O País – A verdade como notícia

A dívida pública interna agravou-se, de acordo com dados do Banco de Moçambique. O endividamento público interno, excluindo os contratos de mútuo e de locação e as responsabilidades em mora, situa-se em 301,3 mil milhões de Meticais, o que representa um aumento de 9,4%, o correspondente a 26,1 mil milhões, em relação a Dezembro de 2022.

O Banco Central não avança com dados sobre a dívida no seu todo (incluindo a dívida externa) nem revela o rácio da dívida em relação ao Produto Interno Bruto. Entretanto, a dívida do país continua insustentável, segundo informações mais recentes sobre a situação financeira do Estado.

Ainda hoje, o Comité de Política Monetária (CPMO) do Banco de Moçambique decidiu manter a taxa de juro de política monetária, taxa MIMO, em 17,25%. “Esta decisão é sustentada pela manutenção das perspectivas de uma inflação de um dígito, no médio prazo, não obstante a materialização e agravamento de alguns riscos associados às projecções de inflação, com destaque para a ocorrência de desastres naturais e o aumento da pressão sobre a despesa pública”, lê-se no comunicado do Banco Central.

A autoridade monetária diz que os riscos e incertezas subjacentes às projecções de inflação agravaram-se. A nível interno, destacam-se as incertezas em relação aos impactos dos recentes choques climáticos sobre os preços de bens e serviços, no curto prazo, assim como ao aumento da pressão sobre a despesa pública. Na envolvente externa, destacam-se as incertezas relativamente aos efeitos da volatilidade nos mercados financeiros globais e do prolongamento do conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

 

INFLAÇÃO DE UM DÍGITO A MÉDIO PRAZO

Perspectiva-se, de acordo com o Banco de Moçambique, uma inflação de um dígito no médio prazo. Em Fevereiro de 2023, a inflação anual acelerou de 9,78% para 10,30%, a reflectir, sobretudo, o incremento dos preços dos bens alimentares em face da ocorrência de choques climáticos, e o aumento dos preços dos bens e serviços administrados. Entretanto, a inflação subjacente, que exclui as frutas e vegetais e bens administrados, manteve-se estável. Para o médio prazo, mantêm-se as perspectivas de inflação de um dígito, decorrente do impacto das medidas tomadas pelo CPMO, da estabilidade cambial e da tendência de redução dos preços das mercadorias no mercado internacional.

O supervisor do sistema financeiro antevê um crescimento económico mais moderado para 2023.Estas perspectivas reflectem, sobretudo, a prevalência de condições financeiras globais mais restritivas, resultando numa menor expansão da actividade económica global e consequente redução dos preços internacionais das mercadorias de exportação”, disse o Governado do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela.

Excluindo os projectos energéticos em curso na Bacia do Rovuma, prevê-se um crescimento do PIB mais lento, devido, essencialmente, ao impacto dos recentes choques climáticos sobre a produção agrícola e diversas infra-estruturas.

Flávio Augusto, empreendedor e bilionário brasileiro, defende, em Grande Entrevista, que um país que tem jovens empreendedores é um país que cresce, porque quem produz para a sociedade é o empreendedor. Na sua opinião, o Estado tem que ser um tutor dos negócios e deixar que a sociedade, de forma livre e facilitada, realize negócios. Por outro lado, o fundador da Wise Educação deu lições de venda e encorajou potenciais empreendedores a saírem do lugar-comum para terem resultados diferentes e de sucesso. “Se você faz o que todo o mundo faz, terá os mesmos resultados que os outros têm”, vaticina o também docente universitário.

 

Quando decide ser empresário? Quando iniciou essa carreira empreendedora, tinha noção de onde queria chegar?

Eu tinha intenção de ser e não tinha noção de onde chegaria. Isso é muito típico de cada empreendedor, porque nem sempre você tem a visão completa, mas tem alguma visão. E a visão que você tem é a que é suficiente para você caminhar. Vai subindo alguns degraus e, à medida que isso acontece, você vai ampliando a sua visão e, à medida que você amplia a sua visão, você tem a opção de continuar a avançar em direcção àquela visão ou, simplesmente, parar e desfrutar daquilo que já conquistou. Estou já há 28 anos avançando e desfrutando ao mesmo tempo.

 

Podemos dizer que Flávio Augusto tem um bom faro nos negócios, olhando para o seu percurso de vida, a história da Wise Up Online? É um homem essencialmente de negócios?

É o que a gente busca ter. A gente não acerta todos os dias, mas acerta a maioria até hoje. Temos prosseguido avançando e expandindo para novas oportunidades.

 

Qual é a formação para isso?

Penso que a formação para esse avanço é a formação da vida e não uma formação académica. Infelizmente, dentro da academia a gente não aprende essas habilidades. Eu, até dentro da academia, contribuo como professor de alguns MBA (mestrados em gestão de negócios) e pós-graduação dentro do Brasil, onde a gente procura dar essa visão mais prática. Mas eu penso que a formação no campo de batalha é a formação que é necessária para esse avanço.

 

Costuma-se dizer que a sorte é uma deusa altiva, que não perde tempo com quem não está preparado. A facilidade e a naturalidade com que faz negócios é fruto de uma análise profunda ou de uma pesquisa para tomar decisões, estando claro dos riscos que possam estar associados?

O risco é inerente a qualquer negócio. O risco faz parte. Mas existe uma relação directa entre o risco e o retorno. Ou seja, para você ter o maior retorno você vai ter o maior risco envolvido. Eu digo isso até do ponto de vista filosófico. A metáfora que eu gosto de dar é a do pássaro fora da gaiola. O pássaro, dentro da gaiola, não tem liberdade, mas, de certa forma, a gaiola protege-o de predadores. A gaiola, de certa maneira, oferece alguma protecção, mas aquilo lhe tira a liberdade. Mas, para você ter liberdade, tem que sair da gaiola. Ora, fora da gaiola você tem mais riscos.

 

Isso para dizer que Flávio Augusto sempre preferiu estar fora da gaiola?

Sempre fui um pássaro fora da gaiola. Nunca abri mão de estar fora da gaiola. Eu penso que o risco de estar fora da gaiola, na verdade, é muito menor do que a frustração que a gaiola traz pela perda da liberdade. Há uma outra coisa. Eu penso também que a protecção dentro da gaiola é um pouco ilusória. Até a suposta segurança oferecida dentro da gaiola é questionável e, se nós trouxermos isso para a vida, há carreiras, há modelos de vida, de emprego e de trabalho que oferecem uma suposta segurança. O empreendedorismo é a actividade para quem queira estar fora da gaiola. No final das contas, o que de facto representa maior risco? A frustração de você não ter realizado o seu sonho em troca de uma suposta segurança dentro da gaiola ou o próprio risco de você estar voando do lado de fora?

