O País – A verdade como notícia

O baixista e compositor moçambicano Isac Moiane, apresenta, sexta-feira, às 18 horas, no espaço Galeria, na Cidade de Maputo, o concerto “Fly in melody of jazz”. O show é uma continuação da celebração do primeiro álbum de originais do artista, intitulado Isac Project, lançado em Março último na Cidade de Maputo.

O espectáculo servirá para apresentar as canções integradas no disco de estreia, numa noite que contará com a presença especial da cantora Onésia Muholove. Em termos sonoros, a música de Isac Moiane resulta de uma fusão entre o género gospel, jazz contemporâneo e ritmos africanos.

A nota de imprensa sobre o evento avança que o jovem artista acredita no poder da música como um veículo que une as pessoas e promove a coesão numa sociedade. Através da sua música, Isac Moiane procura promover valores nobres como a confraternidade, amor, perdão, louvor e solidariedade entre os povos.

Isac Moiane é baixista e compositor moçambicano, tem 26 anos de idade. Trabalha e vive na Cidade de Maputo e muito cedo revelou uma enorme paixão e amor pela música. A sua iniciação artística aconteceu na Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Pandora, inserido nos grupos de instrumentistas. Aos 12 anos de idade, aprendeu a tocar viola-baixo e teve aulas com diversos professores de referência nacional na música.

Em 2018, começou a gravar o seu primeiro EP, intitulado Bass In Worship, no qual levou ao mercado uma nova abordagem em termos de música jazz (com destaque no baixo), tocando ritmos e composições originais que dialogam entre o jazz contemporâneo, gospel e ritmos africanos.

A Cornelder de Moçambique e a Associação Kulemba lançaram, no passado dia 2 de Junho, na Cidade da Beira, a primeira edição do Prémio Literário Mia Couto. A iniciativa pretende estimular a produção literária de qualidade em Moçambique, distinguindo as melhores obras publicadas anualmente. Para o efeito, foi constituído um colectivo de júri, que, esta segunda-feira, apresentou a lista de 10 finalistas do concurso.

As obras seleccionadas para o género de poesia são, aleatoriamente, Para onde foram os vivos, de Eduardo Quive; Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho; Vestígios do silêncio, de Amosse Mucavele; Cães à estrada e poetas à morgue, de Deusa d’África; e O lugar das ilhas, de Sónia Sultuane.

Quanto às obras seleccionadas para o género romance, são No verso da cicatriz, de Bento Baloi; Museu da Revolução, de João Paulo Borges Coelho; Nas bordas do arco-íris, de Agnaldo Bata; Vidas, paixões e o oculto, de Cláudia Chope; e Encontro em Rosebank, de Lex Mucache.

O anúncio das obras vencedoras será feito durante a Feira do Livro da Beira (FLIB 2023), que decorre entre 20 e 23 deste mês de Setembro. Cada vencedor do Prémio Literário Mia Couto será agraciado com valor pecuniário na ordem de 400 mil meticais.

Nesta primeira edição, o Prémio Literário Mia Couto tem como membros de júri Francisco Noa, Fátima Mendonça, Teresa Manjate, Tânia Macedo e Daniel da Costa.

Sobre os livros finalistas
Para onde foram os vivos, de Eduardo Quive, é o retrato do mundo em decadência, no qual as cidades se encontram em ruínas com o silêncio ensurdecedor das almas que ainda habitam o lugar com a esperança no exercício do amor. Portanto, trata-se de um livro que encara os males do tempo, no olhar sensível do poeta que não se conforma com o estado das coisas.

Pétalas negras ou a sombra do inanimado, de Belmiro Mouzinho, é um livro de poesia que reflecte o encanto que a arte do verso exerce na vida do poeta, pois, para si, tudo o que as pessoas vêem e tocam, tem poesia. Nesta sua estreia em livro, Belmiro Mouzinho assume-se como um poeta rebelde e inconformado. Em parte, isso corresponde à sua maneira de ver as coisas à sua volta.

Vestígios do silêncio, de Amosse Mucavele, apresenta uma poética concebida para desvendar mistérios, celebrar a memória transnacional dos ritos de passagem e ruptura, um desencanto de repensar as origens, as mutações da dor, as variações dos mapas territoriais e sociais de Maputo e Lisboa, partindo de um ponto de vista subjectivo das estórias desses dos lugares.

Cães à estrada e poetas à morgue, de Deusa d’África, é um exercício sobre a linguagem, no qual a função dialética tem o poder de inaugurar, destruir, reconstituir e libertar o sujeito. É uma poesia sobre a esperança e, muitas vezes, sobre o lado ingrato das coisas e dos sentimentos. Portanto, é um livro interventivo e emotivo.

O lugar das ilhas, de Sónia Sultuane, é um diálogo emocional com a Ilha de Moçambique, um processo que se vai multiplicando por outros espaços. As ilhas do livro, com efeito, não são necessariamente geográficas, são também lugares interiores, onde o ser humano tem a possibilidade de revisitar o seu ser físico e espiritual.

No verso da cicatriz, de Bento Baloi, é um romance que desafia não só as crenças e o horizonte de expectativas do leitor, mas a sua sensibilidade e a sua estabilidade emocional. O efeito catártico da narração se impõe de forma inapelável, convocando a dor, o sofrimento, o drama humano, a desilusão e a degeneração dos valores sociais.

Museu da Revolução, de João Paulo Borges Coelho, é uma aventura por 50 anos de História de Moçambique. A narrativa começa no Japão e atravessa mares e oceanos numa aventura que cruza aspectos identitários e emocionais. Trata-se de um romance em que, num Toyota Hiace, as personagens vão-se descobrindo na sua relação com o espaço.

Nas bordas da escrita, de Agnaldo Bata, traz a história de um projecto social desenhado por uma ONG Francesa para prover água num distrito que é assolado por uma seca prolongada na Província de Inhambane. No caso, a iniciativa falha de forma “inexplicável”, pelo que uma personagem estrangeira é enviada a Moçambique para averiguar as causas do fracasso.

Vidas, paixões e o oculto, de Cláudia Chope, é um romance cuja temática é atravessada pelo Realismo das coisas, da possibilidade e das condições da representação da realidade na arte. No livro, estão representados sonhos e anseios daqueles moçambicanos cuja vida buscou sentido no outro lado da fronteira sul-africana.

Encontro em Rosebank, de Lex Mucache, é uma história de um jovem moçambicano que se apaixona por uma escritora sul-africana. Em algum momento do enredo, a personagem envolve-se num triângulo amoroso com uma secretária, o que sustenta o interesse de o autor explorar aspectos culturais dos dois países.

Chegada dos últimos seis jogadores “estrangeiros” completam leque dos 25 convocados por Chiquinho Conde para “operação Benin” deste sábado, a contar para a última jornada do grupo L de qualificação ao Campeonato Africano das Nações, CAN-2023.

Chiquinho Conde já conta, desde esta quarta-feira, com todo esquadrão para o jogo deste sábado, no Estádio Nacional do Zimpeto, diante do Benin, após a chegada e integração dos restantes seis atletas que ainda faltavam juntar-se ao combinado nacional.

Trata-se dos “portugueses” Geny Catamo, Bruno Langa, Ricardo Guimarães e Witi Quembo, do “italiano” Faisal Bangal e do “finlandês” Clésio Baúque, que aterraram em solo pátrio na tarde e noite de terça-feira, e esta quarta-feira já realizaram o treino conjunto com os restantes colegas.

Fica assim completo o leque dos jogadores à disposição de Chiquinho Conde, sem nenhuma outra alteração, depois da chamada de Fazito para o lugar do lesionado Ivan, ainda na semana passada.

Aliás, já com a integração dos seis jogadores em falta, Chiquinho Conde já pode começar a pensar na equipa inicial do jogo do próximo sábado, uma vez que todos estiveram ao seu dispor e com entrega total, mesmo alguns mostrando ainda algum cansaço.

Na sessão desta quarta-feira já era possível ver os prováveis escolhidos para iniciar o embate diante do Benin, com Ernan a ser o homem da baliza, um quarteto defensivo com Mexer Sitoe e Malembane no centro, Mexer Macandza e Bruno Langa nas laterais, Nené e Guima no miolo do terreno, com o jogador da Black Bulls mais recuado e o do Chaves mais a frente, junto com Domingues e Geny Catamo, sendo que a dupla da frente estava, no ensaio, entregue a Ratifo e Jonny Muiomo.

Mas há, ainda, outras opções a serem levadas em conta para esta equipa, nomeadamente as possíveis entradas de Edmilson Dove, Witi Quembo, Clésio Baúque e Faisal Bangal, que tem estado em alta nos respectivos clubes e em boa forma.

Geny Catamo, a joia do Sporting Clube de Portugal, foi dos mais saudados no Complexo Desportivo de Tchumene, tal como Faisal Bangal, que regressa à selecção nacional quase cinco anos depois da última participação, bem como Ricardo Guimarães, também conhecido por Guima, que faz sua estreia na equipa de todos nós.

Recorde-se que Moçambique ocupa, à entrada para a última jornada da fase de grupos de qualificação ao CAN da Costa do Marfim, o segundo lugar, com sete pontos, e a precisar apenas de um empate para chegar à fase final da prova continental, 13 anos depois da sua última participação.

Os Mambas tem mais dois pontos que o Benin, seu adversário deste sábado, que precisa, necessariamente, vencer, se quiser chegar a Costa do Marfim, em Janeiro de 2024, enquanto o Ruanda conta com quatro pontos e quase sem possibilidades de qualificação.

Senegal é líder do Grupo L, com 13 pontos, e já garantiu a qualificação.

Moçambique e Benin já se defrontaram por duas vezes com vantagem para os Mambas, que venceram um jogo em 2022, à tangente, na primeira volta desta fase de qualificação, e um empate a dois golos, na fase final do CAN de Angola, em 2010.

 

“CHITAS” TAMBÉM COMPLETOS PARA DEFRONTAR OS MAMBAS

 A selecção do Benin, que também prepara o embate de sábado, já está completo, a partir desta quarta-feira, depois da chegada do último jogador que era esperado, Matteo Ahlinvi, que actua no Čukarički de Belgrado da Sérvia.

O jogador de 24 anos de idade, nascido na França, foi o último a chegar, na noite da passada terça-feira e juntou-se ao conjunto no treino matinal desta quarta-feira, dia da partida para Maputo, sendo que só esta quinta-feira chega a capital moçambicana.

Assim, todos os 25 jogadores chamados por Gernot Rohr estão disponíveis para o embate deste sábado no Estádio Nacional do Zimpeto, que encerra a fase de grupos de qualificação ao CAN que terá lugar em Janeiro e Fevereiro de 2024 na Costa do Marfim.

Para este embate, todos jogadores estão aptos, a excepção do atacante do Lorient da França, Tosin Aiyégun, que não fará parte da delegação que se desloca a Maputo devido a uma lesão coxa. Por esse mesmo motivo o médico do clube francês não autorizou a viagem de Tosin, que assim desfalca a selecção do Benin.

Para o lugar de Tosin Aiyégun, o seleccionador dos Chitas, Gernot Rohr chamou Ghislain Ahoudo, do Dadjè FC, que já se juntou ao grupo.

Os jogadores dos Chitas estão moralizados e confiantes num bom resultado que afaste os Mambas da fase final do CAN e qualifique o Benin. Rodrigue Kossi partilhou seu otimismo em relação a este jogo, tendo dito que “já sinto que vai correr bem se continuarmos assim”.

Junior Olaitan enfatizou a importância do jogo de sábado, tendo dito que “este é um jogo muito importante para o povo beninense e para nós”, enquanto o treinador Gernot Rohr mostrou-se confiante.

Rohr diz mesmo que “os jogadores estão moralizados, confiantes e bem treinados. Eles estão em apuros fisicamente que inspiram a um bom resultado”.

Moçambique e Benin defrontam-se sábado no Estádio Nacional do Zimpeto, quando forem 15h00, com os Mambas a precisarem de apenas um empate para garantirem a qualificação ao CAN-2023 que terá lugar em Janeiro e Fevereiro do próximo ano, na Costa do Marfim.

A escritora e editora sul-africana Zukiswa Wanner lança, esta terça-feira, às 18h, no Cine-Teatro Sacala, em Maputo, o seu romance de consagração As Madames, uma edição da Ethale Publishing e da editora Kacimbo.

Segundo a Ethale, Zukiswa Wanner é uma das mais importantes escritoras da actualidade na África do Sul, publicada em vários países africanos, chegando em língua portuguesa em Moçambique, numa tradução feita pelo jornalista e tradutor José Sá.

Livro que marcou o início de carreira da escritora Zukiswa Wanner, As Madames (2006) foi indicado em 2007 para o prémio K.Sello Duiker Memorial, da África do Sul, a mais importante distinção literária naquele país, na categoria de autores com menos de 40 anos de idade.

Em Maputo, o livro que já está disponível, terá a apresentação feita pelo filósofo José Castiano e pela escritora Virgília Ferrão, que, aliás, já conhece o trabalho literário da autora. “Pelas linhas da sua escrita tão acessível quanto elegante, Zukiswa Wanner brinda-nos com narrativas que contemplam o nosso quotidiano, a nossa existência humana, com humor, beleza e profundidade incontornáveis. Com certeza uma das vozes mais vibrantes da literatura Africana”, afirma Virgília Ferrão, na nota de imprensa da Ethale.

Sobre a tradução do seu romance para língua portuguesa, Zukiswa, disse ter sido relevante o facto de ser traduzida por uma editora africana. “Muitas obras africanas são traduzidas fora do continente, e isso interfere na originalidade. O português de Moçambique caminha com as expressões e os hábitos culturais locais. Não será o mesmo em Portugal. A minha preocupação tem a ver com a acessibilidade das minhas estórias pelo povo moçambicano. Sentirem o ambiente e os enredos de acordo com os seus hábitos culturais.”

Por sua vez, o editor Jessemusse Cacinda disse que espera “que os moçambicanos, sobretudo as mulheres se inspirem com o livro, o conhecimento e o engajamento da Zukiswa Wanner que, sem dúvidas, é um farol da literatura africana. As Madames é um livro que demonstra o poder das mulheres, a sua capacidade de transformar o mundo, mas denuncia a pretensão que algumas delas têm de explorar as outras. Esperamos que Moçambique seja uma verdadeira capital da literatura africana e aumente a cobiça de vários autores africanos em ver seus livros traduzidos e publicados em Moçambique”.

As Madames conta uma história fora do comum numa África do Sul feita de diferenças extremadas, também uma herança da segregação racial do regime do Apartheid. As Madames, levanta um novo cenário de vida para as mulheres e na relação entre as suas ocupações ou representação social em função das raças.

A crítica considerou o livro como uma verdadeira demonstração de como a literatura pode ser usada como uma ferramenta revolucionária para imaginar uma nova sociedade e propor a revisão de injustiças sociais do passado. “Wanner demonstra que a divisão de cores cruzou uma nova ponte, resultando em novas oportunidades, novas relações e novos olhares para a figura feminina. Isso, portanto, fornece novos insights para entender o lugar da figura feminina na África do Sul do século 21 e na literatura africana em geral”, analisou a professora de literatura africana Colômbia Kaburi Muriungi, da Chuka University, no Quénia.

Esta é a quarta tradução de uma obra importante da literatura africana. A Ethale Publishing já trouxe para os leitores moçambicanos os clássicos do nigeriano Nobel de Literatura, Wole Soyinka, do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e da senegalesa Aminata Sow Fall.

“A Ethale foi pioneira na tradução literária em 2017. Quando começámos, notamos que o intercâmbio entre africanos precisa de uma intermediação da Europa. O que, de certa forma, perpetuava a nova dependência criativa. Usando das tecnologias, rede de transporte e capacidade logística que se desenvolve no continente para tirar dividendos culturais. O continente pode ser culturalmente dinâmico se nós os africanos nos emprenharmos”, considera o co-fundador da editora, Jessemusse Cacinda.

Zukiswa Wanner já se encontra desde o dia 28 de Agosto, em Maputo, a participar em várias actividades. Entre elas, um encontro com artistas na Incubadora de Negócios Criativos, X-HUB e um encontro com estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. Em ambos os encontros, a mensagem forte da escritora foi para a necessidade de uma acção conjunta entre os fazedores de arte para uma indústria criativa sustentável.

“E é preciso que os artistas, independentemente da sua área de actuação, participem nos trabalhos de todos, fazendo despertar a todos os públicos o interesse pelas artes.”

Afirmou Zukiswa, dirigindo-se directamente aos estudantes de licenciatura nos cursos de Teatro e Música especialmente, aconselhou “Mergulhem na arte na sua plenitude, não fiquem numa ilha. Conheça outros fazedores de arte para criar conexões, saber como funcionam as outras artes e acima de tudo criar laços”.

Autora, ensaísta, editora e curadora, Zukiswa Wanner nasceu em Lusaka, na Zâmbia, filha de um sul-africano exilado e de uma zimbabweana. Cresceu no Zimbabwe e formou-se em jornalismo na Hawai’i Pacific University no Havai, EUA.
Em 2018, fundou a editora Paivapo, que assina a antologia de contos infantis africanos Story Story, Story Come (2019) traduzida para isiXhosa, tshivenda, kiswahili e shona, de forma a chegar ao maior número de crianças.

Em 2020, fundou e fez a curadoria do primeiro festival virtual Afrolit Sans Frontieres, no qual entrevistou autores brasileiros e a levou a editar a sexta edição da revista Periferias “Raça, Racismo, Território e Instituições” (2021).

Também em 2020, Wanner foi a primeira mulher africana a receber a Medalha Goethe, pela sua actividade e contribuição ao intercâmbio cultural internacional. No mesmo ano, foi considerada Pessoa Literária do Ano pelo blog literário Brittle Paper, além de ter sido nomeada uma das 100 personalidades africanas mais influentes pela revista pan-africana New African.

 

SINOPSE DE AS MADAMES

Lauren é uma académica branca, liberal e moderna. Siz, nascida em berço de ouro decorado com missangas, tem um coração generoso, assinado por roupas de designers. E Thandi desempenha com excelência os seus papéis de mãe, filha, esposa, dona de casa e directora-executiva no Soweto. Mas chegou a hora de enfrentar a dura realidade: a sua capa de Super-Mulher está a pesar demais – ela precisa de ajuda. Ela precisa de contratar uma empregada.

A chegada de Marita, a nova empregada doméstica de Thandi, uma ex-reclusa branca, desencadeia um efeito dominó na vida das madames. Fazendo estremecer as fundações da sua amizade quando os seus papéis são confrontados pelas suas suposições sobre raça e classe social.

Afinal, os brancos também servem para ser empregados dos negros? Serão realmente as empregadas consideradas membros da família das patroas?

E o que se sabe, realmente, sobre o que acontece entre quatro paredes na casa dos vizinhos? Quantos segredos caberão dentro dessa amizade? E quem são, realmente, os homens que dormem com as madames?

As Madames, originalmente publicado em 2006, é o romance de estreia da autora sul-africana Zukiswa Wanner. Um livro que faz questionar o lugar das dinâmicas familiares, a nossa vulnerabilidade e a necessidade de (nem sempre) manter as aparências.
Este é um livro para se ler e reler em diferentes momentos da vida. Daqueles que desejamos partilhar com amigos ou familiares e com quem mais tarde se senta para debater as personagens e o enredo.

O jornalista e filósofo Jessemusse Cacinda estreia-se na prosa narrativa com o livro Kwashala Blues, a ser lançado esta segunda-feira, às 17h, na Galeria do Porto de Maputo, com a apresentação do Prof. Doutor Lourenço do Rosário e da Profa. Doutora Stélia Muianga.

Conforme avança a nota de imprensa sobre a cerimónia de lançamento, Jessemusse Cacinda já era um cultor da crónica que roçava o território ficcional, agora publica o seu primeiro livro, no qual os géneros se misturam e encontram uma outra via da escrita num realismo mágico com fortes inspirações na oralidade e cultura popular. “Kwashala Blues”, editado pela Ethale Publishing, junta a crónica, o conto e o romance num só livro.

A professora e ensaísta brasileira da Universidade Federal da Paraíba, Vanessa Pinheiro, após ter lido, entendeu que “Kwashala Blues revela camadas interpretativas que o leitor descobre aos poucos, embevecido. O leitmotiv é a morte do pai do protagonista, que desencadeia memórias afectivas narradas em curtos relatos. Estes relatos são sintetizados por Cacinda pela metáfora musical do ritmo popular moçambicano kwashala que, assim como a vida mimetizada na trama, tem oscilações e nuances.”

Já a prefaciadora do livro analisa que Kwashala Blues convida o leitor para uma viagem, desde Maputo até a Nampula, por sinal, onde nasce e cresce o autor da obra. E, a partir daí, indica, “se a capital moçambicana acaba sendo um contraponto vibrante de Nampula, essa cidade assume contornos mais definidos à medida em que viajamos pela vida dos seus habitantes, entre Muahivire e Namicopo. As marcas da ocupação colonial no Índico ainda assombram os dias tranquilos de um professor, dos estudantes e, também, a vida do jovem em luto pela morte do pai. Em Iapala, a história familiar entrecruza-se com a do caminho dos sacos de sal e açúcar em trânsito para o Malawi, tanto ouvido nas histórias dos mais velhos.” O prefácio é assinado por Noemi Alfieri, professora da Universidade Bayreuth da Alemanha.

Jessemusse Cacinda nasceu em Nampula, Moçambique. É fundador da editora Ethale Publishing, vocacionada na promoção da literatura e do pensamento africano.

Foi jornalista na Rádio Moçambique, onde venceu o prémio “Qualidade” nas categorias, “Melhor Crónica” (2012) e “Melhor Reportagem Temática” (2013) e Co-Director do Festival Fim do Caminho (Nampula, Moçambique).

Coordenou as antologias “O Hamburguer que matou Jorge” (Ethale Publishing, 2017) e “Nampula: Antologia de his-es-tórias de uma cidade vibrante” (Ethale Publishing, 2022). Participou na antologia “Contos e crónicas para ler em casa II” (Literatas, 2020). Publicou o livro de entrevistas “Pensar Africa” (Ethale Publishing/Literatas, 2021). Participou como autor de capítulos nos livros “Desafios da Comunicação no sec XXI” (Década de Palavras, 2018), “Moçambique Neoliberal” (Ethale Publishing/Editora Educar, 2019), “Do Quarto ao Quinto Homem” (Ethale Publishing, 2021) e “Caderno de Música Moçambicana” (Kuphaya, 2023), e coordenou o livro “Moçambique: Emergência, Reconstrução e Resiliência” (Ethale Publishing/AMEA, 2022). Tem textos publicados nas revistas Índico e Literatas, e na Doeck Literary Magazine. Trabalha como redactor de radionovelas, documentários, reportagens, relatórios e manuais.
Estudou Filosofia, Jornalismo, Sociologia do Desenvolvimento e Gestão de Projectos.

 

