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O País – A verdade como notícia

O Ministro da Defesa Nacional diz que é preciso mudar a narrativa sobre o terrorismo em Cabo Delgado, de forma a atrair maior investimento. Cristóvão Chume garantiu que a situação no norte do país é estável e o território é viável para investimento. 

“A nossa narrativa não deve ser de expandir a ideia de que o terrorismo está a crescer em Moçambique, porque não é verdade. Nós tínhamos a quatro, cinco anos atrás Mocimboa da Praia ocupada, algumas áreas administrativas ocupadas pelo terrorismo, mas hoje não temos nenhum sítio, onde podemos dizer que os terroristas estão lá a governar”, defendeu o ministro, falando a imprensa a margem da II sessão ordinária da Assembleia da República. 

O titular das pastas da Defesa Nacional garantiu que a situação em Cabo Delgado é estável e viável para o investimento. “Vamos continuar a trabalhar para que seja continuamente viável”, assegurou o Chume, acrescentando que é preciso investir numa narrativa positiva, que atraia mais investimento para o país. 

Morreu, nesta terça-feira, em Portugal, Fernando Veloso, jornalista e fundador do semanário Canal de Moçambique e do diário Canalmoz. Veloso perdeu a vida aos 71 anos de idade, vítima de doença. 

Fernando Veloso mudou-se para Portugal há cerca de uma década e lutava, passavam anos, contra problemas de saúde que o afastaram fisicamente de Moçambique.

Nascido em 1954 na cidade da Beira, província de Sofala, o jornalista fundou o Canal de Moçambique em 2006. Foi um dos fundadores do Media Fax, um dos jornais do grupo Mediacoop, primeiro projecto de media independente e privado de Moçambique pós-independência.

Fernando Veloso foi uma das figuras marcantes da imprensa moçambicana. O jornalista era conhecido crítico, destemido e comprometido com a verdade, mesmo diante de perseguições políticas, intimidação e censura.

Descrito como um jornalista inconformado, Fernando Veloso fez do jornalismo um acto de coragem e dedicou-se à profissão, denunciando a corrupção e promovendo a transparência. Confrontou o poder político para garantir o direito dos cidadãos à informação.

Na sua carreira jornalística, durante mais 40 anos, Fernando Veloso acumulou passagens também pelo semanário Zambeze, Savana e Notícias da Beira. Iniciou a profissão como fotógrafo. 

Reagindo ao infortúnio, a partir da Suíça, o Presidente da República, Daniel Chapo, manifestou as suas “mais sentidas condolências à comunicação social moçambicana”.

O Chefe do Estado destacou o papel de Veloso na fundação da Mediacup e do Canal de Moçambique, “como uma equipa jovem que trabalhou e continua a trabalhar na comunicação social moçambicana”.

Disse que o jornalista fez parte “daquela geração que trabalhou bastante ao nível do país para o crescimento da liberdade de imprensa”, e reiterou “as mais sentidas condolências à família enlutada, amigos, colegas e à classe jornalística moçambicana”, afirmando que “o país está de luto pela perda deste grande homem da comunicação social e do jornalismo”.

No âmbito da celebração do seu aniversário, o antigo Chefe do Estado, Joaquim Chissano, visitou o Hospital Geral de Mavalane, onde ofereceu enxoval aos dois primeiros bebés nascidos hoje, naquela unidade sanitária. O antigo estadista ofereceu ainda presentes a alguns bebés na enfermaria do hospital. 

Através da Fundação Joaquim Chissano, o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, decidiu visitar o Hospital Geral de Mavalane, onde ofereceu presente aos recém-nascidos. 

“A primeira parte consistiu na visita à sala de partos, onde ofereceu enxoval a dois bebés, os primeiros que nasceram nesta manhã, na nossa maternidade. Depois foi à enfermaria da maternidade, onde visitou também alguns bebés e ofereceu presentes”, disse o porta-voz do hospital, reiterando o seu agradecimento com a visita do ex-estadista. 

