Dez meses depois da suspensão da mineração, a Albufeira de Chicamba começa a recuperar-se. Porém, a descoberta de novos filões de ouro volta a colocar a província perante o velho dilema: sobrevivência económica ou preservação ambiental. Entre a esperança de milhares de mineradores e o alerta das autoridades sobre os riscos ambientais e de segurança, Manica procura uma solução para uma actividade que resiste a todas as proibições.
A água da Albufeira de Chicamba voltou a respirar. Depois de meses marcada pela turbidez provocada pela intensa actividade mineira nas suas proximidades, a principal fonte de captação de água para vários distritos como Chimoio, Manica e Gondola, na província de Manica, começa, lentamente, a recuperar-se.
Durante quase oito meses, Alcides Silva teve de abandonar a pesca. O estado da água tornou impossível continuar a actividade que, durante anos, garantiu o sustento da sua família. Hoje, com sinais visíveis de melhoria, regressa ao lago com uma esperança renovada.
“A água já está diferente. Antes, não conseguíamos trabalhar, porque estava muito suja. Agora estamos a voltar aos poucos”, conta o pescador.
A recuperação da qualidade da água trouxe também novos sinais de vida económica. Nas margens da albufeira, unidades turísticas que tinham reduzido ou encerrado actividades começam a reabrir portas.
No Chicamba Lodge, a melhoria ambiental representa uma oportunidade para recuperar um sector que depende directamente da imagem de um destino associado à natureza.
“Com a melhoria da água, os clientes começam novamente a procurar o espaço, porque a água já está limpa”, explica Manuel Quembo, gerente do empreendimento.
Entretanto, enquanto a água tenta recuperar-se, a terra volta a ser disputada pelo ouro.
NOVA CORRIDA AO OURO
A cerca de 300 metros da Albufeira de Chicamba, uma nova frente de mineração artesanal cresce diariamente. O cenário repete-se: homens, mulheres e jovens escavam a terra, lavam sedimentos e procuram pequenas partículas de ouro capazes de mudar o rumo das suas vidas.
Vindos de diferentes pontos do País, chegam atraídos pelas notícias de novas descobertas auríferas em Manica.
Para muitos, a mina representa a última alternativa diante da falta de emprego. Bernardo Macanapue saiu da província da Zambézia há três meses. Chegou à mina de Chicamba carregado de expectativas, mas até agora ainda não encontrou o ouro que procurava.
“Vim com esperança de conseguir melhorar a minha vida, mas ainda não tive sorte. Continuo, porque acredito que um dia posso encontrar”, relata.
Horácio Fote também permanece na mina movido pela necessidade. Entre o desgaste físico e a incerteza de cada jornada, diz que abandonar a actividade seria perder a única possibilidade de garantir melhores condições para a família.
“É daqui que esperamos tirar alguma coisa para sobreviver”, afirma.
Para Esteri Maquinasse, que pratica mineração há oito meses, o ouro aparece de forma irregular. Há dias sem resultados, mas quando consegue encontrar pequenas quantidades, o rendimento ajuda a pagar as despesas familiares.
Rainha Luís partilha a mesma realidade. Pequenos ganhos mantêm viva a motivação para continuar numa actividade marcada por riscos e ausência de condições adequadas de trabalho.
OURO QUE PASSA PELO RIO
Depois da extracção, o minério segue para centros improvisados de processamento instalados junto aos cursos de água, incluindo o rio Revué.
É nesta fase que aumentam as preocupações das autoridades. Os métodos utilizados pelos mineradores artesanais, sobretudo a lavagem directa dos materiais nos rios, são apontados como uma das principais causas da degradação ambiental registada nos últimos anos.
A utilização de técnicas rudimentares provoca o arrastamento de sedimentos e altera a qualidade da água, colocando em risco ecossistemas, actividades económicas e o abastecimento das populações. Os próprios mineradores artesanais reconhecem o impacto da actividade, mas defendem que a sobrevivência fala mais alto. Sem emprego formal e com poucas alternativas económicas, milhares de famílias dependem do ouro como principal fonte de rendimento.
ECONOMIA PARALELA NASCE AO REDOR DA MINA
A corrida ao ouro não movimenta apenas escavadores. À volta das zonas mineiras, surgem mercados improvisados onde se vendem alimentos, bebidas, ferramentas e outros produtos.
Maria Jossias encontrou no movimento de pessoas causado pela mina uma oportunidade de negócio. Instalou uma pequena banca para aproveitar o fluxo constante de pessoas.
“Enquanto houver pessoas aqui, precisamos de vender alguma coisa. É uma forma de conseguir sustentar a família”, explica.
O ouro transforma, assim, a paisagem económica local, criando empregos informais, mas também expondo comunidades inteiras a riscos sociais e ambientais.
SEIS CARROS: ENTRE A SUSPENSÃO E AS SUSPEITAS
Enquanto a mina de Chicamba ganha novos actores, a conhecida mina de Seis Carros permanece oficialmente suspensa. No local, apenas máquinas pesadas continuam em movimento. O Governo distrital afirma que os trabalhos estão relacionados com a remoção de areia e com operações destinadas a localizar corpos de pessoas soterradas durante acidentes ocorridos anteriormente.
Entretanto, mineradores locais afirmam que estas operações também fazem parte de estratégias para continuar à procura de ouro.
A Procuradoria-Geral da República acompanha com preocupação a situação daquela mina, onde foram reportadas a presença frequente de crianças e a circulação de grandes quantias monetárias, factores considerados de risco pelas autoridades.
ENTRE O AMBIENTE E A SOBREVIVÊNCIA
A suspensão da mineração em Manica, decretada pelo Governo a 30 de Setembro de 2025, surgiu como resposta à crescente degradação ambiental provocada pela actividade mineira, tanto empresarial como artesanal. Meses depois, os resultados começam a aparecer, sobretudo na recuperação da Albufeira de Chicamba. Porém, a descoberta de novos filões mostra que o problema está longe de estar resolvido.
As autoridades reconhecem que grande parte das zonas mineiras continua marcada pela informalidade e falta de controlo. A solução defendida passa pela criação de cooperativas mineiras, uma estratégia que pretende organizar os operadores artesanais, melhorar a fiscalização, reduzir danos ambientais e permitir maior controlo sobre a exploração do ouro.
A proposta procura transformar uma actividade actualmente desordenada numa actividade regulada. O desafio, porém, permanece: como garantir que milhares de pessoas que dependem do ouro consigam sobreviver sem que o preço seja pago pelos rios, pelas comunidades e pelo futuro ambiental da província?
Em Manica, o brilho do ouro continua a atrair multidões. Mas, por enquanto, permanece a dúvida se esse brilho representa uma oportunidade de desenvolvimento ou o início de uma nova ameaça para os recursos naturais da província.