O País – A verdade como notícia

Vindo de um Estado alemão, Colônia, essencialmente protestante e, por isso, iconoclasta, as cores do Egipto despertaram em Navid Kermani um interesse pela forma como através da cor e imagens constroem ou reabilitam narrativas religiosas.

A consequência desse evento é o livro “Maravilhas para além da crença”, que o autor descendente de iranianos redigiu após profunda investigação artística repleta de pedaços espiritualmente edificantes.

Esta obra que críticos ocidentais indicam ser particular pelo olhar externo ao catolicismo de Kermani – ele é muçulmano -, será o mote da Conversa com o título da publicação na Fundação Fernando Leite Couto ás 18.00 horas deste 05 de Abril, organizado pelo Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA).

Sob moderação do filósofo que estudou teologia, Dionísio Bahule, e a presença do filósofo e docente universitário José Castiano, o evento que junta ainda artistas e intelectuais das ciências sociais moçambicanas será uma oportunidade para perceber como o alemão abordou grandes obras de arte cristã e meditou sobre os fundamentos do Cristianismo.

Considerando a interseção da arte, poesia, arquitectura e da liturgia da Missa Solene, a media alemã descreve “Maravilhas para além da crença” como uma espécie de “um adorável encontro de fés”.

Kermani pinta imagens evocativas de suas próprias crenças através de reflexões filosóficas e espirituais. Sendo que neste exercício ainda há espaço para eventos contemporâneos como, por exemplo, o capítulo sobre o Padre Paolo Dall’Oglio, um líder cristão na Síria que dedicou a sua vida a tentar unir cristãos e muçulmanos. Acabou sequestrado pelo Estado Islãmico em 2013.

A opção por este livro, por parte do CCMA, se deve à temática que nos parece urgente no país neste momento em que se apontam fundamentos religiosos para o terrorrismo em Cabo Delgado.

Navid Kermani é um escritor e orientalista alemão. É autor de vários romances, livros e ensaios sobre o Islã, o Oriente Médio e o diálogo cristão-muçulmano. Ganhou vários prémios por seu trabalho literário e académico, incluindo o Prémio da Paz da Associação Alemã de Editores em 18 de Junho de 2015.

 

 

 

 

Na próxima terça-feira, às 17h00, por ocasião do Dia da Mulher Moçambicana, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo acolhe o Sarau Cultural Palavras são Palavras, dinamizado e apresentado pela poetisa Énia Lipanga.

Segundo Palavra & Palavras Eventos, responsáveis pela organização desta iniciativa: “Comemoramos o dia 7 de Abril, dia dedicado à Mulher Moçambicana, pelo seu papel preponderante na preservação e transmissão de valores cívicos e morais, assim como no fortalecimento da coesão e unidade das famílias, enquanto núcleo fundamental da sociedade. Nesta ocasião as mulheres celebram as conquistas e lutas pelos direitos humanos e pela igualdade de direitos. Mulheres artistas estão presentes na história das resistências feministas e populares ao redor do país, e do mundo. Através das suas vozes, palavras e criatividade irreverente, essas mulheres tratam das histórias e da realidade de luta dos povos e das outras mulheres ao seu redor. As mulheres são uma das maiores forças criativas por trás da indústria cultural. Mas, assim como em outros segmentos da sociedade, muitas mulheres não recebem o crédito merecido, seja a título de reconhecimento ou formalmente”.

Sob o tema “Desabafo de Mulher”,  o evento tem como objectivo promover um momento de partilha e manifestação artística. O sarau pode acolher poesia falada, leitura de livros, música acústica, cinema, fotografia, dança e também outras formas de arte como pintura, artesanato e teatro, sempre de uma perspectiva de tributo à mulher moçambicana. Nesta perspectiva, trata-se de uma iniciativa que visa resgatar a cultura de contar e ouvir histórias, recitar e escrever poesia, despertar o gosto pela leitura, pela música e teatro, desenvolvendo assim o interesse pelos(as) criadores(as) e, principalmente, motivar as pessoas a conhecer a diversidade cultural presente em Moçambique.

A partir das 16h00 do dia 9 de Abril, estarão abertas inscrições para a participação neste evento.  Na área da poesia, as duas melhores prestações garantirão vaga na 2ª eliminatória da 6ª edição do Moz Slam – Batalha de Poesia Falada.

 

 

 

O Comité Central da Frelimo vai reunir-se na sexta-feira e sábado na cidade da Matola, província de Maputo, mas a agenda do encontro ainda não foi divulgada.

O secretário-geral da ACLLIN, Fernando Faustino, disse recentemente que o próximo encontro do Comité Central não inclui o debate sobre a sucessão de Filipe Nyusi.

“Que eu saiba, no dia 05 e 06, o Comité Central vai-se reunir e tem já a sua agenda para essa reunião e, por aquilo que eu sei, não consta a questão da sucessão ou candidatos presidenciais”, afirmou.

Faustino desvalorizou comentários segundo os quais o processo de escolha de um candidato do partido às presidenciais de outubro está a arrastar-se, frisando que “a Frelimo se organiza a tempo”.
“Eu penso que isso é relativo, demora em relação a quê”, questionou o secretário-geral da ACLLIN, admitindo, no entanto, que “não é um processo fácil”.

Fernando Faustino defendeu que o partido tem de selecionar um candidato à altura dos anseios da população moçambicana e com provas dadas de competência.

Moçambique vai realizar em 09 de outubro próximo as sétimas eleições presidenciais e legislativas, as segundas para os governadores provinciais e as quartas para as assembleias provinciais.

O Camões – Centro Cultural Português em Maputo e os dois Centros de Língua Portuguesa situados na Universidade Pedagógica de Maputo e na Universidade Eduardo Mondlane promovem um ciclo de conversas que contam com a participação de Ungulani Ba Ka Khosa, Joaquim Furtado, João Paulo Borges Coelho e Luís Loforte, por ocasião da celebração dos 50 anos do dia 25 de Abril de 1974.

A data representa um ponto de inflexão na História de Portugal e dos países africanos de língua oficial portuguesa, um momento em que, há 50 anos, a resistência à opressão se encontrou com a liberdade individual e colectiva.

Ao longo do mês de Abril, será dinamizado um Ciclo de Conversas e outras actividades subordinadas ao tema “Memórias do 25 de Abril de 1974”, tendo como pano de fundo a exposição “50 Passos para a Liberdade – Portugal, da Ditadura ao 25 de Abril”, a qual ficará patente na galeria do CCP Maputo até dia 1 de Junho. Os convidados do Ciclo de Conversas são personalidades do mundo da literatura, do jornalismo e da História que viveram o 25 de Abril e que, sob diferentes perspectivas, partilharão as suas vivências e reflexões.

A iniciativa pretende também recordar a vida e a obra de Leite de Vasconcelos, jornalista e escritor moçambicano que, às 00h20 do dia 25 de Abril de 1974, transmitiu, no programa Limite da Rádio Renascença, em Portugal, a canção Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso, a senha esperada pelos militares para dar início às operações que poriam fim ao regime ditatorial em Portugal.  O jornalista português Joaquim Furtado, um dos convidados deste Ciclo, leu o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas, na Rádio Clube Português, também na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.

Durante esta iniciativa que decorrerá nos dias 4, 11, 18 e 25 deste mês, será também exibido o filme “Capitães de Abril”, de Maria de Medeiros, como documento audiovisual dos acontecimentos que ocorreram naquele dia 25 de Abril de 1974.

A sessão com Ungulani Ba Ka Khosa e Joaquim Furtado, com moderação de Eduardo Quive, será esta quinta-feira, às 18h, na Galeria do Camões.

A sessão com João Paulo Borges Coelho e Luís Loforte, com moderação de Eduardo Quive, será a 11 de Abril, 18h00, igualmente, na Galeria do Camões – CCP Maputo.

Por: Edna Matavel

 

Venho da cidade dos santos, onde tudo é proibido para os mais novos. Criticar aos mais velhos é sinónimo de desrespeito.

Mandoza nasceu e cresceu na Igreja Santo dos Santos, que leva o nome daquela comunidade. Fez os estudos dominicais e teve, sempre, destaque. Jovem aplicado e obediente. Essas são as qualidades que o permitiram alcançar a tão esperada bolsa de estudos para o estrangeiro, onde passou a estudar Teologia. Sempre foi culto e exemplar para os habitantes da sua povoação.