 

Todos os governos têm uma máquina, o aparelho do Estado, e precisam de ter gente lá para pôr essa máquina a funcionar. Como é que estes indivíduos podem empreender dentro da função pública?

É possível empreender sendo um empregado público, mas não espere retorno financeiro. Você pode empreender, pode contribuir para o turismo, por generosidade, por mero patriotismo ou por desejo de ter uma contribuição pública. Acredito que existam pessoas que tenham um desejo sincero de contribuir.

 

Na sua visão é estar na zona de conforto ou estar na gaiola?

Penso que para quem queira resultados maiores, na minha visão, é absolutamente legítimo você querer ganhar mais. Você quer enriquecer, ter mais retorno para oferecer uma vida melhor à sua família e até para ajudar outras pessoas. É preciso ser altruísta, porque eu não conheço, em nenhum lugar do mundo, alguém que enriqueceu honestamente sendo servidor público. Ser um servidor público, empreender e contribuir com o país mesmo não tendo retorno financeiro está tudo certo. Essa pessoa vai ser feliz. Para quem queira mais da vida, para quem queira enriquecer, o empreendedorismo é o caminho.

 

Voltando para a sua veia empreendedora, como é que identifica as oportunidades de negócio?

Não planeie ser empreendedor. Tudo começou na minha vida quando eu me apaixonei por uma menina de 15 anos e eu tinha 18 anos. E aí a gente vê o que é que uma mulher faz na vida de um homem, porque foi a primeira vez em que eu pensei que precisava de ganhar dinheiro. Comecei a vender, tive uma actividade natural para vender relógios. Foi a primeira vez em que eu vendi um relógio e ganhei dinheiro. Depois, comecei a trabalhar vendendo curso de inglês. Arrumei um emprego num curso de inglês. E aprender a vender deu-me um sentimento de que eu poderia ganhar o que eu quisesse. Eu poderia progredir financeiramente, então melhorei bastante vendendo. Fui gerente de vendas, fui director de vendas, trabalhei como alto executivo de uma empresa de inglês e gostei desse resultado.

 

Em termos concretos, foi a partir dos 18 anos que a palavra “venda” passou a estar no topo da lista da sua vida…

De facto, aos 18 anos eu conheci as vendas. Dos meus 19 aos 23, vendi profissionalmente. Só que a venda me trouxe uma visão maior e uma ambição maior e aí o empreendedorismo entrou como uma nova ferramenta que a venda me proporcionou. O empreendedorismo deu-me muita coisa, muitas oportunidades. Por isso, sou defensor do empreendedorismo. Penso, inclusive, que um país que tem jovens empreendedores é um país que cresce, porque quem produz para a sociedade é o empresário. O empresário é que gera emprego e não o político nem o Estado. O Estado tem que ser um tutor dos negócios. Ele pode ser um fomentador dos negócios, mas quanto mais livre é a sociedade para realizar negócios mais próspera ela se torna. Os indivíduos sentem-se mais empoderados para realizarem negócios a construir negócios. O mundo em que nós vivemos é o resultado do empreendedor.

 

E que habilidades ou competências são necessárias para se ser um bom empreendedor de sucesso?

O empreendedor é um inconformado. É alguém que quer transformar a realidade e, acima de tudo, transformar a sua própria realidade. O desejo individual de crescimento – o desejo do indivíduo – é a origem de tudo. Alguns chamam isso de egoísmo. Ora, não podemos confundir individualidade com individualismo. Segundo, ele tem de ter uma visão que passa por solucionar problemas. Eu venho de um país em desenvolvimento, o Brasil, cheio de problemas e quanto mais problemas um país tiver mais oportunidades tem. A solução de um problema tem um valor. Terceiro, é preciso ter coragem. O empreendedor precisa de coragem para investir. Se você tiver uma boa ideia, uma boa visão, mas se não tiver coragem, a sua ideia fica presa dentro da gaveta. Quarto, precisa de competência. Precisa saber de fazer, vender, operar e contratar.

 

E veio a Moçambique mesmo para partilhar esse conhecimento. São praticamente quase 30 anos como empreendedor e domina esta componente de venda. Ao subir ao palco do fórum Makagui partilhou com os moçambicanos esse conhecimento que tem nesta matéria e sentiu-se uma adrenalina muito positiva. Pessoalmente, como é que se sentiu nessa proximidade com os moçambicanos?

Eu amo compartilhar o que aprendi, porque isso transformou a minha vida. Faço isso há 12 anos na internet. Falo todos os meses com cerca de 20 milhões de pessoas na internet, compartilhando conhecimento. Gosto de fazer isso e, cada vez que subo ao palco para poder dar uma aula, seja “online” ou pessoalmente, tenho um prazer muito grande. Mas falando especificamente sobre Moçambique já há alguns anos eu tenho um público muito grande deste país, que me acompanha nas redes sociais, e a interacção sempre foi muito boa. Quando conheci Daniel David, há cerca de um ano, a nossa interacção sempre foi muito positiva, o que acabou redundando numa parceria de negócios muito importante. Vir pessoalmente a Moçambique foi muito importante para materializar essa minha percepção sobre este país, por sinal, muito jovem. Um país em que eu percebo muita fome, muita vontade de aprender e desenvolver-se. Fui recebido com muito carinho e foi bom cá estar pessoalmente e ver esse calor humano que Moçambique tem. Surpreendeu-me o facto de ver muita gente querendo fazer negócios e querendo construir empresas. Penso que existe um futuro muito promissor aqui neste país.

 

A sua imagem catapultou-se em Moçambique com a chegada da Wise Up Online. Essa parceria Makagui e Wise Educação tornou mais conhecido o Flávio Augusto em Moçambique. Vir a Moçambique foi parte da estratégia de marketing também deste produto?

Penso que quanto mais nos aproximamos do público final fortalecemos a relação e acaba-se tornando um ingrediente forte para catapultar ainda mais os nossos negócios neste país. Aprender inglês promove o desenvolvimento pessoal e amplia oportunidades pessoais. Não tenho nenhuma dúvida de que, assim como no Brasil, onde temos hoje centenas de milhares de alunos, aqui em Moçambique, onde também já temos alguns milhares de alunos, as pessoas vão melhorar muito de vida aprendendo a falar inglês.

 

Já definiu aqui o perfil de um bom vendedor. O que deve ser a essência da estratégia do marketing de um negócio, tomando como exemplo os seus negócios?

Todas as nossas estratégias de marketing buscam apresentar as características dos nossos produtos sempre com muita transparência. E tudo começa com o planeamento ao posicionamento que a gente tem em relação a cada produto. Sempre posicionamos cada produto desenvolvendo-o com muita qualidade, com uma comunicação muito clara e de um nível muito bom e com uma forma de pagamento muito acessível. Costumo dizer que nós temos um produto de classe A, que embalamos de maneira acessível para a classe B, mas cria uma maneira de pagamento facilitado para gente de classe C que possa ter acesso.

 

Flávio Augusto é um homem de mão na massa, é um homem de acção que, apesar de ser um bilionário, não pára. Está sempre a descobrir novos negócios e também está muito presente nos negócios que tem. Olhando para esta característica e para o facto de Flávio Augusto dizer que não trabalha pelo dinheiro, mas sim por ser um homem que busca a prosperidade. Pode descodificar esta mensagem de prosperidade?

Muitas pessoas me perguntam porque é que eu ainda trabalho tanto. Mas fazem-me essa pergunta sempre com o tom de surpresa, porque elas supõem que eu não preciso de trabalhar do ponto de vista financeiro. Ou seja, eu não dependo de um salário ou de ganhar algum dinheiro para viver, por supostamente eu já ter ganhado muito dinheiro. Elas estão certas. Já faz mais de 20 anos que não preciso mais de trabalhar do ponto de vista financeiro. Mas é um engano muito grande alguém supor que a única razão pela qual alguém trabalha é pagar as suas contas. Essa não é a única razão. A gente sabe que grande parte da humanidade depende de um salário para sobreviver. Não é o meu caso, pelo menos nos últimos 20 anos. Eu preciso de trabalhar porque preciso de ter significado. Eu preciso de me sentir útil, porque eu gosto de me sentir assim. É parte da minha missão de vida impactar pessoas. Eu preciso disso. Geralmente, pessoas que estranham isso, ou é porque desconhecem a outra forma de vida, o que é muito compreensível, ou porque não gostam de trabalhar.

 

Disse aos moçambicanos que gosta de abraçar projectos sociais, mas quando se trata de investir é para ganhar dinheiro?

Eu faço muitos projectos sociais e estou muito envolvido nisso. Quando eu faço negócios, tem que haver lucro. O lucro é belo e moral. É por causa do lucro que a gente gera emprego. É por causa do lucro que eu pago impostos e o Estado pode pagar as suas contas com os impostos que eu contribuo. É por causa do lucro que a sociedade se desenvolve.

 

Recordo-me de que iniciou a sua intervenção no fórum Makagui, na interacção com os moçambicanos, sublinhando o quanto é importante ter referências. Ao longo da sua carreira, quais foram as suas maiores referências?

A referência é mesmo muito importante. A primeira experiência de referência que eu tive foi quando estudei em escolas públicas no Brasil e quando a minha mãe deu todo o salário que tinha para eu me preparar para um concurso numa escola privada. Quando entrei na escola privada, percebi que o nível de ensino era muito elevado que as escolas públicas do Brasil e, com esta mudança, eu senti-me muito abaixo do nível dos outros alunos. Percebi que devia melhorar e ter contacto com outros alunos que tinham melhor nível educacional. Tinha que me dedicar mais, estudar mais. Levei três anos para poder competir de igual para igual com os outros alunos. Mas antes disso, na escola pública, eu era um dos melhores alunos, mas quando entrei na escola privada era um dos piores. Percebi que devia correr mais para evoluir. Estava prestes a ser contratado numa empresa em 1991. O treinamento foi feito por uma mulher. Ela tinha 26 anos e eu tinha dezanove. Achei incrível a forma como ela falava, a segurança que tinha, a influência que ela tinha sobre um grupo de 40 pessoas e eu percebi que estava muito atrás.

 

Esta necessidade de correr quando se tem referências acima das suas é que lhe faz concluir que “o melhor não é ser melhor mas estar entre os melhores”?

Certíssimo. O lugar onde você está conta muito. Quando você está num ambiente em que você é o melhor, muito provavelmente, está no lugar errado. A gente deve buscar sempre um ambiente em que existam pessoas melhores que nós e não há nenhum problema em fazer comparações. Todas as vezes em que a gente vê que está abaixo, há duas alternativas: a primeira, é não nos sentirmos vítimas da sociedade, pensar que não conseguimos. A segunda hipótese é observar que estou abaixo mas não se vitimizar, olhar para o nível dessas pessoas e correr até alcançar. Nasci numa família pobre. Gastava cinco horas por dia dentro de ónibus lotado de passageiros. Tive que correr muito para tirar essa diferença social. Contudo, as referências devem servir de estímulo para a nossa evolução.

 

Lembro que, no fórum Makagui, Flávio Augusto enfatizou muito a importância de não se viver na insegurança e buscar algo sempre maior que possa acrescentar valor à intelectualidade de cada indivíduo. Mas usou uma expressão que diz que: “a segurança é como uma armadilha para os nossos sonhos”. Isso diz muito da personalidade de Flávio Augusto. Quais foram os maiores desafios que teve como empreendedor e como é que foi superando, tendo como força motriz essa ideia de que “no mesmo ponto não posso ficar”?

O maior desafio de um jovem que está iniciando a sua vida é tomar o seu próprio caminho fora da linha de montagem da sociedade. De forma geral, existe um senso comum na sociedade. Sem dúvida alguma, a educação é muito fundamental na sociedade. No entanto, a gente segue um caminho, que passa pelo ensino fundamental, médio, universidade e depois disso, supostamente, vamos a um emprego e, no final da vida, você recebe uma aposentadoria. Na minha opinião, essa é a maior armadilha e o maior perigo. O grande desafio é você entender que esse não é o único caminho, ou seja, o único caminho para um jovem não é conseguir a vida numa empresa até se aposentar. Até pode ser um bom caminho, algo que realiza muita pessoas, mas não é o único caminho. Alguém pode seguir um caminho, ser bem-sucedido sendo atleta, artista plástico, ou seja, existem muitos outros caminhos. Hoje, a internet, por exemplo, é uma das áreas que mais forma milionários no mundo. Temos jovens com milhões de seguidores e ganhando milhões de dólares em várias plataformas. Ou seja, não existe apenas o caminho convencional e, para mim, um dos maiores desafios é um jovem ter a coragem de sair deste caminho convencional, quando certamente for criticado ou, em alguns casos, for chamado de louco. Sair de um lugar-comum é um desafio muito grande, principalmente no início de uma caminhada. Vamos voltar: quando tinha 23 anos, tive que interromper a faculdade de ciências da computação numa universidade federal do Brasil para vender o curso de inglês. Depois desta decisão, fui muito criticado. Pessoas achavam que tudo fosse uma loucura, até mesmo na família. Todas as vezes em que você sair do curso convencional, que a maioria das pessoas segue, você será tomado como louco. Indo pela lógica, se você faz o que todo o mundo faz, terá os mesmos resultados que os outros têm. No meu caso, os resultados que todos tinham naquela altura já não me agradavam. Queria algo melhor, algo grande e, por isso, se eu quero ter algo diferente, preciso de fazer algo diferente dos outros. Quando um jovem sai desta linha comum da sociedade e começa a ter sucesso, o primeiro reconhecimento vem de fora e nunca de dentro. As pessoas mais próximas são as últimas a reconhecer, mas isso não é por mal. Os nossos pais, os nossos parentes, querem o nosso bem. Então, qualquer movimento que pareça arriscado tomam uma atitude reactiva e protectora. No entanto, nós também temos das pessoas mais próximas aquelas que invejam. Quando as pessoas mais próximas percebem que você começa a evoluir, elas até gostam, mas não gostam que evolua mais que elas.

 

Voltando a esta questão de desafios. Tendo alcançado a prosperidade muito cedo, em que momento se sentiu desafiado e como é que lidou com a situação?

Depois dos desafios iniciais, tudo começa a dar certo e a gente começa a ter o reconhecimento de várias pessoas. Fiz o meu primeiro milhão com 23 anos de idade, e aí começa um segundo desafio de ter que administrar a riqueza que está produzindo e manter a sanidade mental. Há pessoas que, quando começam a ganhar muito dinheiro, enlouquecem. Já vimos casos de muitos jogadores de futebol que não estavam preparados para o recurso que chegou às suas mãos. Manter a humildade é muito fundamental quando começamos a ter sucesso e não transformar isso em algo negativo. Mas algumas pessoas têm medo do sucesso com alguma razão, pois o sucesso pode embriagar algumas pessoas. Eu completei 30 anos de casado no ano passado com a minha primeira namorada. Isso te protege para que mantenha a sua sanidade, independentemente da sua conta bancária.

 

Na plataforma de vendas da Wise Up, a formação e vendas é uma componente-chave. Flávio Augusto tem a disciplina de se manter presente nesta plataforma. Explique-nos melhor como é que funciona, qual é a estratégia de negócio assente nesta ferramenta de desenvolvimento de competências para a venda?

Formação de pessoas é fundamental e formação de vendedores, mais ainda! Todas as quartas-feiras eu dou uma aula ao vivo para todos os vendedores que estão no mundo inteiro conectados com ela. Nós temos vendedores em vários países do mundo. Nós estamos sempre em busca de novos talentos.

 

Os ganhos monetários são um bom incentivo para fazer parte da equipa?

Com certeza. Uma característica em vendas é que quem é bom tem que ganhar bem. Então, nós temos integrantes da nossa plataforma ganhando 40 mil dólares por mês, 30 mil ou mesmo 10.

 

Como especialista, tem habilidade de ser bom olheiro de pessoas com potencial de alta performance para a venda?

A metodologia para identificar talentos tem menos a ver com a minha capacidade de olhar, de observar e tem muito a ver com a minha capacidade de treinar e dar a oportunidade de a pessoa mostrar. É muito mais um processo de tentativa e erro do que escolha. Na verdade, todos têm potencial, cabe a cada um mostrar e quando mostrar temos que ter os mecanismos para reconhecer.

 

Quais são as grandes barreiras para a venda?

Primeiro é o preconceito. A sociedade treina as pessoas para ter um emprego para, no final do mês, ganhar um salário. Tudo na vida é uma rosa linda cheia de espinhos. A medicina é linda, mas tem espinhos também. Não tem como um médico fazer uma cirurgia e não sujar com sangue. Assim, tudo volta para o preconceito. As pessoas acham que vender é feio, não é glamouroso, mas, no final, toda a empresa que não vende quebra-se.

 

E vender, hoje, é sinónimo de usar a tecnologia para alcançar muitos mercados. Esta ferramenta quebra um aspecto essencial da venda, que é de proximidade de relacionamento. Que equilíbrio é que se pode criar entre a tecnologia e a necessidade de desenvolvimento de relacionamento interpessoal?

A tecnologia alcança mais pessoas e ela acaba sendo uma ferramenta para atrair novos clientes, mas, no final das contas, a presença de um vendedor vai ser sempre importante para garantir os resultados e a escalabilidade.

 

Também se pode dizer que a tecnologia, hoje, está intrinsecamente ligada à inovação e impulsiona esta mesma inovação?

Com certeza, é muito importante perceber que a tecnologia não está somente ligada à tecnologia de informação ou aquilo que está nos nossos aparelhos, nossos celulares. Existem muitos tipos de tecnologia. Por exemplo, uma técnica de venda, uma forma de converter mais interessados em cliente é uma tecnologia. O somatório da tecnologia humana e das redes sociais, por exemplo, é muito poderoso para vender. Usamos todo e qualquer tipo de tecnologia na Wise Up Online para vender mais!

 

Gostaria de falar de forma muito breve sobre as suas obras, começando por “Ponto de inflexão”. Nesta obra, Flávio Augusto traz a ideia de que a vida é feita de escolhas e cada decisão que tomamos pode levar-nos a um ponto de inflexão, num momento crucial em que o rumo da nossa vida pode mudar de forma significativa. Qual foi o seu ponto de inflexão?

Este livro conta dez momentos de inflexão da minha vida que tive que tomar decisões que mudaram o rumo da minha vida. A gente toma decisões todos os dias, mas às vezes existem decisões que são definitivas e é importante perceber quais são essas decisões.

 

Flávio Augusto também destaca a importância de se encontrar a nossa paixão e propósito de vida, de construir a mentalidade empreendedora, mesmo que não sejamos necessariamente empreendedores no sentido tradicional. Como é que isto acontece?

Eu acredito muito na liberdade de escolha, até mesmo na questão de definição de propósitos, eu acredito que nós escolhemos os nossos propósitos. Eu, por exemplo, tenho duas coisas que escolhi para a minha vida: aproveitar a vida com as pessoas que eu amo e impactar as pessoas.

 

Tem um livro com este foco de identificar o propósito ou vivendo com propósito. Na verdade, a questão que muitos jovens se colocam quando ouvem essa expressão é “como fazer”?

Nós nascemos com algumas pistas no nosso interior. São vocações, dons, coisas que fazem a gente chorar, mas que são pistas de não fazer por si só escolhas que somente nós podemos fazer. Em poucas palavras, é a escolha que conta para o nosso sucesso.

O banco UBS comprou o Credit Suisse, seu maior concorrente na Suíça, por três mil milhões de francos suíços, equivalentes a 3,23 mil milhões de dólares. O negócio foi fechado este domingo, segundo escreve a Bloomberg.

Um negócio fechado ao preço menos esperado. Até à última sexta-feira, segundo a Bloomberg, o banco Credit Suisse podia ter sido vendido a 7,4 mil milhões de dólares. Entretanto, no último domingo, o banco UBS comprou a quase metade do preço.

