O desafio de transformar o potencial energético de Moçambique em produção, industrialização e desenvolvimento esteve no centro do primeiro painel da Conferência Internacional de Investimentos de Tete, dedicado ao tema “Energia e Recursos Naturais – Motores de Desenvolvimento”.
Principal orador do painel, o Presidente do Conselho de Administração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), Tomás Matola, defendeu a necessidade de reforçar a capacidade de produção e garantir segurança energética para responder ao crescimento da procura nacional e regional.
A energia foi apresentada como uma das condições fundamentais para que o investimento deixe de ser apenas uma promessa e se transforme em actividade económica, emprego e produção.
Para Tomás Matola, Moçambique possui recursos, mas o desafio está em criar capacidade para os transformar em energia disponível para a economia.
Foi neste contexto que o PCA da HCB destacou o papel da Hidroeléctrica de Cahora Bassa na segurança energética nacional, sublinhando que a empresa tem privilegiado o mercado doméstico mesmo em períodos de redução da produção.
“Nós sempre priorizamos o mercado doméstico. Ainda que haja redução da produção, o que fica afectado são as exportações, mas o mercado doméstico não pode ficar afectado”, afirmou Tomás Matola.
Segundo o responsável, a prioridade atribuída ao mercado nacional fez com que, em 2025, ano marcado por uma crise de baixa produção, a proporção de energia entregue ao consumo doméstico atingisse 56%, contra 27% em 2020. No mesmo período, 39% da energia foi destinada à África do Sul e 5% ao Zimbabwe.
A opção, explicou Matola, tem um custo para a empresa, sobretudo quando a redução das exportações implica penalizações contratuais. Ainda assim, a segurança energética nacional permanece como prioridade.
“Quando temos necessidade aqui dentro, nós reduzimos, não cumprimos com o contrato, somos penalizados, perdemos dinheiro, mas o mais importante é segurança energética nacional.”
Energia para além das lâmpadas
Na visão apresentada pelo PCA da HCB, o impacto da energia não termina no fornecimento às famílias. A electricidade é também uma condição para a industrialização, para o crescimento das empresas e para a melhoria das condições de vida.
“Promovemos a electrificação, promovemos a industrialização, melhoramos as condições de vida das populações.”
É neste ponto que a energia se cruza directamente com a agenda de investimentos. Segundo Tomás Matola, a HCB recebe diariamente consultas de potenciais investidores interessados em instalar unidades industriais e que procuram saber se existe energia disponível para suportar os seus projectos.
A pressão sobre a oferta tende, entretanto, a aumentar. Matola apontou que a electrificação do país até 2030 exigirá cerca de 1.500 megawatts, apenas para levar energia às famílias. A industrialização, acrescentou, exigirá ainda mais.
Ao mesmo tempo, o défice energético existente na região austral é visto pela HCB não apenas como um desafio, mas também como uma oportunidade para ampliar a sua presença no mercado regional.
Reabilitar para garantir o futuro
Responder a esta procura exige, contudo, capacidade instalada e equipamentos preparados para produzir energia de forma contínua.
É aqui que surge um dos maiores desafios da HCB: a idade do seu parque electroprodutor.
Tomás Matola revelou que os equipamentos têm mais de 50 anos. Apesar disso, a empresa mantém níveis de eficiência superiores a 95%, resultado, segundo explicou, de programas rigorosos de manutenção. Mas a idade do equipamento torna inevitável uma intervenção profunda.
“Uma reabilitação profunda é necessária porque aquele equipamento já está num nível que, a qualquer momento, pode colapsar.”
A resposta passa por um amplo programa de reabilitação, que inclui a substituição das turbinas, intervenção nas subestações de Songo e Matambo e estabilização das encostas. O objectivo é prolongar a vida útil do parque electroprodutor por mais de 30 anos e elevar a sua fiabilidade e disponibilidade.
A reabilitação da central de geração está estimada em 574,6 milhões de dólares. O primeiro grupo deverá entrar em processo de reabilitação por volta de Julho de 2028, com cada grupo a exigir entre 12 e 13 meses de intervenção, devendo o processo global prolongar-se até 2034.
Para Matola, o investimento não representa apenas uma operação de manutenção de infra-estruturas antigas. É uma intervenção destinada a preparar a HCB para uma nova fase, num contexto em que Moçambique pretende aumentar a electrificação, acelerar a industrialização e atrair novos investimentos.
Milhões de dólares, mas também oportunidades locais
A dimensão dos projectos de reabilitação deverá ainda abrir espaço para empresas nacionais.
Segundo Tomás Matola, os contratos com empreiteiros internacionais estabelecem que pelo menos 30% das compras sejam realizadas localmente. A medida, defendeu, representa uma oportunidade para empresas moçambicanas participarem numa operação de grande dimensão e beneficiarem da circulação de recursos dentro da economia nacional.
A contribuição da HCB para a economia, porém, não se limita aos investimentos futuros. Desde 2007, a empresa diz ter entregue cerca de 2,3 mil milhões de dólares ao Estado em dividendos. Soma-se a isso a contribuição através de impostos, taxas, exportações e compras efectuadas no mercado nacional.
Em 2025, apesar da crise, a HCB aumentou as compras realizadas em Moçambique, contribuindo para a actividade das pequenas e médias empresas e para a geração de emprego, segundo o PCA.
Da energia ao desenvolvimento local
O papel da HCB foi também apresentado numa dimensão mais próxima das comunidades.
Entre os projectos em curso, Tomás Matola destacou a construção de uma estrada de 117 quilómetros entre o sul e Matambo, a conclusão do Hospital Distrital de Cahora Bassa e o projecto “Transformar”, dedicado à produção integrada de alimentos em Vila de Estima.
O projecto envolve produção de cereais, carne bovina e caprina, frango, ovos, vegetais e peixe. Para garantir o abastecimento de água, foram abertos mais de 50 furos, que, além de servirem o projecto, passaram também a fornecer água à população de Vila de Estima.
A lógica apresentada por Matola é a de que a energia pode ser o ponto de partida para uma cadeia mais ampla de desenvolvimento: alimentar as casas, movimentar fábricas, apoiar empresas, criar empregos e estimular a produção local.
Diversificar para responder à procura
Com a procura nacional e regional em crescimento, a HCB prepara também projectos de diversificação da sua matriz energética.
Entre eles está uma central fotovoltaica de 400 megawatts, a ser desenvolvida em duas fases de 200 megawatts cada, além do projecto da Central Norte de Cahora Bassa.
A aposta surge num momento em que o défice energético regional é visto pela empresa como uma oportunidade que não pode ser perdida.
Para Tomás Matola, o desafio passa por aproveitar esse momento e transformar a procura existente em capacidade efectiva de produção.
No primeiro painel da Conferência Internacional de Investimentos de Tete, a mensagem da HCB foi, assim, além da produção de electricidade: o verdadeiro potencial da energia está naquilo que ela permite construir depois de ser produzida — casas electrificadas, empresas, indústria, emprego e uma economia capaz de transformar recursos naturais em desenvolvimento.