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Paulo Portas receita diplomacia para curar Cabo Delgado

Moçambique deve apostar na eliminação das causas do conflito em Cabo Delgado, privilegiar uma diplomacia discreta e reforçar o diálogo inclusivo para consolidar a paz, recuperar a confiança dos investidores e criar condições para um crescimento económico sustentável. A posição é defendida pelo analista político português e especialista em relações internacionais, Paulo Portas, que considera a estabilidade um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento do País.

Falando nesta quinta-feira, em Maputo, à margem de um encontro dedicado à economia e à agricultura, Paulo Portas afirmou que Cabo Delgado é uma província determinante para o futuro de Moçambique e que a resolução do conflito exige uma estratégia que vá além da resposta militar, apostando igualmente na diplomacia, no diálogo e na eliminação dos factores que alimentam a violência.

“É preciso trabalhar em reduzir e, se possível, fazer desaparecer as fontes desse conflito”, afirmou, acrescentando que já existem sinais encorajadores de recuperação, nomeadamente o regresso de alguns investidores que haviam suspendido os seus projectos devido à insegurança. Para o especialista, este movimento demonstra que a confiança começa, gradualmente, a ser restabelecida, embora a consolidação da paz continue a ser um processo que exige tempo e consistência.

Segundo Paulo Portas, a diplomacia desempenha um papel decisivo em qualquer processo de pacificação e deve ser conduzida longe da exposição mediática. Na sua visão, os entendimentos políticos e os acordos de paz não se alcançam através de declarações públicas ou das redes sociais, mas sim com negociações discretas, persistência e capacidade de aproximar posições.

“A diplomacia é discreta. Não se fazem as pazes por post nem por tweet. Implica muito trabalho, muito conhecimento e um grande esforço de diálogo”, afirmou, mostrando-se convicto de que Moçambique poderá alcançar uma paz duradoura. “Um dia isso acontecerá para bem de Moçambique, de certeza”, acrescentou.

O especialista defende que a estabilidade de Cabo Delgado representa muito mais do que uma questão de segurança. Na sua perspectiva, trata-se de um factor determinante para o ambiente de negócios, para a confiança dos mercados e para a concretização de investimentos nacionais e estrangeiros, sobretudo numa província considerada estratégica pelos seus recursos naturais e pelos grandes projectos económicos ali instalados.

Ao abordar a relação entre conflitos armados e desenvolvimento económico, Paulo Portas recorreu ao exemplo do recente conflito no Golfo Pérsico para demonstrar como a instabilidade política pode produzir consequências económicas muito para além das fronteiras onde ocorre.

Como consequência, referiu, o preço internacional do petróleo registou uma subida significativa, passando de pouco mais de 60 dólares por barril para valores superiores a 90 dólares. Na sua análise, este aumento acaba por repercutir-se nos custos dos transportes, da produção agrícola, da indústria e de praticamente todos os sectores da economia, afectando governos, empresas e consumidores.

“Quem aposta em conflitos, depois vê os resultados baterem-lhe à porta”, afirmou, observando que até os consumidores norte-americanos passaram a pagar mais caro pela gasolina e pelo gasóleo, uma realidade que demonstra o alcance global das crises geopolíticas.

Questionado sobre se essa leitura pode ser aplicada ao caso moçambicano, Paulo Portas respondeu que, apesar das diferenças de contexto, Moçambique também sofreu consequências económicas profundas em resultado da instabilidade vivida nos últimos anos.

Na sua opinião, o País pagou “um preço muito elevado”, devido à insegurança, sobretudo através da redução da confiança dos investidores, do abrandamento da actividade económica e do adiamento de investimentos considerados estratégicos para o crescimento nacional.

Ainda assim, considera que Moçambique está a entrar numa nova fase.

“O Presidente da República sabe o que quer. Moçambique está finalmente a sair de uma posição recessiva”, afirmou, defendendo que os sinais de recuperação económica devem ser protegidos através da manutenção da estabilidade política e social.

O analista advertiu, porém, que qualquer recrudescimento da violência poderá comprometer esse processo de recuperação.

“A instabilidade traz pouca confiança, pouco investimento e alguma recessão, ou muita”, declarou, salientando que investidores nacionais e estrangeiros procuram previsibilidade, segurança jurídica e estabilidade antes de assumirem compromissos financeiros de longo prazo.

Relativamente ao Diálogo Nacional Inclusivo, Paulo Portas considera que o processo deve continuar, por entender que ouvir as diferentes sensibilidades políticas e sociais constitui um passo importante para reforçar a unidade nacional e consolidar a paz.

Sem aprofundar o modelo em curso, defendeu que a inclusão deve permanecer no centro das reformas e dos esforços de reconciliação, permitindo ultrapassar divisões e criar um ambiente favorável ao desenvolvimento económico.

“É virar essa página, ser inclusivo e procurar ouvir as partes”, sustentou.

Na sua perspectiva, países que conseguem garantir segurança e previsibilidade tornam-se mais competitivos, atraem mais investimento, geram mais emprego e criam melhores condições para melhorar a qualidade de vida da população.

Paulo Portas manifestou confiança no futuro de Moçambique, afirmando acreditar que o País reúne condições para consolidar a recuperação económica e aproveitar o seu potencial de crescimento, desde que continue a apostar na estabilidade, no diálogo e na resolução das causas dos conflitos.

“Eu acredito que Moçambique vai para melhor”, concluiu.

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