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Era uma cidade de gente triste

Era uma cidade de gente triste, tristes até quando celebravam seja lá o que for, e esforçavam tanto a ser tristes, apesar da tristeza aguda que todos sentiam ninguém sabia ao certo do que tanto os entristecia, aliás, aquela tristeza era inconsciente, todos lamentavam-se e lamentação passou a ser uma forma de saudação, uns aos outros lamentavelmente se cumprimentavam.

Todos falavam de uma forma que a vida passou a ser sem conteúdo, ninguém sabia como e nem porquê vencer a tristeza. Os felizes foram declarados inimigos do povo, assim que alguém fosse identificado como um homem feliz era imediatamente aniquilado, mas antes era humilhado em hasta pública e só depois abatido, para servir de exemplo aos resistentes, havia um esquadrão da morte, uma força tarefa para tal, de tal forma que não haviam pessoas felizes na cidade, havia um decreto presidencial contra tudo e todos que se mostrassem felizes.

Era uma cidade de gente triste, os resistentes fingiam-se tristes para sobreviver. Era preciso ser infeliz para se integrar socialmente, ter acesso aos serviços, aos lugares, às pessoas, quanto mais infeliz mais popular era a pessoa, para isso, inventaram uma plataforma onde as pessoas exibiam a sua infelicidade, uma espécie de vitrine onde se expunha os estados de espírito das pessoas, aquilo era um festival de ostentação de tristeza.

Para se garantir a infelicidade colectiva, todos as livrarias foram fechadas e os livros destruídos, os cinemas transformados em lugares de culto à infelicidade, os espectáculos proibidos, havia um tipo ideal de música que se podia ouvir, uma música que exaltasse a tristeza, era uma cidade de homens tristes. Os mais tristes faziam cocktail de tristeza com álcool e alcoolizados seguiam o curso triste dos dias.

Para garantir um ambiente hostil e triste, todas as árvores da cidade foram cortadas e no lugar destas foram colocadas árvores plásticas, postiças, que nem se mexiam com o vento, o que fez com que os pássaros fossem extintos. As praias foram transformadas em lugares para jogar dejetos e outros resíduos sólidos, soldados haviam para garantir essa falta de limpeza à orla.

Era uma cidade de gente triste, uma felicidade, por mais curta que fosse, era considerado heresia, todos vestiam-se da mesma forma, aliás, ninguém deveria ser diferente do outro, aquela tristeza era perentoriamente oficial e oficializada até a falta de carácter das pessoas, quanto mais indisciplinados fossem melhor à práxis do dia, quanto mais maldade fizesse, mais promoção e distinções tinha o ilustre cidadão, não era por acaso que os dirigentes eram todos excelentes ladrões e corruptos incorrigíveis, uma prática necessária e digna de honra.

O sexo, a bruxaria, a roubalheira, malandragem, a morte, encontrava-se em qualquer esquina e a luz do dia, vendia-se de tudo e a todos, paradoxalmente todos sorriem, risos largos e rasgados, dignos da infelicidade que sentiam, as notícias eram todas sobre a tristeza, se houvesse uma notícia feliz era falsa, fake news era a moda e moldava a mente dos tristemente desinformados, as escolas e as universidade nada se ensinavam senão a prática da corrupção, não era por acaso que todos exibiam-se doutores sem nunca ter algo para mostrar.

Era uma cidade de gente triste, até que um dia, nasceu uma criança que, além do habitual choro, sorriu, sorriu escancaradamente que ao sorrir fez sorrir todos os que assistiam o parto, e partir daquele dia toda a cidade sorriu, e a sorrir viu-se o quão sujos e tristes estavam todos, o sorriso daquela criança despiu a nu toda incoerência que se vivia, aquele sorriso era do bem e da sabedoria, que expôs a nudez de todos e todos envergonhavam-se deles mesmos, então decretou-se um limpar obrigatório, era preciso limpar a vergonha, limpar das ruas à promiscuidade e a partir daquele dia todas as crianças sorriam ao nascer. ­­­­­­­

 

 

 

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