nos estabelecimentos permanecem em prisão preventiva até que apenas algumas sejam transferidas para o Estabelecimento Especial de Recuperação  Juvenil de Boane, o único no país para crianças/menores condenados a uma pena de prisão efectiva. Os outros continuam nos estabelecimentos para adultos. Se em alguns desses estabelecimentos, as crianças ficam em pavilhões separados dos adultos, em outros, uma separação efectiva e constante é impossível. A superlotação e a inexistência de infraestruturas novas que possam permitir o respeito dos padrões internacionalmente reconhecidos são os maiores desafios do sistema penitenciário no país. Estes não apenas limitam e ou impossibilitam a falta de separação entre reclusos, mas também afectam todos os outros direitos humanos dos reclusos, do acesso a uma alimentação diária condigna ao acesso a saúde e assistência jurídica.

Sem possibilidade de aceder à uma efectiva representação legal que responda às suas necessidades, as crianças vivenciam o funcionamento do sistema de justiça criminal, seus procedimentos complexos, linguagem e terminologia longe de ser facilmente entendida. Em sede de julgamento, as crianças não entendem quem é o seu defensor e obedecem apenas às ordens dos juízes: falar, sentar e ou levantar.

Dentro dos estabelecimentos penitenciários, apenas as crianças condenadas têm a possibilidade de aceder as actividades educacionais e professionais, enquanto as preventivas não o podem fazer, devido a sua instável situação processual, e impossibilidade pela administração penitenciária de saber quanto tempo lá permanecerão. Esta prática vai contra as Regras Mínimas de Tratamento dos Reclusos – Regras de Mandela – e altamente discriminatória. Até prova em contrário, o preventivo goza da presunção de inocência e como tal, deve ter acesso a todos os serviços que a administração penitenciária prevê.

Entretanto, as crianças condenadas também não são sujeitas a um tratamento individualizado de reabilitação e reinserção social. Nem em todos os estabelecimentos penitenciários é possível frequentar uma escola para continuar o processo educacional. No Estabelecimento Especial de Recuperação Juvenil de Boane não existe uma escola que as crianças possam frequentar enquanto cumprem a pena. Existem algumas actividades ocupacionais em vários estabelecimentos penitenciários, mas estas não são direcionadas às crianças, no específico. A impossibilidade de continuar um processo educacional e formativo terá um impacto severo nas vidas das crianças, seu desenvolvimento e futuro. O cenário comum é que as crianças passem muito tempo no ócio, durante o cumprimento da própria sentença, contando os dias que faltam para sair.

Quando na fase final de cumprimento da sentença, nem sempre a administração penitenciária tem a capacidade de recriar o laço com uma possível família que está a espera da criança, fora do estabelecimento penitenciário. Durante a pesquisa de 2019, foi compartilhado que vários são os casos em que, uma vez em liberdade, não tem família a espera da criança, porque a única avô que cuidava dela antes de ser presa, faleceu, por exemplo. Em outros casos, as famílias rejeitam as crianças assim como a comunidade de onde a criança vinha. Não há, muitas vezes, para a criança, uma outra alternativa além daquela de viver na rua. Outras vezes não é improvável ver a criança voltar a barra do tribunal, talvez por ofensas mais sérias do que aquelas cometidas na primeira vez. É um circulo vicioso que não prevê uma via de fuga e as crianças transformam-se em vítimas de um sistema de justiça e um sistema social incapaz de protege-las e apoiar.

Queremos eliminar o número de crianças encarceradas e reduzir substancialmente o número de menores que entram nos estabelecimentos penitenciários. Precisamos afastar esse grupo do sistema de justiça criminal. O afastamento deve ser aplicado em todas as fases de justiça criminal. A Polícia não devia deter uma criança, mas encaminha-la a um serviço de assistência social. Se detida, o juiz de instrução criminal não devia aplicar prisão preventiva a uma criança, mas alternativas a prisão preventiva, envolvendo um serviço social no caso de não existir uma família que possa cuidar da mesma. O juiz da causa não devia aplicar uma sentença de prisão efectiva à uma criança, mas uma alternativa à prisão, envolvendo serviços de natureza social que possam apoiar a criança. Se estas alternativas à prisão existem, devemos usa-las com mais frequência e mais eficientemente. Um efectivo sistema social que olhe à criança em conflito com a lei como um grupo vulnerável que precisa de apoio, deve ser criado. Tudo isso requer instrumentos sofisticados de cooperação interinstitucional entre o sistema de proteção social, educação, sistema de saúde e sistema de justiça. Um sistema abrangente de proteção da criança em conflito com a lei é possível com a criação de políticas de prevenção criminal e intervenção precoce. Acima de tudo, há uma grande necessidade de apoiar famílias, comunidades, escolas e sistemas de bem-estar infantil para lidar com toda a criança, incluindo as crianças em conflito com a lei.

A era do parte coco

Narra-se que, num ano atípico, assolado por catástrofes sanitárias e políticas, houve uma mudança de paradigma em vários campos sociais. As pessoas já se sentiam menos juntas, a solidariedade já se tinha enfraquecido, ninguém mais pensava noutro! Até porque a realidade da época dava menos alternativas para o exercício do altruísmo.

Nessa era, reaprendeu-se as técnicas da agricultura de subsistência, mesmo nos quintais nobres, o contexto não dava alternativas, ninguém se podia opor, era evidente o new dilúvio.

Quando em conversas com o meu avô, Gaiéthi, dissera-me que não haveria arca capaz de salvar esse povo.

Mas por quê, avô?

Meu neto, não se pode pedir algo a quem já não tem! Não pode clamar por ajuda quem já dispensou todos os anjos. Não pode, meu neto, não pode! Vou dormir.

….! Foi, sem dúvida, confuso e inquietante ouvir essas coisas do avô. Não sei, ao certo, o que ele quis dizer, mas senti um ar de decepção e descrença em algo actual, será o nosso mundo? Estará ele a preferir o então a o presente?

Nessa era, os políticos já se viam afogados nos próprios discursos, é que as falácias tinham menos vida. Deus pode ter investido na velocidade das respostas, elas não tardavam, a noite que nos tomava como puros, lutava com a manhã que nos tornava infectados assintomáticos. Ninguém concordava com isso, mas ninguém podia ser ouvido, o distanciamento impedia o soar alto da voz. O uso da máscara se tornou maléfico depois benéfico, a ida à escola imitou, a ida à igreja imitou. Ninguém perguntou os porquês. Todos imitamos!

O discurso do senhor doutor era incompatível com o de sua excelência. O tema era o mesmo, os objetivos eram opostos.  São acontecimentos que a mim muito tocaram e moveram para épocas e sensações variadas. Mas, isso não era o cúmulo, não era!

Há uma época em que houve elevação dos até então marginalizados. Parte Coco viu, nesse cenário, uma oportunidade para ensaiar a sua chegada. Ninguém se manteve indiferente, Parte Coco arrasou com todos.

A sua narrativa épica se desenrola no bairro da Manga, na Beira. A priori, Parte Coco é um cidadão comum e respeitoso. Contudo, não diz o mesmo quem o tenha encarado nos olhos duas vezes, isso acarretava dívidas pagas em duas modalidades: dinheiro ou porrada!

Ele não apresentava outros critérios. Era firme, não só no andar, nas negociatas também. Ninguém se atrevia a olhá-lo profundamente sem ter pujança económica. Afirma-se que pode ter sido o único homem da Manga que mais auferiu com a sua imagem, pelo que o seu olhar poderia lhe render o sustento de cada dia.

Ninguém tinha coragem de o contrariar. Ninguém o denunciou, quando violou as mulheres. Nenhum polícia o apreendeu, quando espancou os seus conterrâneos, mas todos sabiam que ele podia ser preso, mas quem o podia prender?

Há quem diga que os exageros não paravam por aí, por questões de preservação da identidade e por se tratar de relatos sobre quem não tem dificuldade em acertar contas mal resolvidas, vamos omitir o nome do narrador.

Esse, quando batia, só podias sentir a porrada, mas não vias de onde vinha. Ele bate forte. Não fala muito. Viola as nossas mulheres e nos obriga a continuar com elas. Ele não pode ser contrariado, por isso se dizia ser o Chefia. Ele batia, mas não era confuso.  Lembro-me de que o meu pai me disse que, quando ele fosse beber com os amigos dele, ninguém tinha coragem de o cobrar pelas bebidas. Ele se embriagava à borla, vê-se pode!? Ele corta cabelo no salão da esquina. Mas, sempre que lá está, o dono do salão entra em pânico, é que ele o deu um aviso.  Quando lhe cortasse cabelo, não pode tocar muito na sua testa, ele não gosta. Caso contrário, ele tomaria a barbearia para ele. O dia em que eu o olhei sem saber, ele me obrigou a pagar-lhe 250 meticais ou ele iria deitar-se com a minha namorada “widas”, tive que fazer um empréstimo para o pagar. Parte Coco não tem medo de ninguém, senhor!”

Outros relatos dispersos dão a entender que o Parte Coco levava uma vida de rei às custas de seus conterrâneos, ele rendia só com a sua presença. O Paulito, jovem da Rua 9, chegou a dizer que os vizinhos eram proibidos de acordar antes dele, sob o risco de fortes sanções. Mas também, diz-se que ele batia nos homens que agrediam as suas mulheres, ele não gostava disso.

No meio dessas barbáries, Parte Coco também é reclamado como herói da comunidade da Manga, há quem refere que o bairro da Manga já andou mais seguro e organizado com ele lá.

Já andou porque não andará mais. Parte Coco foi baleado e preso na última noite. Há uma mistura de sensações da parte de quem se deixou fotografar pelos seus olhos, ele nunca se esquece das contas mal paradas, era vaidoso nesse sentido!

Há quem se alegre pelos vizinhos, há quem lamente pelos reclusos! Parte Coco divide sensações naqueles que agride e deixa de agredir! Parte Coco sonha ser polícia, Parte Coco foi baleado e preso por um Polícia!

Parte Coco pode não ser só violador, só agressor. Parte Coco poder ser mais…!

 

A Legítima Dor de Aurélio Furdela

Sobre o Manifesto de Consciência Literária ou Repúdio à Mediocridade Hostil

Aurélio Furdela publicou no jornal O País, na página de opinião, a 19 de Novembro, às 21:11 o texto “Manifesto de Consciência Literária ou Repúdio à Mediocridade Hostil”. Escrevemos sobre este texto, com esperança de contribuir para o debate proposto pelo escritor.

Emprestamos a expressão “Legitima Dor”, da obra A Legitima Dor da Dona Sebastião de Lucílio Manjate, para sustentarmos a insatisfação, a dor, a angústia que perpassa na alma do autor cujo Manifesto de consciência literária é uma tentativa de traduzir o problema.

Uma discussão deste tema (Mediocridade hostil) é importante se pretendermos rever a literatura (sobre os sujeitos e práticas que comprometem o sistema literário) e enquadrá-la no nosso contexto, de uma produção e recessão da literatura deficiente, para uma sistematização nacional sobre o assunto.

Para o início do debate, passamos a tecer alguns comentários sobre o Manifesto. Começamos com um contra argumento à mediocridade nociva, que tem como base o facto de os «escritores de circunstância»[1], os primeiros, não serem especializados. Este argumento, mostra falhas logo no início da actividade literária, o que justifica a posição de insatisfação por parte do autor, visto que, naturalmente, surgiriam também, além de «escritores de circunstância» não medíocres (revelados no período colonial, engajados no processo revolucionário, de pertença a um território), prosadores e poetas medíocres que passaram a fazer parte do território literário. No entanto, a literatura, sobretudo a escrita, exigente, permite abertura para iniciantes que reúnem amor, estimulo, estudo, vivência, estima, conhecimento, sobremaneira. Aspectos condicionantes a produção de uma boa literatura.

Do universo de «escritores de circunstância», passado algum tempo, os medíocres esconderam-se[2] na sombra dos feitos do grupo que firmara as bases para o avanço da actividade literária. Por essa razão, insatisfeito o autor e ciente das fragilidades de alguns itens[3], apresenta-nos um instrumento de análise, segundo a qual, é convidado todo «escritor de circunstância» a preencher o quadro, com objectivo de aferir sua própria relevância. Essa proposta, apresenta-se pertinente, porém, peca por ser o próprio escritor a se auto-avaliar de modo a perceber se se ajusta ou não no universo dos não medíocres, facto que, por outro, parece funcionar como convite para uma espécie de“haraquiri”[4]intelectual.

Perceber os itens referidos no quadro, é abordar a questão da prática e dos sujeitos que asseguram e legitimam a actividade literária. Tais práticas e sujeitos, por vezes falíveis. Tal vez seja por tal motivo, que o escritor que não preencher o quadro, em75%, a sua relevância no universo dos não medíocres é duvidosa.

Sendo assim, repetimos, acreditamos que quando um escritor se propõe ou se submete a preencher o quadro sugerido no manifesto, está se auto-avaliando, portanto, compreendemos, formalmente, que esta não é a responsabilidade do emissor/escritor, cuja função é criar e publicar, para daí, a instância do receptor/leitor assumir a responsabilidade de atribuir relevância a obra do escritor, fazendo com que ela passe a existir, preenchendo os vazios, interstícios e fazendo com que «aconteça».

Em geral, o argumento acima exposto a propósito da insatisfação/dor por parte de Aurélio Furdela (relativamente e contra a mediocridade hostil), o facto de alguns «escritores de circunstância» se esconderem na hegemonia de criação de bases da actividade literária do grupo, é nocivo ao sistema literário. Daí, a proposta de um instrumento de análise. O que por conseguinte, abre espaço para ilações, significa que, tal como a produção literária feita por incipientes, a recessão não se demonstra exclusiva, ainda que, em algum momento tenha sido denominada, a sua materialização, de «Falso silêncio» (deixe-se a crítica académica e considere-se a imediata), está a falhar, no sentido em que já não serve para cumprir uma das suas funções, conferir a legitimidade, ou os críticos, aos quais cabe a responsabilidade formal de pensar nessa perspectiva de crivar, não estão o fazendo, a argumentar pelo facto de ser um escritor a propor e dar o primeiro passo formal ao debate, não que os escritores não possam ser críticos, mas, no caso em particular, o escritor Aurélio Furdela, assume-se no manifesto, como escritor. Aliás, este autor tem vindo a caracterizar-se, no intervalo de mais de uma década para cá, por ser um constante agitador de ideias, facto que no futuro, apenas a História da Literatura Moçambicana saberá ou não absolver.

Se a recessão também envolve incipientes, pelo que a produção literária envolve «escritores de circunstância» medíocres que se escondem na hegemonia do grupo que criara bases literárias nacionais, é caso para reelevantar a seguinte questão de forma contrária «a existência de uma crítica literária nacional fraca é influência ou é reflexo de uma literatura igualmente fraca?» (Lobo, 2013:132).

A verdade, é que a instância da edição, o editor, sobretudo o literário, não desenvolveu e não está desenvolvendo seu papel de crivo, como deva ser, para colmatar a mediocridade hostil.