Na cidade do estrangeiro em que passou a viver, frequentou a igreja que seria responsável pelo seu processo de aprendizagem. Entretanto, as práticas que ali se viam eram abomináveis segundo as suas tradições, e, para manter firme a sua fé e seus princípios, via-se obrigado a recorrer às escrituras sagradas em busca de refúgio. Facto curioso: os usos e costumes da religião a que Mandoza passara a professar, eram bastante distintos do padrão, pois a homossexualidade, o adultério e os demais vícios, eram normalizados naquela congregação. O seu processo de ambientação não foi tão difícil, tanto é que, acabou por conhecer uma jovem de nome Laureta. Ela apresentou-o a jovens com os quais passou a partilhar várias experiências sobre assuntos relevantes daquele tempo. A par disso, Mandoza continuava retrógrado, pois, os hábitos do campo resistiam na sua veia.

Com o tempo, ele percebeu que não existe um pecado condenável em relação ao outro. Tudo depende das práticas sociais e a forma como se faz julgamentos ao estilo de vida de cada povo. Pelo que, o que sempre considerou pecado, para outros, era um prazer espiritual.

O seu relacionamento com Laureta foi crescendo e, inevitavelmente, apaixonou-se por ela.

O estilo de vida da jovem era diferente do seu. Ela, de beleza exuberante, levava a vida social assiduamente, o que lhe viria, a posterior, gerar uma estatura degradante. E porque o amor é um sentimento que por vezes nos tolda a razão, Mandoza renunciou tudo e seguiu a podridão de vida da mulher amada. Passou a amá-la. Em detrimento destes acontecimentos, a rotina do pobre homem, sofreu uma metamorfose. As Discotecas e casas de pastos tornaram-se o seu abrigo. Nessas ramboias, Mandoza embriagou-se. Na mesma noite, Laureta traiu-o com um amigo. Foi uma enorme decepção para a vítima do infortúnio. Por causa disso, apelidou aquela cidade como “Cidade dos Amores Ocultos”, pois foi onde descobriu-se e soube que existia uma outra vida além do templo.

Numa manhã de quarta-feira, antes do culto, teve um exame de consciência. Ele percebeu que fugia do foco, que consistia em aprimorar os conhecimentos de modo a que pudesse ajudar no crescimento espiritual dos irmãos que ficaram na cidade Santo dos Santos. Ele pediu perdão diante de Deus, por ter-se deixado levar por um amor ilusório e satánico.

Mandoza pegou na Bíblia para sanar as dúvidas que prevaleciam dentro de si. Pretendia entender se diante de Deus existia distinção entre cultura, porque para os jovens e outros crentes da igreja que frequentava, os vícios faziam parte da modernidade. Para estes, o mais importante era estar presente na missa.

– Será mesmo que há uma escritura sagrada moderna que funciona com base nas virtudes e desejos do mundo? Será mesmo que o desejo de servir a Deus que outrora atraía os homens ainda prevalece? Ou existem, agora, deuses dentro do Deus omnipotente para satisfazer as necessidades individuais.

Estas foram as inquietações de Mandoza até regressar à terra natal, a Cidade Santo dos Santos, onde para ele ainda constituía o verdadeiro tesouro da herança celestial.

Quando chegou à povoação, a primeira coisa a fazer foi visitar a igreja que o viu nascer, para dar vida a aquilo que sempre acreditou e que a cidade dos Amores Ocultos não conseguiu tirar: dar tudo por amor a Cristo.

Para o seu desgosto, as boas práticas com as quais cresceu não mais existiam, o ministério mudou e, nomeava-se membros a cargo de servo mediante as condições financeiras. Passaram a ser os bens da terra a escolher quem servir a Deus. Assim, a mansão celeste passou a ser comprada.

Os cultos deixaram de ser voltados ao pai celeste e passaram a ser uma espécie de exibicionismo, em que os mais sucedidos alcançavam a bênção e os demónios manifestavam-se nos pobres. Mandoza ficou revoltado e a sua fé entrou em crise. Questionava, incansavelmente, para onde perdeu-se a moral da igreja.