A escritora e editora sul-africana Zukiswa Wanner lança, esta terça-feira, às 18h, no Cine-Teatro Sacala, em Maputo, o seu romance de consagração As Madames, uma edição da Ethale Publishing e da editora Kacimbo.
Segundo a Ethale, Zukiswa Wanner é das mais importantes escritoras da actualidade na África do Sul, publicada em vários países africanos, chegando em língua portuguesa em Moçambique, numa tradução feita pelo jornalista e tradutor José Sá.
Livro que marcou o início de carreira da escritora Zukiswa Wanner, As Madames (2006) foi indicado em 2007 para o prémio K.Sello Duiker Memorial, da África do Sul, a mais importante distinção literária na África do Sul, na categoria de autores com menos de 40 anos de idade.
Em Maputo, o livro que já está disponível, terá a apresentação feita pelo filósofo José Castiano e pela escritora Virgília Ferrão, que aliás, já conhece o trabalho literário da autora. “Pelas linhas da sua escrita tão acessível quanto elegante, Zukiswa Wanner brinda-nos com narrativas que contemplam o nosso quotidiano, a nossa existência humana, com humor, beleza e profundidade incontornáveis. Com certeza uma das vozes mais vibrantes da literatura Africana”, afirma Virgília Ferrão, na nota de imprensa da Ethale.
Sobre a tradução do seu romance para língua portuguesa, Zukiswa, disse ter sido relevante o facto de ser traduzida por uma editora africana. “Muitas obras africanas são traduzidas fora do continente. E isso interfere na originalidade. O português de Moçambique caminha com
as expressões e os hábitos culturais locais. Não será o mesmo em Portugal. A minha preocupação tem que ver com a acessibilidade das minhas estórias pelo povo moçambicano. Sentirem o ambiente e os enredos de acordo com os seus hábitos culturais.”
Por sua vez, o editor Jessemusse Cacinda: “Esperamos que os moçambicanos, sobretudo as mulheres se inspirem com o livro, o conhecimento e o engajamento da Zukiswa Wanner que sem dúvidas, é um farol da literatura africana. As Madames é um livro que demonstra o poder das mulheres, a sua capacidade de transformar o mundo, mas denuncia a pretensão que algumas mulheres têm de explorar outras. Esperamos que Moçambique seja uma verdadeira capital da literatura africana e aumente a cobiça de vários autores africanos em ver seus livros traduzidos e publicados em Moçambique”.
As Madames conta uma história fora do comum numa África do Sul feita de diferenças extremadas, também uma herança da segregação racial do regime do Apartheid. As Madames, levanta um novo cenário de vida para as mulheres e na relação entre as suas ocupações ou representação social em função das raças.
A crítica considerou o livro como uma verdadeira demostração em como a literatura pode ser usada como uma ferramenta revolucionária para imaginar uma nova sociedade e propor a revisão de injustiças sociais do passado. “Wanner demonstra que a divisão de cores cruzou
uma nova ponte, resultando em novas oportunidades, novas relações e novos olhares para a figura feminina. Isso, portanto, fornece novos insights para entender o lugar da figura feminina na África do Sul do século 21 e na literatura africana em geral”, analisou a professora de literatura africana Colômbia Kaburi Muriungi, da Chuka University, no Quénia.
Esta é a quarta tradução de uma obra importante da literatura africana. A Ethale Publishing já trouxe para os leitores moçambicanos os clássicos do nigeriano Nobel de Literatura, Wole Soyinka, do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e da senegalesa minata Sow Fall.
“A Ethale foi pioneira na tradução literária em 2017. Quando começamos notamos que o intercâmbio entre africanos precisa de uma intermediação da Europa. O que de certa forma perpetuava a nova dependência criativa. Usando das tecnologias, rede de transporte e
capacidade logística que se desenvolve no continente para tirar dividendos culturais. O continente pode ser culturalmente dinâmico se nós os africanos nos emprenharmos”, considera o co-fundador da editora, Jessemusse Cacinda.
Zukiswa Wanner já se encontra desde dia 28 de Agosto em Maputo a participar de várias actividades. Entre elas, um encontro com artistas na Incubadora de Negócios Criativos, X-HUB e um encontro com estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade
Eduardo Mondlane. Em ambos encontros, a mensagem forte da escritora foi para a necessidade de uma acção conjunta entre os fazedores de arte para uma indústria criativa sustentável.
“Precisamos de ser criativos para encontrar formas de nos traduzir e nos lermos uns aos outros. E é preciso que os artistas independentemente da sua área de actuação participem nos trabalhos de todos, fazendo despertar a todos os públicos o interesse pelas artes.”
Afirmou Zukiswa, que dirigindo-se directamente aos estudantes de licenciatura nos cursos de Teatro e Música especialmente aconselhou “Mergulhem na arte na sua plenitude, não fiquem numa ilha. Conheça outros fazedores de arte para criar conexões, saber como
funcionam as outras artes e acima de tudo criar laços”.
Autora, ensaísta, editora e curadora, Zukiswa Wanner nasceu em Lusaka, na Zâmbia, filha de um sul-africano exilado e de uma zimbabweana. Cresceu no Zimbabwe e formou-se em jornalismo na Hawai’i Pacific University no Havai, EUA.
Em 2018, fundou a editora Paivapo, que assina a antologia de contos infantis africanos Story Story, Story Come (2019) traduzida para isiXhosa, tshivenda, kiswahili e shona, de forma a chegar ao maior número de crianças.
Em 2020, fundou e fez a curadoria do primeiro festival virtual Afrolit Sans Frontieres, no qual entrevistou autores brasileiros e a levou a editar a sexta edição da revista Periferias “Raça, Racismo, Território e Instituições” (2021). Também em 2020, Wanner foi a primeira mulher africana a receber a Medalha Goethe, pela sua actividade e contribuição ao intercâmbio cultural internacional. No mesmo ano, foi considerada Pessoa Literária do Ano pelo blog literário Brittle Paper, além de ter sido nomeada uma das 100 personalidades africanas mais influentes pela revista pan-africana New African.

Sinopse de As Madames
Lauren, é uma académica branca, liberal e moderna. Siz, nascida em berço de ouro decorado com missangas, tem um coração generoso, assinado por roupas de designers. E Thandi, desempenha com excelência os seus papéis de mãe, filha, esposa, dona de casa e Directora
Executiva no Soweto. Mas chegou a hora de enfrentar a dura realidade: a sua capa de Super-Mulher está a pesar demais – ela precisa de ajuda. Ela precisa de contratar uma empregada.
A chegada de Marita, a nova empregada doméstica de Thandi, uma ex-reclusa branca, desencadeia um efeito dominó na vida das madames. Fazendo estremecer as fundações da sua amizade quando os seus papéis são confrontados pelas suas suposições sobre raça e classe social.
Afinal, os brancos também servem para ser empregados dos negros? Serão realmente as empregadas consideradas membros da família das patroas? E o que se sabe, realmente, sobre o que acontece entre quatro paredes na casa dos vizinhos? Quantos segredos caberão dentro dessa amizade? E quem são, realmente, os homens que dormem com as madames? As Madames, originalmente publicado em 2006, é o romance de estreia da autora sul-africana Zukiswa Wanner. Um livro que faz questionar o lugar das dinâmicas familiares, a nossa vulnerabilidade e a necessidade de (nem sempre) manter as aparências.
Este é um livro para se ler e reler em diferentes momentos da vida. Daqueles que desejamos partilhar com amigos ou familiares e com quem mais tarde se senta para debater as personagens e o enredo.

74 pessoas na sala. Glória Hotel. Cidade de Maputo. Entre os convidados, 62 almas acompanham, sentadas, a cerimónia organizada pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) em parceria com a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB). As outras 12 esmeram-se nas filmagens, a reposicionar os microfones ou a afinar o som, sempre em constantes movimentos à busca da perfeição.

Em algum lugar da sala, autores, editores e jornalistas sussurram palavras quase ininteligíveis: Quem será? Escutamos ao mesmo tempo que reparamos nos eventuais candidatos ao Prémio José Craveirinha. A resposta vem de um repórter que, depois de um raio x a cada autor presente, conclui que adivinhar não é assim tão difícil, quando a palavra mérito faz todo sentido…

Marcelo Panguana. Sentando mais ou menos na quinta fila, do lado esquerdo da sala, do lado esquerdo também tem a sua esposa Helena Cumbe.

Enquanto o evento acontece, com a competente mestre-de-cerimónia que é Julieta Mussanhane, os convidados vão-se cumprimentando como podem. Geralmente à distância, entre olhares e sorrisos. Detrás da sala, vimos tudo e ainda mergulhamos na expectativa das pessoas. De vez em quando, os celulares saem do bolso ou da bolsa para a carga ser avaliada, afinal, no derradeiro instante, ninguém quer ficar para trás.

Enquanto a cerimónia avança, com os habituais discursos protocolares, que, nesses casos, parecem truques para prolongar a ansiedade, de vez em quando as pessoas vão mudando de lugar como quem pretende o melhor ângulo para a fotografia. Claro, nas primeiras filas é que não há nada disso, pois a família Craveirinha (bem representada pelo filho do poeta), o representante da HCB e a presidente do júri cumprem o protocolo de estarem serenos e quietos.