É que, à medida que aumentavam as preocupações sobre a saúde financeira do banco, os clientes do Credit Suisse retiraram das suas contas mais de 100 mil milhões de dólares em activos, nos últimos três meses do ano passado.

No presente ano, a retirada de dinheiro continuava. A transação inclui extensas garantias do Governo suíço. O preço por acção caiu em cerca de 99% face ao pico do Credit Suisse em 2007, segundo cálculos da Bloomberg.

O negócio foi apressado, para conter os danos envolvendo a crise de confiança com potencial de se espalhar por todo o mercado financeiro mundial. No início, o banco UBS pretendia comprar o Credit Suisse por cerca de mil milhões de dólares.

Um dia após o anúncio, as acções do Credit Suisse caíram 60% e a do UBS chegaram a cair 16% na manhã desta segunda-feira.

O Federal Reserve – Fed, o banco central dos EUA e o Departamento do Tesouro americano saudaram o acordo, assim como o Banco Central Europeu.

Segundo escreve O Globo, em conferência de imprensa, o presidente do Banco Nacional da Suíça, Thomas Jordan, afirmou que “era indispensável que agíssemos rapidamente e encontrássemos uma solução o mais rápido possível”.

Recentemente, o banco central suíço tentou conter a retirada de investimentos no Credit Suisse com apoio de liquidez, que suspendeu temporariamente a fuga de capitais. No entanto, o drama do mercado continuava arriscado.

Segundo o Banco Central Europeu, a “acção rápida” tomada pelas autoridades suíças “são fundamentais para restaurar as condições de mercado e garantir a estabilidade financeira”, disse a presidente do BCE, Christine Lagarde, em comunicado citado pelo O Globo.

“O sector bancário da área do euro é resiliente, com fortes posições de capital e liquidez”, disse Lagarde, para depois acrescentar que o BCE “está totalmente equipado para fornecer suporte de liquidez ao sistema financeiro da zona do euro, se necessário, e para preservar a transmissão suave de política”.

Importa lembrar que, em Outubro de 2021, o Credit Suisse se viu mergulhado no “caso dívidas ocultas” em Moçambique. Como consequência, os EUA e o Reino Unido impuseram multas ao banco no valor de 475 milhões de dólares.

O Credit Suisse estava envolvido em subornos a seus funcionários avaliados em 50 milhões de dólares em troca de melhores condições em quase 1,3 mil milhões de dólares em empréstimos concedidos ao Estado moçambicano entre 2012 e 2016.

Os empréstimos serviriam para financiar projectos de vigilância marítima, pesca e estaleiros, mas foram parcialmente desviados para pagamento de subornos.

Otília Pelembe é a grande vencedora da primeira edição do concurso “Elas No Negócio”, inserido no programa Mais Mulher, uma iniciativa da Fundação Soico (FUNDASO).

A grande vencedora foi anunciada ontem, domingo, depois de sete episódios, durante os quais 10 mulheres de diferentes áreas do empreendedorismo, seleccionadas pela FUNDASO e TechnoServe e colocadas em formação, eram desafiadas a aplicar, a cada semana, as técnicas aprendidas, nos seus negócios.

Quem melhor se destacasse passava para a fase seguinte, mas quem não conseguia ficava pelo caminho.

Foi neste grupo que Otília Pelembe conseguiu destacar-se. A cada semana mostrava ao júri o seu desempenho e a capacidade que tinha de aplicar, no seu negócio, tudo o que aprendia na formação.

A proprietária de uma ferragem, com diverso tipo de material de construção, saiu do programa com o prémio de 100 mil Meticais, mas, segundo disse, o maior prémio foi a aprendizagem.

“Quando cheguei aqui, não sabia nada, só fazia negócio apenas, mas, quando as aulas começaram, fui vendo que tinha que melhorar muita coisa na minha ferragem e na relação com os clientes para poder melhorar. E é o que fiz, sempre que aprendesse algo novo, ia implementar, deu certo e vou continuar a aplicar tudo que aprendi”, celebrou a grande vencedora.

Conforme disse, o seu negócio é feito, normalmente, por homens, mas conseguiu quebrar o preconceito e, hoje, depois do programa, é espelho para muitas mulheres e a solução para o problema dos clientes.

Com os 100 mil Meticais, Otília Pelembe diz que vai aumentar o stock dos produtos e melhorar ainda mais o espaço onde trabalha.

À grande final, chegaram outras duas mulheres: Adélia Arão em segundo lugar e Luísa Faquene em terceiro.

“Não esperava que fosse chegar até aqui, saio daqui com 30 mil Meticais, mas este dinheiro não é nada ao pé do que aprendi. Sei que, com todo o conhecimento, vou multiplicar muito mais este dinheiro, pois aprendi como arrumar a minha mercadoria, como fazer as promoções, como dedicar-me e estar em frente ao cliente”, exaltou a vencedora do segundo lugar, Adélia Arão, vendedeira de artigos plásticos.

Luísa Faquene, proprietária de salão de beleza, participante mais nova, com 22 anos de idade, ficou em terceiro lugar e disse que o programa a ajudou a perceber que o género e a idade há muito que deixaram de ser barreiras.

A missão de seleccionar as que melhor implementavam o que era ensinado era do júri, com experiência na área do empreendedorismo. Diana Marques, Iva Nhaca e José Samu Gudo dizem que a tarefa não foi fácil, pois a cada programa as participantes se mostravam mais profissionais, o que dificultava o processo de selecção.

Ter um concurso apenas com mulheres foi propositado, segundo Deyzes Pereira da Techno Serve, parceira da FUNDASO.

“As mulheres foram o passado, são o presente e o futuro; elas têm um papel muito grande e a ideia desta rubrica foi de inspirar cada vez mais mulheres a entrarem para o empreendedorismo, a adoptarem as técnicas certas de negócio, para com isso elas conseguirem alcançar uma melhor receita de negócios e para que a sociedade mude a forma como vê as mulheres e o seu potencial”, referiu.

A iniciativa é da FUNDASO, que olha para trás e vê que o objectivo foi alcançado e do programa saíram bons frutos, por isso, para o futuro há novidades, conforme revelou Patrício Manjate, director-executivo da fundação.

“Existe toda abertura do lado da fundação para que este programa possa continuar; hoje fizemos com a TechnoServe, mas amanhã temos total vontade de nos juntarmos a qualquer parceiro que acredita no papel da mulher na sociedade e que acredita no contributo que esta mulher pode ter nas diversas áreas.”

Apenas três chegaram à final, mas todas outras continuaram com a formação até ao fim.

A TotalEnergies não exportará o Gás Natural Liquefeito (GNL) de Moçambique antes do ano 2027, no mínimo, pois considera que se deve reiniciar um projecto interrompido há dois anos por uma insurgência ligada a ataques terroristas.

