O País – A verdade como notícia

Do paraíso encantado da Eva ao passeio nocturno de Valgi pelos caminhos do Chamanculo…

O Valgi andava esquecido dos compromissos que deixara em Porto Amélia.  Pudera! O emprego temporário na loja do Bhai dava-lhe algum entretenimento e um salário que lhe permitia sobreviver nesta cidade selvagem. Claro que, uma vez e outra, recordava-se da esposa Mariana e dos filhos, com aquela saudade que o remetia a silêncios de meditação e de tristeza. Esses eram momentos raros e fugazes, porque aqui, como diria o Poeta “outros valores mais altos se alevantam”. E alguns destes centravam-se na pessoa da Eva, de quem cobrava benefícios, físicos e emocionais, mais daqueles do que destes. Ela era a companheira com quem partilhava dos tempos livres, mormente os fins-de-semana, ora em passeios pelos bairros do Alto-Maé, da Malhangalene e da Polana, ora a assistir a filmes de amor no cinema Tivoli.

A Eva vivia numa cabana de quarto e sala, parte dum vasto componde, situado a alguma distância da cantina do Guro. Ela gozava duma privacidade para a qual lutara com algum afinco. Umas amigas preguiçosas e oportunistas haviam tentado juntar-se a ela, para se evadirem dos pagamentos de rendas e da compra de rancho. Ela foi sempre firme nisso: “prefiro viver sozinha do que ter problemas com amigas”. Chegara a Lourenço Marques fazia três anos, vinda da Maxixe. Tal como outras emigrantes aventurara-se para a cidade para procurar um emprego que a lançasse para um outro futuro. Os dias passavam e nenhum dos sonhos mostrava sinais de poder materializar-se em tempos mais próximos. Conseguira uma colocação na Fábrica de Confecções Sabrina, na Avenida do Trabalho, a curta distância do terminal das carreiras dos Transportes do Sul do Save. Nesse recanto fazia primazia da sua liberdade, aí construía e descontruía projectos. Até aquele dia em que viu o Hussene Valgi. Durante aquela conversa bem animada sobre capulanas na loja do Bhai achara-o um rapaz bem humorado e respeitoso; enfim, o tipo de amigo que gostaria de ter tido desde que chegou à cidade. Daí que não conteve o convite instintivo para aquela cerimónia de pedido em casamento da prima Rossana. Hoje são mais do que amigos. São, isso são, unha-com-carne, o que a chaleira está para a sua tampa. Seria, talvez, alguma paixão exacerbada pela necessidade duma companhia? Ou esta que, por ser premente, os colocara lado a lado como cúmplices na trincheira dos que lutam por um sucesso em terra desconhecida e hostil? Fosse qual fosse o motivo, disfrutavam do prazer duma companhia mútua, tranquilamente partilhada.

Com o advento da Páscoa as multidões aprestavam-se para as festividades do Carnaval. Este era dos eventos cíclicos que marcavam a vida dos habitantes dos subúrbios, os quais traziam outro alento espiritual, renovavam as ilusões por uma vida cheia doutras grandezas.

Era Domingo e a noite fora duma frescura invulgar para aquele mês de Fevereiro. Valgi demorou-se a descolar do corpo da Eva. Adormeceram no embalo do relaxamento, num sono sem pesadelos, depois de festivos empolgamentos e efusões na cama.

Ia a caminho das vinte e duas horas quando o Valgi despertou. O “Heróis do Mar” fora emitido pela Hora Nativa, para assinalar o fim da transmissão, fazia algum tempo e nenhum deles o escutou.

“ Que horas são?”, perguntou, perturbado pela vertigem do despertar.

“ Vai para as dez horas”, disse a Eva, a consultar o despertador. “É melhor dormires aqui, porque já se fez tarde e é perigoso andares por estes caminhos que estão cheios de bandidos”.

“ Não posso, tenho que ir. Tenho muita coisa ainda para preparar para amanhã”, disse o Valgi já em pé, a vestir-se.

E meteu-se na penumbra dos becos do Guro. Internou-se pelas traseiras deste estabelecimento. A sua intenção era a de alcançar o largo caminho que liga o Vulcano ao bazar do Xipamanine. Mas eis senão quando, da dobra da esquina duma residência escutou uma voz autoritária.

“Pára onde estás senão disparamos”. Ergueu os olhos e viu, com assombro, muito acima dos seus olhos, as figuras de dois cavaleiros uniformizados de agentes da Polícia Montada. E não se moveu. O coração, tum-tum!…tum-tum!…, parecia que lhe saltava da boca.

O que se seguiu foi uma revista às roupas e um esmiuçado interrogatório sobre: ”…a tua identificação…donde vens a estas horas da noite?…para onde vais?…”; enfim, uma investigação que era o preâmbulo duma sessão de tortura, a mesma a que se submetem os prisioneiros. Porque de prisioneiro ele já se tratava. E assim foi tratado. Ataram-lhe as mãos com uma corda, com nós firmes e apertados. A outra ponta foi ajustada à sela de um dos cavalos. Puseram-no entre os dois animais, deram às esporas e reiniciaram aquela marcha de patrulhamento pelos bairros do Chamanculo, com passo vagaroso, interrompido aqui e acolá por uma breve paragem de auscultação de movimentos e ruídos estranhos que se escutassem na atmosfera da noite.

Assim, o Valgi foi companheiro dos agentes da Polícia Montada naquela longa expedição que cobriu toda a zona do Guro, do Mateus Serra ao Muvumbi, da cantina do Mário ao Zundap, do Grémio até à Maria Caldeira, do Mbongolwene ao Fajardo. Cruzaram-se com outras brigadas que patrulhavam o Tlhavane, o bairro Indígena, o Mendes; enfim, todo o Xitala Mati.

 

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos