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O País – A verdade como notícia

Cerca de um ano depois de relativa trégua, o grupo armado retomou os ataques terroristas em Cabo Delgado, onde, em apenas uma semana, foram decapitadas e raptadas várias pessoas, além de terem sido registadas algumas tentativas de assaltos às posições militares.

“Estamos a registar alguma movimentação dos terroristas no distrito de Macomia que, na última sexta-feira, dia 20, entre as aldeias Quinto Congresso e Nova Zambézia atravessaram a estrada N380 em direcção a Nkoe, onde raptaram algumas senhoras e decapitaram três cidadãos e progrediram para a zona de Nguida, onde degolaram outras pessoas. No fim, foram a aldeia de Chicomo, onde chegaram na noite do dia 22 e trocaram tiros com a força local ali posicionada e incendiaram algumas casas, e abandonaram para as matas e mais tarde retornaram para o mesmo local tendo voltado a confrontar as nossas forças”, descreveu Vicente Chicote, comandante da Polícia da República de Moçambique em Cabo Delgado.

Os supostos terroristas estavam encurralados nos distritos de Macomia e Nangade desde Setembro de 2021, dois meses depois da chegada da ajuda militar da República de Ruanda e de oito dos dezesseis países da África Austral, e a situação de segurança era considerada controlada, mas, agora, segundo a PRM, o grupo armado voltou a circular em Muidumbe e Palma, dois distritos que já estavam na lista das zonas libertadas.

“Há dias, os terroristas passaram pela sede do posto administrativo de Olumbe (Palma), onde fizeram alguns disparos e a população em pânico pôs-se em debandada e eles ficaram a roubar os produtos nas casas”, revelou Vicente Chicote.

O último ataque terrorista em Cabo Delgado, oficialmente confirmado pelo Estado moçambicano, desde que o país recebeu ajuda militar externa, foi em Fevereiro último deste ano, quando o grupo armado assaltou a ilha de Matemo, no distrito de Ibo, que fica há cerca de 100 quilómetros da cidade de Pemba.

A COVID-19 continua a não dar tréguas. Só nas últimas 24 horas, mais 14 indivíduos testaram positivo, alargando o número de casos activos para 74.

Dos novos casos registados, 12 são de nacionalidade moçambicana e dois são estrangeiros.

Ainda nas últimas 24 horas, o Ministério da Saúde (MISAU) registou 16 casos de recuperação da pandemia viral. No entanto, não há registo de novos internamentos, mantendo-se o cumulativo de internados de 8.525.

No país, não houve registo de óbitos de pacientes com COVID-19. O cumulativo de mortes causadas por esta doença é de 2.203.

Foi diante dos seus colegas de todo o país, que Beatriz Buchili falou dos desafios do Ministério Público. Hasteando a bandeira do combate ao crime organizado e da corrupção, Buchili disse que tal só será possível com magistrados íntegros.

A Procuradora-Geral da República começou por lembrar que passou a visão reducionista que colocava o Ministério Público apenas ao exercício de funções de natureza penal, uma vez que, nos dias de hoje, é conferida à magistratura uma pluralidade de atribuições, tal como o controlo da legalidade, a intervenção processual, a informação e educação jurídicas, e a cooperação jurídica e judiciária internacional.

Moçambique enfrenta, actualmente, grandes desafios no que concerne à prevenção e combate à criminalidade organizada e transnacional, tais como o terrorismo, o branqueamento de capitais, a corrupção, os raptos, o tráfico de drogas, a imigração ilegal; à defesa da saúde pública, dos direitos do consumidor, do património histórico, cultural e arquitectónico, do ordenamento territorial e na preservação da flora e da fauna.

Buchili considera que os desafios são enormes, atendendo à ameaça que representam em relação à ordem, segurança e tranquilidade públicas – valores fundamentais para o desenvolvimento económico do nosso país.

Com a recente criação e implementação efectiva dos Gabinetes Centrais de Combate à Criminalidade Organizada e Transnacional e de Recuperação de Activos, e com o alargamento dos Gabinetes de Combate à Corrupção, a PGR espera reforçar a sua actuação e capacidade de intervenção, mediante a formação especializada de magistrados e investigadores do SERNIC.

Aliás, tratando-se da criminalidade organizada e transnacional, Buchili defende que é imprescindível o recurso à cooperação internacional, pelo que, no XV Conselho Coordenador da PGR, deve reflectir-se sobre os mecanismos expeditos e céleres de articulação com as congéneres e instituições vocacionadas dos países da região e outros.

