O País – A verdade como notícia

A Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, que se encontra na Ilha de Moçambique, em Nampula, procedeu, esta quarta-feira, ao lançamento da primeira pedra para o restauro e para a reabilitação da Capela Nossa Senhora do Baluarte e ao lançamento das obras de reabilitação e restauro do Coreto.

Ainda nesta segunda-feira, Eldevina Materula inaugurou a “Casa dos Contos” e assinou um memorando de entendimento sobre a preservação e valorização do património cultural da Ilha de Moçambique, assinado entre o Governo de Moçambique, o Governo Português e a Mota-Engil, que entra como parceiro na recuperação do Património Mundial.

De acordo com uma nota de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, o Estado Moçambicano tem vindo a implementar acções que garantem a conservação e a preservação do património cultural da Ilha, local de convergência de culturas por excelência.

A reabilitação do Coreto, bem como a recuperação da emblemática Capela Nossa Senhora do Baluarte, parte integrante da Fortaleza de São Sebastião, estão cobertas à luz do memorando de entendimento rubricado esta quarta-feira, entre o Ministério da Cultura e Turismo de Moçambique, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., e a Mota-Engil, Engenharia e Construção África, SA – Sucursal de Moçambique. O instrumento foi assinado pela Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, pelo Secretário do Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação da República Portuguesa, Francisco André, e pelo representante da Mota-Engil, Aníbal Leite.

O memorando, avança a nota de imprensa do Ministério da Cultura e Turismo, centra-se na preservação, valorização e fruição do património artístico e cultural, através do apoio à conservação do património histórico edificado, com especial atenção à Ilha de Moçambique, que constitui uma das prioridades identificadas no Plano Estratégico de Cooperação (PEC) Portugal – Moçambique (2022-2026).

A reabilitação e o restauro do Coreto acontece após ter sido danificado aquando da passagem devastadora do ciclone Gombe, em Março de 2022.

Por outro lado, a “Casa dos Contos” ora inaugurada está enquadrada no Projecto “Ilhas e Encantamentos”, reforço do sector de literatura infanto-juvenil e emprego cultural criativo, que integra quatro Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), nomeadamente, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

O Projecto “Ilhas e Encantamentos”, do qual resultou a “Casa dos Contos”, tem apoio do PROCULTURA, acção financiada pela União Europeia, co-financiada e gerida pelo Camões I.P., e implementada na Ilha de Moçambique pelo Gabinete de Conservação da Ilha de Moçambique – GACIM.

A Ministra da Cultura e Turismo disse que a expectativa é que a “Casa dos Contos” se afirme como uma verdadeira incubadora para a produção literária infanto-juvenil e criação de empregos para a juventude, inspirando a recuperação e a manutenção das técnicas construtivas tradicionais da arquitectura.

A par das obras de reabilitação e de restauro, Materula destacou a necessidade da contínua formação e capacitação dos recursos humanos; o apetrechamento em equipamentos, a mobilização de recursos financeiros e ainda repisou que o Estado vai continuar empenhado na recuperação da Ilha de Moçambique.

A estilista Taússy Daniel apresentou, domingo, a sua mais recente colecção de moda no New York Fashion Week, nos Estados Unidos. Designada Blooming, a colecção foi inspirada na cidade natal da estilista: Maputo

 

Desde muito nova que Taússy Daniel aprecia a moda. Ainda assim, nem sempre soube como os eventos poderiam se suceder de modo a chegar às grandes passarelas do mundo.

Na verdade, antes de dar altos voos no universo da moda, primeiro, Taússy formou-se em Arquitectura e Urbanismo, em 2013, no Instituto Superior de Ciências e Tecnologias de Moçambique (ISCTEM). Essa foi a condição dada pelos pais: não abandonar a escola por causa da moda. Então, seguida com zelo essa condição, Taússy Daniel terminou o curso e, inclusive, trabalhou um ano na sua área de formação. Mas porque a vida é um acto de coragem, de escolhas e decisões, em 2015 definiu que passaria exclusivamente a dedicar-se à moda.

Quando optou pela arte da alta costura, a estilista teve o apoio da sua família. Remou contra a maré. Estabeleceu-se, sonhou e, agora, está a realizar esses sagrados projectos de infância: “A moda é algo que eu sempre apreciei, desde os meus 9, 10 anos de idade. Então, estar ‘aqui’ é a realização de um sonho”.

Na afirmação de Taússy Daniel, ‘aqui’ significa Nova Iorque, uma das principais cidades norte-americanas. Foi para lá que a estilista levou a sua mais recente colecção, Blooming, isto é, florescente, inspirada na Cidade de Maputo e nas flores locais.

Constituída por 12 peças, a colecção Blooming foi apresentada nos Estados Unidos no passado domingo, numa cerimónia em que a estilista moçambicana sentiu ter deixado bons créditos na passarela. “Estou muito feliz pelo feedback. Depois do show, tive muitos elogios, muitos aplausos. Muitos afro-americanos aproximaram-se satisfeitos, a dizerem que era um orgulho também para eles, por saberem que eu venho de África e estou a levantar o continente dessa forma”.

A satisfação dos americanos pelo trabalho da estilista moçambicana foi tanta que logo depois da sua participação no New York Fashion Week foi convidada a mais dois eventos nos Estados Unidos: DC Fashion Week e Chicago Fashion Week. Entretanto, este ano, Taússy Daniel não vai poder participar, porque a sua agenda está encerrada. No próximo, sim, a sua participação é certa.

Enquanto 2024 tarda chegar, o próximo fashion-show/desfile de Taússy Daniel será entre 5 e 10 de Outubro, no Dubai, Emirados Árabes Unidos.

À parte o futuro, destacar-se com as suas criações na Cidade de Nova Iorque, onde se encontra, foi importante para Taússy Daniel, porque aquela é uma das capitais da moda mundial. “Sinto-me a abrir as portas para os outros estilistas moçambicanos. Quem sabe, assim, o nosso país pode passar a olhar para moda como algo sério”.

Com a moda, em parte, o que Taússy Daniel pretende é passar a mensagem de que acreditar nos sonhos e trabalhar para a sua concretização é sempre imprescindível. Por exemplo, este ano, a estilista foi convidada para apresentar uma colecção em Paris, mas não foi porque optou em preparar-se melhor para o New York Fashion Week. Não obstante a sua entrega ao trabalho, quando se aproximou a empresas de telefonia móvel, a bancos e a instituições de turismo, não teve qualquer resposta positiva. Nenhuma entidade percebeu que a apresentação da sua colecção poderia contribuir para atrair turistas para o país. “Temos de apoiar a cultura porque não é só de futebol que colocamos o nome de Moçambique num patamar mundial. Depois da minha apresentação aqui em Nova Iorque, tive muitas pessoas a perguntar-me onde é Moçambique”.

Segundo disse Taússy Daniel, foi a única moçambicana seleccionada para participar no New York Fashion Week. “É uma honra enorme poder representar todas as mulheres moçambicanas e africanas, todos os jovens empreendedores e poder mostrar a todos os estilistas nacionais que é possível viver da moda”.

Nos Estados Unidos, Taússy Daniel estreou-se em eventos de moda em 2017. Cinco anos depois, quer continuar a percorrer o seu caminho.

O escritor e poeta Adelino Timóteo vai lançar, esta quinta-feira, a partir das 18 horas, o seu mais recente romance. Intitulado A biblioteca por debaixo da cidade, a nova proposta do autor é, fundamentalmente, uma balada de amor aos livros e à leitura.

Segundo uma nota de imprensa sobre o evento, o mais recente romance de Adelino Timóteo é constituído por 30 capítulos que perfazem 379 páginas. O livro foi construído ao longo de sete anos, tempo necessário para a história amadurecer com cortes de várias páginas.

Além de ser uma balada de amor aos livros, A biblioteca debaixo da cidade é um romance sobre a relevância do amor à terra, à cidade natal e ao desconhecido, o que se tece com alguma aproximação erótica entre uma personagem que vive à margem da sociedade, Laurentino Carambola, e uma mulher de boa família, Suzana Castelo Branco. “Através dessa personagem misteriosa, deste vagabundo, vamos nos deleitar de uma história que se passa na Cidade da Beira de 1936 até 1975. O vagabundo serve de estudo para se perceber o que se passou na sociedade colonial: negra e branca”, disse Adelino Timóteo, citado na nota de imprensa.

