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O País – A verdade como notícia

Um carro incendiou-se no vão suspenso da ponte Maputo-Katembe. O facto ocorreu por volta das 10:40 e presume-se um curto-circuito como causa do sucedido.

Foi tudo tão rápido que minutos depois a viatura ficou reduzida a sucata. Os bombeiros é que debelaram as chamas, mas já não foi possível recuperar nada.

Das informações que apuramos no local, o incêndio foi causado por um curto-circuito, e o que chamou atenção do proprietário da viatura foi o fumo, o que fez com imobilizasse o carro, abrisse o capô para perceber o que estava a acontecer. Mas, não deu para muito, a viatura logo pegou fogo. Apenas documentos essenciais do carro foram retirados, antes incêndio.

O trânsito ficou condicionado por alguns minutos, mas logo de seguida a transitabilidade normal foi restabelecida.

Este é o primeiro incêndio que acontece no vão suspenso da ponte Maputo-Katembe, mas há cerca de quatro meses, um camião também incendiou-se no viaduto, há poucos metros do mesmo local.

O proprietário da viatura, a polícia, e a gestora da ponte, Rede Viária de Moçambique, REVIMO, não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

A Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM) diz que a violência que se tem assistido nos últimos dias, no país, demonstra claramente que se está a perder a capacidade de diálogo na sociedade e que se está a normalizar a violência e ódio e se isso continuar o direito à manifestação pode ser proibido

Imagens de violência estão estão a virar moda nos últimos dias e, sobretudo, depois das 21 horas. É que quem se faz à estrada a esta hora, passa por cobranças ilícitas, é obrigado a cantar ou mostrar apoio a determinado candidato e se isso não for feito as viaturas são danificadas, pelos manifestantes, que também têm vandalizado e saqueado em diversos estabelecimentos comerciais.

A situação chegou à Ordem dos Advogados de Moçambique, que, na sua primeira avaliação, é que estas acções são criminosas e colocam em causa o direito às manifestações, por colocar em causa outros direitos também constitucionais, como se pode ler no seguinte excerto de um comunicado:

“Se a proibição de manifestações com recurso à força pública gera medo e insegurança na sociedade e nenhuma democracia deve inspirar o medo, não é menos verdade que esta violência protagonizada pelos manifestantes, com cobranças ilícitas, danificação e pilhagem de bens públicos e privados, também geram medo e insegurança.”

Ademais, os advogados que defendem uma manifestação pacífica, por entender que a reivindicação democrática da liberdade é um direito de todos, mas sublinha que não deve ser nesses moldes.

“A violência que estamos a assistir, com as condutas acima descritas, demonstra claramente que estamos a perder a capacidade de diálogo na sociedade, normalizando a violência e o ódio, constituindo, este tipo de actuações um alarme para o instinto da segurança do homem comum em sociedade”, lê-se no documento, que depois acrescenta que “Este escalar da violência que se tem vindo a assistir de forma crescente pode ser totalmente contraproducente para os manifestantes, pois estarão criadas todas as condições para o decretamento de medidas restritivas das liberdades para que seja assegurada a Ordem Pública.”

O documento termina com dois apelos, um para os manifestantes: que devem manifestar tendo em conta a saúde e bem-estar e segurança da comunidade e que evitem e se abstenham de praticarem actos de pilhagem, violência e vingança.

O outro apelo é para o Conselho Constitucional para que tome uma decisão o mais rapidamente possível sobre o processo eleitoral, para serenar e trazer a tão almejada paz social, mas fazendo isso de forma independente, equidistante e credível.

Os protestos contra os resultados das eleições de 9 de Outubro deixaram de ser simples manifestações, evoluindo para uma revolta popular contra as instituições do Estado. Quem assim o diz são os comentadores do Noite Informativa, Fernando Lima e Samuel Simango.

O dia-a-dia mostra que a situação tem sido de tumultos. Para o comentador do programa Noite Informativa, da STV Notícias, Samuel Simango, o que acontece tem outro nome.