Joaquim Chissano explicou que a visita ao Hospital Geral de Mavalane, enquadra-se numa serie de acções, levadas a cabo pela fundação de que é patrono, para que as crianças cresçam em paz. 

“A nossa acção é um apelo para as outras pessoas também olharem para as nossas crianças como os construtores da nossa felicidade, da felicidade do nosso povo, de nós todos como povo (…) Queremos que este povo caminhe de uma maneira boa, aquela que Deus nos desejou. Estas crianças devem crescer neste ambiente de amor, amor entre os pais, entre os vizinhos, entre toda a comunidade, enfim, o amor de toda nação moçambicana”, disse o estadista. 

Chissano lembrou ainda que decorre o diálogo nacional em todo o país e apelou que, durante o processo, sejam levantadas ideias que tragam soluções para os problemas que nos apoquentam. 

 

Os investidores estrangeiros de nacionalidade chinesa que pretendiam instalar uma fábrica de cimento no distrito de Chibabava, em Sofala, sem seguir todos os trâmites legais para a obtenção de uma licença ambiental, foram multados em mais de 14 milhões de meticais, e as actividades foram paralisadas pelo Governo. 

Depois de o Governo ter-se distanciado do projecto de construção de uma fábrica de cimento, no distrito de Chibabava, em Sofala, pelo facto de o mesmo não ter obedecido às regras estabelecidas para tal, com destaque para a questão ambiental e a não indemnização a dezenas de famílias camponesas, cujas áreas foram ocupadas pelos investidores, seguiu-se depois uma investigação que culminou com a emissão de uma multa.

A empresa em causa, que conta com investidores de nacionalidade chinesa, foi multada em pouco mais de 14 milhões e meio de meticais, segundo um documento emitido pela Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental, ou simplesmente AQUA.

A AQUA indica, no documento, que a multa foi emitida por se ter constatado que a referida empresa procedeu à abertura de uma área para a implantação de uma fábrica de cimento, um acto antecedido de abate de árvores e compactação de solos, uma actividade não licenciada ambientalmente.

A nossa equipa de reportagem teve igualmente acesso a um outro documento emitido pela Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental, que ordena o encerramento das actividades de abertura da área para a implantação da fábrica em referência, pertencente à firma Shun Xin Yuan Africa Investment Limitada, por implementação de actividade não licenciada.

O mesmo documento indica que o levantamento do encerramento será feito mediante a apresentação da licença ambiental e o respectivo estudo de impacto ambiental ou plano de gestão ambiental actualizado.

Os representantes da empresa sancionada declinaram comentar as acções tomadas pelo Governo em relação a este projecto, cuja primeira pedra para a sua implementação, como anteriormente havíamos noticiado, deveria ser lançada há cerca de duas semanas, mas a denúncia das famílias camponesas, cujas áreas foram ocupadas pela firma sem nenhuma compensação, impediu o avanço da iniciativa.

O processo de reconstrução do distrito de Mecúfi, em Cabo Delgado, está em curso, depois da destruição causada pelo ciclone Chido em Dezembro do ano passado. Foram 200 mortos e 76 mil afectados.

Um dia depois da passagem do ciclone Chido pelo distrito de Mecúfi, em Cabo Delgado, a imagem era de uma razia causada pela força do vento no dia 15 de Dezembro do ano passado, que atingiu 260 km/h. “Quando fizemos o balanço depois do ciclone, no dia 16 de Dezembro, fomos ver que o distrito foi afectado a 100%, mas, depois da intervenção dos nossos parceiros, o Governo principalmente, registámos 76 mil habitantes que foram afectados. Através da Saúde, fizemos o levantamento de 200 perdas humanas no distrito de Mecúfi”, disse Fernando Neves, administrador de Mecúfi.

Com este grau de destruição, a população do distrito de Mecúfi passou a depender de ajuda para reerguer a sua vida. “Houve distribuição de chapas de zinco, barrotes, houve construção de uma casa de trânsito para aquelas pessoas que não tinham possibilidades, como é o caso de deficientes, idosos e mulheres chefes de família, e, à medida que os apoios vêm, vamos dando aquilo que a população necessita para a sua habitação”, acrescentou o governante.

