O País – A verdade como notícia

Por: Bena Filipe

 

Com tristeza, tomei conhecimento de 95 casos de violação sexual, durante a quadra festiva de 2022. Em 2021, a UMAR (União de Mulheres Alternativa Resposta) de Portugal, recebeu a comunicação de 299 casos de violação sexual, perfazendo 25 casos em 1 mês, o que contrasta com os ascendentes do ano seguinte 2022.

Segundo a médica legista A. Neves, no período de Janeiro a Setembro de 2022, receberam 1737 casos, dos quais 76% presenciais e 24% on line. Foram detidas 153 pessoas, mas, possivelmente, 15% das queixas eram falsas para justificar namoricos, conflitos conjugais, onde a mãe acusa o pai, e ou o pai acusa o companheiro da ex-esposa/companheira por conflitos para guarda de paternidade.

Esber (2009) aponta que os violadores são de todas as classes sociais, faixas etárias, grupos étnicos. Estão numa sociedade que legitima a sua condição. Por isso, a mulher é desvalorizada e coisificada. Em muitas partes do mundo, os perpetradores da violação/abuso sexual são do perfil descrito por  Esber (2009), mas, na nossa realidade, temos agentes da lei, frequentemente citados, o que legitima a qualquerização da mulher, bem como a fragilidade da educação familiar/formativa.

Um estudo sobre violência sexual feita em Moçambique, por Britgite Bagnol, e publicado em Fevereiro de 2011, avança variáveis como pagamento de multas e casamento para anular o crime.

Hoje, com a escolarização, acesso à informação e aos serviços, estas notificações podem estar a ascender, não pelo número de casos, mas como aumento da própria notificação. De preocupar, existem casos de violação sexual reportados, em que os autores são menores  e  adolescentes, o que demostra que a sociedade está muito doente.

Em relação aos 60 mil casos de registo de nascimento, sem o nome do pai, predominante no Centro e Norte do país, pude apreciar que, em outros quadrantes, como Brasil, temos as cifras de 100 mil nascidos sem registo do pai, em 2021.

Em Portugal, mais de 5700 exames foram pedidos para confirmar a paternidade. A procura da paternidade no contexto norte-americano e outros países (Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Itália e Espanha), preocupa-se mais com a questão do sustento e bem-estar da criança, do que com direito à identificação pessoal.

No contexto norte-americano, o estado é o motor da busca pela paternidade (Rottisein et al: 2005; Manson, 1997). Nos casos em que a mãe omite a identidade do pai, e não depende dele para o sustento, caber-lhe-á a decisão de querer ou não que o estado identifique o pai biológico (Rothstein et al. 2005).

Em Portugal, independentemente da situação económica da mulher, a averiguação da paternidade é quase obrigatória, enquanto que a obrigatoriedade em outros países decorre de imperativos económicos. Percebe-se que o assunto é complicado, e que as políticas se adequam com a realidade, colocando em primeiro lugar a criança, não o pai ou a mãe e sua guerras ou interesses. Nós sabemos que é bom ter um filho de um pai comprometido, mas que vai pagar as mesadas, uma  vez provado a paternidade. Aqui escuso-me de comentar. Ao invés disso, incentivo as mulheres para irem atrás dos seus direitos.

A partilha desta informação, dos 60 mil casos de registos de nascimentos sem que conste o nome dos pais, é de louvar e elogiar, pois convida-nos a reflectir sobre quantos desses foram para confirmar a paternidade.

O Governo e a sociedade civil, sectores que lidam com esta matéria, devem cada vez mais fazer e cumprir as leis, e respeitar os direitos humanos.

Nos dois contextos, cria-se um espaço muito fértil para aumento de casos de HIV. Podemos assumir que, no acto de violação, ou contacto sexual com gravidez, corre sempre o risco de infecção por HIV, tanto para o agressor ou para a vítima. Ninguém tem cara, aparência de HIV. Todos temos, até prova em contrario.

Aparece agora uma nova faixa etária, que está a destacar-se na violação sexual e nas infecções de HIV. Dependendo das circunstâncias, e as razões, não gosto de as procura entender, porque nem sempre as vítimas são vítimas, o autor deve assumir e pagar pelas suas consequências. Só assim este ciclo de qualquerização vai diminuir, sabendo que a mulher sofre porque não terá um homem do seu lado, a sua criança não terá pai, e terá de cuidar sozinha da criança e enfrentar sozinha as dificuldades económicas. Temos à vista um futuro de risco para ambos, por comportamentos desviados, e um desenvolvimento como sociedade comprometido, por causa de um acto prazeroso que se podia evitar, tomando anticoceptivos e usando preservativo. Ambos sabiam o que estavam a fazer e devem assumir as consequências, salvo em menores de idade e onde temos outros elementos agravantes.

