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A propósito das cores da literatura: se temos armas, travemos batalhas que sejam nossas!

Basta olhar para o nosso passado literário (escrito) para perceber que a literatura moçambicana teve sempre uma participação nos problemas do seu tempo e meio. Com esse mesmo gesto, é possível denotar que as influências de outros povos, com os quais o português transmite uma ideia (bem ou mal concebida) de irmandade, esteve sempre assente no nosso panorama literário. Sobre isso vários escritores já se expressaram e se houvesse tribunal para esses casos, alguns, pela humildade e sinceridade, admitiriam ter sido “copistas” da caligrafia de escritores brasileiros, por exemplo, na redação dos seus textos. Aliás, há até espaço para suspeitar que muitos deles, sobretudo os da geração Charrua, importaram um batalha que já havia sido iniciada e bem travada no panorama literário brasileiro através da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Por estarmos numa altura em que se lê a parte e se subentende o conteúdo do todo a partir dessa parte, permitam-me destacar: vejo esse fenômeno histórico da nossa literatura com bons olhos. Melhor, foi “maningue nice” que assim tenha ocorrido. O que na verdade ocorreu foi inspirarmo-nos na forma como uma batalha que era também nossa foi conduzida. E o fizemos com mestria.

Esta introdução algo interpeladora de um momento específico da literatura moçambicana vem-me a mente por estar a denotar que há uma tendência, ainda em miniatura, de importar uma batalha bastante ferrenha no contexto literário brasileiro (pelo menos ao que me parece) que é atinente a perscrutação dos níveis de melanina de quem escreve para depois partir-se para a adjectivação: poeta/escritor negro ou branco.

Naquele contexto e pelo que me parece, essa batalha de (re)afirmação negritudinista faz todo sentido sobretudo pela antítese que se está a criar. Ora, ainda que os níveis de empatia para com a causa defendida por um bom número de escritores daquelas latitudes estejam altos, creio que nos seja inapropriado, neste tempo e meio, aglutinarmos aquela causa às nossas, se é que existem, ou mais, se delas (as causas) __ enquanto escritores __ precisamos. Mas essa é outra conversa.

Ainda que se diga que ao autor cabe a expressão e que depois do ponto as lides são da estética da recepção, valerá recordar que o autor é também leitor dos mundos e mundividências do seu tempo e meio. Ao que, uma veleidade quase ferrenha de perscrutar ou aguçar os níveis de melanina na escrita soará a qualquer coisa extemporânea sobretudo aos olhos de quem não fizer este paralelismo com outras realidades, considerando apenas o facto de já termos vivido um momento em que tal se mostrou necessário, actual e actuante. Portanto, se temos armas, travemos batalhas que sejam do nosso tempo e meio.

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