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Zambézia: Mangais entre a sobrevivência e o desenvolvimento económico

O projecto “MozBlue”, implementado pela Blue Forest com autorização do Governo moçambicano, uma iniciativa com uma visão de longo prazo de 60 anos, vai ajudar no reflorestamento dos mangais na província da Zambézia, apostando na criação de soluções económicas sustentáveis

Na costa da província da Zambézia, a luta diária pela sobrevivência tem colocado comunidades inteiras diante de uma escolha difícil: proteger os mangais ou garantir o sustento imediato. 

Para Manuel, jovem pai que vive numa zona costeira, o mangal sempre foi simultaneamente fonte de vida e de conflito. Cortar árvores para vender postes significa colocar comida na mesa, mas também enfraquecer a protecção natural contra ciclones e erosão. “Uma refeição hoje pode custar a segurança de amanhã”, afirma um líder comunitário, refletindo uma preocupação partilhada por muitas famílias.

“Não podemos pedir a pais como Manuel que escolham entre a sobrevivência da sua família e o ambiente”, resume um técnico do sector ambiental, sintetizando um dilema que marca a realidade local.

Durante anos, a degradação dos mangais foi atribuída às comunidades locais. No entanto, especialistas defendem que essa visão ignora factores estruturais mais profundos. 

“A conservação é impossível sem uma alternativa económica viável”, sublinham técnicos, apontando a pobreza como principal motor da exploração excessiva destes ecossistemas.

Moçambique possui uma das maiores extensões de mangal em África, com cerca de 2.700 quilómetros, desempenhando um papel crucial na protecção de aproximadamente 12 milhões de pessoas. Estes ecossistemas são essenciais tanto para a biodiversidade como para a economia, funcionando como berçários de espécies marinhas e como barreiras naturais contra tempestades. Ainda assim, o país continua a registar a perda anual de milhares de hectares.

Perante este cenário, novas abordagens começam a ganhar terreno. Uma das iniciativas em destaque é o projecto “MozBlue”, implementado pela Blue Forest com autorização do Governo moçambicano. 

Com uma visão de longo prazo de 60 anos, o programa procura ir além da reflorestação, apostando na criação de soluções económicas sustentáveis. “Não são programas de ajuda; são modelos de negócio concebidos para garantir que um mangal de pé vale mais do que um mangal derrubado”, explica um responsável do projecto.

Com o apoio da COAST Facility, financiada pelo Governo do Reino Unido, e da DAI Global UK, foram lançadas três cadeias de valor na Zambézia — região onde a pressão sobre os mangais é particularmente intensa.

A primeira aposta na apicultura sustentável, promovendo a produção de “mel azul”, um produto orgânico com elevado valor no mercado internacional. Ao transformar o mangal num activo económico, a iniciativa incentiva a sua preservação. “Proteger as árvores é proteger o nosso sustento”, afirma um apicultor envolvido no projecto.

A segunda vertente procura responder à procura de madeira e combustível, principal causa da desflorestação. O bambu surge como alternativa sustentável, de rápido crescimento e com múltiplas aplicações, desde construção até produção de briquetes. 

Já a terceira componente centra-se na aquacultura de caranguejo, um recurso de alto valor comercial. Em parceria com a Universidade Eduardo Mondlane, estão a ser desenvolvidas técnicas para a produção de larvas em cativeiro, garantindo maior sustentabilidade.

No total, a iniciativa abrange mais de 155 mil hectares de litoral, promovendo uma abordagem integrada que alia desenvolvimento económico e protecção ambiental. Para os promotores, o modelo demonstra que estas duas dimensões não são incompatíveis. Pelo contrário, podem reforçar-se mutuamente.

Ao colocar as comunidades no centro das soluções, Moçambique dá sinais de mudança na forma como encara a conservação dos seus recursos naturais. “O futuro das nossas comunidades depende daquilo que fizermos hoje com os nossos recursos naturais”, conclui um representante do projecto.

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