Esses problemas vão entrar nas nossas vidas, directa ou indirectamente, cedo ou tarde. Fugir para lugares mais calmos e regrados e contornar não é a solução. Mas exige-se, urgentemente, atitudes conjuntas e corajosas, independentemente de quem esteja envolvido.

 

Transportadores internacionais optam por uma rota que não usavam há muito tempo e dizem que só assim conseguirão voltar a ter fluxo de passageiros. Entretanto, o medo de novos ataques prevalece.

Dois a três carros saíam, diariamente, do terminal da Junta para Durban, na África do Sul. Mas com a onda de queima de autocarros de matrícula moçambicana na terra do rand, os números reduziram.

“Agora só saiu um carro, porque as pessoas estão com medo. Os carros que costumavam sair às 7h30, agora, por causa da confusão na África do Sul, vão até às 9h ou 10h”, disse Sérgio Mahanjane, transportador.

Igualmente, no terminal da Baixa, o medo dos passageiros continua a esvaziar os assentos.

“Hoje (referindo-se a este sábado) saiu um carro com uma média de nove passageiros. Não podíamos mandar voltar as pessoas. A situação não está muito boa, as pessoas ainda não se sentem seguras”, revelou Fernando Lopes, presidente da Associação dos Transportadores Rodoviários Internacionais da Baixa.

Para não deixar o negócio falir, os transportadores da Baixa e da Junta optam por uma rota que não usavam há muito tempo.

“Os Governos ainda não se pronunciaram sobre aquela via directa, da Ponta do Ouro. Nós estamos com medo e não vamos para lá. Então, optamos por usar a via de Goba, que passa pelo eSwatini. É muito segura”, explicou Fernando Lopes.

Contudo, apesar de segura, a alternativa é cara.

“Gastamos com passaporte, são cinco carimbos só para entrada”, referiu um transportador.

“Com os custos de combustível e portagem, são quase mil rands. Entrando de Mangunze já sai em conta, porque Durban se torna mais perto”, acrescentou outro transportador.

Temendo novos ataques, os transportadores clamam pela resposta imediata dos Governos da África do Sul e do país.

O conceituado escritor moçambicano, Juvenal Bucuane, vai lançar um novo livro intitulado “Phombe – um trágico 9 de Janeiro em Chitima”. A obra literária foi escrita em homenagem aos 75 moçambicanos que perderam a vida na sequência do consumo da bebida local “phombe”.

No dia 9 de Janeiro de 2015, em Chitima, uma das localidades incrustadas à Vila do Songo, Distrito de Cahora Bassa, em Tete, houve uma tragédia incomum, cujo eco teve drástica repercussão durante meses.

Essencialmente, os postos de saúde locais viram-se inundados de gente de todas as idades e de todos os sexos, que buscavam socorro por um mal-estar generalizado.

A situação foi tão grave, repentina e inédita naquelas paragens que toda a ajuda tornou-se quase insignificante para tanta morte. Ao todo, foram 75 mortes.

Recorrendo a factos reais, que marcaram um passado recente da realidade moçambicana e com repercussão internacional, entretanto com uma técnica de escrita próxima à ficção, Juvenal Bucuane propôs-se escrever um livro sobre a bebida local phombe, em homenagem às vítimas da tragédia de Tete.

Segundo lembra o escritor, entre as 75 mortes houve várias pessoas internadas no Centro de Saúde de Chitima e no Hospital Rural do Songo. Enquanto se enterrava os mortos e tentava-se salvar os pacientes internados, o Governo decidiu impedir, por vários dias, a preparação, o consumo e a venda do phombe, pois, todas as mortes e internamentos estavam associados ao consumo da bebida. Tal interdição, constrangeu a muitos vendedores que encontravam na bebida fonte de receita.