A gigante francesa da energia declarou força maior – uma pausa legal num contrato devido a eventos imprevistos – em Abril de 2021, depois que rebeldes ligados ao Estado Islâmico invadiram uma vila-sede próxima, matando dezenas de pessoas. A retoma do projecto de 20 mil milhões de dólares é vista como crucial para o futuro económico de Moçambique e ganhou maior significado global depois que a invasão russa da Ucrânia obrigou as nações europeias a buscar fontes alternativas de combustível.

“A partir do momento em que reiniciarmos a produção, precisamos de mais quatro anos para construir a instalação”, disse Stephane Le Galles, director de projectos da TotalEnergies, durante uma visita ao local no nordeste de Moçambique, na semana passada. Isso significa que as exportações de gás natural liquefeito só começariam em “2027, na melhor das hipóteses”, acrescentou, citado pela Bloomberg.

Desde o ataque a Palma – a vila distrital mais próxima do local do projecto — o Governo moçambicano pediu ajuda militar ao Ruanda e à Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para conter a insurgência. A situação de segurança melhorou, especialmente ao longo da faixa costeira, no extremo norte, onde o projecto está localizado.

Para a TotalEnergies suspender a força maior, há quatro ou cinco condições que precisam de ser atendidas, de acordo Le Galles, das quais se destacam a necessidade de funcionários do Governo retornarem às regiões vizinhas de Palma e Mocímboa da Praia; a manutenção do custo do projecto “como era antes”; condições de segurança melhoradas; e uma avaliação positiva das condições dos direitos humanos na província.

É impossível dizer quando essas condições serão atendidas, de acordo com Le Galles, que considera que o progresso está em uma “boa direcção”. Em Fevereiro, o CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanne, visitou o projecto e nomeou um especialista em direitos humanos, Jean-Christophe Rufin, para avaliar a situação na província de Cabo Delgado, antes de decidir sobre qualquer reinício.

Rufin esteve um mês em Moçambique a falar com o Governo, comunidades e agências de fomento, e está em fase final de elaboração de um relatório, de acordo com Laila Chilemba, vice-presidente para o desenvolvimento socioeconómico da unidade de Moçambique da TotalEnergies. O relatório deve ficar pronto nos “próximos dias”, garantiu a responsável à Bloomberg.

 

SUBEMPREITEIRO ANUNCIOU RETOMA DO PROJECTO DA TOTALENERGIES EM JULHO

No fim de Fevereiro, a empresa italiana de engenharia Saipem anunciou que a construção da fábrica de liquefacção de gás da TotalEnergies em Cabo Delgado deverá ser retomada em Julho.

“Esperamos reiniciar gradualmente o projecto, de acordo com informações recebidas do nosso cliente, a partir de Julho deste ano”, disse o director-executivo da Saipem, Alessandro Puliti, citado pelo portal especializado do sector petrolífero Upstream.

Alessandro Puliti falava durante uma intervenção na Internet (“webcast”) realizada, recentemente, para apresentar a analistas os resultados do quarto trimestre de 2022.

A Saipem lidera o consórcio CCS, que também inclui a japonesa Chiyoda e McDermott dos Estados Unidos da América, responsável pela construção de duas linhas de liquefacção de gás com capacidade combinada de 13 milhões de toneladas por ano (mtpa) em Afungi.

A construção do complexo industrial foi suspensa em 2021 pela petrolífera francesa TotalEnregies, após um ataque à vizinha vila de Palma, na sequência da insurgência armada que atinge Cabo Delgado desde 2017.

O empreendimento tido como o maior investimento privado em aberto no continente africano, orçado em 20 mil milhões de euros, inclui linhas de captação de gás a grande profundidade, na Bacia do Rovuma, 40 quilómetros ao largo, liquefacção e cais de exportação para cargueiros especiais.

Nele está ancorada boa parte das perspectivas de crescimento da economia moçambicana, bem como de pagamento da sua dívida soberana.

A província de Cabo Delgado enfrenta há cinco anos uma insurgência armada com alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

A insurgência levou a uma resposta militar desde Julho de 2021 com apoio do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), libertando distritos junto aos projectos de gás, mas surgiram novas vagas de ataques a sul da região e na vizinha província de Nampula.

O conflito já fez um milhão de deslocados, de acordo com o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e cerca de 4000 mortes, segundo o projecto de registo de conflitos ACLED.

Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa anunciou, na passada sexta-feira, 10 de Março, que foram seleccionados, através de concurso, dois consórcios internacionais para continuarem na corrida e tornarem-se parceiros estratégicos do projecto de energia, de acordo com o portal Furtherafrica.

São eles a ETC Holdings, ZESCO Limited, CECOT (uma subsidiária da Mota-Engil) e a PetroSA (uma subsidiária do Fundo Central de Energia, África do Sul), e o grupo Électricité de France (EDF), Total Energies e Sumitomo Corporation.

O processo de concurso internacional para seleccionar um parceiro estratégico para associar-se à Electricidade de Moçambique (EDM) e à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) começou no ano passado e envolveu sete consórcios.

O concurso conta com o apoio do Banco Mundial, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), da Corporação Financeira Internacional (IFC) e da Southern African Power Pool (SAPP), sendo que agora vai passar para a fase de avaliação das propostas, em conformidade com a Lei de Parcerias Público-Privadas (PPP) de Moçambique.

“A avaliação será feita por um comité presidido pelo Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) e constituído pela EDM, HCB, Ministérios da Economia e Finanças, da Terra e Ambiente, do Trabalho, Emprego e Segurança Social e do Banco de Moçambique (BdM)”, explicou o sítio  na sua publicação desta semana.

A selecção final basear-se-á nos critérios de capacidade técnica, solidez financeira e experiência internacional, especificamente no desenvolvimento de projectos hidroeléctricos e, para além destes requisitos, os proponentes terão de contratar uma garantia financeira de concurso no montante de 10 milhões de dólares.

A central hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa de 1500MW é um projecto avaliado em cerca de 4,5 mil milhões de dólares e está localizado na província de Tete, no Centro do país.

Moçambique é um dos seis países com mais desigualdades no continente africano, conclui o mais recente relatório do Banco Mundial, publicado na última sexta-feira. Por isso, a instituição financeira internacional sugere que o país troque o seu modelo de crescimento e aposte mais nos serviços.

Os níveis de pobreza em Moçambique continuam altos. Em 1996, cerca de 96% da população era pobre, uma cifra que, em 2015, mudou para 65%. E, actualmente, a agricultura emprega, no país, cerca de 70% da população, mas há um problema: a produtividade é fraca, daí que o nível de inclusão é muito baixo.

