A palavra democracia nasceu em Atenas, entre os séculos VI e V antes de Cristo, no coração de uma cidade que acreditava na isonomia — a igualdade perante a lei — e na parresía, o direito de falar livremente. Os gregos chamavam de demos (o povo), e de kratos (o poder). Era, no seu ideal, o governo de todos sobre todos. Mas logo ali, nos séculos V e IV a.C., mas logo se tornou o governo de alguns sobre muitos — e desde então, a história da democracia é também a história da sua traição. De Demos, o povo; kratos, o poder, foi a promessa de que a política não seria privilégio dos reis, mas expressão da razão comum. No entanto, desde o seu berço, ela trazia a contradição: em Atenas, nem todos eram povo — mulheres, escravos e estrangeiros eram o silêncio que sustentava o discurso da liberdade. E surgiram assim as contradições que até hoje assombram o mundo: quem é o povo? quem tem direito à voz? Quem decide o que é liberdade?
Os pré-socráticos — Tales, Anaximandro, Heráclito — perguntaram-se sobre a origem da ordem, sobre o logos que sustenta o cosmos. Os pré-socráticos, de Tales a Heráclito, viam o cosmos como ordem e tensão — logos e pólemos. A política, portanto, seria também um campo de conflito e equilíbrio. Os sofistas, como Protágoras, ensinaram que “o homem é a medida de todas as coisas”, defendendo o poder da persuasão e a relatividade das verdades — e foi a primeira afirmação de que a verdade política nasce da experiência humana, não do divino, algo que ressoa nas democracias manipuladas de hoje. Onde todavia, sofista, Górgias, ensinou que o poder nasce da palavra e que a verdade depende de quem a pronuncia — lição perigosa, hoje usada por políticos que moldam “verdades” para manter o povo em escuridão.
Mas foi Sócrates quem lançou a ferida da consciência política: a busca da verdade não pode submeter-se à maioria. Ele morreu pela voz do povo, condenado pela própria democracia ateniense — o primeiro mártir da consciência crítica. Pois foi ele que respondeu com ética: sem virtude, não há polis justa. Platão, em seu República, já horrorizado e ferido pela morte do mestre, desconfiava da democracia: via nela o início da tirania, quando a liberdade sem sabedoria se transforma em anarquia e chamou a democracia de “governo dos ignorantes”, a forma degenerada da república. Para ele, o poder devia ser dos sábios — dos filósofos.
Aristóteles tentou salvar o ideal, embora sendo realista, dizendo que a melhor política é aquela que busca o bem comum — não o poder de um, nem o caos de todos. E tentou reconciliar: a boa política é a politeia, o equilíbrio entre o poder, o povo e a razão, o meio-termo entre o caos da multidão e a arrogância do tirano.
A Idade Média matou a política e colocou Deus no trono. A Igreja substituiu o povo, e o poder tornou-se revelação, não escolha isto, converteu a política em teologia. A vontade de Deus substituiu o voto do cidadão e assim a voz do povo tornou-se pecado. Só no Renascimento o homem voltou ao centro da política. Maquiavel reintroduziu o realismo político — a política como arte do possível não dá moral. E foi o Iluminismo que reacendeu a chama democrática: Hobbes no Leviatã viu no Estado o monstro necessário para conter o caos; Locke defendeu a liberdade individual contra o absolutismo hobbesiano; Rousseau proclamou a vontade geral onde sonhou o “povo soberano” o contrato social; Montesquieu dividiu o poder para que nenhum homem o dominasse todo, onde deve haver separação dos poderes. A democracia moderna nasceu daí — racional, contratual, burguesa.
Mas o século XIX trouxe as feridas: a democracia industrial de Tocqueville que previu o conformismo das massas e o “despotismo suave” que governa pela aparência da liberdade, a luta de classes de Marx que denunciava a alienação e o falso universalismo burguês, o niilismo de Nietzsche, que viu nas massas a morte do espírito livre onde riu do “rebanho democrático”, onde a igualdade sufoca o gênio e a força criadora.
O século XX transformou a democracia em espetáculo. Duas guerras mundiais mostraram que civilizações democráticas também sabem destruir-se, onde Hannah Arendt alertou que a política sem ética gera totalitarismo; Orwell e Camus denunciaram as democracias convertidas em simulacros; e Foucault mostrou que o poder moderno já não mata — vigia, disciplina e controla. E com a Guerra Fria dividiu o mundo entre duas farsas: a democracia liberal e a ditadura do proletariado — ambas prometendo liberdade, ambas produzindo medo.