Depois daquele acontecimento, o então Presidente da República, Filipe Nyusi, deu ordens para que a reconstrução obedecesse ao ordenamento territorial para melhor orientar a ocupação do solo, fora das zonas de risco.

“Este processo está sendo feito. Foi um comando. Iniciamos com duas comunidades-piloto, a comunidade de Sassalane e a comunidade de Maweia. O processo está em curso. Neste momento, foram abertas 25 ruas para atendermos o ordenamento territorial. E, como é um processo contínuo, o distrito está a continuar para que todas as comunidades elegíveis no distrito tenham o ordenamento territorial.” 

O edifício onde funciona a administração do distrito, que estava totalmente destruído, assim como o Centro de Saúde de Mecúfi, estão numa fase avançada de reconstrução.

Pelo menos 4.300 alunos da primeira classe foram matriculados, para o ano lectivo 2026, durante 20 dias, na cidade de Maputo. A direcção da educação prevê que sejam matriculados mais de 18 mil alunos nas escolas públicas. 

As matrículas para a 1ª classe arrancaram em todo o país, a 1 de outubro e decorrerão até 31 de dezembro, para o ano letivo de 2026. 

Na cidade de Maputo, a previsão é de que sejam matriculados pelo menos 18078 alunos, estando já inscritos 4310 alunos, nas escolas públicas dos sete distritos municipais.  Para as escolas privadas, há 4459 vagas disponíveis das quais 19 estão preenchidas. 

“A cidade de Maputo está engajada no processo de realização de matrículas. As metas foram propostas em função da sua capacidade observando o histórico das realizações dos anos anteriores”, explicou Élio Martins, representante da direcção dos Assuntos Sociais da Cidade de Maputo, argumentando que “sao metas que iremos alcançar com o devido trabalho e entrega dos nossos colegas”.

Elio Martins realçou que as matrículas são gratuitas e apelou “não façam cobranças ilícitas porque é sabido que a escolarização de 1 a 9 classe não se paga, portanto, é gratuita”.

A fonte avançou que no processo de matrículas os encarregados devem estar munidos de cédula, certidão, boletim de nascimento ou bilhete de identidade do educando.

Aos gestores e funcionários dos estabelecimentos de ensino, Simbine chamou atenção para continuarem vigilantes contra práticas corruptivas no processo das matrículas.

O ambiente de desordem que há meses se instalou nas imediações do Mercado Municipal de Vilankulo começa finalmente a merecer uma resposta firme do Conselho Municipal. Dias depois de a STV e o Jornal O País denunciarem o caos e os riscos provocados pela ocupação das vias de acesso por vendedores informais, a edilidade veio a público emitir um comunicado contundente que exige o abandono imediato das faixas de rodagem e das bermas por parte dos comerciantes. O documento, tornado público terça-feira, marca uma viragem na forma como o município pretende lidar com a crescente desorganização que compromete não apenas a mobilidade, mas também a segurança de centenas de munícipes.

O alerta surge num momento em que o próprio edil, visitou o Mercado Municipal para constatar de perto a gravidade da situação. No local, o cenário era revelador: bancas improvisadas ocupando passeios, vendedores instalados a poucos metros da estrada principal e transeuntes obrigados a disputar espaço com viaturas e motorizadas. “O que encontramos aqui é preocupante. Estamos a falar de pessoas que colocam em risco as suas vidas e as dos outros. Esta prática tem de parar”, afirmou o presidente do Conselho Municipal, visivelmente indignado com o que viu.

A visita do edil, que se prolongou por mais de uma hora, serviu também para recolher perceções dos próprios vendedores, muitos dos quais reconhecem o perigo, mas afirmam não ter alternativa imediata. Uma das vendedoras, que preferiu não se identificar, contou que “há dias em que não se vende quase nada dentro do mercado, então muitas de nós viemos para a beira da estrada porque é onde há mais movimento”. Outra comerciante reforçou que “a falta de espaço e as condições precárias dentro do mercado” obrigam alguns vendedores a procurar zonas de maior visibilidade.

Perante estes argumentos, o Conselho Municipal diz compreender as dificuldades, mas recorda que o respeito pelas regras é essencial para a convivência urbana e para o próprio desenvolvimento da cidade. “Quando flexibilizámos as regras, foi com o entendimento de que os vendedores circulariam e não se fixariam nas vias de acesso. Infelizmente, o que se observa é o contrário. Muitos instalaram-se de forma permanente nas bermas e até nas faixas de rodagem, o que é inaceitável”, lê-se no comunicado divulgado pela edilidade.

O documento acrescenta que o Município poderá recuar nas medidas de tolerância que vinham sendo aplicadas e adotar uma postura mais rígida de fiscalização. A decisão, segundo fontes do Conselho Municipal, poderá incluir operações conjuntas com a Polícia Municipal e reforço das equipas de fiscalização nos principais pontos críticos. “A intenção não é punir, mas garantir ordem e segurança. Já perdemos demasiadas vidas em acidentes que poderiam ser evitados. O comércio informal é importante, mas não pode colocar em risco a vida das pessoas”, sublinhou um responsável da área de Urbanização e Mercados, que participou na visita.

O comunicado da edilidade, amplamente divulgado nas redes sociais e nos meios locais, apela de forma direta à mudança de comportamento dos vendedores. O Município avisa que, caso a situação persista, serão aplicadas medidas severas, incluindo a remoção coerciva de bancas e a apreensão de produtos. “Pedimos apenas que os vendedores cumpram as orientações. O Município está a trabalhar para criar condições dignas e seguras para todos. Mas enquanto isso, é preciso respeitar o espaço público e as regras básicas de segurança rodoviária”, destacou a mesma fonte do Conselho Municipal.

Paralelamente, decorrem já os trabalhos administrativos para a concretização do projeto de construção de alpendres no Mercado Central. A iniciativa, que visa organizar e modernizar o comércio local, faz parte de um plano mais amplo de requalificação urbana de Vilankulo. O objetivo é reduzir a venda ilegal e a ocupação desordenada das vias, oferecendo aos vendedores condições adequadas para o exercício da sua atividade.

Segundo fontes municipais, o projeto dos alpendres incluirá bancas padronizadas, zonas de sombreamento e áreas reservadas para produtos frescos e secos. A obra será financiada com recursos próprios do Município e conta com o apoio técnico de parceiros locais. 

O problema do comércio informal nas vias públicas de Vilankulo não é recente, mas ganhou proporções alarmantes nos últimos meses. A reportagem da STV e do Jornal O País, que expôs o estado caótico das ruas adjacentes ao mercado, mostrou imagens de crianças a atravessar entre bancas e carros, vendedores sentados a poucos centímetros do asfalto e montes de lixo acumulado. As imagens chocaram a opinião pública e obrigaram a edilidade a reagir com medidas concretas.

Vilankulo, uma das cidades turísticas mais importantes do sul de Moçambique, enfrenta o desafio de equilibrar o dinamismo comercial com a necessidade de manter a ordem urbana e garantir a segurança de residentes e visitantes. Para o Conselho Municipal, o apelo agora lançado não é apenas uma questão administrativa, mas um compromisso com a dignidade, a justiça e o desenvolvimento da cidade. “Queremos uma Vilankulo organizada, próspera e segura. Isso só será possível com o envolvimento de todos. Cada cidadão tem um papel a desempenhar”, concluiu o edil, durante a visita ao mercado, sob o olhar atento de dezenas de vendedores e curiosos.

Com o tom firme e a promessa de medidas práticas, o comunicado da edilidade marca o início de uma nova fase no relacionamento entre o Município e o comércio informal. Resta agora saber se os apelos à consciência e ao civismo surtirão efeito antes que chegue a fase das sanções.

