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Luzes, câmeras e… inocência em cena!

Cortinas abrem-se para um universo onde a realidade e a imaginação se entrelaçam. Desde o primeiro instante, crianças e adultos são conduzidos a um mundo imersivo de fantasia, onde cada gesto e palavra convida à descoberta.

“A imaginação não nos sacia a barriga.”

Esta é uma das ideias mais marcantes idealizadas pelo grupo teatral Abantu, na peça “As Aventuras de Savanna”, dirigida por Rivaldo Munguambe, apresentada a 18 de abril de 2026, no Instituto Guimarães Rosa.

Ao longo da peça, acompanhamos Savanna, interpretada por Mira Maísa, uma criança cheia de vida, ingenuidade e curiosidade. Essa essência revela-se, sobretudo, nos momentos em que folheia os livros oferecidos pela avó, com os olhos a cintilar de encanto, uma vez que cada página abre portas para universos infinitos.

Contudo, a leveza inicial rapidamente cede lugar à dura realidade: os livros dão lugar às ruas, já que Savanna se vê confrontada com responsabilidades precoces que transformam o quotidiano. É neste cenário que a narrativa ganha densidade, sobretudo quando uma amizade inesperada a conduz por caminhos incertos, obrigando-a a confrontar os medos mais profundos.

Ainda assim, há um certo consolo: Savanna tem livros, tem acesso (ainda que aparentemente limitado) à educação e, além disso, habita uma narrativa ficcional que, no fim, lhe oferece possibilidades de redenção. Trata-se de uma realidade distinta da de tantas crianças que encontramos nas avenidas e bairros de Moçambique, cujas histórias não conhecem finais felizes. Crianças que, em vez de partirem em aventuras, veem os seus sonhos rasgados entre cadernos inexistentes e fantasias interrompidas pela necessidade.

Por outro lado, a peça e a realidade cruzam-se num ponto sensível: a influência das relações que cultivamos, pois algumas desviam, manipulam e empurram silenciosamente para caminhos de perda. Essa dinâmica materializa-se na personagem Cacá (Maria Libombo), cuja presença introduz tensão e imprevisibilidade na trajectória de Savanna e, através dessa relação, o público questiona intenções, escolhas e consequências.

O elenco, composto por Danifo Nhanombe, Mira Maísa, Jéssica Garbo e Maria Libombo, sustenta com consistência a progressão dramática da peça, contribuindo para a construção de uma narrativa coesa e emocionalmente envolvente. Para além das actuações, um dos aspectos mais cativantes foi a interacção directa com o público: crianças (e até adultos) reagiam, respondiam e, em certos momentos, dialogavam com os personagens. Essa dinâmica quebrou a barreira entre palco e plateia e tornou o espectáculo mais vivo e participativo.

Para além da narrativa central, a peça apresenta às crianças elementos culturais ricos, como histórias do povo Maasai, traços de misticismo, o valor do amor ao próximo e princípios moralistas que contribuem para a construção da noção do bem e do mal.

Asssim, “As Aventuras de Savanna” emociona, mas também inquieta, porque, fora do palco, muitas infâncias continuam por proteger. O desfecho, embora previsível, revela-se eficaz ao cumprir o seu papel emocional e formativo, oferecendo ao público uma sensação de esperança sem ignorar as complexidades da realidade. E, como nos lembra Nelson Mandela, “não existe revelação mais nítida da alma de uma sociedade do que a forma como esta trata as suas crianças.”

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