O outro argumento contra a mediocridade, de alguns membros do grupo de «escritores de circunstância», que o escritor Aurélio Furdela usa para demonstrar sua legítima dor, tem a ver com o fórum dos laços na actividade literária, favorecido pela convivência, isto quer dizer, são mesmas pessoas que desenvolvem a actividade. Ficando difícil de não se afeiçoar e criar amizades, comprometendo a actividade literária, o que nos impele a duvidar dos juízos de valor, incluindo do autor do Manifesto, aquando de arrolar uma lista de «escritores de circunstância»[5] que acredita serem talentosos, por estes, fazerem parte do seu círculo de amizade. Todavia, não podemos nos esquecer que um escritor quando lança um trabalho, este, não deve ser avaliado do ponto de vista da amizade, da sua boa/ má fortuna, mas pela obra que publicara no momento.

Dos «escritores de circunstância» que o Autor Aurélio Furdela acredita serem medíocres, dói-lhe o facto de estes escritores persistirem na actividade literária, sem talento, trabalho, conhecimento e outros aspectos condicionantes a produção de uma boa obra literária, mas serem, simplesmente, movidos pelo mero sonho de adolescência, pelo prestígio que detêm nas revistas, pelo facto de fazer parte dos que iniciaram a produção literária após a saída no país, de especialistas, tenderem a funcionar como barómetro da legitimação literária. Características que salvaguardam importância de alguns «escritores de circunstância», já que, nem contemporizar-se conseguem, pelo que, alguns novos escritores seguem cegamente os modelos dos «escritores de circunstância», na busca de consagração.

Por isso, o ciclo vicioso se repete, por várias vezes, a produção e a recepção é comprometida, pelo fórum das amizades, afeiçoes, a justificar pelo prefácio de um dos modelos, escritor de circunstância, seguido por muitos novos escritores, veja-se o prefácio «Não é verdade» de autoria de Eduardo White, a prefaciar «Conversas do fim do fim do mundo», de Marcelo Panguana. Um discurso cujo conteúdo é elogiar a pessoa, o amigo, para emitir um juízo de valor sobre a obra, confesso aqui, encontrar reservas em chamar de biografismo, uma técnica de análise, porém, importa evidenciar o seguinte excerto: «Eu, pessoalmente, delicio-me com o trabalho do Panguana, com a sua obsessão pelo belo do humano e do tudo que o rodeia.», o autor parecendo não ser excepção, descreve o seu sentimento pela escrita do autor, chega a dizer o que podemos ler no prefácio, porém não faz referência com base em excertos da obra, percebe-se no excerto, «aprecio a eloquência condimentadíssima da sua escrita», exercício valorativo, que se repete ao longo do prefácio, o autor traz consigo ideias preconcebidas, o que não é mão, afinal todo leitor tem seu horizonte de expectativa, mas o que se percebe deste, é que se trata de fóruns íntimos. Não obstante, leia-seo seguinte:

«Resolveu publicar, festejando-nos e a festejar uma das virtudes que mais admiro nele […] tem sido assim desde que o conheço partilhando comigo as dúvidas e os medos que tal decisão representa para nós.» [Sublinhado nosso]. O autor não se baseia em nenhuma sustentação teórica, ao invés de se cingir a escrita do autor/obra, preocupa-se com a vida de Panguana para explicar a obra.

Não pretendemos com o exemplo afirmar que Panguana represente ou não a mediocridade, mas simplesmente ilustrar a prática que Furdela entende elemento de suporte ao que chama no Manifesto “mediocridade de nociva”, pois, segundo ele, caracterizam-se muitas vezes, os discursos dos prefácios e de apresentação de livros, da seguinte forma: Arrolar nomes de “enteados” como autores de destaque, algo não fundamentado pela obra. Quando parece que prefaciam as obras dos tais “enteados”, prefaciam os autores, não o livro. Por isso, a comunicação literária falha (produção recepção literária).

Portanto, as práticas de alguns “escritores de circunstância”, sem nos esquecermos dos novos escritores que seguem cegamente tais práticas/modelos, devem ser feitas conforme as deontologias da área, e os sujeitos que salvaguardam a boa reprodução e recepção da literatura, devem assumir o seu papel[6], pois, comprometida a literatura, pelo comportamento destes (escritores de circunstância), de persistir em sonhos de adolescência, orgulharem-se pela hegemonia de ter feito parte do grupo de jovens escritores que iniciaram a actividade literária no país, após 1975, em 1982,e o ciclo vicioso do fórum das amizades, pode se manter e ressurgir prosadores e poetas medíocres, comprometendo negativamente o sistema literário, tornando assim, legítima a dor de Aurélio Furdela.

Bibliografia

Figurell, Roberto. (1988). Hans Robert Jaus e A Estética da Recepção. Universidade Federal de Paraná;

Lobo, Almiro. (2013) “Sobre o falso silencio da critica literária Moçambicana”. In Leituras Ensaiadas. Maputo: Imprensa Universitária, pp.132-135.

Manjate, Lucílio. (2013). A legítima Dor da Dona Sebastião. Maputo: Alcance Editores;

Reis, Carlos. (1999). “ A Literatura como instituição”. In O conhecimento da literatura. Coimbra: Almedina;

White, Eduardo. (2012). “Prefacio: Não é verdade?”. In Panguana, Marcelo. (2012). Conversas do fim do mundo. Maputo: Alcance Editores.

Por Gerson Monjane

[1] Depois da independência, com a saída de escritores incipientes, jovens, profissionais ocupam posições de altos escalões, condicionadas pelas dinâmicas sociopolíticas de seguir em frente com recursos disponíveis, por isso, a criação da AEMO, em Agosto de 1982 como tentativa, bem conseguida, da ideia de avanço.

[2] A titularidade de fundadores da actividade literária, prestígio que lhes concede espaço nos canais de comunicação de honra, fora serem influentes.

[3]Obras publicadas, reedições, Inserções em Antologias, traduções em Línguas estrangeiras, Publicações internacionais, ensaios académicos sobre a obra, monografias sobre a obra, livros sugeridos para a leitura na escola secundária, prémios literários e adaptações do livro para o Cinema.

[4] Suicídio de honra,  praticado especialmente entre guerreiros japoneses,  que consiste em abrir o ventre.

[5]Nesse universo de «escritores de circunstância», acredita Aurélio Furdela haver nesse grupo ou nos não citados, talentosos e Medíocres Ungulani Ba Ka khosa, Armando Artur, Juvenal Bucuane,Eduardo White, Hélder Muteia, Filimone Meigos, Paulina Chiziane, Tomás VieiraMário, Mia Couto, Suleimane Cassamo, Anibal Aleluia, Nelson Soúte, Calane da Silva, Pedro chissano, Carlos Paradona Rufino Roque, António Pinto de Abreu, Marcelo Panguana, entre outros.

[6]As academias acolhem os críticos, ensaístas de prestígios que reconhecem os escritores e consagra-os, concedem os prémios literários, valida a literatura institucionalmente, julgando-a. Os jornais e as revistas também têm seu papel, sem esquecer dos demais envolvidos na literatura.

“A GREVE DOS MENDIGOS”: um manifesto político em prol dos pobres

O livro “A Greve dos Mendigos”, de Aminata Saw Fall, é uma obra literária que tem o pendor de levar o leitor a uma reflexão em relação a forma como as cidades africanas são dominadas por uma política neocolonial, em que os negros são escravizados pelos seus semelhantes. Um texto que nos remete também a reflectirmos sobre o sonho de liberdade que todos os seres humanos, especificamente africanos, desejam.

O livro foi publicado no Senegal, em língua francesa, em 1979. Em 1986 saiu a versão em inglês, em 2000 foi adaptado ao cinema pelo realizador Cheikh Cissoko e em 2019 foi publicada a sua versão em português pela editora moçambicana Ethale Publishing.