Um ano após o início das manifestações pós-eleitorais em Moçambique, a Plataforma Decide revela que os protestos resultaram em 411 mortos e 7.200 detenções, das quais 2.790 pessoas continuam presas. Os dados constam do relatório “Cicatrizes da Democracia em Moçambique: Impactos Humanos e Falhas de ProteCção nas Manifestações Pós-Eleitorais (2024–2025)”, divulgado recentemente.

De acordo com o documento, os protestos começaram em 21 de Outubro de 2024, dois dias após o assassinato do advogado Elvino Dias e de Paulo Guambe, apoiantes do candidato presidencial Venâncio Mondlane, e prolongaram-se até Março de 2025.

As províncias de Maputo, Nampula, Zambézia e Sofala concentraram 78% dos casos, com a maioria das vítimas a situar-se entre os 18 e os 35 anos. As mulheres representaram 14% das vítimas, incluindo detidas, feridas e mortas, reflectindo uma vulnerabilidade acrescida no contexto da repressão.

O relatório indica ainda que 3.700 pessoas ficaram feridas, mais de 900 por disparos de arma de fogo, e que cinco continuam desaparecidas. Foram igualmente registadas 17 execuções com motivações políticas.

Entre os mortos, 17 eram agentes das Forças de Defesa e Segurança (4,2%) e 20 eram crianças (5%).

A Plataforma Decide denuncia a ausência de investigações públicas e de responsabilização judicial, bem como a falta de reparação às vítimas, apontando interferências políticas nas instituições de justiça e falhas graves na proteção dos direitos fundamentais.

A província de Inhambane volta a viver dias de incerteza climática. Entre a ameaça de cheias nas zonas ribeirinhas e a persistência da seca nas regiões semiáridas, mais de 170 mil pessoas poderão ser afetadas durante a época chuvosa 2025/2026. A previsão é do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que alerta para uma situação complexa e contraditória, onde a água e a sua ausência convivem perigosamente lado a lado.

Segundo o delegado do INGD em Inhambane, Gilberto Miguel, as análises mais recentes apontam para uma época chuvosa marcada por contrastes extremos. “O Plano de Contingência da província já foi aprovado e traz uma análise detalhada das ameaças que vão impactar Inhambane. Segundo o INAM, espera-se a ocorrência de chuvas normais, com tendência para acima do normal, entre outubro e dezembro deste ano, e também entre janeiro e março de 2026”, explicou.

Mas o delegado faz questão de sublinhar um paradoxo que a província conhece bem. “Mesmo quando chove bastante, há distritos como Panda, Govuro, Mabote e Funhaloro que continuam a enfrentar escassez de água. São zonas semiáridas onde a chuva que cai não chega para garantir água para consumo humano, para o gado ou para a agricultura. Temos regiões a viver a abundância da chuva e outras o drama da seca — tudo ao mesmo tempo.”

Gilberto Miguel adverte que, para além da irregularidade das chuvas, o sector da hidrologia prevê riscos de cheias significativos na bacia do rio Save. “Para o primeiro período, entre outubro e dezembro, há probabilidade de cheias de risco baixo a moderado. Já no segundo período, de janeiro a março, o risco aumenta para moderado a alto, especialmente na bacia do Save, onde historicamente temos registado inundações graves”, destacou.

No terreno, o ambiente é de alerta. Em Govuro, pescadores e camponeses seguem as previsões meteorológicas com o coração apertado. “Quando o rio sobe, não há aviso. Em 2022 perdemos casas e gado. Agora estamos com medo que volte a acontecer”, conta António Chimundo, morador de Nova Mambone, olhando para o leito do Save, ainda sereno, mas com marcas da última cheia visíveis nas margens.

O Plano de Contingência provincial, aprovado a 10 de outubro, prevê três cenários possíveis. O primeiro contempla eventos de pequena magnitude, mas de ocorrência frequente — chuvas fortes, inundações urbanas e secas localizadas — capazes de causar danos severos em comunidades vulneráveis. Neste cenário, cerca de 134 mil pessoas podem ser afetadas. O segundo cenário, considerado o mais provável, prevê a ocorrência combinada de ciclones, cheias e secas em várias zonas, podendo atingir até 174 mil pessoas. “São situações que podem ocorrer isoladamente ou em simultâneo. Estamos a falar de cheias, ventos fortes, seca, e até ciclones, que podem afetar diferentes pontos da província ao mesmo tempo”, explicou o delegado.

Em Maxixe, as equipas do INGD revisitam armazéns e verificam o estado dos materiais de emergência. O delegado admite que os recursos disponíveis estão muito aquém das necessidades. “Temos bens alimentares e não alimentares nos nossos armazéns, mas quando olhamos para o tamanho da população em risco, percebemos que os recursos ainda são escassos. Estamos a mobilizar meios com parceiros de cooperação, e também a recorrer a ações de antecipação, financiadas com base nas previsões de seca ou cheias.”

Segundo Gilberto Miguel, o plano está orçado em pouco mais de 26 milhões de meticais, mas há um défice de cerca de 24 milhões para garantir resposta total durante a época chuvosa. “É um esforço grande. Estamos a trabalhar com parceiros que já preposicionaram recursos estratégicos em zonas críticas como Govuro, Vilankulo e Inhambane. São embarcações, bens alimentares e não alimentares, que vão permitir uma resposta imediata caso se verifiquem emergências.”

Enquanto o governo afina os planos de contingência, as comunidades tentam adaptar-se à incerteza climática. Em Panda, uma das zonas semiáridas, o lavrador Ernesto Nhassengo mostra o seu campo de milho seco. “Aqui a chuva vem e vai. Às vezes cai muito e destrói tudo, noutras não chove nada. Vivemos com medo. Se vier seca outra vez, não sei o que vai ser da nossa colheita.”

Situação semelhante vive-se em Mabote, onde o gado magro percorre longas distâncias em busca de pasto. “Os poços estão a secar. Quando a seca aperta, temos de andar mais de dez quilómetros por água”, lamenta Joana Tamele, pastora da zona de Chigubo.

Gilberto Miguel reconhece o drama vivido por estas famílias e garante que a estratégia do INGD para esta época chuvosa aposta na descentralização e na rapidez de resposta. “Temos vindo a reforçar as capacidades locais, com formação de comités de gestão de risco em comunidades vulneráveis e com o apoio dos serviços distritais. O nosso foco é prevenir antes de reagir.”

Em paralelo, o INGD alerta para os riscos urbanos, sobretudo nas cidades de Inhambane e Maxixe, onde as deficiências no saneamento e o acúmulo de lixo dificultam o escoamento das águas. “As inundações urbanas são uma preocupação crescente. Mesmo chuvas de intensidade moderada provocam grandes transtornos. É preciso uma coordenação entre municípios e serviços de proteção civil para minimizar impactos.”

A previsão é clara: entre outubro e março, Inhambane poderá viver uma das épocas chuvosas mais desafiantes dos últimos anos. A província, conhecida pela sua beleza e tranquilidade, prepara-se para enfrentar o lado mais imprevisível da natureza. A incerteza é grande — tanto quanto a força da água que pode inundar campos e casas, quanto a ausência dela, que seca rios, plantações e esperanças.

“Temos de estar preparados para o pior cenário, sem deixar de acreditar no melhor”, conclui Gilberto Miguel. “A natureza é imprevisível, mas a prevenção e o planeamento podem salvar vidas.”

Apesar dos esforços do governo provincial e do INGD, a realidade mostra que a vulnerabilidade climática em Inhambane continua a crescer mais depressa do que a capacidade de resposta. Os recursos são escassos, a prevenção ainda depende de apoios externos e a urbanização desordenada agrava os riscos. A cada época chuvosa, renova-se o mesmo ciclo de medo, perdas e promessas. A província precisa, mais do que planos de contingência, de investimento estruturante — em drenagem, abastecimento de água, agricultura, resiliência e educação ambiental — para que o futuro deixe de ser um exercício de sobrevivência diante da natureza.

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