Numa dessas madrugadas de vigília, saiu da capela para apanhar ar, e enquanto outros irmãos oravam pedindo protecção, misericórdia e perdão de Deus, os outros, do lado de fora da Capela, faziam amor nos carros aos olhos de Jesus Cristo para de seguida entrar no templo do Senhor e ajoelhar em jeito dissimulado orando “Pai nosso que estás no céu”.

Se é que se zanga com Deus, Mandoza devia estar a carregar a dor de todos. Renunciou a sua fé, julgando que a verdade da religião reside naquilo que nunca foi desvendado. A inveja morava sobre todos os crentes. Os que se revestiam do espírito de Deus para tirar proveito da cegueira espiritual dos fiéis, a igreja virou centro de fofocas. Foi então que Mandoza decidiu abraçar as suas raízes, dizendo que mil vezes servir e andar de acordo com a vontade dos ancestrais a mentir servir a Deus para beneficiar um grupo de homens gananciosos.

A avó de Mandoza era curandeira. No primeiro domingo do mês, ele foi até à palhota para entregar-se à vontade dos espíritos. Foi um momento de júbilo para ela, porque acreditava que o neto havia desperto para a vida e para as raízes. Portanto, ele recebeu a bênção e um ritual de “hoyo hoyo kava kokwana”. Passou a usar seu nome tradicional em jeito de reverência. Os dias passaram a ser diferentes. Apagaram-se todas lembranças da cidade dos Amores Ocultos, duas vezes ao dia ia às campas para servir aguardente aos espíritos.

Num desses dias enquanto dormia, despertou e ouviu vozes ruidosas a chamar por ele em direcção ao cemitério familiar. Quando ali chegou, ficou debruçado na campa do avô e gritou: levem-me às alturas. Foi neste instante que uma serpente apareceu subitamente e o devorou.

No dia seguinte, como era de praxe, a avó foi depositar flores e deparou-se com o corpo do neto no chão, os servos que o acompanhavam manifestaram e os espíritos começaram a disputar. Os espíritos maternos queriam que ele fosse servo de Deus e com práticas modernas para ser motivo de orgulho e representante da família. Entretanto, a família paterna queria-o na palhota ao serviço dos espíritos da família. Os gritos chegaram à aldeia e todos assistiram aquele espectáculo de disputa espiritual.

Minutos depois, chegou-se à conclusão que ele tinha de ser sepultado no mesmo instante sem ser levado à aldeia, porque a sua presença em casa resultaria em outras mortes como recompensa por não ter atendido aos antepassados.

Um mês depois, sua alma começou a perturbar os petizes. O defunto queria ser glorificado a viver numa alma pura. Todas as crianças não resistiram e perderam a vida e a aldeia, desta feita, ficou de luto.

 

O agrupamento TP50 apresenta, quinta-feira, às 18 horas, um espectáculo de revisitação aos clássicos da Bossa Nova. Intitulado, “TP50 Canta Bossa Nova” vai acontecer na Fundação Fernando Leite Couto (FFLC), em Maputo, e representa uma renovação da lealdade do grupo às suas origens em termos de ritmos e sonoridades, a Bossa Nova.

No concerto, TP50 vai evocar 14 clássicos interpretados por uma banda de oito músicos, quatro vozes e uma declamadora. “A nossa visão é essencialmente de uma Arte associada ao Humanismo e a Bossa Nova contêm não apenas uma inexplicável estética como uma poesia que toca e eleva o humanismo, incluindo uma ampla gama de emoções e razões como a resistência a repressão, ao amor, o ciúme, a paixão para citar alguns exemplos”, justifica António Prista, director do TP50, citado na nota de imprensa da FFLC.

“TP50 Canta Bossa Nova” não tem uma dedicatória específica, mas carrega na Alma todos os amigos que tornaram possível o surgimento do colectivo “em todos esses anos de violadas repletas de amizade e humanismo. Em particular os que já não estão como o Hortêncio Langa e o Calane da Silva que trazemos sempre para dentro dos nossos espectáculos”, reforça Prista.

Para TP50 fazer da Bossa Nova uma ferramenta de comunicação é fundamental para os dias de hoje, não só pelo contexto actual de Moçambique, mas do mundo em geral.

“No tempo que vivemos hoje em quase todo o mundo, a poesia da Bossa Nova e a beleza das harmonias e melodias são de novo muito oportunas”, diz o nosso interlocutor.

Naquela manhã, Geremias Mendoso chegou ao estúdio da Stv meio tímido. Mal nos conhecíamos, mas tínhamos a mínima ideia um do outro. A primeira vez que li os seus textos foi na quarta edição do Prémio Literário Fernando Leite Couto, no qual tive o privilégio de ser um dos membros do júri. Apaixonei-me pela sua escrita trágica e hilariante, simples e densa, sensível e acutilante. Também por isso, foi difícil encontrar apenas um vencedor do concurso. Para se desembaraçar da situação, o júri escolheu dois vencedores: Maya Ângela Macuácua e Geremias Mendoso, um jovem simpático, mas sereno, com alma de escritor, mas humilde. Quando chegou ao estúdio, naquele nosso último encontro, mal acreditava que tinha vencido mais um prémio literário. Pelo contrário, caminhava como se pedisse autorização para pisar o chão. Parece que foi ontem, mas, de repente, eis que uma mensagem do seu editor, Celso Muianga, chega a informar-me: “Cumpre-me o doloroso dever de anunciar a morte do escritor Geremias Mendoso, vítima de acidente de viação”. Nunca mais nos encontraremos com Geremias Mendoso, nunca mais falaremos de literatura e destas coisas que escolhemos fazer com ele. A mim cabe lembrá-lo com a seguinte entrevista, feita nos estúdios do programa Artes e Letras, a propósito do livro laureado no Prémio Literário Fernando Leite Couto, em 2022.

 

Como é que se explica que os seus primeiros dois livros tenham logo conquistado prémios literários?
Foi uma surpresa, para mim, não esperava… Eu escrevi esses dois livros da mesma maneira. Ambos têm umas sequências entre o trágico e o hilariante. A ideia de escrever Quando os mochos piam está ligada a outro livro, O gato que chora como pessoa. Em África, esses dois animais, o mocho e o gato, anunciam tragédias. Por exemplo, a morte de um parente ou de alguém que conhecemos. Neste livro, Quando os mochos piam, uso o mocho como narrador dessas histórias.

Escrveu Quando os mochos piam para concorrer ao Prémio Fernando Leite Couto?
Não, não fiz isso. Não costumo escrever para concorrer a um prémio. É o que sempre digo. Os prémios são acidentes de percurso.

Mas no seu caso não parece um acidente de percurso, mas uma regra, já que venceu dois prémios com os seus dois primeiros livros…
Eu escrevi Quando os mochos piam em 2020, depois de ter publicado O gato que chora como pessoa, o que aconteceu em pouco tempo. Depois guardei, como tenho feito. Este livro, praticamente, estava em baixo da almofada.

Porquê?
As possibilidades de publicação, muitas vezes, são difícies e, em Nampula, até onde sei, não há uma editora a funcionar. Então, escrevi esse livro e guardei, mas sempre que pudesse, fazia a revisão ortográfica e gramatical, eliminando as inconsistências e algumas coisas que eu achava pertinente. Só depois é que soube, pela internet, que havia o concurso literário. Aí a primeira coisa que fiz foi revisitar o livro, e vi que reunia os requesitos exigidos pelo concurso. E submeti o livro.

Como é que o livro acontece?
Quando os mochos piam acontece de uma forma triste e alegre ao mesmo tempo. Escrevi este livro na margem da mágoa.

Como se estivesse a rir das nossas próprias desgraças?
Exactamente! Temos a parte da diversão e da tristeza. Mas o que eu pretendo é dar a conhecer aos moçambicanos e ao mundo a nossa tradição e aquilo que as pessoas não sabem sobre Moçambique. Gostaria que este livro viajasse pelo mundo e fosse lido por aqueles que não sabem que Moçambique existe.

Tal como no seu primeiro livro, neste Quando os mochos piam também temos um conto com um gato na origem da personificação…
Dá-me muito prazer fazer isso e acho que é uma forma de dizer que os animais estão muito presentes na minha criação.