No seu A biblioteca debaixo da cidade, igualmente, Adelino Timóteo pretende suscitar o que está escondido numa sociedade que considera conservadora e repressiva, sob um totalitarismo colonial. O livro foi escrito entre Moçambique e Portugal. Começou em Lisboa, escrevendo com um certo olhar distante sobre os factos. A partir da capital portuguesa, o escritor começou a olhar a Beira, o seu berço. “Dediquei-me sete anos ao livro e, nos últimos dois anos, finalmente, encontrei todos os pressupostos para a versão actual”, disse Adelino Timóteo, lê-se na mesma nota de imprensa.

De acordo com o escritor, A biblioteca debaixo da cidade foi um livro complexo de escrever. Em Lisboa, por exemplo, teve de frequentar a biblioteca nacional para conhecer uma personagem. Com o livro, primeiro, a pretensão é recriar os lugares emblemáticos da cidade da Beira. Segundo, com isso, suscitar memórias de uma Beira passada. “A fase de ouro da cidade, que atraia pessoas de diferentes origens, inclusive com forte influência inglesa”.

Na Cidade da Beira, o romance A biblioteca debaixo da cidade será apresentado pelo professor universitário e crítico literário Cristóvão Seneta.

A Ethale Publishing vai lançar, às 18 horas de quinta-feira, o livro Maputo Street Art. O livro é produto de um movimento artístico que integra vários artistas de diferentes disciplinas.

Durante a cerimónia de lançamento, estarão autores e artistas entrevistados, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, o Presidente do Município de Maputo, Eneas Comiche, e o Embaixador da Espanha em Moçambique, Alberto Cerezo Sobrinho.

O livro conta com textos de Ricardo Suárez, Titos Pelembe, António Ivan Muhambe, fotografias de Ildefonso Colaço e Ilustrações de Ariel Sosa Urquía, bem como a revisão de António Cabrita e a tradução de textos de Corinne Capela.

O livro apresenta, de forma escrita e visual, a arte urbana centrada no contexto da cidade de Maputo, documentando as obras e o respectivo percurso dos artistas desta área, permitindo a compreensão da pluralidade de intervenções ao longo da cidade, divididas entre o centro urbanizado e a periferia.

De acordo com uma nota de imprensa, citando Titos Pelembe, o livro “propõe a debruçar-se sobre a arte urbana centrada no contexto da cidade de Maputo e tem como um dos objectivos documentar as obras e o respectivo percurso dos artistas que actuam nesta área. Este mapeamento em curso, que se materializa a partir desta publicação, permite ao leitor compreender a pluralidade de intervenções recentes ao longo da capital do país, composta pelas realidades do “centro urbanizado e a periferia”.

Alberto Cerezo Sobrinho, actual Embaixador da Espanha em Moçambique, no prefácio de “Maputo Street Art”, justificou que o apoio ao projecto por parte da Cooperação Espanhola “quer construir pontes entre artistas moçambicanos e internacionais”. O propósito, continuou, é tornar a arte de rua moçambicana conhecida além-fronteiras, assim como deixar registado, para efeitos da História, o actual momento e os respectivos actores e protagonistas.

“Até ao presente momento, Maputo e os seus muros têm sido um segredo bem guardado. Desde a Cooperação Espanhola, queremos revelar esse segredo ao mundo e oferecer esta humilde guia que permita percorrer esta fascinante cidade através das suas paredes”, lê-se no respectivo prefácio.

A exposição individual de José Cabral será inaugurada no dia 13 deste mês, às 18h30, no Camões – Centro Cultural Português em Maputo. A mostra Americanos resulta de uma parceria entre o Camões – Centro Cultural Português em Maputo e a produtora Art Dispersion (Portugal).

Com organização do Camões em Maputo e curadoria de Rodrigo Bettencourt da Câmara, a exposição Americanos reúne um conjunto alargado de fotografias desta série, a preto & branco, com novas impressões efectuadas a partir dos negativos originais do fotógrafo moçambicano.

José Cabral é fotógrafo profissional deste 1975, foi professor no Centro de Formação Fotográfica de 1986 a 1990 e a sua obra ganhou mais visibilidade nas duas primeiras décadas do séc. XXI.

Os trabalhos de Americanos, que pela primeira são apresentados ao público, têm origem numa viagem que o fotógrafo fez aos Estados Unidos da América, durante três meses, ao abrigo de uma bolsa da Mid-American Arts Alliance, num amplo roteiro que incluiu cidades como New York, Washington, Chicago, New Orleans, San Diego/California, El Paso/Texas e no Novo México Santa Fé, Las Cruces e White Sands.

