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Quando pensar se torna perigoso: Provérbios 17 e a cultura da intriga em Moçambique

A Bíblia, quando lida para além do exercício devocional, revela-se um instrumento surpreendentemente actual de análise social. O livro de Provérbios, em particular o capítulo 17, oferece uma radiografia moral que dialoga de forma directa com algumas das patologias mais profundas da vida institucional moçambicana, sobretudo na forma como o poder é exercido nos partidos políticos e nas instituições públicas e privadas.

O perverso dá ouvidos à língua maldosa; o mentiroso inclina os ouvidos à língua destruidora (Provérbios 17:4). Este versículo não fala apenas de falhas individuais de carácter. Ele descreve um modelo de liderança. Fala de chefias que não governam com base em ideias, resultados ou princípios, mas que se mantêm no poder alimentando-se da intriga, da fofoca e da vigilância da vida privada dos seus colaboradores. Em muitos espaços institucionais moçambicanos, sedimentou-se um tipo de liderança que investe mais tempo a ouvir boatos do que a resolver problemas. O tempo gasto na intriga é, quase sempre, inversamente proporcional à qualidade da prestação de serviços e a competência técnica.

Este comportamento não é marginal. Em Moçambique, assistimos à consolidação de uma cultura institucional onde a maledicência, a invenção de factos e o assassinato de reputações deixaram de ser desvios para se tornarem método. Grupos com autoridade formal operam como verdadeiras máfias morais: protegem-se mutuamente não pelo mérito, não pelos resultados, mas pela destruição sistemática de quem pensa diferente. Em vez de se debaterem ideias, debate-se o carácter. Em vez de argumentos, circulam boatos.

As implicações desta prática para a cultura de debate interno nos partidos políticos são profundas. Onde a intriga domina, o debate empobrece. As estruturas deixam de ser espaços de reflexão colectiva e transformam-se em arenas de sobrevivência política. A crítica passa a ser vista como traição e a divergência tratada como ameaça. O resultado é um pensamento único frágil, incapaz de responder à complexidade dos desafios nacionais.

É neste ambiente que prospera o tribalismo político e o discurso étnico sistematicamente manipulado. Não como expressão legítima de identidades culturais, mas como instrumento de elites incompetentes e desqualificadas para se reproduzirem no poder. A agenda não é nacional nem patriótica; é regional e, muitas vezes, restrita a pequenos grupos. A prova está na distância entre o discurso e a prática: há pouca ou nenhuma preocupação com o desenvolvimento efectivo das regiões e localidades de onde essas elites são originárias. O discurso tribal é usado não para promover inclusão ou justiça territorial, mas para consolidar redes clientelares e excluir quem não pertence ao círculo dominante.

Em todos os partidos políticos, sem grande esforço de observação, encontram-se redes alimentadas pela intriga e pelo discurso tribal. O alvo preferencial é recorrente: pessoas com pensamento próprio. Quadros críticos, técnicos independentes, militantes que questionam, cidadãos que recusam alinhar com narrativas fabricadas, todos passam rapidamente de recursos a problemas.

Esta prática revela um traço central do nosso problema institucional: a incompetência teme o confronto directo. Por isso, ataca na ausência. Aguarda que o visado não esteja presente para se defender e, nesse vazio, constrói narrativas convenientes. O contraditório é evitado porque exporia fragilidades. O ataque pessoal substitui o debate de ideias.

É aqui que Provérbios 17 estabelece uma ligação subtil, mas poderosa: até o insensato, quando se cala, é tido por sábio (Provérbios 17:28). Num contexto institucional saudável, o silêncio pode ser prudência. No contexto moçambicano actual, o silêncio transformou-se numa estratégia de sobrevivência. Muitos calam-se para não perder posições; outros fingem concordar para não se tornarem alvos. Não porque não tenham ideias, mas porque aprenderam que pensar é perigoso.

O efeito acumulado é devastador. A mentira organiza-se, ganha método e protecção. A verdade é empurrada para as margens. A confiança desaparece. As instituições deixam de servir o interesse público e passam a servir pequenos círculos. Quem ama a contenda ama o pecado(Provérbios 17:19). Quando a contenda permanente substitui a construção colectiva, o pecado institucionaliza-se.

