Subtítulo: Ajuda à saúde, condicionalismos ocultos e a pressa dos líderes em anunciar “números grandes” antes de pensar no futuro do país
INTRODUÇÃO
Nos últimos meses, dois países da África Austral, Zimbabwe e Zâmbia, decidiram travar negociações do novo pacote de ajuda norte americano no sector de saúde. O Zimbabwe retirou-se do processo depois de levantar preocupações sobre exigências relacionadas com a partilha de dados epidemiológicos sensíveis e informação sobre patógenos com potencial epidémico. Na Zâmbia, o governo também suspendeu a assinatura do acordo bilionário, alegando preocupações com cláusulas consideradas intrusivas e com possíveis implicações para a soberania nacional. No Quénia, a situação foi ainda mais longe: um tribunal decidiu suspender temporariamente um acordo desta natureza depois de organizações da sociedade civil questionarem disposições relacionadas com o acesso a dados médicos dos cidadãos.
É neste contexto que Moçambique entra na equação. Em Dezembro de 2025, o país assinou um acordo (“o acordo de Dezembro”) de cooperação em saúde com os Estados Unidos avaliado em cerca de 1,9 mil milhões de dólares para cinco anos, no âmbito de uma nova estratégia americana de financiamento bilateral da saúde em África. Trata-se de um montante significativo para um sistema de saúde com enormes limitações de recursos. No entanto, a decisão foi tomada praticamente sem divulgação dos condicionalismos, debate público e sem sinais visíveis de renegociação, mesmo quando países vizinhos começaram a levantar dúvidas e a recuar nas negociações do mesmo mecanismo de ajuda.
A questão que se coloca, portanto, não é apenas sobre financiamento externo. O problema é mais profundo: o que explica esta diferença de postura? Estão os nossos vizinhos a ser excessivamente cautelosos ou estaremos nós a negociar de forma imprudente e ou em posição de fragilidade? Quando países com dificuldades económicas tão ou mais graves que as nossas decidem parar, questionar ou renegociar, talvez seja altura de Moçambique fazer o mesmo exercício. Porque aceitar ajuda pode ser necessário; aceitá-la sem questionar é que revela muito sobre a qualidade da liderança de um país.
CONTEXTULAIZAÇÃO: MAKE AMERICA GANGSTER AGAIN?
Com regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em Janeiro de 2025, a política de cooperação internacional americana entrou numa fase de transformação profunda. Nesse processo, muitos programas de ajuda foram cancelados e a histórica USAID acabou sucumbindo nas mãos do manda-chuva Elon Musk dando consequentemente o surgimento de um novo pacote chamado “America First Global Health Strategy” (AFGHS), lançado em Setembro de 2025. O programa prevê cerca de 19 mil milhões de dólares para financiamento de programas de saúde em África ao longo de cinco anos. Oficialmente, o objectivo é apoiar o combate ao HIV, à malária e à tuberculose, além de reforçar sistemas de vigilância e resposta a epidemias.
Mas o novo modelo também introduz uma lógica mais dura: os países beneficiários devem aumentar a sua própria contribuição financeira, cumprir metas rígidas e partilhar dados epidemiológicos considerados relevantes para investigação científica e vigilância sanitária global.
No espaço de poucos meses, cerca de dezanove países africanos assinaram acordos no âmbito deste pacote de saúde. Entre os maiores acordos destacam-se o da Nigéria, avaliado em cerca de 5 mil milhões de dólares, o do Quénia, com aproximadamente 2,5 mil milhões, e o do Uganda, que ultrapassa os 2 mil milhões de dólares. Estes três países concentram uma parte significativa do financiamento total. No outro extremo da tabela encontram-se acordos muito menores, como os assinados pelo Burundi, pela Libéria e pela Serra Leoa, todos abaixo dos 200 milhões de dólares.
Foi neste contexto que começaram a surgir os primeiros sinais de contestação. Na Zâmbia, o governo decidiu travar o processo de assinatura do acordo de mais de USD 1 bilhão depois de debates internos sobre certas cláusulas relacionadas com acesso a dados de saúde e compromissos financeiros futuros. A decisão foi tomada após discussões dentro do próprio governo e consultas a especialistas que levantaram dúvidas sobre possíveis implicações para a soberania nacional. Pouco tempo depois, o Zimbabwe foi ainda mais longe e abandonou completamente as negociações de um acordo avaliado em cerca de 350 milhões de dólares. As autoridades daquele país alegaram que algumas exigências relacionadas com partilha de informação epidemiológica e acesso a material biológico eram excessivas e não garantiam benefícios claros para o país.
Por sua vez, no Quénia, o processo ganhou contornos institucionais ainda mais complexos. Organizações da sociedade civil levaram o acordo aos tribunais, argumentando que certas disposições poderiam permitir o acesso a dados médicos da população sem garantias suficientes de protecção da privacidade. O caso acabou por levar um tribunal a suspender temporariamente a implementação do acordo, obrigando o país a reavaliar cuidadosamente as suas implicações antes de avançar.
Na contramão, em Moçambique, num sistema de saúde marcado por falta de medicamentos, hospitais sobrelotados, escassez de artigos médicos e dívidas acumuladas no sector (USD 150 milhões), um acordo de quase 1,9 mil milhões de dólares foi naturalmente recebido como uma lufada de ar fresco e por consequente em Dezembro de 2025 o governo firmou o acordo. No debate público, porém, falou-se muito do valor do acordo e muito pouco das condições que o acompanham ou da forma como Moçambique chegou a esses termos. O que pode ser perigoso.
A ILUSÃO: O PREÇO OCULTO POR DETRÁS DA “AJUDA, E DA AJUDA À SAÚDE”
O problema começa nos condicionalismos. Até agora, o Governo moçambicano não tornou públicos os termos completos do acordo. O que se conhece indica que geralmente o pacote inclui metas de desempenho rigorosas, partilha de dados epidemiológicos considerados estratégicos para investigação biomédica, acesso a terras raras e vigilância global de doenças, e uma contribuição financeira dos países beneficiários. No caso de Moçambique, essa contribuição será de cerca de 4% do valor total, a mais baixa entre todos os países participantes. À primeira vista pode parecer uma vantagem, mas na prática significa que quem financia quase tudo terá inevitavelmente maior capacidade de definir prioridades e regras. Para além disso, os dados epidemiológicos hoje têm enorme valor científico e económico, sobretudo numa indústria farmacêutica global que movimenta biliões de dólares por ano. A questão que se coloca é simples: que tipo de acesso a essa informação está realmente a ser concedido.
Condicionalismo ocultos: Há também preocupações que vão além do que foi anunciado oficialmente. Em círculos diplomáticos e analíticos fala-se da possibilidade de existirem cláusulas informais ou entendimentos paralelos ligados a interesses estratégicos mais amplos. Entre os temas que têm sido mencionados está o eventual (i) Cobrança de 800% sobre o valor da ajuda em minerais raros, o seja, em cada um USD1 da ajuda o país irá padar USD 8 dólares (iremos pagar 8 vezes mais, sendo assim maior serviço de agiotagem do mundo); (ii) acesso preferencial a recursos minerais e terras raras. Outros apontam para interesses ligados à segurança, incluindo (iii) acesso a monitoria e control sobre os movimentos/circulação de grupos terroristas islâmicos no país e (iv) acesso livre ao território nacional, incluindo a costa, e control, monitorar aos movimentos do tráfico de drogas que atravessam o país. Mesmo quando estas hipóteses não são confirmadas oficialmente, mostram como acordos apresentados como cooperação em saúde podem ter implicações muito mais amplas, tocando áreas sensíveis da soberania e da segurança nacional.
Se alguns destes condicionalismos se confirmarem, os impactos podem ir muito além do sector da saúde. No plano económico, o acesso privilegiado a recursos estratégicos pode limitar a capacidade do país negociar esses mesmos recursos no futuro em condições mais vantajosas, numa altura em que as grandes potências procuram reduzir a dependência da China nesses recursos. No plano da soberania, a partilha de dados sensíveis – sejam epidemiológicos ou de segurança – levanta questões sobre quem controla essa informação e como ela pode ser utilizada. E no plano político, acordos deste tipo podem aprofundar uma dependência estrutural que Moçambique já enfrenta há décadas em vários sectores. Desde modo ajuda externa pode resolver problemas imediatos, mas também pode criar relações de dependência difíceis de reverter a médio e longo prazo, e parece que estamos a cair na ratoeira da milésima vez.
Se estes riscos existem, então a pergunta inevitável é outra: por que razão Moçambique não avaliou estes custos antes de assinar o acordo? Países vizinhos enfrentando dificuldades económicas semelhantes ou piores tomaram posições diferentes. Se negociar é defender interesses nacionais, então a questão que fica no ar é inevitável: será que o país avaliou bem o que está a dar em troca do que está a receber?
Por fim, importa sublinhar que se desconfia que os quatro condicionalismos acima referidos passarão a constituir o quadro de referência para a aprovação de todo e qualquer programa de ajuda norte-americana (Quer? Paga). Na prática, o pacote de saúde introduz um novo modelo de relacionamento, no qual o acesso ao financiamento e ao apoio técnico passa a depender de acesso a recursos minerais, território e informação.
Foi neste contexto que foi renegociado o pacote do Millennium Challenge Corporation (MCC), avaliado em cerca de 500 milhões de dólares, destinado a financiar um programa de cinco anos centrado na província da Zambézia. Oficialmente, o financiamento visa apoiar projectos de infra-estruturas, agricultura e reformas institucionais. Contudo, analistas e observadores têm levantado dúvidas sobre eventuais compromissos associados ao acordo, incluindo os quatro condicionalismos anteriormente referidos no casa da saúde. Na prática, a assistência financeira internacional raramente é desprovida de contrapartidas. Muitos destes compromissos não são explicitados publicamente, sendo frequentemente bem resguardados por cláusulas de confidencialidade incorporadas nos próprios acordos de cooperação.
QUANDO AINDA SE TROCA CAPULANA POR OURO: VISÃO CURTA
Os Estados agem, em regra, com base numa lógica de racionalidade estratégica. Nas suas relações externas procuram maximizar ganhos – sejam eles económicos, políticos ou de posicionamento geoestratégico. Por isso, não surpreende que por detrás de programas de ajuda, ex: AFGHS, exista quase sempre um objectivo estratégico. Assim, a verdadeira questão não é saber se os parceiros de cooperação têm interesses, visto que é um dado adquirido, mas sim se existe, do lado do país receptor, uma liderança com qualidade suficiente para negociar acordos que salvaguardem os seus interesses e produzam benefícios equilibrados para ambas as partes (win-win).
A liderança, num caso como o deste programa de ajuda, não se mede pela capacidade de garantir financiamento externo ou anunciar montantes impressionantes. Mede-se, antes, pela capacidade de negociar com prudência, avaliar os custos e benefícios do pacote proposto pelo Trump e defender os interesses nacionais mesmo em contextos de forte necessidade económica. A urgência e a “fome” não podem ser os únicos critérios que orientam decisões desta natureza. Um líder responsável fica atento aos riscos e implicações futuras para a soberania, para os recursos estratégicos do país e para a margem de decisão das gerações seguintes. Acima de tudo, coloca o interesse da nação acima da tentação de capitalizar a sua imagem politicamente como o messias e comer um pouco o dinheiro de xitsungo.
É precisamente neste ponto que o caso moçambicano levanta preocupações. O anúncio do acordo foi rapidamente apresentado como uma vitória da diplomacia económica do actual governo, uma conquista política e financeira num momento em que o sistema nacional de saúde se encontra próximo do colapso e o país atravessa uma das suas mais crises financeiras. No entanto, pouco se avaliou ou discutiu sobre as condições que acompanham o presente do Pai Trump e sobre os compromissos que o país poderá ter assumido. O valor financeiro passou a dominar o discurso público, enquanto os detalhes do acordo permaneceram praticamente ausentes do debate nacional. Esta forma de conduzir decisões estratégicas sugere uma liderança orientada sobretudo para ganhos políticos imediatos, mais preocupada em anunciar resultados no presente do que em avaliar cuidadosamente os seus impactos a longo prazo e como transformar estes acordos numa verdadeira alavanca de progresso para o país.