O projecto expositivo Americanos, o qual reúne mais de 150 fotografias desta série de José Cabral, conta com a participação do poeta Luís Carlos Patraquim, de José Manuel dos Santos, escritor, poeta, curador, agente cultural e director da Revista Electra e Alexandre Pomar, curador e crítico de arte.

A propósito deste projecto, Luís Carlos Patraquim escreveu: “José Cabral exibe neste seu trabalho um agudo olhar e um pundonor subtil e mostra-nos a ‘sua América’ alheia ao famoso dream e onde há um silêncio prodigioso da imagem a ritmar uma música de dentro. Gente e situações banais, tantas que, ao menos para mim, julgo ouvir as notas das Gymnopedies de Satie. E a fera amansada na vulgaridade quotidiana dos dias a preto e branco da América.” Nas palavras de José Manuel dos Santos: “Olhamos esta bela e rigorosa colecção de fotografias e reconhecemos, de imediato, uma voz visual. Ou encontramos um estilo que nos diz a visão que vê o que vê como vê. Ou descobrimos a pulsação de um olhar que bate ao ritmo incerto do coração secretamente selvagem.”

A exposição Americanos – fotografia de José Cabral estará patente em Maputo, entre 14 Fevereiro e 01 de Abril, no Camões – Centro Cultural Português, e poderá ser visitada de segunda a sábado, entre as 10h00 e as 17h00.

José Cabral (1952, Lourenço Marques/Maputo) começou por praticar com o pai, amante de fotografia e de cinema, técnico dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que aos 12 anos lhe ofereceu um pequeno laboratório e uma câmara “caixote”. Torna-se fotógrafo profissional em 1975. Começou como fotógrafo no Instituto Nacional do Cinema e passou depois de alguma prática de foto-repórter (1979-1982) a programas documentais menos determinados pela urgência para o Ministério da Agricultura e a Unicef. De autodidata passou a professor no Centro de Formação Fotográfica, de 1986 a 1990. A sua fotografia – em especial a forma de a expor como trabalho de artista – foi-se tornando discretamente mais autobiográfica e até intimista, sempre sem deixar de ser documental e sem pretender ser formalista e narcísica mesmo nos seus muitos autorretratos de rua. A obra de Cabral ganhou mais visibilidade nas duas primeiras décadas do séc. XXI, em especial através de exposições subtilmente antológicas, equilibrando um lugar sempre algo à margem com o crescente reconhecimento público. Cabral viajou para a América, durante três meses, em 1996, como bolseiro da Mid-American Arts Alliance, num amplo roteiro por New York, Washington, Chicago, New Orleans, San Diego / California, El Paso / Texas e no Novo México Santa Fé, Las Cruces e White Sands. Faz uma viagem de descoberta – uma aventura para quem saía de Maputo ao cabo da guerra civil – viagem que é também reencontro com as linguagens e as visões que de algum modo o formaram, vistos os filmes, lidos muitos livros, sempre um olhar culto.

Por: Edna Matavel

 

Se no coração de mãe cabe o universo, Margarida falhou no conceito, levou o filho ao abismo em obséquio de uma riqueza momentânea.

Margarida nasceu numa aldeia muito afastada da cidade, onde o curandeirismo era a base de suas crenças. Os dias na aldeia eram lúgubres por conta dos rituais que eram feitos. O gado servia para sacrifícios nos seus rituais. Todo o final do mês, a família reunia-se numa árvore grande de massala, que ficava do lado traseiro da palhota milagrosa, para fazer o ritual de invocação aos espíritos. As crianças ficavam ajoelhadas diante da árvore, e davam bebida tradicional aos ancestrais enquanto os mais velhos entoavam uma canção. No mesmo local faziam fogo, assavam algumas galinhas para dar aos antepassados pela boca das crianças. Só não podiam comer os ossos nem usar faca para cortar. Os mesmos ossos serviriam para fazer o tinlholo na palhota. As crianças seguiam na dianteira porque eram consideradas inocentes e as suas almas frescas para os seres espirituais.

Margarida era uma dessas crianças. Ela era xará da esposa do seu avô e tinha muita responsabilidade. Em algumas noites, enquanto todos dormiam, ela tinha de espalhar sal pela casa, falando com os antepassados. Isso fazia parte de suas tradições.