“Deve ser nosso compromisso continuar com as acções de prevenção e combate à corrupção, promovendo a cultura de transparência e boa governação – e só podemos alcançar esse desiderato com quadros íntegros e comprometidos com a causa”, acrescentou Beatriz Buchili.

Outro fenómeno que preocupa as autoridades são as mudanças climáticas, que contribuem para a degradação do meio ambiente e dos ecossistemas, prejudicando, assim, o desenvolvimento sustentável do país.

Tais factos ocorrem, muitas vezes, por violação da lei, o que exige uma actuação mais proactiva do Ministério Público.

A PGR diz que pretende reforçar a capacidade de intervenção para enfrentar estes desafios, no âmbito do controlo da legalidade, da prevenção e combate à criminalidade, na gestão da coisa pública, na defesa dos interesses colectivos e difusos, entre outras matérias.

A título de exemplo, Buchili disse que o país não pode continuar a ter situações de construção em zonas de protecção total e/ou parcial, nas dunas e mangais, algumas das quais com DUAT e licenças atribuídas pelas entidades competentes, factos estes que ocorrem, muitas vezes, em conexão com actos de corrupção, numa clara violação da lei e trazendo, como consequências, a perda de vidas humanas, de infra-estruturas, entre outros prejuízos graves para os cidadãos.

“Pretende, por isso, uma actuação mais forte do Ministério Público, em articulação com os Governos locais, municípios e comunidades, de modo a pôr término a actos que atentem contra a violação da lei”, acrescentou Beatriz Buchili

Relativamente à intervenção processual, Buchil defende que é urgente tornar os órgãos da PGR mais robustos e capazes de actuar nas diversas jurisdições e a vários níveis, através do incremento do quadro de pessoal e realização de acções de capacitação especializadas, o que contribuirá significativamente para a celeridade processual e para uma melhor actuação do Ministério Público.

A Procuradora-Geral da República disse ainda que o XV Conselho Coordenador do Ministério Público é um momento, para mais uma vez, como um órgão com competência de controlo da legalidade e detentor da instrução e acção penal, reflectir sobre o reforço da integridade, ética, deontologia e moralidade dos quadros do sector de administração da justiça, para melhor intervenção na protecção da legalidade e na prevenção e combate à criminalidade que            o          país enfrenta.

O XV Conselho Coordenador do Ministério Público decorre na cidade de Inhambane, onde os magistrados de todo o país, poderão, entre outros assuntos, discutir estratégias de colaboração com outras entidades públicas ou privadas em acções de prevenção e combate ao crime organizado, à corrupção e à celeridade processual.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) prevê temperatura fresca a fria, céu nublado, ocorrência de chuvas fracas a fortes e vento em algumas capitais provinciais do país.

Na região centro, as urbes da Beira, Chimoio, Tete e Quelimane poderão registar temperaturas máximas de 25, 24, 34 e 34 e mínimas e 18, 13, 25 e  20  graus Celsius, respectivamente.

As cidades de Nampula, Pemba e Lichinga, no norte do país, poderão atingir temperaturas máximas de 29, 31 e  25 e  mínimas de 20, 22 e 11 graus, respectivamente.

Para as cidades de Maputo, Xai-Xai, Inhambane e Vilankulo, no sul do país, prevêem-se máximas de 27,24,25 e 34 e mínimas de 17, 16, 19 e 15 graus Celsius, respectivamente.

Depois dos distritos de Morrumbala e Mopeia, Quelimane torna-se no terceiro distrito da província da Zambézia com casos notificados da chamada doença de mãos sujas. Na última semana, o sector da saúde testou 23 amostras de pacientes com sinais de cólera e, deste número, 14 deram positivo ao vibrião colérico.

Eclodiu o surto de cólera na cidade de Quelimane, província da Zambézia. Na sequência, o centro de tratamento de doenças diarreicas, com 40 camas, já foi activado para receber e tratar pacientes com a doença. Na última semana, houve registo de  47 casos de pacientes com sintomas de diarreia.

Em entrevista aos jornalistas, Óscar  Hawad, director do Serviço Provincial de Saúde da Zambézia, falou de chuvas intensas, bem como o deficiente sistema de saneamento do meio na perdigueira da urbe, como principais factores da eclosão do surto.

