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Elcides Carlos, utiva yini hi kuhanya?*

A descolagem do voo 29 09 23 CCFM foi marcada para 20 horas em ponto. No entanto, talvez por influência da companhia de bandeira, atrasou cerca 15 minutos. Nada grave. Enquanto os motores do Boeing EC SP respondiam à prova dos pilotos, os passageiros, alegres, lá ocuparam a Sala (Grande) de Embargue com boas conversas e muita expectativa.

Alguns passageiros, ainda comentaram sobre o último concerto do guitarrista, na Galeria do Porto de Maputo. Outros, por terem perdido esse concerto, também foram ao Centro Cultural Franco-Moçambicano, esta sexta-feira, para experimentar uma viagem anunciada ao ritmo do Sense of presence. Portanto, 15 minutos depois das 20 horas, Elcides Carlos e a sua banda apresentaram-se no local onde quiseram ser felizes.

Antes de tocar o que quer que fosse, o guitarrista, qual comandante prestativo, desejou aos seus passageiros e tripulantes uma boa viagem pelo concerto que designou Jazz Aboard.

Aí, sim, já com os motores aquecidos e com todas as verificações realizadas, o Boeing EC SP percorreu a pista numa velocidade constante de 250 km/h e, quando o avião pilotado por Elcides Carlos atingiu os 340 km/h, os passageiros sentiram qualquer coisa de diferente. Primeiro, o corpo inclinou-se vagarosamente para trás. De seguida, pelas pequenas janelas da aeronave, foram apreciando os tamanhos das pequenas coisas ao mínimo pormenor do som da música vibrante e contagiante.

Tudo começou com uma combinação de solos. Elcides Carlos (guitarra e vozes) e Sarmento (saxofones), já além das nuvens, lá questionaram aos passageiros “O que seria?”. Na verdade, esse é o título da quinta música do Sense of presence, que, entretanto, foi a escolhida para prenunciar o que seriam as duas horas de concerto.

– Ao vivo, “O que seria?” parece mais música do que no álbum. – Disse Amosse Mucavele, e Luísa, uma amiga brasileira do poeta, concordou, com gestos e movimentos. No palco ou, se preferir, no cockpit, Elcides Carlos não ouviu qualquer comentário em relação ao seu primeiro número. Pelo contrário, como se ensaiasse, absolutamente descontraído, foi conquistado os sorrisos e os aplausos daqueles que, aparentemente, não o conheciam muito bem em termos musicais.

Bastaram uns cinco minutos para o autor de Sense of presence prender atenção de todos mesmo sem precisar de recorrer à sua voz. Depois de “O que seria?”, os aplausos do público, esses passageiros do Boeing EC SP, superaram qualquer outro som. Com isso, o artista percebeu que o “mais difícil” estava garantido. Desde aquele instante, a viagem prosseguiria a uma velocidade cruzeiro e, certamente, ninguém diria Paragem, cobrador, que, a 11 mil pés, o voo não tem nem cobradores e tão-pouco paragem. E se algumas pessoas ousassem pegar num paraquedas para pular do avião abaixo, com certeza teriam ouvido o comandante do voo dizer “Salve-se quem puder”. Mais do que o comandante, entretanto, os passageiros ouviram Sheila Malijane, a corista que, repetidamente, cantou “Cada um por si e Deus por todos, e salve-se quem puder”, fazendo-nos entender que “Salve-se quem puder” é o título da quarta música do Sense of presence.

Gingona, dona de si e com uma confiança “terrível”, como se a tivessem dito que não existe uma corista que a supere, Sheila Malijane imprimiu o timbre particular da sua voz naquela e em tantas outras músicas, durante o concerto. É uma boa menina e com enorme potencial para evoluir e tornar-se algo que certamente ainda não atingiu de todo!

De facto, Sheila Malijane esteve bem e pode-se dizer o mesmo de Gilson. Ambos formaram uma dupla equilibrada, em muitos casos, fazendo esquecer intérpretes que, por um motivo qualquer, não puderam embarcar nessa viagem pelo ritmo jazz proposto pelo cicerone Elcides Carlos.

Ora, se, por um lado, os coristas souberam acompanhar o guitarrista, por outro, é preciso que se retenha e bem o nome Sarmento. Nos saxofones, fenomenal! Sarmento é um monstro num corpo pequeno, um talento puro e que deve possuir uns 10 pulmões. Só assim se justifica que sopre do jeito como fez durante o voo cruzeiro no Franco. Sopro limpo, envolvente e comovente, como se já tivesse passado por um filtro. Muito provavelmente, depois de Elcides Carlos, o grande destaque da noite foi Sarmento, que foi intercalando saxofones, mas mantendo sempre a flexibilidade de adicionar à música a sonoridade com a qual se faz a “Sedução” então cantada por Sheila Malijane e Gilson.

