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Reedição d’O Negro 110 anos depois

Reflictamos

A reedição do Jornal O Negro, 110 anos depois da publicação do primeiro número deste que é um dos principais percursores do pensamento pan-africanista, simboliza o ressurgimento da luta do povo africano pela reconquista da sua dignidade e soberania no quadro das nações.

Mais de um século depois, este manifesto pela liberdade da África e dos africanos não poderia ser tão atual e revelador do embuste social e político em que o mundo se encontra. O imperialismo não morreu com as independências das colónias, pelo contrário, refinou os seus métodos e hoje se nos apresenta em forma de progresso, democracia e globalização, só para citar alguns dos seus disfarces.

Nós, os negros, continuamos escravos desta secular subalternização que as instituições imperialistas se esforçam em perpetuar. A celebração dos 110 anos do mais significativo movimento de luta anti-imperialista coincidiu com a polémica do Caso Mamadou Ba, presidente do SOS Racismo em Portugal e representante de uma causa que uma parte da elite política portuguesa (para ser optimista) insiste em varrer para debaixo do tapete.

É de todo irrisório que o discurso de Mamadou em relação a existência de um racismo estrutural em Portugal choque a opinião pública num país, que se orgulha de ser pioneiro da expansão marítima (os ditos Descobrimentos) que levou a colonização e escravização da maior parte dos países do mundo. Como se explica que um país em que os grandes carrascos da história da humanidade ainda são reverenciados como heróis pode se considerar não racista?

Já em 1911 o grupo de estudantes africanos (João de Castro, José de Magalhães, Ayres de Menezes, Artur Monteiro de Castro e tantos outros), que fundou o jornal O Negro debatia-se com essa questão. A resposta só poderá ser obtida por via de uma reflexão profunda e consciente. Reflictamos, recomendavam-nos eles. E este é para mim o principal legado desta geração iluminada pelo Éter da esperança e comprometida com a revolução.

Este movimento, a semelhança da campanha política em curso para a expulsão de Mamadou Ba de Portugal, foi perseguido e silenciado pelo Estado Novo. Urge que continuemos a resistir e a intensificar a luta. O oprimido só se liberta do seu opressor por via da violência, já nos tinha avisado o cineasta brasileiro Glauber Rocha no seu manifesto sobre a Estética da Fome.

Queiram eles ou não, será por via de discursos e posicionamentos violentos que no passado encontramos nos números de O Negro e hoje em activistas sociais como Mamadou Ba que conseguiremos pôr fim a esta opressão secular e finalmente tomar as rédeas do nosso destino.

E concluo esta saudação à reedição do Jornal O Negro levada a cabo pela editora FALAS AFRIKANAS e pelos autores Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela, com revisão e paginação de Carolina Freitas e Inês Ramos, respectivamente, com uma citação (traduzida para o português corrente) retirada do número I, datado de 09 de Março de 1911:

Expressamos com lealdade, mas também com audácia, nas suas linhas gerais as nossas convicções.

Não nos moveram nem ódios, nem ressentimentos, absolutamente incompatíveis com a nossa mocidade e sobretudo com a nossa compreensão da solidariedade.
Embora pertencentes à raça, por excelência escravizada, ao iniciarmos a nossa publicação, sentimo-nos no dever de salutar todas as raças do mundo, porque todas descendem da animalidade e ascendem à vasta fraternidade universal.

Ops: Pode ter acesso a reedição do Jornal O Negro através do download gratuito em https://archive.org/details/jornal-o-negro-110anos.

A versão impressa está a venda em livrarias dentro e fora de Portugal. De Norte a Sul:
Santiago de Compostela/Galiza: Espaço Espadela
Vila Real: Livraria Traga Mundos
Vila Nova de Cerveira: Porta Treze
Porto: Gato Vadio, Utopia, I2ads/Faculdade de Belas Artes
Amadora /Cova da Moura: Bazofu&Dentu Zona
Cascais: Galileu
Lisboa: Letra Livre, Tigre de Papel, Leituria, SNOB, Baobá, Papelaria Fonsecas, Papelaria Cevada
Setúbal: Uni Verso
Sines: A das Artes
Lisboa, 19/03/2021

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