E Quando os mochos piam é uma forma de mergulhar na alma humana, de modo a retirar de lá algumas virtudes e algumas imperfeições. Como é trabalhar o espírito humano nesse sentido e o que isso exige de si?
Eu quis fazer com que, nos que lêem, a maldade deixasse de fazer sentido. Essa minha pretensão se evidencia, sobretudo, no conto “O vizinho”, que retrata um homem pobre e que, de repente, enriquece. A certa altura, há uma personagem que diz: “Não se pode combater a riqueza absoluta isolando os pobres”.

Isso faz-me lembrar o texto “Sapatos do outro homem”, sobre desconfianças entre casais e coisas assim. Temos um homem que encontra sapatos masculinos no quarto e conclui que a mulher o traiu. Não se conforma com isso, mas nada pergunta à mulher. Mais tarde, a personagem experimenta grandes reviravoltas por causa da sua desconfiança. O que quis fazer desse conto?
Quis retratar essa mania que temos de não gostarmos de perguntar certas coisas. A dúvida é importante e, como dizia um certo filósofo, a dúvida é o princípio da sabedoria. Então, sempre que tivermos uma dúvida, é importante perguntarmos àqueles que estão perto de nós. É muito importante saber.

Este livro também tem uma componente comunitária. Conseguimos sentir as pessoas, os casais, os vizinhos e etc. Isto exige muita capacidade na activação dos seus sentidos?
Exacto. Eu escrevo histórias e gosto de tratar dos factos dessas histórias com sensibilidade. É isso que me caracteriza. Sobre os vizinhos, acabo por me aperceber de alguns acontecimentos que marcam a minha vida e que os registo em forma de histórias. As histórias já existem, o que importa é o que vem depois disso. Afinal a ficção é feita com base na realidade e a realidade também pode existir com base na ficção.

No dia em que foi anunciado como um dos vencedores do Prémio Fernando Leite Couto, esteve na fundação que organiza o concurso. O que lhe ocorreu minutos antes e depois que o presidente do júri, Francisco Noa, pronunciou o seu nome?
Foi uma surpresa, porque eu não esperava. Às vezes, fazemos as coisas e não esperamos pelo resultado. Quando a organização me ligou para comparacer na cerimónia, na altura, disse-me que eu era um dos finalistas. Então, julguei que iria participar na cerimónia nessa condição de finalista.

E ter sido pago uma passagem de Nampula para Maputo não lhe sugeriu nada?
Nada. Foi mesmo uma surpresa e gostei ainda do facto de sermos dois vencedores. A Maya [Ângela Macuácua] me salvou dessa turbulência e gosto do romance dela. Ela escrve muito bem!

O livro foi mais escrito a chorar ou a sorrir?
Escrevi a sorrir e a chorar ao mesmo tempo. Nada pesou amais. O que faço é, sempre que escrevo um livro, depois encontro um momento para rever. E quando falo de revisão, não é algo apenas linguístico, pois não devemos fazer com o texto aquilo que não é bom. Então, temos que retirar ou incluir alguma coisa.

O que espera de Quando os mochos piam?
Espero que, como todos os livros, que seja lido e viaje para todo o país e as pessoas conheçam a cultura através do livro.

A cultura pode continuar a ser essa ponte que nos leva a algum horizonte?
Pois, porque o autor pode não estar em algum lugar, mas o livro lá chegar.

Neste livro temos Nampula muito presente. Como é que a sua cidade tem contribuído para a sua escrita?
É uma agrande referência porque foi de lá que comcei tudo. Em Nampula há muita coisa que não é conhecida. A Ilha de Moçambique é mais conhecida do que Nampula. A cidade, na verdade, passa a ser conhecida, um bocado, porque as pessoas têm de passar de lá quando vão a Ilha. Nampula me construiu, como pessoa, e deu-me uma visão diferente de Moçambique e de África. Sempre será um lugar de referência e é por isso que a cidade está na minha escrita, mas com uma preocupação universal.

Quer construir-se como contista?
O conto não é o primeiro género literário que explorei, mas a poesia. Eu tenho um livro de poesia que ainda não foi lançado. Comecei a escrever poesia e, depois, migrei para outros géneros, incluindo romance e crónica. Então, não quero fazer apenas uma coisa. É preciso fazer muitas coisas para não fazer nada.

