Cerca de 1,3 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas zonas de origem em Moçambique desde 2017, devido à violência armada no norte do país. Deste total, 661.532 continuam deslocadas internamente, enquanto 721.691 regressaram aos seus distritos de origem, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
No relatório operacional referente ao primeiro semestre de 2026, a agência indica que os ataques de grupos armados provocaram 26.184 novos deslocados entre Janeiro e Junho, em vários distritos da província de Cabo Delgado. Muitos dos afectados foram obrigados a deslocar-se mais de uma vez.
O ACNUR considera que a situação humanitária continua complexa, devido à persistência da violência em distritos como Ancuabe, Chiúre, Macomia, Mocímboa da Praia, Palma, Quissanga, Muidumbe e Nangade.
Para além dos ataques contra civis e infra-estruturas, a agência assinala que os grupos armados têm visado cada vez mais os meios de subsistência das populações, incluindo campos agrícolas, actividades pesqueiras e locais de exploração mineira, agravando a vulnerabilidade das comunidades.
O relatório indica ainda que Moçambique acolhe 24.217 refugiados e requerentes de asilo, provenientes sobretudo de países da África Central e Oriental.
Entre Janeiro e Junho deste ano, o ACNUR prestou assistência directa a 39.699 pessoas, incluindo deslocados internos, refugiados e famílias vulneráveis, através da distribuição de bens essenciais e apoio monetário. A agência apoiou igualmente 15.804 pessoas com assistência jurídica e 8.637 na obtenção de documentos de identificação.
No âmbito do reforço dos serviços de protecção, está em curso um projecto de 34 meses, lançado em Março, em parceria com os Governos de Moçambique e do Japão. A iniciativa prevê a construção ou reabilitação de 27 postos de atendimento em Cabo Delgado, com o objectivo de facilitar o acesso à documentação civil de mais de 100 mil pessoas e prestar assistência jurídica a outras 45 mil.
Para 2026, o ACNUR solicitou 61,3 milhões de dólares para financiar as suas operações em Moçambique e Angola. Contudo, até Junho, apenas 38% do montante tinha sido disponibilizado, deixando um défice de financiamento de 38,2 milhões de dólares.
Organizações da Sociedade Civil estão preocupadas com a demora na materialização das leis de proteção da Mulher e Rapariga, e pedem acções urgentes por parte do Governo. Já o Executivo diz que os parceiros continuam a dar apoio humanitário aos deslocados pelo terrorismo.
Dos mais de um milhão de deslocados pelo Terrorismo em Cabo Delgado, 52% são mulheres que vivem em situações desafiadoras no contexto de paz e segurança. Esses dados são do Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD) e preocupam as organizações que lidam com programas de proteção à mulher e rapariga e aos Direitos Humanos.
“O país viveu situações de conflito a nível nacional, que foram sucedidos por conflitos na região centro e norte do país. Actualmente, Cabo Delgado ressente-se da insurgência dos terroristas que tem provocado deslocamentos e crise humanitária, preocupando, assim, vários movimentos da sociedade civil. Aspectos como impacto das mudanças climáticas sobre a segurança humana são desafios. Muitas vezes a situação levanta leva a contornos alarmantes”, disse Laila Chemane do IMD.
A Universidade Joaquim Chissano desenvolve pesquisas e emite recomendações sobre políticas de equidade do género, por isso, é que defende a ideia do envolvimento da mulher em processos mais práticos.
“Nós temos que começar a investir muito mais na mulher, atribuindo-a grandes pensamentos. A mulher é útil e fundamental para o desempenho das acções de combate. O governo e os partidos políticos devem abrir espaço para que a mulher seja contribuinte em tudo que seja defesa, paz e segurança”, desafia, o acadêmico Ênio Chingotuane, e pesquisador Universidade Joaquim Chissano
Questionada sobre a situação actual de ajuda humanitária em Cabo Delgado, a directora nacional do género, demonstrou incertezas entretanto garantiu que os parceiros de cooperação continuam a endereçar apoios.
Os parceiros continuam a desembolsar apoio e a trabalharem com o governo na questão humanitária aos deslocados. Há fundos que são destinados a essas comunidades, porém em termos de números não posso avançar aqui” reagiu Geraldina Juma, Directora Nacional do gênero.
A conferência da mulher, segurança e paz, junta membros da sociedade civil, governo e parceiros de cooperação e tem duração de um dia.
Os raptores podem recuar se se provar que a Polícia tem capacidade de combater os raptos. O pensamento é defendido pelo jurista Sérgio Quihá, que acredita igualmente que, a ser verdade que a ex-sogra de Nini Satar é mandante, pode ser o começo do fim dos raptos.
Foi hoje, depois de o Ministério do Interior ter registado aproximadamente 200 raptos ao longo dos últimos 15 anos que foi apresentado, pela primeira vez, um mandante dos raptos.
Trata-se de uma mulher de 62 anos, que por sinal é ex-sogra de Nini Satar. Em reacção ao caso, o jurista Sérgio Quihá diz que se se provar que a acusada é realmente culpada, os raptos poderão reduzir nos próximos tempos.
“A considerar a hipótese de esta senhora ser a mandante do crime, podemos considerar o fim dos raptos, porque o crime dos raptos envolve muitas pessoas e, assim, há possibilidade de detenção de mais envolvidos, e podemos considerar, parcialmente, o fim do tumulto dos raptos.”
Além de ser um sinal positivo para a redução de um crime que assola o país há aproximadamente 15 anos, defende que os raptores podem recuar nas suas incursões.
“Isto também vai demonstrar aos raptores que o SERNIC tem técnica suficiente para combater este tipo de crime. Quando não havia esclarecimentos, os criminosos acreditavam que o SERNIC não tinha meios nem técnicas suficientes para combater o crime. E, quando hoje nos traz as pessoas envolvidas, vamos perceber que nos próximos meses podem reduzir”, defendeu.
Ao mesmo tempo, o jurista apelou à precisão no processo de construção de provas antes de apresentar publicamente os supostos criminosos, sob o risco de manchar a reputação de pessoas inocentes.
“O SERNIC é uma instituição que depende do Ministério Público, que vai proceder à acusação desta senhora, e a instrução preparatória é secreta, ou seja, o momento da produção de provas está velado pelo princípio de segredo de justiça. Imaginando que não seja provado que a senhora não é a mandante, como é que fica a imagem e reputação das pessoas?”, reflectiu.
Quihá considerou que já é hora de os raptos terem respostas, pois, só neste ano, em média, é raptado um cidadão por mês, o que não é justificável com o número de polícias na corporação.
“Historicamente, nunca houve, na história de Moçambique, tantos agentes como agora. Só na última formação, foram cerca de 11 mil agentes na República de Moçambique para garantir a tranquilidade pública.”
A moldura penal dos raptos prevê entre 16 e 20 anos de pena máxima para todos os envolvidos e com agravantes podem estender até 24 anos.
O Presidente da República violou a Constituição da República ao nomear Rolinho Farnela para o cargo de secretário de Estado na província de Tete, enquanto exerce, ainda, o cargo de vice-ministro do Trabalho e Segurança Social. O entendimento é do jurista Damião Cumbane.
Rolinho Farnela acumula, desde a última terça-feira, dois cargos de gestão no Aparelho de Estado, com a sua nomeação, pelo Presidente da República, como secretário de Estado na província de Tete, enquanto exerce a função de vice-ministro do Trabalho e Segurança Social. Diante do facto, o jurista Damião Cumbane diz haver violação expressiva da Constituição da República.
De acordo com o número 1 do artigo 137 da Constituição da República, “os cargos de Presidente da República, presidente da Assembleia da República, primeiro-ministro… deputado, vice-ministro, secretário de Estado, secretário de Estado na província, são incompatíveis entre si”.
O jurista explica que o Chefe do Estado pode recuar na decisão, para fazer prevalecer o expresso na Constituição da República.
No entender de Damião Cumbane, a sobreposição de cargos demonstra que há funções dispensáveis.
Índice do Ambiente Macroeconómico em cerca de três pontos percentuais, passando de 45%, no primeiro trimestre, para 48%, no segundo. O Índice de Robustez Empresarial cresceu em um ponto percentual e passou a fixar-se em 31%, reflectindo a média ponderada dos índices provinciais.
A CTA juntou os seus membros e outros interessados para realizar, esta quarta-feira, o Economic Briefing para avaliar o desempenho das empresas moçambicanas nos últimos seis meses.
Agostinho Vuma, presidente da CTA, aponta como principais factores para esse crescimento o início da campanha de comercialização agrícola, o início da exportação de camarão e de algodão, entre outros.