“A cidade de Quelimane regista, há uma semana, casos de diarreias agudas acima de canal endémico. Desde o dia 14 do mês em curso, tivemos um registo acentuado de 15 doentes que deram entrada no centro de tratamento de doenças diarreicas da cidade de Quelimane, situação que nos chamou atenção, em relação ao que estava a acontecer na urbe. Em termos proveniência, os doentes vêm dos bairros da periferia e, para fazer face à pesquisa do agente causador da diarreia, de forma cumulativa, foram colhidas e testadas 23 amostras. Destas, 14 foram positivas ao vibrião colérico. Até agora, foram internados, de forma cumulativa, na nossa unidade de tratamento, 47 doentes sem registo de óbitos”, disse o director do Serviço Provincial de Saúde.

A última vez em que Quelimane  registou casos de cólera foi em 2014. Isto significa que o surto ocorre oito anos depois de a urbe ter sido assolada pelo surto. A Direcção do Serviço Provincial de Saúde testou, localmente, 23 amostras de pacientes que apresentavam sintomas da doença e 14 deram positivo ao vibrião colérico. No entender das autoridades, as chuvas intensas, que caíram na cidade, não foram devidamente escoadas pelo sistema de drenagem.

O perfil epidemiológico de Janeiro até à segunda semana de Maio aponta um cumulativo de mais de 34 mil casos de diarreia em toda a província da Zambézia, contra mais de 32 mil no mesmo período do ano passado, um incremento de 3%.

Com os dados ora avançados, Hawad diz que “estamos perante a eclosão do surto na cidade. Em termos de trabalhos de seguimento, decorrem campanhas de sensibilização nas comunidades, pois sentimos a necessidade de se reforçar na componente da higienização, lavagem das mãos antes de comer, saneamento do meio no geral, bem como a sensibilização sobre os cuidados que se deve ter com as frutas e verduras. Falamos, igualmente, da necessidade do tratamento da água com uso da certeza”.

O Conselho Municipal da Beira reiterou, hoje, que a tarifa do transporte semi-colectivo de passageiros, vulgo “chapa-100”, não será reajustada até ao fim deste mês e que já manteve um encontro com a associação dos transportadores para discutir este assunto.

A garantia foi dada pela Vereação dos Transportes do Conselho Municipal da Beira, que afirmou ainda que já manteve um encontro com os operadores dos “chapas” na Beira, por forma a encontrar as melhores plataformas para a alteração da tarifa sem prejudicar os munícipes.

“O documento da proposta para a alteração da tarifa, submetido à autarquia, será debatido ainda hoje, e, de seguida, vamos remetê-lo à Assembleia Municipal. Acreditamos que a questão do aumento da tarifa dos transportes na Beira merecerá uma atenção especial por parte da Assembleia Municipal, facto que irá contribuir para que a data para a realização da sessão extraordinária seja marcada brevemente. A maioria dos munícipes enfrenta grandes dificuldades financeiras e, por esta razão, não podemos alterar, de ânimo leve, a tarifa sem dialogar com eles primeiro”, defendeu Flora Impula, vereadora para a área dos Transportes no Conselho Autárquico da Beira.

Refira-se que a Associação dos Transportadores da Beira (ATABE) tinha anunciado, na semana passada, de forma unilateral, o aumento da tarifa dos transportes por mais cinco Meticais em cada 10 quilómetros, socorrendo-se aos aumentos galopantes dos preços de combustíveis e custo de manutenção, tendo em conta que o último reajuste das tarifas foi em 2018.

“O aumento da tarifa no próximo dia 30 deste mês não irá acontecer, pois, tal como disse anteriormente, a proposta da ATAB ainda não foi debatida ao nível da Assembleia Municipal”, avançou.

A ATABE, que manteve, esta segunda-feira, um longo encontro com os associados, garantiu que irá pronunciar-se oportunamente sobre este assunto.

Famílias ressentem-se, outra vez, do drama das inundações, na capital do país, em resultado da chuva que caiu entre o último sábado e esta segunda-feira. Velhos problemas relacionados ao deficiente saneamento do meio vieram à tona, para o desespero de várias famílias.

Sempre que chove, na Cidade de Maputo, o dilema das inundações repete-se. Ruas e casas inundadas e tráfego condicionado, esse é o cenário que caracteriza bairros como Maxaquene, Hulene, Chamanculo e Ferroviário, devido ao deficiente escoamento das águas pluviais.

