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O RESGATE DA ESPERANÇA

A esfera pública em Moçambique viveu momentos de especulação e muita tensão à volta do processo de sucessão na FRELIMO. A história encarregar-se-à de apresentar-nos dados sobre a veracidade ou não da propalada hipótese do terceiro mandato. O tempo passava e a medida que nos aproximavamos do periodo de apresentação de candidaturas a presidente da República na Comissão Nacional de Eleições fortalecia-se a hipótese de que o actual incumbente da ponta vermelha pretendia dirigir o processo de sucessão. Em 2013 o processo também fora dirigido pelo então incumbente da ponta vermelha, mas com contornos diferentes, uma vez que o Comité Central impôs a abertura de mais candidaturas. Foi assim que Aires Ali, Luísa Diogo e Eduardo Mulembwé apresentaram as pré-candidaturas sendo que o último retirou a sua candidatura.

Ora, o processo de transição que culminou com a eleição do Daniel Francisco Chapo como candidato da FRELIMO às eleições presidenciais de 9 de Outubro próximo foi conduzido sob o príncípio “você não tem que se querer. Nós é que temos que querer que você queira”. Há nesta acepção uma idéia muito bem estruturada politicamente de que os processos de eleição interna devem ser conduzidos sob a direcção e vontade de um grupo – a Comissão Política. É este grupo que determina a vontade do membro que é apresentado como candidato e que, paralelamente, a inculca na mente dos mais de 4 milhões de membros. Os membros do partido aparecem somente como simples legitimadores da vontade do grupo. Pode-se concluir que a Comissão Política chamou a si e somente a sí a autoridade para escolher os pré-candidatos.

A alteração feita ao número 2, alínea e) do artigo 72 dos Estatutos da FRELIMO no 12º Congresso é o pilar forte do princípio “você não tem que se querer. Nós é que temos que querer que você queira”. Levanto até a hipótese de ter sido o fio condutor para a alteração feita ao princípio de eleição dos Presidentes dos Conselhos Municipais e Governadores Provinciais.

O processo de apresentação da lista de pré-candidatos foi inteligentemente dirigida pelo Presidente do Partido. Não se lhe pode nem deve retirar o mérito. De forma hábilidosa dirigiu o processo por exclusão daqueles que nunca foram sua opção para (pré) candidato(s). A sua estratégia consistiu na apresentação à Comissão Política dos nomes que nunca foram sua opção qpara que fossem liminarmente recusados por esta.

A opção do Presidente do Partido e consequentemente do Comissão Política foi a Lista apresentada na sexta-feira com três nomes, nomeadamente do Secretário – Geral, Roque Silva Samuel, Damião José e Daniel Fracisco Chapo. Apreciada a lista e todos os actos subsequentes ficou evidente até para o mais incauto cidadão quem era o candidato. E, isso o tempo comprovou quando o Damião José retitou a candidatura para não se confrontar com o seu superior hierárquico.

Durante o processo o Comité Central entendia que havia espaço para a submissão de mais candidaturas. Como referimos, de forma muito hábil e metódica o Presidente não permitiu que “os nomes dos que se queriam” fossem adicionados a lista uma vez que “eles não deviam se querer”. A lista foram adicionados dois Membros da Comissão Política, nomedamente a Presidente da Assembleia da República Esperança Bias e o Conselheiro do Presidente da República, Francisco Mucanheia.

Foi a lista de 4 que foi escrutinada e os membros do Comité Central de forma inteligente e astuta elegeram Daniel Francisco Chapo como candidato da FRELIMO as eleições presidenciais de 9 de Outubro. Fora eleito um candidato oriundo da geração que a FRELIMO revolucionária no encerramento do 3º Congresso, em 1977 cunhou “Continuadores”. Oito anos depois, precisamente a 25 de Outubro de 1985 o Presidente Samora Machel criou a “Continuadores da Revolução” da qual faz parte a geração do Daniel Chapo.

No processo de construção do Estado moçambicano tinha sido definido como determinante para o seu sucesso a criação do Homem Novo. Esta preocupação da FRELIMO foi muito bem colocada no sistema nacional de educação tendo permitido que as crianças e adolescentes da época fossem sujeitos a um processo de educação política, cívica e pátriotica feita na escola primária.

As circuntâncias politicas fizeram com que o Comité Central elege-se um “Continuador da Revulação”. A Eleição de Daniel Chapo ocorre num contexto que o país vive inúmeros desafios e onde a liderança é chamada a restaurar a esperança dos jovens, fortalecer e devolver credibilidade as instituições, consolidar a transparência na gestão da coisa pública e com responsanbilidade ousar na apresentação de políticas e medidas económicas e fiscais que atraiam investimento e investidores para Moçambique. É preciso colocar Moçambique a várias velocidades com zonas francas e/ou económicas especiais integradas que propiciem desenvolvimento endogéno e sustentável.

Um líder tem a capacidade de mobilizar uma nação, mesmo na sua diversidade ideológica, a engajar-se no projecto de restauração da esperança. Esse é sem dúvidas um dos grandes desafios que se colocam ao Daniel Chapo. A ele também se colocam duas escolhas, nomeadamente liderar ou chefiar esta nação. A escolha que tomar determinará o nosso futuro.

Tenho argumentado que nenhum líder ousará gerar transformação numa Nação sem empreender mudanças radicais na sua organização. Tal significa que colocam-se também desafios de transformação na FRELIMO. A conjuntura e a história de processos recentes demonstram que há necessidade de empreender reformas que terão implicações também na forma de gerir o Estado. Há questões sobre as quais se deve reflectir profundamente. Não disssertarei sobre elas neste artigo. Os tempos mudaram! A sociedade mudou imenso! Há um risco enorme de ser forçado a mudar com todas as consequências nefastas para a organização, desse cenário. A FRELIMO deve jazer jus ao seu slogan de Força da Mudança, engendrando mudanças profundas na sua organização e consequentemente na gestão do Estado.

Telvez seja altura de dar a César o que é de César reconhecendo que o Coronel Sérgio Vieira foi sempre razoável propondo um clube dos fundadores da FRELIMO com um estatuto especial no qual as novas lideranças se aconselhariam. Não é altura da tão propalada mas não materializada transição geracional ocorrer? Há gente que acumulou tanta experiência na gestão do Partido e do Estado que devia emprestar essa experiência como conselheiros. A opoprtunidade de reforma esta aí.

No fecho do Comité Central o Presidente Filipe Nyusi afirmou que se encerrava o longo capítulo da especulação sobre o terceiro mandato. Esperamos que se tenha aberto um novo ciclo acompanhado de profundas reformas que mobilize a esperança dos moçambicanos. O filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento Niccolò di Bernardo dei Machiavelli afirmou que o primeiro método para avaliar a inteligência de um governante é observar a qualidade dos homens que ele tem ao seu redor. A conclusão de Machiavelli é forte. No entanto, este não observou que ter homens de qualidade ao redor de um governante não era condição de uma boa governação. A boa governanção e o sucesso da liderança dependem da predisposição do governante e do líder a ouvir e ponderar sobre os conselhos e pareceres que a sua equipa de suporte apresentam bem como outros actores sociais.

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