Um livro de leitura leve e divertida que me permitiu observar que várias questões levantadas têm acompanhado o quotidiano de muitas cidadãos africanos. O livro fala de mendigos espalhados pela cidade, interpelando os utilizadores das vias públicas, pedindo esmola, o que chega a causar nalgumas vezes incómodo e repulsa aos citadinos, devido à sua aparência e odor.

No livro são igualmente feitas, interpretações por algumas elites, sobretudo políticas sobre as consequências que esta gente pode trazer para a economia da cidade, tendo em conta que as cidades dependem também do turismo e do investimento estrangeiro, levanta-se a questão de ser necessário manter as cidades limpas e organizadas, ou mais desejosas retirando todos os obstáculos que afectam o brilho da cidade, para a tornar mais atraente. “É preciso livrar a cidade destes homens – sombras de homens melhor dizendo… A Cidade exige ser limpa destes elementos” (2019:11).

Além disso, o livro nos remete a reflectir também sobre como todos podemos influenciar na tomada de decisões políticas relativas à organização da cidade, homens, mulheres, ricos e pobres. A grande preocupação das elites políticas conforme retratadas neste livro, era de que os mendigos estavam a colocar em causa o turismo, a livre circulação do “cidadão de bem”, e isso estava a reflectir-se na economia.

A autora faz uma reflexão, por meio de ficção, sobre como em África também acontece a violação dos direitos humanos fundamentais com a justificação de manter a ordem e tornar os espaços públicos mais agradáveis, expulsando os mendigos ou qualquer outros elementos ou pessoas para bem longe da cidade, que possam colocar em causa estes objectivos. Temos também reflectido nesta ficção o hábito de muitos representantes políticos, que fazem o uso abusivo do poder para realizar interesses individuais em detrimento dos colectivos.

A meu ver, a autora também traz neste livro uma ideia da capacidade que as mulheres têm de participar na esfera pública, apresentando ideias sobre como gostariam que as coisas fossem conduzidas na sua cidade, trazendo uma personagem mulher que coloca em causa as ideias de Kéba (outra personagem com a missão de retirar os mendigos da cidade), questionando-lhe sobre os problemas que poderiam advir desta vontade de limpar a cidade destes homens tidos pelas elites como repugnantes.

Além destas ideias, creio que o livro demonstra também que as mulheres são dotadas de capacidade de participar na política apresentado seus pontos de vista sobre como deveriam acontecer as intervenções de mudança nas cidades. E através deste livro a autora apresenta, através de uma ficção, as suas críticas em relação aos factos que acontecem na sua cidade, sendo essa uma das motivações que lhe fez escrever este livro, como ela refere em  entrevista concedida em Janeiro deste ano à revista Literatas – “O que inspirou-me foi ter notado mudanças na minha sociedade em relação as necessidades das pessoas”.

A autora chama atenção em relação a algumas decisões políticas, que muitas vezes são tomadas apenas para agradar ou acomodar os interesses privados das minorias, ao invés de pensar no bem comum, referindo-se a como estas decisões podem afectar ainda mais o desenvolvimento da própria cidade ou acarretar consequências que podem colocar em causa o seu equilíbrio em geral. Por isso, no final o livro descreve uma situação em que os mendigos são solicitados a regressarem para a cidade, pois eles eram também parte da cidade que despertava interesse aos turistas e investidores estrangeiros.

 

Dona Pérola

Vi dona Pérola pela primeira vez nos anos 80, com a fome no auge. Nem sei se a conheci ou ela a mim. Temo dizer que nos conhecemos porque nessa altura eu era tão verde para conhecer quem quer que fosse. Ela tinha as suas atenções bastante disputadas que talvez ao invés de conhecer-me, somou-me como mais um.

A nossa diferença de idades não impede meus olhos de ver que, fazendo jus ao nome, dona Pérola é extraordinariamente linda, seus contornos e fundos são tesouros incalculáveis dos pés à cabeça. Naquele sorriso fácil e meigo escondem-se segredos capitais e seculares. Duvida-se da cor do sangue que corre nas veias escondidas por aquele corpo fino, longo e de pele macia. É que a ser vermelho há muito que o coração teria soçobrado perante as angústias e demais cocktails de dissabores servidos à sua mesa.

As águas imaculadas que lhe percorrem das entranhas até aos poros atraem navegadores de diferentes estirpes e latitudes. Desejam tocá-las suave ou freneticamente até ao arrepio, desnudar-se, lançar o anzol bem esticado até regressar satisfeito. Querem penetrar até as profundezas do mar de emoções que ela é para a conhecer e domá-la. Mas não era de imaginar que não só navegassem mas também defecassem e fossem capazes de chegar a todos os cúmulos de estupidez e sabotagem que secam o coração de dona Pérola. A beleza e todo o açúcar que carrega no corpo e no coração lhe saem à desvantagem quando vê as outras, menos perolizadas, sobrecarregadas de bem-aventuranças incomensuráveis.

Estes abutres que se relacionam com dona Pérola sabem que ela tem rebentos por cuidar mas não oferecem ajuda. Quando a conheci ela já tinha filhos e numa mágica afeiçoei-me a eles e ficamos todos irmãos. Mas uma das maiores tristezas da dona Pérola é a intensa peleja entre os filhos que vivem divididos lutando por uma posição de poder na casa e por recursos que ela afinal ainda está a construir. É duro demais para ela.

Ela por vezes finta estas tristezas com alegrias que não se sabe aonde vai buscar, mas dizem que o sofrimento dela é já antigo e começou pela tremenda dificuldade para ela nascer. Uma gestação que tinha de ser escondida porque calhou num lugar e tempo em que havia um decreto que proibia nascimentos. Então aprendeu a comprimir-se, esconder-se e renegar-se ainda no ventre da mãe para que sua vinda não fosse abortada. Foram inúmeras as vezes que desconfiaram da barriga da mãe e chamaram-na para interrogatórios que gelavam e cortavam a respiração. Pelo menos por um bom tempo acreditaram tratar-se de um simples engordar catalisado pela dieta típica para vacas e porcos: espigas de milho amarelo, tubérculos variados e tantos alimentos-arranjos.

Fitar dona Pérola exige audácia perante o risco da hipnose causada por aqueles olhos berlindes ofuscantes pelos quais muitos prometem fundos e mundos. Alguns rifados desapontam-na por fixarem-se nesta preciosidade e não nela. Os preteridos infernizam-lhe a vida desejosos de a ter pelo menos como concubina. Ignoram que ela é mãe de família, tem filhos por respeitar, não é oxigénio para a todos satisfazer e que para tamanho meretrício não há fêmea que aguente. Dona Pérola tem na possibilidade de escolha, um calvário. Sofre porque tem que escolher companheiros à altura do seu físico, pose e posses mas também porque o outro não está ao seu controle. Quando se tem apenas couve cozinha-se e come-se mas quando as escolhas vão desde legumes até carnes sofremos bastante com combinações e satisfação do paladar.

Não sendo mais possível esconder a gravidez e com medo de perder o rebento, a mãe de dona Pérola teve que passar de mata em mata buscando algum buraco para se esconder. O martírio só terminou por meio de uma longa e sangrenta revolta da maioria, que não concordava com o decreto do governo formado por poucos forasteiros mas militarmente fortes. À custa de muito sangue, os forasteiros foram vencidos e dona Pérola veio ao mundo com a população em grande festa e entre infindáveis alaridos.

