Moçambique poderá enfrentar crises recorrentes no abastecimento de combustíveis devido aos desequilíbrios do mercado e à dependência das importações, alerta Júlio Saramala. O economista defende que o Governo identifique as causas e adopte medidas preventivas para reduzir os impactos sobre transportadores, empresas e consumidores.
Em entrevista ao País Económico, Saramala considera que as dificuldades resultam da combinação de factores externos e internos, entre os quais a subida dos preços internacionais do petróleo, as condições de financiamento das importações, a disponibilidade de divisas e os constrangimentos logísticos na distribuição.
“Eu não diria que é uma crise provocada ou uma crise real. Eu diria que é uma crise que tem tido consequências e acções muito mais reactivas, olha-se muito mais para aquilo que são as consequências, mas não para as possíveis causas”, afirmou, defendendo uma mudança na forma como as autoridades enfrentam as perturbações no abastecimento.
Na sua análise, a guerra no Médio Oriente e a subida das cotações pressionam o mercado, mas não explicam, isoladamente, todas as dificuldades. A forma de importação, os encargos financeiros e a distribuição também condicionam a disponibilidade e o preço dos combustíveis.
A vulnerabilidade do país é agravada pela dependência do combustível importado. Segundo os dados apresentados na entrevista, o barril de petróleo Brent passou de cerca de 63 dólares em Janeiro para aproximadamente 104 dólares em Outubro deste ano.
“Temos uma forte dependência das próprias importações, isto quer dizer que qualquer oscilação no mercado internacional o país pode sofrer alguma oscilação no seu preço. Depois, há uma grande necessidade dos operadores desta indústria recorrerem à banca para poder ter certos financiamentos ou até importação, seja cartas de crédito, que geralmente é um crédito, moeda estrangeira e, por fim, acaba caindo para o consumidor final”, explicou.
Os custos de aquisição e distribuição repercutem-se no transporte de passageiros, na circulação de mercadorias e nos preços de bens e serviços. Como o impacto varia entre operadores, as medidas devem considerar as diferenças do sector.
SUBSÍDIOS DEVEM CHEGAR A QUEM MAIS PRECISA
Perante as reivindicações dos transportadores e a discussão sobre possíveis aumentos das tarifas, Saramala defende que o debate não deve ficar circunscrito à diferença entre os valores propostos pelos operadores e os considerados pelo Governo. É necessário avaliar as causas, os custos e o impacto sobre cada actividade.
“A questão não é de cinco ou de 20 meticais, é de perceber, primeiro, quais são as causas, qual é o impacto que se espera e se amanhã a situação reverter-se, é pouco provável, porque os preços têm uma tipologia sempre progressiva e não muito regressiva”, afirmou.
Para o economista, subsídios generalizados podem beneficiar agentes que não enfrentam as mesmas dificuldades dos transportadores públicos. Defende, por isso, apoios diferenciados, dirigidos aos segmentos que mais precisam.
“Esses subsídios não devem ser de uma forma genérica, devem ser de acordo com a tipologia de trabalho, com o impacto da crise, assumindo todo o custo de transporte”, sustentou.
Saramala sublinha que o combustível representa apenas uma parte das despesas das empresas de transporte e logística. Outros custos operacionais também podem aumentar, pelo que um subsídio ao combustível não garante, necessariamente, a sustentabilidade financeira dos operadores. Transportes urbanos, serviços interprovinciais e empresas de mercadorias devem ser avaliados de forma diferenciada, tendo em conta a dimensão das operações e o peso dos combustíveis nos custos.
DESEQUILÍBRIOS PODEM MANTER AS CRISES
A aproximação da época festiva e da estação chuvosa acrescenta incertezas, num contexto de dependência externa e pressão sobre os custos de transporte. Para Saramala, as perturbações podem manifestar-se tanto através da falta física de combustível como de interrupções nos diferentes pontos da cadeia de abastecimento.
“Agora, a crise, infelizmente, pode ser uma realidade e pode tender a acontecer, porque, assim como também manter o preço cria essa crise de falta de abastecimento. Ou seja, as crises irão acontecer porque o mercado está desnivelado”, alertou.
A curto prazo, algumas dificuldades poderão ser difíceis de evitar, dada a exposição às oscilações internacionais e ausência de produção interna que reduza a dependência. Uma gestão eficiente e maior capacidade de antecipação podem, contudo, minimizar os impactos.
“São crises que, a curto prazo, serão inevitáveis, seja por aumento ou pela estagnação do preço, como podemos estar a ver agora, que tem acontecido quase periodicamente”, afirmou.
Saramala defende uma estratégia que combine acompanhamento dos preços internacionais, financiamento das importações, distribuição eficiente e apoios direccionados. Sem prevenção, Moçambique continuará exposto a perturbações que comprometem o transporte e agravam o custo de vida.