“Do ponto de vista do desempenho macroeconómico, destacamos uma ligeira desaceleração da actividade económica durante o primeiro trimestre, o que veio a ser corrigido pela tendência de crescimento da actividade empresarial verificada no segundo trimestre, fruto da desaceleração da inflação média trimestral de 6,02%, no primeiro trimestre, para 4,68%, no segundo; e do início do ciclo de redução das Taxas MIMO, anunciada pelo governador do Banco de Moçambique, tendo saído de 17,25%, em Janeiro, para 15%, em Junho. Estas medidas terão influenciado a redução das taxas de juro dos mercados financeiros que, embora de forma tímida, vão reconquistando uma certa confiança no seio da classe empresarial. Estes factores resultaram no aumento do Índice do Ambiente Macroeconómico em cerca de três pontos percentuais, passando de 45%, no primeiro trimestre, para 48%, no segundo. O Índice de Robustez Empresarial cresceu em um ponto percentual e passou a fixar-se em 31%, reflectindo a média ponderada dos índices provinciais.”
A CTA, através do seu director-executivo, Eduardo Sengo, deu a conhecer que, no período em análise, houve melhoria da tendência de índice de emprego no país, de 104 para 116,25 empregos temporários e parciais.
Apesar destas notas positivas, a CTA voltou a fazer pressão para que os problemas de falta de divisas no mercado cambial e os raptos, que ensombram a actividade empresarial, sejam resolvidos.
“Registamos, contudo, com profunda preocupação, que, desde o surgimento deste fenómeno, em 2011, houve um cumulativo de mais de 250 casos de raptos, maioritariamente de empresários e seus parentes, dos quais poucos estão esclarecidos e, em todos os casos, apesar de declarações de terem sido identificados alguns dos seus mandantes, não temos registo público da detenção e condução à justiça de qualquer deles.”
Só no primeiro semestre de 2024, registaram-se 15 raptos, e algumas vítimas continuam em cativeiro. Isto eleva ao estado de perigo, terror e inquietação dos membros da classe empresarial, resultando no abandono do país por alguns deles, o que não se mostra como uma saída, tendo em consideração que a maioria das vítimas, apesar da cor da sua pele, são moçambicanos e, portanto, sem opções nem interesse de abdicar da sua nacionalidade.
“Devido à gravidade da situação e na nossa qualidade de entidade de utilidade pública, temos vindo a desenvolver diversas acções de advocacia junto do Governo e juntando todas as associações empresariais com interesse directo na matéria, o que resultou na produção de uma série de propostas de acção para a erradicação deste mal. Destas propostas, gostaríamos de destacar a imperiosidade de medidas estratégicas, reforço do sistema de segurança nacional e medidas tácticas e operativas que envolvam diversos segmentos sociais, particularmente unidades especializadas das Forças de Defesa e Segurança, a colaboração das vítimas resgatadas e/ou restituídas à liberdade, incluindo um programa específico e fiável de protecção às testemunhas e vítimas”, disse Agostinho Vuma.
A CTA, no seu décimo quinto índice de robustez empresarial, destaca ainda que a indústria extractiva mostrou interligações fracas, estimadas em menos de 2%, enquanto o sector da construção teve impacto moderado em todos os sectores, estimado em 20%, excepto na logística.
O Tribunal Superior de Recurso da Cidade de Maputo decidiu suspender o embargo das obras de construção da central de betão no bairro Costa do Sol. No entender do órgão, um tribunal comum não tem competência para tal.
O Tribunal Superior de Recurso da Cidade de Maputo decidiu dar provimento ao recurso interposto pela empresa chinesa Africa Great Wall Concrete Manufactured, que está a construir uma central de betão numa zona residencial, na Cidade de Maputo.
“Dando provimento ao recurso, com base nos argumentos factuais e legais (…), deliberam os juízes desta secção, em declarar oficiosamente verificada a excepção dilatória da incompetência absoluta do Tribunal recorrido, em razão da matéria e absolvem da instância a agravante.”
O Tribunal Superior de Recurso da Cidade de Maputo alega que a instância que decidiu pelo embargo da obra, no caso o Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, não tem competência para o fazer.
Por outro lado, o Tribunal Superior de Recurso entende que são inegáveis os factos tendentes a causar danos ambientais que afectam a população circunvizinha.
O grupo de moradores que é contra a construção da central de betão na Costa do Sol diz que vai recorrer da decisão do Tribunal Superior de Recurso, no Tribunal Supremo.
Além deste, há um outro processo em andamento do Tribunal Administrativo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) convocou, ontem, uma reunião de emergência para debater sobre a epidemia da Varíola dos Macacos, no continente africano, actualmente designada por Mpox.
A reunião decorre na cidade suíça de Genebra, pouco tempo depois do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC África) ter declarado “emergência de saúde pública”, face à epidemia da Varíola dos Macacos.
O Director-Geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, convocou a reunião, dado o surgimento de uma nova variante da doença denominada “clade 1b” em 2023, na República Democrática do Congo, que, só neste ano, infectou mais de 14 mil pessoas e causou 500 mortes.
O responsável da Organização Mundial da Saúde afirma que a nova variante é mais perigosa que a anterior, denominada “clade 2b”.
A Varíola dos Macacos, actualmente conhecida por Mpox, é uma doença viral que se propaga dos animais para os seres humanos, mas também é transmitida por contacto físico com uma pessoa infectada com o vírus.
O Mpox foi descoberto pela primeira vez em seres humanos em 1970, na República Democrática do Congo.
Esta epidemia tem maior insidência nos países da África Ocidental e Central, onde os doentes são geralmente infectados por animais possuíndo o vírus.
Por: Gilberto Matusse
Em meados da década de 1980, Aldino Muianga, um dos mais proeminentes membros do grupo da Charrua, a revista que deu voz e visibilidade a uma geração de jovens escritores de então, muitos deles, hoje, escritores renomados, assinava os seus contos como Khambira Khambiray.
A história do pseudónimo, contada pelo próprio autor, começa com a sua primeira colocação como prático, em 1978, no Hospital Provincial de Chimoio. Numa das suas viagens a um campo de refugiados e combatentes da luta de libertação do Zimbabwe, conheceu um paciente, um guerrilheiro, que sofria de uma infecção pulmonar grave. Tendo levado esse paciente do campo para o Hospital Provincial, acabou estabelecendo com ele uma relação de amizade muito particular. Numa certa ocasião, o paciente, que mostrava muita curiosidade pelos livros e apontamentos do seu médico, teria dito o seguinte: “Se eu soubesse ler e escrever, encheria livros com muitas histórias”. Em resposta, o médico prometeu: “Se eu escrever um livro, um dia, usarei o teu nome”. Khambira Khambiray era o nome de guerra do jovem guerrilheiro. E Aldino honrou a promessa, ao assinar com o nome do seu paciente o seu primeiro conto publicado, “A Vingança de Macandza”.
Vem esta história a propósito da dupla condição de Aldino Muianga, a de “clinicador” e a de contador de histórias, a que ele próprio refere como as “carreiras médica e de escritor”. Nada mais ilustrativo desta condição do que este livro que agora sai: Hospital (Contar Clinicando).
O livro é composto por 15 narrativas autónomas, em que o laço que as conecta é o hospital – a instituição, não um certo estabelecimento hospitalar – e os procedimentos clínicos que lá ocorrem. Diz-se aqui instituição porque, de facto, contam-se eventos que se deram em diferentes hospitais, em diferentes locais de dois países: Moçambique e Zimbabwe. Nas narrativas, relatam-se episódios “reais, vividos como o foram no quotidiano”, ora acontecidos com o próprio autor, ora acontecidos com outros clínicos. São experiências extremas – e, de outro modo, não seriam dignas de ser contadas –, que desafiam em grande medida os limites da nossa imaginação e levantam dúvidas sobre a sua factualidade. Não fosse a garantia acima expressa nas palavras do autor, o leitor comum julgá-las-ia ficcionais. Por essa via, diz ainda o autor, na sua nota introdutória, contá-las visa “franquear a porta de acesso ao universo mítico da profissão médica, aos desafios de cada momento, aos dilemas e dúvidas nas decisões, às frustrações, à angústia diante da impotência de corresponder às expectativas de salvar vidas e de mitigar o sofrimento dos enfermos.” Mas, na verdade, pela porta deste livro, acede-se a bem mais.
É no espírito deste desígnio que desfilam narrativas como a que abre o livro, “Eutanásia”, título irónico para um relato em que a dedicação, a entrega, o zelo dos profissionais, acabam por se transformar numa “hipercorrecção”, resultando num incidente em que se escreve torto por linhas direitas. De resto, o livro povoa-se destes incidentes, em que alguma distracção, algum erro, algum procedimento menos adequado, alguma inexperiência, desagua num desfecho trágico. E, neste ponto, é preciso dizê-lo, Hospital (Contar Clinicando) não traz histórias com finais felizes. Estes, só em alucinação, como a da Elsa Venância, a jovem que “tinha apenas dezanove anos de idade, uma cabeça cheia de projectos e sonhos de ser uma distinta magistrada, esposa e mãe de muitos filhos”, que, à hora da morte, “via a imagem do seu pai a segurá-la pela mão, escoltá-la ao altar para ofertá-la em matrimónio ao noivo, o senhor Ricardo Quelhas”. Hospital (Contar Clinicando) pinta uma realidade cruel, trágica, com finais, no geral, marcados por mortes e amputações de membros e de sonhos.
