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Direitos e obrigações de profissionais que ocupam cargos de responsabilidade: A questão da liberdade de expressão!

Já me foi perguntado o porquê de os profissionais que ocupam cargos de responsabilidade (c.r)  terem melhores condições de trabalho que os demais. A resposta à questão é relativamente simples: Os profissionais que ocupam cargos de responsabilidade têm melhores condições pois, de outras razões, têm responsabilidades acrescidas e representam a imagem da organização. Por este motivo, são obrigados a deixar de lado certos hábitos e a adquirir outros novos. E esses sacrifícios devem ser compensados.  Infelizmente, poucos profissionais que ocupam cargos de responsabilidade não estão dispostos a fazer esses sacrifícios, ou pior ainda, não sabem que tem de fazer esses sacrifícios em prol da organização.

 O que é necessariamente deixar de lado certos hábitos em prol da organização?

Em marketing diz-se comumente: “people don’t buy your product, people buy you”. Isto quer dizer que  ao vender um produto/serviço, o profissional deve representar o valor (imagem) que tenta transmitir do produto/serviço em causa. Ora vejamos, se eu e o Ziqo formos vender um projeto de criação de um Disco-Bar a um grupo de investidores, os investidores tenderão a optar pelo projeto do Ziqo, claro. A imagem que Ziqo nos transmite, à nós seus fãs, é de um homem das noites, um “beatmaker” e bonvivant . A construção desta imagem integra, desde os seus vídeos em discotecas, as habituais roupas de marca, os charutos, os escândalos, a troca “frequente” de mulheres (sempre lindas e/ou famosas) ou os videoclipes glamourosos. Tudo isto faz parte da marca @ZiqoMaboazuda e é credível para este tipo de negócio. Os investidores, com facilidade, conseguem projectar a imagem de uma discoteca abarrotada de clientes animados, frequentada por mulheres lindas, outros artistas famosos,  bons “beats” e um ambiente de constante e efusiva animação: O retorno ao investimento está garantido. Por outro lado, se Ziqo for vender um projeto de gabinete de recrutamento de talentos, os mesmos investidores provavelmente terão receios da lucidez, ou ausência da mesma, do proponente naquele momento. Assim também procedem as organizações. Elas precisam que os profissionais que ocupam os cargos de responsabilidade representem a imagem dos serviços que elas pretendem vender, caso contrário elas deixam de ser credíveis.

 Os cargos de responsabilidade concedem vários direitos. Cartões de visita com títulos pomposos; carro e combustível; planos de saúde “abrangentes”; horários de trabalho flexível, subsídios de performance, entre outros. Mas estes direitos, via de regra, também trazem acoplados um rol de obrigações. Ao aceitar um c.r, o profissional deve ter consciência, não só das generosas e apetecíveis remunerações oferecidas, como também, das obrigações que ao cargo estão adstritas. Os colaboradores que ocupam c.r são, via de regra, projecções da imagem que a organização tenta transmitir aos seus stakeholders. Assim que ocupa um c.r, o profissional deve cessar de utilizar sua linguagem para utilizar a linguagem (business) da organização; deve adaptar uma postura dentro e fora da organização ligadas a cultura da organização; deve estar disposto a sacrificar férias, aniversários da família em serviço da organização, mudar sua indumentária para se adequar à cultura da organização.

 “A melhor forma de liderar é com exemplo”

É nesta óptica que o profissional que ocupa cargo de responsabilidade deve prestar atenção à sua imagem e linguagem, pois as mesmas serão associadas ao seu comportamento profissional e  pode afetar a atitude dos colaboradores mas também descredibilizar os serviços que a organização oferece ao mercado.  Um dirigente que expõe sua própria vida privada ao mínimo detalhe, por exemplo, cria a percepção de que não terá dificuldades em expor os segredos de um cliente ou da organização. Que organização se relaciona com outra, cujo a direcção é susceptível de faltar com deontologia profissional?

Talvez, a este ponto do texto, alguns leitores já estejam a pensar: “mas então ó, ó, ó Gerson, e a liberdade de expressão aí? Será que ocupar c.r significa perder minha liberdade em favor da organização, ó Gerson?” Não, absolutamente não. Os que ocupam c.r podem livremente continuar gozar da sua liberdade de expressão e de se comportar como bem entenderem, afinal de contas estamos num país livre, não? No entanto, é preciso saber que não existe acção sem reação. Para cada acção existe uma reação, que por vezes pode ser boa e por outras má. Os profissionais devem apenas ter consciência disso e estarem dispostos a assumir as consequências das suas ações.

