Chegaram sem que ninguém os visse. E voltaram a sair ocultos na viatura de transporte de reclusos… À sua chegada, os oito arguidos das dívidas ocultas usaram a garagem do Palácio da Justiça para aceder ao Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, onde decorrem os primeiros interrogatórios. O juiz de instrução criminal, Délio Portugal, iniciou com as audições às 10H00, duas horas depois da chegada dos arguidos. Fora do tribunal, era notória a presença de familiares dos detidos e de alguns advogados – que evitavam revelar à imprensa quem são os seus constituintes.
Na verdade, foi um sábado cinzento para a imprensa: a informação não circulava e os jornalistas viviam de gestão de expectativas. Não sabiam quem era o juiz de instrução criminal, quem estava a ser ouvido, quem era advogado de quem, quanto tempo levava um interrogatório, qual era a previsão do fim das audições e de onde iriam sair os arguidos.
O interesse pelo local de saída justificava-se pela necessidade de captar as imagens dos "ilustres arguidos" que foram interrogados dentro das 48 horas, como manda a lei. Um registo raro na justiça moçambicana.
Se entraram no tribunal pela porta dos fundos, será que irão sair pelo mesmo atalho? Ninguém sabia responder à esta pergunta… Para minimizar os riscos, um grupo de jornalistas posicionou-se em frente ao Palácio da Justiça, no 25 de Setembro, e outro permaneceu junto à entrada principal do tribunal.
Um pouco depois da uma da tarde, soavam sirenes no 25 de Setembro. Uma viatura de transporte de reclusos e a respectiva escolta passam pelo Palácio da Justiça e dão a volta ao quarteirão até estacionar em frente ao tribunal. Ninguém desce e ninguém sobe. Excepto os efectivos do SERNAP fortemente armados. As duas viaturas voltam para a 25 de Setembro e vão directo à garagem do Palácio da Justiça. Minutos depois, as duas viaturas saem em alta velocidade para estacionar em frente do tribunal. Ninguém sabia dizer se vinham deixar ou levar arguidos.
Não há informação. A tarde vai longa. Os jornalistas denunciam cansaço, mas não arredam o pé da justiça.
Tratando-se do primeiro interrogatório do réu preso, a sessão decorre à porta fechada. Só entra para a sala o juiz, o representante do Ministério Público, arguido e o advogado de defesa. Durante a sessão, é o juiz que interroga o arguido e o advogado está para acompanhar e dar conforto ao seu constituinte.
Quando eram 14H00, alguns familiares começam a abandonar o local. Uma hora depois, chegava a informação de que o juiz tinha dado uma curta pausa, depois de ouvir cinco dos oito arguidos.
Alguns advogados e familiares dos detidos foram entrando no tribunal com refeições. Às audições retomam e às 18H00 Délio Portugal chamava pelo último arguido do dia: Gregório Leão, o homem que dirigiu a secreta moçambicana (SISE) durante 11 anos. A audição prolongou-se até às 20H00 e a chuva não dava tréguas na baixa de Maputo. A zona frontal do tribunal está praticamente inundado.
Minutos depois o juiz anunciou aos advogados a decisão de manter a prisão preventiva para sete arguidos e conceder liberdade provisória sob pagamento de caução a apenas um arguido. Mas à saída do tribunal, nenhum advogado mostrou-se disponível a prestar declarações aos jornalistas, que permaneceram no tribunal durante 12 horas. Só um soprou resumidamente a decisão de Délio Portugal a um jornalista.
O juiz de instrução criminal também usou os portões do Palácio da Justiça para sair do tribunal e entrou numa carrinha (minibus) de transporte de funcionários da instituição.
E por último, já às 23H00, eram os aarguidos que deixavam o Palácio da Justiça ocultos na viatura do Serviço Nacional Penitenciário (SERNAP).
Terminava assim o longo dia dos primeiros interrogatórios aos primeiros arguidos detidos no âmbito do processo das dívidas ocultas.
Para a semana haverá mais… Afinal, ainda há nove arguidos por recolher às celas. Está segunda-feira será a vez de Armando Ndambi Guebuza, o filho do "antigo camarada Presidente Guebuza" a responder às perguntas do juiz Délio Portugal. No mesmo dia, os oito arguios que continuam presos serão transferidos para a cadeia. Civil ou BO?
Um advogado disse ao Jornal O País que o mais provável é BO, pois pesa sobre o grupo fortes indícios de prática do crime de burla por defraudação.