Se a realidade é cruel para os pacientes, não o é menos para os clínicos, frustrados e angustiados com a sua impotência ou enfrentando dilemas como o do Dr. Andrew Nomitenda, incapaz de decidir se extrai o objecto perfurante espetado no abdómen do paciente para controlar a hemorragia, arriscando, nesse processo, a laceração de órgãos vitais, ou se o deixa no local, usando o seu efeito de tamponamento. É idêntico o drama do Dr. Lukas Tishome, que tem que operar uma parturiente que dá o seu consentimento para a cirurgia, mas não para que o clínico retire o colar de missangas que traz debaixo do umbigo, procedimento sem o qual a cirurgia não poderá ser feita.
Aos incidentes causados por erros nos procedimentos ou os dramas de quem tem que tomar decisões, somam-se intromissões de profissionais de outros campos (quando tanto!). Hospital (Contar Clinicando) recorda-nos também episódios, que não são inéditos, de impostores, como o do Dr. Sharif Khan, o cirurgião do Hospital Distrital de Karói, ou de Altos-Comissários que se vão encarregando de lembrar que “todos os porcos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.
Ao franquear as portas de acesso ao mundo mítico da profissão médica, com os seus desafios, dramas e dilemas, este Contar Clinicando de Aldino Muianga faz-se também o lugar aonde desembocam outros dramas, os que circulam pelos becos e labirintos de uma sociedade de homens e mulheres que, entre encontros e desencontros, se buscam a si próprios e buscam também a recomposição dos sonhos que a adversidade desmanchou.
Aos corredores do hospital, ao gabinete do clínico ou à sala de operações, efectivamente, o que chega é o drama pessoal da menina que “vivia dias e noites de pesadelos”, apesar da “sua formosura [que] entontencia os magalas e remetia-os a disputas de favores e atenções”, atormentada pela impossibilidade de uma convivência normal por causa dos quelóides que lhe deformam os lóbulos das orelhas. É também “à busca do milagre que restituiria a tranquilidade à família e traria novas perspectivas à vida do filho” que os pais do menino Porfírio, que, por causa das pernas varas, tinha frequentes episódios de depressão, era vítima de abusos dos colegas, que o alcunhavam de “Gorila”, incapaz de uma sã interacção com os menino seus pares na escola e na rua, decidem viajar da cidade da Beira até ao Hospital Provincial de Chinoyi, no Zimbabwe, após tomarem conhecimento das habilidades do ortopedista Dr. Nicolay “o Vitorioso”.
A infertilidade, tema amiúde retratado na literatura (e não só) moçambicana, muitas vezes com a factura a fazer recair o seu peso sobre a mulher, tem também a sua desembocadura neste Hospital. É o que acontece com Ana Brígida, cujo caso chegará ao hospital na sequência das voltas e reviravoltas que dá, depois de um dia ela ter saído acabrunhada e frustrada no cortejo que a devolve à casa dos pais para ser tratada contra a sua incapacidade de gerar filhos, dois anos depois da sua recepção com “ululações festivas” ao lar conjugal.
Numa prosa fluida, a um tempo apimentada e açucarada, rebuscando uma raridade vocabular, um sugestivo adjectivo, uma ironia a convocar o cómico – não o da gargalhada a bandeiras despregadas, mas o que chama um ligeiro sorriso –, Aldino Muianga traz-nos a vasta temática da falsidade nas relações pessoais e sociais. “Um caso de vaginismo” chega ao hospital, atraindo os estarrecidos olhares dos mirones. Aliás, já o vinha fazendo, desde o cubículo alugado no Zimpeto, onde o Pastor Gumende, “estimado e admirado [na sua congregação] pelas suas alocuções no púlpito, onde mobiliza os crentes para o alinhamento e persistência nos cultos e práticas da Fé cristã”, pratica as suas sessões de meditação transcendental, bem como ao longo de todo o itinerário da improvisada ambulância de caixa aberta em direcção aos Serviços de Urgência. Com este caso chega a temática da hipocrisia e da falsidade. Chegam também a traição e o adultério, “confessados” pela imprudência de um delírio pós-operatório, induzido, talvez, por algum anestésico; “denunciados” por um insólito caso de gémeos que nascem como uma disparidade de raças, sendo um negro e o outro “com marcados sinais de mestiçagem”. Na mesma esteira, um intricado caso de multifacetadas e cruzadas traições, chegará, em “Priapismo”, à Clínica Privada de Mutare, com o senhor Milton Gwanyanya, “um bon vivant que se não coibia em exibir as posses e o prestígio que detinha”.