Sentada ou em pé, nota-se que ela carrega poços por explorar nos dois assentos naturais e em vários apartamentos do corpo. Diante de tamanha riqueza não poderiam faltar prospecções até ao fundo dos poços para provar o sabor, testificar a essência, a naturalidade e sinalizar para que ninguém mais intente tocá-la. Por temerem as responsabilidades com dona Pérola e com os filhos, os exploradores aproveitam-se da penúria, das diferenças e consequente descontentamento para colocar uns contra os outros. Atiçam uma fé religiosa de emergência e inconciliável com o amor que a mãe Pérola sempre ensinou e ofereceu para sugarem-lhe os beiços. Debaixo da bandeira de um deus descomedido penetram-lhe até à medula com pose de magnatas e facilidades de simples garimpeiros.

Ela tem tantos filhos quanto os tem a morte. Dentre eles, ou foram os poetas, imbuídos pelo labor da beleza, ou os políticos tentando adormecer os irmãos com cantarolas para amenizar o saque, que deram a ela esse nome de Pérola… Pérola do Índico. Não era esse o nome dela quando nasceu a 25 de Junho de 1975.

Terceiro Contracto de Educação Social: Será que a Educação vai mudar?

Um pouco pelo mundo, ganha corpo o debate sobre o terceiro contracto de Educação Social ou o novo Pacto Educativo. Um movimento que envolve especialistas, professores, decisores, governos e universidades e, até, o próprio Papa Francisco, que deveria ter realizado o Congresso sobre educação em Maio deste ano.

O pressuposto para este manifesto é o de que em nenhum momento da nossa história, o mundo teve tantos avanços inimagináveis, vertiginosos e exponenciais da ciência e tecnologia, tais como biotecnologia, nanotecnologia, infotecnologia, robótica, ciências espaciais, neurociências, entre outros. Porém, existem, contradições e desigualdades inaceitáveis diante de tantos avanços. O mundo ainda assiste aos milhões de pessoas que sofrem de fome, pobreza extrema, desnutrição, migração, racismo, xenofobia, injustiça e violência nas suas mais diversas expressões e consequências.

A pandemia SARS-COV 2 provou, em muito pouco tempo, como os seres humanos continuam altamente vulneráveis e que apesar de estarmos no século XXI, a meio destes grandes avanços científicos e tecnológicos, a humanidade continua vulnerável, independentemente da cor da sua pele, das crenças, religiões e posições geográficas. Por outro lado, a pandemia permitiu, também, conhecer a importância que as tecnologias podem ter neste mundo pós-moderno, sobretudo, com as experiências da telesaúde, educação à distância, e-governo, e-comércio, e-banking, etc. que abriram espaço para a criatividade, inovação, empreendedorismo, nos seus níveis pessoais, familiares, comunitários e institucionais.

As bases para este terceiro contracto de educação social são os anteriores grandes acordos sociais de educação que permitiram um conviver e um progredir do bem-estar da sociedade e da humanidade. Em grande medida, o novo acordo baseia-se nas necessidades crescentes da revolução cientifico-cultural, que terá que produzir uma nova disciplina laboral e, na essência, cada pessoa deverá descobrir a sua paixão, aprender ao longo da vida, cultivar novas competências e habilidades, desenvolver todo o seu potencial, encarregar-se de inventar o seu trabalho e dirigir a sua vida.

O primeiro contracto social teve por base a aquisição de competências básicas para um desenvolvimento pessoal e profissional. A promessa era de que ao aprender de coisas básicas, todos poderiam se desenvolver na vida, tendo disciplina e obediência, e ganhariam um trabalho digno para o resto da vida. O segundo contracto, por sua vez, baseava-se na aquisição de competências técnicas e profissionais que foram fomentas pelo crescimento de universidades, centros de estudos técnicos e superiores, em todo o mundo. A promessa era sustentada nos seguintes argumentos: estude muito, faça esforço, tire boas notas, siga uma carreira e terá um bom trabalho para toda a vida.

O final do seculo XX e o início do seculo XXI, criaram realidades diferentes em que as circunstâncias tecnológicas, económicas e laborais transformaram-se radicalmente e o contracto social da educação não foi renovado e gerou disfuncionalidades e, até, uma anomalia histórica.

Ainda que o terceiro contracto de educação social não esteja definido, certamente que é possível delinear os seus traços fundamentais. Assim, aos estudantes será exigido o desenvolvimento de competências, de criatividade, inteligência emocional, inovação, empreendedorismo e, sobretudo, liderança. Quer aos estudantes, quer aos professores, será exigido o domínio das novas tecnologias, das línguas e, principalmente, que se encarreguem de inventar o seu próprio trabalho.

Também, nesta fase, a escola e os centros de ensino superior terão que potencializar sujeitos pensantes, livres e responsáveis. Dito por outras palavras, teremos que enveredar por uma educação que corresponda as condições de vida do século XXI, que eleve a condição humana das pessoas e contribua para a construção de sociedades democráticas, equitativas e sustentáveis. Essa será uma educação que compromete a todos actores sociais em torno de um ecossistema em que estejam presentes e sejam protagonistas, quer dizer, serão convocados a comunidade, as famílias, os trabalhadores não docentes, os meios de comunicação e as próprias autoridades. Todos estes, terão que contribuir nesta acção multifocal, para ajudar aos jovens a se desenvolverem plenamente na sua dimensão pessoal e profissional.

O terceiro contracto de educação social tem em vista a mudança da agenda educacional e um redesenho gradual de todos os programas de estudo, com base na inovação educativa. Moçambique, brevemente, precisará de adaptar-se a estas realidades. Teremos que aprender a saltar do primeiro contracto de educação social para um terceiro, considerando que o segundo nunca foi explorado no máximo das suas potencialidades e que continuamos a ter um ensino que forma profissionais dependentes do empenho. Mas é, sobretudo, a administração pública que precisa de rever os seus critérios de ingresso nas careiras profissionais, que não olhem apenas a certificados e diplomas, mas que busquem competência, capacidade técnica e inovação.

 

 

Casa 30: um deadline com nuances diferentes nas sinfonias de K7’s Azuis e de Gasso

Falar da relação intertextual sem alicerçar o conceito de texto num porto seguro é de longe uma atitude arriscada. Para alhear-me disso, é-me oportuno referir que há de se entender como texto “qualquer tipo de comunicação realizada através de um sistema de signos (quer se trate de um poema, uma música, uma pintura, um filme, uma escultura, etc)” GOUVÊIA (2007: 58)

Faço este backshift não só para estabelecer uma âncora satisfatória como já o disse mas para justificar o que me faz abordar “casa 30” de K7’s Azuis (um grupo moçambicano de fazedores de Rap/Hip-Hop) e “30 anos” de Gasso (músico moçambicano) como textos no sentido mais lato possível. Ambos registos musicais foram tornados públicos no primeiro semestre de 2018. Atentemos, portanto, que a sequencialidade com que as músicas foram lançadas desinteressa-me, valendo-me só o facto de saber que foram produzidas em volta do mesmo contexto sócio-cultural.

Sobre a intertextualidade (diálogo que se inscreve nestas músicas na qualidade de textos) vale referir que este conceito foi cunhado por Julia Kristeva (1974: 64), sob o pressuposto de que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto.” Surge, portanto, que estas constatações levam-nos a crer na impossibilidade de existência de uma obra artística num contexto alheio à intertextualidade. E, mesmo que exista tal possibilidade, resulta que a mesma seria incompreensível durante o “convívio” com diferentes leitores porque “só se apreende o sentido e a estrutura de uma obra literária se a relacionamos com seus arquétipos que são abstraídos de textos anteriores que constituem a constante” Jenny (1979) apud BARBOSA (2005: 27)

Este diálogo entre textos pode manifestar-se de diferentes formas, contudo, neste texto importa-nos tecer brevíssimas considerações a respeito da paráfrase e da paródia que além de serem muito comuns, são basilares para os nossos comentários acerca de “casa 30” de K7’s Azuis e “30 anos” de Gasso.