Avaliamos então o suspeito da noite. No mesmo lugar, com a perna direita cruzada sobre a esquerda, está ali um maronga gingão fino, bem a lembrar-nos o Cabaço. Aparentemente, Marcelo fingi que não sabe o que vai acontecer dentro de instantes. Sereno e com ar de boa gente como marca, vai acompanhando a cerimónia feito um sujeito da reconciliação, conforme diria Castiano. Às vezes, apreciando a esposa num de gesto de amor manifesto em silêncio. Helena Cumbe não é ingénua. Aquela mulher, com quem se conversa facilmente, compreende o que o esposo pretende transmitir e ela retribui com a mesma intensidade no olhar. Até aí, entretanto, ambos evitam contactos físicos e, talvez, assim conseguem ficar invisíveis à maioria (mas não ao jornalista que escreve esta crónica).

Palavreados à parte. Perto das 18 horas deste 31 de Agosto, o dia em que a AEMO celebrou 41 anos de existência, finalmente, Julieta Mussanhane convida a presidente do júri do Prémio José Craveirinha para anunciar o autor laureado nesta edição. Os operadores de câmara precipitam-se a encontrar o melhor lugar para filmar e as conversas, de repetente, cessam em toda a sala. É obviamente o momento mais aguardado…

Sara Jona Laisse, uma 7 de Abril gira e que transborda elegância, levanta-se e dá uns 10 passos até ao pódio. No entanto, mal começa a falar, tem de esquecer a acta por alguns minutinhos, pois o Governo de Moçambique não quer perder o momento. A ensaísta anuncia a entrada de Sua Excelência Eldevina Materula, que, naquele passo acelerado típico dos governantes, entra pela sala sorridente e ainda pisca-nos um olho a cumprimentar com simpatia. – Remédios, como estás? Os ajudantes de campo não cedem muitos espaços e só conseguimos retribuir com o mesmo afecto estampado no rosto. – Estamos bem! Isso já não foi possível dizer.

A Ministra chega à zona nobre da sala, onde também se encontra o Secretário-Geral da AEMO, Carlos Paradona. Senta-se e, com todo o protocolo observado, os convidados também imitam o gesto. Por isso, Sara Jona Laisse começa a ler a acta do júri, em alguns momentos, meio em jeito de defesa, quiçá porque a coisa dos prémios em Moçambique é complexa:

A atribuição de um prémio literário acarreta sempre um elevado grau de subjectividade e a esperança de recolha de unanimidade é uma utopia.

Disse Sara Jona Laisse, acrescentando que, entretanto, o júri teve o privilégio de sair do primeiro encontro de trabalho com uma espécie de consenso em relação ao autor a ser laureado. Assim, no dia 24 de Agosto, o júri decidiu atribuir, por unanimidade, o Prémio Carreira José Craveirinha de Literatura a… (Sara Jona Laisse ainda provoca uma pausa de suspense): Marcelo Panguana.

Aí os celulares saem da cartola. Num gesto de mágica, poetas, escritores, editores, leitores, incluindo os velhotes que até antes de ontem não sabiam atender uma chamada num smartphone, poem-se a filmar, atrapalhados porque também batem palmas. Portanto, as filmagens e as fotografias não devem ter sido grande coisa. Claro, Sara Jona Laisse interrompe a leitura da acta por uns três minutos. A sala está muito alegre. O júri tinha feito justamente o que os presentes, aparentemente, queriam.

Calor humano. Marcelo Panguana imita o gesto e também bate palmas com algum fervor. Sentado. Com a perna cruzada de um maronga gingão. Depois, a cereja em cima do bolo. Vira-se para a esposa e beija-a várias vezes. Contagiante. Só falta kulungwanas, mas os escritores parece que são péssimos quanto aos exercícios com a língua. Tudo resume-se às mãos. Então aumenta a intensidade das palmas, deixando Marcelo Panguana constrangido. Tenta disfarçar, todavia não consegue. A presidente do júri, com efeito, salva o autor de Como um louco ao fim da tarde porque volta a ler a acta, apontando para os argumentos da escolha:

– Na escolha do júri e, para além dos critérios regulamentados, indicadores como humanismo, activismo e associativismo, produção jornalística e editorial, apadrinhamento de escritores, participação em causas e projectos sociais e respeito pelo ser humano, foram tidos em conta e com igual peso dos critérios do regulamento.

E o júri (Sara Jona Laisse, Jorge Ferrão, Manuel Tomé, Aíssa Mithá e Frederico Jamisse) ainda acrescenta:

– Marcelo Panguana constitui, para o júri do Prémio Carreira José Craveirinha, edição 2023, um dos maiores e completos e complexos expoentes da literatura moçambicana tendo já publicado nos géneros e formas como poesia, conto, crónica, romance, literatura infantil, entrevista e ensaio.

Dito isso, Marcelo Panguana é chamado ao palco. Levanta-se. Beija novamente a esposa. Caminha vagarosamente. Passa por vários amigos que filmam… Entre eles, Juvenal Bucuane e Ídasse. Chega ao pódio atrapalhado. Já está diante do microfone, mas não sabe o que dizer. Atrapalha-se ainda mais. Agora está a transpirar. Pensa tirar o casaco preto, mas lembra-se que ali se encontra a Ministra da Cultura e Turismo. Então o jornalista é o único que sabe dessa precaução.

Fala. Não diz nada de concreto. Mas a voz é boa de se ouvir. Mesmo quando não diz nada de grandioso, Marcelo é um homem fino, fácil de amar e respeitar. Algumas jovens bonitas apreciam o escritor com um olhar feroz! Se não for pela elegância e inteligência que transparece, o que não fazem 25 mil dólares, minhas senhoras e meus senhores?

Marcelo, entretanto, não pensa no dinheiro. Agradece a Deus pelo dom da vida e pelas bênçãos; agradece à AEMO e à HCB; agradece aos seus confrades e, sobretudo, à sua esposa, “a mais bela entre todas as coisas!”. Ela não é distraída. Marca presença na sala, agora, levantando a mão direita, como quem diz: Se ainda não perceberam, sou eu a esposa dele.

Palmas. Fotos. Filmagens. Neste instante, Marcelo Panguana deve estar a ouvir Stairway to heaven, dos Led Zeppelin. O Olimpo é seu. Improvisa e acerta. Depois, tenta ir sentar-se. Qual sentar qual quê… Os amigos e confrades de sempre abraçam o homem com entusiamos e etc. De ciúmes não estamos a tratar. Poderiam ter dito.