É esse o seu lugar, a literatura na sua pluralidade?
Exactamente! A literatura na sua pluralidade.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?
Sugiro Terra sonâmbula, de Mia Couto, Orgia dos loucos, de Ungulani ba ka Khosa, Novos contos da montanha, de Miguel Torga, O meu pé de laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos.

 

Perfil
Geremias José Mendoso nasceu no dia 22 de Agosto de 1996, na Cidade de Nampula. É enfermeiro licenciado pela Faculdade de Ciências de Saúde da Universidade Lúrio. Tem também uma formação em Primeiros Socorros e em Epidemiologia de parasitas oportunistas. Publicou O gato que chora como pessoa e Quando os mochos piam.

 

 

 

 

O Camões – Centro Cultural Português em Maputo, o Centro de Língua Portuguesa na Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo) e a Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes da UP-Maputo promovem, entre os dias 20 deste mês e 03 de Maio a 21.ª Edição do Prémio Eloquência Camões.

“Dando continuidade ao modelo seguido nas edições anteriores, o Prémio Eloquência Camões 2024 desenvolver-se-á em três momentos. Numa primeira fase, que decorrerá entre os dias 20 de Março e 5 de Abril, serão aceites e seleccionados os melhores textos argumentativos/discursos produzidos por estudantes universitários inscritos em cursos de licenciatura. Numa segunda fase, que decorrerá entre os dias 26 de Abril e 02 de Maio, os autores dos dez melhores textos participarão numa Oficina de Oralidade dinamizada pela atriz Ana Magaia. No dia 03 de Maio, realizar-se-á, no Centro Cultural Português em Maputo, a grande Final do Prémio Eloquência Camões, onde serão apurados os discursos vencedores”, lê-se na nota de imprensa.

Os estudantes universitários que não tenham sido finalistas nas edições anteriores poderão concorrer através da apresentação de discursos que não ultrapassem 400 palavras e subordinados a temas como (i) a igualdade de géneros, (ii) o saneamento do meio e a preservação do ambiente, (iii) as redes sociais, as tecnologias e o seu papel na educação dos jovens e (iv) o contributo dos jovens para o desenvolvimento de Moçambique e para o bem-estar social.

Os vencedores do Prémio Eloquência Camões 2024 receberão, para além da formação em técnica oratória ministrada pela atriz Ana Magaia, prémios monetários e em material didático. Este Prémio conta com o apoio da Plural Editores Moçambique.

Esta quarta-feira, às 18h00, o Camões – Centro Cultural Português em Maputo acolhe a apresentação do Catálogo Digital da Residência Criativa Audiovisual UPCycles 2019-2022, projecto organizado pela Associação Amigos do Museu do Cinema em Moçambique (AAMCM).

De acordo com uma nota de imprensa, a Residência Artística UPCycles é uma iniciativa de incentivo à criação artística, à mobilidade e ao intercâmbio entre artistas emergentes dos PALOP, cuja primeira edição se realizou em 2019. Durante um período de dois meses, num regime de desenvolvimento à distância, seguido de dias intensivos de finalização e montagem, os participantes são orientados para a concepção e criação de obras multimédia que “reciclem” imagens do arquivo audiovisual destes países e proporcionem novas interpretações da História e da Memória, a elas associadas, criando novas narrativas.

Acrescenta a nota de imprensa, o catálogo resume os trabalhos e contextualiza as primeiras três edições da residência criativa, foi desenhado pela DEZAINE Talk. A sua apresentação contará com a presença e participação da curadora residente, Ângela Ferreira, a historiadora Alda Costa, membro permanente do comité de selecção UPCycles, o realizador João Ribeiro, os designers e vários artistas participantes nas edições 2019-2022.
A UPCycles é organizada pela Associação dos Amigos do Museu do Cinema em Moçambique, financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, e conta com o apoio da Fortaleza de Maputo – Direcção da Cultura da Universidade Eduardo Mondlane, Centro Cultural Franco-Moçambicano e Camões – Centro Cultural Português em Maputo.

A AAMCM é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2016, que se dedica à pesquisa e comunicação sobre a(s) História(s) do Cinema em Moçambique.

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