Nesses bairros, as famílias pernoitam de pé ou sobre as mesas. Alguns bens são destruídos pela água e, algumas vezes, arrastados para algures.

Teresa Uate vive no bairro Maxaquene há mais de 20 anos. A sua casa foi completamente inundada. Agastada com a situação, diz que não tem aonde ir, senão permanecer no local.

“Estamos a sofrer. Esta água é da chuva da semana passada”, disse a entrevistada, sublinhando que, com a chuva que caiu entre sábado e esta segunda-feira, o drama se agravou. “Assim que choveu novamente, [a água] acumulou-se. No interior da casa, está tudo molhado, nem casa de banho temos”, lamentou Teresa.

Os moradores daquele bairro explicam que as inundações pioraram após a inauguração, em meados de 2021, de uma bacia de retenção de água, que, ao que tudo indica, não foi bem construída.

Com os pés descalços e a água acima do joelho, Domingos Chimbeve pede intervenção urgente das autoridades competentes.

De acordo com a fonte, antes da construção da referida bacia de retenção de água, os moradores não se queixavam do martírio a que estão sujeitos sempre que chove. Em todas as casas, “ninguém dorme”.

No bairro Hulene, a fúria das águas não poupou os estabelecimentos comerciais nas redondezas. Claudina Laura é uma das proprietárias e conta que, nos dias que correm, o seu negócio não rende. “Ultimamente, está tudo parado. Ninguém sai de casa para comprar algo” na sua loja, “por causa da água. A única coisa que posso fazer é utilizar a minha vassoura para tentar diminui-la”.

A situação preocupa também a família Langa, que diz não dispor de botas para atravessar o rio que se formou com a última chuva, o que traz receios em relação à saúde, porque sempre que há água acumulada, o risco de adoecer é maior.

“Eu, por exemplo, encontro-me constipado e, quando é assim, temos sempre que correr para o hospital à procura de medicamentos. A água invade até os compartimentos da casa”, lamentou José Langa.

Para minimizar o sofrimento, alguns moradores de Maxaquene, Hulene, Chamanculo e Ferroviário sugerem que se construam valas de drenagem para o escoamento das águas pluviais.

Seis meses é o prazo dentro do qual o Município de Maputo promete entregar ao público a Praça da Juventude requalificada. A promessa é do Edil de Maputo, Eneas Comiche que lançou, hoje, a primeira pedra da empreitada.

O acto acontece três meses depois de aquele local estar encerrado para obras, após a retirada dos mais de 100 comerciantes que praticavam a venda de produtos diversos.

Daquele local foram retirados comerciantes de pedra, areia, roupas usadas e tantos outros produtos que, com o processo de requalificação, saíram para locais diversos.

Depois da cerimónia de evocação aos espíritos, seguiu-se o lançamento da primeira pedra, abertura da lápide e o discurso.

“Com esta cerimónia, o Conselho Municipal reitera o seu compromisso de devolver a função primária para qual a Praça da Juventude foi concebida, de acordo com o Plano de Desenvolvimento Municipal, 2019-2023. Assim, dentro dos prazos estabelecidos, queremos ver este espaço devidamente organizado, funcionando como espaço público seguro e agradável, tanto para os utentes, como para os operadores dos serviços que aqui serão estalados”, disse Eneas Comiche.

As obras estão orçadas em mais de 10 milhões de meticais e a previsão é que as mesmas sejam entregues em 180 dias, ou seja, seis meses, a contar a partir de 23 de Maio de 2022.

“Os munícipes e financiadores estão ansiosos para ver o projecto concluído a tempo e com qualidade, por isso chamo atenção do empreiteiro e do fiscal a se empenharem rigorosamente para não defraudarem as expectativas em torno desta obra”, apelou.

Sobre a degradação das avenidas avenidas Julius Nyerere, Lurdes Mutola, que dão acesso à Praça, Comiche assegura que as vias serão reabilitadas, de acordo com o plano de requalificação que já se assiste nas avenidas Guerra Popular e Julius Nyerere.

O Conselho Municipal de Maputo fracassou, até aqui, no projecto de reorganização do comércio informal. É que a edilidade não conseguiu acabar com a venda nos passeios da capital do país. O sociólogo José Bambo diz que é preciso haver um estudo e cautela para controlar o fenómeno, que é fonte de renda de muitas famílias.

No calendário, estávamos no mês de Março e o ano era 2020. O novo Coronavírus que já se tinha espalhado em grande parte dos países do mundo e chegou a Moçambique. Na política de prevenção, os aglomerados em mercados e o comércio informal era um vilão do filme que se chama pandemia da COVID-19.