 Ponto de vista de um especialista em recrutamento

Muitos decisores, talvez por falta de conhecimento, negligenciam certos aspectos essenciais do processo de recrutamento de profissionais para cargos de responsabilidade. A minha experiência me permite dizer que esta é uma fase crucial de uma organização, é neste processo em que “se decidirá” a prosperidade da organização.

Diz Jim Rohn que se alguém lhe der um milhão de dólares, é melhor se precipitar e tornar-se milionário antes mesmo de tocar no dinheiro, caso contrário, pode perder o dinheiro no primeiro segundo que o tocar.  Isto quer dizer que é preciso estar preparado para certos cargos. Sim, todos nós podemos ser líderes, mas nem todos estamos dispostos a fazer os sacrifícios necessários para sermos líderes.

Yassin Amuji, um destacado jovem que trabalha na promoção do turismo em moçambique e que recentemente foi nomeado para o cargo de Vice-presidente para o pelouro de Turismo, Hotelaria e Restauração pela CTA, fez uma analogia nas últimas semanas nas redes sociais, onde a questão focal é onde temos falhado na direção das nossas organizações em Moçambique. Porquê ocorrem tantas falências?

Eu acho que erro de casting é uma das razões pelas quais muitas organizações não prosperam em Moçambique. Este é um processo muito delicado e deve ser confiado aos profissionais da área para o dirigirem.  Alguns decisores continuam a utilizar os mesmos critérios de selecção a cargos de responsabilidade que há muitos anos, tais como: anos de antiguidade na organização; anos de experiência; escolha pelo apelido; escolha baseado no critério partidário; escolha por afinidade.

Num processo de recrutamento ou de escolha para um c.r devemos lembrar que o profissional escolhido vai dirigir a vida de muitas famílias e por vezes de toda uma comunidade onde a organização está implantada e que de perto ou de longe a organização afecta a economia do nosso Moçambique.  Entre vários critérios de escolha de um profissional a c.r, os que presto particular atenção são: Coragem: Coragem permite a um dirigente assumir responsabilidade em todas as circunstâncias, saber enfrentar  o medo e fazer face às dificuldades.  Capacidade de se relacionar com outros:  durante o processo de escolha, gosto de convidar o candidato para um encontro informal, por exemplo, almoçar. Este exercício me permite perceber que tipo de conversa lhe interessa, que linguagem utiliza, como trata os garçons, quantas vezes agradece, analisar sua qualidade de escuta,  analisar qualidade das suas perguntas assim como atenção que presta as respostas,  e saber sobre seu plano de vida (um líder tem de ter lifestyle bem definido).  E por fim a  Cultura da empresa: um cândido até pode ser perfeito mas se a empresa ou sector não lhe convém, seu nível de performance será medíocre. Nós seres humanos somos menos atraídos por dinheiro que pelo prazer de sermos úteis. Quando trabalhamos num sector ou empresa cujos os valores são os mesmo que os nossos, somos fiéis à cultura organizacional e ao trabalho. Portanto, este casamento entre a cultura e os valores do candidato é importante.

 Os empreendedores, os líderes (CEO’s), os decisores políticos devem perceber que recrutamento é um processo de todos os dias. O recrutamento não termina no dia em que o profissional começa a trabalhar. O plano de gestão de carreira dos profissionais é outra parte do recrutamento. Esta fase permite que os profissionais tenham uma direção. Imaginem um navio sem bússola. É exatamente assim como muitos profissionais gerem suas carreiras, portanto, o coaching sobre a gestão de imagem como factor de sucesso na carreira deve ser privilegiado como parte basilar da formação destes profissionais. Este processo permite ainda a melhoria contínua dos profissionais, retenção dos melhores e redirecionar os outros. EU ACREDITO EM NÓS.

Recomendação de livro para o mês de Abril 2021: “Grab your seat: insight into becoming a human capital business leader– “Samuel Ernesto Maputso

Samuel Gerson Andrisse é especialista em recrutamento e autor do livro “Be ready for your next job interview”

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