Indo ao encontro do que nos revela GOUVÊA (2007: 60), diríamos que:

a paródia inova, inaugura um novo paradigma e constrói a evolução de um discurso. Na paródia, há uma tomada de consciência crítica, de algo que foi recalcado e posteriormente emergiu. Uma nova maneira de ler o convencional.

em contrapartida, a paráfrase é um discurso em repouso em que alguém abre mão de sua voz para deixar a voz do outro falar. Não há conflito, pois não há oposição. Funciona como se fosse um espelho que reflecte o discurso do outro.

Portanto, em composições rítmicas diferentes, “casa 30” ao ritmo de um bom Hip-Hop e “30 anos” em Kizomba, ambas modalizam um debate cada vez mais frequente nos fóruns de conversa sobretudo juvenis em que a tônica da conversa cinge-se na idade ideal para que o/a jovem “saia da casa da velha”, mas essa é outra conversa que este texto não pretende dar vazão.

O que me chama atenção nas músicas de K7’s Azuis e Gasso é a forma como este debate é tomado com nuances diferentes embora com um ponto de intersecção: a casa 30 é um deadline para tomar um rumo próprio. Quanto a este aspecto, a relação dialógica que se inscreve é de um paralelismo indiscutível. Ora, K7’s Azuis esgotam-se na abordagem fazendo do seu texto um sermão do qual ninguém escapa pelos desafios que se lhe impõem enquanto jovem na “casa 30” ou os que a sociedade institui como sendo próprios dessa idade: desde a casa própria, a profissão, o matrimónio até a procriação, assuntos pelos quais os rappers gravitam e dramatizam em função da criatividade lírica que o Hip-Hop permite e, para conferir um toque mais melódico, aparece o corro na voz de Hot Blaze, e sentencia:

“tens a tua vida mano/ para o ano fazes 30 anos/ ainda estás em casa do papá/ ainda és filhinho da mamã/ cada passarinho faz o seu ninho/ mana até já tens o teu filho/ mano sai daí, sai daí e vai fazer sua vida”.

Na sua globalidade, o teor deste texto traça um deadline inflexível e generalista que independe das especificidades decorrentes da (ir) regularidade da vida que é já uma premissa que todos conhecemos de cor.

É neste quesito que a antítese de Gasso se inscreve para nos reenviar a uma janela reflexiva na qual a generalização sede ante o relato de uma especificidade em que o “insucesso” perante o deadline instituído tem um motivo tão impensável quanto peculiar: o amor ou ausência dele, o que fez com que o eu-lírico tivesse a sua vida errante pelos corredores da indefinição.

Diz-nos o autor no seu refrão: “depois dos 30 / é que a minha vida/ ganhou sentido/ por ter te conhecido”. Ao que se depreende que antes disso a vida do sujeito lírico resvalava pelos túneis da marginalidade e indiferença para com a vida e os seus ditames típicos de alguém que esteja na “casa 30”. O amor surge, para Gasso, como o mote para um “renascimento” mas em boa análise podemos inferir que podia ter sido uma outra razão.

Portanto, quando se diz, nas reflexões sobre a arte sobretudo literária, que esta é concebida para gerar beleza e encantamento, vale acrescer que, na estética da sua recepção, é preciso prestar atenção à simplicidade com que os fenómenos da arte se manifestam porque além de ser peculiar, passa-nos, por vezes, de forma bastante despercebida. E, quanto a estes textos, cabe realçar que é preciso olhar para as especificidades na concepção dos nossos deadlines e também reter que entre “casa 30” de K7’s de Azuis e “30 anos” de Gasso inscreve-se uma das mais belas manifestações da intertextualidade.

 

Pontualidade e Assiduidade: Qual o impacto para as empresas e para a economia do nosso belo Moçambique

Ser pontual é comparecer à horas no seu local de trabalho como previamente acordado no seu contrato de trabalho. Por outro lado, ser assíduo significa comparecer regularmente no seu local de trabalho. 

Já lá se vão os tempos em que, com meu irmão mais novo e minhas 2  irmãs mais velhas, íamos visitar Vovô Rabeca em Tsalala onde íamos comer * mimanga ni tinyumi. O machimbombo passava pelo Jardim dos Madjermanes às 9h30, nosso horário preferido dos sábados e era de nr. 50, se a memória não me falha.  Nessa altura sabíamos que era apenas questão de sair de casa  a tempo para conseguir o machimbombo e sabíamos também que um minuto de atraso significava que o mesmo já teria passado e que a solução seria esperar pelo próximo que estávamos certos que chegaria a horas.
Nessa altura era ainda possível ver os tios Manhique, Rodolfo e Miguel entrarem na praceta da Belita para almoçar por volta das 13h e regressarem ao trabalho alguns minutos depois de passarem a refeição em casa, sinal de que a hora de entrada e a saída do trabalho, assim como os horários de transporte eram respeitados à letra. Os tempos mudam e alguns hábitos e costumes também. Como seres humanos que somos, temos de saber nos adaptar, no entanto, porque mudar os hábitos que nos são benéficos?
Chegar atrasado ao trabalho e as reuniões
Na sociedade desenvolvemos a ideia de que chegar tarde ao trabalho e/ou às reuniões profissionais e pessoas é sinônimo de importância. Nas empresas públicas e privadas em Moçambique esta é uma prática corrente e recorrente. Lembro-me de ter tido, numa das empresas em  que trabalhei, 2 colegas  que chegavam ao trabalho atrasadas invariavelmente todos os dias, mas não porque tinha imprevistos. Pude observar com o tempo uma espécie de competição entre elas, que resultou com que chegassem cada vez mais tarde, como forma de mostrar sua importância , ao ponto de chegarem várias vezes mais tarde até que o  nosso próprio chefe.
Este hábito podemos também observar nos nossos dirigentes públicos. A poucos meses fui convidado para um webinar onde devia estar presente um dos nossos actuais ministros. O ministro chegou cerca de 30 minutos depois da hora marcada, não se desculpou e não ficou até ao fim da reunião. Demonstração de falta de educação, falta de respeito à equipe que lhe convidou mas também falta de compromisso ao povo de que é servidor.
Consequência da falta de pontualidade e assiduidade
Não me lembro de ter estudado sobre a importância do horário, pontualidade e nem assiduidade durante meus anos de estudo. Numa altura em que os “soft skills” constituem um dos problemas que os empregadores se deparam nos seus colaboradores, penso que seria primordial que temas destes sejam abordados em algumas disciplinas nas nossas instituições de ensino.

A falta de pontualidade tem várias consequências que podem ser diretas ao colaborador como por exemplo a perda de credibilidade nos olhos do empregador, assim como desconto na sua folha de salário. Mas o mais importante são efeitos que estes hábitos causam ao nível da empresa, notadamente o nível de produtividade, queda de resultados  financeiros da empresa, perda de clientes.
Este comportamento negativo pode ser prejudicial na relação entre os colaboradores, pois em alguns casos a ausência de um pode impedir que trabalho do outro avance, o que é desmotivante para o colaborador assíduo.
As consequências da falta de assiduidade e pontualidade  vão para além do impacto negativo na vida dos colaboradores e no desempenho das empresas. Nós somos seres interdependentes, assim são as empresas e os países. Quando um simples trabalhador não cumpre com o seu dever na empresa, ele na mesma altura está a faltar com o seu dever e responsabilidade como cidadão moçambicano. A ineficiência profissional de um colaborador na extração de matéria-prima (madeira) tem consequências financeiras para a empresa de transporte, que por sua vez prejudica a empresa fornecedora de matéria-prima, as empresas de produção de papel, assim como as empresas de fabricação de caderno escolar e que finalmente acaba por atrasar o início do ano letivo.  Esta interdependência deve ser do conhecimento dos colaboradores. Acredito eu que, se os colaboradores tiverem consciência da importância que os mesmos exercem nesta cadeia de valores para o desenvolvimento das suas empresas assim como de Moçambique, eles serão mais  assíduos e pontuais.
Ser pontual possibilita que o colaborador saia a horas do trabalho. Penso que os líderes devem incentivar os colaboradores a saírem à horas do trabalho (salvo situações excepcionais). Geralmente os colaboradores que saem tarde do trabalho também chegam tarde a casa, o que não lhes possibilita de passar tempo de qualidade com as suas famílias. “Os líderes não devem ajudar os seus colaboradores apenas com os seus trabalhos mas também com as suas vidas”. Família cria equilíbrio nas nossas vidas, poder passar no mínimo uma refeição  e algumas horas de qualidade com a família diariamente ajuda na performance e motivação dos colaboradores, pois no final trabalhamos para as nossas famílias. O hábito de aquecer cadeira para impressionar o superior devia ser condenado e corrigido pelos líderes, 8 horas bem organizadas são mais do que suficientes para que os colaboradores apresentem resultados diários esperados (salvo exceções).
Trabalho remoto
Não obstante o facto de termos de trabalhar de casa devido à situação excepcional que o mundo atravessa, a pontualidade e assiduidade continuam sendo de grande importância para a performance do colaborador e produtividade das empresas. Não devemos relaxar, e para tal é preciso organizar o dia de trabalho como se tivessemos de sair de casa, programar o alarme como habitual, trocar de roupa, organizar um espaço confortável de trabalho e engajar-se no trabalho a hora certa. Na mesma senda, organizar a hora de almoço, programar e organizar o(s) períodos para a(s) pausa(s), assim como hora para terminar o dia de trabalho. Agindo assim continuaremos a ser eficazes e produtivos.
Que terá falhado durante  estes anos para que moçambicanos tenham perdido estes hábitos
Pontualidade e assiduidade
Falta de formação? Perda de valores culturais?
Difícil de encontrar uma razão em particular para este grave problema que afecta a nossa sociedade, o que é certo é que devíamos encontrar soluções, quer sejam no plano de formações ou de outra qualquer outra natureza. Numa altura em que trabalho remoto está a tornar-se (quase) um norma mundialmente, se esta tendência continuar, vamos observar brevemente que boa parte do trabalho que seja possível de ser feito por remoto será confiado a profissionais no estrangeiro, o que de alguma forma já é o caso em alguns sectores.  Marcar reunião e não aparecer, prometer ligar e não cumprir, chegar tarde ao trabalho, apresentar-se ao trabalho quando bem entender custa muito caro ao nosso Moçambique e pode também custar, em última instância, os nossos próprios empregos. Somos sim capazes de mudar esses maus hábitos se começarmos por os assumir.

*mangas e amendoim – língua chope (sul de moçambique)

Recomendação de livro para o  mês de Dezembro: ” Make Time: How to Focus on What Matters Every Day –  Jake Knapp & John Zeratsky”
Samuel Gerson Andrisse
Especialista de recrutamento
Autor do livro “Be ready for your next job interview”

Da luta contra o terrorismo à liberdade de imprensa

Para os de fé religiosa, o entendimento indica que Deus teria criado o mundo em sete dias. Moçambique, como parcela distinta desse mesmo mundo, também não se construiu num único dia, tem um passado, de processos sociais, políticos e administrativos.

No actual contexto de luta contra o terrorismo que Moçambique atravessa, no concernente a actividade jornalística, esse passado começa a suscitar fricções na penumbra do relacionamento entre a classe jornalística e os cultores da acção política e de administração territorial.
Depois de provar da mordaça da censura, instituída pelo regime colonial desde os primórdios da imprensa de Moçambique, com o advento da Independência Nacional, ocorreu uma transformação, que culminaria com a instalação de sistema centralizado de gestão editorial, podendo-se afirmar que os jornalistas converteram-se em agentes da causa política, longe de fazer jornalismo, veiculavam propaganda do partido Frelimo e, sobre o assunto, Luís Bernardo Honwana, aquando da realização do I Seminário Nacional de Informação, descreveria que “o jornalista transformou-se no funcionário de informação. O seu trabalho consiste em apanhar a fotografia oficial, meter o discurso na íntegra, puxar a título a palavra de ordem.
Embora não tendo existido legalmente qualquer subordinação editorial dos media ao Ministério de Informação ou Partido Frelimo, os profissionais da informação nos primeiros anos da independência, tinham de bitola a linha de orientação da reunião realizada em Macomia, na qual Jorge Rebelo, citado por Fernando Lima, defendeu que “O escritor profissional (jornalista), por todo o lado, o elemento dos órgãos de informação, tem de subordinar-se à disciplina e orientação da Frelimo, quer quanto ao conteúdo, quer quanto à forma. O que aparece nos nossos jornais ou na rádio não pode nunca ser desligado da causa da Revolução.”

Ora, embora justificado pelo contexto histórico, a nível interno e internacional, esse sufocar da palavra jornalística no período monopartidário, depois da abertura sociopolítica, plasmada na Constituição da República de 1990, o ímpeto do jornalismo se comportaria como um jacto de água depois do saltar da válvula que a atravincava dentro do cano.
A título de exemplo, segundo Salomão Moyana, em entrevista concedida a Eduardo Namburete, aquando da discussão da nova Constituição, houve uma tentativa no Jornal Domingo de se trilhar por um caminho que não era próprio do regime monopartidário. Analisadas hoje as edições do Jornal, de Janeiro a Dezembro de 1990, constata-se claramente esse trilhar de novos caminhos, com o aparecimento nas páginas do Domingo, a par das habituais coberturas de eventos oficiais, desportivos e artístico-culturais, de matérias ligadas às negociações de paz, à pobreza que grassava o País, à condição dos deslocados, criminalidade, corrupção, embora tratada ainda como suborno, entre outros temas de maior interesse para o cidadão.
Os métodos de gestão da acção dos jornalistas em tempos do partido único, coincidentes com a ocorrência da guerra civil movida pela Renamo, hoje diferem-se pela ousada tentativa de busca de informação, para alimentar o púbico, em novos tempos, caracterizados pelas acções de grupos terroristas barricados em Cabo Delgado. No tocante ao Governo, que no escalar da Guerra Civil, de 1976 a 1992, controlou com a força do Estado o fluxo de informação sobre o conflito, para as páginas dos jornais, hoje debate-se com a proliferação dos meios de informação e as garantias constitucionais para o exercício da profissão de jornalista.
Entre a missão de informar, por parte dos media e o desejo do Governo de regular a informação, levanta-se um novo debate, em busca de novos caminhos de como fazer jornalismo em tempos de luta contra o terrorismo. Sobre esse aspecto, a relação entre o Governo e a classe jornalística parece-se com a de dois gatos escaldados, sobretudo quando se trata da imprensa privada.
De facto, com a aprovação da nova Constituição em 1990, que abriu portas a coexistência de vários partidos políticos em Moçambique, a aprovação da Lei de Imprensa em 1991, que acolheu o pluralismo de informação no País, a assinatura dos Acordos de Paz em Roma no ano de 1992, e a realização das primeiras eleições multipartidárias, em 1994, afigura-se um novo quadro multiforme, onde a informação teve um papel crucial, a meio os interesses dos principais actores políticos, a Frelimo e a Renamo.

