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Fotojornalismo em livro: Imagens captadas por Carlos Uqueio contam o país

Foi lançado esta quarta-feira, na cidade de Maputo, o livro “Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem”, da autoria do fotojornalista Carlos Uqueio. A obra, que compila dezoito anos de trajectória profissional, apresenta-se como um testemunho visual e escrito sobre a realidade moçambicana, propondo uma leitura crítica sobre o papel da imagem no jornalismo contemporâneo.

O evento decorreu num ambiente marcado por expectativa e simbolismo, onde flashes de câmeras se cruzavam com olhares atentos de convidados, jornalistas e amantes da fotografia. Mais do que um simples acto de lançamento, a cerimónia transformou-se num espaço de reflexão colectiva sobre a memória, a narrativa visual e a responsabilidade social do fotojornalismo. 

As páginas da obra revelam histórias captadas em diferentes contextos, muitas vezes em cenários de tensão, vulnerabilidade e esperança, compondo um mosaico que procura retratar o país para além das aparências imediatas.

Na sua intervenção, Carlos Uqueio destacou que o livro representa muito mais do que um produto editorial. “Hoje não apresento apenas um livro, apresento 18 anos de estrada, de silêncio, de risco e de compromisso com a realidade. Repórter de sombras e esperança nasce do terreno, nasce das ruas, dos bairros, dos momentos em que a vida acontece sem aviso e sem encenação”, afirmou. 

O autor sublinhou ainda a importância de contextualizar a imagem jornalística, defendendo que “o livro cruza a fotografia escrita para oferecer não só olhar, mas também o contexto”, o que, segundo explicou, “transforma-o num registro mais completo da nossa realidade”.

Ao longo das páginas, o leitor é conduzido por diferentes cenários que ilustram o quotidiano moçambicano, desde momentos de crise até expressões de resiliência social. Para o autor, o objectivo não se limita à documentação, mas estende-se à provocação de pensamento crítico e à valorização do papel do fotojornalismo na construção da consciência pública.

Durante a apresentação, Carlos Uqueio reforçou esta perspectiva ao afirmar: “A vossa presença reforça a ideia de que o fotojornalismo continua a ser fundamental para o desenvolvimento do nosso país. Mais do que um lançamento, espero que este seja um momento de reflexão sobre o papel da fotografia na sociedade. 

Se este livro conseguir provocar este debate, então já terá cumprido o seu propósito.” A declaração evidencia a intenção do autor de posicionar a obra como um instrumento de diálogo social, capaz de estimular diferentes leituras sobre a realidade nacional.

O prefácio do livro é assinado pelo antigo Primeiro-Ministro, Carlos Agostinho do Rosário, que na ocasião destacou a profundidade interpretativa das imagens reunidas. “Essas imagens captam não apenas o visível, mas o sentido das coisas. Não apenas o visível, mas o sentido das coisas. O que está por detrás. O que muitas vezes não é dito, mas é sentido”, afirmou. 

Na sua leitura, a obra de Uqueio transcende o registo imediato e alcança dimensões mais densas da experiência humana.

Prosseguindo, Carlos Agostinho do Rosário sublinhou o valor do tempo e da atenção na apreciação do livro, numa época marcada pela rapidez informativa, “nos tempos que correm, em que tudo é rápido, este livro exige o contrário. Exige tempo, exige atenção, exige consciência. E isso tem valor, porque o que vemos aqui no seu livro não é um produto do acaso, é ele próprio. É resultado de disciplina, muito foco, muito trabalho, elevado profissionalismo, dedicação, humildade, sobretudo. Humildade. Para aprender e para ensinar. E, sobretudo, sentido de missão.” 

A intervenção reforça a ideia de que o trabalho do fotojornalista assenta em princípios éticos e num compromisso contínuo com a verdade.

A cerimónia foi igualmente marcada por palavras de reconhecimento à ousadia e relevância da iniciativa. O secretário-geral do Sindicato Nacional de Jornalistas, Faruco Sadique, considerou que a publicação representa um contributo significativo para a valorização do jornalismo no país. “Cabe então a nova missão de registar e divulgar essas histórias ímpares, sempre à sombra de um jornalismo sério e responsável, comprometido com os princípios éticos e ideológicos da profissão”, afirmou.

Na mesma ocasião, Faruco Sadique enalteceu a capacidade do autor em transformar a experiência acumulada em narrativa estruturada: “Parabéns, pois, Carlos Uqueio, por, no seu estilo característico, ter sabido e, diria mesmo, ousado, tirar partido dessa gratificante oportunidade de contar, em livro, as histórias das suas próprias vivências e experiências de dentro e de fora do país.” 

A declaração destaca não apenas o mérito individual do autor, mas também a importância de registar e partilhar experiências jornalísticas em formatos duradouros.

Ao reunir dezoito anos de trabalho, Carlos Uqueio constrói uma narrativa que atravessa diferentes fases do país, oferecendo ao público uma perspectiva singular sobre acontecimentos e vivências que marcaram a sociedade moçambicana.

Entre momentos de dor, resistência e esperança, as imagens reunidas no livro assumem-se como documentos históricos e, simultaneamente, como instrumentos de reflexão.

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