Maputo, 5 de Julho de 2024
Durante o primeiro semestre de 2024, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) diz que registou pelo menos 15 raptos, porém, poucos foram esclarecidos. À margem do Economic briefing, Agostinho Vuma, presidente da CTA, mostrou-se insatisfeito com o nível de resposta aos raptos.
“Registamos, com profunda preocupação, que desde o surgimento deste fenómeno no ano de 2011, houve um cumulativo de mais de 250 casos de raptos e sequestros, maioritariamente, para empresários e os seus parentes, dos quais poucos foram esclarecidos”, disse Agostinho Vuma.
Sobre a exportação de capitais do presidente da CTA diz que não se tem mostrado uma saída viável, visto que, “a maioria das vítimas, apesar da sua origem asiática, são moçambicanos de gema, portanto, sem opções, nem interesse em abdicar da sua nacionalidade ou mesmo dos seus investimentos no país”.
Devido a situação de raptos, segundo avançou, o CTA tem desenvolvido, junto com o Governo, acções de advocacia, “, juntando todas as associações empresariais com interesse directo nesta matéria, o que resultou na produção de uma série de propostas de solução para erradicar este grande mal no seio da nossa sociedade”.
Das soluções propostas, o presidente do CTA destacou a imperiosidade do reforço de medidas estratégicas e do sistema de Segurança Nacional, aliado ao reforço de medidas táticas e operativas, particularmente, unidades especiais das Forças de Defesa e Segurança.
De referir que, na manhã de hoje, o SERNIC apresentou uma quadrilha, encabeçada pela ex-sogra de Nini Satar que estaria por trás dos raptos, na mesma operação, duas vítimas foram resgatadas e voltaram ao convívio familiar.
O antigo bastonário da Ordem dos Advogados, Gilberto Correia, diz que o ministro do Interior, Pascoal Ronda, foi infeliz ao desafiar a Comunidade Islâmica a apresentar provas de que há governantes envolvidos nos raptos. Correia entende que deve haver vontade política para acabar com o crime.
O antigo bastonário da Ordem dos Advogados começou por explicar que os pronunciamentos do ministro do Interior, Pascoal Ronda, desvalorizam a preocupação de um grupo que se sente inseguro com o agravamento dos raptos sem quaisquer esclarecimentos.
“Para mim, foram declarações muito infelizes de um político que tem responsabilidades na área de investigação e protecção de crimes, sobretudo os graves, e, de alguma forma, ele tenta desvalorizar algo que devia ser levado a sério, à semelhança de muitas outras percepções que, depois, foram confirmadas”, disse Gilberto Correia, defendendo que Pascoal Ronda não devia orientar a Comunidade Islâmica a apresentar provas de que há governantes envolvidos nos raptos, mas sim garantir segurança e esclarecer os casos havidos.
“Para situações desta natureza, os cidadãos não têm de apresentar provas, mas sim a sua percepção sobre o que se está a passar. O ministro devia ter dito que valoriza e que irá abrir uma investigação para averiguar se há envolvimento de governantes moçambicanos no crime de raptos. Porém, o senhor ministro sabe que há pessoas que têm essas provas, mas que têm medo, porque não confiam na polícia que ele dirige.”
Para Gilberto Correia, não restam dúvidas de que o aumento dos raptos se deve à falta de vontade política.
“Houve situações em que era possível trazer tecnologia de fora, chamar a cooperação internacional. Sentiu-se que o Governo não quis, não facilitou, porque, provavelmente, há conflitos internos e que podem levar a descobertas que colocam em causa todo o poder político. O poder político tem de decidir de uma vez por todas que combater os raptos, com todos os meios ao seu alcance, é uma prioridade do Estado moçambicano.”
O antigo bastonário da Ordem dos Advogados sugere que se busque, igualmente, ajuda externa para combater os raptos.