Está mais do que claro que, mesmo reconhecendo o alívio imediato que 1,9 mil milhões de dólares podem representar para um sistema de saúde em dificuldades, a aceitação deste acordo levanta dúvidas quanto às suas implicações estratégicas e para a soberania nacional. A eventual partilha de dados epidemiológicos sensíveis não é um detalhe técnico: pode incluir informação ligada a figuras da elite política e económica, criando vulnerabilidades exploráveis por actores externos. Da mesma forma, o acesso a dados de inteligência – sejam de segurança, económicos ou logísticos – transfere vantagens estratégicas para quem os recebe e altera equilíbrios de informação no futuro. Se, além disso, estiverem em causa concessões indirectas de recursos estratégicos, como minerais críticos, o proponente ganha duas vezes: minerais e inteligência do pais. Dá para rir nem? No fim, a pergunta inevitável permanece: será este realmente um bom negócio para o país?
A comparação com outros países da região em relação a proposta semente ajuda a colocar esta questão em perspectiva. A Zâmbia, por exemplo, depois de travar o FMI, suspendeu o processo após surgirem dúvidas sobre certas cláusulas, preferindo analisar melhor os seus impactos antes de assumir compromissos de longo prazo. O Zimbabwe seguiu um caminho ainda mais firme, abandonando completamente as negociações quando concluiu que os termos propostos não eram equilibrados. No Quénia, o debate ganhou dimensão institucional e chegou aos tribunais, obrigando a uma análise jurídica e política mais profunda do acordo. Estes episódios mostram que mesmo países com dificuldades económicas sérias conseguem parar, questionar e renegociar propostas quando entendem que os seus interesses estratégicos podem estar em risco.
A partir daqui torna-se difícil sustentar a ideia de que decisões como esta são inevitáveis ou exclusivamente determinadas pela necessidade económica. Países com desafios semelhantes demonstraram que é possível parar, questionar e renegociar quando a liderança entende que os riscos podem ser elevados. A diferença, portanto, não está apenas nas circunstâncias económicas, mas na forma como os decisores avaliam e defendem os interesses nacionais. Quando existe liderança estratégica, mesmo contextos de forte pressão financeira não impedem uma negociação mais prudente.
No fim, a questão ultrapassa este acordo específico e aponta para a forma como o país toma decisões estratégicas. Quando escolhas desta natureza são guiadas sobretudo pela pressão do momento, corre-se o risco de assumir compromissos cujos efeitos só se revelam mais tarde. Governação responsável exige mais do que responder às urgências do presente; exige também preservar a autonomia de decisão e as opções de desenvolvimento do país no futuro. Sem essa perspectiva de longo prazo, decisões que hoje parecem soluções podem transformar-se amanhã em novas limitações para o próprio Estado.
OS MAUS NEGOCIOS DO PASSADO: QUANDO ERRAR VIRA MODA
O défice de liderança nos processos de negociação não é um fenómeno novo no país. O caso recente do acordo no sector da saúde não surge isolado. Desde a assinatura do Acordo Geral de Paz, Moçambique tornou-se um dos maiores receptores de ajuda internacional no mundo e um destino frequente de grandes contratos com investidores privados. No entanto, raras vezes essa posição foi acompanhada de uma estratégia clara para transformar tanto a ajuda externa como os contratos económicos em acordos que gerassem benefícios estruturais para o país. Em muitos casos, as decisões parecem ter sido guiadas pelas necessidades imediatas do momento, com pouca atenção às implicações de longo prazo para a economia e para a soberania nacional. Vale, por isso, recordar alguns exemplos que ajudam a ilustrar este padrão.
Caso Megaprojecto: vendidos como motores de transformação da economia, muitos megaprojectos têm deixado poucos benefícios reais para o país. Entre 2007 e 2011, por exemplo, contribuíram com apenas 0,5% das receitas fiscais totais de Moçambique. O caso da Mozal é revelador: apesar de representar cerca de 3,2% do PIB, contribui com menos de 0,2% das receitas fiscais do Estado e emprega pouco mais de 1.100 trabalhadores. No sector do gás, o padrão repete-se. No projecto Sasol/Pande-Temane, a parte das receitas que ficou para o Estado moçambicano variou entre 7,62% e 23,84%, com média de 16,52%, abaixo do que é considerado normal neste sector a nível internacional (40% – 60% para países com regimes fiscais moderados). No projecto Coral South FLNG, essa parcela foi ainda menor, ficando em torno de 6% em 2022-2023. Estes números mostram que, apesar da dimensão dos investimentos e da riqueza dos recursos explorados, a economia nacional continua a capturar apenas uma pequena parte do valor gerado.
