O sistema político, eleitoral e de governação, bem como o modelo de descentralização em Moçambique, são temas de um “debate latente” ainda por encerrar, para consolidar a paz e democracia, segundo o presidente da CACDHL da Assembleia da República (AR)
De acordo com Edson Macuácua, o fim desses problemas passa pela consolidação da unidade nacional, reforço da coesão, inclusão e a reconciliação nacionais, consolidação do Estado de Direito Democrático, bem como assegurar uma maior participação e representatividade dos cidadãos na vida política e desencadear um processo natural de revisão geral da Constituição da República.
Falando esta semana em Lisboa, no VI Congresso do Direito de Língua Portuguesa, o presidente da Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos Humanos e de Legalidade (CACDHL) da AR e docente universitário passou a imagem de um Moçambique cuja história é de arregalar os olhos, em todas as áreas. Mas também admitiu haver desafios, e muitos, que adiante ele próprio faz questão de elencar.
No âmbito do processo da construção da paz, é preciso “encerrar o processo de desmobilização, desarmamento e reintegração social das forças armadas residuais da Renamo, promover actos e discursos que concorrem para uma efectiva reconciliação nacional, promover a inclusão e da participação ao nível político, económico, social e cultural, respeitar os princípios e valores do Estado de Direito Democrático e reforçar a unidade e coesão nacionais”.
O parlamentar não parou por aí. Foi mais a fundo ao aponta que, no âmbito da consolidação da democracia e da paz, o país debate-se com uma transição democrática não concluída, que se manifesta por cenários tais como: “tensões político-militares, negociações políticas dos assuntos do Estado fora do Parlamento, recurso a expedientes inconstitucionais e ilegais para atingir fins políticos, organizações da sociedade civil pouco democráticas e pouco representativas”.
Na sua comunicação, intitulada “Reformas Constitucionais e Políticas em África, o Caso de Moçambique: Estado, Democracia, Paz e Descentralização 1975-2019: Passado, Presente, Desafios e Perspectivas”, Edson Macuácua, fala ainda das metamorfoses que o país sofreu e reformas adoptadas de 1975 a 2019.
Entretanto, ele não passou ao lado das questões que ciclicamente têm colocado os partidos políticos e os órgãos de gestão eleitoral em rota de colisão. Ele assinalou, por exemplo, a necessidade de se regulamentar devidamente as normas eleitorais “com vista a assegurar a estabilidade eleitoral e garantir que o mesmo seja mais simples, transparente, que inspire confiança nos actores políticos e na sociedade civil”.
Relativamente à organização e ao funcionamento dos órgãos do Estado, Edson Macuácua sugeriu, diante dos portugueses, que se deve assegurar uma maior responsabilização dos servidores públicos.
No que aos partidos políticos diz respeito, o consultor e docente universitário disse que os partidos políticos devem, na qualidade de principais sujeitos da democracia, enveredarem por uma democratização interna na sua organização e no seu funcionamento, sobretudo, “democratização e transparência no processo de constituição e eleição dos órgãos interno, promover o respeito pela diferença, diversidade e tolerância”.
SOCIEDADE CIVIL DEVE SE REINVENTAR
Para Edson Macuácua, a sociedade civil moçambicana também precisa de se reinventar e deixar de ser, na sua classe, uma maioria concentrada “em elites urbanas”. Há que pautar por uma maior democratização interna, na sua constituição, organização, funcionamento e eleição dos seus órgãos. Deve, igualmente, encontrar formas de ter sustentabilidade financeira e depender pouco de doações externas.
“Se as organizações da sociedade civil não forem democráticas e transparentes não terão autoridade e legitimidade moral para exigir o mesmo do Estado, pelo que paralelamente à necessária reforma do Estado, coloca-se com a mesma urgência a necessidade de reforma da sociedade civil”, disse a fonte.
DEMOCRACIA E COESÃO NACIONAL
Macuácua referiu ainda que as reformas constitucionais e políticas no país estão associadas ao processo de construção do Estado, da paz e da democracia, pese embora com algum imediatismo.
Contudo, o país tem uma “oportunidade soberana para realizar uma reforma constitucional com maior serenidade, num processo participativo, com um debate público aberto e inclusivo, voltada para a consolidação democrática e reforço da coesão nacional (…), capaz de gerir e resolver as crises e atender as preocupações dos cidadãos com maior eficácia e eficiência”.