Para Juvenal Bucuane, escrever sobre o fatídico dia 9 de Janeiro de 2015, em Chitima, significa homenagear todos aqueles que partiram sem saber por que morreram e, mais do que isso, o livro que será lançado no próximo mês representa uma tentativa de prender a memória colectiva de um povo. Por isso mesmo, o escritor com cerca de 40 anos de percurso literário partiu de Maputo, cidade onde vive, para, em Tete, explorar uma história com contornos difíceis e imprevisíveis. “Veio-se a saber que os recorrentes à intervenção médica haviam ingerido phombe inquinado, confeccionado pela senhora Olívia Olucane N’Tefula, uma das mais respeitadas porque exímias fabricantes daquela bebida caseira fermentada. Para o deslinde das causas do inquinamento do phombe em causa, muito vasculhou-se, sob uma nuvem densa de mistério”, avança Juvenal Bucuane.

Uma das pessoas que morreu ao consumir phombe foi a própria produtora da bebida e vendedeira: Olívia Olucane N’Tefula. Tal facto, segundo Juvenal Bucuane, dificultou as investigações sobre o que poderia ter acontecido para que tanta gente sucumbisse.

Com base nas amostras, os laboratórios moçambicanos não conseguiram apurar a verdade dos factos. A equipa envolvida recorreu ao conhecimento científico sul-africano. Igualmente, sem sucesso.

Tal como em 2015, no mais recente livro de Juvenal Bucuane aparecem diferentes versões sobre as possíveis causas da morte de 75 moçambicanos no Distrito de Cahora Bassa, em Tete. Entre o místico e o crime, houve, inclusive, pelo menos uma prisão. No entanto, a polícia soltou o suspeito de envenenamento por falta de provas.

O livro do escritor charrueiro, com efeito, esclarece mal entendidos e mergulha em questões de fundo rumo à veracidade dos factos que, inclusive, muitas semanas depois de tanta investigação, seriam esclarecidos por um laboratório norte-americano. A conclusão das análises feitas à amostra apontou a questões de falta de higiene como motivo das 75 mortes e internamentos ligados ao consumo da bebida local bem consumida na Província de Tete.

Phombe – um trágico 9 de Janeiro em Chitima é o título do segundo livro da autoria de Juvenal Bucuane chancelado pela Editorial Fundza. A primeira proposta literária do escritor pela editora é Masingita ou a subtileza do incesto, uma novela de amor e caos lançada ano passado, em Maputo, com desfecho dramático e trágico.

Por: Edna Matavel

 

A violência doméstica é todo acto de abusos físicos, sexuais, psicológicos perpetrados por um membro da família ou parceiro íntimo. No meu caso, foi com o meu parceiro.

O meu nome é Mevasse. Em cada gestação eu apanhava do meu marido. A última vez que ele levantou a mão em mim, cheguei ao ponto de acordar numa cama de hospital e com um bebé prematuro.

Quando nasci, os meus pais costumavam dizer que a mulher nasceu para se submeter às vontades do seu marido, e trabalhar duro para ser vista como zelosa e prudente no seu lar. Essas palavras se fizeram notórias no momento em que a minha felicidade e liberdade foram vendidas por conta de uns trocados e uma cabeça de gado. O que os meus pais pouco sabiam é que ali iniciava uma vida cheia de dificuldades e dor. Onde, nas noites de frio, as lágrimas serviam de companhia e consolo ao ponto de aquecer o meu rosto.

Para minha sobrevivência, no início do casamento, levantava quatro horas da madrugada e pegava na enxada para comer do fruto do meu suor. Mesmo o cansaço e o sono visitando o meu organismo, não tinha outra escolha.

Tempos depois, descobri que estava grávida e era o início de muita luta. O meu marido acreditava que tendo vários filhos seria bem visto e, assim, fortificava-se a sua masculinidade perante a sociedade. Ele marcou em mim a quantidade de filhos que desejava ter. Sim, cicatrizou em mim o número 10, como símbolo de firmeza nos filhos que queria. Ademais, ele queria somente rapazes.

Tive a primeira gestação cheia de riscos e não acreditava na sobrevivência do bebé. Veio ao mundo uma menina, mas para a minha desgraça, o meu marido tornou-se um homem malévolo, pois considerava meninas um desperdício e despesas sem retorno. Ele me espancou-me julgando que era a culpada por trazer uma infeliz ao mundo.

A minha filha cresceu inferiorizada pelo próprio pai, porque não podia ajudar com o trabalho que fazia. Vezes sem conta, chegava embriagado e eu tinha de interromper o sono da madrugada para fazer as suas vontades e satisfazê-lo como homem. Mal se importava com o estado de saúde da criança. Tive a minha segunda, terceira e quarta gravidez, e, por ironia do destino, eram meninas. Ele perguntou-me o motivo de trazer meretrizes ao mundo e não homens que pudessem fortificar o apelido. Humilhava-me dizendo que só servia para ir à machamba e cuidar da casa, era inútil para fazer filhos.