”A elite que governa deve entender esta transição de manifestação para revolta. Exactamente porque a revolta não vem prescrita na Constituição, há uma necessidade de a elite política dominante encontrar soluções políticas para a revolta. Enquanto para as manifestações nós encontramos soluções a partir das leis, a revolta só tem soluções políticas. Deve-se entender que o que estamos a viver agora não é apenas manifestação, mas sim revolta”.

Já Fernando Lima, que secunda a posição de Simango, argumenta que há descrédito nas instituições, que é causado por elas próprias.

“Existe, de facto, uma revolta, uma oposição em relação às instituições, decorrentes da forma como as instituições estão a tratar os representados. Ora, os representados vão sistematicamente às eleições para escolher quem nos representa. Se os representados sentem que o seu voto foi roubado, que o seu voto não representa o seu querer. Então, estamos a criar uma subversão a este princípio que acordamos que a sociedade seria organizada”.

Os comentários surgem num contexto em que o país regista uma nova forma de manifestações, com recurso a “panelaço” e proibição de circulação de viaturas pelos manifestantes.

As Escolas Primárias e Secundárias, na cidade de Maputo, vão cumprir o calendário de avaliações, apesar das interrupções. Já as universidades estão a fazer ajustes e terão de estender o ano lectivo até às vésperas do natal. 

“Felizmente, as avaliações ocorreram dentro do calendário. Alguns alunos, que não poderam estar nos dias previstos, fizeram as suas avaliações na semana passada, razão pela qual, hoje, estão aqui de volta para poder receber as avaliações”, disse o director da Escola Secundário Eduardo Mondlane, Martinho Namburete. 

O director disse ainda que os exames finais serão realizados dentro do calendário académico, mas, “não sabemos o que poderá acontecer nos próximos dias”.

Partilhou ainda que não há situações em que os alunos fizeram mais de dois testes. Entretanto, o curso noturno encerrou as suas avaliações no sábado.

O mesmo cenário não se assiste nas universidades, pois algumas terão de fazer ajustes. A Universidade Pedagógica, por exemplo, vai estender o segundo semestre até 23 de Dezembro.

Para já está descartada a possibilidade de o sistema tropical “Bheki”  atingir o país, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia.  Entretanto, a depressão tropical continua a  evoluir a 1500 quilómetros do canal de Moçambique.

As projeções do INAM apontavam que o sistema tropical pudesse atingir o país no fim do dia deste domingo, mas para já a previsão mostra tendência contrária.

Com “Bheki” longe da costa moçambicana pelo menos nas próximas 48 horas, segundo o INAM, a semana poderá ser de altas temperaturas em quase todo o país.

Aparecimento de sistemas tropicais que chegam a evoluir até o nível de ciclones, têm sido frequentes na presente época de calor acompanhado de chuvas, daí que as autoridades advertem para a tomada de medidas de segurança.

Há vários focos de lixo acumulado na Cidade de Maputo. A edilidade diz que as manifestações dificultam os trabalhos de remoção dos resíduos sólidos e que caso haja continuidade dos protestos a situação pode piorar.    

O lixo voltou a tomar conta de algumas ruas e estradas da capital do país, com principal destaque para os bairros localizados na periferia. 

“Porque é que não se tira lixo, porque é que não se recolhe lixo. Pelo menos tínhamos que dizer alguma coisa, o que tem a ver se é por causa de greve?, desde as manifestações já não tiraram lixo”, são lamentações de um munícipe da Cidade de Maputo que exige explicações.

Porque o problema é o mesmo um pouco por toda a cidade de Maputo, como são os exemplos da  Avenida D. Alexandre, onde o cenário é de muitos resíduos sólidos a transbordar nos contentores de lixo, até, praticamente,  tomarem parte da estrada, o “O País” procurou ouvir os munícipes para esclarecer o assunto.

“Sofremos muito com as moscas, até pode nos causar baratas e ratos. “E isso é algo que não pode acontecer aqui numa zona onde tem muitas instituições que têm a ver com restauração. Porque é dali que saem muitas doenças, malária, cólera, muita coisa por aí”, falou Valdemiro, residente da urbe.

