O Governo prevê que o fenómeno El Niño tenha efeitos severos na campanha agrária 2026-2027, podendo colocar em risco a produção agrícola e a segurança alimentar de 1.277.000 produtores moçambicanos. Para responder à situação, foi elaborado um programa de mitigação orçado em 94,7 milhões de dólares norte-americanos, destinados a apoiar os produtores das zonas consideradas de maior risco.
A informação foi avançada pelo ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, durante uma sessão da Assembleia da República, na qual apresentou o Programa de Mitigação dos Efeitos do Fenómeno El Niño na Agricultura, para a campanha agrária 2026-2027.
Segundo o governante, as previsões climáticas sazonais apontam para uma elevada probabilidade de ocorrência do fenómeno, historicamente associado, em Moçambique, à redução da precipitação, à distribuição irregular das chuvas e a períodos prolongados de seca e estiagem.
Salim Valá alertou que este cenário poderá comprometer a disponibilidade de água para as culturas e pastagens, afectar a sementeira e a produção agrícola, bem como o efectivo pecuário e a aquacultura, agravando a insegurança alimentar, sobretudo entre as famílias mais vulneráveis.
As províncias de Maputo, Gaza e Inhambane, no Sul, e Tete, Manica, Sofala e Zambézia, no Centro do país, são apontadas como as regiões que poderão sofrer com maior severidade os efeitos do fenómeno, devido à exposição aos défices de precipitação e às fragilidades estruturais da produção agrária.
O ministro recordou que a experiência do El Niño de 2015-2016 demonstrou que a ausência de respostas atempadas pode resultar em perdas significativas de produção e no agravamento das necessidades humanitárias nos meses seguintes à colheita.
No âmbito do programa, o Governo prevê apoiar directamente 203.850 produtores agrícolas, através da distribuição de insumos e kits agrícolas, enquanto 90.524 criadores de gado deverão beneficiar de assistência, abrangendo cerca de 1,5 milhão de animais.
Na componente agrícola, está prevista a distribuição de 185.500 kits, destinados a uma área estimada de 93.750 hectares. O programa contempla ainda a aquisição de sementes de milho, arroz e feijão, material de plantação de batata-doce e mandioca, fertilizantes e sacos herméticos para a conservação da produção.
Para reduzir a dependência das chuvas, serão igualmente adquiridos cerca de 740 kits de irrigação, destinados a 74 distritos afectados pela seca. A medida deverá permitir a continuidade da produção durante a época seca e contribuir para a recuperação das áreas afectadas pela estiagem.
Na área da pecuária, está prevista a distribuição de feno e a realização de campanhas de suplementação alimentar e assistência veterinária, com o objectivo de reduzir entre 30 e 35 por cento a taxa de mortalidade dos animais.
Salim Valá explicou que o programa será implementado durante a campanha agrária 2026-2027, devendo os insumos chegar aos beneficiários antes do início das sementeiras. A execução deverá envolver instituições nacionais e organizações internacionais, sob coordenação do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas.
O governante referiu ainda que o programa de mitigação agrícola integra o Plano Anual de Contingência 2026-2027, aprovado pelo Governo a 3 de Novembro, orçado em 39,8 mil milhões de meticais, equivalente a cerca de 623 milhões de dólares, e que prevê apoiar 2,2 milhões de pessoas afectadas por diferentes riscos.