Havia àqueles dias em que eu volvia em torno de tudo que já tinha-me acontecido e ponderava… A solução parecia a de desistir de tudo, mas os meus pais deixaram claro que já não lhes pertencia.

Os meus olhos denunciavam a minha tristeza. As vizinhas olhavam para mim e desdenhavam-me. Mal conseguia comprar chinelos para as crianças e o meu marido pouco se importava, porque, para ele, filho de verdade nasce homem.

Eu apanhava porque não conseguia ter meninos e nem fazer com que o apelido crescesse e fosse louvado na família. De tanto ser uma máquina de produzir filhos e sujeita a trabalhos duros, perdi e nunca vi a beleza da vida e as tantas alegrias que as vizinhas falavam dos seus casamentos. O meu brilho foi ofuscado e a velhice não tardou a visitar-me. Um minuto de alegria para disfarçar a minha tristeza diante das crianças. Era resultado de uma noite cheia de choros.

Nos dias em que o meu choro chegava ao quarto das meninas, elas questionavam o motivo, e eu, por detrás da porta, balbuciava para dizer: está tudo bem.

Diante da extrema violência, eu tinha que pensar na minha sobrevivência para o futuro das crianças. Pensava na quantidade de filhos que ele queria e no sofrimento que sempre passei para sustentar as mesmas, mas eu não tinha direito a escolha porque estava prostrada ao meu marido. Pagando, assim, o dinheiro que os meus pais receberam no casamento.

Ele pensou em procurar uma esposa que lhe pudesse dar um herdeiro para levar o apelido em diante. Mas, diante dos meus olhos, ele andava com moças mais jovens, e todo audacioso me espezinhava, dizendo que o arroz que colocava à mesa era suficiente para eu deixá-lo em paz com as suas garrotas.

Poucos anos depois, tive a sétima gravidez. Desta vez, era um menino, mas, durante a gestação, sofri abusos. Dias e noites ele espancava-me julgando que era para a criança nascer forte e ainda feto conhecer a dureza da vida. Ele acreditava que fosse ter mais uma desgraça, mas não. Dessa vez, se cumpria o seu maior desejo.

No dia do parto, veio aos meus braços um menino. Quando recebeu a notícia, ficou todo eufórico ao ponto de fazer uma festa de recepção do príncipe querido do pai. As meninas perguntavam umas às outras se não eram filhas suficientes para receber tamanho carinho. O pai respondeu com firmeza que agora, sim, era um PAI de verdade.

Infelizmente, a criança nasceu prematura e, por consequência dos abusos sofridos, não resistiu e perdeu a vida. Eu e as meninas fomos culpadas por essa perda, e fomos espancadas pelo meu marido.

Depois de anos de sofrimento, num mau casamento e trabalhando com tenacidade para construir uma linda família ilusória, eu olhava para mim e as minhas filhas e não tínhamos nenhum brilho. Aí eu tinha que tomar uma decisão antes mesmo de completar os 10 filhos. Decidi segurar firme e procurar às autoridades competentes. Fui mal falada e as minhas filhas sofreram muito, tão novas e com cicatrizes de sofrimento. Aí era somente eu e elas, pois, os meus pais deixaram claro que o lar constrói-se com muita força, mas eu não tinha mais esta força de aguentar tamanha violência.

Enveredei por um caminho livre deste homem malévolo graças às autoridades competentes juntamente com as minhas filhas, na esperança de um dia viver longe de qualquer abuso.

E aí, eu disse para mim mesma: basta, NÃO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

 

Jimmy Dludlu, Ótis e Judith Sephuma vão actuar na Ponta do Ouro, Província de Maputo. O evento denominado “Jazz ao pôr do sol” terá lugar no dia 3 de Fevereiro (sexta-feira), no Ponta Apart Hotel, a partir das 16h00.

Segundo a organização, não são nomes escolhidos por acaso. Afinal, é sabido que o conceituado músico Jimmy Dludlu é um dos artistas moçambicanos mais premiados a nível nacional e internacional, um verdadeiro orgulho para a nação moçambicana.

Radicado em Portugal, Ótis, por sua vez, tem gerido uma carreira de sucesso, sendo, por isso, um nome incontornável do jazz.

Já Judith Sephuma, é considerada a diva do afro-jazz sul-africano, e tem a particularidade de ser muito acarinhada em Moçambique.

Mais do que um concerto, “Jazz ao pôr do sol” é um conceito que o Ponta Apart Hotel pretende oferecer aos seus clientes e demais turistas que escolhem a praia da Ponta do Ouro para lazer, proporcionando-os uma vista paradisíaca ao pôr do sol pelo menos uma vez por semestre.

Trata-se de um projecto que vai promover o turismo cultural, casando a música, com particularidade para o jazz, e as atracções turísticas que este ponto do país ostenta, sendo uma referência devido aos seus encantamentos naturais.

Nesta primeira viagem do “Jazz ao pôr do sol”, o Ponta Apart Hotel espera receber cerca de 300 entusiastas do jazz, que em mais de três horas vão poder deliciar-se com boa música, enquanto se deslumbram com o perfume natural da praia da Ponto do Ouro.

O concerto, avança uma nota de imprensa, está a ser preparado ao mais alto nível em termos técnicos. A Top Produções é a empresa confiada para prover serviços de som, palco e luz com tecnologia avançada.

Moçambique com z de zarolho é o título do segundo livro de Manuel Mutimucuio. Editado no país pela Editorial Fundza, em 2018, a obra literária acaba de ser lançada no Brasil, em Dezembro, pela Dublinense.

Para o escritor, a edição do seu romance no Brasil é algo satisfatório porque amplia as possibilidades de ser lido no estrangeiro, inclusive, por mais leitores. “Sinto-me contente de ver a obra publicada fora de portas, particularmente no Brasil (maior concentração de leitores que lêem em português); dá, igualmente, outra exposição a uma história que pode ter eco em contextos comparáveis ao nosso”, disse Manuel Mutimucuio.

Em geral, Moçambique com z de zarolho é um romance cuja história retrata uma eventual realidade moçambicana. No enredo, na esperança de melhorar a sua posição num cenário capitalista global, o governo moçambicano adopta uma medida extrema e nada consensual: instituir o inglês como idioma oficial e deixar para trás tanto as línguas bantu locais quanto a língua portuguesa. No entanto, essa mudança tão abrupta terá diversos impactos na vida personagens. Por exemplo, em Djassi, político que votou contra a mudança, mas que, a certa altura, vê-se buscando favores dos seus adversários na tentativa de conseguir uma bolsa de estudos para o filho em Londres, Inglaterra; e Hohlo, seu empregado doméstico, que vê todos os seus cambaleantes esforços de ascensão social através do estudo do português serem frustrados de uma hora para outra. Diante desses e outros tragicômicos reflexos da nova lei, ecoa a pergunta: que lugar têm aqueles que não dominam a língua dos poderosos? A pergunta feita na sinopse, agora, também será respondida por leitores brasileiros, tal como a responderam os moçambicanos.

Para Mia Couto, conforme se lê na contra capa do livro, “Manuel Mutimucuio é, sem dúvida, uma das importantes vozes da nova geração de escritores moçambicanos. O seu segundo livro confirma o poder de subversão da sua escrita e a sua capacidade em construir uma história que fala de uma nação que luta para emergir das cinzas e do caos”.

Já para o ensaísta brasileiro Reginaldo Pujol Filho, numa das orelhas do romance, “Moçambique com z de zarolho complexifica noções como ‘lusofonia’ e ajuda a lembrar que somos [os brasileiros] tão (e muitas vezes mais) próximos de Moçambique do que Portugal”.

Manuel Mutimucuio nasceu em Maputo, em 1985, mas passou os seus anos formativos na Cidade da Beira. É Doutor em Governação e Economia Política das Instituições, pela Universidade de Coimbra, Portugal, e actua como consultor internacional de gestão de recursos naturais. A sua literatura está na intersecção entre esses dois mundos e caracteriza-se pela análise social e questionamento do status quo.

Quanto à editora Dublinense, foi fundada em 2009, com o objetivo de se permitir experimentar e navegar livremente por gêneros. Depois de muitas experiências, a editora, actualmente, concentra-se na ficção e não ficção literárias, além de manter uma linha de títulos sobre psicanálise.

Edna Matavel

 

Safira, Maria rapaz. Geração de homossexuais que assistimos. Assim fui apelidada no bairro.

Ainda pequena, costumava jogar à bola e berlindes na praça com os meninos. Ademais, em alguns campeonatos de futebol eu carregava à bola e dava o primeiro toque. Eu estava rodeada de meninos e a minha mãe, na maior naturalidade deixava-me brincar com eles, enquanto pelas costas, as vizinhas faziam comentários desnecessários, dizendo que um dia o meu comportamento teria consequências devastadoras.

Cresci brincando também com o meu irmão Rachid. Para mim, as brincadeiras das meninas eram sem graça e mesquinhas. Eu queria uma vida exacerbada e cheia de acção quanto a dos meninos. Comecei a sentir uma florescente atracção pelas coisas masculinas, o que passou a incomodar a minha mãe.

Tomava banho com o Rachid, e questionei o motivo de não ter o mesmo órgão genital masculino. Sentia um desejo enorme de possuir aquele órgão.

Quando completei os meus 17 anos de idade, comecei a envergar-me diferente do que era comum na qualidade de menina. Comecei a usar cortes a rigor típicos dos rapazes. Os meus amigos começaram a chamar-me “brô, djô” e trocávamos impressões como se de um homem realmente eu me tratasse. A minha dicção passou por metamorfose espontânea. Nas minhas férias, visitava as minhas primas e, durante a noite, acordava e apreciava-as passando as minhas mãos pelas suas partes íntimas. Admirada em ver a forma como se atraíam pelos rapazes, pesquisei se era possível trocar o meu órgão genital. De todas vezes que elas se trocavam diante de mim, sentia o meu corpo em comunicação com algo oculto, afinal de contas eram as tais hormonas a libertarem-se com uma profunda intensidade.

Conheci um grupo de amigos gays, que me apresentaram pessoas com as mesmas características que as minhas. Essas lésbicas despertaram o meu verdadeiro eu, incentivaram-me a assumir a minha homossexualidade. Quando finalmente decidi tirar a dúvida que jazia no coração da minha mãe e mostrar que era lésbica, a vergonha e o desprezo falaram mais alto ao ponto de me fazer escolher entre seguir com o caminho da homossexualidade ou continuar morando com ela. Senti na pele a dor da rejeição. O meu irmão ficou desapontado, os seus amigos zombavam dele por me ter como irmã, e ele dizia que eu era um erro cronológico (nossos ancestrais).

Frustrada pela forma como era discriminada, enveredei abusivamente no mundo do álcool, parei de frequentar a igreja porque olhavam para mim como a que infringia todas as regras da doutrina de Cristo. Comecei a andar com amigos viciados, o que me tornou em uma. Saía às primeiras horas de sexta-feira e só regressava ao final do dia de domingo, o que levou a minha mãe a marcar um encontro com os meus tios.

Proibiram-me de frequentar bares, mas o meu sangue circulava na veia toda vez que recebia uma mensagem dos meus amigos para curtir, eram os únicos que me apoiavam sem discriminação. O meus tios surpreenderam-me num dia em que cheguei à casa bem cedo e embriagada. Bateram-me ainda no portão como se estivessem a bater num homem, era a única forma que encontraram de me fazer mudar. Fiquei três dias sem sair de casa. Os meus amigos me encorajaram a seguir os meus instintos masculinos, fazendo-me acreditar que a minha família acabaria aceitando. Quando convalesci, voltei a má vida. Frustrada com o desprezo da minha família, comecei a usar drogas, o que só piorou o meu comportamento.

De todas as vezes que a minha mãe trancava a porta para mim, entrava pela janela do quarto ou passava a noite na capoeira com as galinhas. Tristeza para ela. Eu já não queria ser chamada Safira e, sim Safir, para dar sentido à minha personalidade.

Consegui um emprego e comecei a ganhar dinheirinho. Entretanto, o salário acabava em baladas, pagando rodadas para as mulheres que lá me atraíam. Em casa, mal conheciam o meu salário.

Num sábado, enquanto estava sob efeito da droga, levei a minha namorada para casa. A minha mãe insultou-me e eu a espanquei de forma brutal, porque não aceitava as minhas escolhas. No mesmo instante, ela apanhou AVC e eu lutava sempre com o Rachid. A minha vida presumia-se em estupefacientes e a minha arrogância fazia-me enxergar a minha família como um obstáculo.

Outro dia, as vizinhas levaram a minha mãe até ao bar onde me encontrava para ver de perto o que acontecia. Ficou traumatizada em ver a forma como os meus amigos gays empinavam a bunda mais do que as próprias mulheres que lá haviam, enquanto eu trocava intimidade com uma moça dentro de um carro. Foi aí que a minha mãe e o meu irmão decidiram sair de casa, e passei a morar sozinha. Tive a liberdade de fazer as minhas vontades. A minha casa virou abrigo de homossexuais. Todos os finais de semana haviam grandes festas. A casa estremecia com o barulho que se fazia sentir. Parecia um bordel.

Em uma noite de quinta-feira, voltando do trabalho, numa esquina sem iluminação, deparei-me com três homens mascarados. Fizeram uma roda, deram gargalhadas de gozo, e disseram então é a Maria rapaz. Espancaram-me e em seguida abusaram-me sexualmente, cada um à sua maneira, e, depois de terminarem o serviço, cuspiram-me o semblante. Não sei como cheguei a casa, só me lembro de ter aberto os olhos na minha cama com a minha namorada cuidando de mim. Tive de procurar ajuda médica, sofria algumas alterações com o decorrer dos dias, fiz exames de sangue dos quais descobri que estava grávida e tinha AIDS, fiquei desesperada e sem saber como contar à minha parceira. Quando ela teve conhecimento, separou-se de mim.

Tentei fazer aborto, mas não deu certo, passei dias de angústia e fiquei dois meses em depressão. Sentia vergonha de mim mesma, de estar em contacto com as pessoas. Banho tomava duas vezes a cada semana. Estava prestes a dar à luz e o mais doloroso é que desconhecia a paternidade da criança.

A minha mãe teve conhecimento e mesmo assim ficou indiferente. Ela falou com os meus tios e eles procuraram um médico tradicional para cuidar de mim. Julgavam que tinha problemas espirituais. Senti-me sem vida, um animal de estimação deambulando sem destino.

Meses depois do parto, levei a criança a um orfanato. Eu não me identificava com a maternidade. Voltei à vida de lésbica. Andei com mulheres diferentes das quais escondia que tinha AIDS. Achei que estivesse a curtir a vida, mas a vida estava a curtir-me. Parei de medicar para me afundar nas drogas. A minha depressão fez-me acreditar que estava bem enquanto me arruinava interiormente.

A minha mãe sempre foi vítima. As pessoas faziam questão de contar o que eu fazia e deixava de fazer. Depois de muito tempo, ela ligou-me a pedir que mudasse a minha conduta de vida porque eu a matava lentamente, eu não consenti e fui brutal com ela.

Dois meses depois, ela perdeu a vida e aí começou a minha grande depressão…

 

 

Lucrécia Paco, Juvenal Bucuane e Isaú Meneses consideram que 2022 como sendo um ano de recuperação do tempo perdido. Os artistas esperam que 2023 seja de melhorias e de maior abertura para o desenvolvimento das artes e cultura.

2022 chegou ao fim. Por isso, o momento também serve para se fazer balanço do que foram os últimos 12 meses. Depois de quase dois anos de limitações devido à COVID-19, os fazedores das artes e cultura voltaram a ver uma luz no fundo do túnel. “Eu reparo que há muita criatividade. Há muitos jovens que escrevem e que publicam aquilo que escrevem em diferentes géneros: poesia, literatura infanto-juvenil, romances e etc. Há muita criatividade”, disse Juvenal Bucuane.

Segundo o autor de MasingitaBairro Indígena ou Requiem com olhos secos, igualmente, 2022 foi um ano positivo porque conseguiu despertar nos leitores a importância da literatura em tempos de crise e ainda permitiu aos artistas voltarem a ter rendimentos necessários para sustentarem a si próprios e às suas famílias.

Já para a atriz Lucrécia Paco, o ano 2022 não serviu, apenas, para reactivar o sector, serviu, igualmente, ma para se reflectir sobre as necessidades do país do sector das indústrias culturais e criativas. Assumindo que o ano foi positivo, a actriz e encenadora sugere que em 2023 consiga-se investir em centros culturais de raiz, não só no centro da Cidade de Maputo, mas também nos bairros suburbanos. “Espero que tenhamos mais mecenas a apoiarem a arte e a cultura”, disse Lucrécia Paco, mesmo a concordar com Juvenal Bucuane, para quem 2023 irá permitir aos moçambicanos abrirem o caminho até onde pretenderem chegar.

O músico Isaú Meneses considera que a candidatura da dança Mapiko a património da humanidade é um dos grandes marcos do ano. E explica: “Se conseguirmos fazer aprovar essa candidatura, será mais uma vantagem na projecção da imagem de Moçambique no exterior”.

Além disso, para Isaú Meneses, 2022 também foi um bom ano porque permitiu a aprovação da Carta Africana de Renascença, pela Assembleia da República. “Essa é uma demonstração inequívoca do compromisso que Moçambique tem para com a cultura, mas também é uma abertura que se faz para que haja mais investimentos no campo da cultura em Moçambique”, afirmou o músico e compositor, reforçando a expectativa de que 2023 poderá trazer ainda mais realizações para Moçambique, no sector da indústria cultural e criativa.

Por: David Almeida F. Houana

 

 

Montagem: Cartas de amor para meninas mal comportadas II

Montagem teatral: Centro Cultural Franco-Moçambicano

 

Na cultura bantu Moçambicana, as mulheres recém-viúvas carregam um luto que desagua nos trajes pretos cheios de simbolismos e drama em uma porção de ritual. Neste processo, elas são submetidas ao ritual de purificação (kutxinga) através do falo purificador, às vezes do cunhado, a fim de anular toda a sua pretitude “ar de morte que orbita o corpo e a alma”. E quando a viúva perderá uma esposa que habitavam juntas as ilhas de Lesbos, que procedimentos seguir?

Para responder a essa pergunta fomos convidados por Eliana N’Zualo, no dia 06 de Abril de 2022, pelas 20h, a ter a  resposta em  Cartas de amor para meninas mal comportadas II. Houve que controlar a ansiedade porque só teríamos a resposta às 20h10, ao comando de Yuck Miranda.

O episódio aconteceu depois que a poesia decidiu se personificar para narrar a própria história em palavras que convertiam a lírica em acção. Ela revelava as memórias que  vivera no pico do século XX, porém, só agora ela decidiu quebrar o silêncio e falar da sua esposa que virou morte, a destruidora de mundos, “o mundo da poesia”.

O livro narrado revelava uma melodia boa de se ouvir*, uma mulher a dançar com a leveza duma bailarina,  mas com a força dos rugidos dum leão, dramaturgia que servia as leis da estética da arte, tais preceitos perdiam espaços nos trajes de capulanas pouco expressionistas.

A casa da poesia era um espaço de encontro vazio, porém, cheio de Alma. Naquele lugar n artes poéticas  se cruzavam numa espécie de performance erótica híbrida, que trazia elementos do teatro, percussão sonora, poesia e dança. Não obstante, a obra de arte era um espaço intercultural entre as técnicas tradicionais de Moçambique  e  Suazilândia.

O cenário do livro da poesia era “ópera”, fusão de muitas coisas, o local de encontro entre teatro imagem elucidado pelo pensamento contemporâneo performativo simbólico de Bob Wilson. Aristóteles e seu discípulo  Stanislavisk se revirariam no túmulo pelo golpe do surrealismo simbólico da vida da poesia.

Os adereços eram feitos de elementos  musicais e outros recicláveis, como garrafas e bacias metálicas que emitiam ondas sonoras e  recebiam outros significados. Na metade, o livro  denunciou uma simbiose linear perigosa que nos fazia navegar em marés indesejadas, o que nos colocava na órbita certa de navegação. Eram as músicas de mudanças das cenas.

A casa da poesia era iluminada  por paleta de cores psicadélicas de luz primária, verde, vermelho, azul, lilás e luz quente que criavam atmosfera em tempos certos e outros de devaneios.

“Permita-me sentir o gosto do seu sangue vaginal só mais uma última vez”

Disse a poesia, ao revelar perto do fim  da leitura  do livro que se chama sua história, que estaríamos diante do funeral da sua amada Mal Comportada, tal como ela e várias outras meninas da sociedade, que, na verdade,  só querem viver as suas espiritualidades patrocinadas por aquilo que é da alma e que ninguém poderia intervir  e nem criticar (ponto de viragem).

A poesia sacrificou o amor da sua vida para que os poetas possam nos fazer voar e sonhar pássaros. Após 40 min de espectáculo, descobrimos que é preciso ir para ter o prazer de voltar, agora voltamos do acto catártico após viver vários orgasmos cénicos vividos em massa dignos de Aplaudir em Pé. A sala continua a sala e o livro continua aberto para que outras meninas mal comportadas possam ir se purificar.

09.04.2022

 

Ficha Técnica

Direcção-artística

Yuck Miranda

Texto e performance

Eliana D’Zualo

Voz

Thobile Makhoiane

Percussão

Carol Matosse

Baixo

Márcia Pascoal

Fotografia e visualidade

Mariano Silva

 

 

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