Da Avenida Dom Alexandre para a Avenida Vladimir Lenine, os contentores estão todos cheios e não passa despercebido da vista dos utentes, tal como refere, Mazive, também munícipe. 

“Primeiramente só o cheiro em si. Isso não faz com que as pessoas cheguem, os clientes também chegam a não vir aqui no seu posto de trabalho, porque eles temem, por exemplo, que o cheiro faz mal também para a saúde. A situação em que a cidade se encontra, de vários focos de lixo acumulado, resulta justamente da redução da nossa capacidade de remoção, por diversos motivos”, disse.

Esta é a Avenida Joaquim Chissano, uma das zonas nobres da Cidade de Maputo, o lixo transborda nos contentores. 

E o problema repete-se em vários outros pontos da capital do país. O conselho Municipal de Maputo conhece bem o problema da sua autarquia e culpa os manifestantes. 

O principal deles são as manifestações. E essas manifestações têm uma característica que infelizmente somos muitas vezes impedidos de fazer a recolha. Por quê? Porque as viaturas não podem circular, ou porque nós não temos os motoristas e os levantadores.

“Face à situação em que a cidade se encontra,  vários focos de lixo acumulado, resulta justamente da redução da nossa capacidade de remoção, por diversos motivos. O principal deles são as manifestações. E essas manifestações têm uma característica que, infelizmente, somos, muitas vezes, impedidos de fazer a recolha. Por quê? Porque as viaturas não podem circular, ou porque nós não temos os operadores, motoristas e os levantadores”, esclareceu João Munguambe, vereador de infra-estruturas e salubridade.

O município de Maputo remove cerca de 1200 toneladas de lixo diariamente mas com vários dias sem possibilidade de pôr as equipas a trabalhar para remover os resíduos sólidos devido a manifestações, a edilidade alerta para dias piores caso os protestos prevaleçam. 

“A nossa capacidade instalada é de 1200 toneladas por dia. Se eu ficar dois dias sem retirar, já tenho 2400 toneladas. Então, isto é extremamente difícil. O que vai acontecer é que gradualmente vamos tendo cada vez mais focos de acúmulo de resíduos sólidos, e infelizmente isso não vai ser bom para a nossa saúde”, acrescentou Munguambe.

Sem avançar os números, o Conselho  Municipal de Maputo diz que vários contentores foram queimados e outros vandalizados o que agudiza ainda mais a situação de salubridade da capital do país.

 

Pelo menos sete pessoas morreram atropeladas na noite de sexta-feira na zona da Texlon, e outras ainda em número não especificado, contraíram ferimentos, entre graves e ligeiros, no Município da Matola, durante uma manifestação, cujo objectivo era o de “tocar panelas”.

O Hospital Provincial da Matola confirma a entrada de cinco óbitos extra-hospitalares e sete feridos, sendo que três tiveram alta no mesmo dia e quatro, devido à gravidade, foram transferidos para o Hospital Central de Maputo.

Na manhã deste domingo, a família Langa, foi enterrar os restos mortais de Jorge Narciso Langa, de 20 anos. Entre choros, abraços e lamentações, todos diziam “ e se ele não tivesse saído”, e queriam compreender, como pode um jovem, num lapso, perder a vida?!.

Ainda assim, Jorge se foi e segundo o tio, Carlos Matsinhe, convidado por amigos que passaram da sua casa por volta das 20 horas convidando-o, para ir “tocar panelas” na estrada.

“Ele foi, quando chegaram na estrada, tiveram esse azar. Em casa, vimos o tempo passar, mas não imaginávamos que algo grave tivesse acontecido, foi quando o irmão de 13 anos, que estava com ele, voltou a correr e veio contar o que havia acontecido”, contou.

Matsinhe disse, ainda, que quando chegaram ao local, dos factos, viram que o jovem de 20 anos, perdeu a vida no local. Jorge, deixa um bebe menor, de apenas duas semanas de vida.