Projectos de Desenvolvimento: os projectos de desenvolvimento financiados externamente também oferecem exemplos claros deste problema. Em muitos casos, acabam por servir mais para pagar consultores e importar equipamentos dos países doadores do que para transformar a economia nacional. O sector da agricultura ilustra bem esta realidade. Apesar de décadas de programas e projectos, a produtividade do arroz em Moçambique continua entre 1 e 2t/ha, quando em outros países produtores podem ultrapassar 10t/ha. Um exemplo de programas falhados que contribuem para manutenção desse quadro é o Complexo Agro-industrial de Chókwè (CAIC). Inaugurado em 2015 e financiado com 60 milhões de dólares pelo Exim Bank da China, foi apresentado como um projecto que transformaria a produção nacional. Dez anos depois, porém, grande parte das infra-estruturas permanece subutilizada servindo literalmente para a criação de frangos para o abate. Em Chimoio, apesar de já existir um centro agro-industrial financiado por empréstimos indianos e gerido pelo IPEME com maquinaria nunca plenamente utilizada, o governo contraiu mais 38 milhões de dólares para construir outro centro agro-alimentar na mesma cidade. A agência de Vale do Zambeze, financiou com mais de 38 milhões de meticais mais de uma dúzia de unidades de descasque que estão paradas por falta de matéria-prima.
A lista de exemplos é longa e parece não ter fim. Mesmo o mais recente acordo com o Banco Mundial, avaliado em cerca de 10 mil milhões de dólares, levanta sérias dúvidas sobre a estratégia adoptada. Parte significativa dos recursos deverá financiar a construção de uma nova hidroeléctrica Mphanda Nkuwa, no rio Zambeze, estimado em cerca de 4,5 a 5 mil milhões de dólares, pertence ao sector privado em 70% e o Estado com apenas 30%, num contexto em que o país enfrenta necessidades urgentes noutras áreas, como a produção de alimentos e o desenvolvimento de infra-estruturas de transporte. Alguns analistas questionam também por que razão não se prioriza a expansão de Cahora Bassa Norte, um empreendimento totalmente público e, potencialmente, com custos mais baixos para o Estado. Seja como for, estes episódios reforçam um argumento central: uma das razões profundas do subdesenvolvimento em Moçambique reside no défice de qualidade da liderança e na ausência de uma visão estratégica clara sobre o rumo do país.
CONCLUSÃO
Durante muito tempo, intelectuais e actores da sociedade civil em Moçambique foram perseguidos mortos, acusados de servir interesses de nações estrangeiras. No entanto, como este artigo mostra, muitas vezes não é necessário manipular a juventude ou a massa crítica do país. As próprias decisões políticas já servem a esses interesses externos. Ao longo das últimas décadas, multiplicaram-se acordos e projectos que beneficiam sobretudo parceiros externos: concessões generosas na exploração de recursos naturais, contratos desequilibrados, partilha de dados sensíveis e de segurança, compras de equipamentos dos países doadores que acabam subutilizados e projectos de desenvolvimento que pouco contribuem para transformar a economia nacional e benefia outros país.
O problema, portanto, não é apenas externo. Ele reside também na forma como o país negocia e define as suas prioridades. Moçambique precisa de ajuda externa, e continuará a precisar por algum tempo. Mas a verdadeira questão não é a existência dessa ajuda – é a qualidade das decisões que a acompanham. A cooperação internacional pode ser uma oportunidade para fortalecer o país, desde que seja negociada com transparência, prudência e visão estratégica.
O que este debate exige, acima de tudo, é uma mudança de cultura política: mais escrutínio público sobre acordos estratégicos, maior participação das instituições e uma liderança capaz de colocar o interesse nacional acima da urgência política do momento. Porque, no fim, o desenvolvimento de um país não depende apenas dos recursos que possui, mas da forma como decide usá-los e defendê-los. E é precisamente aí que se mede a qualidade de uma liderança: na capacidade de negociar o presente sem comprometer o futuro.

