E então veio a África. Libertou-se do colonialismo, mas herdou os vícios do colonizador: o culto ao chefe, a política do medo e a burocracia do poder. As promessas de libertação tornaram-se impérios partidários. A democracia africana nasceu sob o signo da dependência, não da emancipação. Hoje, na África, vivemos esse mesmo dilema: temos os nomes, mas não temos a essência. Falamos em democracia, mas praticamos kratos sem demos. O poder é de poucos, sustentado por medo, manipulação e silêncio.
Mas a filosofia não parou na Europa. Kwame Nkrumah, Amílcar Cabral, Julius Nyerere, Léopold Senghor e Samora Machel sonharam uma democracia africana baseada no ubuntu — “eu sou porque nós somos”. Eles imaginaram uma liberdade comunitária, não individualista. No entanto, seus herdeiros traíram o sonho: substituíram a fraternidade pela fidelidade ao partido, o povo pela propaganda.
Os pensadores africanos do pós-colonialismo — Marcien Towa, Paulin Hountondji, Kwasi Wiredu, Achille Mbembe e Ngũgĩ wa Thiong’o — denunciaram essa domesticação da política. Mbembe chama-a de “necropolítica”: o poder que decide quem vive e quem morre. É o que vemos hoje — líderes que falam em liberdade enquanto governam pela morte e pelo medo.
Na Tanzânia, depois da fraude e da perseguição, a presidente fala em “diálogo”. Em Moçambique, a Frelimo faz o mesmo há décadas: rouba votos, reprime o povo e depois proclama reconciliação. Essa não é democracia — é a sua caricatura. E em tantos outros países africanos, o discurso democrático tornou-se máscara de regimes autoritários. Fala-se em “diálogo” enquanto se prende opositores; fala-se em “paz” enquanto se silenciam vozes. e em tantos outros países africanos, o discurso democrático tornou-se máscara de regimes autoritários. Fala-se em “diálogo” enquanto se prende opositores; fala-se em “paz” enquanto se silenciam vozes.
A África herdou a forma, mas não o espírito da democracia. Importou instituições sem alma, constituições sem consciência. E, pior, os próprios africanos transformaram a política em herança, o Estado em feudo, e o povo em silêncio. Onde está o demos africano? Onde está o pensamento crítico, o logos que fez nascer Atenas?
Chegamos ao século XXI com urnas, mas sem verdade; parlamentos, mas sem voz; imprensa, mas sem coragem. Vivemos a democracia aparente — o teatro onde o Estado veste o discurso da liberdade, mas age com a alma da tirania.
A pergunta, portanto, é mais antiga que nós: que democracia deseja a África? A de Platão, dos sábios justos? A de Rousseau, da vontade do povo? Ou a de Nietzsche, do homem livre que não se curva à massa nem ao poder? Que democracia queremos? A de Atenas, onde o povo decidia, mas as mulheres e escravos eram excluídos? A do Iluminismo, que proclamou liberdade enquanto sustentava impérios coloniais? Ou uma nova democracia, verdadeiramente africana, nascida do sofrimento e da consciência do povo?
A África precisa deixar de ser palco de repetições e passar a ser autora da sua própria história. A democracia não pode ser importada, nem decretada — deve ser vivida. Não é só voto, é virtude; não é só diálogo, é coragem moral. O continente precisa de uma ética da palavra, não de slogans; precisa de líderes que leiam Sócrates antes de pegarem na bandeira, que entendam Aristóteles antes de assinarem decretos. O filósofo queniano Henry Odera Oruka falava das sagas — sábios tradicionais africanos que pensam pela experiência e pela justiça. Talvez seja essa a resposta: uma sabedoria democrática, enraizada na comunidade, mas aberta ao mundo.
Porque sem filosofia, a política é apenas instinto e medo. E sem coragem, a democracia é apenas uma farsa. O destino de África decidir-se-á quando deixarmos de imitar os gregos, os iluministas e os colonizadores — e começarmos a pensar, finalmente, por nós próprios.
Talvez devamos criar a nossa: uma democracia da verdade e da coragem. Uma democracia africana que recuse o medo e o silêncio. Porque, no fim, como disse Sócrates, “a vida sem exame não vale a pena ser vivida”. E talvez — olhando para a Tanzânia, Moçambique e todo o continente — possamos acrescentar: a democracia sem verdade não vale a pena ser defendida.