Celebração total.

A Ministra da Cultura e Turismo começa a intervir. Percebe que tem de esperar. É atenta. Um político aparvalhado continuaria a falar ou a ler mesmo sem condições para isso. Eldevina Materula, habituada ao meio artístico, ajuda a colorir a festa mantendo os holofotes em Marcelo Panguana.

Ao fim de uns quatro minutos depois de abandonar o pódio, o escritor abraça com paixão a esposa. A Ministra logo remata: Fotógrafos, não percam esse momento. Não perdem. Registam o abraço até que o laureado volta a sentar-se. É então que a Ministra defende a necessidade de se celebrar Marcelo Panguana. Os convidados concordam. Tanto que, no final da cerimónia, já em voz audível, repetem: Fez-se justiça! Parece que as coisas estão a mudar!

 

O poeta Elísio Miambo lança, esta quinta-feira, 17 horas, no Instituto Guimarães Rosa, na Cidade de Maputo, o livro Brumas desfeitas, clausuras desnudadas, de Elísio Miambo.

Segundo se observa no prefácio, no seu novo livro, Elísio Miambo apresenta-se como um alquimista das letras e arrisca-se livremente em versos densos e profundos. De acordo com o prefaciador, Sílvio Ruiz Paradiso, no livro do poeta capta-se um eu-lírico habitado por muitos, cujo criador se divide em dois: um moderno e um clássico. O produto final é um texto que estranhamente desliga o leitor do mundo visível, o que conduz a um mundo de imagens criadas pelo lirismo reflexivo, em que desfia temas subjectivos, ontológicos e introspectivos.

No Instituto Guimarães Rosa, Brumas desfeitas, clausuras desnudadas será apresentado por Aurélio Ginja.

O livro de Elísio Miambo foi seleccionado na segunda chamada literária da Editorial Fundza 2022/23. É um livro sobre a carga emocional, pois o eu-lírico, tal qual o herói trágico, passa de felicidades e infelicidades ao longo dos poemas. Consequentemente, os textos permitem a quem lê viver um conjunto de experiências que se mesclam no tamanho do verso.

Elísio Miambo é escritor, ensaísta e docente inserido na Associação Cultural Xitende, um movimento cultural que dinamiza a literatura na Cidade de Xai-Xai. Tem textos publicados nos jornais O País e Notícias, no blog RectasLetras (no qual cria e administra conteúdos), Revista Mapas do Confinamento e em diversas antologias. Co-organizou duas Antologias poéticas: Vozes do Hinterland (2014) & No cais do amor (2022). Em 2020, publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado Retroalimentações do Ego.

O livro de Miambo foi seleccionado na segunda chamada literária da Editorial Fundza.

Um ensaio sobre “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas”, de Elísio Miambo”
Por Deusa d’Africa

 

Elísio Miambo oferece-nos “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” em poesia, pela Editorial Fundza, um livro que divide-se em três partes: primeiro acto designado catarse, e Segundo acto desigado kiini e por fim, epístolas. O poeta apresenta este drama poético que purifica-nos a cada cena que o autor representa a cada um de nós nesta poesia.

Na escrita de Elísio Miambo, vê-se o escritor e o movimento dos objectos por via do uso das imagens que movem os sentimentos e os objectos. Vide o excerto da página 16, “sento-me rente à escrivaninha”. Assim começa o movimento do poeta diante do objecto que se move por via das palavras, move o escritor e o que lê.

O poeta fala a língua da fé, cita Saramago para iluminar as palavras de largos horizontes neste engenho que é a arte de escrever em que o autor é resiliente no ofício que outros desfloram. O Poeta começa o seu exercício de escrita cantando e dedicando aos seus irmãos de Xitende, vê-se a prior pela dedicatória feita: “aos meus, do Xitende”; pela menção feita ao belísimo poema de Andes Chivangue “Alma Trancada Entre os Dentes”, pelo romance sagaz de Dom Midó das Dores “A Biblia dos pretos”, pela “Equidade no Reino Celestial” de Deusa d’Africa, pelas “ilusões” (romance intitulado Ilusão à Primeira Vista) de Almeida Cumbane e pela “A ilha dos mulatos” de Sérgio Raimundo. Faz alusão ao escritor Milan Kundera “a insustentável leveza do ser”, cujas técnicas se reverberam em múltiplos sentimentos adiante apresentados. Cita o Fernando Pessoa no seu poema “Fingidor”, autor considerado como uma tradição que se segue na Xitende e as dúbias de Anterro de Quental. Nota-se neste primeiro poema um panegírico em que são cantados os seus irmãos e mestres. Ele mostra que não é só, na solidão de sua alma que devaneia em noites na escrivaninha, o poeta é um conjunto de seus. Vide o excerto da pág 17, “ler é deitar-se de costas numa caixa de espelhos..(…)…Ressonância de expurgação de brumas e escancaro clausuras”.

Com esta poesia o autor nos empresta as chaves para escancarar as clausuras e expurgar as brumas, afinal, que se desfaçam todas as brumas tecidas para que a paz floresça nas famílias de todas as nações. Revisto-me de curandeira que lê a sorte lançada pelo poeta, nesta escrita onde um sonho revestido de metáforas e metalinguagens se oculta, mas porque ninguém se oculta dos ósculos e de sua crença revelo: o poeta sonha com a paz para todos, Homens mais humanos e um mundo aberto para todos.

No poema vácuos da página 19, o autor descreve uma rua migrante que tem por dentro, leva-nos às memórias de Noémia de Sousa, a força de sua escrita que fê-la exilar-se em Paris por opor-se ao sistema político que vigorava. Vide o excerto “Fizera Vera Micaia travestir o poema….(…)… o poema traveste o poeta em mim”. Vemos o poeta travestido em vários outros seres e com vários rostos e géneros, o que faz-nos compreender o poder conferido pela poesia ao qual o poeta não se faz de rogado e governa o seu território com afoiteza.

Elisio Miambo, traz-nos o atleta queniano Abel Mutai, que se equivocara confundido a linha de chegada com alguns sinais próximos e que fora salvo pela bondade do espanhol que gritou e levou o Mutai à vitória nos jogos olimpicos de Londres em 2012. A medida que a poesia aqui se tece, o título do livro, ganha mais significação de ser, vide o excerto “nesses rifles por desarmar” ou mesmo brumas por desfazer’’.