“É difícil, se não impossível, promover o desenvolvimento inclusivo sem aumentar ou melhorar a produtividade no sector agrícola”, referiu Fiseha Haile, economista do Banco Mundial.

Em termos de criação de emprego, o país está muito longe de satisfazer a procura. Por exemplo, a indústria de carvão e alumínio, que dão 70% de receitas ao Estado de exportações, contribuem com apenas 0,3% na criação de empregos, segundo aponta o relatório.

“Actualmente, a economia moçambicana cria quase 25 mil empregos no sector formal, mas a demanda de emprego é muito alta. O número de pessoas que entram no mercado laboral em Moçambique, a cada ano, é de 500 mil. Então, a diferença entre a oferta de emprego e a procura é muito grande”, avançou Fiseha Haile, durante a apresentação do documento.

Estes dados constam do relatório do Banco Mundial sobre a actualidade económica de Moçambique. O documento apresentado, sexta-feira, em Maputo, aponta ainda que é preciso reduzir as desigualdades entre as pessoas em Moçambique.

“O crescimento forte naquelas décadas não ajudou muito em termos de redução das desigualdades de rendimentos. Moçambique é um dos seis países com mais desigualdade em África, daí a necessidade em promover o desenvolvimento em sectores não extractivos e acelerar o processo de transformação económica e de criação de emprego. Um dos desafios que Moçambique enfrenta é a dualidade. A estrutura económica mostra que a agricultura emprega quase 70% da população, mas o nível de produtividade é muito baixo em comparação com o potencial que o país tem, mas também em comparação com outros países da região”, aponta o documento produzido pelo Banco Mundial.

Para ser um país de rendimento médio até 2043, conforme prevê a Estratégia Nacional de Desenvolvimento, Moçambique teria de crescer em média 12% ao ano, por quase 20 anos, segundo o Banco Mundial. “Então, seria difícil alcançar esse objectivo sem alavancar outros sectores”, disse Haile. Para reverter o cenário, o Banco Mundial sugere que o país aposte no sector dos serviços, por fornecer diversas oportunidades.

“Os serviços privados representam 45% do crescimento do emprego que aconteceu nas últimas duas décadas. Então, serviços privados e públicos representam 57% do crescimento do emprego, o que indica o potencial que o sector tem. Os serviços são também o maior factor para o crescimento da produtividade. Quase 65% do crescimento da produtividade de 2007 a 2018 foi devido a empresas de serviços. O sector dos serviços tem mais ligações com outros, em comparação com o de infra-estruturas. Para cada emprego criado pela manufactura, são criados 13 empregos no sector dos serviços”, referiu o economista do Banco Mundial.

Como não basta identificar problemas, o Banco Mundial sugere algumas reformas. “Regulamentos laborais são alguns dos desafios que as empresas dos serviços enfrentam em Moçambique. A lei de 2007 define quotas específicas para a contratação de trabalhadores estrangeiros, uma quota que é muito restritiva. Moçambique precisa de usar mais trabalhadores estrangeiros. Grandes empresas não podem ter mais de 5% da sua força de trabalho composta por estrangeiro. É preciso abrir mais. Por outro lado, a taxa de juro do país é das mais altas da região e, assim, é difícil acelerar o crescimento económico e a criação de empregos”, disse o economista do Banco Mundial.

Presente no lançamento do relatório, o ministro da Economia e Finanças disse acolher a proposta da instituição, sem se esquecer dos outros sectores. Entretanto, a vice-presidente do Banco Mundial para África diz que é preciso apostar na formação do capital humano, para que os resultados comecem a surgir.

O Banco Mundial prevê um crescimento da economia nacional de 5% este ano e de 8,3% em 2024, impulsionado pela indústria de hidrocarbonetos.

 

FUNDO DE GARANTIAS TERÁ FINANCIAMENTO DO BANCO MUNDIAL

O Conselho de Administração do Banco Mundial poderá aprovar, no dia 30 de Março, uma linha de financiamento de 300 milhões de dólares para o Fundo de Garantias Mutuárias, criado pelo Governo. Prevê-se ainda a aprovação de 85 milhões de dólares para o financiamento de pequenas e médias empresas.

Com base em experiências de outros países, semelhantes a Moçambique, o Governo criou, recentemente, o Fundo de Garantias Mutuárias para apoiar as pequenas e médias empresas. Neste momento, o Executivo está a mobilizar recursos para o fundo e tem como principal parceiro o Banco Mundial.

“Houve uma missão que esteve em Maputo há cerca de três semanas, foi concluída. Financiámos documentos iniciais para permitir a aprovação por parte do banco e esperamos que, no dia 30 de Março, o Conselho de Administração possa aprovar uma linha de 300 milhões de dólares americanos, que contemplam a componente para o Fundo de Garantias Mutuárias e cerca de 85 milhões de dólares para uma linha de crédito de financiamento de pequenas e médias empresas”, explicou Max Tonela, ministro da Economia e Finanças.

O Executivo já está em negociações com a banca para definir as empresas que serão financiadas pelo fundo.

“Estamos a discutir toda a mecânica e todo o quadro do relatório com os bancos. Estamos a trabalhar com o Banco de Moçambique na sua revisão e na definição do perfil de empresas a eleger, montantes a estabelecer e a conjugar a proposta de estabelecimento do fundo de garantias e a conjugar a proposta de estabelecimento com linhas de crédito, sobretudo de pequenas e médias dimensões.”

O objectivo é reduzir o custo de financiamento na economia e os riscos associados aos empréstimos que têm sido barreiras para o acesso ao financiamento.

O ministro da Economia e Finanças falava, na última sexta-feira, no evento de lançamento do relatório do Banco Mundial sobre a actualidade económica de Moçambique.

 

O Banco Mundial diz que só vai apoiar a exploração de gás natural em Moçambique se esta fizer parte de um “plano maior” de transição energética. Aliás, a vice-presidente para África Austral e Oriental, Victória Kwakwa, entende ser a fonte mais indicada para a transição mundialmente

O mundo lida, agora, com a crise ambiental provocada, em grande medida, pela utilização de energias fósseis, ou seja, sujas, como, por exemplo, o carvão, o petróleo, gasolina e outros. Solução? Reduzir para zero o seu uso até 2050. Isso implica a substituição das fontes por outras mais limpas como água, ar e sol.

O Banco Mundial tem estado a reduzir também o apoio a investimentos para energias não-limpas. O gás natural também não é limpa. Porém, o gás de Moçambique “pode jogar um papel importante para a transição global”.

Moçambique começou a explorar o gás natural liquefeito no ano passado, com a exportação do GNL para a Grande Britânia, através da British Petroleum (BP), num contrato prefeito com o Consórcio da Área 4 da Bacia do Rovuma.