Na última sexta-feira daquele mês, nas primeiras horas, foi até à palhota para envergar as roupas que eram da falecida avó, sua xará, amararam um xifungo na sua cintura e lavaram os seus pés com sangue. De seguida, foi até ao rio para lançar um frasco que continha todos os nomes das pessoas que estavam na aldeia. O banho que ela fez no rio, purificou toda a família.

Quando cresceu, a consequência de tudo o quanto fizeram com ela tornou-se visível da forma mais subjacente. Ela ambicionava casar e constituir família, mas estava amaldiçoada e a sua alma entregue ao defunto do avô.

Numa dessas noites, enquanto dormia, teve um mau sonho, em que estava ela num rio infinito, cheio de serpentes, batuques, com sangue espalhado em todo o chão. Quando despertou, foi até à palhota onde dormiam as curandeiras, toda ela espalhafatosa e contou o que viu enquanto dormia. Elas fizeram um tinlholo para desvendar o misterioso sonho. Tocaram batuque enquanto entoavam seus hinos tradicionais. Margarida começou a manifestar, vomitou sangue pela boca, rastejou até a casa grande onde o avô dormia, bem na entrada. Despiu-se, caminhando até ao quarto onde tinha uma cobra grande que simbolizava o homem e pilar da casa. Esse era o grande mistério para fortalecer aquele lar.

Ela viveu momentos turbulentos, carregando energias negativas. Margarida decidiu fugir para bem longe, foi morar na cidade.

Foi na cidade onde conheceu o marido, pai do seu único filho, mas as suas raízes a perseguiam. Dormia com o marido e, por um lado, sonhava com maridos da noite, não só, ela manifestava e desmaiava sem conseguir se relacionar com o marido, motivo que levou o homem a separar-se dela. Anos depois, ele perdeu a vida num acidente de viação. Meteu-se com a mulher dos nocturnos.

O filho cresceu ignorante e azarado, com uma vida desgraçada. Roubava o dinheiro da mãe para comprar bebidas espirituosas, certa vez chegou a casa embriagado e espancou a senhora acusando-a de feitiçaria. Ela não tinha outra solução a não ser voltar para aldeia pedir ajuda.

Numa manhã nublada, ela viajou até a aldeia levando uma camisa do filho, chorou e explicou o motivo que a fez voltar. A curandeira pegou na camisa do Maiquel, fez um feitiço para que ele deixasse de roubar e beber, deu um óleo amaldiçoado que para os olhos dela era abençoado, o mesmo seria para que o filho fosse obediente e obtivesse sucesso nos seus negócios. Não levou nem três meses para que Maiquel mudasse o estilo de vida, só não conseguia se concentrar numa única mulher.

Maiquel abriu um estaleiro e começou o seu próprio negócio, porém, não conseguia suprir as suas ambições. A sua mãe falou para ele que na aldeia tornavam as pessoas abastadas só com pequenos rituais. Ela ligou para a sua macumbeira. Convinha que levasse o filho para fazer um banho na palhota. Levaram consigo uma garrafa de vinho branco, rapé, uma galinha cafreal e um lenço branco, fizeram todo o ritual e abençoaram Maiquel, todavia, Margarida não disse ao filho que no dia em que ela morrer, levaria com ela todo o seu sucesso. De três em três meses, ele tinha de ir à palhota renovar o pacto e levar a décima parte do valor dos lucros para os espíritos que abriam seus caminhos rumo à evolução.

Seu negócio cresceu, ficou conhecido como o homem da súbita riqueza, pessoas experientes estranhavam tal riqueza, era temido. Maiquel comprou carros luxuosos, gastou com mulheres e nunca se interessou em construir. Em momentos de abundância e ganância, para os menos sábios, investir e construir um tecto é uma preocupação pouco importante.

O tempo passou, a mãe foi diagnosticada com tumor cerebral. Não resistiu e perdeu a vida. Maiquel fez um velório digno de rainha em homenagem à sua mãe.

Ele só ficou a triunfar por dois meses. Seus carros avariaram e teve de vender quase tudo que possuía. O seu estabelecimento foi à falência. Viajou a terra da mãe para levar reforço, mas nem mais os remédios da maldição tinham poder. Todos os que um dia assistiram e aplaudiram as suas obscuras vitórias, também assistiram a sua ruína. Até de curandeira ele mudou, mas, o segredo para o seu sucesso partira com a sua mãe.