Este mal não se limita à arena política. Infiltra-se nas empresas, nas organizações da sociedade civil, nas associações profissionais e até em alguns espaços que se dizem éticos ou morais. No meio académico, por exemplo, observa-se frequentemente uma miséria intelectual preocupante: ataques à pessoa, fuga ao debate argumentativo e protecção da mediocridade por chefias que confundem autoridade com medo. Importa sublinhar a diferença entre chefe e líder. Um líder não se envolve nesse esquema miserável que destrói instituições. Um líder cria equipas, promove debate, valoriza o pensamento contraditório, porque sabe que a inovação nasce do confronto honesto de ideias. E, acima de tudo, um líder deixa legado.

O preço que o país paga por esta cultura é elevado: decisões fracas, políticas pobres, desperdício de talento e um sentimento crescente de frustração social. O mais grave, porém, é o impacto no futuro. Jovens competentes aprendem cedo que pensar é perigoso. Profissionais sérios percebem que a lealdade à verdade tem custos elevados. Não surpreende, por isso, o afastamento progressivo da juventude dos partidos políticos tradicionais. Este modelo fechado, intriguista e autorreferencial já não dialoga com uma geração que valoriza transparência, mérito e participação real.

Esse afastamento abrirá, inevitavelmente, espaço para a emergência de novos grupos de cidadãos, movimentos e partidos políticos alternativos. Não por moda, mas por necessidade histórica. Os partidos tradicionais estão a abrir esse espaço porque não conseguem renovar-se internamente, porque sufocam o debate e afastam o pensamento crítico.

Provérbios 17 aponta também o caminho inverso. Uma sociedade saudável constrói-se sobre a verdade, a lealdade e a responsabilidade. A crítica é um instrumento de melhoria, não um crime. A divergência é sinal de vitalidade democrática, não de desordem. Moçambique não falha apenas por limitações económicas ou estruturais. Falha quando normaliza a mentira, protege a mediocridade e persegue o pensamento autónomo.

Uma sociedade que recompensa a intriga e silencia a consciência crítica caminha, inevitavelmente, para a ruína moral. Romper com esta cultura não é apenas um imperativo ético; é um imperativo nacional. E essa ruptura começa com algo simples, mas profundamente exigente: dizer a verdade, mesmo quando ela incomoda.

Mas dizer a verdade, por si só, não basta. É igualmente necessário preparar a mente e os ouvidos para escutar o pensamento diferente. Uma sociedade que se fecha à divergência condena-se à estagnação. A escuta activa de ideias incómodas, críticas ou fora do consenso dominante não enfraquece as instituições; fortalece-as. O medo da diferença é, quase sempre, sintoma de fragilidade intelectual e insegurança no exercício do poder.

Neste processo, a responsabilidade maior recai sobre os líderes. São eles que definem o tom moral das instituições. São eles que decidem se a competência será valorizada ou se a mediocridade será protegida. Quando um líder se cala perante a incompetência, quando tolera a maledicência, quando normaliza a intriga como forma de gestão, ele não é neutro. Ele torna-se responsável por inação.

A responsabilidade por inação é uma das formas mais graves  e mais subestimadas de falha ética na liderança. Não se manifesta em actos visíveis, mas nas omissões que permitem que o mal se organize. Ao não agir, o líder legitima comportamentos destrutivos, envia sinais claros de permissividade e cria um ambiente onde os piores prosperam e os melhores se calam ou se afastam. A inação transforma-se, assim, numa forma silenciosa de cumplicidade.

As implicações desta responsabilidade são profundas. Instituições lideradas pela inação perdem autoridade moral, descredibilizam-se internamente e afastam os quadros mais competentes. A confiança desaparece, o medo instala-se e a intriga ganha estatuto de norma. A longo prazo, estas instituições tornam-se incapazes de inovar, de corrigir erros e de responder aos desafios sociais e políticos que enfrentam.

Por isso, a mudança não virá apenas de discursos bem-intencionados ou de reformas formais. Virá quando os líderes assumirem, de forma clara e inequívoca, que tolerar a mentira, a intriga e a incompetência é uma escolha  e que toda escolha tem consequências. Liderar é agir. E, muitas vezes, agir significa proteger o pensamento crítico, promover o debate honesto e ter a coragem de ouvir aquilo que não se quer ouvir.

Só assim será possível reconstruir uma cultura institucional baseada na verdade, na responsabilidade e no mérito. E só assim Moçambique poderá romper com um modelo que penaliza quem pensa e recompensa quem intriga.

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