No concerto Jazz aboard, nem sempre as músicas do álbum Sense of presence foram interpretadas da mesma forma. Por exemplo, os temas “Halatha”, “Ha fana” e “Tivoneli” tiveram arranjos e prolongamentos diferentes e igualmente sugestivos, com a contribuição de Tony Paco (bateria), Nicolau Cauneque (teclado), Lelas (baixo) e Alcídio (percussão). Foram estes membros da banda que, ao fim de cinco temas, acompanharam a primeira convidada da noite. De repetente, houve uma paragem a 11 mil pés e, inexplicavelmente, Lalah Mahigo entrou no Boeing EC SP para alegrar a tripulação e os passageiros.

Radiante, Lalah Mahigo interpretou “Dza Nadzika”. Do ronga, qualquer coisa como “é agradável”. Deu gosto de ver e ouvir. Lalah esteve em forma e cantou como sabe, enchendo o palco com a presença em todo lado. Os pés descalços ajudaram-na nos movimentos, e, talvez por isso também, a cantora cantou como se não desejasse se retirar do palco.

Se Lalah Mahigo foi incrível interpretando a sua própria música, Bhaka Yafole não quis e nem ficou atrás. O “barbudo” foi ao Franco com “Dietas da moda”, sexto tema do Sense of presence. Certamente, com Bakha em palco teve-se um dos melhores momentos do concerto, com boa parte dos passageiros a armar-se em cantores quando de cantar só sabe desafinar.

– Bhaka Yafole é mau! – Interveio novamente Amosse Mucavele, quase no mesmo instante em que uma bela jovem vestida de vermelho virou-se para trás, cantando e anuindo o que o poeta disse em voz alta. Se além de escrever o poeta também fosse bom de dizer coisas bonitas ao ouvido de miúdas bonitas como aquela, talvez, tivesse reparado que ali poderia ter acontecido mais alguma coisa. Medroso ou prudente, continuou a curtir o concerto, com uma lata de cerveja na mão, e assim salvou o seu casamento. Claro que Elcides Carlos também não percebeu nada disso. Nem a iminência da sedução, nem o brinde pelo seu sucesso que Amosse Mucavele fez com o escritor Celso Cossa.

Seguiu-se a música “Mhango”, um tema que retrata um assunto grave. Essa foi uma das músicas em que Elcides Carlos emprestou a sua voz, penetrando ainda mais a alma dos que entendem ronga/changana.

Faltando uns 15 minutos para o voo aterrar, subiu ao palco aquele que contribuiu e muito para Elcides Carlos aperfeiçoar a habilidade de guitarrista: João Cabral. Os dois guitarristas tocaram “La cabralinas” e “Niwa makombo”.

O som dançante desse tema aproximou um casal como não se tinha visto até aí. Ela, busy em dançar, puxou o marido, um moço de uns 60 anitos. Ele, meio envergonhado, resistiu e conseguiu evitar lá apresentar-se à frente de todos, bem pertinho do palco. Ela, mesmo busy em dançar, olhou para os lados e viu o escritor Celso Cossa com uma garrafa verde na mão. Fazendo o uso das suas habilidades, deixou estar a garrafa, que já tinha perdido a importância, e segurou naquela beleza loira, olhos quase azuis, uns 47 anos de idade, e coloco-a a rebolar com todo respeito.

O parceiro daquela dançarina improvisada, pode ser envergonhado, mas de distraído até que não tem muito. Ele viu quando o escritor disse alguma coisa no ouvido da mulher. Ela sorriu com gosto e, de seguida, começou a apontar a direcção do marido. Ele, compreendendo o espírito cativante da arte, finalmente teve a coragem de descer as escadas sorrindo e lá foi, finalmente, ocupar o seu lugar diante da parceira. Enquanto se sentava, Celso Cossa ouvi um bêbado dizer:  – Ukinili ni mulungu, bay?! Não reagiu.

Foi mais ou menos nessa altura que, rematando, Elcides Carlos disse algo assim: – Conseguem ver este casal a divertir-se? E você aí, Utiva yini hi kuhanya wene?

Ao invés de qualquer resposta à pergunta, todos lembraram-se de desapertar os cintos de segurança. Dançaram durante o voo, animados, confirmando que o valor do bilhete estava mesmo a valer a pena. Ouviram então “Tivoneli” e, de seguida, “Hita vonana”, um tema com um carácter religioso apreciável. Mais uma vez nos coros, Sheila Malijane teve a oportunidade de gingar com a sua voz. Muito dedicada ao que fazia, não viu uma meia dúzia de rapazes a disputar sem sucesso a sua atenção.

Já a maior parte dos passageiros, lá iam acenando a mão em jeito de despedida, sentindo o Boeing EC SP a atravessar as nuvens em direcção à pista de aterragem. Poucos minutos depois, por volta das 22h30, o avião tocou o solo, percorreu a pista internacional com a recomendada velocidade decrescente até imobilizar-se. Do cockpit, o guitarrista espreitou a cabine dos passageiros e lá viu um letreiro com letras garrafais: – Wene kê, Elcides Carlos, Utiva yini hi kuhanya?

O artista sorriu. Todos outros passageiros imitaram o gesto e puseram-se fora do Boeing EC SP, porque, mesmo à entrada da Sala Grande, tinham de comprar Sense of presence, uma bela viagem pelo melhor do jazz que se tem feito em Moçambique.

 

*O que tu sabes de viver ou de se divertir?

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