O País – A verdade como notícia

O eco do abandono: a luta silenciosa de Raci e o silêncio de quem deveria ouvir

Na periferia esquecida do bairro Salela, nos subúrbios de Inhambane, vive Raci. Aos 73 anos, o peso da vida já lhe vergou as costas, mas não a vontade de lutar. O que resta de força no seu corpo magro sustenta uma rotina impensável para alguém da sua idade. Raci vive sozinha numa casa de zinco corroído, onde o vento atravessa as paredes como que a lembrar-lhe que está exposta, tal como a sua vida.

Até dois anos atrás, Raci recebia o que o Estado chamava de “subsídio social”. Pequeno, quase insignificante, mas suficiente para que ela comprasse farinha e sal e, com sorte, um punhado de feijão. Era pouco, mas representava um fio de dignidade. Até que, sem aviso, esse fio foi cortado.

Com o desaparecimento do subsídio, Raci foi obrigada a encontrar força onde já não existia. Trabalhar tornou-se uma questão de sobrevivência. Com as mãos calejadas e os joelhos castigados pela idade, ela começou a cultivar terrenos alheios em troca de algumas moedas ou de um punhado de milho. Acorda antes do nascer do sol e caminha pelos becos poeirentos à procura de quem precise de mão-de-obra. A fome não lhe dá outra escolha.

“Eu só queria descansar”, confessa, com lágrimas a correr pelas rugas do rosto. “Mas, se não trabalho, não como. E quem mais se importa comigo?”

O eco da sua pergunta é uma acusação directa ao Estado, que deveria protegê-la. O silêncio em resposta é ensurdecedor.

Raci não é um caso isolado. Nos subúrbios e nas aldeias esquecidas de Moçambique, milhares de idosos, crianças órfãs e pessoas com deficiência vivem situações semelhantes. Quando o subsídio social desapareceu, não foi apenas o dinheiro que se perdeu. Perdeu-se a dignidade, a esperança e a confiança num sistema que prometia não deixar ninguém para trás.

No bairro Salela, as histórias de sofrimento são compartilhadas como lamentos em coro. “Já não somos gente para eles”, diz uma vizinha de Raci, também vítima do corte no subsídio. As palavras simples carregam uma verdade cruel: o Estado abandonou os seus mais frágeis.

O Instituto Nacional de Acção Social (INAS) justificou-se com questões administrativas, mas que explicação administrativa pode aliviar a fome? Que burocracia justifica a morte lenta de quem não tem forças para lutar contra o abandono?

A Constituição de Moçambique proclama o direito de todos a uma vida digna. No papel, somos uma nação de solidariedade, porém a realidade é feita de vazios. O vazio no prato de Raci, no olhar de quem perdeu tudo, e no compromisso de um Governo que se esqueceu da sua gente.

É impossível não reflectir sobre o que nos tornámos. Como sociedade, aceitamos o sofrimento dos outros como um cenário de fundo, uma normalidade cruel que já não nos comove, mas histórias como a de Raci não podem ser apenas um ponto final. Elas exigem acção.

Ao cair da noite, Raci recolhe-se na sua casa. Uma lamparina ilumina o espaço precário enquanto mastiga o pouco que conseguiu juntar no dia. A fome ainda a acompanha, mas é o abandono que lhe pesa mais. E amanhã, quando o sol nascer, ela voltará à procura de trabalho, com um corpo que clama por descanso e um coração que já não sabe se vale a pena esperar por dias melhores.

Esta é a história de Raci, mas também é a história de um país que precisa urgentemente de olhar para dentro e ouvir o eco do abandono que grita nos subúrbios e nas aldeias. Até quando seremos surdos a este clamor? Quantas vidas mais terão de ser sacrificadas no altar da indiferença antes que façamos algo?

Raci sobrevive, mas o custo da sua resistência é uma acusação directa a todos nós, porque o abandono de Raci não é apenas dela – é nosso. E, enquanto ignorarmos isso, continuaremos a falhar como nação.

Partilhe

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos