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O País – A verdade como notícia

Manifestantes montaram barricadas na Estrada Circular de Maputo, próximo ao Estádio Nacional do Zimpeto. Esse facto tem criado um embaraço na circulação de automobilistas. Os manifestantes exigem o pagamento de uma taxa para quem pretenda passar por aquela via. 

O caminho para a Primeira Rotunda, que dá acesso a bairros como Muhalaze, está, neste momento, condicionada, por barricadas e pneus queimados. A passagem deste troço é condicionada por parte dos manifestantes, que procuram saber o destino para posterior remoção das barricadas.

Refira-se que as barricadas foram montadas em uma via que serve de ligação entre a EN1 e EN4.

Pelo menos 20 pessoas foram feridas e outras 371 foram detidas, em todo o país, durante as manifestações ocorridas ontem, segundo avançou Orlando Mudumane, porta-voz do Comando Geral da Polícia da República de Moçambique (PRM).

A PRM deu o ponto de situação das manifestações ocorridas ontem, em quase todo o país, onde avançou que as manifestações foram marcadas por vários actos criminosos. “Indivíduos de conduta criminosa protagonizaram manifestações desordenadas nas vias públicas, queimaram pneus nas rodovias, vandalizaram e destruíram bens públicos e privados, arrombaram estabelecimentos comerciais e saquearam vários bens”. 

O porta-voz do Comando Geral da PRM avançou que, de forma geral, foram registados, em todo o país, duas ocorrências relevantes, com destaque para 19 casos de desordem pública, 17 estabelecimentos saqueados e vandalizados, 11 vandalização de instituições públicas e privadas, duas viaturas incendiadas e uma tentativa de invasão de um posto policial. 

“Em resultado deste actos criminais foram registados 20 feridos, entre graves e ligeiros e membros da Polícia da República de Moçambique. Em condição dos factos descritos, foram detidos 371 indivíduos e lavrados 44 processos-crime e submetidos ao Ministério Público”, disse Orlando Madume. 

 

Duas viaturas queimadas e um forte cheiro de pneus são alguns vestígios dos tumultos que caracterizaram o dia de ontem, na Estrada Nacional Número Quatro (EN4). Algumas famílias, que vivem nos arredores da EN4, relatam que as suas casas foram atingidas por gás lacrimogéneo.

A EN4 esteve durante todo o dia de ontem completamente bloqueada, quem quisesse fazer a viagem de Maputo para Matola era escoltado pelos Agentes da PRM. Algumas famílias reclamam que mesmo sem sair de casa, foram atingidas por gás lacrimogéneo dentro das suas casas.

O gás, segundo conta a família, foi atirado directamente para a sua casa e condicionou a respiração das crianças que estavam na casa. “O que aconteceu foi lá na rua e tive o cuidado de fechar a porta com uma corrente para que os crianças não saíssem de casa… mas  atiraram isso, uma bala encontrou-me no banho e tive que sair a correr, outra entrou pela janela e atingiu todas as crianças que estavam dentro de casa. Por isso, as crianças ficaram sem forças”, conta Carla Francisco Mbisse, dona de uma casa atingida com gás lacrimogéneo. 

Carla diz que nenhum membro de sua família esteve envolvida na manifestação, mas ainda assim foi atingida.

Quanto aos carros queimados, a polícia nega que tenha incendiado o carro, mas diz que os carros capotaram, devido às barricadas nas estradas

O dia e a noite de quinta-feira registaram continuação de tumultos em algumas zonas da Cidade de Maputo no quadro da contestação dos resultados das eleições gerais de 9 de Outubro. E nesta sexta-feira, a capital continuou com um rasto de vandalização, principalmente nas zonas periféricas.

Na avenida Vladimir Lenine, por exemplo, no troço que liga a Praça do Combatentes e a Praça da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), estava ainda bloqueada, até às 09h, por barricadas e contentores colocados no meio da estrada para impedir a passagem de carros. Munícipes reclamam que há falta de transporte para chegar às suas casas e locais de trabalho. 

Munícipes saíram às ruas de forma tímida, na manhã desta sexta-feira. A Praça dos Combatentes apresenta um fluxo de pessoas e viaturas menor que o habitual. Ainda é possível, ao longo da Vladimir Lenine, ver pneus em chamas e contentores de lixo. 

Embora seja possível ver algum movimento nas estradas, munícipes temem que as manifestações continuem. 

 

Uma pessoa perdeu a vida esta quinta-feira, segundo dia das manifestações convocadas por Venâncio Mondlane, candidato presidencial apoiado pelo PODEMOS, em repúdio da morte de Elvino Dias e Paulo Guambe. Também houve vários feridos e 24 detidos só nas cidades de Nampula e Nacala, na província central de Nampula.

Na sequência dos protestos contra a morte do advogado do candidato presidencial Venâncio Mondlane e do mandatário e candidato à Assembleia da República pelo PODEMOS, Paulo Guambe, em apenas dois dias de protestos 4 mortes foram registradas em consequência da resposta armada da Polícia da República de Moçambique.

Hoje, milhares de manifestantes fizeram-se às ruas na cidade de Nampula e de Nacala, até que tiveram a Polícia da República de Moçambique a escoltá-los, pelo menos nas primeiras horas.

As marchas foram pacíficas, tal como referiu Selemane Augusto, membro do PODEMOS. ” Como juventude é momento de acordar para lutar e trazer mudanças efetivas e reais para a vida dos moçambicanos, chega de corrupção, chega de agendas partidárias, chega de injustiças”, lamentou.