Em resultado de todos actos malignos, ficou deprimido, voltou a ingerir bebidas espirituosas, afundou na desgraça, vezes sem conta andava sem roupa na rua, sujo e descalço, virou um delinquente, tão jovem e ambicioso.

Tudo voltou-se contra si. Maiquel enlouqueceu com tamanhos pactos diabólicos em busca de poder. Ele foi sujeito até a pagar os erros da mãe.

 

 

Foi activado um Comité Operativo de Emergência em quatro distritos que se debatem com o surto de cólera, que chegou à província de Tete.

A capital lidera o mapa de incidência, somando já 236 casos, seguida pelo distrito de Angónia com 108, Chiúta com 87 e Mutarara com 64.

O médico-chefe provincial em Tete, Xarifo Gentifo, fez saber que, antes da confirmação do surto, a província já tinha registado perto de cinco mil episódios de doença diarreica, que podem estar afinal associados à cólera.

“A nossa preocupação é maior ainda nos distritos que fazem fronteira com o Malawi, tendo em conta que o Malawi está a enfrentar um surto sem precedentes. Sabemos que a mobilidade da população é grande e temos fronteiras abertas, que dificultam o controlo”, explicou Gentifo.

O distrito de Maotize, que também está situado na linha fronteiriça com o Malawi, não registou qualquer caso até ao momento.

De visita a Tete, o vice-ministro da Saúde, Ilesh Jani, liderou na segunda-feira a equipa do Comité Operativo de Emergência contra a cólera. À DW, admitiu ser um momento em que a situação deve ser levada mais a sério pelo Governo, assim como pelas comunidades.

“A cólera deve ser trabalhada principalmente no aspecto da prevenção”, disse Jani. E “a prevenção é uma resposta multissetorial, com incidência sobre a provisão de água potável, de saneamento adequado e medidas de higiene individual e colectiva”.

A cólera é uma patologia bacteriana infecciosa intestinal, transmitida por contaminação fecal-oral directa ou pela ingestão de água ou alimentos contaminados. No entanto, para muitos populares, a deficiente distribuição das Águas da Região Centro, antiga FIPAG, é um entrave no combate à doença.

“Com água poderíamos fazer limpeza geral, mas está difícil”, queixou-se uma habitante em Tete.

As entidades governamentais estão preocupadas em garantir que o vírus da cólera não se alastre a mais províncias. Até ao momento, a doença já foi detectada em Gaza, Tete, Sofala, Niassa e Zambézia, somando ao todo um cumulativo de mais de três mil casos.

A obra “Xirico: vozes de paz em Moçambique”, de Nelson Moda, conta histórias sobre a guerra dos 16 anos em Moçambique. O livro foi apresentado esta segunda-feira, na Cidade de Maputo.

Depois de ser lançada na Beira, a obra de Nelson Moda chegou à Cidade de Maputo e, mais uma vez, foi apresentada ao público. Xirico, título da obra, é nome de um pássaro dado ao rádio que era usado no período pós-independência no país e através do qual eram veiculadas informações sobre a guerra dos 16 anos.

Foi sobre esta guerra que Nelson Moda decidiu ouvir parte dos seus intervenientes e através das suas histórias relembrar o período de terror vivido por vários moçambicanos.

“Eu procuro revisitar a dor dos moçambicanos que sofreram por causa da guerra civil e, a partir destas dores, ganhar inspiração para a construção de um Moçambique melhor”, disse o autor.

O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, o académico Brazão Mazula e o pároco da Catedral da Cidade de Maputo, Giorgio Ferretti, tomaram a responsabilidade de fazer a sua apresentação.

Joaquim Chissano disse, na sua apresentação, que o que constitui um diferencial na obra é a forma com que o autor conseguiu fazer falar os moçambicanos de todos os estratos sociais.

“Há várias vozes que ecoam neste livro, desde a dos militares, guerrilheiros da Renamo, às de várias mulheres e homens que sentiram a dor inútil de lutar contra eles”.

Para Brazão Mazula, mais do que contar histórias de guerra, a obra representa um sinal de preocupação e busca pela paz. “[Mostra] as dificuldades que a guerra causou, mas também as vantagens após os Acordos Gerais de Paz e lamenta, hoje, a situação de Cabo Delgado, no entanto lança o desafio de resolver tudo na via de diálogo”, afirmou Brazão Mazula.