No poema “Tratado” da página 20, denota-se como um mero plano pode conduzir uma sociedade ao cume de inverdades na sublimação de um criador sem criatura alguma. Vide, “neste tempo em que a memória infinda a coincidência. Propõe a referência. Ou o intertexto.”

O poeta faz alusão ao marxismo no poema “revelação” da página 21, onde descreve o povo que se reveste nele próprio, colocado sempre em posição dominada diante de um omnipotente que representa o dominador.
De acordo com Paz (2009), o poeta é linguagem em tensão, denota-se este conceito nas imagens deste texto da página 21, “Com Cachimbo em chamas. Um olhar taciturno. Calçoes de Ganga. Rotos. E uma túnica castanha. De linho. Cobrindo o tronco nu. As sandálias com três tiras de couro preto. A barba desfeita e grisalha. Como o pouco cabelo que lhe sobra. Um aroma de incenso à mistura…”

O poema “muedas” da página 22, é um grito de socorro em que o poeta que se vê massacrado na manifestação contra a dominação colonial desta pátria ocorrida em 1960, o massacre de Mueda, um ano que é também de África. Entrelaça a palavra no solo de Mueda, berço da moçambicanidade e também palco actual de incessantes massacres terroristas e não encontra as promessas feitas, o fruto do amor plantado, nele vê-se uma alma rota de um homem que não mais encontra os retalhos com que cobriu uma pátria. Enfurece-se e em prantos exorcisa a terra que quiçá o mundo por ela não se componha. Vide o excerto, “Goteja em mim, quando eu, aos prantos, vou exorcismando o Mueda em que me deixaste. Como se de outros Muedas o mundo não se compusesse.”

Critica as vozes que sopram como os ventos de Agosto em campanhas eleitorais em que se anunciam os planos quinquenais como um tiro dado no escuro mesmo na incerteza. Aqui o poeta revestido de cidadão apela a uma política racional e em conformidade com as necessidades da colectividade que acima de tudo que seja exequível para que esses ventos de Agosto tenham no seu resquício alguns frutos comestíveis. Vejamos na página 23, “como poeira de Agosto. Revigoram-se as vozes (distintas no timbre e siameses na ausência de escala) no íntimo das gotículas da saliva. …votem, votem, votem…dizem. Porque mesmo no escuro. É preciso dar um tiro certeiro….”

O poeta é comprometido com o seu povo, os clichés ofertados em discursatas que não enchem a barriga do povo, desassossegam o autor, que em seu vaticínio anuncia um futuro em que o povo tenha água e luz, para viver condignamente. Neste texto reencontro-me com Oates (2008), que diz que a escrita é a tentativa de captar a voz humana e o poeta Elísio diz que sonhar é voar, encontramos aqui, uma imagem de captura da voz com todos os incensos que perfumam o hálito humano: se grotesco ou nauseabundo como a fome ou mesmo adorável como os manjares da música jazz que enleva a alma, vide a página 25, o poema “pouso” que diz: “como se sonhar não fosse a experiência do voo. Para quem não tem asas. Fiz, pela janela, preces de água, pão e luz. Ao raio de uma estrela cadente…. É preciso ser muito poeta para vaticinar (ao povo) o que não cabe na bolsa de valores”
No poema Sillicon Valley da página 28, abalroamo-nos com uma sociedade feita por oligarquias em que enquanto uns sonham, outros abrem a porta dos sonhos, entram e neles moram, um ready made em que a miséria é uma obra de arte seja em estado de sítio ou lockdown. Vide o excerto, ‘‘edificava-se plurais. Com o ranger de uma porta. Que se abria para o horizonte…”
O poeta, mostra-se preocupado pelo facto de abandonarmos ritmos tradicionais como o “pandza” que alegra e contangia para aceitarmos de tudo e sobretudo aquilo que não é nosso. Homenageia Jimy Dludlu e Elsa Mangue como músicos conducentes à tradição cultural, porque ’’o regresso às raízes se faz peremptório. Sempre que a leveza consciente da maturidade, pesa mais que o peso inconciente da infância’’ página 31.

No poema das páginas 42-43, “além da carne” descreve o que à outrora fora belo como um pensamento-imagem vácuo, sem adornos e questiona a justiça feita diante das desigualdades sociais, questiona a força com que à outrora se fez a busca da liberdade, a mesma força que hoje sucumbe no soalho, porque somos todos mortais, ele cita a sapiência como além do tempo e da carne, mesmo que seja para ser aplicada num ambiente em que o poder oprime ao conhecimento e aplaude a quem se prostra e mendiga a quem expulsa de seu reino ou território. Vide o excerto “resguardo-me neste pensamento-imagem de ti: sem peito, sem quadril, sem bunda….com os teus prantos mortos…libertadora e caçadora de equidades. Arrasas-te ante o brio da carne. Que agora se deita no soalho. Sobrando-te só o intelecto que soçobra sem boia que lhe sustente. Ei-la, portanto, a bruma que te enclausura no pranto das equidades… com que tecidos se tece o baile da equidade, que vive na pedincha por aplausos do opressor”.

Neste poema encontramos nesta poesia que a auto-intitula em fala híbrida ou prosódico, este jogo estético de ser um e tanto outros sem se importar com a forma. Encontramos commumente o povo, numa intensa busca pela equidade nas lutas travadas. Pode se notar que esta poesia é o arquétipo de uma arte interventora, em que o uso da lingua e da metalinguam para a definição dos objectos, o gusto pela música jazz ou blues, pandza ou marrabenta e a força da escrita, faz com que tudo viva para além da matéria que sobrevive para além do tempo quando a força de querer transpõe as barreiras do tempo.

Após a sua estreia em “retrolimentações do ego” em 2020, Elísio Miambo, regressa trazendo um abraço ou aperto de mão como acerto de contas, pois aquiesce-nos pagar as dívidas ocultas desocultando-as ao expurgar as brumas e escancarar as clausuras. Aqui desfazemos as brumas e enclausurmarmo-nos desnudados de todo o poder para que na terra onde encontramos o nosso umbigo, a nossa mãe, vivamos sem nos preocuparmos em lutar pelas facilidades que nos abrem as portas de outros horizontes, apenas sejamos nós mesmos, mais humanos, mais independentes e vivamos a nossa solicitude e uma paz duradoira.

Referências Bibliográficas:
OATES, Joyce Carol. ‘‘A Fé de um Escritor: Vida, Técnica, Arte’’. Lisboa: Casa das Letras, 2008.
PAZ, Octavio. “Signos em Rotação”. São Paulo: Perspectiva, 2009.

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