A ideia era mesmo evitar contaminações e mortes. Foi, justamente, esta a oportunidade de que o Conselho Municipal de Maputo estava à espera para acabar com um fenómeno que é histórico e está erradicado: o comércio informal nos passeios da capital do país.

O caminho do projecto de reorganização do comércio informal era irreversível. “Nós vamos levar isso avante. É em prol à Saúde de todos nós. Não vamos vacilar”, disse Albertina Tivane, a 23 de Março de 2020, num tom determinado.

Volvidos dois anos, parece que o município deu o braço a torcer e os vendedores ganharam a guerra. O comércio informal está de volta aos passeios da Cidade de Maputo, onde vendem um pouco de tudo.

Com a retoma do comércio, Isaías Machaieie acomodou-se nos passeios da avenida Guerra Popular, onde sempre esteve desde 2002. Sentou-se numa caixa de cerveja e fixa o olhar entre os chinelos que vende e o movimento dos seus potenciais clientes.

“Nós estamos aqui e sair é difícil porque é neste local que conseguimos o pão de cada dia para alimentar as nossas famílias. Se ficarmos em casa, os que dependem de nós ficam sem o que comer”, contou Isaías Machaieie, comerciante informal nos passeios da Cidade de Maputo.

Ganham o seu pão de cada dia num local onde o município de Maputo considera impróprio para o comércio e eles sabem disso, mas nada que supere a vontade de voltar para casa com alguma coisa daí que, “já estamos acostumados às perseguições da Polícia municipal porque não nos querem aqui. Quando a força policial aparece, carregamos nossos produtos e fugimos até eles saírem”.

E é assim que fazem os negócios nos passeios da cidade desde 2020, quando a edilidade de Maputo lançou a ideia de reorganizar o comércio informal. Para conseguir tal feito, a força policial era a principal aliada. Houve tumultos e muita confusão.

Dois anos depois, a tensão entre vendedores e a edilidade baixou, mas isso não significa o fim da perseguição. “Estamos a arriscar porque quem não arrisca, não petisca. Estamos a arriscar as nossas vidas pela defesa das nossas famílias”, disse uma das vendedeiras, na condição de anonimato.

O município de Maputo escolheu Laulane para acolher os vendedores retirados dos passeios, mas é o mercado que está fora de mão. “Aquilo é como ir nos jogar na cova. Quem irá lá comprar as coisas para si? Nós vamos atrás do movimento. Onde há movimento, é onde há o nosso pão”, protestou.

O projecto de reorganização do comércio informal na Cidade de Maputo chegou ao mercado estrela vermelha. Numa noite sem estrelas de 10 de Junho, as máquinas da edilidade chegaram e derrubaram todas as bancas construídas nos passeios.

Não parecia o mesmo local. Mas, após 24 meses, a estrela do mercado voltou a brilhar e nos passeios vende-se um pouco de tudo. “Há dois anos, a Polícia municipal vinha nos arrancar as coisas, mas agora que a COVID-19 abrandou, tudo isso parou”, revelou Jaime Macário, vendedor no mercado Estrela Vermelha, Cidade de Maputo.

Por esses dias, faz-se o negócio na tranquilidade e os vendedores revelam que até pagam taxas à edilidade. “Cada banca, eles cobram 20 meticais. Já os ambulantes, pagam 10 meticais”, detalhou, Jaime Macário.

Definitivamente, o comércio informal voltou a fluir no mercado estrela e os vendedores esperam não voltar a viver o mesmo cenário de 2020. “Sofri muito naquele ano. Fiquei, praticamente, sem produtos. Tive que começar do zero. Fiz empréstimos para comprar produtos e agora estou aqui para recomeçar o negócio”, narrou, Alfredo Júnior, vendedor no mercado Estrela Vermelha.

 

A “GUERRA” PELA REORGANIZAÇÃO DE XIPAMANINE

Além de Laulane e Malhazine, o mercado anexo de Xipamanine está sem vendedores e a degradar-se. Onde estão os que deviam ocupá-lo? Fizeram dos passeios, um autêntico mercado.

“Nós não estamos a vender no mercado porque não há movimento. Aqui fora, conseguimos encontrar muitos clientes. A Polícia municipal complica-nos todos os dias porque não nos querem à venda nos passeios”, reconheceu uma das vendedeiras nas ruas de Xipamanine.

Até podem não lhes querer, mas isso só termina mesmo na vontade tanto que os vendedores vendem nos passeios diante de olhar impávido da Polícia municipal, porém há um preço que pagam. Por exemplo, “pagamos bilhetes de 10 meticais”.

Entretanto, nem sempre os 10 meticais conseguem fechar os olhos da Polícia municipal para o comércio informal exercido nos passeios. “A Polícia complica-nos, mas quando aparece, nós carregamos os nosso produtos e fugimos”, afirmou Rui, vendedor nos passeios de Xipamanine.

Fizeram dos passeios um mercado e o local que foi preparado, por nove meses, para sê-lo, está com bancas vazias. A comissão de vendedores sabe de quem é a culpa.

“São 2.500 pessoas que estão nos passeios. Se a direcção dos mercados funcionasse, mas como não funciona é uma perda de tempo. Aquelas pessoas estão a vender num lugar impróprio, não pagam taxas”, acusou Narciso Victor, membro da comissão de vendedores do mercado anexo de Xipamanine.

No terreno, a culpa é mesmo atribuída à Polícia municipal que, supostamente, se envolve em cobranças ilícitas para permitir tais desmandos. “A Polícia municipal, eu digo sim, que cobram valores porque se não o fizessem, não deixariam as pessoas a vender na rua. Os que estão no mercado, como é que vão vender? Queremos que se arranje a estrada e os chapas cheguem até o terminal. Não vamos aprovar um sítio que não está a valer”, desabafou.

O movimento no mercado anexo está fraco, mas tão fraco que os vendedores já apelidaram o local de anexo de novo cemitério. “É novo cemitério porque não há cliente e o nosso negócio só morre a cada dia que passa”, justificou Argentina Alberto, vendedeira no novo mercado de Xipamanine.

Diante desta confusão toda, os vendedores ficam sem saber qual é a diferença entre mercado e passeios. “Nós queremos pedir a quem é de direito ou ao próprio Comiche, que nos diga se o mercado é aqui onde há bancas e se não for, todos nós sairemos para os passeios” contestou, Palmira Chissico, vendedeira no novo mercado de Xipamanine.

A Polícia municipal ouviu as acusações que pesam sobre si e diz que são infundadas. “Não é verdade que a Polícia municipal esteja a favor da ocupação dos locais de forma desordenada”, desmentiu Mateus Cuna, porta-voz da Polícia municipal.

Contrariamente ao cenário de perseguição a vendedores que se assistia nos outros dias, a Polícia municipal diz que agora pauta pela sensibilização. “A ideia não é violentar. Este nunca foi o foco da Polícia municipal e muito menos a aplicação de sanções, mas sim o diálogo”, esclareceu Mateus Cuna.

O porta-voz negou, também, que a Polícia municipal esteja a fazer cobranças ilícitas para permitir que os vendedores exerçam suas actividades nos passeios.

O sociólogo José Bambo defende que o projecto de reorganização do comércio informal da edilidade falhou logo no início porque faltou diálogo com os vendedores. “O problema inicial que houve é que esta proibição deveria ter acontecido anteriormente. Quando as pessoas começaram a afluir à baixa da cidade e usar os passeios como seu local de trabalho ou do comércio, nessa altura já deveriam ter sido proibidos”, defende o sociólogo José Bambo.

O especialista diz que antes do combate ao comércio informal na Cidade de Maputo é preciso olhar para a história, até porque “a baixa, historicamente, é um lugar de comércio. É um local onde as pessoas desenvolvem actividade. Ninguém conhece Museu, Xiquelene (Praça dos Combatentes). Então, esta ideia de que é um lugar de comércio atrai muita gente. Significa que tudo que se coloca vende-se”.

Por isso mesmo, José Bambo sugere que se faça um estudo para compreender o fenómeno, que é fonte de muitas famílias, mas enquanto isso avança com algumas ideias.

“Existem espaços abandonados na cidade de Maputo. Estamos a falar de edifícios antigos, escombros que estão a albergar pessoas de má conduta ou sem tecto. Estes espaços podiam ser rentabilizados e criar nichos de comércio dentro da Cidade de Maputo”, sugeriu.

Contactamos o Conselho Municipal de Maputo para compreender as razões que ditaram o fracasso do projecto de reorganização do comércio informal na capital do país, mas não se mostrou disponível a falar sobre o assunto.

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