Por sua vez, o pároco da Catedral da Cidade de Maputo diz que a obra vai permitir que jovens compreendam melhor a história da guerra.

Com cerca de 250 entrevistas, o livro de Nelson Moda é chancelado pela editora Fundza.

Por David Almeida Francisco Houana

 

Montagem Teatral: O Tartufo

Montagem: Escola de Comunicação e Artes – UEM

 

Caros leitores & leitoras,

começamos este texto quase crítico repisando um pensamento já antigo, o da efemeridade  do Teatro. Em Dionísio este processo envolve máscaras, representação e purgação das emoções. Em contrapartida, nas terras subsarianas tomadas por religiosidade fervorosa e Tartufos, a arte dramática digladia com a santa Igreja, afinal o público é o mesmo.

Em contra mão, o teatro e a igreja têm mais semelhança do que diferenças, ambas têm um palco onde pode subir  o santificado padre/pastor e noutro encontramos personas personagens e preformares, ambas manipulam os estados d’spirito e os seus públicos pagam para assistir as apresentações. No teatro pagamos na entrada, já na igreja pagamos para ir ao céu, na religião  podemos pagar com os nossos carros, casas e, por vezes, uma vida inteira doada a uma figura de Deus cujo o seu representante oficial é o tartufo!

No dia 1 de Dezembro, os estudantes da Escola de Comunicação e Artes, II ano Teatro, abriam as portas de uma casa que poderia ser qualquer uma em Moçambique para mostrar a engenharia dos homens de Deus que já avistaram até as sandálias de Abraão.

Dia 1 no calendário cénico, a casa  é uma baderna religiosa, literalmente, talvez porque o teatro potencializa a vida e com isso, uma igreja transcende a que temos no nosso tipo ideal e pode se transformar em verdades difíceis de engolir.

Dia 2,  enfrentamos o disco musical usado na igreja para levar o povo ao clímax e rimos bastante.

Dia 3, o lugar a apresentar o Tartufo tinha uma Avenida enorme cuja iluminação cénica era convencional e naturalista, só com adereços e sem cenografia.

Dia 4, esta patente que o teatro é  um jogo de xadrez, que deve ser dinâmico, contudo, em algum momento das jogadas cénicas as personagens estavam com o saco cheio pela presença de Tartufo na sua casa, deixaram cair cadeiras através da mesa e os filhos de Dionísio ignoram, para os fiscais da estética aquilo era gritante.

Prezados leitores, partindo daqui migramos ao segundo ou terceiro ponto de reflexão.

No teatro as personagens nos roubam tudo, no início emprestamos o corpo, depois a voz, as memórias, essas entidades sempre querem mais, TRASFERÊNCIA, transferimos  sonhos e desejos, mesmo com isso, elas sempre querem mais e roubam tudo e mais alguma coisa, até a uma Gota.

No caso do espectáculo supra citado, o tartufo roubou tudo! Entrou pela fé e alegações de curar o diabo que há neles, o Tartufo  abusou, cometeu  adultério com a dona de casa, apreciou a mulher e a filha do outro, dividiu a família e usurpou a casa, cometeu os sete pecados e desrespeitou os dez mandamentos, típico de personagens que sugam até o talo, nesse processo o Actor que compôs  o Tartufo junto com a Sogra, e a Amada esposa carregaram o espectáculo nas costas e, por isso, merecem todo dízimo do mundo.

Tartufo irá para o céu?

RISOS, o espectáculo era risível e domado de caracteres inferiores, isso dá comicidade a qualquer acto. Porém a palmatória vai ao actor que compôs a personagem gay, ESTERIÓTIPO, aquela máscara era desconfortável para ele e este julgava o papel.

Olhando a Dramaturgia, redescobrimos o Molière e a sua comédia dos costumes e percebemos o quão actual é no país de Ngunhunhane e Moça All Bique.

03.12.2022

 

Ficha Técnica

Dramaturgia

Jean-Baptiste Poquelin O Molière

Adaptação

O Tartufo

Actuantes

Francisco Novunga

Gaspar Napaho

Salomao Nhambule

Argentina Mazuze

Solange Charles

Parcia Arnuario

Encenação

Encenação coletiva, turma do II ano Teatro UEM 2022

Direcção e Supervisão

Maria Atália

 

 

 

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