Ainda no mesmo bairro, na família Pelembe, também se chora, mas chora a morte de Filipe Pelembe, de 19 anos de idade, que morreu nas mesmas circunstâncias que a de Jorge.
Saiu de casa, por volta das 20 horas, na companhia de amigos, conforme relatou o tio, Estevão Pelembe.

“Só que, como ele trabalha em turnos, não nos apercebemos que ele não voltou para casa. De tarde, quando vimos os vídeos pelas redes sociais, percebemos que tratava-se dele. Mas procuramos por todas as morgues e só esta manhã (17.11) encontramos o corpo na morgue de Michafutene”, explicou o tio, Estevão Pelembe.

Mas do acidente não houve apenas mortos. Afonso Alberto, está internado no Hospital Central de Maputo, teve ferimentos na perna, braço esquerdo e na cabeça, mas não se recorda de nada do que aconteceu naquela noite.

Já Hélder Muiambo, de 22 anos, contou que que foi tudo de repente, o carro ia em alta velocidade, e só se apercebeu quando a viatura já estava à sua frente e sem reacção, foi atropelado e caiu ao lado.

Ele teve ferimentos na perna, nas costas e na cara. Alguns dentes caíram e a cabeça também foi afectada.

No local do acidente, os vestígios ainda estão intactos. Há marcas de sangue no asfalto, outras que indicam que alguns corpos foram arrastados, pela viatura cujas peças ensanguentadas mostram o quão violento foi o atropelamento. Algumas peças ainda com sangue derramado.

Segundo a polícia de trânsito na província de Maputo, do que foi apurado as vítimas encontravam-se no meio da estrada e o carro, que seguia no sentido Malhampsene- Ceres, estava em alta velocidade.

Porque o condutor “fugiu” e ainda não foi localizado, o caso está agora com o Serviço Nacional de Investigação Criminal, que trabalha para localizar o autor do acidente.

As famílias querem justiça

Os residentes do bairro Candodo, no Município de Chitima, na Província de Tete, debatem-se com a falta de água potável para consumo doméstico. A população recorre aos rios e poços tradicionais sem protecção.

Candodo é um dos bairros mais recônditos da autarquia de Chitima e dista cerca de cinco quilómetros da vila sede. Tem uma população estimada em cerca de três mil habitantes. Os residentes vivem num limiar da pobreza extrema, onde falta quase tudo, sendo a água potável um dos problemas mais graves.

A situação tem forçado mulheres e crianças a percorrer longas distâncias e boa parte da população recorre aos rios e poços desprotegidos.

A professora Mariazinha Guiabote, que também vive no Bairro Candodo, diz que a população está ciente do risco, mas não tem alternativas porque o acesso à água ainda é deficitário.

A população também queixa-se de más condições de uma estrada que dá acesso às suas residências.

No entanto, para ultrapassar a crise de água e minimizar as distâncias percorridas pela população naquele bairro, o edil de Chitima, Domingos Torcida, procedeu, nesta sexta-feira, à inauguração e entrega de dois furos de água.

As duas bombas custaram aos cofres da edilidade um milhão de meticais.

A população de Candodo agradece o gesto da edilidade.

Sete pessoas perderam a vida na noite de sexta-feira, na Estrada Nacional Número 4 (EN4), em Malhampsene, vítimas de um atropelamento, no decurso das manifestações convocadas pelo candidato presidencial, Venâncio Mondlane. Hoje foi enterrado um jovem de 20 anos de idade e reconhecido outro de apenas 19 anos.

O “O País” está a acompanhar o caso das sete vítimas de atropelamento de Malhampsene, na EN4, província de Maputo e já entrou em contacto com as famílias.

Na manhã deste domingo foi enterrado, no cemitério de Michafutene, um jovem de 20 anos de idade que deixou uma filha de apenas duas semanas.

A família Pelembe,  só este domingo conseguiu reconhecer o corpo de Filipe Xadreque Pelembe, de apenas 19 anos de idade, descrito como “um jovem trabalhador”.

Até ao momento, o autor do crime ainda não foi identificado.

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