Apesar de pacífica, no decorrer do dia houve agitação e em consequência um homem foi atingido a bala e não resistiu. Segundo a Polícia em Nampula, o mesmo teria perdido a vida a caminho do hospital. “A PRM tomou conhecimento de que houve um ferido grave que perdeu a vida a caminho do hospital”, revelou o porta-voz, Dércio Samuel.

Além da vítima mortal, mais pessoas foram atingidas por balas da Polícia, incluindo uma pré-adolescente de 12 anos que, segundo sua avó, estava no quintal da sua própria casa.

“Estavam a lançar pedras contra a polícia e a Polícia respondeu e não foi bala de borracha. Quando a criança caiu nós pensamos que caiu por medo mas quando aproximamos vimo-la a sangrar”, contou Ana Deolinda, avó da vítima.

No hospital que “O País” visitou também foram encontrados dois jovens que tiveram ferimentos graves, também a balas disparadas pela PRM.

“Eu saia de casa para o trabalho no mercado central. Quando cheguei, esperei e logo chegaram os Policiais que começaram a atirar e me atingiram com uma bala que que perfurou-se e saiu”, contou Jorgito Rui, uma das vítimas.

Em Nacala há registo de um Polícia que ficou ferido nos confrontos com a população e mais três pessoas que também foram alvejadas.

O Comando da Polícia em Nampula disse que durante esta quinta-feira foram detidas 16 pessoas em Nampula e 8 em Nacala.

O Conselho Cristão de Moçambique (CCM) pede à Procuradoria e a Polícia que sejam imparciais no esclarecer do assasinato do advogado Elvino Dias e do mandatário do partido PODEMOS, Paulo Guambe. Sobre as eleições gerais, os cristãos apelam aos envolvidos para evitar derramamento de sangue.

O Conselho Cristão de Moçambique juntou-se, por via de um comunicado, às várias vozes para falar dos assassinatos de Elvino Dias, Advogado de Venâncio Mondlane, e do delegado do partido PODEMOS, Paulo Guambe.

Os Cristãos exortam “(…) aos órgãos de justiça e legalidade (Procuradoria e Policia) para pautar sempre pela imparcialidade no esclarecimento dos casos apresentados, como é o caso de assassinato do advogado do candidato Venâncio Mondlane e do mandatário do partido PODEMOS Alvino Dias e Paulo Guambe, respectivamente”.

Sobre as eleições gerais, o Conselho Cristão considera as violações da lei eleitoral durante a campanha “erros de pouca influência no processo” e lamenta a ausência de delegados de alguns partidos concorrentes em muitas mesas de votos. 

Para melhorar o decurso do processo nas próximas vezes, o Conselho exorta que “ (…) se encontre formas de melhorar a capacitação do MMV’s e dos delegados dos partidos políticos, de modo que garanta que cada um conheça perfeitamente o seu papel e responsabilidade durante o processo nobre de votação ”.

O CCM pede, também, que a aprovação da lei eleitoral seja feita com antecedência, que permita a divulgação e assimilação dela. Lembre-se que, na presente época, a lei eleitoral só entrou em vigor no dia 24  de Agosto, nas vésperas das eleições de 9 de Outubro.

No fim do documento, os cristãos moçambicanos pedem a todos envolvidos no processo eleitoral para que evitem todos os meios e possibilidades de derramamento de sangue entre irmãos.

Alguns munícipes da cidade da Matola, no bairro da Matola A, saíram às ruas, para manifestar e exigir os seus direitos. A Polícia já se encontra no local, para garantir que as manifestações não resvalem para vandalização.

Uma população composta, na sua maioria, por jovens e algumas crianças, grita o nome do candidato presidencial Venâncio Mondlane e “povo no poder”, enquanto canta e caminha, no bairro da Matola A, próximo a Estrada Nacional Número 4 (EN4). A polícia encontra-se no local, para acompanhar a marcha.

Pontos como a Baixa da Cidade e a zona da Malanga, ao longo da avenida 24 de Julho, apresentam um movimento tímido, em relação ao fluxo habitual, de pessoas e carros. Alguns vendedores informais fizeram-se às ruas, mas reclamam da falta de movimentação. 

Este é o primeiro dos dois dias de manifestação convocados pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane. A Escola Primária do Alto-maé, a primária da 24 de Julho e a secundária da Josina Machel estão com as portas fechadas. 

O Instituto Nacional de Transportes Terrestres (INATRO) também não abriu as suas portas. Os empresários por temerem a actos de vandalismo também mantiveram os seus estabelecimentos com portas fechadas.

O escritor moçambicano, Mia Couto, defende que é preciso deixar que o processo eleitoral seja esclarecido e dar tempo para que haja possibilidade de confrontar as diferentes versões e contagens paralelas. Embora acredite que tenha havido fraude eleitoral, o escritor entende que é prematuro, neste momento, convocar manifestações e greves. 

Em entrevista à DW, Mia Couto disse que as fraudes eleitorais não devem ser usadas como pretexto para inviabilizar  todo o processo eleitoral, mas devem ser averiguadas. Para Couto, é preciso que  as actas e os editais sejam apresentados publicamente, para que se faça depois uma avaliação do que constitui fraude ou não. 

Mia Couto apelou que o processo fosse resolvido sem tumultos. “Que haja uma aceitação de todos que estão a disputar as eleições, que o processo não se resolve por tumultos, de um lado, e de outro, não se resolve com repressão policial e assassinatos. Tudo isso inviabiliza o processo eleitoral”, disse.

O escritor acrescentou ainda que, em Moçambique, deve ser criada uma ordem mais justa e mais verdadeira consigo própria.

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