O cenário de proliferação dos media em Moçambique na década 90 conduziu a um posicionamento dos jornais, de acordo com os interesses de cada bloco partidário. Ilustrativamente, prestamos atenção a acção do Semanário Domingo, com paternidade ligada ao partido no poder, este foi sempre apontado como posicionado, na sua linha editorial, a favor do Governo, em oposição ao semanário Savana, conotado com a oposição. Citando um relatório da ONG Article 19, Juarez de Maia, atesta que o semanário Domingo, gerido pela Sociedade Notícias, e o Savana, pertencente a uma cooperativa de jornalistas, Mediacoop, representam dois extremos opostos, com o primeiro abertamente a favor da Frelimo e o segundo, anti-governo, de modo geral.

Dado este passado histórico, hoje, no actual debate sobre o terrorismo, somos tentados a avançar que a relação entre os jornais privados e o Governo equipara-se a uma troca de presentes entre dois rivais, onde cada um irá tirar da caixa oferecida os rebuçados que levou consigo à festa. Por outras palavras, quando jornais privados alegam que reportam a dinâmica da guerra em Cabo Delgado, o Governo entende que há uma falta de reconhecimento da acção de bravura desempenhada pelas Forças de Defesa e Segurança, FDS. Quando o Governo apela à responsabilização pelas FDS, dos órgãos que promovem a desinformação e tentativa de manipulação, os órgãos privados irão entender isto como ameaça à liberdade de Imprensa. Há uma notória falta de confiança entre as partes ora citadas, uma memória do passado hoje intrinca a possibilidade de “acesso seguro” pelos jornalistas às zonas de conflito.

Se as FDS se batem em Cabo Delgado pelo restabelecimento da Paz, por que se batem então os jornalistas por reportar os acontecimentos da agressão terrorista? O nosso entendimento é de que seja pelo mesmo objectivo, faltando agora, nesse período de vigência multipartidária, marcado pela acção de múltiplos órgãos de comunicação e redes sociais, encontrar caminhos para a salvaguarda de uma cobertura jornalística, à luz do direito a liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e do direito a informação.
A concluir, em reconhecimento de todo esse passado histórico, do qual se forjou o espírito de receio mútuo entre os jornalistas e as autoridades governamentais, possivelmente sugerir que, como primeiro passo, para uma relativa aproximação, no que é possível; possível nessa relação de amor e antipatia, com vista a prossecução do mútuo objectivo de restabelecimento da Paz, por que não uma realização de um seminário nacional sobre a cobertura jornalística nas zonas de conflito armado, envolvendo jornalistas, as demais organizações da sociedade civil e as Forças de Defesa e Segurança?

“Estamos à beira de um controlo inclusivo, abrangente e sustentável do HIV/SID”*

O mundo foi atingido severamente por uma pandemia global como nunca tinha acontecido na história recente, salientando a realidade da nossa ligação mútua para além do que julgávamos. Neste Dia Mundial de Combate ao SIDA, quero congratular todos os Moçambicanos, e especialmente o Governo, pelo seu trabalho árduo na defesa da nossa segurança e saúde aqui em Moçambique.

Todos os países, todas as comunidades, e todas as famílias foram de alguma forma afectados por este novo vírus, a COVID-19. Após meses de vivência com a COVID-19 entre nós, familiarizámo-nos demais com a necessidade de encontrar atenção médica de urgência para um familiar idoso, lidámos com o novo normal de utilização de máscaras e manutenção de distanciamento social, e os requisitos necessários de testagem e quarentena para mantermos os nossos entes queridos seguros. Esta pandemia global sublinha a importância de um sistema de saúde pública robusto, forte o suficiente para tratar pacientes, prevenir uma maior propagação da pandemia, e gerir os imprevistos.

Sinto-me orgulhoso porque o Governo dos E.U.A. providenciou 19.7 milhões de dólares para assistência relacionada com a COVID-19 e doou 50 ventiladores ao Governo de Moçambique. No entanto, estou particularmente satisfeito porque a resposta de Moçambique à COVID-19 assentou na fundação de uma parceria eficaz entre os E.U.A. e Moçambique no sector da saúde. Ao longo dos últimos dezasseis anos, o Plano de Emergência do Presidente dos E.U.A. para o Alívio do SIDA (PEPFAR) tem trabalhado lado a lado com os oficiais locais para expandir a testagem do HIV, rastrear contactos, providenciar tratamento e promover a prevenção. A resposta de Moçambique à COVID aproveitou da experiência profunda do país nestas mesmas áreas. A nossa cooperação tem ajudado Moçambique a alcançar uma taxa de infecção e mortalidade da COVID impressionantemente baixa, salientando-se como um dos países mais resilientes durante a pandemia. A nossa cooperação também está a demonstrar resultados reais na luta contra o HIV-SIDA.

Após mais de 16 anos e mais de 3 biliões de dólares de assistência médica, milhões de moçambicanos se encontram sob tratamento de HIV que salva vidas e instituíram programas salvadores de vidas que cuidam dos mais vulneráveis entre nós.

O HIV, em tempos uma sentença de morte, é hoje uma condição médica controlável. Hoje, no Dia Mundial de Combate ao SIDA, tenho orgulho em afirmar que nos encontramos à beira de um controlo inclusivo, abrangente e sustentável do HIV/SIDA. Isto graças aos programas de prevenção e tratamento que os governos dos E.U.A. e de Moçambique implementaram, e à dedicação dos nossos parceiros de implementação.

Qualquer moçambicano que teste positive para o HIV recebe tratamento imediato e tem acesso a medicação nas unidades de saúde da sua comunidade. Estes 1.3 milhões de moçambicanos que foram testados e estão a receber tratamento são professores, agricultores, empresárias, enfermeiras e crianças que podem assim contribuir para o progresso desta grande nação. O sucesso encontra-se nos números. Ao longo dos últimos 10 anos, os óbitos relacionados com o HIV abrandaram em mais de 20 por cento.
Mas não podemos ainda clamar vitória completa. Em Moçambique, mais de um em cada 10 adultos e mais de 200 mil crianças ainda vivem com HIV. Para reduzir a prevalência desta doença, os Governos dos E.U.A. e de Moçambique continuam a usar métodos modernos de tratamento, mas a prevenção é igualmente importante.

A prevenção é crucial para controlar esta epidemia, particularmente entre os jovens. O nosso programa DREAMS apoia raparigas em quase todos os aspectos das suas vidas, ajudando a prevenir a sua infecção pelo HIV. Apenas este ano, mais de 15 mil raparigas completaram o programa DREAMS. Isso representa 15 mil jovens moçambicanas menos vulneráveis a contrair HIV.

A erradicação da epidemia do HIV/SIDA exige mais do que a cooperação governamental. Exige o trabalho árduo, dedicação e compreensão de todos os segmentos da sociedade. Sinto-me inspirado pelo compromisso vitalício a esta causa de enfermeiros e médicos, professores, organizações da sociedade civil, líderes religiosos, organizações baseadas na fé, empresas privadas, e outros que lutam por melhores serviços e tratamento igual para aqueles que vivem com HIV/SIDA. É por causa de vós que podemos tocar tantas vidas.

Para acabar finalmente com esta epidemia, todos temos de tomar uma posição contra o estigma e a discriminação e apoiar cada um de nós para que conheça a sua condição. O povo dos Estados Unidos continua empenhado em apoiar o povo de Moçambique em face do HIV/SIDA, da COVID-19, malária, e outros desafios de saúde. Juntos podemos alcançar uma geração livre de SIDA.

Muito obrigado. Estamos juntos.

*Opinião alusiva ao Dia Mundial de Luta contra o HIV e SIDA e o título foi adaptado pelo O País

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