Kwaka citou isso como exemplo da importância para a transição global. “Vemos que a maior parte do gás de Moçambique está a ser exportado para a Europa, então aquele continente está a beneficiar-se do gás moçambicano e afasta a Europa de voltar às fontes de energia menos limpas, num momento em que a invasão russa à Ucrânia causou problemas consideráveis na segurança energética e suplemento da mesma”.

Moçambique precisa de apoio financeiro para participar neste negócio. E o Banco Mundial não se fecha a prestar o apoio, mas há condições que devem existir para que tal aconteça. “Podemos apoiar se não houver outras opções com custos baixos e se for no contexto de um plano de transição claramente articulado”, esclareceu Victória Kwakwa, que esteve em Moçambique de visita a diferentes locais e que manteve diferentes encontros com várias individualidades, incluindo o Presidente da República.

Falando numa entrevista concedida ao “O País”, Victória Kwakwa foi peremptória e disse-o várias vezes, “sim, a exploração de gás pode contribuir para o crescimento, mas vocês precisam de outros sectores para serem parte do crescimento para prover taxas de crescimento mais altas e que sejam inclusivas”.

Por inclusão, Kwakwa diz que se deve entender o uso das receitas do gás para impulsionar outras áreas. Ou seja, “deve ser gerido de maneira que facilite a diversificação do resto da economia, o que inclui a agricultura e o aumento da produtividade; o turismo é outro sector por se dar atenção e os serviços são outra área. Então, é possível e tu encontras outros países que usaram recursos naturais para fazer diversificação do resto da economia”, disse.

Sem histórico expressivo de produção de café para fins comerciais, Moçambique faz parte do acordo trilateral entre Brasil e Portugal, que tem o país como beneficiário. Intitulado “Produção Sustentável de Café no Parque Nacional da Gorongosa e Sistema Agroflorestal Integrado no Contexto da Desflorestação, Alterações Climáticas e Segurança Alimentar”, o projecto prevê, entre outros objectivos, a formação de agricultores moçambicanos.

“A vida mudou muito, muito mesmo. Agora consigo alimentar a minha família. Antes do projecto, estava sem trabalho e era muito difícil comprar alimentos e vestuário. Foi uma mudança muito positiva”, o testemunho é do produtor moçambicano Eugideo Alberto Braga, morador do Parque Nacional da Gorongosa, sobre o projecto desenvolvido por pesquisadores brasileiros e portugueses, falando para a Conexão Safra.

Mas, todo esse trabalho só é possível graças ao vasto conhecimento e tecnologia empregados ao longo de décadas na cafeicultura brasileira, aponta o pesquisador e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), campus São Mateus, e coordenador da parte brasileira no projecto, Fábio Luiz Partelli,

“Todo o histórico de conhecimento adquirido ao longo de décadas que o Brasil tem em produção, na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico da lavoura cafeeira, nos permite essa ajuda a Moçambique no manejo das lavouras, naquilo que é possível dentro da realidade deles”, pontua o especialista brasileiro.

INICIATIVA ENVOLVE AGRICULTORES E ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

Se de um lado os conhecimentos são transferidos na prática, por meio do ensino de técnicas de gestão com eficácia comprovada, por outro, a troca dá-se através de pesquisas de mestrado e doutoramento. Ao todo, 17 bolsas de estudos foram oferecidas aos moçambicanos.

Niquisse José Alberto , de Nampula,  é um dos beneficiados. Formado em ciências agrárias, actualmente vive no Brasil onde já concluiu o mestrado e iniciou o doutoramento em genética e melhoramento na Ufes.

Vinculado ao núcleo de pesquisa de excelência em café conilon da universidade, em paralelo aos estudos no Brasil, Niquisse também contribui com a pesquisa feita no Parque Nacional da Gorongosa, onde é avaliada a diversidade do café arábica.

“Uma grande oportunidade de fazer o mestrado e doutoramento num país de alta tecnologia e ‘expert’ na cultura de café. Com as experiências e conhecimentos adquiridos aqui, vou poder contribuir significativamente para o desenvolvimento sustentável da cafeicultura em Moçambique que, por sinal, como nova fronteira na cafeicultura, vai ser significante no ponto de vista social e económico das famílias envolvidas, bem como para a biodiversidade no contexto de mudanças climáticas”, explicou o doutorando.

Crimildo Cassamo, da Cidade de Maputo, defendeu, em Julho do ano passado, a sua tese de doutoramento, intitulada “Produção sustentável do café em Moçambique e sua qualidade em sistema agroflorestal da Serra de Gorongosa”. O trabalho de campo foi feito na Serra da Gorongosa e a parte de laboratórios, em Portugal, país com uma longa história de intercâmbio científico com o Brasil.

“Considero essa uma oportunidade única. Eu integrei-me a uma equipa de pesquisa em café com longa tradição e de renome internacional. Tive a oportunidade de aprender e vivenciar experiências com assistência do pesquisador de um país que é o maior produtor em nível mundial, o Brasil. A cafeicultura no meu país é bastante embrionária e sem tradição de produção comercial, embora haja condições de cultivo em algumas zonas. Com essa aprendizagem, poderei contribuir para o estímulo do relançamento e do fomento da cultura em Moçambique”, destaca Crimildo Cassamo.

Executado pela Ufes, Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e Parque da Gorongosa, e financiado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), Ministério das Relações Exteriores, Administração Nacional de Áreas de Conservação (Anac), Ministério da Terra e Ambiente de Moçambique, Camões Instituto da Cooperação e da Língua de Portugal, o projecto, assinado em 2017, beneficia cerca de 500 famílias de agricultores do Parque Nacional da Gorongosa em situação de vulnerabilidade social.

Implantado numa área de cerca de 240 hectares, a meta é produzir café de qualidade, orgânico, cultivado sob espécies nativas do parque e, assim, amenizar os efeitos da deflorestação, aumentar os rendimentos por meio da produção e promover a segurança alimentar na região.

Fábio Partelli explica que Moçambique tem solo e clima ideais para o cultivo do café. Porém, até à chegada dos pesquisadores brasileiros e portugueses, a cafeicultura resumia-me em plantar. Com potencial de produção médio, por ser uma área limitada e com muitas árvores, o conhecimento dos pesquisadores e as experiências e pesquisas citadas pelo professor ajudaram os moçambicanos a obter resultados positivos.

“Moçambique tem potencial de solo e clima, mas é um processo lento. Tudo é mais devagar que no Brasil para acontecer. Ajudamos nas orientações para ter uma produção melhor, correcção do solo, adubação; ajustamos os espaços e orientamos um local de secagem, entre outras práticas”, disse Partelli.

Inicialmente, o acordo terminaria em 2022, mas, devido à pandemia da COVID-19, as acções integradas vão durar mais um ano. O projecto será concluído com a produção de um manual sobre cafeicultura.

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